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Com as trapalhadas do Governo Temer, DILMA recupera-se perante a opinião pública

28/05/2016

 

A crise volta ao Planalto

Depois de sitiar o governo de Dilma Rousseff e desmascarar os líderes do PT, a Lava Jato fecha o cerco à cúpula do PMDB e dispara a primeira acusação direta contra o presidente interino Michel Temer

Michel Temer, presidente interino da República, foi acusado pelo delator Sérgio Machado de ter pedido 1,5 milhão de reais para um candidato de seu partido, ciente da origem ilícita do dinheiro
Michel Temer, presidente interino da República, foi acusado pelo delator Sérgio Machado de ter pedido 1,5 milhão de reais para um candidato de seu partido, ciente da origem ilícita do dinheiro(Cristiano Mariz/VEJA)

O país começou a conviver com dois Michel Temer desde a semana passada. O primeiro está promovendo uma agenda positiva na economia, formou uma equipe de excelência comprovada e acaba de apresentar uma proposta de emenda cons­titucional para definir um teto para o crescimento do gasto público. O segundo está agora às voltas com uma acusação dura.

O delator Sérgio Machado, em depoimento aos investigadores da Lava-Jato, disse que o presidente interino lhe pediu 1,5 milhão de reais durante um encontro na Base Aérea de Brasília, em setembro de 2012, para a campanha de Gabriel Chalita, então no PMDB, à prefeitura de São Paulo. O dinheiro foi repassado pela Queiroz Galvão na forma de doação eleitoral, numa tentativa de dar à transação ares de legalidade. Às autoridades, Machado confessou que a verba não tinha origem lícita. Era propina. E Temer, que encomendara a mercadoria, tinha plena consciência disso. A acusação é forte, mas, do ponto de vista jurídico, tende a morrer na praia, já que Temer não pode ser investigado por atos estranhos ao mandato.

O presidente interino estava certo de que teria uma semana positiva. Com pompa e circunstância, apresentaria aos parlamentares, como de fato fez, a proposta do teto. Embalado pela repercussão da iniciativa, faria um pronunciamento em rede de rádio e televisão para exaltar seu governo, sua capacidade de dialogar com o Congresso e sua injeção de ânimo nos agentes econômicos. Um otimismo compartilhado por muitos. Sentindo-se fortalecido, o presidente do Senado, Renan Calheiros, anunciou que analisaria um pedido de impeachment contra o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que defendera as prisões preventivas dele, do ex-presidente José Sarney e do senador Romero Jucá, rechaçadas pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal. O céu parecia clarear para o bom e velho PMDB, finalmente no exercício pleno do poder. Implacável, a Operação Lava-­Jato devolveu os peemedebistas à realidade dos desvios da Petrobras, a estatal que, na definição já nascida imortal de Sérgio Machado, é a “madame mais honesta dos cabarés do Brasil”.

Ex-tucano convertido em peemedebista, Sérgio Machado comandou a Transpetro, subsidiária da Petrobras, entre 2003 e 2014. Em sua delação, fez acusações a Temer, Renan, que o indicou ao cargo, e mais oito expoentes do partido de se beneficiarem do dinheiro desviado dos cofres da Petrobras.

A divulgação do depoimento pegou Temer de surpresa. Primeiro, o presidente interino soltou uma nota para dizer que sempre respeitou os limites legais ao buscar recursos para campanhas eleitorais. Soou protocolar. Como não conseguiu se afastar das cordas, fez uma declaração à imprensa, em que tachou de “levianas”, “mentirosas” e “criminosas” as afirmações do colega de partido. Não disse que vai processá-lo. “Alguém que teria cometido aquele delito irresponsável que o cidadão Machado apontou não teria condições de presidir o país”, afirmou, acrescentando que contestará cada menção a seu nome em defesa de sua honra e “da harmonia do país”. Machado não se intimidou. Em tréplica, reafirmou tudo o que declarara às autoridades. Diante da agenda negativa, Temer cancelou o pronunciamento em rádio e TV que faria na sexta-feira com receio de um panelaço.

A delação de Machado chama atenção pela riqueza de detalhes, como o uso de senhas para impedir que a empreiteira, no papel de corruptor, soubesse a identidade do destinatário final da propina, o corrompido. Ele contou que repassou pelo menos 115 milhões de reais a

23 políticos de oito partidos. O PMDB ficou com 100 milhões de reais, sendo as maiores partes destinadas a Renan (32 milhões), Edison Lobão (24 milhões), Romero Jucá (21 milhões) e José Sarney (18,5 milhões). A maioria dos valores era paga em dinheiro vivo. Na delação, Machado diz que teve atritos com Renan, que chegou a receber mesada de 300 000 reais, porque não conseguia saciar o apetite do padrinho político, que pedia mais do que o afilhado podia entregar. Afirma ainda que Lobão, então ministro de Minas e Energia, exigia uma bolada maior do que a de seus colegas de bancada. A disputa pelo dinheiro sujo era renhida. Foi ela, segundo o delator, que levou Temer a reassumir a presidência do PMDB em 2014, para arbitrar o rateio de 40 milhões de reais repassados ao partido, a pedido do PT, pela JBS. Temer e os deputados estariam se sentindo ludibriados pelos senadores, que na época comandavam a presidência e a tesouraria da legenda. Por muito pouco, a arenga não ultrapassou as fronteiras partidárias.

Criminosos ou não, os depoimentos de Machado provocaram uma nova baixa no governo. Apontado como beneficiário de 1,5 milhão de reais em propina levantada na Transpetro, Henrique Eduardo Alves pediu demissão do Ministério do Turismo. Com a decisão, disse que fazia um gesto de grandeza, para não constranger a Presidência interina de seu amigo. Balela. Henrique Alves já era investigado pela Procuradoria-Geral da República sob a suspeita de embolsar propina paga pela OAS. Também foi citado na delação premiada de Fábio Cleto, ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal, que coletava propinas para o PMDB da Câmara, do qual Henrique Alves era expoente. Para completar, tramita na Justiça um processo de improbidade administrativa contra o ex-ministro no qual são citadas suas contas na Suíça. Os extratos foram entregues por sua ex-mulher. Temer cobrou explicações sobre essas contas no exterior supostamente abastecidas por meio de transações nebulosas. Recebeu, no dia seguinte, um pedido de demissão de Alves, que admitiu estar à espera de chumbo grosso.

Foi o terceiro ministro de Temer a cair em decorrência da Lava-Jato. Romero Jucá (Planejamento) e Fabiano Silveira (Transparência) foram exonerados depois de ser gravados pelo operante Sérgio Machado maquinando para “estancar a sangria” das investigações. O horizonte também é sombrio fora da Esplanada dos Ministérios. Hoje, a principal preocupação de Temer está na Câmara dos Deputados. O presidente afastado da Casa, Eduardo Cunha, peça-chave no afastamento de Dilma Rousseff, sente-se credor do interino e cobra dele ajuda para se safar de um processo por quebra de decoro parlamentar. Na semana passada, o Conselho de Ética, depois de uma infindável sucessão de manobras protelatórias, finalmente aprovou parecer favorável à cassação de Cunha. Isso foi o suficiente para recrudescerem os boatos de que ele, caso perca o mandato, negociará um acordo de delação premiada por meio do qual entregará o mandarinato de Temer de bandeja ao Ministério Público. O Planalto sabe que Cunha levantou recursos para financiar a campanha eleitoral de Geddel Vieira Lima, ministro da Secretaria de Governo, em 2014. Sabe também que ele intermediou o repasse de dinheiro para outras eminências peemedebistas. Numa delação, citaria de cabo a rabo sua clientela. Com isso, está posta a ameaça.

Os assessores de Temer dizem ter a informação de que Cunha será preso nos próximos dias, o que, se confirmado, pode acelerar eventual colaboração com as autoridades. Há um pedido de prisão preventiva contra ele sobre a mesa do ministro Teori Zavascki. As informações prestadas às autoridades por Fábio Cleto, afilhado político de Cunha na Caixa Econômica, também alimentam a expectativa de prisão do deputado. A VEJA, Cunha disse que não fechará delação premiada porque não tem o que delatar. Marcelo Odebrecht dizia a mesma coisa. Mudou de ideia depois de quase um ano preso. Deflagrada em março de 2014, a Lava-Jato teve peso decisivo na perda de apoio popular e no afastamento da presidente Dilma. Agora, ameaça o PMDB e, com a acusação a Temer, instala-se novamente no Palácio do Planalto.

No governo anterior, Lula, Dilma, um senador e dois ministros foram pilhados tentando sabotar as investigações da Lava-Jato.

A ascensão de Temer ao poder não diminuiu o ímpeto da operação. Todas as incursões contra as investigações até hoje foram malsucedidas. Diante do fracasso, políticos passaram a tentar reduzir o poder dos investigadores e constrangê-los. Alvo de oito inquéritos no petrolão, Renan quer aprovar um projeto para proibir presos de aderir à delação premiada. Suspeito de receber favores de empreiteiras e assustado com o garrote da prisão, Lula entrou com uma representação contra o juiz Sergio Moro na Procuradoria-Geral da República. Os criminosos ainda sonham com um golpe de última hora no Supremo Tribunal Federal. E olhe que nem vieram a público as delações dos empreiteiros Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro e do ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto. A faxina ganhou tração e, ao que parece, não para mais.

Fonte: Veja

Sem entregar os pontos, Dilma monta resistência na internet

Presidente afastada agora recebe os políticos e participa de atos nas ruas

 

Quando o Senado sacramentou o afastamento temporário da presidente Dilma Rousseff, há um mês, a primeira reação do PT foi dizer que faria um “gabinete paralelo”. Mas, desde que ela foi afastada da Presidência, o que se viu foi a montagem de uma espécie de “governo virtual”.

Dilma transformou seu perfil no Facebook, repaginado, em sua principal arma de comunicação. Nela, critica o governo do presidente interino, Michel Temer, responde matérias jornalísticas, posta vídeos de ex-ministros defendendo a gestão petista e publica sua agenda.

Para aliados, a atuação de Dilma na internet aumentou ainda mais depois que um parecer da Casa Civil determinou que ela só pode viajar em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) de Brasília a Porto Alegre, onde tem família.

– O Facebook se tornou uma ferramenta importante para ela, devido às circunstâncias. Além do afastamento, a presidenta ainda foi surpreendida com esse constrangimento imposto pelo governo interino, que limitou ainda mais a atuação dela. É uma clara tentativa de cerceá-la – disse o advogado de Dilma, José Eduardo Cardozo.

A rotina de Dilma começa cedo, por volta das 6h da manhã, com um passeio de bicicleta no entorno do Palácio da Alvorada. No café da manhã, lê todos os jornais e depois começa a receber os assessores que trabalham com ela e ex-ministros, que a visitam com frequência. Ela também tem recebido regularmente os parlamentares que a apoiam, algo que não gostava muito de fazer quando ocupava o terceiro andar do Planalto. Já se reuniu até com senadores que ainda não decidiram se votarão a favor ou contra o impeachment.

O ex-assessor especial Giles Azevedo foi levado por ela do Planalto para o Alvorada, assim como Jorge Messias, que era subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil. Além de Cardozo, Ricardo Berzoini (ex-ministro da Secretaria de Governo) e Carlos Gabas (ex-ministro da Secretaria de Aviação Civil) também a visitam diariamente. Jaques Wagner, ex-chefe de gabinete, voltou para a Bahia mas volta a Brasília semanalmente para vê-la. Desde que deixou o Planalto, Dilma recebeu o ex-presidente Lula duas vezes.

Mais interessada nas ferramentas virtuais, Dilma tem comentado com petistas, em tom entusiasmado, sobre novas formas de usar o Facebook. Ela tem apostado no “face to face” – um formato de perguntas e respostas para interação com internautas – com o objetivo de se aproximar de eleitores. Essas conversas ao vivo foram usadas pela petista durante a campanha à reeleição, em 2014.

Aliados da presidente contaram que, diante da reação positiva dos internautas aos vídeos, Dilma resolveu tocar ela própria seu perfil na rede social. Hoje, sua equipe de comunicação se limita a três pessoas: um assessor de imprensa, um fotógrafo e uma profissional especializada em redes sociais. Quando era presidente efetiva, tinha uma equipe de mais de cem pessoas sob o guarda-chuva da Secretaria de Comunicação Social.

– Dilma está falando com todo mundo. Ela se abriu muito mais desde que foi afastada temporariamente. Está animada, mexe pessoalmente no Facebook. Outro dia veio nos contar sobre o face to face, que está adorando fazer – disse um senador petista.

Dilma é conhecida pelo trato difícil com deputados e senadores, mas parlamentares relatam que, no último mês, têm visto uma presidente diferente, mais aberta a conversas e mais leve. Isso tem permitido a ela se aproximar de petistas que sempre mantiveram vínculo maior com o ex-presidente Lula – caso, por exemplo, do senador Lindbergh Farias (PT-RJ). Tarde demais, lamentam.

– Essa vitimização pegou nela, a sociedade está vendo e respondendo a isso. Ela vestiu tanto esse papel que até eu acreditei – brinca um político que mantém contato com Dilma.

Nas redes sociais, Dilma adotou a estratégia de se contrapor a Temer. Ela tem pedido a ex-ministros para desconstruir pontualmente anúncios feitos por Temer. Erros, gafes e tropeços da gestão Temer são ridicularizados em vídeos. O governo Temer é sempre classificado como “provisório e ilegítimo”.

O mesmo acontece nos textos publicados. Nota responsabilizando aliados de Temer pelo vazamento à imprensa de dados sobre os gastos com alimentação no Palácio da Alvorada afirma: “O comportamento sórdido do governo interino e ilegítimo contra a presidenta Dilma Rousseff não conseguirá intimidá-la. Em nenhum país do mundo a autoridade de um chefe de Estado e de governo é atacada de maneira tão vil e mesquinha”.

O primeiro vídeo foi feito por Berzoini no dia em que foi revelada a gravação do então ministro do Planejamento, Romero Jucá, sugerindo que era preciso dar um basta à operação Lava-Jato. O petista disse que Jucá tinha que ser demitido. De lá pra cá, doze ex-ministros ou secretários gravaram vídeos criticando a extinção do Ministério das Mulheres e do Ministério da Cultura (depois recriado por Temer), a política externa, o novo déficit público, a fusão do Ministério da Ciência e Tecnologia ao Ministério das Comunicações, o fim da Controladoria Geral da União, a reforma da Previdência e uma suposta ameaça aos direitos trabalhistas. Nelson Barbosa, ex-ministro da Fazenda, escreveu texto crítico à nova meta fiscal assumida por Temer.

Dilma tem escolhido para as entrevistas órgãos de imprensa estrangeiros que, na visão de seu time de comunicação, assumiram postura mais crítica à ascensão de Temer ao poder.

Dilma compareceu ao lançamento do livro “A resistência ao golpe de 2016”, uma compilação de textos de 105 autores diferentes, na Universidade de Brasília e na Assembleia Legislativa de Porto Alegre; participou da marcha das mulheres contra o machismo, na Praça XV, no Rio; discursou na Esquina Democrática da capital gaúcha; e participou do encontro de blogueiros e ativistas digitais em Belo Horizonte.

Na quinta-feira, ela foi a Campinas para um encontro com cientistas e intelectuais, e visitou obras de um laboratório. Enfrentou protestos, mas também viu manifestações de apoio à sua causa. Quem trabalha com Dilma diz que ela anda muito ocupada e que não esmoreceu.

– Ela não está na pior. Trabalha de 8h da manhã às 10h da noite, não está abandonada. O dia a dia está muito movimentado, ela tem recebido muita gente – diz um auxiliar.

Para Cardozo, Dilma acha que pode reverter sua situação:

– Ela tem a convicção de que não fez nada errado e que não tem cabimento afastá-la por crime de responsabilidade. Ela acredita que é possível reverter a situação porque a verdade está com ela.

Fonte: ORM News

“Trapalhadas” de Temer ameaçam mudar o placar do impeachment em favor de Dilma

Pelo menos dois senadores estariam dispostos a rever seus votos no julgamento da cassação definitiva da petista. Se isso ocorrer, a presidente afastada volta ao cargo

Temer vem sendo cobrado por “agenda ética” após a demissão de dois ministros flagrados em gravações comprometedoras. | Marcelo Camargo/Agência Brasil
Temer vem sendo cobrado por “agenda ética” após a demissão de dois ministros flagrados em gravações comprometedoras. Marcelo Camargo/Agência Brasil

A possibilidade levantada pelos senadores Romário (PSB-RJ) e Acir Gurgacz (PDT-RO) de rever suas posições em relação ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) acendeu o alerta vermelho do presidente interino Michel Temer (PMDB). A informação é do jornal O Globo. Caso confirmada a mudança de votos, a petista não seria mais cassada, já que são necessários 54 senadores para afastá-la e, na primeira votação, 55 foram favoráveis ao afastamento de Dilma.

A especulação sobre os votos dos senadores abre mais uma preocupação para Temer, que, em apenas 20 dias na Presidência, já viu a queda de dois dos seus ministros por influência da Operação Lava Jato. A condução do governo interino e as denúncias envolvendo o alto escalão do Palácio do Planalto podem ser fatores que levaram os senadores a cogitar troca de votos

Fatos novos

Em entrevista ao jornal O Globo, Romário citou “novos fatos políticos” como influentes na votação no Senado. “Assim como questões políticas influenciaram muitos votos na primeira votação, todos esses novos fatos políticos irão influenciar também. Meu voto final estará amparado em questões técnicas e no que for melhor para o país”, disse.

Já Gurgacz negou em nota que teria mudado o voto, mas afirmou que ainda está indeciso. Segundo noticiado, ele teria informado ao partido que irá se posicionar contra o impeachment. A sinalização do senador fez com que o Diretório Nacional do PDT adiasse a decisão sobre punição disciplinar aos que votaram contra a orientação do partido, que é favorável a Dilma.

O paranaense Alvaro Dias (PV), adepto do impeachment, afirma que o risco de mudança de quadro “é uma realidade”, mas que “a lógica favorece a manutenção da situação já colocada”. “O que há é uma flutuação permanente em função da temperatura do momento político. Há os que se aborrecem com revelações do atual governo, mas também refletem sobre o que ocorreria diante do retorno de Dilma”, diz. Para o senador, a indefinição deve permanecer até o momento da votação final, que deve ser apertada.

Já a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) aponta que alguns parlamentares já apontavam, quando da admissibilidade do processo de impeachment , que poderiam mudar de posição, conforme o entendimento individual sobre o cometimento de crime de responsabilidade da presidente afastada. “O clima parece estar mudando, tanto pela posição inicial dos senadores quanto pelo impacto das questões políticas do governo interino”, diz.

Trapalhadas

A cúpula do PT aproveitou a “trapalhada” peemedebista para afirmar, em nota, que a “agenda ética” do interino “se esfarela” após o vazamento de conversas entre o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado e integrantes do PMDB. Para os dirigentes petistas, os áudios “confirmam o caráter golpista do impeachment” de Dilma. A liderança do PT na Câmara também denunciou outros ministros na Comissão de Ética da Presidência.

Do outro lado, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), recém-empossado líder do governo, divulgou um vídeo em que expõe argumentos pelo impeachment de Dilma e, com duras críticas, mostrou que esse será seu compromisso. “É para que eu possa contribuir com o bom desfecho desse processo. Eu não quero que a Dilma volte. Eu não quero que o PT volte. Isso seria uma tragédia para o país”, ressaltou.

Nomeação de ministros investigados pela Lava Jato foi um risco, diz especialista

O cientista político Leon Victor de Queiroz, da Universidade Federal de Campina Grande, aponta que o governo interino errou quando assumiu o risco de nomear ministros investigados na Lava Jato, já que não há controle sobre a operação. Assim, para ele, as articulações pela volta de Dilma podem ganhar força. “Pode ser improvável, mas não é impossível [o retorno dela]”, avalia.

Segundo Queiroz, além das “trapalhadas” do novo governo que pesam na opinião pública, como a queda dos ministros e dificuldade de “andamento” das diferentes áreas, alguns senadores já demonstravam dúvidas em relação ao julgamento final de Dilma na primeira votação do impeachment. “Aparentemente, eles queriam pagar para ver, admitindo o processo, mas deixando em aberto a possibilidade de reversão posterior”, afirma.

“Os parlamentares devem usar todo o tempo de afastamento da presidente [até 180 dias] para ver como é o novo governo. Se for tão desastroso, o quadro pode até se reverter”, aponta. Para o especialista, porém, o cenário de instabilidade seria imprevisível se confirmada a volta da petista, pois não é descartada a possibilidade de condenação das contas de campanha dela de 2014 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Senador indeciso é paranaense, mas fez carreira em Rondônia

O senador Acir Gurgacz (PDT-RO, foto) é um dos que está em dúvida sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Ele foi reeleito senador pelo estado de Rondônia em 2014, e já foi prefeito de Ji-Paraná, em 2000. A origem dele, no entanto, é paranaense.

Nascido em Cascavel, no Oeste do estado, o senador é filho do empresário Assis Gurgacz, que possui uma rede de empreendimentos nos ramos de transporte rodoviário e urbano, comunicações, ensino, mineração e pecuária.

A União Cascavel (hoje denominada Eucatur), empresa do pai, iniciou as atividades no Paraná em 1964 e instalou uma filial em Ji-Paraná – onde Acir fez carreira política – em 1972, quando a família migrou para o estado do Norte do país.

A empresa foi a primeira a fazer a ligação Norte-Oeste-Sul do Brasil de ônibus e hoje está presente 23 estados do país, além de operar na Venezuela e Bolívia.

Uma das atuações mais importantes de Acir Gurgacz no Senado foi a relatoria, no ano passado, das contas de 2014 da presidente Dilma Rousseff. Contrariando a orientação do Tribunal de Contas da União, que apontava a ocorrência das chamadas pedaladas fiscais, ele apresentou parecer pela aprovação das contas com ressalvas

Fonte: Gazeta do Povo

Dilma melhora seu ibope

Uma pesquisa inédita indica que, após o afastamento, a presidenta recupera parte do apoio perdido, embora mantenha um elevado índice de rejeição
Dilma RousseffDilma passou de 18% para 33% de confiança

A expectativa política no Brasil de hoje está ancorada na resposta para a seguinte pergunta: a Dilma voltará ao poder, ou não voltará, após sofrer um “golpe de Estado suave”, para usar a sublime avaliação sobre o tema feita recentemente pelo papa Francisco?

Não há milagre capaz de sustentar com segurança uma das duas respostas possíveis a essa indagação: não e sim. Nesta ordem. Em princípio, tudo parecia perdido para Dilma, assim como parecia certo para Temer, ganhar a oportunidade de completar o restante do mandato iniciado em 2015.

Antes mesmo dos tropeços da ineficiência administrativa do governo provisório e das revelações escandalosas saídas das entranhas do PMDB, surgiu uma mudança importante no comportamento do eleitor favorável à presidenta afastada.

Não é indício. É fato revelado por pesquisa inédita do Ibope, realizada após a consumação do golpe.

“Dilma passou de 18% para 33% de confiança”, diz Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, em econômica revelação dos resultados da pesquisa feita em meados de maio. Não foi feita avaliação do governo interino.

Dilma teve crescimento de 15% comparado com números de duas outras pesquisas anteriores. A primeira, já divulgada, realizada em março, entre os dias 17 e 20, e a segunda, em meados de abril, de 14 a 18 (tabela). Esta última inédita.

AvaliaçãoAs duas mostraram certa estabilidade no porcentual de confiança, mas ainda mantinham extremo o grau de desconfiança dos eleitores. Foram realizadas antes dos resultados da votação de admissibilidade do afastamento de Dilma na Câmara e no Senado.

Números da terceira pesquisa, de maio, indicam um impacto forte nos índices “confia”, para cima, e “não confia”, para baixo. A queda da desconfiança é expressiva. Caiu de 76% para 65%. Porcentuais ainda preocupantes. Projeta, porém, tendência de queda.

O resultado surpreende. Dilma, tudo indica, está em processo de recuperação política. A velocidade  do caminho será ditada pelo possível fracasso do governo provisório de Temer

Montenegro tem algumas explicações. Ele sabe, no entanto, que o Brasil não está diante de um fenômeno e alerta para um “erro” cometido pela mídia. Ela punha o foco na baixa avaliação do governo. Destacavam o “bom e ótimo” que desceu a 8%. Quase no fundo do poço. Deixava de lado, no entanto, o porcentual da resposta “Regular”.

“Existe o regular positivo. Não se deu atenção a isso. Muita gente veio do regular”, diz Montenegro. Um erro politicamente premeditado. Inserido perfeitamente no contexto do golpe.

Montenegro medita sobre a relação do grupo de eleitores “criados” pela solidariedade a Dilma. “Ainda não sei em que proporção”, admite.

Resta agora aguardar as próximas pesquisas. Elas podem inquietar alguns senadores.

Fonte: Carta Capital

Dilma deixa a Presidência e Temer assume o cargo sem o apoio de boa parte da população, que faz manifestações contra o Impeachment

12/05/2016

Tribunal Internacional declara nulidade do impeachment

Tribunal se reuniu nestas terça e quarta-feiras, 19 e 20 de julho, no Rio de Janeiro.

Tribunal Internacional diz que impeachment é nulo por violar convenções e a constituição
Tribunal Internacional diz que impeachment é nulo por violar convenções e a constituiçã

Um Tribunal Internacional com valor simbólico, formado por juristas de seis países, declarou a nulidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. De acordo com o veredicto do júri, dado na tarde de hoje (20), o processo fere a Constituição Federal de 1988, a Convenção Interamericana dos Direitos Humanos e o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. O resultado final será enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Senado, onde o impedimento definitivo de Dilma deverá ser votado entre o final do mês de agosto e o início de setembro.

Encabeçado por movimentos sociais, entre eles, a Frente Brasil Popular, Juristas pela Democracia e Via Campesina, o júri analisou o processo de impeachment em diversos aspectos. Primeiro, foram ouvidas acusação e defesa; depois, os jurados tiveram 30 minutos para exposição de seus votos e, por fim, foi dado o veredicto. As personalidades que formaram o corpo de jurados, ligadas à defesa dos direitos humanos, são oriundas de México, Estados Unidos, França, Itália, Espanha e Costa Rica.

A análise do processo foi feita a partir de quatro questionamentos: primeiro, se o processo desrespeita a Constituição; segundo, se a ausência de crime de responsabilidade permite classificá-lo como um golpe dado pelo Parlamento; terceiro, se viola tratados internacionais assinados pelo Brasil e quarto, se preenchendo os requisitos anteriores, deveria ser considerado nulo. Os jurados decidiram por unanimidade o “sim” como resposta às perguntas.

Para Raul Veras, um dos juados, bispo originário do México e defensor dos direitos humanos, o processo é um “artifício jurídico disfarçado de responsabilidade jurídica”, disse ele ao se posicionar contra o processo por acreditar ser uma “farsa”. Já para Azadeh N. Shahshahani, os que acusam a presidenta afastada é que deveriam ser punidos, uma vez que já são acusados de corrupção. Os outros jurados também defenderam o caráter de “farsa” do processo.

O defensor de Dilma no processo de impeachment, advogado José Eduardo Cardozo, participou do evento acompanhado dos parlamentares Lindbergh Farias (senador, PT-RJ), Wadih Damous (deputado federal, PT), ex-presidente da OAB do Rio de Janeiro e Jandira Feghali, deputada e pré-candidata do PC do B à Prefeitura do Rio de Janeiro.

Consequências

O julgamento pelo Tribunal possui caráter simbólico e não funciona como uma instância acima do STF. Entretanto, alguns juristas defenderam em entrevista ao jornal Gazeta do Povo que a conclamação do júri feriria a soberania do país.

Enviado ao STF e ao Senado, é bem provável que o júri produza pouca ou nenhuma consequência prática, uma vez que a existência de golpe parlamentar só é reconhecida por uma parte dos movimentos sociais, entidades jurídicas e da classe política, além de personalidades internacionais. Para o Legislativo e o Judiciário brasileiro, o processo que corre contra Dilma – ainda que sem comprovação de crime de responsabilidade – é a plena normalidade democrática.

Fonte: Yahoo

Congressistas dos EUA denunciam a ilegalidade do impeachment

Em carta a John Kerry, 37 parlamentares pedem ao secretário de Estado que se abstenha de declarações favoráveis a Temer
por Miguel Martins, com Eduardo Graça — publicado 22/07/2016 09h59, última modificação 22/07/2016 18h09
MontagemFigueiredo, Dilma e Kerry: disputa política

Nos Estados Unidos, a denúncia sobre a farsa do impeachment de DIlma, encampada por grandes jornais como o The New York Times, ganha força agora entre parlamentares norte-americanos.

Em carta destinada a John Kerry, secretário de Estado, 37 congressistas [eram 33 quando esta reportagem foi publicada] do Partido Democrata e diversas entidades sociais e sindicatos, entre eles a influente Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais, pedem ao integrante do governo de Barack Obama e provável representante norte-americano nas Olimpíadas do Rio de Janeiro para lidar de forma cautelosa com as autoridades interinas brasileiras e de se abster de declarações ou ações passíveis de serem vistas como um apoio dos Estados Unidos à campanha contra a presidenta eleita. É previsto um crescimento do número de adesões à missiva até a segunda-feira 25.

“Nosso governo deve expressar sua forte preocupação com as circunstâncias que envolvem o processo de impeachment e exigir a proteção da Constituição democrática no Brasil”, afirmam os signatários do documento ao qual CartaCapital teve acesso.

A carta será endereçada a Kerry na segunda-feira 25, mas teve o conteúdo antecipado após seu vazamento para a embaixada do Brasil em Washington. Ao receber a missiva, o Luiz Alberto Figueiredo Machado, embaixador do Brasil nos EUA, encaminhou uma réplica aos signatários na quarta-feira 20, na qual defende a legalidade do processo deimpeachment.

O esforço de Machado em convencer os congressistas a rever sua posição mostra como a carta é incômoda para o governo interino. A estratégia não deu certo. Em tréplica, o deputado democrata Alan Grayson afirmou esperar que a correspondência dos parlamentares “ajude a Administração a rever sua posição política em relação ao que aconteceu no Brasil”.

“Este não é um julgamento legal, mas político, onde dois terços de um Senado tomado pela corrupção podem dar fim ao mandato de Dilma”, afirmam os parlamentares e entidades na correspondência a Kerry. “O processo de impeachment está cheio de irregularidades de procedimentos, corrupção e motivações políticas desde seu início. O governo dos EUA deveria expressar sua preocupação sobre a ameaça às instituições democráticas que se desdobra em um dos nossos mais importantes aliados econômicos e políticos da região.”

A carta tece duras críticas ao presidente interino: “Michel Temer chegou ao poder e imediatamente substituiu uma administração progressista, diversa e representativa por outra que inclui apenas homens brancos a anunciar planos de impor a austeridade, a privatização e uma agenda de extrema-direita”. O documento lista ainda o pacote de maldades prometido pelo governo interino e a “divisão profunda” da sociedade brasileira.

A carta relata também a queda do ex-ministro Jucá por causa da divulgação de sua conversa com Sérgio Machado, operador do PMDB na Lava Jato e um dos delatores da operação, e registra a decisão do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo que considerou Temer ficha-suja e o tornou inelegível, “incluindo para o cargo que atualmente ocupa”, por oito anos.

Os congressistas e entidades alertam Kerry do fato de Dilma jamais ter sido acusada de corrupção e que as pedaladas fiscais, motivo alegado para seu afastamento, são “práticas utilizadas largamente em todos os níveis de governo no Brasil, incluindo seus dois antecessores”.

Em conclusão, os congressistas e entidades se dizem preocupados com os sinais emitidos pelo governo americano que “podem ser interpretados como um apoio” ao afastamento de Dilma. “Pelo fato de muitos brasileiros terem rotulado o processo de impeachment como um ‘golpe’ contra a presidenta brasileira eleita, é especialmente importante que as ações dos EUA não sejam interpretadas como favoráveis ao impeachment.”

Eles lembram ainda que, em 19 de abril, dois dias após a Câmara dos Deputados ter votado o afastamento de Dilma, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) reuniu-se com Thomas Shannon, subsecretário de Estado para Assuntos Políticos. “Essa medida foi interpretada como um gesto de apoio ao afastamento de Dilma do cargo.”

Ao saber do conteúdo da carta, o embaixador Figueiredo enviou a réplica a cada um dos congressistas afirmando estar “surpreso”. “Permita-me esclarecer que o processo deimpeachment de Dilma Rousseff está sendo realizado de acordo com as exigências da lei brasileira”, afirma o diplomata. “A Constituição brasileira está sendo respeitada de forma rigorosa pelas três esferas de governo, um fato que pode ser corroborado a partir de uma análise cuidadosa e imparcial.”

“Eu sublinho que a firme batalha contra a corrupção tem o apoio da grande maioria da população brasileira e tem gerado demonstrações de admiração e apreciação da comunidade internacional”, emenda o embaixador, para então defender o interino. “Temer expressou publica e repetidamente seu comprometimento na luta contra a corrupção e em manter o ritmo das investigações em curso no Brasil livres de qualquer tipo de viés político ou partidário”.

Em uma linha semelhante à desqualificação do New York Times por seus editoriais críticos ao impeachment, o embaixador afirma que considerar o processo manchado por “irregularidades, corrupção e motivações políticas” revela “desconhecimento do sistema jurídico brasileiro”. A carta segue o discurso falacioso. “O respeito às regras orçamentárias esteve presente no Brasil em cada Constituição brasileira como um dever que um dirigente público não pode negligenciar.” O festival de enganação não arrefece até o último alento.

“O embaixador não reconhece problema algum com o processo, apesar de diversas organizações internacionais, veículos de mídia, intelectuais, acadêmicos, organizações da sociedade civil, artistas, mulheres e grupos de direitos humanos terem manifestado uma séria preocupação com a falta de transparência do processo”, diz Maria Luísa Mendonça, coordenadora da rede Social Justiça e Direitos Humanos.

Resta saber se Kerry, também democrata, se sensibilizará com a denúncia de seus correligionários quando vier ao Brasil para os Jogos Olímpicos.

Fonte: Carta Capital

Para Ministério Público, pedaladas do governo Dilma não são crime

Procurador da República no DF pediu o arquivamento de investigação aberta apurar possível infração penal; ele concluiu, no entanto, que manobras visaram maquiar contas públicas

O Ministério Público Federal (MPF) concluiu que as pedaladas fiscais não configuram crimes comuns, inclusive as que embasam o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Em parecer enviado à Justiça nesta quinta-feira, 14, o procurador da República no Distrito Federal Ivan Marx pediu o arquivamento de investigação aberta para apurar possível infração penal de autoridades do governo da presidente afastada. Ele concluiu, no entanto, que as manobras visaram maquiar as contas públicas, principalmente no ano eleitoral de 2014, havendo improbidade administrativa – um delito civil.

As pedaladas fiscais consistiram no atraso de repasses do Tesouro Nacional para que bancos públicos pagassem obrigações do governo com programas sociais e empréstimos subsidiados. Por conta desses atrasos, as instituições tiveram de honrar as despesas com recursos dos correntistas. Para o Tribunal de Contas da União (TCU), as manobras foram operações de crédito ilegais entre os bancos e seu controlador, a União, pois não tiveram autorização Legislativa, como determina o Código Penal.

O procurador analisou seis tipos de manobra do governo Dilma após ouvir integrantes da equipe econômica, analisar auditorias do TCU e os documentos das operações. Segundo ele,  as manobras não se enquadram no conceito legal de operação de crédito ou empréstimo. Por isso, não seria necessário pedir autorização ao Congresso.

 

Foto: André Dusek|Estadão
Dilma RousseffA presidente da República afastada Dilma Rousseff

 

No despacho, ele conclui que houve inadimplência contratual, ou seja, o governo não fez os pagamentos nas datas pactuadas, descumprindo os contratos com os bancos. Marx pontua que, em alguns casos, os atrasos nos repasses tinham previsão legal e as autoridades não tinham a intenção de fazer empréstimos ilegais.

Os argumentos do procurador sobre as pedaladas coincidem com os da defesa de Dilma no impeachment. O processo em curso no Senado avalia se a petista cometeu crime de responsabilidade, um tipo de infração diferente do crime comum. Mesmo assim, as conclusões devem reforçar as alegações de senadores que defendem a volta da presidente afastada às suas funções.

Ao atrasar os repasses aos bancos, o governo adiava despesas e, com isso, o registro, pelo Banco Central, desses passivos na dívida líquida do setor público. Para Marx, embora não seja crime comum, essa prática configura improbidade administrativa. “Todos os atos seguiram o único objetivo de maquiar as estatísticas fiscais, utilizando-se, para tanto, do abuso do poder controlador por parte da União e do ‘drible’ nas estatísticas do BC”, sustenta.

O procurador ressalta que essa irregularidade teve sérias consequências para a economia, entre elas o rebaixamento do rating pelas agências de classificação de risco. “É inegável que a prática das ‘pedaladas’ minou a credibilidade das estatísticas brasileiras, contribuindo para o rebaixamento da nota de crédito do País.”

Na sexta-feira, 8,  Marx já havia concluído que as pedaladas no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) não foram crimes comuns. Agora, no despacho mais recente, ele sustenta que a mesma conclusão cabe às manobras do Plano Safra, no Banco do Brasil, que foram usadas para embasar o impeachment. Nos dois casos, os bancos emprestam dinheiro a grandes empresas a juros mais baixos que os de mercado. A diferença entre as taxas é coberta pelo Tesouro, que não fez os repasses conforme pactuado. Trata-se da “equalização” dos juros.

“Em ambos casos, há um simples inadimplemento contratual quando o pagamento não ocorre na data devida, não se tratando de operação de crédito. Entender de modo diverso transformaria qualquer relação obrigacional da União em operação de crédito, dependente de autorização legal, de modo que o sistema resultaria engessado”, reiterou.

O procurador alega que o conceito de empréstimo ilegal também não se aplica aos atrasos nos repasses dos royalties do petróleo e do minério de ferro a estados e municípios; de taxas administrativas devidas à Caixa.

Marx avaliou ainda outras operações, como o uso de recursos da Caixa para pagar dispêndios da União no Programa Bolsa Família, no Seguro-Desemprego e no Abono Salarial. No parecer, explica que a antecipação de pagamento por parte do banco está prevista em contrato e ocorre desde 1994. Em 2000, a legislação penal mudou e passou a considerar crime empréstimos à União sem aval do Congresso. De lá para cá, operações semelhantes continuaram ocorrendo, mas só a partir de 2013, quando o montante dos atrasos passou a ser significativo, o TCU viu irregularidade e possível infração penal.

“Não foram os aumentos nos volumes de débitos da União, surgidos a partir de 2013, que configuraram o crime de ‘operação de crédito sem autorização legislativa’. De modo que, desde o ano de 2000 esse crime vem sendo praticado e todos os seus praticantes devem ser responsabilizados ou nenhum o deve, no caso de se entender que não tinham conhecimento de que o tipo penal criado no ano de 2000 se amoldava àquela praxe preexistente e que permanecera até 2015 sem qualquer questionamento por parte das autoridades de controle”, critica o procurador, citando o TCU.

Ele acrescenta que, tratando-se das ocorrências a partir de 2013, não se poderia concluir que houve “dolo” (intenção) de se fazer operações ilegais.

Marx se pronunciou ainda sobre os adiantamentos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para despesas do Programa Minha Casa Minha Vida, entendendo também que não houve operação de crédito ilegal.

O MPF ainda vai avaliar, no entanto, se o governo cometeu outro crime nesse caso: “ordenar despesa não autorizada por lei”. Para técnicos do TCU, não havia a previsão de recursos adequada em orçamento quando o governo pagou o débito com o fundo. O procurador aguardará um posicionamento definitivo da corte para analisar a questão.

 Fonte: Estadão

A deputada Jandira Feghali (PCdoB), líder da minoria na Câmara, esteve, em 14/7/16, com a presidente afastada, Dilma Rousseff (PT), e disse que ela está “animada com a perspectiva de votação [do impeachment] no Senado.”

“Ela tem feito reuniões semanais com o conselho político. Eu estou achando Dilma muito bem. É impressionante a capacidade de resistência que ela tem. Ela foi forjada na dificuldade, né? Ela está animada, está indo bem com a rua, os movimentos, o Senado. Eu saí de lá animada. (…) Ela nos consultou sobre o manifesto que vai soltar. A visão dela é muito positiva do processo. E ela está muito bem, firme e tranquila. Está construindo uma agenda com o Senado.”

Segunda Jandira, Dilma calcula reverter o placar no plenário, onde precisa de mais seis votos, além dos 22 que já possui, para derrubar o pedido de impeachment. A votação na comissão especial, liderada por Antonio Anastasia (PSDB), já é contabilizada como uma derrota para os aliados da petista.

Jandira também avaliou que a eleição de Rodrigo Maia (DEM) para a presidência da Câmara expôs a divisão da base parlamentar do interino Michel Temer (PMDB) e, ocasionalmente, favorecerá a atual oposição.

“A eleição expressa a falta de unidade da base do governo. A paz não vai reinar. Aumentou a fragmentação e a disputa na base do governo, o que, nesse aspecto, é bom para nós. Isso mostra que a gente pode, em alguns momentos, ganhar posições e afrontar decisões que prejudicam o País”, explicou.

Para Jandira, alas do PT, PCdoB e PDT, entre outros partidos, empurraram a candidatura de Marcelo Castro (PMDB), mesmo sob uma chuva de críticas à esquerda, para evitar que Eduardo Cunha (PMDB) emplacasse um aliado no comando da Câmara.

A estratégia não deu certo mas, para a deputada, a eleição nao foi de todo ruim. “O ruim não é enfraquecer Cunha e o centrão. O ruim é fortalecer o PSDB e o DEM [que patrocinaram a eleição de Maia]. Mas essa é a cara da maioria da Câmara hoje. Não vejo como poderia ser diferente. Mesmo que unisse a esquerda inteira, não teria chances de vitória.”

Cassação de Cunha

Jandira Feghali disse que o esperado é que os trabalhos da Câmara sejam “desacelerados” no segundo semestre, em função das Olimpíadas e, princialmente, das eleições. Os “recessos brancos” – semanas em que a Casa fica mais vazia porque os deputados estão em suas bases eleitorais – podem favorecer o ex-presidente Eduardo Cunha.

Eleito novo comandante da Casa, Rodrigo Maia (DEM) fez um aceno a Cunha: disse que não vai marcar a data da sessão que deve cassar o mandato do parlamentar, e que pretende convocar a votação apenas quando a Câmara tiver quorum de cerca de 500 deputados. Isso, segundo ele, para dar “legitimidade” ao processo.

Cunha trabalha justamente com a intenção de esvaziar as sessões da Câmara, na tentativa de negociar sua salvação. O deputado é réu em duas ações na Lava Jato e precisa manter o foro privilegiado para ser julgado na segunda turma do Supremo Tribunal Federal.

Para Jandira, contudo, será muito difícil Maia empurrar a cassação de Cunha para depois da eleição. Ela disse que quando a Casa retornar do recesso que começa esta semana, essa demanda será cobrada. “Vamos pedir que ele coloque [a cassação] para votar no início de agosto.”

Eleição da Câmara

Jandira convocou a imprensa, na tarde desta quinta (14), para explicar fazer um balanço dos trabalhos da minoria na Câmara e falar sobre seu posicionamento diante da eleição de Rodrigo Maia.

Ela afirmou ter anulado o voto quando a disputa caminhou para o segundo turno entre Maia e Rogério Rosso (PSD), candidato favorito de Cunha e representante do “centrão”.

A deputada foi questionada sobre o fato de Maia ter dito que sua candidatura nasceu de uma reunião entre Orlando Silva (PCdoB) e Carlos Sampaio (PSDB), há cerca de 40 dias. O PCdoB ter lançado Orlando à presidência da Câmara, de último hora, também levandou dúvidas sobre uma manobra para dividir ainda mais a esquerda.

“Essa negociação direta de Orlando com Rodrigo foi uma surpresa. O partido não deu anuência, acho que isso partiu dele sozinho”, comentou Jandira. Ela também negou que o partido tenha fechado acordo com Maia para frear a já arquivada CPI da UNE.

Contra Temer

Jandira Feghali listou uma série de projetos “gravíssimos” que serão ou já foram apresentados pelo governo do interino Michel Temer. O principal, segundo ela, é a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do teto dos gastos públicos, que abrirá portas para a privatização de estatais e serviços públicos.

Segundo ela, Rodrigo Maia é muito mais alinhado com Temer “do ponto de vista ideológico” do que qualquer outro candidato, e certamente colocará em votação os projetos de interesse do interino.GGN – A deputada Jandira Feghali (PCdoB), líder da minoria na Câmara, esteve nesta quinta (14) com a presidente afastada, Dilma Rousseff (PT), e disse que ela está “animada com a perspectiva de votação [do impeachment] no Senado.”

“Ela tem feito reuniões semanais com o conselho político. Eu estou achando Dilma muito bem. É impressionante a capacidade de resistência que ela tem. Ela foi forjada na dificuldade, né? Ela está animada, está indo bem com a rua, os movimentos, o Senado. Eu saí de lá animada. (…) Ela nos consultou sobre o manifesto que vai soltar. A visão dela é muito positiva do processo. E ela está muito bem, firme e tranquila. Está construindo uma agenda com o Senado.”

Segunda Jandira, Dilma calcula reverter o placar no plenário, onde precisa de mais seis votos, além dos 22 que já possui, para derrubar o pedido de impeachment. A votação na comissão especial, liderada por Antonio Anastasia (PSDB), já é contabilizada como uma derrota para os aliados da petista.

Jandira também avaliou que a eleição de Rodrigo Maia (DEM) para a presidência da Câmara expôs a divisão da base parlamentar do interino Michel Temer (PMDB) e, ocasionalmente, favorecerá a atual oposição.

“A eleição expressa a falta de unidade da base do governo. A paz não vai reinar. Aumentou a fragmentação e a disputa na base do governo, o que, nesse aspecto, é bom para nós. Isso mostra que a gente pode, em alguns momentos, ganhar posições e afrontar decisões que prejudicam o País”, explicou.

Para Jandira, alas do PT, PCdoB e PDT, entre outros partidos, empurraram a candidatura de Marcelo Castro (PMDB), mesmo sob uma chuva de críticas à esquerda, para evitar que Eduardo Cunha (PMDB) emplacasse um aliado no comando da Câmara.

A estratégia não deu certo mas, para a deputada, a eleição nao foi de todo ruim. “O ruim não é enfraquecer Cunha e o centrão. O ruim é fortalecer o PSDB e o DEM [que patrocinaram a eleição de Maia]. Mas essa é a cara da maioria da Câmara hoje. Não vejo como poderia ser diferente. Mesmo que unisse a esquerda inteira, não teria chances de vitória.”

Cassação de Cunha

Jandira Feghali disse que o esperado é que os trabalhos da Câmara sejam “desacelerados” no segundo semestre, em função das Olimpíadas e, princialmente, das eleições. Os “recessos brancos” – semanas em que a Casa fica mais vazia porque os deputados estão em suas bases eleitorais – podem favorecer o ex-presidente Eduardo Cunha.

Eleito novo comandante da Casa, Rodrigo Maia (DEM) fez um aceno a Cunha: disse que não vai marcar a data da sessão que deve cassar o mandato do parlamentar, e que pretende convocar a votação apenas quando a Câmara tiver quorum de cerca de 500 deputados. Isso, segundo ele, para dar “legitimidade” ao processo.

Cunha trabalha justamente com a intenção de esvaziar as sessões da Câmara, na tentativa de negociar sua salvação. O deputado é réu em duas ações na Lava Jato e precisa manter o foro privilegiado para ser julgado na segunda turma do Supremo Tribunal Federal.

Para Jandira, contudo, será muito difícil Maia empurrar a cassação de Cunha para depois da eleição. Ela disse que quando a Casa retornar do recesso que começa esta semana, essa demanda será cobrada. “Vamos pedir que ele coloque [a cassação] para votar no início de agosto.”

Eleição da Câmara

Jandira convocou a imprensa, na tarde desta quinta (14), para explicar fazer um balanço dos trabalhos da minoria na Câmara e falar sobre seu posicionamento diante da eleição de Rodrigo Maia.

Ela afirmou ter anulado o voto quando a disputa caminhou para o segundo turno entre Maia e Rogério Rosso (PSD), candidato favorito de Cunha e representante do “centrão”.

A deputada foi questionada sobre o fato de Maia ter dito que sua candidatura nasceu de uma reunião entre Orlando Silva (PCdoB) e Carlos Sampaio (PSDB), há cerca de 40 dias. O PCdoB ter lançado Orlando à presidência da Câmara, de último hora, também levandou dúvidas sobre uma manobra para dividir ainda mais a esquerda.

“Essa negociação direta de Orlando com Rodrigo foi uma surpresa. O partido não deu anuência, acho que isso partiu dele sozinho”, comentou Jandira. Ela também negou que o partido tenha fechado acordo com Maia para frear a já arquivada CPI da UNE.

Contra Temer

Jandira Feghali listou uma série de projetos “gravíssimos” que serão ou já foram apresentados pelo governo do interino Michel Temer. O principal, segundo ela, é a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do teto dos gastos públicos, que abrirá portas para a privatização de estatais e serviços públicos.

Segundo ela, Rodrigo Maia é muito mais alinhado com Temer “do ponto de vista ideológico” do que qualquer outro candidato, e certamente colocará em votação os projetos de interesse do interino.

Fonte: brasil247

Dilma monta gabinete virtual de “pronta resposta” para despachar

No Facebook e no Twitter, ela rebate anúncios e medidas tomadas pelo governo do presidente em exercício Michel Temer

 

Desde que deixou o Palácio do Planalto, há dez dias, Dilma Rousseff montou o gabinete virtual da “pronta resposta” para despachar. É ali, em sua página no Facebook e no Twitter, que a presidente afastada rebate os anúncios e medidas tomadas por ministros da gestão de Michel Temer, chamada por ela apenas de “governo provisório”.

Tudo funciona no Palácio da Alvorada, transformado em sede da resistência ao impeachment, a seis quilômetros do Planalto. A estratégia é coordenada pelo ex-ministro da Secretaria de Governo Ricardo Berzoini, que faz a “ponte” entre o PT, Dilma e seu padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva.Depois de tomar café na “dimensão humana” do Alvorada, como batizou a parte superior do Palácio, a presidente afastada despacha na biblioteca, no térreo. “Desço, subo, desço”, conta ela, quando explica por que o Alvorada, apesar da bela arquitetura de Oscar Niemeyer, não é aconchegante.No gabinete virtual, Dilma atua como uma espécie de “consciência crítica” do governo Temer, respondendo até a perguntas de internautas. Auxiliares dizem que ela está mais “leve” e implica menos com o barulho das emas. Vive só com a mãe, Dilma Jane, de 92 anos, e sente saudade da filha Paula e dos dois netos, que moram em Porto Alegre. “Meninos são sempre mais ingênuos, coitadinhos. As meninas são vivas, maquiavélicas”, diz.À noite, gosta de escrever. Faz registros sobre sua rotina e já avisou aos mais próximos que vai preparar um livro. “Sou uma escrevinhadora”, brinca Dilma, aos 68 anos.Na terça-feira, após receber o jornalista americano Glenn Greenwald para uma entrevista, ela foi surpreendida por um pedido de abraço de uma integrante da equipe que, ao se aproximar, chorou. “Não chora não, menina! Ainda não acabou. Nós vamos lutar. Quando eu saí da cadeia, achei que tinha parado de lutar, mas olha aí…”, comentou a presidente afastada.Caminhada

Seguidora da dieta Ravenna, Dilma chegou a emagrecer 17 quilos, mas já engordou dois. Não anda mais todo dia de bicicleta e até emprestou uma delas ao ex-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU) José Eduardo Cardozo. No lugar das pedaladas – não fiscais -, faz 45 minutos de caminhada bem cedo, dentro do Alvorada.

“Agora sou eu que vou e volto do Alvorada de bicicleta”, afirmou Cardozo, hoje advogado da petista. O ex-ministro, que também foi titular da Justiça, disse ter ficado “espantado” quando viu seu sucessor na AGU, Fábio Medina Osório, declarar que vai apurar possível “desvio de finalidade” cometido por ele ao classificar o impeachment como “golpe”. “Cercear a liberdade do advogado na condução da defesa é algo que não vi nem na ditadura militar.”

Pouco depois de sair do Planalto, ao lado de Lula, Dilma já queria saber como a imprensa internacional abordava o impeachment. Considerou a repercussão favorável e ficou emocionada quando, na terça-feira, a equipe do filme brasileiro Aquarius – com a atriz Sônia Braga à frente – protestou, no Festival de Cannes, durante a sessão de gala que exibiu o longa-metragem. Os atores seguraram cartazes com dizeres como “Um golpe está acontecendo no Brasil”, “54 milhões de votos foram queimados” e “O Brasil não é mais uma democracia”, escritos em inglês e francês.

“Fiquei com a alma lavada”, resumiu ela, em conversa com políticos que a visitaram, semana passada. Na lista estava o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Dilma criticou as “trapalhadas” de Temer. “E agora vão dizer que há um rombo muito maior nas contas”, previu. Ela repetiu o discurso em encontro com blogueiros, na sexta-feira, em Belo Horizonte, depois que o novo governo anunciou um vermelho de R$ 170,5 bilhões. “Vou lutar no Senado e no Judiciário para me defender. Não vou ficar presa dentro do Alvorada”, disse a presidente que um dia quis ser bailarina.

Fonte: Correioweb

Manifestantes fazem ato em Brasília e no Rio contra governo Temer

No Rio, cerca de 500 pessoas saíram em passeata da Candelária até o Palácio Capanema

O ato seguiu em passeata pela Avenida Rio Branco – Antonio Socorza / Agência O Globo

Manifestantes foram às ruas neste domingo protestar contra o afastamento da presidente Dilma Roussef em Brasília e no Rio. No centro da capital fluminense, cerca de 500 pessoas foram em passeada da Candelária até o Palácio Gustavo Capanema, sede do Ministério da Educação no Rio que está ocupado desde segunda-feira. Os manifestantes questionam o afastamento de Dilma sem crime de responsabilidade e as primeiras medidas do novo governo.

Protesto contra Temer no Rio

  • Manifestante questiona o afastamento da presidente Dilma sem crime de responsabilidadeFoto: Antonio Socorza / Agência O Globo

  • Manifestantes foram às ruas neste domingo protestar contra o impeachment e o governo de Michel TemerFoto: Antonio Socorza / Agência O Globo

  • Um tapete vermelho simulando o do Festival de Cannes foi estendido em frente à CandeláriaFoto: Antonio Socorza / Agência O Globo

  • O ato seguiu em passeata pela Avenida Rio BrancoFoto: Antonio Socorza / Agência O Globo

  • Manifestantes fizeram os seus próprios cartazesFoto: Antonio Socorza / Agência O Globo

  • O ato terminou no Palácio Gustavo Capanema, sede do MEC, ocupado desde segunda-feiraFoto: Antonio Socorza / Agência O Globo

O protesto foi marcado para hoje porque Temer participaria da inauguração do Veículo Leve sobre Trilhos, que foi adiada para o dia 5 de maio. Os manifestantes estenderam um tapete vermelho na concentração do protesto para lembrar o ato pró-Dilma feito por artistas em Cannes, na França.

Em Brasília, um grupo de cerca de cem manifestantes fizeram neste domingo um ato contra o impeachment e a barreira instalada perto do Palácio do Jaburu, em Brasília, que estaria pedindo a identificação de todas as pessoas que visitam o Palácio da Alvorada. A denúncia foi feita pelo Senador Jorge Viana (PT-AC) no Senado na quinta-feira. Segundo ele, antes de seguir para a residência oficial da presidente afastada, Dilma Rousseff, os visitantes são obrigados a se identificar e esperar por uma autorização do Palácio do Jaburu para passar.

Protesto em Brasília questiona barreira instalada perto do Palácio do Jaburu – Reprodução Facebool

O protesto começou por volta das 11h e contou com um piquenique de apoio a Dilma. Aos gritos de “solta a presidenta, chama a presidenta”, e golpistas machistas, não passarão”, o ato, organizado pelo Facebook, seguiu sem incidentes.

Manifestantes fazem piquenique próximo ao Palácio da Alvorada – Reprodução Facebook

— Quem visita a presidente Dilma tem que passar por uma barreira instalada antes do Palácio do Jaburu, com uma grade, um militar fortemente armado. E não importa a função que você ocupe. Eu acabei de fazer uma visita à presidente Dilma. Eu estava com o presidente do Congresso Nacional. E tivemos que nos identificar. Esperar um bom tempo para que telefonemas fossem dados para saber se poderíamos passar para fazer uma simples visita à presidente Dilma. Isso significa que a presidente eleita está sitiada? Que país é esse? Que governo provisório é esse? — criticou o senador Jorge Vianna na quinta-feira, da tribuna do Senado.

Polícia bloqueia acessos à casa de Temer em São Paulo

Protesto marcado para este domingo caminharia até a porta da residência

Polícia bloqueia acessos à casa de Temer em São Paulo – Marcos Alves / Agência O Globo

 

A Polícia Militar fechou neste domingo as vias de acesso à rua onde o presidente Interino, Michel Temer, mora no bairro Alto Pinheiros, em São Paulo. Grades e cones foram colocados para bloquear as vias, e a segurança foi reforçada. As interdições estão a pelo menos 300 metros de distância da residência de Temer.

O movimento Frente Povo sem Medo, que reúne MTST, movimentos estudantis como o Juntos!, ligado ao PSOL, União da Juventude Socialista, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), ligados ao PCdo, marcaram para a tarde de 22/5/16 protesto contra o governo interino. Sob o tema “Temer, jamais! Resistir nas ruas por direitos”, os manifestantes vão se reunir no Largo da Batata, na Zona Oeste de São Paulo, às 14h e de lá seguirão até a casa de Temer.

No evento promovido no Facebook há 6,3 mil confirmados.

A segurança foi reforçada em Alto Pinheiros, onde mora o presidente interino Michel Temer – Marcos Alves / Agência O Globo

No feriado de 21 de abril, cerca de 100 manifestantes do Levante Popular da Juventude fizeram um protesto em frente à casa do então Vice. O ato, conhecido como escracho, durou cerca de 30 minutos. Os jovens pintaram com tinta branca no asfalto a frase “QG do Golpe” e estenderam uma faixa com a inscrição “Temer Golpista”. Pouco tempo depois, a companhia de limpeza urbana foi ao local e retirou as pinturas feitas no asfalto.

Na rua Bennet, o acesso é liberado somente para moradores – Marcos Alves / Agência O Globo
Fonte: O Globo

Dilma alerta para risco de governo sem votos, pede mobilização pacífica e teme represálias

Petista foi afastada pelo Senado por ampla maioria dos votos nesta quinta-feira

Dilma durante discurso após ser afastada do cargo por 180 dias – ADRIANO MACHADO / REUTERS

A presidente afastada Dilma Rousseff pediu que as pessoas continuem mobilizadas para defender a manutenção de seu mandato de forma pacífica. Em um discurso que durou 14 minutos e 13 segundos dentro do Palácio do Planalto, e outro realizado já do lado de fora voltado aos militantes que aguardavam sua saída, ela disse que o maior risco do governo de Michel Temer é não ter sido eleito popularmente, e alertou ainda para a possibilidade de repressão aos movimentos populares que resistirem ao que ela classificou novamente como ‘golpe’.

– O risco maior para o país é ser dirigido por um governo dos ‘sem voto’. Um governo que não foi eleito pelo voto direto da população brasileira, que não tem legitimidade. É um governo que nasce de um golpe, de um impeachment fraudulento, uma espécie de eleição indireta – disse a presidente, visivelmente abatida

Ela acusou ainda a oposição de não ter se conformado com a derrota das urnas e de ter sabotado seu governo:

– Desde que fui eleita, parte da oposição, inconformada, pediu recontagem dos votos, tentou anular as eleições e passou a conspirar com um único objetivo, tomar à força o que não conquistaram nas urnas. Meu governo tem sido alvo de incessante sabotagem.

Dilma fez também um chamado aos defensores de seu mandato, pedindo que eles continuem ‘mobilizados, unidos e em paz’, e afirmou que lutará para exercer seu mandato até o dia 31 de dezembro de 2018:

– Aos brasileiros que se opõem ao golpe, independentemente de posição partidária, faço um chamado para que mantenham-se mobilizados, unidos e em paz. A luta pela democracia não tem data para terminar e exige de nós mobilização constante. A luta contra o golpe é longa e nós vamos vencer.

A presidente afastada voltou ainda a lembrar os tempos de tortura, e disse que sofre uma nova injustiça, e negou ter cometido crimes:

  • A presidente afastada Dilma Rousseff, cumprimenta pessoas que assistiram seu discurso na porta do Palácio do PlanaltoFoto: Daniel Marenco / Agencia O Globo / Agência O Globo

  • Durante os discursos, Dilma Rousseff pediu que as pessoas continuem mobilizadas para defender a manutenção de seu mandato de forma pacíficaFoto: Ailton Freitas / Agência O Globo

  • O ex-presidente Lula acompanhou o discusro feito por Dilma do lado de fora do Planalto Foto: UESLEI MARCELINO / REUTERS

  • Dilma acena para a multidão após seu discursoFoto: Daniel Marenco / Agencia O Globo / Agência O Globo

  • Dilma deixa o Palácio do Planalto cercada por seguranças e correligionáriosFoto: Jorge William / Agência O Globo

  • A presidente afastada Dilma Rousseff fez um discurso no Palácio do Planalto, que durou 14 minutos e 13 segundosFoto: Daniel Marenco / Agencia O Globo / Agência O Globo

  • Em discurso, Dilma disse que o maior risco do governo de Michel Temer é não ter sido eleito popularmente. Ela acusou ainda a oposição de não ter se conformado com a derrota das urnas e de ter sabotado seu governoFoto: Roberto Stuckert Filho / Presidência da Republica

  • Dilma alertou ainda para a possibilidade de repressão aos movimentos populares que resistirem ao que ela classificou novamente como ‘golpe’Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS

  • Do lado de fora do Palácio do Planalto militantes expressam apoio a Dilma com palavras de ordem e levantando bexigas vermelhasFoto: Ailton Freitas / Ailton Freitas

  • Militantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) se manifestam em apoio à DilmaFoto: PAULO WHITAKER / REUTERS

– Já vivi a dor indizível da tortura, da doença e agora sofro a dor inominável da injustiça. Esse é um processo frágil, juridicamente inconsistente, injusto, desencadeado contra uma pessoa honesta e inocente. É a maior brutalidade que pode ser cometida a um ser humano, puni-lo por um crime que não cometeu. Não existe injustiça mais avassaladora do que condenar um inocente. Essa farsa jurídica que estou sendo alvo deve-se ao fato de que, como presidente, nunca aceitei chantagem de qualquer natureza. Posso ter cometido erros, mas não crimes.

O clima era de tristeza no Planalto após a notificação da Presidente de seu afastamento por até 180 dias, por decisão do Senado. Ministros, deputados e senadores do PT e do PC do B acompanharam a presidente afastada durante o pronunciamento no Salão Leste do Planalto. O ex-presidente Lula também esteve ao lado de Dilma.

Ao fim de sua fala, Dilma desceu o térreo do Planalto e, pela porta principal, fez um novo pronunciamento para os cerca de 4 mil manifestantes pró-governo que foram convocados para ocupar o local. A presidente Dilma seguiu para o lado errado e quase se deparou com o espelho d´água do Planalto, ao se encaminhar para o pequeno palco montado em frente à Praça dos Três Poderes.

No ato, com clima de improvisado, ela admitiu a possibilidade de ter cometido erros em seu governo, mas não crime, num discurso muito parecido com a declaração à imprensa que fez do lado de dentro do Planalto.

Mobilização de militantes após a saída da presidente afastada Dilma Rousseff do Palácio do Planalto – Ailton Freitas / Ailton Freitas

– Posso ter cometido erros, mas não cometi crimes. Agora o que mais dói é essa situação que eu estou vivendo agora. A inominável dor da injustiça, a profunda dor da injustiça. A dor da traição. São duas palavras terríveis. Traição e injustiça. São talvez as mais terríveis palavras – discursou Dilma, sob fortíssimo sol.

Ela voltou a atacar o governo Temer, e lamentou passar por este momento, mas que estava feliz em receber o calor das pessoas.

 

– Estou disposta a resistir por todos os meios legais. Lutei a minha vida inteira, e vou continuar lutando – disse a presidente afastada, acrescentando que é vítima de traição e injustiças.

MANIFESTANTES ENFRENTAM EMPURRA-EMPURRA

Muitos choravam copiosamente pelo afastamento da presidente. Eles encararam empurra-empurra e um forte sol na Esplanada para assistir ao discurso externo de Dilma. Quem estava na frente não conseguiu ouvir bem o som, mas reagiam às falas mais fortes dela. Além de frases de resistência, os militantes, na maioria ligados a entidades sindicais e movimentos populares, gritaram palavras de ordem contra Temer.

Um grupo bem próximo ao palco em que Dilma discursou entoava gritos de “invadir”. A maioria dos manifestantes, porém, repreendeu o grupo, o que não evitou princípios de confusão em outro pontos do alambrado montado pela presidência ao redor do Palácio.

Após o discurso, a presidente afastada abraçou manifestantes, que, suados, se aglomeravam para pegar em sua mão. Lula ficou atrás dela o tempo todo, parecendo não querer roubar a cena. Somente após Dilma entrar no carro e sair do Planalto rumo ao Palácio do Alvorada é que ele, levado pela deputada Maria do Rosário (PT-RS), foi cumprimentar os manifestantes.

O ex-presidente que ficou atrás da presidente enquanto ela discursava, e passou boa parte da fala da petista com o dedo na boca e fitando o chão, foi abordado por jornalistas. Questionado se seguiria para o Alvorada para se encontrar com Dilma, ele respondeu:

– Eu vou para casa.

De todos os aliados ao lado de Dilma, nenhum foi mais festejado pela militância que José Eduardo Cardozo. Antes criticado por parte do PT por não controlar a Lava Jato, enquanto ministro da Justiça, o ex-advogado Geral da União, responsável pela defesa jurídica de Dilma, foi tietado pelos manifestantes. Cardozo continuará a defender Dilma durante o afastamento do cargo.

— Agora é com você, Cardozo. Você é o cara! — gritavam uns.

Cerca de 500 indígenas, segundo a PM, participaram do ato. Eles se alinharam aos demais manifestantes dizendo que não reconhecerão o governo Temer. Não houve, de acordo com a PM, nenhum incidente grave. A imprensa também foi hostilizada pelos manifestantes, que culpam a mídia de contribuir para o que chamam de “golpe”. Fotógrafos, cinegrafistas e repórteres foram alvo de xingamentos e provocações.

VÍDEO NAS REDES SOCIAIS

Além dos discursos fora e dentro do Palácio do Planalto, a presidente afastada se pronunciou com um vídeo nas redes sociais. Na gravação de 10 minutos, Dilma repetiu que continuará lutando contra o impeachment, que chamou de “farsa política e jurídica”.

“O que está em jogo no processo de impeachment não é apenas o meu mandato, que pretendo defender e honrar até o último dia. O que está em jogo é o respeito às urnas, à vontade soberana do povo brasileiro e à Constituição”, disse Dilma.

TEMER TAMBÉM É NOTIFICADO

O vice presidente Michel Temer, agora presidente em exercício, também já foi notificado do afastamento de Dilma. Ele marcou para as 15h desta quinta-feira a posse de ministros de seu governo, no Palácio do Planalto. Depois, ele fará uma declaração à imprensa. A notificação foi realizada pelo senador Vicentinho Alves.

QUAIS SÃO OS PRÓXIMOS PASSOS

Com a aprovação do pedido relatório que abre o processo de impeachment, no Senado, uma comissão especial conduzirá a investigação contra Dilma, ouvindo testemunhas, defesa e acusação e coletando provas. Um novo parecer será apresentado, com as alegações sobre a existência ou não de provas.

 

Este novo relatório será votado na comissão e também em plenário, no Senado, e sua aprovação dependerá de maioria simples nos dois casos, o que deve tornar esta etapa, chamada de “juízo de pronúncia”, apenas protocolar. Depois, virá o julgamento. Para o impeachment ser aprovado, são necessários 54 votos, o equivalente a dois terços do total de 81 senadores. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, vai presidir as sessões do Senado.

Não há um limite estabelecido para o Senado concluir o processo do impeachment. Mas, caso o procedimento se alongue por mais de 180 dias, contados a partir da instauração, Dilma Rousseff voltará à Presidência da República, sem prejuízo para a continuidade do julgamento. A tendência, porém, é que o processo não chegue aos 180 dias.

Com Temer assumindo a Presidência, o país ficará sem vice-presidente. Em suas ausências, a Constituição determina que o substituto seja o presidente da Câmara. No momento, porém, o presidente da Casa, Eduardo Cunha, está afastado, e então o próximo da linha sucessória, e substituto de Temer, é o presidente do Senado, Renan Calheiros. Na sequência, está o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski. Em setembro, ele dará lugar na presidência do STF à ministra Carmem Lúcia.

Fonte: O Globo

Na saída, movimentos sociais devem estar ao lado de Dilma

07/05/2016

Dilma planeja deixar o Palácio do Planalto descendo a rampa

Auxiliares temem que gesto da presidente pareça o fim do governo

A presidente Dilma Rousseff participa de cerimônia no Palácio do Planalto antes da votação do impeachment no plenário do Senado – Evaristo Sa / AFP / 6-5-2016

Dando como certo que o plenário do Senado vai autorizar a abertura do processo de impeachment, há uma discussão no governo sobre a conveniência de a presidente Dilma Rousseff descer a rampa do Palácio do Planalto, acompanhada de movimentos sociais, ao ser notificada de seu afastamento do cargo por até 180 dias.

Auxiliares da presidente argumentam que esse gesto simbólico passará a imagem de que o governo acabou, contrariando a estratégia de Dilma e do PT de manter a militância e os movimentos sociais mobilizados, e de transformar o Palácio da Alvorada em um bunker até o Senado julgar o mérito do processo.

Dilma quer descer a rampa, e entidades como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) já estão mobilizados para isso. O objetivo da presidente é deixar o governo “aplaudida pelo povo”, nas palavras de assessores do Planalto, e fazer um discurso nessa linha.

A conveniência do gesto está sendo também discutida pelos movimentos sociais:

— Há um debate em torno disso. Alguns ponderam que fica a imagem de que estamos saindo de vez. Mas ela vai ter que sair de qualquer jeito, porque não vamos ficar entrincheirados no Planalto, então que seja pela porta da frente, de cabeça erguida, abraçada pela massa e, principalmente, fazendo um discurso de que vai resistir ao golpe. É melhor do que sair escondida em um carro — disse um dirigente da CUT.

No governo, defensores desse rito dizem ainda que Dilma não terá outra oportunidade de descer a rampa, já que não poderá despachar mais no Planalto depois de afastada.

A mobilização para a votação no Senado será menor do que do que na votação da Câmara, pelo menos no que depender da CUT. Dessa vez, por contenção de despesa, a central sindical vai deslocar para a capital apenas integrantes de estados do entorno, como Mato Grosso, Mato Grosso de Sul e Goiás. No restante do país, a orientação é fazer mobilizações locais.

CRONOLOGIA

11 de maio. O plenário do Senado vota o parecer da comissão do impeachment. Os 81 senadores decidirão pela admissibilidade da denúncia, ou seja, se devem abrir processo contra a presidente, ou não. Aprovada a admissibilidade, Dilma será automaticamente afastada do cargo por até 180 dias. Se a admissibilidade for rejeitada, o processo é extinto. A abertura de processo de impeachment tem que ser aprovada por maioria simples, com a presença em plenário de pelo menos 41 senadores.

Até a sexta-feira 13. Entre os dias 11 e 13, a presidente é comunicada sobre a decisão do Senado, recebendo a notificação pelo primeiro-secretário da Casa. Se o processo não for encerrado em 180 dias,a presidente retoma as funções.

Após a notificação. A comissão especial começa seus trabalhos. A presidente terá um prazo para apresentar sua defesa formal. Há uma dúvida sobre o prazo que ela terá, mas a tendência é que sejam 20 dias, como ocorreu com Fernando Collor, em 1992.

Produção de provas. A comissão poderá fazer diligências e convocar testemunhas de acusação e de defesa. A comissão realiza um segundo parecer sobre se existem realmente provas e se a presidente deve sofrer impeachment ou não. É a chamada produção do “juízo de pronúncia”. O parecer é votado pela comissão, devendo ser aprovado, novamente, por maioria simples.

Nova votação. A sentença de pronúncia é votada pelo plenário do Senado, devendo ser aprovada novamente por maioria simples.

Fase final. É lido em plenário o chamado libelo acusatório, uma espécie de resumo de todo o processo, elaborado pelos denunciantes, no caso, os juristas. Nesse momento, o presidente do Senado envia os autos do processo ao presidente do Supremo Tribunal Federal, marca a data do julgamento e convida o presidente do STF a presidir a sessão do julgamento do impeachment.

Julgamento. É presidido pelo presidente do STF. Por isso, o presidente do Senado tem direito a votar nessa fase final. O impeachment precisa ser aprovado por 54 dos 81 senadores. Se aprovado, Dilma é condenada por crime de responsabilidade, perde o cargo e fica inelegível por oito anos. A previsão é que o julgamento seja em setembro.

Fonte: O Globo

Crise não chegou ao Judiciário?

28/04/2016

Câmara votará com urgência reajuste de até 41% do Judiciário

Se for aprovado, projeto terá impacto de R$ 1,1 bi no Orçamento de 2016

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, e outros ministros da Corte – Jorge William (27-04-2016) / Agência O Globo

A Câmara dos Deputados poderá votar na semana que vem o projeto que reajusta o salário dos servidores do Poder Judiciário. Os deputados aprovaram nesta quinta-feira, por 277 votos a 4, a urgência do projeto, uma das “pautas-bomba” que o governo tinha conseguido segurar, que aumenta o salário da categoria entre 16,5% e 41,7% de forma escalonada. O projeto, que terá impacto de R$ 1,1 bilhão no Orçamento de 2016, agora poderá ser pautado a qualquer momento no plenário, sem ter que passar por comissões.

Pelo texto, o aumento a ser concedido será escalonado e pago em oito parcelas, de janeiro de 2016 – incluindo o pagamento retroativo aos meses deste ano – a julho de 2019. Líderes de diversos partidos se reuniram recentemente com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, e deram apoio à proposta. Na justificativa de seu projeto, o STF diz que as carreiras de nível superior dos Poderes Legislativo e Executivo têm remuneração variando de R$ 14,2 mil e R$ 26 mil, para os níveis inicial e final. E que a remuneração de um Analista Judiciário está defasada, atualmente entre R$ 8,8 mil e R$ 13,2 mil.

No ano passado, um veto de Dilma impediu aumentos nas faixas de 53% a 78% para as várias carreiras do Judiciário. O Executivo alegou falta de recursos para bancar esse aumento. Um acordo entre Executivo e Judiciário, após o veto, derrubou essas faixas para patamares de 16,5% a 41,7%.

Em novembro de 2015, em uma vitória apertada do governo, o Congresso manteve, por uma diferença de apenas seis votos, o veto de Dilma ao reajuste dos servidores. A proposta concedia um aumento médio de 56% à categoria, chegando em alguns casos a 78,56%. A derrubada deste veto causaria um rombo de R$ 36,2 bilhões aos cofres públicos em quatro anos, segundo o Ministério do Planejamento. A área econômica trabalhou

 

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse nesta quinta-feira que ainda não tem acordo para votar o projeto que reajusta o salário dos servidores do Judiciário.

– O compromisso dos líderes foi votar a urgência agora, não o mérito. Não sei (quando será votado o projeto), vai depender de várias conjunturas. Não tem acordo ainda para a votação do mérito – disse o peemedebista.

Fonte: O Globo

 

Reforma da Previdência de Temer

28/04/2016

Nova previdência viola direitos do servidor

As regras de transição anteriores serão extintas

Rudi Cassel*

A Constituição Federal foi promulgada em 1988. De lá para cá, o Regime Próprio de Previdência do Servidor Público (RPPS) previsto em seu artigo 40 foi modificado seis vezes. A primeira mudança veio pela Emenda Constitucional nº 3, de 1993, enquanto as reformas mais importantes foram as mediadas pelas Emendas Constitucionais nº 20 e nº 41. Não suficiente, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 287, protocolada em 5 de dezembro de 2016, pretende realizar a modificação mais radical até aqui idealizada. Mais que uma reforma, estabelece uma nova previdência para servidores. O que a substituirá, no futuro, é algo que somente a certeza sobre o tipo de Estado que se deseja responderá. A proposta viola o direito – em exercício – a regras de transição, o ato jurídico perfeito, a vedação ao retrocesso social, o caráter contributivo e a exigência de fundamentação atuarial.

As sucessivas alterações previdenciárias refletem algo mais grave, ligado ao retrocesso de institutos incorporados ao Estado de Direito, no decorrer da matriz liberal-social-democrática que sucedeu ao absolutismo monárquico. No caso brasileiro, a Constituição andou mais rápida que a realidade, retrocedendo antes de concretizar seus desejos originais.

Em paralelo, as apostas econômicas dominantes se recusam a dialogar com alternativas para que a vida de todos melhore, conduta turbinada pela apatia das ideologias de esquerda, supostamente aniquiladas pela queda de determinados Estados e o consequente fim da História.

O resultado da redução gradativa dos institutos sociais do Estado de Direito é sensível, ameaçando a previdência, o trabalho e a sobrevivência daqueles que não alcançarem os requisitos exigidos, progressivamente mais difíceis de serem atingidos.

Em 1988, o tempo de serviço se sobrepunha à exigência de idade mínima no serviço público, até então desnecessária. Incluída a idade mínima de 60 anos para o homem e 55 anos de idade para a mulher, passou-se a se exigir também o tempo de contribuição de 35 e 30 anos, respectivamente, tudo a partir da EC nº 20, de 1998. Na oportunidade, aos servidores que estavam no regime foram exigidos pedágios para manterem aposentadorias e pensões na forma proporcional ou integral. Ao futuro, permitiu-se a criação da previdência complementar.

Cinco anos depois, a EC nº 41, de 2003, alterou os critérios de cálculo das aposentadorias e das pensões, com graves prejuízos, como a perda da paridade e o cálculo pela média remuneratória. Aos trabalhadores antigos foram criadas regras de transição com acréscimo de requisitos distribuídos entre idade mínima, tempo de contribuição e carências no serviço público, na carreira e no cargo, para a manutenção de algumas garantias. Aos novos, que ingressaram após a instituição do regime complementar sobrevindo em 2013, o teto de benefício passou a ser o mesmo do Regime Geral de Previdência Social.

Diante de algumas arestas, em 2005, 2012 e 2015 foram realizadas alterações pontuais, seguidas pelas constantes reclamações dos governos e dos meios de comunicação de massa, sincronizadas sobre o suposto déficit previdenciário (matéria de muitas divergências e abordagens que apresentam superávit pela seguridade), em nítida preferência aos planos privados de benefício, administrados por instituições financeiras que – há tempos – desejam tais investimentos.

Não por acaso, os noticiários atuais dedicam longo tempo à propaganda e orientação sobre a escolha entre múltiplos produtos de seguridade social, ofertados pelos bancos. Trata-se da migração do regime de repartição para o de capitalização; migração parcial, por enquanto.

A evidência de que se deseja uma solução menos social à previdência veio com a PEC 287, que afeta todos os servidores, estabelecendo nova transição apenas aos trabalhadores com idade igual ou superior 50 (homens) e 45 (mulheres) anos. Se aprovada a proposta, praticamente tudo o que se conhece por requisitos e critérios para aposentadorias e pensões será alterado. A idade mínima para homens e mulheres passará a 65 anos, o tempo de contribuição mínimomudará para 25 anos e o patamar inicial dos proventos da aposentadoria será de 51% da média da remuneração contributiva, acrescido de 1% por ano considerado no cálculo. Aqui, um servidor com 65 anos de idade e 35 anos de contribuição receberá 86% (51 + 35) da média, enquanto uma servidora com 65 anos de idade e 30 anos de contribuição receberá 81% (51 + 30) da média. Requisitos de idade e tempo foram equiparados em suas consequências para homens e mulheres, o que significa que ambos precisam trabalhar 49 anos (recolhendo contribuição previdenciária) se desejarem 100% da média remuneratória. Para fecharem 49 anos de contribuição aos 65 anos de idade, devem começar aos 16 anos.

As regras de transição anteriores serão extintas. Os servidores estarão sujeitos às novas regras, salvo aqueles que se aposentaram ou preencheram os requisitos para tanto antes da publicação da nova emenda. Os servidores com idade igual ou superior a 50 (homem) e 45 (mulher) anos serão submetidos a uma nova transição que exige 50% a mais de tempo contributivo restante. A esse grupo, somente aqueles que ingressaram até 31/12/2003 ainda teriam alguma possibilidade de manter paridade e integralidade (sem média), desde que trabalhem 50% a mais do que faltar para o tempo de contribuição de 35 (homem) e 30 (mulher) anos e atinjam, respectivamente, 60 e 55 anos de idade, além de carências no serviço público, na carreira e no cargo.

O teto de benefício do Regime Geral de Previdência Social se estenderá a todos que ingressaram antes do Regime de Previdência Complementar e não integrarem o seleto grupo mencionado no parágrafo acima. Se desejarem receber mais, terão que optar pelo complemento de contribuição para algum regime de capitalização (Funpresp ou outras instituições que ofereçam planos de previdência complementar).

Regimes de capitalização são de contribuição (não de benefício) definida e investem no mercado financeiro, realimentando o que resta de esperança no modelo econômico vigente, sujeito a ciclos de recessão indesejáveis e reiterados, com pequenos intervalos entre um e outro. Na capitalização, sabe-se o valor da contribuição, mas não se sabe qual será seu resultado.

Aos pensionistas, aplicar-se-á a regra da metade mais 10% por dependente, limitada ao valor da aposentadoria a que o servidor teve ou teria direito. Em outras palavras: na morte do instituidor da pensão, o cônjuge recebe 50% do que teria direito o servidor e se tiver dois filhos na condição de dependentes, cada um recebe 10% até que se tornem maiores.

As aposentadorias especiais dos policiais e daqueles beneficiados pela Súmula Vinculante nº 33 do Supremo Tribunal Federal serão modificadas, submetendo seus destinatários a regras bem menos interessantes. No exemplo do policial, permite-se que se aposente com redução de até 10 anos no requisito de idade (55 anos) e redução de até 5 anos no tempo de contribuição (20 anos). No entanto, o cálculo será de 51% da média remuneratória (sem paridade). Ao que tudo indica, os proventos de aposentadoria seriam reduzidos a 71% da média, algo bem inferior ao que pensavam representar a aposentadoria especial na sistemática da Lei Complementar 51, de 1985. A ausência de paridade significa que os proventos da aposentadoria não serão reajustados na mesma proporção dos servidores em atividade, seguindo a mesma sistemática de correção dos benefícios do RGPS, administrados pelo INSS.

A aposentadoria por invalidez deixa de existir e, em seu lugar, o artigo 40 da Constituição passará a prever a aposentadoria por incapacidade permanente para o trabalho (que não admita readaptação), garantindo 100% da média remuneratória somente no caso de acidente de serviço. Nos demais casos, vale a regra de 51% da média, mais 1% por ano contributivo. Justamente por isso, a compulsória aos 75 anos de idade foi remodelada para pior. A aposentadoria por idade foi extinta.

Há vários aspectos de aparente, senão evidente, inconstitucionalidade na proposta. Em primeiro lugar, viola-se o direito a regras de transição específicas trazidas pelas Emendas 41 e 47, com destinatários determinados, que iniciaram o exercício do direito no momento da publicação das emendas. Não foram regras gerais, mas de proteção específica que incidiram sobre todos os que ingressaram até 31/12/2003 (sem contar a dupla proteção aos que ingressaram até 16/12/1998). A transição estabelecida não conferiu expectativa, mas exercício imediato de direito que não pode ser alterado 13 anos depois, sob pena de violação ao artigo 5º, inciso XXXVI, da Constituição.

A vedação ao retrocesso social, princípio de particular importância nos direitos previdenciários, foi abandonado, como se nada representasse. O ato jurídico perfeito constituído para os servidores que preencheram o requisito exigido pelo “contrato” constitucional (o Estado garante, desde que), ou seja, terem ingressado até 31/12/2003, é conjugado com o direito adquirido e ambos têm a proteção constitucional, não podendo ser alterados.

Para piorar, o desrespeito ao caráter contributivo do regime (consequentemente, retributivo) se une à ausência de demonstração atuarial incontroversa da necessidade das mudanças, convergindo para o confisco tributário e remuneratório dos servidores públicos.

Há muitos argumentos que podem ser levantados contra a PEC 287, essenciais à segurança jurídica. Se, em nome de flutuações econômicas (ou pretensamente econômicas), tudo é possível, desestruturam-se os elementos que conferem legitimidade às instituições e conformam a cidadania. O risco de ruptura não é apenas do serviço público, mas do Estado que se acredita democrático e de direito.

* Rudi Cassel, advogado especialista em Direito do Servidor Público e sócio do escritório Cassel Ruzzarin Santos Rodrigues Advogados

Fonte: Blog do AFR

Proposta de reforma da Previdência está pronta e vai ao Congresso na 3ª

Regras mudam para PMs e bombeiros; governo discutirá com partidos e sindicatos

Mudanças. Agência do INSS em Copacabana: Planalto previu regras mais duras, para poder negociar no Congresso – ANTONIO SCORZA / Agência O Globo/24-11-2016

O Executivo pretende ainda ampliar a lista de receitas tributárias que os entes da federação poderão oferecer como garantia nas operações de crédito para antecipação de recursos. Hoje, a Constituição limita esse rol a tributos sobre a renda, IPVA e Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), entre outros.

O presidente Michel Temer se reúne com as centrais sindicais, federações e líderes dos partidos da base na noite de segunda-feira para apresentar a reforma. Antes, ele apresentará o texto aos líderes dos partidos. Será uma proposta dura, resumiu uma fonte do Planalto, para que dê margem ao processo de negociação com o Congresso.

Vai atingir os atuais trabalhadores dos setores púbico e privado, inclusive rurais, com até 50 anos (homens) e 45 anos (mulheres e professores), que não poderão se aposentar antes dos 65 anos — independentemente do tempo de contribuição. Quem estiver acima dessa faixa etária será enquadrado na regra de transição, pagando pedágio de 50% (adicional sobre o tempo de contribuição que faltava) para requerer aposentadoria pela legislação atual.

Segundo os técnicos que acompanham o assunto, por saber que a reforma enfrentará forte resistência, o governo optou por encaminhar medidas mais duras. Eles explicam que ficará mais fácil negociar no Congresso com normas mais rígidas do que encaminhar uma PEC mais benevolente, que poderia ser excessivamente desvirtuada. O texto já foi encaminhado à Casa Civil.

LOAS DESVINCULADO DO MÍNIMO

De acordo com a última versão do texto da PEC, os benefícios assistenciais (Loas, concedido a idosos e deficientes de baixa renda) não mais seguirão a política de reajuste do salário mínimo, que permite ganhos reais. A idade para receber o benefício subirá dos atuais 65 para 70 anos. As pensões por morte também serão desatreladas do salário mínimo. O governo pretendia desvincular o piso previdenciário do mínimo, mas chegou à conclusão que isso é cláusula pétrea.

A PEC vai mexer também no cálculo do benefício. Segundo um técnico envolvido nas discussões, o valor deverá cair para 51% sobre a média das contribuições mais 1% por ano adicional de contribuição. Desta forma, quem começou a trabalhar aos 16 anos, por exemplo, com 49 anos de contribuição alcançará a idade mínima de 65 anos e poderá receber o benefício integral. Para estimular as pessoas a postergarem a aposentaria, a idade para a aposentadoria compulsória subirá de 70 para 75 anos para todos os servidores públicos.

Além de vetar o acúmulo de benefícios (aposentadoria e pensão), a proposta reduz o valor da pensão para 50%, mais 10% por dependente, no limite de 100%, para todos os trabalhadores. A reforma cria ainda uma contribuição obrigatória para os trabalhadores rurais, que atualmente podem se aposentar apenas com a comprovação de atividade no campo. A PEC vai também alterar as regras de aposentadoria especial de quem trabalha em atividade de risco ou lida com agentes nocivos à saúde, nos setores público e privado. Hoje, eles se aposentam com 15, 20 e 25 anos de contribuição, conforme a área de atuação, sem idade mínima.

MUDANÇA PARA ATIVIDADE DE RISCO

Atendendo ao pleito dos governadores, o Executivo também decidiu elevar a alíquota de contribuição dos servidores da União, que funciona como piso para os regimes estaduais, de 11% para 14%. Mas não dentro da PEC. Como essa é uma matéria de lei ordinária, será encaminhado um projeto à parte. Os governadores já se comprometeram a fazer o mesmo em seus estados.

As Forças Armadas, no entanto, ficaram de fora da PEC, devido à reação dos militares. A ideia é alterar o regime previdenciário desses servidores posteriormente. Já em relação aos parlamentares, que seguem as normas de aposentadoria dos servidores públicos, Temer ainda vai bater o martelo se eles serão incluídos ou não na reforma, com benefício limitado ao teto do INSS (R$ 5.189).

A PEC vai também alterar as regras de aposentadoria especial de quem trabalha em atividade de risco ou lida com agentes nocivos à saúde, nos setores público e privado. Hoje, eles se aposentam com 15, 20 e 25 anos de contribuição, conforme a área de atuação, sem idade mínima.

Fonte: O Globo

O Brasil está envelhecendo. As pessoas têm vivido mais, enquanto a taxa de natalidade despenca. Com grande impacto sobre a população economicamente ativa, essa transformação tem aberto espaço para discussões sobre a reforma da Previdência e a implantação de uma idade mínima para aposentadoria – a proposta do governo é de 65 anos. Mas mercado de trabalho não parece pronto para encarar esta realidade: depois dos 50, a carreira no Brasil fica mais difícil.

Uma pesquisa da consultoria PwC, em parceria com a EAESP-FGV, por exemplo, mostrou que para 58% das empresas a idade ainda é um aspecto importante na hora do recrutamento e metade delas prefere contratar um profissional mais jovem. Além disso, 73% das companhias não oferecem oportunidades de carreira a veteranos.

A perspectiva ainda imatura do mercado brasileiro é preocupante. E não é para menos. O número de trabalhadores mais velhos tem crescido em um ritmo acelerado e a projeção do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) é que em 2040 48% da população ativa no Brasil tenha mais de 45 ano

As dificuldades são as mesmas quando se estabelece um recorte entre as empresas de elite na gestão de pessoas. Segundo o último relatório da consultoria Great Place to Work, profissionais acima de 55 anos são apenas 3% dos quadros de funcionários das melhores organizações do país para se trabalhar. Metade do pessoal tem entre 20 e 34 anos. Para Daniela Diniz, gestora de conteúdo do GPTW, durante muito tempo as companhias buscaram maneiras de atrair e reter jovens, devido ao próprio perfil da força de trabalho nacional, mas o contexto pede novos contornos. “A pirâmide populacional está mudando. O mercado também precisa mudar.”

Mão de obra cara

A professora de Direito da Universidade Positivo Cláudia Salles Vilela Vianna avalia que o alto custo dos profissionais maduros é o fator que mais pesa na hora da contratação. Em geral, os profissionais mais experientes ganham mais, o que, somado à alta tributação sobre o trabalho, faz com que as empresas corram atrás de mão de obra jovem. A pesquisa da PwC mostrou que 70% das organizações realmente consideram mais caro o profissional com mais idade e 32% delas admitem não possuir gente mais velha por acreditarem que esse perfil exige maior remuneração.

Segundo uma pesquisa do Ipea sobre mercado de trabalho, essa questão pode ser verificada sobretudo no setor industrial brasileiro, onde o salário aumenta com a idade e a produtividade cai. Para driblar essa questão, muitas companhias recorrem a medidas como a aposentadoria obrigatória e a readmissão de colaboradores aposentados de maneira informal e com salários reduzidos.

O problema é que estas saídas quase sempre resultam na precarização das condições de trabalho. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 33% dos profissionais com mais de 50 anos atuam por conta própria, proporção que é de apenas 17% entre os mais jovens.

Atualização de profissionais depende de apoio das empresas

O estudo da PwC também revelou que 80% das empresas acreditam que profissionais mais velhos têm dificuldade em lidar com a tecnologia. Além disso, na visão de 69% das organizações, trabalhadores com mais idade têm mais dificuldade em se manterem atualizados com relação às novas exigências do mercado. Mas, para especialistas, a atualização dos veteranos também depende das companhias e boa parte da fórmula desse upgrade contempla ações de integração inter geracional por meio das quais os mais novos ensinam os mais velhos – e vice-versa. Acontece que pouca coisa tem sido feita pelas companhias nesse sentido e, conforme mostra a PwC, 86% das organizações não possuem ações de integração.

A Henkel, multinacional do setor químico, desenvolveu um programa de mentoria reversa que a inseriu entre as exceções desse contexto. Por meio da iniciativa, profissionais mais velhos recebem o acompanhamento de mentores novatos, que os orientam sobre mídias sociais e ferramentas tecnológicas.

De acordo com a diretora de RH da empresa para Brasil, Argentina e Chile, Valéria Gladsztein, a ideia da companhia, que possui 13% dos seus colaboradores acima dos 50, é não apenas atualizar os mais velhos como também possibilitar ricas trocas aproveitando os benefícios de possuir várias gerações em um mesmo ambiente. “Encaramos as dificuldades como uma oportunidade para desenvolver pessoas”, conta.

Mercado começa a descobrir qualidades dos veteranos

Embora os dados mostrem um mercado repleto de limitações e uma urgência por mudanças, não faltam perspectivas otimistas frente ao problema. Para o gerente da consultoria Michael Page em Curitiba, Humberto Wahrhaftig, ainda que as companhias em geral não disponham de programas específicos para a contratação e retenção de veteranos, as restrições à idade têm diminuído e grande parte das empresas já está abrindo as portas para gente mais velha, sobretudo em áreas estratégicas.

No setor de varejo, que, só no ano passado, gerou 27,8 mil vagas para pessoas acima dos 50, uma das organizações mais adiantadas em relação a esta questão é o Grupo GPA, responsável pelas marcas Extra e Pão de Açúcar. A companhia oferece oportunidades específicas para candidatos com mais de 55 anos e conta com funcionários desta faixa etária nas mais diversas áreas, como análise contábil, caixa, chefia de operação e seção, consultoria, gerência e fiscalização.

De acordo com o CEO da Maturijobs, Mórris Litvak, outro mercado que está se abrindo gradativamente para os mais velhos é o de startups. O empresário conta que o conhecimento dos veteranos tem atraído a atenção de jovens empreendedores, enfraquecendo os preconceitos do mercado.

Morris conta que criou a Maturijobs há um ano e meio e desde então tem se debruçado sobre pesquisas sobre o envelhecimento da população. A startup, cujo objetivo é encontrar oportunidades para profissionais maduros, surgiu quando o empreendedor percebeu que o mercado brasileiro estava envelhecendo e o preconceito contra os veteranos continuava. Neste ano, a Maturijobs criou um site e tem 5 mil pessoas cadastradas em todo o país. A procura das empresas também tem aumentado. Até agora, já são 140. “No começo, apareciam apenas organizações menores, mas grandes também vão chegando”, comemora.

Na atividade

População economicamente ativa cresce, mas as empresas não parecem adaptadas à mudança.

Aumento de profissionais ativos acima dos 50

Em milhões

Como atuam

Ativos, em milhões

Como as companhias encaram este cenário

Fonte: Pesquisa mensal de emprego, IBGE/Fevereiro de 2014; Envelhecimento da força de trabalho no Brasil – PWC/EAESP-FGV, Março de 2013. Infografia: Gazeta do Povo.

Temer quer alíquota de 20% para servidores

Contribuição maior seria cobrada pelos próximos cinco ou seis anos

Os servidores públicos municipais, estaduais e federais também deverão ser atingidos pela reforma da Previdência (voltada, principalmente, para a iniciativa privada). Segundo uma fonte ligada ao grupo que trata do assunto, o governo federal estuda incluir nas mudanças a chamada “contribuição de alíquota especial” para a Previdência de todo o funcionalismo do país, cujo percentual passaria dos atuais 11% para até 20%.

O aumento da alíquota de recolhimento, que deverá gerar polêmica entre os servidores, ainda não está fechado. Ontem, representantes de sete estados, além do governador licenciado do Rio, Luiz Fernando Pezão, foram a Brasília discutir o assunto com o presidente Michel Temer.

Ainda segundo a fonte, a contribuição maior seria cobrada pelos próximos cinco ou seis anos, período chamado de “agudo” pela equipe interministerial que cuida do caso, para tentar diminuir o déficit dos Regimes Próprios de Previdência da União, dos estados e dos municípios. Após este período, a ideia seria reduzir a contribuição progressivamente, até o percentual ser fixado em 14% — índice que já era defendido por vários governadores. Hoje, todos os servidores ativos das esferas federal e estadual contribuem com 11% de seus salários para seus respectivos seus fundos de Previdência.

A medida é uma tentativa do governo federal de ajudar estados e municípios a diminuir os rombos nos fundos previdenciários. Hoje, o Rioprevidência — de aposentados e pensionistas do Estado do Rio — passa por sérias dificuldades financeiras, com um déficit de R$ 12,5 bilhões. Passando por restruturação desde 2013, a expectativa é que as contas do fundo só atinjam o equilíbrio entre 2050 e 2055.

Hoje só se paga sobre o que ultrapassa o teto

O Rioprevidência é o principal peso sobre as contas do Estado do Rio. Dos R$ 17,2 bilhões necessários para este ano, somente R$ 5 bilhões serão garantidos pelas contribuições dos servidores. Além disso, A União estuda mudar a contribuição de aposentados e pensionistas. Caso a ideia seja aprovada, os inativos terão que contribuir sobre todo o valor recebido, e não apenas sobre o que ultrapassar o teto pago pelo INSS, de R$ 5.189,82, como acontece atualmente.

Hoje, os inativos da União e do Estado do Rio recolhem 11% sobre o que vai além do teto do INSS. Nos municípios, fica a critério de cada prefeitura. No Rio, apenas os ativos contribuem.

Fonte: Blog do AFR

Governo quer acabar com paridade entre servidores ativos e inativos

Proposta prevê que inativos não tenham mais direito a reajuste dado a quem está na ativa

 

O governo interino pretende acabar de vez com a paridade entre servidores ativos e inativos, que assegura o mesmo reajuste salarial para todos e na mesma data. A medida consta da proposta de reforma da Previdência que está sendo desenhada e afetaria todos os funcionários que ingressaram no serviço público antes de 2003 e que ainda não se aposentaram, tanto da União quanto de estados e municípios. Esses trabalhadores passariam a ter direito somente à reposição da inflação (medida pelo INPC), no momento de reajustar o benefício. O mecanismo já vigora para quem entrou depois de 2003, desde a reforma feita no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Para trabalhadores do setor privado, a ideia é desvincular o piso previdenciário da política de reajuste de salário mínimo, que permite ganhos reais e exerce forte pressão sobre as contas da Previdência. Para os aposentados que ganham acima do mínimo, o valor do benefício já é corrigido pela inflação — conforme determina a Constituição, a fim de assegurar o poder de compra.

Segundo técnicos envolvidos nas discussões, o fim da paridade dos servidores teria impacto pouco relevante a curto prazo, porque não há perspectiva de ganhos reais para esses trabalhadores. Ao contrário, o que se busca é fixar um teto para os gastos públicos. Mas, a médio e longo prazos, a medida representaria uma sinalização positiva para o mercado, além de evitar impactos de eventuais reajustes para o regime de aposentadoria. Esses técnicos lembram que, entre 2003 e 2010, o funcionalismo teve um ganho real expressivo. Segundo levantamento do consultor da Comissão de Orçamento da Câmara dos Deputados, Leonardo Rolim, o salário médio per capita dos servidores teve um ganho anual acima da inflação de 28,7% — valor, em tese, incorporado pelos inativos.

— Com o fim da paridade para quem entrou a partir de 2003, o problema já foi resolvido para o futuro, mas ainda precisamos resolver o passivo (referente a quem entrou antes) — disse um interlocutor, ressaltando que não necessariamente haverá prejuízos para o servidores, sobretudo na atual conjuntura.

MULHERES TERIAM TRANSIÇÃO MAIS SUAVE

A intenção do presidente interino, Michel Temer, é enviar ao Congresso Nacional, antes das eleições municipais de outubro, a proposta de reforma da Previdência, cujo ponto principal é estabelecer os 65 anos como idade mínima para aposentadoria de todos os trabalhadores, tanto do setor público como do privado. Aqueles com até 50 anos de idade serão incorporados às novas normas, mais rígidas que as atuais. Quem tiver mais de 50 anos terá uma regra de transição, com pedágio de 50% (adicional a ser aplicado sobre o tempo que falta para requerer o benefício dentro das normas atuais).

Esse mecanismo, na avaliação dos técnicos que estão formatando a proposta, já assegura a mulheres e professores uma transição mais leve, como deseja Temer. O argumento para isso é que o ponto de partida são as regras atuais, mais favoráveis a esses dois grupos, ao permitir que eles possam pedir aposentadoria cinco anos antes dos demais trabalhadores.

Os técnicos lembram que a média de idade em que os trabalhadores requerem a aposentadoria é de 53 anos para as mulheres e 55 anos para os homens. Em uma simulação, considerando que a regra de transição (o pedágio) seja aprovada, trabalhadores que hoje têm mais de 50 anos poderão requerer o benefício aos 54,5 anos, no caso das mulheres — que ficariam mais um ano e meio na ativa —, aos 57,5 anos, no caso dos homens, ou seja, apenas dois anos e meio a mais.

Outra possibilidade é fixar idade mínima de 65 anos para os homens e de 62 anos para as mulheres, por um determinado período. A decisão será do presidente da República, mas, se prevalecer a posição da equipe econômica, todos convergirão para a idade mínima de 65 anos no fim da fase de transição — que deve durar 15 anos. Para isso, mulheres e professores seguirão uma escala, em que a idade subirá periodicamente, sendo que de forma mais rápida para os mais favorecidos atualmente.

Há, ainda, sobre a mesa, os seguintes pontos: benefício proporcional para quem se aposenta por invalidez; redução do valor da pensão para 60%; e fim do fator previdenciário (fórmula progressiva 85/95), considerando idade e tempo de contribuição, o que vai exigir maior tempo na ativa para receber o benefício integral. Outra medida de impacto nas contas públicas é a restrição ao acúmulo de benefícios (pensão e aposentadoria), segundo os técnicos.

De acordo com levantamento do governo, com base em dados da Pnad, do IBGE, a proporção de pensionistas que acumulam benefícios subiu de 9,9% em 1992 para 32% em 2013, o que representa atualmente um universo de dois milhões de segurados. A tendência é que o percentual continue em alta devido ao aumento da participação da mulher no mercado de trabalho e ao fato de que há pensionistas que não recebem aposentadoria porque ainda não completaram os requisitos, mas que vão adquirir as condições no futuro.

Fonte: O Dia

Regra fiscal de Temer desmonta serviços públicos e leva à privatização

 

 

 

Anunciada pelo governo interino como a salvação para a economia nacional, a regra fiscal estabelece um novo teto para o gasto público, que terá como limite a despesa do ano anterior corrigida pela inflação. De acordo com a proposta, a restrição só se aplica aos gastos primários – ou seja, exclui as despesas de natureza financeira – e valerá por 20 anos. A PEC teve sua admissibilidade aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, nesta terça (9).

Um levantamento da Consultoria de Orçamentos, Fiscalização e Controle do Senado aponta que, caso a regra seja aprovada, o impacto nas áreas sociais será enorme. Segundo o estudo, sem os efeitos da PEC, o total de investimentos alocados e previstos para a Educação, nos anos de 2015, 2016, 2017 e 2018 é de R$ 382,7 bilhões. Com a PEC em vigor, os gastos do mesmo período ficariam em R$ 127,2 bilhões, o que significa R$ 255,5 bilhões a menos.

Na Saúde, a situação não seria muito diferente. Sem a restrição, os investimentos destes quatro anos seriam equivalentes a R$ 420,2 bilhões. Com a regra fiscal, passariam a R$ 252 bilhões – ou R$ 168,2 bilhões a menos.

Keynesianismo fisiológico

O governo insiste na medida, apesar de seu caráter impopular, alegando que prioriza o equilíbrio fiscal do governo. Segundo Guilherme Mello, professor da Unicamp, a justificativa não condiz com a prática da gestão, que oferece benesses a seus aliados, com custos para as contas públicas.

“A PEC é uma construção que vai muito além de qualquer discurso de ajuste fiscal, porque, no curto prazo, não vai ter nenhum ajuste fiscal. No curto prazo, ao contrário, você está observando o que nós estamos chamando de keynesianismo fisiológico, que é a ideia de liberar verbas para parlamentares, aumentos, salários para servidores públicos, para ganhar apoio político. Não é uma medida de ajuste fiscal como aquilo que era cobrado, por exemplo, do governo anterior”, compara.

Para ele, a regra fiscal de Temer se contrapõe às garantias sociais explicitadas na Constituição Federal. “É uma medida de reforma do Estado, praticamente de reforma da Constituição, dos objetivos mais gerais da Constituição, que é o provimento de serviços públicos, de Saúde, Educação, o direito à moradia, à cultura, etc. Porque, por essa regra, se você congela os gastos no nível atual, assim que a economia voltar a crescer – e ela há de voltar, porque não há recessão que não acabe –, a proporção do gasto público em relação ao PIB vai cair e, com isso, você vai inviabilizar cada vez mais o Sistema Único de Saúde, a universidade pública, a escola pública”, avalia.

Contra o projeto da Constituição Cidadã

Mello prevê que, ao reduzir o papel do Estado, a PEC abre as portas à iniciativa privada. “É um projeto de reforma do Estado que vai levar, em última instância, à privatização de praticamente todos os serviços públicos, o que é muito positivo para as empresas que vão se beneficiar dessa privatização – elas vão ganhar muito dinheiro, vão abocanhar uma fatia do mercado cada vez maior – e é muito negativo para a população em geral”, diz.

Segundo o economista, a PEC prejudica a maior parte dos brasileiros, aqueles que dependem do serviço público, que vai estar cada vez mais precarizado. “E quando [essa aparcela da população] tiver alguma renda, vai ter que gastá-la para comprar um serviço privado, também muito precário, como por exemplo essa ideia do plano de saúde popular”, afirma.

Questionado se a PEC – tratada como tema fiscal –, terminaria por engessar a atuação dos governos, independentemente do projeto aprovado nas urnas, Mello respondeu: “A ideia é um pouco essa, porque você vai fazer reformas na Constituição, o que exige um quórum muito qualificado. E essas reformas constitucionais são de difícil reversão. Então você usa o momento de crise, usa o fato de ter um governo não eleito e aprova essas medidas para depois inviabilizar qualquer tipo de retomada do projeto anterior, do projeto da Constituição, de um estado de bem-estar social”.

O fantasioso mundo de Meirelles

Na contramão daquilo que indicam estudos e projeções, o governo tem repetido que o teto de gastos irá melhorar a vida das pessoas, apesar de representar o corte drástico de despesas com Saúde, Educação, benefícios sociais e investimentos.

“Seguimos convictos de que o limite constitucional de gastos federais será aprovado pelo Congresso no menor prazo possível. O resultado será uma transformação duradoura na trajetória das contas públicas, garantindo o realismo e o equilíbrio estrutural fundamentais para que o Brasil retome o desenvolvimento sustentável e ofereça um melhor padrão de vida a todos. Essa, afinal, deve sempre ser a meta de toda política econômica”, escreveu o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, na Folha de S. Paulo do último domingo.

Cortes nos programas sociais afetam os jovens, constata audiência

Agência Câmara

O deputado Chico Lopes afirmou que “cabe ao Estado aprofundar as políticas de inclusão social, e não esvaziá-las, como vem fazendo o presidente interino."  O deputado Chico Lopes afirmou que “cabe ao Estado aprofundar as políticas de inclusão social, e não esvaziá-las, como vem fazendo o presidente interino.”

Abrindo a reunião, o deputado Chico Lopes (PCdoB-CE), presidente da CLP, afirmou que “o País precisa reconhecer que o cidadão tem que ter seus direitos respeitados e cabe ao Estado aprofundar as políticas de inclusão social, e não esvaziá-las, como vem fazendo o presidente interino. O esvaziamento dos programas sociais afeta em especial os jovens, quando o que é necessário é abrir espaço para a participação da juventude na transformação social e construção do futuro”.

O deputado Luiz Couto (PT-PB) mostrou-se preocupado com o fato de “a juventude estar sendo alvo de recrutamento do crime organizado. Temos que ter políticas públicas para evitar isso. Educar e estudar é uma forma sublime de trabalho, e agora o governo interino manda uma Proposta de Emenda Constitucional limitando o investimento em educação, ou seja, justamente no rumo contrário às nossas necessidades”.

Direitos e estudos

Para Kátia Arruda, ministra do Tribunal Superior do Trabalho (TST), “temos uma grande legislação a respeito do trabalho infantil e do estímulo à aprendizagem, mas falta mudar a mentalidade e investir em programas e políticas públicas. Temos mais de três milhões de crianças trabalhando, 70% delas têm mais de 14 anos, e poderiam ser incluídas nos estágios, garantindo-lhes direitos e estudos”.

A representante do Ministério do Trabalho e Emprego, Vera Lúcia da Silva Sousa, explicou a legislação que envolve os trabalhadores aprendizes de 14 a 24 anos, e lamentou que “a lei existe, mas não é cumprida a contento. O potencial de contratação é de quase 1.250 mil aprendizes mas, neste ano, apenas 400 mil foram contratados”.

Mariane Josviak, procuradora do Ministério Público do Trabalho do Paraná, propôs o aperfeiçoamento da legislação envolvendo o jovem trabalhador e uma melhor divulgação. “Muitas empresas e entidades desconhecem os benefícios que usufruem ao aderir ao programa de estágio. Além disso, os efeitos sociais são enormes. Os jovens que têm acesso à aprendizagem profissional mudam a própria vida, inclusive aqueles que cometeram infração penal”, discorreu.

Mafra Merys, presidenta da Associação Sergipana de Distribuidores Independentes em Marketing de Rede (Asedi), que sugeriu o debate, confirmou que, “também no Nordeste, a maioria dos jovens aprendizes estão fora do programa. As escolas técnicas muitas vezes não são aceitas no programa de estágio, sob a alegação de que não podem ter fins lucrativos. Mas isso não é verdade. Mesmo os estabelecimentos privados podem ser cadastrados”.

Ameaça aos programas sociais

Víctor Frota, secretário da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) no Distrito Federal, denunciou que “os programas sociais estão sendo ameaçados pelo governo golpista de Temer. Não há futuro se o presente não for bem trabalhado. O jovem se depara com a falta de espaço, no mercado, para quem não tem experiência. Para o trabalhador do campo, é maior a dificuldade para o acesso à educação e aos programas sociais”.

Também a secretária da Juventude da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Distrito Federal, Maria do Socorro Neves, destacou que “as políticas públicas não podem ser direcionadas apenas aos jovens submetidos a riscos sociais, mas devem abarcar também a juventude trabalhadora”.

Iago Montalvão, diretor de Relações Institucionais da União Nacional dos Estudantes (UNE), explicou que “é necessária a participação política da juventude, a integração do jovem na sociedade, seja pelo trabalho, seja pelas relações sociais, seja pelos espaços de vivência. Na política de segurança pública atual, o jovem é visto como um potencial marginal, e não como um potencial trabalhador. Estamos ameaçados pelos retrocessos nas políticas públicas”.

Clareana Cunha, do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), fez um histórico das políticas públicas para a juventude, principalmente durante os governos Lula e Dilma, e criticou que “as primeiras medidas do Governo Temer atingem diretamente os jovens, atacando seus direitos”.

Edmar Almeida de Moraes, do Ministério da Educação, disse ter vindo participar da audiência, “para ouvir e ver como contemplar suas preocupações e anseios nas atividades do Ministério”, acrescentando que “a educação é a base para qualquer desenvolvimento”.

Temeridade no rural brasileiro – sequência de desmontes e retrocessos

MDA

Há milhões de homens e mulheres no campo, jovens, mulheres, negros, índios, que estão sob risco.

Nesse ritmo, a atividade produtiva e a economia da agricultura familiar vão sendo postas no canto escuro do Palácio do Planalto, asseverando um retrocesso social grave fomentando o recrudescimento
Há milhões de homens e mulheres no campo, jovens, mulheres, negros, índios, que estão sob risco. 
Não bastassem o desmonte do MDA, a diminuição e os retrocessos em políticas públicas como o Minha Casa Minha Vida Rural, o PAA – Programa de Aquisição de Alimentos e o cancelamento da contratação dos serviços de assistência técnica, o governo golpista promove a diminuição da agricultura familiar na sua essência e importância estratégica ao país.

Por 12 anos, o extinto MDA representou os interesses da agricultura familiar nas negociações internacionais, levou os produtos da reforma agrária para eventos em várias partes do mundo, fomentou e articulou uma rede especializada em agricultura familiar no Mercosul.

Iniciativas como estas, estimularam um grande número de países a reproduzir e adaptar as políticas brasileiras em seus territórios. Não por acaso, o Programa Nacional de Alimentação Escolar, o PNAE, se transformou em uma grande referência em política de alimentação escolar, em dezenas de países. Agora, o governo interino, exclui a agricultura familiar das negociações internacionais, apequenando o Brasil e sua produção familiar.

Enquanto isso, o presidente golpista almoça com os ruralistas, promete atuar na regularização das terras, revendo atos da Presidenta Dilma e as demarcações realizadas, em prol da ganância e do aumento do poder econômico e político dos setores mais conservadores e retrógrados do campo brasileiro. Mais força aos mais fortes. Migalhas aos mais fracos. É a síntese da inversão de prioridades.

Enquanto os governos do Presidente Lula e Dilma buscavam avanços no rural (e apoiando, também, a grande agricultura), implementando políticas para a agricultura familiar, dotando de recursos orçamentários os programas sociais, fortalecendo as estruturas de Estado para atuarem junto aos indígenas, quilombolas, povos tradicionais e a reforma agrária, os golpistas viram as costas para estes públicos, e combinam como irão predar o Estado e os recursos públicos para dar vantagens aos ruralistas, muitos quebrados e vivendo das eternas renegociações de suas dívidas.

Nenhum deputado ruralista, nem os mais raivosos e prepotentes, reclamou da Medida Provisória nº 738, que retira mais de R$ 1 bilhão das subvenções do financiamento agrícola, nas modalidades do agronegócio. Donde só se pode supor que devam estar recebendo algo muito mais valioso em troca.

Quem sabe, o pagamento não virá com as terras indígenas e quilombolas, ou com a emancipação das áreas de reforma agrária, que poderão ser compradas pelas empresas multinacionais do agronegócio? Ou ainda, a possível abertura de compra de terras pelos estrangeiros, desejo já manifestado pelo ministro Maggi?

Não haverá negociação e diálogo com golpistas. O Ministro das Cidades, Bruno Araújo, foi à Câmara dos Deputados debater as mudanças negativas nas regras do Minha Casa Minha Vida. A reunião foi fechada para a presença dos movimentos e das organizações sociais. Um fato inacreditável, já que é aí que está principal público do programa.

Num governo de golpistas, as coisas são assim mesmo: conversas às escuras, direitos suprimidos, privilégios aos mais privilegiados. Então é mais fácil suspender o registro de mais de 180 mil pescadores artesanais, do que cobrar as dívidas dos fazendeiros. É melhor cancelar a contratação de ATER, mudar o comando da Anater e exonerar os servidores do MDA e do Incra. E nomear o filho de um deputado suspeito de corrupção para a Superintendência do Incra em São Paulo.

Esta é a síntese das ações do governo Temer para o rural brasileiro: suspensão e paralisação das políticas, cancelamento dos compromissos orçamentários e financeiros, diminuição estratégica da agricultura familiar e para os grandes latifundiários e empresas do agronegócio, a tão esperada “segurança jurídica no campo”, com a expulsão dos povos e comunidades tradicionais de suas terras.

Devemos seguir atentos e mobilizados contra o desmonte. Denunciar nacional e internacionalmente as práticas golpistas e que estão asseverando a violência no campo. Há milhões de homens e mulheres no campo, jovens, mulheres, negros, índios, que estão sob risco.

*É deputado federal pelo PT do Rio Grande do Sul e Secretário Nacional Agrário do PT

Presidente da OAB diz que saúde não pode sofrer cortes

Elza Fiúza /Agência Brasil

Claudio Lamachia (à esquerda): As bandeiras da OAB são o Brasil e a Constituição

Claudio Lamachia (à esquerda): As bandeiras da OAB são o Brasil e a Constituição

Em reportagem publicada no site da OAB nesta quarta-feira (10), Lamachia complementou que a OAB repudia a tentativa de cortes no orçamento da saúde assim como contingenciamento de recursos.

De acordo com a reportagem, o presidente da OAB está especialmente preocupado com o impacto no orçamento da saúde, previsto na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, encaminhada pelo governo Temer ao Congresso.
A PEC foi aprovada nesta terça na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. A proposta de Temer congela por 20 anos as despesas da saúde e educação e impede que essas áreas tenham crescimento real de recursos.
Lamachia declarou que as bandeiras da OAB são o Brasil e a Constituição. “a OAB não é do governo nem da oposição, mas do cidadão e da advocacia. Não nos envolvemos com paixões partidárias. Temos como bandeira o Brasil e a Constituição”, enfatizou Lamachia.
Para o presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que foi integrante da mesa na audiência da OAB, Ronald Ferreira Santos, aprovar a PEC 241 é “desligar os aparelhos do SUS”.
“É uma violação da constituição, que instituiu a saúde como um direito”, opinou. Ele explicou que o SUS sofre hoje com o subfinanciamento e a aprovação da PEC 241 será o fim do sistema.
Após passar pela CCJ da Câmara, o mérito da PEC será avaliado por comissão especial. Após apresentação e votação do parecer o tema será encaminhado ao plenário da Câmara para votação em dois turnos.
A audiência na OAB reuniu presidentes de entidades, secretários estaduais e municipais, ministros de Estado e representantes das três esferas de governo.

Em defesa do SUS, 54 entidades assinam carta a Temer, Maia e Renan

 

Na contramão de Temer: Audiência realizada nesta terça-feira na OAB pede mais recursos para o SUS

Na contramão de Temer: Audiência realizada nesta terça-feira na OAB pede mais recursos para o SUS

De acordo com o documento, que será encaminhado ao presidente interino Michel Temer e aos presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e do Senado, Renan Calheiros, o objetivo do pedido de prioridade é garantir o preceito constitucional da universalidade, gratuidade e integralidade das ações e serviços de saúde, por meio do SUS.


PEC 241
A carta trata também de propostas que tramitam no Congresso Nacional e dizem respeito ao SUS. Sobre a PEC 241/2016 – que estabelece teto para o financiamento da saúde – o documento pede para que os efeitos da matéria sejam excluídos da área da saúde.
Nesta terça, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou a admissibilidade da PEC 241, que limita por 20 anos gastos com saúde e educação.
O próximo trâmite é a instalação de comissão especial para analisar o mérito da PEC. Após a apresentação e votação do parecer da comissão, a proposta será encaminhada ao plenário para votação em dois turnos.
PEC 01
Já no que diz respeito à PEC 01/2015, que prevê escalonamento dos investimentos em saúde no decorrer dos anos, as 54 instituições e entidades que assinam a carta querem a aprovação imediata.
Durante a audiência pública, o presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Ronald Santos, entregou ao presidente nacional da OAB, Cláudio Lamachia, cópia do Plano Nacional de Saúde 2016/2019. De acordo com Ronald, as medidas que estão sendo pensadas, propostas e trabalhadas pelo governo interino colocam a responsabilidade da crise no colo do trabalhador e das pessoas menos favorecidas. “Existem outras possíveis fontes de recursos para o SUS como, por exemplo, a taxação das grandes fortunas”, defendeu.
OAB: Rechaçar ação que prejudique a saúde

Por sua vez, o presidente nacional da OAB ressaltou o caráter apartidário da entidade e afirmou que o único compromisso é com a Constituição Federal. “Não somos governo e nem oposição. No entanto, qualquer iniciativa que prejudique a área da saúde deve ser rechaçada de imediato. O cidadão não pode morrer nas calçadas por falta de atendimento” disse Cláudio Lamachia.
O ministro interino da Saúde, Ricardo Barros, participou da abertura da audiência pública. Após uma fala rápida, onde apresentou números sobre o orçamento, se ausentou devido a compromisso agendado anteriormente.
Confira abaixo a carta em defesa do SUS na íntegra
CARTA DE RECOMENDAÇÕES
Caro Presidente,
1.                                         Ao cumprimentá-lo, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil – CFOAB, por seu Presidente, juntamente a sua Comissão Especial da Saúde, em reunião pública realizada no dia de hoje, com a participação e apoio dos Órgãos e Entidades subscritas, vêm dar conhecimento a Vossa Excelência das principais questões tratadas, bem como solicitar encaminhamentos cabíveis junto aos órgãos competentes, como segue:
2.                                         Considerando a realidade e a dimensão da saúde pública brasileira, com a identificação de prejuízos determinantes ao acesso para 150 milhões de brasileiros que só têm o SUS como garantia de alcance à saúde;
3.                                         considerando a gradativa restrição de acesso e desassistência da população, notadamente na observação das superlotações das urgências e emergências, assim como falta de acesso às cirurgias e consultas especializadas, com a exclusão assistencial, entre outros, de 12 milhões de diabéticos, 17 milhões de hipertensos, 6,8 milhões de obesos mórbidos etc.;
4.                                         considerando o inadequado financiamento, visualizado pela descontinuidade de políticas públicas, tais como abrangência das redes assistenciais, UPAs, disponibilidade de tecnologias na área de oncologia, habilitações de complexidades, além do brutal subfinanciamento crescente ano a ano;
5.                                         considerando a perda de recursos, com a recente aprovação da EC 86, na ordem de R$ 3 bilhões, levando em conta o exercício 2014/2015, com previsão de R$ 16 bilhões a menos em 2016, se comparado com o ano de 2014;
6.                                         considerando a PEC 241, que trata da desvinculação de receitas e estabelecimento de tetos orçamentários, com previsão de perda acumulada para 2017/2018, na ordem de R$ 12,7 bilhões, conforme estudos do Conselho Nacional de Saúde;
7.                                         considerando que as Santas Casas e os Hospitais Filantrópicos brasileiros, que são a maior rede hospitalar conveniada com o SUS, respondendo por 51% da assistência geral, sendo que na alta complexidade alcança os 63%, pelo subfinanciamento imposto está em regime falimentar, não mais tendo condições de administrar um déficit anual de R$ 10 bilhões, já com dívida constituída de R$ 21,5 bilhões, com 218 hospitais fechados, 40 mil trabalhadores demitidos, depreciação física e tecnológica crescente;
8.                                         considerando a crescente transferência de responsabilidades por parte do Ministério da Saúde na execução de políticas públicas aos Estados e Municípios, sem o respectivo financiamento, inclusive de forma descontinuadas, exigindo disponibilidade de recursos financeiros incompatível com a capacidade orçamentária desses entes;
9.   e, por fim, considerando ser a Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, entidade destinada, preponderantemente, à defesa da Constituição, da ordem jurídica, do Estado democrático de Direito, dos direitos humanos, da justiça social, o Conselho Federal da OAB, com apoio das Entidades e Órgãos subscritores, requer de Vossa Excelência os encaminhamentos cabíveis em prol da:
a)                Priorização orçamentária federal para o setor saúde, com adequação do financiamento do Ministério da Saúde, com vistas à garantia constitucional da universalidade, gratuidade e integralidade das ações e serviços de saúde, por meio do SUS, alcançando também a plenitude de acesso e o equilíbrio econômico e financeiro nas relações obrigacionais firmadas com as instituições prestadoras de serviços;
b)                Adoção de políticas de Estado para o setor saúde;
c)                A exclusão dos efeitos da PEC 241 sobre a área da saúde;
d)                Aprovação da PEC 01/2015.
10.                                     Na certeza do encaminhamento das reivindicações acima, o CFOAB renova suas expressões de elevado apreço.
Atenciosamente,
Cláudio Lamachia
Presidente Nacional da OAB
– ABEn – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMAGEM
– ABM – ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA
-ABRAM – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ASSISTÊNCIA À MUCOVISCIDOSE (FIBROSE CÍSTICA)
-ABRAMED – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MEDICINA DIAGNÓSTICA
– ABRAMGE – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PLANOS DE SAÚDE
– ABRANGHE – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PORTADORES DE ANGIOEDEMA HEREDITÁRIO
– ABRASCO – ASSCOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SAÚDE COLETIVA
-ABRE – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FAMILIARES, AMIGOS E PORTADORES DE ESQUIZOFRENIA
– ABrES – ASSOCIAÇÃO BRADILEIRA DE ECONOMIA DA SAÚDE
– AFAG – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS FAMILIARES, AMIGOS E PORTADORES DE DOENÇAS GRAVES
– AMB – ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA
– AMPASA – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE DEFESA DA SAÚDE
-ABIFICC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE INSTITUIÇÕES FILANTRÓPICAS DE COMBATE AO CÂNCER
-ANAHP – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS HOSPITAIS PARTICULARES
– CEBES – CENTRO BRASILEIRO DE ESTUDOS DE SAÚDE
– CFF – CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA
– CFM – CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA
– CMB – CONFEDERAÇÃO DAS SANTAS CASAS DE MISERICÓRDIA, HOSPITAIS E ENTIDADES FILANTRÓPICAS
– CNBB – CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
– CNJ – CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA
– CNM – CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE MUNICÍPIOS
– CNMP – CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO
– CNPGC – CONSELHO NACIONAL DOS PROCURADORES-GERAIS DE CONTAS
-CNS – CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE
-CNS – CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE
-CNTS – CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES NA SAÚDE
-COFECON – CONSELHO FEDERAL DE ECONOMIA
-CONAMP – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS MEMBROS DO MINISTÉRIO PÚBLICO
– CONFEF – CONSELHO FEDERAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA
-CONASEMS – CONSELHO NACIONAL DE SECRETARIAS MUNICIPAIS DE SAÚDE
– CONASS – CONSELHO NACIONAL DE SECRETÁRIOS DE SAÚDE
-COLEGIADO NACIONAL DE SECRETÁRIOS MUNICIPAIS DE ASSISTÊNCIA SOCIAL – CONGENAS
– CONSELHO FEDERAL DE BIOMEDICINA
– CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM
– CTB – CENTRAL DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS DO BRASIL
 – FÓRUM DO CONSELHO FEDERAL DA ÁREA DA SAÚDE
– FRENTE PARLAMNETAR MISTA EM DEFESA DO SUS
– FEDERAÇÃO DAS SANTAS CASAS E HOSPITAIS BENEFICENTES, RELIGIOSOS E FILANTRÓPICOS DO RS
– FEDERAÇÃO NACIONAL DOS FARMACEUTICOS
– FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE HOSPITAIS
– FEHOFES – FEDERAÇÃO DAS SANTAS CASAS E HOSPITAIS FILANTRÓPICOS DO ESTADO DO ES
– FNP – FRENTE NACIONAL DE PREFEITOS
– FNE – FEDERAÇÃO NACIONAL DOS ENFERMEIROS
– FEMIPA – FEDERAÇÃO DAS SANTAS CASAS DE MISERICORDIA E HOSPITAIS BENEFICENTES DO ESTADO DO PARANÁ
– IDISA – INSTITUTO DE DIREITO SANITÁRIO APLICADO
– INSTITUTO RUI BARBOSA
– IPEA – INSTITUTO DE PESQUISA ECONOMICA APLICADA
– UNIMED DO BRASIL
– MPC-SP – MINISTÉRIO PÚBLICO DE CONTAS DO ESTADO DE SÃO PAULO
– MPF – MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
– Psorisul – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PORTADORES DE PSORÍASE
– REDE UNIDA
– SBN – SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA
– SINDHOSFIL – SINDICATO DAS SANTAS CASAS E HOSPITAIS FILANTRÔPICOS DO ESTADO DE SÃO PAULO

Fonte: Vermelho

Novas regras para aposentadoria valerão para trabalhadores de até 50 anos

Normas de transição terá pedágio entre 40% e 50%

Alívio. O ministro Padilha conversa com o presidente Temer em reunião recente: mulheres e professores terão tratamento especial – Andre Coelho / O Globo

 

O governo já definiu um dos pontos mais polêmicos da reforma da Previdência, que todo brasileiro gostaria de saber: quem será atingido pelas mudanças e como. As novas regras — mais rígidas e que exigirão mais tempo de trabalho para se obter a aposentadoria — valerão para quem tiver até 50 anos de idade. Terão direito a uma regra de transição aqueles que tiverem 50 anos ou mais quando a reforma for promulgada. Nesse caso, haverá um pedágio entre 40% e 50%, ou seja, terão de trabalhar por um período adicional para requerer o benefício pelas normais atuais.

As linhas gerais da reforma da Previdência foram fechadas em reunião na última quinta-feira entre o presidente interino, Michel Temer, e os ministros da área econômica e da Casa Civil. O eixo é a adoção de uma idade mínima para a aposentadoria, de 65 anos, podendo chegar a 70 anos no futuro.

 

Também ficou decidido que mulheres e professores, que atualmente podem se aposentar antes dos demais trabalhadores, terão uma regra de transição especial, pela qual levarão mais tempo até que os critérios de aposentadoria se igualem aos dos demais trabalhadores.

A proposta foi antecipada ao GLOBO pelo ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha. Ele contou que foi apresentado ao presidente um duro diagnóstico das contas do regime de aposentadoria, que ficaria inviável na próxima década se nada fosse feito.

— Estamos com um déficit crescente de forma exponencial e explosivo. Só que a receita da União não é explosiva. Logo, o déficit vai bater no limite máximo do que o orçamento suporta. Então, nós temos que puxar os efeitos dessa reforma para o mais próximo possível, sem sermos injustos, fazendo a transição — disse o ministro.

Segundo Padilha, o corte de 50 anos e o pedágio de até 50% (por exemplo, se faltam dez meses para a aposentadoria, o trabalhador teria de esticar em cinco meses o período na ativa para requerer a aposentadoria sob a legislação hoje em vigor) farão com que a transição entre as regras atuais e as novas dure 15 anos, considerado um prazo razoável para interromper a trajetória explosiva do déficit.

  • Por que a reforma é necessária

    A Previdência registra rombo crescente: os gastos saltaram de 0,3% do PIB em 1997 para projetados 2,7% em 2017. Em 2016, o rombo é de R$ 149,2 bi (2,3% do PIB). A conta é insustentável, pois os brasileiros estão vivendo mais, a população tende a ter fatia maior de idosos e o número de jovens, que sustentam o regime ge

Para mulheres e professores, que terão tratamento diferenciado, a transição levará mais tempo. No caso das mulheres, foi uma decisão presidencial, apesar de viverem mais.

Padilha disse ainda que o governo pretende criar uma brecha legal para permitir que a idade de aposentadoria chegue aos 70 anos, dependendo da mudança demográfica, agravada pelo rápido envelhecimento da população brasileira. Ele explicou que o ponto de partida será 65 anos. Será definida uma regra de como ao longo do tempo o patamar poderá ser elevado, sem precisar passar pelo Congresso.

Ele reafirmou que a reforma pretende fixar regras únicas para todos os trabalhadores, mas que isso não significa que os regimes privado e do servidor serão unificados. Os militares das Forças Armadas também terão que cumprir a idade mínima de 65 anos, com mudanças nas carreiras para absorver o tempo maior na ativa. O governo ainda avalia como ficará a pensão das filhas, no caso em que os militares optaram por manter o benefício em 2001, pagando um adicional.

Já policiais militares e bombeiros, que não têm idade para se aposentar (só tempo de contribuição), não serão abrangidos pela reforma da Previdência. Caberá aos estados alterar as regras para essas categorias. O entendimento é que trazer essa questão para a Constituição poderá dificultar ainda mais o processo de aprovação no Congresso.

O ministro confirmou ainda que o governo pretende mexer nas regras da pensão por morte para todos os segurados (do INSS e servidores públicos): o valor do benefício cairá para 60%, mais 10% por dependente, no limite de 100%. Os benefícios assistenciais (Lei de Assistência Social, a Loas), pagos a idosos e deficientes da baixa renda, também passarão por mudanças. A idade de 65 anos deve subir e o valor do auxílio — correspondente a um salário mínimo independentemente de tempo de contribuição — será revisto.

A mudança, neste caso, valerá apenas para os novos beneficiários. A proposta prevê ainda uma cobrança de contribuição para os trabalhadores rurais, além do aumento da idade para aposentadoria (hoje mais cedo do que a dos demais).

FORÇA AO ACORDO COLETIVO

indagado sobre a resistência das centrais sindicais à reforma, Padilha respondeu que os interesses do cidadão vão se impor no Congresso:

— As posições das centrais e confederações serão mantidas, mas serão superadas. Ficarão acima das posições deles os interesses do cidadão, do João, da Maria, do José, que precisam saber como vão se aposentar.

Padilha disse que outra reforma prioritária do governo, a trabalhista, conterá apenas dois tópicos: prevalência do acordado sobre a CLT, com a valorização da negociação coletiva, e regulamentação da terceirização, inclusive nas atividades-fim.

— Vamos aprovar o projeto (de terceirização) que está no Senado e, se for o caso, a gente modifica, porque aquela aprovação na Câmara foi uma batalha campal e, neste caso, há muito risco, a gente pode ganhar ou perder.

Ontem, em entrevista a agências internacionais de notícias, Michel Temer afirmou que acha difícil que as reformas da Previdência e trabalhista sejam aprovadas ainda este ano. Porém, o presidente interino garantiu que a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que impõe teto para os gastos públicos será votada ainda em 2016.

 Fonte: O Globo

Governo anuncia medidas que endurecem aposentadoria por invalidez e auxílio-doença

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Na tentativa de reduzir gastos com a Previdência, o governo anunciou hoje (6) a alteração em benefícios como a aposentadoria por invalidez  e auxílio-doença e o acesso de trabalhadores a fundos de previdência complementar.

Serão revisados os chamados benefícios por incapacidade de longa duração. Para isso, mais de 100 mil perícias por mês serão feitas com o objetivo de checar se os trabalhadores afastados nessa condição continuam incapazes de realizar seus trabalhos.

Uma medida provisória fixará em 120 dias o prazo máximo de pagamento de auxílio-doença quando o benefício for concedido pela Justiça sem definição de uma data de cessação. Caso o segurado não peça a continuidade do benefício, o pagamento será automaticamente cancelado.

A medida provisória também revogará a regra que permite que o segurado que volta a contribuir com o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) obtenha novo auxílio-doença em apenas quatro meses.

Além disso, o governo vai instituir uma gratificação por dois anos para os peritos médicos do INSS que fizerem perícias em auxílios-doença e aposentadorias por invalidez concedidas há mais de dois anos a partir da data de edição da medida provisória.

Os médicos peritos receberão R$ 60 por perícia realizada. Segundo o governo, a gratificação é necessária porque os profissionais terão de extrapolar a carga horária para revisarem os 3 milhões de aposentadorias por invalidez e os 840 mil auxílios doença concedidos há mais de dois anos.

De acordo com o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, não se trata do fim dos benefícios, mas apenas de uma revisão. Segundo dados do governo, há hoje no país 3 milhões de aposentadorias por invalidez concedidas há mais de dois anos sem revisão, que geram uma despesa mensal de R$ 3,6 bilhões.

Já o auxílio-doença custa R$ 1 bilhão por mês à União. O governo alega que, atualmente, 840 mil auxílios-doença foram concedidos há mais de dois anos, a maioria após decisões judiciais.

Mudanças no BPC

A equipe econômica também revisará todos os pagamentos do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que paga um salário mínimo a pessoas com mais de 65 anos que não contribuíram para a Previdência Social. Apesar de administrado pelo INSS, o BPC é pago com recursos do Fundo Nacional de Assistência Social.

Segundo o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, Alberto Beltrame, a legislação determina que os benefícios do BPC sejam revistos a cada dois anos, mas desde 2008 essa análise não é feita. Os beneficiários do BPC também serão obrigados a se inscrever no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, usado no pagamento de benefícios sociais como o Bolsa Família.

O governo também anunciou que permitirá que a Fundação de Previdência Complementar do Servidor Público Federal (Funpresp) receba a adesão de estados e municípios sem condições de manter regimes de previdência para os servidores locais. Desde o mês passado, a medida está em discussão entre o Tesouro Nacional e os estados.

Segundo o secretário da Previdência do Ministério da Fazenda, Marcelo Caetano, o objetivo da medida é dar o mesmo tratamento aos servidores públicos e aos privados.

Paulo Victor Chagas e Wellton Máximo, da Agência Brasil
Fonte: Yahoo

Aposentadoria só aos 70 anos, defende Michel Temer

Além de elevar a idade mínima da previdência a um patamar que nenhum país aplica, governo interino quer reduzir o valor.

Aposentadoria s aos 70 anos defende Michel Temer

No Maranhão, que tem a pior expectativa de vida (70) do país, o trabalhador médio morreria antes mesmo de começar a receber o benefício para o qual contribuiu longos anos da vida. Mesmo com a tendência de aumento da expectativa de vida, a população viveria menos tempo como aposentada. / Antonio Cruz/Agência Brasil


A reforma na previdência é tratada como prioridade pelo governo interino, que quer estabelecer uma idade mínima, independente do tempo de contribuição, para que o trabalhador brasileiro tenha direito ao benefício. Apesar de nenhum país no mundo adotar uma idade mínima para a aposentadoria acima dos 67 anos, o presidente em exercício, Michel Temer, negocia para que as futuras gerações do Brasil só se aposentem depois dos 70 anos. A ideia está em discussão por um grupo de trabalho que reúne apenas parte das centrais sindicais e representantes do governo. Em declarações à imprensa, o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) defende que o projeto, ainda não apresentado ao Congresso, seja aprovado até o fim do ano, caso o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff seja confirmado pelo Senado.

O impacto de uma idade mínima de 70 anos para a aposentadoria, ainda que seja de forma progressiva, ao longo do tempo, é algo sem precedentes no sistema de seguridade social do Brasil. Para se ter uma ideia, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa média de vida da população brasileira é de 75,2 anos. Se a idade mínima de 70 ou mesmo de 65 anos para a aposentadoria já estivesse em vigor, a maioria das pessoas trabalharia praticamente até a morte. Em estados com Pernambuco (73), Sergipe (72) e Pará (71), essa expectativa de vida é inferior à média nacional. No Maranhão, que tem a pior expectativa de vida (70) do país, o trabalhador médio morreria antes mesmo de começar a receber o benefício para o qual contribuiu longos anos da vida. Mesmo com a tendência de aumento da expectativa de vida, a população viveria menos tempo como aposentada.

Redução do benefício

Outra medida já anunciada pelo governo interino, e que deve fazer parte da proposta de reforma da previdência, é a redução do piso dos benefícios pagos pelo INSS. Atualmente, o valor mínimo da aposentadoria é o salário mínimo, que responde por 70% dos benefícios da Previdência. Se o salário mínimo aumenta, a aposentadoria também aumenta. Porém, Michel Temer quer estabelecer um salário de referência paralelo que, na prática, vai reduzir o valor dos benefícios, descolando seu valor do salário mínimo. A medida vai impactar sobre 21 milhões de segurados do INSS.

Além da desvinculação entre aposentadoria e salário mínimo, outra medida do governo que vai impactar sobre a previdência é o projeto que visa estabelecer um teto nos gastos públicos. De acordo com essa proposta, o orçamento federal ficará praticamente congelado entre um ano e outro, aumentando apenas de acordo com a inflação. Com isso, tanto salários como aposentadorias e programas sociais ficariam estagnados ou seriam reduzidos. O professor do Instituto de Economia da UFRJ, João Sicsú, fez uma simulação, caso essa medida proposta por Temer já estivesse valendo desde 2006. Nesse cenário, o valor médio da aposentadoria no Brasil, que hoje é de R$ 1.608, seria de R$ 1.013, uma redução de 40%. Essa medida vai além de impacto na aposentadoria e pode gerar perdas bilionárias nos orçamentos de saúde e educação, praticamente inviabilizando a continuidade de programas como o ‘Mais Médicos’, Fies, Prouni, entre outros.

A principal justificativa para o governo propor, de novo, a reforma na previdência, seria o envelhecimento da população, que vai gerar ainda mais déficit no setor. A professora Denise Gentil, da UFRJ, pesquisadora do tema, discorda dessa tese. Para ela, o corte de direitos vai aprofundar as desigualdades sociais, aumentar a miséria e não vai resolver o problema da sustentabilidade das contas previdenciárias. Para a professora, o governo deve estimular o crescimento, a geração de empregos e a formalização de trabalhadores com carteira assinada. Além disso, ao longo do tempo, com a diminuição da taxa de nascimento de crianças, haverá uma sobra orçamentária dos recursos para a educação, principalmente na faixa de 0 a 7 anos, o que poderá compensar o aumento de gastos da previdência. “O governo poderá universalizar o acesso ao ensino básico, eliminar o analfabetismo e, com isso, aumentar a produtividade dos trabalhadores. É preciso investir em educação e ciência e tecnologia, pois é isso que fará com que cada trabalhador produza mais e ajude a sustentar o crescimento do número de pessoas aposentadas”, declarou durante audiência pública realizada na Comissão de Seguridade Social do Senado, no início do ano.

Fonte: Jus Brasil

 

Reforma da Previdência: procura-se vaga para quem tem mais de 60 anos

Idade mínima de 65 anos na reforma da Previdência exigirá mudança nas empresas e na rotina familiar

Cansaço. Mesmo sem considerar o trabalho puxado, Manoel José Reis Filho, de 63 anos, diz que o corpo sente a diferença na rotina – Hermes de Paula

 

Uma das bandeiras do presidente interino, Michel Temer, a reforma da Previdência promete trazer mudanças não apenas na aposentadoria e nas contas públicas, como no mercado de trabalho e no dia a dia das famílias. Especialistas afirmam que a discussão, adiada durante anos pela sociedade brasileira, tornou-se inevitável. Neste cenário, um dos principais desafios a superar é a dificuldade de inserção no mercado de trabalho de quem passou dos 60 anos, já que a proposta em discussão no governo é fixar uma idade mínima para a aposentadoria aos 65.

Hoje, o número de trabalhadores com mais de 60 anos no país chega a 6,48 milhões, de uma população ocupada total de 90,70 milhões. Porém, mais da metade dos que têm 60 anos ou mais está trabalhando ou por conta própria (46,6% do total) ou como empregador (8,8%). As vagas com carteira estão disponíveis para apenas 15,7%. Na média dos trabalhadores brasileiros, as estatísticas são bem diferentes: 37,9% têm o trabalho protegido, com carteira assinada.

 

As razões para esse descompasso, segundo especialistas, vão desde o preconceito até o fato de que o trabalhador mais experiente, em geral, tem salário maior que os demais.

— O mercado de trabalho é violento, exigente em aparência e em idade. Já o trabalhador por conta própria faz seu próprio empreendimento, por opção ou não — explica o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo.

Diante deste cenário, especialistas defendem que a reforma da Previdência não deve ser tratada de forma isolada, e sim integrada a outras políticas públicas, de modo a atenuar impactos sobre o mercado de trabalho e a vida das pessoas. Principalmente porque o envelhecimento da população brasileira está ocorrendo a um ritmo acelerado. Desde 2012, o número de brasileiros acima de 60 anos cresce acima da população como um todo. O ritmo de expansão dos mais velhos é de 19,2%, para 3,7% na média geral.

REQUALIFICAÇÃO E TREINAMENTO

Hoje, no setor privado, não há idade mínima para a aposentadoria. O brasileiro pode requerer o benefício com 30 anos de contribuição (mulheres) e 35 (homens). Para não ter aplicação do fator previdenciário, é necessário que a soma de idade mais tempo de contribuição seja de 85 anos (mulheres) e 95 (homens). Na prática, a média de idade das pessoas que se aposentam por tempo de contribuição fica abaixo dos 60 anos. Em 2015, foi de 54,7 anos. A outra alternativa é a aposentadoria por idade, de 60 anos (mulheres) e 65 (homens), desde que tenham contribuído por pelo menos 15 anos. A proposta em discussão no governo, que ainda será apresentada ao Congresso, é adotar idade mínima de 65 anos para a aposentadoria. O valor do benefício vai variar de acordo com o tempo de contribuição.

— A reforma da Previdência tem que acontecer, mas não pode vir sozinha. Não dá para fazer uma canetada, colocar 65 anos como mínimo para aposentar e virar a página. É preciso um pacote de medidas que amorteçam a mudança — diz a pesquisadora do Ipea Ana Amélia Camarano.

Políticas de requalificação profissional, com treinamento para atividades que exijam menos força física; de saúde ocupacional, especialmente em profissões com maior desgaste; e melhorias no transporte público, para reduzir o tempo de locomoção para o trabalho, são algumas das sugestões citadas por Ana Amélia.

Com 63 anos, o ajudante de peixaria do supermercado Extra Maracanã Manoel José Reis Filho reconhece o cansaço. Todos os dias, enfrenta cerca de duas horas para ir de ônibus de Olaria, onde mora, até o trabalho, e outras duas horas na volta. Ele já trabalhou em manutenção de avião, como segurança e com frete. Há quase cinco anos, conseguiu a oportunidade no varejo, que exige o trabalho nos fins de semana.

— Não sou mais como era aos 18 anos. O trabalho não é puxado, mas as pernas doem, e a gente vai ficando mais cansado. O corpo sente — diz Manoel, que só poderá se aposentar em dois anos.

Mesmo que a reforma da Previdência não saia do papel, as empresas terão de se adaptar a uma realidade na qual se começa a trabalhar mais tarde e a vida útil no trabalho é mais longa. Com a redução da taxa de natalidade e o ganho na renda, as famílias têm se esforçado para manter os jovens na escola, postergando a entrada no mercado. Com menos gente entrando no mercado, os mais velhos serão necessários para girar a economia.

 

— O mercado de trabalho também deve sofrer mutações para receber os novos atores de cabeça branca. É preciso ter políticas para qualificar o trabalhador, para ele não ser preterido lá na frente — afirma Cimar Azeredo.

A participação maior hoje dos trabalhadores por conta própria e dos empregadores entre quem tem mais de 60 está ligada ao preconceito, na avaliação do professor do Instituto de Economia da UFRJ João Saboia, mas ele considera que a tendência é de mudança:

— Temos que deixar de olhar o idoso com postura de pena.

Hoje, a maior facilidade ou dificuldade de inserção das pessoas mais velhas no mercado de trabalho depende da área de atuação, segundo André Nolasco, diretor da empresa de recrutamento e seleção Michael Page no Rio. Nas áreas de conhecimento mais técnico, como indústria naval e engenharias de forma geral, há menos resistência. Boas também são as chances de empregabilidade no meio jurídico e no acadêmico.

— Em áreas técnicas, o conhecimento acumulado conta, pois o ritmo de mudança do conhecimento é menor. Em áreas como tecnologia da informação, por outro lado, o conhecimento é perecível, devido à rapidez com que as tecnologias mudam — diz Nolasco.

EFEITO MAIOR NA ALTA RENDA

Mesmo nas áreas com mais potencial, no entanto, aparecem dificuldades, como ilustra a situação do engenheiro mecânico Denylson Salata, 55 anos. A multinacional do setor de petróleo em que trabalhava fechou as portas no Brasil em setembro. Nesses 11 meses, Salata fez cinco entrevistas de emprego e perdeu a conta de quantos e-mails disparou com seu currículo.

Malas prontas. Sem trabalho, Denylson Salata, de 55 anos, aceitou uma vaga temporária na África – Fernando Lemos

Sem resposta, decidiu se aventurar numa missão da ONG Médicos Sem Fronteira. Na última sexta-feira, embarcou para Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, onde assumirá o cargo de gerente de suprimentos da ONG no país. Ficará por lá por pelo menos quatro meses, deixando para trás mulher e dois filhos. No período, receberá uma ajuda de custos que não chega aos pés do salário que tinha no Brasil.

— Não tenho dúvida de que a idade avançada é critério de desempate e que eu fiquei para trás na corrida — diz Salata. — Será uma boa experiência no Congo, mas não sei o que acontecerá depois.

Caso não encontre emprego no Brasil, Salata se verá “obrigado” a se aposentar, para não depender apenas de suas aplicações financeiras. Ele pode requerer o benefício em março do ano que vem, quando terá 35 anos de contribuição. Mas, com apenas 56 anos, assumirá 30% de perda no valor do benefício.

Na avaliação de Rogério Nagamine Costanzi, coordenador de Previdência do Ipea, o impacto da criação de uma idade mínima vai atingir os mais bem qualificados e de maior renda:

— O grupo que será mais afetado é o das pessoas com mais qualificação, maior renda, trajetória laboral estável e que, na prática, continuam trabalhando após se aposentarem. São os que têm mais facilidade de inserção no mercado. Isso atenuaria o impacto da reforma.

Professor da Ebape/FGV, Kaizô Iwakawi Beltrão destaca que o fato de uma parcela grande dos trabalhadores permanecer no mercado mesmo depois de se aposentar minimiza a necessidade de políticas compensatórias. Quase metade (45,5%) dos homens aposentados entre 60 e 64 anos continua trabalhando, enquanto na faixa de 65 a 69 anos esse percentual é de 38,1%.

— Já existe algum mercado de trabalho para aqueles mais velhos, talvez não para todos os grupos. Não acho que uma reforma da Previdência crie a necessidade de políticas.

Fonte: O Globo

Temer propõe PEC que extingue concursos e congela salários

Medida impõe vedação a reajuste de salários dos servidores

No lugar de cortar os gastos supérfluos do alto escalão dos poderes judiciário, legislativo e executivo, como os auxílios moradias e alimentação dos magistrados, o governo Temer preferiu propor a PEC 241/16, que limita os valores a serem investidos nos serviços públicos afetando diretamente a população brasileira.

A pedido do presidente interino Michel Temer, o líder do governo na Câmara dos Deputados, André Moura (PSC-SE), protocolou no dia 15 de junho, a proposta de emenda à Constituição (PEC) 241/2016 que limita os gastos públicos para as despesas primárias nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, limitando à variação da inflação oficial do ano anterior.

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Se aprovada, a PEC garantiria que o governo federal cessasse a realização de novos concursos públicos, bem como de reajuste do funcionalismo público, alteração de estrutura de carreira ou criação de cargos que impliquem aumento de despesa.

Vale ressaltar que o projeto tem brechas que prejudica todas as áreas, com cortes indiretos inclusive na saúde e educação, que já vem sofrendo com o descaso dos governantes. Os investimentos, que atualmente já são escassos, seriam totalmente limitados ao percentual da inflação, que é abaixo das necessidades.

Apesar da medida se aplicar apenas ao poder público no âmbito federal, a aprovação poderia surtir o efeito cascata de governadores criarem legislação semelhante, prejudicando o acesso da sociedade aos serviços públicos, favorecendo mais uma vez ao grande empresariado financiador de campanhas políticas com a concessão e terceirização dos serviços.

Destaca-se que, uma das integrantes da equipe que propõe as alterações na condução da política fiscal e econômica do país, é a ex-secretária de Hartung, Ana Paula Vescovi, que deixou os servidores estaduais sem os direitos constitucionais, congelou os salários, mas garantiu benefícios fiscais à um seleto grupo de empresários mantido à sete chaves e sucateou os serviços básicos à população capixaba.

Neste momento, a união dos servidores se faz fundamental, para juntos com a sociedade, garantir a manutenção dos investimentos nos serviços públicos garantindo saúde, segurança, educação dentre outros.

Tramitação

A intenção do governo é que a proposta seja aprovada no Congresso Nacional o mais rápido possível para que o novo cálculo para os gastos públicos já seja aplicado em 2017.

A proposta, que recebeu o número 241/16, será encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para apreciação da sua admissibilidade e constitucionalidade. Se aprovada, será criada uma comissão especial destinada a analisar o mérito. A comissão tem até 40 sessões da Câmara para apresentar e votar um parecer, no entanto, o trâmite poderá ser concluído após dez sessões.

A partir daí, a PEC será discutida e votada no plenário da Câmara, em dois turnos, antes de seguir para o Senado. Para ser aprovada são necessários no mínimo 308 votos dos deputados em cada turno. “Vamos tratar a PEC no ritmo mais célere possível. A intenção é que a gente possa votar o mais rápido possível [na Câmara] para que ela possa ir para o Senado”, disse Moura.

Fonte: Blog do AFR

O governo decidiu deixar de fora da proposta de reforma da Previdência Social temas espinhosos que tornariam sua aprovação mais difícil no Congresso. Será sugerida uma idade mínima de 65 anos tanto para trabalhadores do setor privado quanto para funcionários públicos, prevendo regras de transição para quem já está no mercado. Porém, não se tocará na desvinculação dos benefícios do salário mínimo. Também ficarão de lado mudanças no regime de aposentadoria dos militares, o que poderia ser uma barreira adicional ao andamento da proposta no Legislativo. As linhas gerais da reforma serão apresentadas a sindicalistas na segunda-feira, no Palácio do Planalto.

Votação após definição do impeachment

A expectativa é que se inicie um processo de negociação para desenhar as regras de transição, a fim de não prejudicar muito quem está no mercado há mais tempo. A ideia do Executivo é fechar uma proposta até julho. O projeto seria votado depois da definição do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Além da idade mínima, o governo pode deixar em aberto a possibilidade para que a idade suba no futuro, de acordo com o aumento da expectativa de vida, sem a necessidade de alterar a Constituição novamente. Também vai sugerir mudanças na concessão dos benefícios da Loas(Lei Orgânica de Assistência Social) e de pensão por morte. No primeiro caso, será proposto aumento de 65 para 70 anos na idade dos novos beneficiários. Já nas pensões, a ideia é reduzir o valor pago pela metade, mais 10% por dependente. Interlocutores do Palácio do Planalto admitem que as ações não atacam todos os problemas da Previdência, maior vilã dos gastos públicos, mas tornam a reforma mais palatável politicamente.

— Vamos propor o que já é um certo consenso na sociedade, como idade mínima, e medidas para reduzir distorções, como é o caso da pensão e dos benefícios assistenciais — explicou uma fonte ligada ao Palácio do Planalto.

Sindicatos podem apoiar, com condições

Os técnicos da área econômica admitem que a desvinculação dos benefícios do salário mínimo seria bem aceita pelo mercado financeiro e teria um efeito mais rápido sobre as contas públicas, mas seria um movimento arriscado. Hoje, a Constituição estabelece que o salário mínimo é um direito de todos os trabalhadores. Assim, mesmo que seja feita uma emenda, poderia haver uma enxurrada de ações judiciais contra perdas com a desvinculação. Além disso, com a economia em recessão, a atual fórmula de reajuste do mínimo (o resultado da inflação do ano anterior mais o do Produto Interno Bruto de dois anos antes), que vigora até 2019, não teria efeito significativo sobre as contas nos próximos dois anos. Esse desafio ficaria para o próximo presidente.

Na reunião com as centrais, o governo dirá aos dirigentes sindicais que a proposta encaminhada por eles, como a criação um novo Refis (programa de parcelamento de débitos) para recuperar dívidas com a Previdência e a revisão das isenções concedidas a entidades filantrópicas — em alternativa a medidas como fixação de idade mínima — têm efeito limitado e não resolvem o problema da falta de sustentabilidade do regime de aposentadorias. Mesmo assim, elas serão estudadas pela Fazenda.

A crise nas contas públicas e o tamanho das despesas com benefícios, com idade média de aposentadoria baixa (54 anos, no INSS), põem o sistema em xeque diante do aumento da expectativa de vida dos brasileiros. Em 2015, a Previdência registrou déficit de R$ 85,8 bilhões — rombo que subirá para R$ 146,4 bilhões em 2016, segundo estimativas oficiais. A despesa com benefícios deve atingir R$ 503,6 bilhões neste ano.

O regime próprio dos funcionários públicos também fechou 2015 com rombo, de R$ 72,5 bilhões, incluindo militares. O déficit dobrou em seis anos: em 2006, estava em R$ 35,1 bilhão. A proposta de reforma pretende elevar a idade mínima dos servidores, atualmente em 55 anos (mulher) e 60 anos (homem) para 65 anos. Para se aposentar eles precisam ainda contar tempo de contribuição: 30 anos (mulher) e 35 anos (homem).

Segundo um interlocutor, o presidente interino, Michel Temer, tem procurado separadamente alguns dirigentes sindicais para conversar sobre a reforma. O presidente, contou uma fonte, acha que a diferença entre homens e mulheres de cinco anos é muita coisa. O agravante é que as mulheres vivem mais. Em média, uma mulher que se aposenta com 53 anos ainda tem uma sobrevida de 29,5 anos. Já o homem que se aposenta com 55 anos vive mais 23 anos.

Aos representantes dos trabalhadores, o governo tem insistido que quer negociar para construir uma proposta conjunta e não será da noite para do dia que todos terão de trabalhar até os 65 anos para se aposentar. Serão levados em consideração no processo de transição, por exemplo, o tempo de contribuição que cada pessoa já tem e também a sua idade.

Apesar da aparente intransigência das centrais, dirigentes sindicais admitem de forma reservada que, caso o governo adote alguma de suas sugestões para melhorar o caixa da Previdência, dentro de uma ampla negociação, podem apoiar a reforma no Congresso ou pelo menos, não tumultuar o processo.

“Não vamos fazer nada contra trabalhador”

A proposta de reforma da Previdência deixada pelo ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa para Henrique Meirelles, o novo ministro, também não propunha desvinculação dos benefícios do salário mínimo pelo mesmo motivo alegado pela atual equipe: a elevação no gasto real com benefícios até 2018 será pequena, dando espaço para o governo reavaliar a política a partir de 2019. No entanto, o texto deixava claro que essa ação é importante a longo prazo. A proposta da antiga equipe era de uma idade mínima de 70 anos, que só seria atingida em 2047. Nas regras de hoje, as despesas com Previdência atingiriam 17,8% do PIB em 2060. Com a idade mínima de 70 anos, o número ficaria em 14,1% do PIB. Já se o salário mínimo não tivesse crescimento real, as despesas ficariam em 12,2% do PIB.

Algumas sugestões de Barbosa serão aproveitadas. O ex-ministro também sugeria mexer na Loas, lei garante o pagamento de um salário mínimo a pessoas idosas ou deficientes de qualquer idade que comprovem não possuir meios de se sustentar ou serem sustentados por suas famílias. Suscetível a fraudes e alvo de disputas judiciais, os gastos do programa cresceram entre 2002 e 2015, saltando de R$ 7,5 bilhões para R$ 39,6 bilhões. Já o número de beneficiários duplicou, de 1,6 milhão para 4,2 milhões.

A ideia também era elevar a idade mínima para acesso e o tamanho do benefício. Hoje, tem direito à Loas tanto uma pessoa que contribuiu para a Previdência por 15 anos quanto alguém que nunca contribuiu. Assim, a proposta, que pode ser aproveitada agora, é permitir um valor de benefício mais alto para quem contribuiu.

Temer usou o Twitter ontem para falar das condições do Brasil e dizer que não vai prejudicar o trabalhador. “Pegamos o país em grande dificuldades. Elas são maiores do que vocês podem imaginar”. Ele ainda prometeu: “Não vamos fazer nada contra os trabalhadores”.

Fonte: Previdência INSS

xibilização de leis do trabalho entra na pauta do governo

Proposta prevê que negociações coletivas se sobreponham à CLT

Trabalhadores em busca de vagas: em meio à crise, governo defende que medidas diminuiriam custos para empresas – Custódio Coimbra / Agência O Globo

Enquanto todas as atenções se voltam para as mudanças que o governo pretende fazer na Previdência, discretamente a equipe do presidente interino Michel Temer já desenha outra medida polêmica: a reforma trabalhista. O objetivo é flexibilizar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a partir principalmente dos acordos coletivos, para aumentar a produtividade da economia e reduzir os custos dos empresários ao investir. Mas com o cuidado de manter os direitos assegurados aos trabalhadores pela Constituição. A proposta deve restringir as negociações coletivas à redução de jornada e de salários, ficando fora dos acordos normas relativas à segurança e saúde dos trabalhadores.

Dessa forma, FGTS, férias, previdência social, 13º salário e licença-maternidade, entre outros, continuarão existindo obrigatoriamente, mas serão flexibilizados. Ou seja, as partes (empregadores e sindicatos da categoria) poderão negociar, por exemplo, o parcelamento do 13º e a redução do intervalo de almoço de uma para meia hora, com alguma contrapartida para os empregados. As horas gastas no transporte que contarem como jornada de trabalho — nos casos em que a empresa oferece a condução — também poderiam ser objeto de negociação.

Faz parte da proposta, ainda, a conclusão da votação do projeto que trata da terceirização pelo Congresso Nacional. O texto aprovado pela Câmara dos Deputados e enviado ao Senado prevê a contratação de trabalhadores terceirizados nas chamadas atividades-fim das empresas, o que hoje não é permitido.

— Essas são as linhas gerais da reforma, mas ainda não há uma proposta fechada. Também não existe definição de quando o texto será enviado ao Congresso. Isso vai acontecer depois dos debates com as centrais. O tema é prioridade para o governo — disse um interlocutor do Planalto.

Ele explicou que o objetivo da reforma trabalhista é reduzir riscos e custos para as empresas, que são muito elevados no país, mesmo para quem cumpre a legislação. Os investidores se queixam de que são obrigados a abrir verdadeiros escritórios de advocacias só para lidar com ações judiciais, disse.

Para vencer resistências, o governo vai insistir na tese da valorização da negociação coletiva e fugir do discurso simplista de que a reforma levará à prevalência do acordado sobre o legislado — em seu governo, Fernando Henrique Cardoso adotou esse discurso e não conseguiu aprovar as alterações. Na prática, disse uma fonte do governo, não é isso, porque os direitos básicos assegurados aos trabalhadores não poderão ser suprimidos com a mudança na lei.

 

O ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira (PTB-RS), já começou a discutir o assunto com o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), ministro Ives Gandra Filho — defensor da flexibilização da lei trabalhista. A ideia é ampliar a todos os setores da economia acordos realizados pela Corte para algumas categorias e que preservaram direitos básicos, fazendo uma alteração na CLT.

— Capital e trabalho precisam sentar-se à mesa, porque são eles que melhor conhecem a realidade de cada um, de cada setor da economia, e, por isso, podem construir a melhor solução, principalmente nos momentos de crise, para evitar o desemprego. Precisamos modernizar a CLT para estabelecer um ambiente de diálogo e uma norma que configure a fidelidade. Isso é importante para os investidores que querem segurança nos contratos e para os trabalhadores, principalmente neste momento em que o Brasil passa por um momento delicado — disse Nogueira.

O presidente do TST reforçou:

— Penso que a melhor forma de se conseguir encontrar o ponto de equilíbrio em cada setor produtivo seria prestigiar e valorizar a negociação coletiva, permitindo que empresas e sindicatos, que mais conhecem cada segmento, estabeleçam as condições ideais ou possíveis de trabalho.

Entre os acordos de flexibilização com respaldo da Constituição, de acordo o TST, estão redução das horas de transporte, dos intervalos intrajornada, do cômputo do adicional noturno; redução do intervalo de uma hora do almoço para meia hora, nos casos em que o trabalhador permaneça no local de trabalho e, como contrapartida, possa terminar o expediente mais cedo. Atualmente, isso não é permitido e resulta em ação indenizatória na Justiça.

Gandra destacou que o Programa de Proteção ao Emprego (PPE), do governo do PT —que permite redução de jornada e de salário em tempos de crise —, é o maior exemplo de flexibilização da legislação trabalhista. Para o ministro, o PPE, considerado burocrático pelos empregadores e com custo para a União, que complementa parte do salário, poderia ser ampliado.

CNI QUER ÊNFASE NA PRODUTIVIDADE

O diretor da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Alexandre Furlan, lembrou que a reforma trabalhista e a regulamentação da terceirização fazem parte da agenda do setor produtivo, entregue a Temer. Ele disse acreditar que as propostas avancem diante da mudança de discurso com Temer no governo. O debate em torno desses temas não pode ser ideológico, disse, e sim levar em conta o aumento da produtividade:

 

— Simplesmente proteger o trabalhador, esquecendo a sustentabilidade das empresas, a competitividade e a produtividade no ambiente de trabalho, você não conseguirá avançar para uma relação de trabalho mais moderna.

Segundo Furlan, a legislação atual não favorece os acordos coletivos. Ao contrário, estimula conflitos, disse, lembrando haver milhões de ações na Justiça.

A reforma trabalhista já é alvo de iniciativas de parlamentares. A mais recente partiu do deputado Júlio Lopes (PP-RJ), que apresentou no mês passado um projeto de lei (4.962) que altera o artigo 618 da CLT — que trata das convenções —, nos mesmos moldes da intenção do governo de Temer. A proposta está sendo avaliada pela Comissão do Trabalho, em caráter terminativo. Caso não haja recurso para que o projeto seja apreciado pelo plenário da Câmara, o texto, se aprovado, seguirá direto para o Senado. As audiências na Comissão já estão marcadas para o próximo dia 14. Lopes apresentou o projeto depois de conversar pessoalmente com o próprio Temer antes de este assumir o governo. O projeto tem o apoio do presidente do TST.

Centrais sindicais vetam flexibilização de leis do trabalho

Entidades dizem não querer negociar antes que a crise econômica acabe

Paulinho da Força: “contra qualquer flexibilização” – Edilson Dantas / Agência O Globo/20/05/2016

A intenção do governo de reformar as leis trabalhistas vai esbarrar na resistência das principais centrais sindicais. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e mesmo a Força Sindical, alinhada desde a primeira hora ao governo Michel Temer, dizem que não aceitarão qualquer forma de flexibilização da legislação.

O fato de a gestão de Temer ser, em princípio, transitória reforçou ainda mais a negativa de Vagner Freitas, presidente da CUT, entidade que abertamente se opõe ao impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff:

— O Brasil tem hoje um presidente que não tem legitimidade para fazer alterações legislativas deste tamanho.

O deputado federal Paulo Pereira da Silva (SD-SP), o Paulinho, presidente da Força, acrescentou que mexer na lei trabalhista é uma discussão “ruim” para este governo, “que já está entrando na encrenca de mexer na Previdência”.

Paulinho alertou que, se Temer insistir nestes temas, poderá unir as centrais sindicais contra o governo. E lembrou que Força, UGT, CSB e Nova Central já aceitaram sentar para falar sobre Previdência.

— Com certeza nós vamos ficar contra qualquer flexibilização de lei trabalhista — afirmou Paulinho.

Os dois líderes sindicais mantêm a argumentação, assumida já no governo de Dilma, de que negociar no atual cenário de crise é “sinônimo de retirada de direitos” conquistados.

— Enquanto não houver a conclusão deste processo (de impeachment), não aceitaremos sequer conversar sobre esse tema — resumiu Freitas.

Para o líder da CUT, há uma “avassaladora vontade do grupo conservador que está no governo de fazer o Brasil retroagir 50 anos”.

Perguntado se após a conclusão do processo de impeachment aceitaria conversar, ele disse que sim. Mas alertou que o diálogo será apenas para “ampliar os direitos dos trabalhadores, e não para flexibilizar as atuais regras”.

Paulinho da Força reconheceu a vontade do atual ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, de abrir o diálogo com os sindicatos. Mas, em sua opinião, o trabalhador não está representado na formação do atual governo.

Ainda sobre a possibilidade de sentar para conversar sobre a flexibilização das regras trabalhistas, Paulinho segue a mesma linha de Freitas e diz que negociar as leis trabalhistas só é possível quando o Brasil voltar a crescer:

— Caso contrário, só haverá prejuízo ao trabalhador.

VOZ DISSONANTE

Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), foi o primeiro líder sindical recebido pelo ministro Nogueira em Brasília, na última quarta-feira. Após a reunião, Patah disse que acha que as centrais têm de estar dispostas a debater a lei trabalhista:

— O ministro quer ter um canal de diálogo aberto conosco, e nós temos de entender que a situação atual do país exige a nossa flexibilidade.

Proposta de reforma da legislação divide especialistas

Para alguns, menos leis aumentariam segurança ao contratar

Há vagas. Fábrica em Barcarena (PA): para quem defende a reforma, esta reduziria custos para as empresas, para criarem e manterem empregos – Paulo Fridman / Paulo Fridman/Bloomberg News/12-4-2016

 

A discussão sobre uma reforma trabalhista no momento em que o Brasil atinge taxas históricas de desemprego, que já afeta mais de 11 milhões de pessoas, traz à tona um debate acirrado entre economistas, sociólogos e juristas. Setenta e três anos depois da criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), não há consenso entre especialistas se menos regulação ou uma flexibilização de normas daria impulso ao emprego formal sem perdas na qualidade das condições de trabalho. A quantidade de regras — são mais de 1.700, entre leis, portarias, normas e súmulas trabalhistas — também é alvo de críticas e defesas.

Para o especialista em economia do trabalho José Marcio Camargo, da PUC-Rio, a legislação brasileira protege excessivamente o trabalhador, engessa a relação entre patrões e empregados e onera as empresas. Ele sugere uma reforma que combata a rotatividade que, segundo ele, é incentivada pela garantia de liberação de FGTS e multa rescisória quando o trabalhador é dispensado sem justa causa:

— A legislação atual estimula a rotatividade porque incentiva que o funcionário queira ser demitido, pois ganha um prêmio ao sair da empresa, entre quatro e cinco salários a mais, em FGTS, multa rescisória. Ao mesmo tempo, desincentiva a investir em qualificação, pois a empresa corre o risco de perder esse investimento.

Ancorado na experiência internacional, Camargo defende que as negociações coletiva e individual prevaleçam sobre as leis existentes e que a maior proteção para o trabalhador é o seu nível de formação:

— Países com mercados de trabalho mais livres têm índices de desemprego menores, como na Alemanha (que está na casa dos 4%), enquanto na Espanha e França, que têm mais regras, este é muito maior, de 20% e 10% (respectivamente). O que protege o empregado é a sua qualificação. Se não for produtivo o suficiente, ou o for menos do que seu salário, é demitido. Ninguém contrata para ter prejuízo.

O sociólogo e especialista em Relações de Trabalho José Pastore, e o advogado trabalhista e professor da FGV Direito Rio Luiz Guilherme Migliora também defendem uma reforma que reduza os custos das empresas, para que estas possam gerar e manter mais empregos.

— Com um bom respaldo parlamentar, o governo (Michel Temer) poderá atuar junto ao Congresso para regulamentar medidas que possam induzir a geração de grande número de empregos, como regras para a contratação do trabalho intermitente e de jornadas reduzidas, redução dos custos de contratação de jovens recém-formados, permissão para contratar grupos que sofrem discriminação e resistência, como os portadores de deficiência, por dois ou três dias por semana — pontua Pastore.

Tanto o sociólogo quanto Migliora entendem que profissionais de alta renda e bom nível educacional devem ter liberdade para acertar as condições de trabalho diretamente com o empregador.

— Quem ganha menos e tem menos qualificação (chão de fábrica, comerciários, agricultores e domésticos) deve continuar 100% protegido pela CLT. Os trabalhadores de nível intermediário (formação acadêmica e salários médios) poderiam passar por flexibilizações, podendo fracionar as férias em mais de duas partes, deixar de recolher FGTS, que é mal remunerado e só serve para financiar o governo, para que decidam onde aplicar essa fatia do salário, e substituir as horas extras por banco de horas. Num terceiro nível, executivos com salários acima de R$ 30 mil deveriam ter liberdade total de negociar o contrato com a empresa — sugere Migliora, ressaltando que a maioria dos conflitos que hoje entopem a Justiça do Trabalho e oneram as empresas é para cobrar horas extras que as firmas deixam de pagar.

Para a cientista política Ângela de Castro Gomes, especialista em história da legislação trabalhista no Brasil, o discurso sobre uma reforma que aumente a produtividade e gere empregos pode ser apropriado num momento de recessão, mas é preciso avaliar em quais condições essas vagas serão ofertadas:

— Esse discurso de que a legislação é um obstáculo à criação de emprego, num momento em que falta trabalho, pode ser vista, grosso modo, como atraente. Eventualmente pode gerar mais vagas. Mas em que condições? É bom para quem? Sou contra o interesse em aumento de produtividade e emprego a qualquer custo. É uma bobagem pensar que proteção aos trabalhadores impede o crescimento da economia. Eu não quero que o Brasil seja uma China, com produtos muito baratos e trabalhadores em péssimas condições de trabalho.

‘INVERSÃO DO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO’

Ângela, o professor do Instituto de Economia da Unicamp Claudio Dedecca e Sayonara Grillo, uma das coordenadoras do Grupo de Pesquisa Configurações Institucionais e Relações de Trabalho da Faculdade de Direito da UFRJ, argumentam que a proposta de permitir que convenções prevaleçam sobre a legislação é inconstitucional, pois coloca em risco direitos trabalhistas assegurados pela Constituição, em seu artigo 7º, e que não são negociáveis. Defendem, ainda, que essa proposta é totalmente inadequada num momento em que o desemprego tirou o poder de negociação dos trabalhadores. Sayonara lembra, ainda, que uma proposta semelhante, o projeto de lei (PL) 5483/2001, foi arquivada em 2003 pelo então presidente Lula.

Pastore é simpático à ideia de Temer, mas entende que as convenções devem valer tanto quanto a legislação, não se sobreporem a ela. Dessa forma, explica, as partes teriam a possibilidade de negociar o que consideram melhor para ambas. Quem não quiser negociar fica com as proteções estampadas nas leis.

— Digamos que empregados e empregadores queiram reduzir o horário do almoço de 60 para 30 minutos e fazem isso para os empregados saírem mais cedo do serviço, e empregadores gastarem menos insumos. Os dois ganharam. Infelizmente, a lei e a Justiça do Trabalho não permitem que as partes exerçam essa liberdade. Os empregadores terão mais coragem para empregar se as regras forem ajustadas aos seus negócios — exemplifica o sociólogo.

Sayonara e Ângela entendem que uma reforma trabalhista deve ser feita sempre com a intenção de aumentar a proteção do trabalhador:

 

— Essa proposta cria uma absoluta inversão no sistema jurídico brasileiro e vem na contramão da tendência de universalização do direito do trabalho e da garantia do trabalho decente, que é preconizado pela OIT — ressalta Sayonara.

Dedecca critica o fato de a reforma ser, ao seu ver, “autoritária”, sem discussão com patrões e empregados. Ele acredita na necessidade de sindicatos fortes e uma mudança na forma como ocorrem as negociações entre patrões e empregados, para que as propostas de alteração da CLT partam dessas convenções, a serem encaminhadas ao Congresso para aprovação:

— Precisamos fortalecer a negociação coletiva para que ela seja transformada num sistema de diálogo no qual as partes são obrigadas a negociar e não podem romper a negociação porque isso demonstraria má-fé, como na Alemanha.

Direitos trabalhistas: Europa quer cortar; EUA, ampliar

Debate sobre legislação está em alta em várias partes do mundo

‘Descapitalismo’? Manifestante põe lata de lixo na cabeça em protesto contra reforma trabalhista na França – JEAN-SEBASTIEN EVRARD / AFP

A discussão sobre o melhor modelo para as relações trabalhistas não se restringe ao Brasil. Na França, pioneira na adoção da semana de 35 horas e conhecida pela rígida proteção aos trabalhadores, o governo quer passar por decreto a chamada Lei El Khomri. O objetivo é facilitar as demissões, impor limites às horas extras e abrir caminho para aumento da jornada de trabalho.

A reação foi imediata: além do movimento “Nuit Debout” (”Noite de pé”, em tradução livre), de ocupação de praças, os sindicatos convocaram uma greve geral, e várias refinarias de combustíveis estão paradas. Os confrontos com a polícia são diários.

A França quer flexibilizar seu mercado de trabalho para estimular a economia, algo já feito por Itália e Espanha na esteira da crise do euro. A Grécia também adotou reformas — condição para obter socorro financeiro da União Europeia (UE) —, que incluíram corte de 22% nos salários e aumento da idade da aposentadoria para 67 anos.

SUÍÇA: RENDA BÁSICA UNIVERSAL

Apesar dos protestos dos franceses, a economista Eileen Keller, do Instituto Franco-Alemão de Ludwigsburg, afirma que essas reformas são bem menos ambiciosas que o projeto adotado pela Alemanha na década passada. A Agenda 2010, do governo Gerhard Schröder (1998-2005), tornou mais fácil para as empresas demitirem, elevou a idade da aposentadoria para 67 anos e reduziu o valor do benefício. Com essas reformas, a Alemanha criou um mercado de salários baixos, que muitos apontam como estando na origem da crise do euro.

Hoje, a taxa de desemprego é na Alemanha é de 4,3%, contra mais de 10% na França. Entre os jovens franceses, o índice está em torno de 25%, semelhante aos dos países do Sul da Europa.

Mas, em meio à crise que achatou ainda mais os salários, a chanceler Angela Merkel decidiu adotar, no ano passado, um salário mínimo de € 8,50 (cerca de R$ 34) por hora.

Outros países buscam mais proteção. No próximo dia 5, a Suíça vota sobre o projeto de renda básica, de 2.500 francos suíços (R$ 9 mil) por adulto. A Suécia estuda reduzir a jornada de trabalho para seis horas diárias, sem corte de salário.

Já nos Estados Unidos, o aumento do salário mínimo federal se tornou um dos principais temas da campanha presidencial. Defendida pelo democrata Bernie Sanders, a proposta de elevar o valor de US$ 7,25 (R$ 26) a hora para US$ 15 (R$ 54) começa a chegar aos discursos de outros postulantes à Casa Branca. Além disso, cresce o debate para que os EUA melhorem o pagamento de licenças-maternidade, paternidade e médica. Hoje, a americana que tem um filho pode ficar três meses em casa — mas sem salário.

ARGENTINA NÃO PREVÊ REFORMAS

Mas o governo Barack Obama já determinou a ampliação do pagamento de horas extras, dobrando o teto do salário anual de quem tem direito ao benefício para US$ 47,5 mil (R$ 171 mil). Segundo a Casa Branca, isso deverá gerar anualmente mais US$ 1,2 bilhão (R$ 4,3 bilhões) a 4,2 milhões de trabalhadores. O limite não era corrigido desde 1970. A reforma foi tema, ontem, do pronunciamento semanal de rádio de Obama.

— Sob qualquer ângulo que se olhe, é uma vitória das famílias trabalhadoras — disse Obama.

A Argentina, por sua vez, luta contra a recessão. A taxa de desemprego oficial está em 7,5%, mas, segundo economistas, poderia chegar aos dois dígitos até o fim do ano. Os sindicatos ameaçaram convocar uma greve geral e conseguiram um reajuste de 33% para o salário mínimo. E na sexta-feira, na contramão dos desejos dos sindicalistas, o presidente Mauricio Macri anunciou sua decisão de vetar a Lei Antidemissões, aprovada pelo Congresso na véspera, que proíbe o desligamento de trabalhadores num período de 180 dias.

— Essa lei traria mais pobreza — afirmou Macri.

Ele aposta em medidas específicas para reativar o mercado de trabalho, como um projeto para promover a contratação de jovens entre 18 e 24 anos. No momento, uma reforma trabalhista não está no radar, segundo fontes do Ministério do Trabalho. Na Argentina, o sistema de férias prevê duas semanas para quem tem até cinco anos no emprego; 21 dias entre cinco e dez anos; 28 dias entre dez e 20 anos; e 35 dias acima de 20 anos de casa.

Fonte: O Globo

 

Temer planeja propor idade mínima e 65 anos para aposentadoria

Regra seria igual para homens e mulheres; também há previsão de mudança na CLT

O vice-presidente Michel Temer – Jorge William / 26-4-2016

Caso o Senado afaste a presidente Dilma Rousseff do cargo, o vice-presidente Michel Temer pretende enviar ainda em maio propostas de duas reformas de impacto: da Previdência e a trabalhista. A revelação foi feita ao GLOBO pelo ex-ministro Roberto Brant, que comandou o Ministério da Previdência no governo Fernando Henrique e, por designação de Temer, formula políticas para o setor.

Entre as principais mudanças para a aposentadoria está a fixação de idade mínima de 65 anos para homens e mulheres, que há anos vem sendo cogitada pelo Palácio do Planalto, mas sofre forte oposição de representantes de trabalhadores, incluindo a CUT, da base do governo. Também está prevista a desvinculação dos benefícios previdenciários e assistenciais (para deficientes e idosos de baixa renda) do salário-mínimo. Esses benefícios passariam a ser corrigidos anualmente apenas pela inflação.

Em compensação, a política de valorização do salário-mínimo, com possibilidade de ganhos reais (fórmula que considera o crescimento da economia, mais a inflação), se tornaria definitiva para trabalhadores na ativa. Hoje, sua vigência vai até 2019.

Na área do trabalho, a ideia é permitir que acordos firmados entre empresas e sindicatos prevaleçam sobre as regras da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), desde que assegurados diretos básicos previstos na Constituição, como férias remuneradas, respeito ao salário-mínimo e pagamento de décimo terceiro.

Segundo Brant, as duas propostas de reformas devem ser enviadas nas primeiras semanas de governo para dar uma sinalização positiva aos mercados e aproveitar o respaldo do Congresso. Ele afirmou que Temer deverá se envolver nas negociações com os parlamentares para aprovar as reformas antes das eleições de outubro.

— Temer tem condições de fazer as reformas. Deverá enviar as propostas nas primeiras semanas de governo e usar toda a sua experiência, como ex-presidente da Câmara e deputado, para convencer os parlamentares. Se deixar para depois, já era. Essas são as duas principais reformas. O resto são ajustes — disse Brant.

 

Não há idade mínima para se aposentar. Os trabalhadores podem requerer o benefício com 30 anos de contribuição (mulher) e 35 anos (homem). Para receber a aposentadoria integral é preciso atingir a fórmula 85/95 (soma de idade e tempo de contribuição). Essa escala começa a subir a partir de 2018, até atingir 90/100 em dezembro de 2026

Cria idade mínima para aposentadoria: 65 anos (homens e mulheres). A proposta atingiria quem já está no mercado de trabalho, mas seriam adotadas regras de transição (entre cinco e dez anos no máximo). Quem está próximo da aposentadoria (cinco anos) não seria atingido

Política de ajuste do salário mínimo

Todos os anos, o salário mínimo é reajustado por uma fórmula (em vigor até 2019) que permite ganho real: crescimento da economia de dois anos anteriores mais a inflação do ano anterior

A fórmula de reajuste se tornaria definitiva para os trabalhadores em atividade. Para todos os inativos, o benefício será reajustado apenas pela inflação do período

Benefícios previdenciários e assistenciais (Loas)

Benefícios, como os garantidos a idosos e deficientes, seguem a mesma política de aumento do salário mínimo

Com a desvinculação, esses benefícios teriam apenas a reposição da inflação

Relações Trabalhistas

As empresas são obrigadas a cumprir o previsto na CLT. O Programa de Proteção ao Emprego, criado pelo governo, permite às empresas negociar redução de salário e jornada em períodos de crise, com contrapartida da União. Mas, o salário só pode ser reduzido em 30%

A ideia é flexibilizar a CLT e permitir que empresas e sindicatos possam fechar acordos, desde que preservados diretos básicos previstos na Constituição, como férias, 13º salário e FGTS. Poderiam ser negociados livremente parcelamentos, formas de pagamentos, alíquotas e redução de salários e de jornadas de trabalho

 

ROMBO ESTIMADO ESTE ANO EM R$ 133,6 BILHÕES

Cotado para assumir o Ministério do Trabalho e Previdência, segundo fontes ligadas a Temer, Brant disse que ainda não foi convidado. Frisou, porém, que não pretende aceitar, porque as mudanças precisam de “sangue novo”, pessoas mais jovens com disposição para enfrentar desafios. Ele foi o responsável pela consolidação do programa econômico formulado ano passado pelo PMDB, “Uma ponte para o futuro”.

Brant explicou que a proposta de reforma da Previdência deverá incluir regras de transição para quem já está no mercado de trabalho, mas num período curto (entre cinco e dez anos), sob alegação de que as contas públicas não podem esperar. Em 2016, o rombo da Previdência Social está estimado em R$ 133,6 bilhões. Segundo estimativas oficiais, as despesas com o regime de aposentadoria, que equivalem a 7,95% do PIB, chegarão a 17,2% em 2060, se nada for feito.

A desvinculação do salário-mínimo dos benefícios previdenciários e assistenciais, disse Brant, é essencial para reduzir a pressão dos gastos da Previdência. Já a política de valorização do salário-mínimo com ganho real é bem vista no grupo político de Temer, por repassar ganhos de produtividade para os trabalhadores.

Brant disse que faltam cálculos e projeções para definir detalhes da reforma e prazos de transição. Também ainda se estuda a necessidade de outro critério, além da idade mínima, para evitar aumento inesperado da despesa diante do envelhecimento rápido da população e do aumento da expectativa de vida. A reforma, destacou, pretende acabar com a aposentadoria por tempo de contribuição e com o Fator Previdenciário, alvo de críticas das centrais sindicais.

MUDANÇAS TAMBÉM NA CLT

No caso da reforma da CLT, Brant explicou que a ideia é permitir que o acordado possa prevalecer sobre o legislado — em acordos coletivos, feitos por sindicatos e empresas —, desde que preservados direitos básicos previstos na Constituição. Destacou ainda que as empresas não poderão unilateralmente cortar direitos e que tudo precisará ter o aval dos sindicatos dos trabalhadores. Em momentos de crise como o atual, sindicatos e patrões poderiam optar por reduzir livremente salários e jornadas, em vez de promover demissões. Também poderiam negociar o parcelamento no pagamento de benefícios, como férias e décimo terceiro, desde que em acordo com os sindicatos da categoria.

Brant lembrou que as linhas gerais da reforma da Previdência estão em acordo com os estudos já apresentados pela equipe econômica de Dilma. Mas disse esperar um “jogo pesado” do PT.

— Vão tentar jogar a sociedade contra Temer — disse Brant.

Para o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Marcelo Caetano, que participou da elaboração das últimas reformas da Previdência, Temer precisará construir o consenso mínimo entre as áreas envolvidas (Fazenda, Planejamento e Previdência), e submeter a proposta a uma análise da Casa Civil, para evitar brechas jurídicas.

TEMER: “A ORDEM VEM ANTES DO PROGRESSO”

Temer se encontrou ontem com representantes da bancada ruralista. Os deputados, que votaram em peso pelo impeachment da presidente Dilma, saíram satisfeitos do encontro. Além de receberem do vice o compromisso de que será escolhido um ministro da Agricultura “à altura” da pasta, que terá, segundo eles, mais autonomia e status do que hoje, os parlamentares perceberam sinais de que os movimentos sociais no campo não terão vida fácil. Temer pretende colocar o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), responsável pelas políticas para assentados e agricultores familiares, sob o guarda-chuva do novo Ministério da Agricultura.

Os deputados demonstraram preocupação, por exemplo, com as ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que promete reagir a uma eventual retirada de Dilma do poder. A resposta de Temer veio por uma analogia aos dizeres da bandeira do Brasil:

— No meu governo não vou abrir mão do lema da bandeira do Brasil. E nela a ordem vem antes do progresso — teria dito o peemedebista.

Após críticas dos parlamentares presentes na reunião, Temer também sinalizou que poderá rever as cerca de 30 portarias publicadas recentemente pelo governo, e que aceleraram demarcações de terras indígenas. A medida faz parte do esforço do Palácio do Planalto para destravar demandas represadas. A bancada quer indicar o ministro da Agricultura, além de órgãos ligados à pasta, como Incra e Funai. Também pediu a Temer que “tire a ideologia desses órgãos”.(Colaborou Letícia Fernandes)

Fonte: O Globo

Por que será que a Rede Globo está preocupada SÓ com os salários dos AFRs de São Paulo????????????

22/04/2016

Quando o propósito de uma reportagem é engendrado antes de sua execução

pensionistasvip

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1) Os agentes fiscais de rendas, como todos os demais servidores, estão sujeitos à um teto salarial do governador (agente transitório e político), enquanto que na maioria dos estados os servidores estão sujeitos ao teto dos desembargadores, que por sua vez, estão atrelados aos subsídios do STF.

2) Em São Paulo, os servidores do Poder Judiciário, também, estão sob o justo mecanismo, citado acima, portanto, sem balizamento político em seus salários. A fiscalização, sendo carreira típica de estado e estratégica, não poderia estar submissa à vontade política dos proventos do governador de plantão, que não depende desta receita para sua subsistência.

Em resumo, nada justifica tetos diferenciados para Poder Executivo e Poder Judiciário, com discriminação, afinal não deveriam existir servidores de 1ª ou 2ª categorias.

A reportagem sensacionalista em sua chamada e simplória em seu conteúdo poderia, ao menos, em nome do bom jornalismo procurar o Sinafresp para ouvir o “outro lado”.

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3) Tudo isso sem falar do vergonhoso salário inicial de um agente público que atua junto ao erário. Aqui a reportagem acertou no número:

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4) Sobre a gorda e escandalosa remuneração dos magistrados paulistas (80 k liquidos), nenhuma palavra…

No Roda Viva da TV Cultura, presidente do TJ-SPJosé Renato Nalini, fala do auxílio moradia, 60 dias de férias e crédito de R$ 30 bilhões ref. remunerações atrasadas (sic):

Presidente do TJ: “Não dá pro juiz ir toda hora comprar terno em Miami”:

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5) …muito menos dos empresários que vivem com minguados pro labores declarados no IR. Aí a conclusão de que os Agentes dos Fisco é que são vilões (despesa) da história. É uma visão muito curta tendenciosa dessa pseudo reportagem:

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6) Informações inverídicas: Não recebemos aux. moradia nem auxílio saúde. Diferentemente dos empregados da iniciativa privada, que tem plano de saúde como benefício indireto, os servidores pagam 2% da sua remuneração para serem atendidos pelo sistema IAMSPE. As diárias, embora sejam direito assegurado, o senhor secretário da Fazenda, em recente Resolução (contrariando Decreto do senhor governador) vedou o custeio, mediante o uso do chamado “vale-coxinha” no valor de R$ 15,00. As despesas de viagem se limitam a ressarcimento de passagem de ônibus (para cursos e seminários), mediante comprovação. Tudo isso demonstra que a reportagem sequer pesquisou o tema, minimamente, junto aos órgãos oficiais.

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7) A mudança ocorrida, no ano passado, se deu pela decisão tardia do STF, que atingiu os professores das universidades estaduais, que estavam recebendo, desde 2003, as vantagens pessoais por fora do teto.

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Todos os demais servidores, incluído os agentes fiscais de rendas, já estavam, desde 2003 (Reforma da Previdência) sujeitos ao corte das vantagens pessoais. Portanto, mais uma informação inverídica na reportagem da Globo.

A pergunta que não quer calar: A quem interessa uma campanha de desvalorização da carreira do Fisco, carreira esta que em diversos estados já possuem Lei Orgânica, mas em São Paulo sequer é recebida pelo senhor governador Geraldo Alckmin (PSDB), para dialogar?

Obs.: Servidor público, além de não ter direito ao FGTS, mesmo depois de aposentado continua a ser descontada a contribuição previdenciária (11% ou 13%)

Fonte: Blog do AFR

Cresce a crença de que saída de Dilma não resolver crise do País

17/04/2016

Para agências de risco, só impeachment não altera situação econômica do Brasil

Analistas afirmam que país precisa de ‘consenso político’

Cartaz do encontro de primavera do FMI em Washington – Andrew Harrer / Bloomberg

 

Analistas de agências de classificação de risco que participam da reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, informaram que o impeachment, em si, não mudaria a percepção do mundo sobre a situação econômica do Brasil. Falando sob sigilo, esses analistas afirmaram que, independente do governo que sairá depois da votação do impeachment no domingo, será necessário ver se o país obtém um “consenso político” para fazer o ajuste fiscal e fazer com que o país volte a crescer.

Estes analistas afirmaram que não observam a situação do país em um curto espaço de tempo, mas sim a trajetória e a expectativa em períodos de doze a dezoito meses. Eles afirmam que neste análise, por exemplo, será levado em conta a capacidade do Brasil voltar a crescer pois, do contrário, o ajuste fiscal não será sustentável. E que mais que um plano crível, o governo precisa provar que tem condições de implementá-lo.

Mas os analistas afirmam que há casos em que ocorre uma rápida reversão de expectativas, como aconteceu recentemente na Argentina, que em pouco tempo após a troca de governo conseguiu mudar o humor dos investidores e agentes financeiros internos e externos. Mas que isso ocorreu porque, mais que discursos, houve do novo governo argentino ações que mudaram o ambiente econômico.

‘Haverá perdas nos avanços sociais’, diz diretor do FMI sobre o Brasil

Para Alejandro Werner, país vive crise de confiança sem paralelo no mundo

Alejandro Werner destaca que país tem um grande volume de reservas internacionais e não deve precisar da ajuda do FMI – Divulgação

 

A situação política e econômica do Brasil, que levou ao “colapso da confiança” no país, não tem paralelo no mundo, afirma o mexicano Alejandro Werner, diretor do Departamento de Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em entrevista ao GLOBO, ele avalia que a crise política que levou à votação do impeachment, hoje, agravou a recessão que já era esperada com o ajuste econômico. Ele diz que as investigações contra corrupção, embora fortaleçam as instituições no futuro, trazem impactos negativos econômicos no curto prazo. Werner espera que o país sofra alguma redução nos avanços sociais obtidos nos últimos anos, com o desemprego elevado, mas sem reverter totalmente as conquistas. Mas ele ressalta pontos positivos. “Podemos ter boas surpresas”, disse, lembrando que o país tem um sistema financeiro sólido e continua atraindo investimentos externos. Abaixo, os principais trechos da entrevista, concedida na última sexta-feira durante a reunião de primavera do FMI, em Washington.

O senhor disse que o Brasil vive um colapso de confiança. Como é esse processo? Pode-se traçar um paralelo do Brasil com outro país?

É muito difícil encontrar um paralelo com o Brasil, porque o país hoje enfrenta um problema econômico muito grande. Há vários meses, o Brasil teria um desafio de fazer uma correção a médio prazo em suas finanças públicas, que já não seria simples e que exigiria uma estratégia que combinasse medidas de curto prazo sobre gastos e arrecadação a outras de médio prazo, que implicassem correção em certos esquemas de proteção social. O Brasil tem um gasto com aposentadorias muito elevado, em comparação com países com o mesmo nível de renda per capita e uma demografia semelhante. Além disso, o país tem uma estrutura tributária muito complicada. Ao mesmo tempo, ocorreu o choque do petróleo, em uma economia que via um futuro muito importante no setor, o que afetou os projetos de energia a médio prazo. Há ainda as investigações de corrupção da Petrobras, que são uma boa ferramenta, a médio prazo, para reforçar a solidez institucional e reduzir a corrupção, mas que, a curto prazo, geram incertezas, pois afetam as grandes empresas do país. E, obviamente, uma crise política muito importante, que levou a essa situação, da votação do processo de impeachment este fim de semana. Essa situação é muito particular, por isso é difícil comparar o Brasil com outros países. Olhando para frente, é importante imaginar que, após esse processo, é preciso reduzir de maneira considerável as incertezas, o que permitiria abrir caminho para uma discussão política para que o país possa debater as medidas econômicas necessárias para estabilizar a economia, alcançar a estabilidade fiscal e focar em um novo ambiente de trabalho, para levar a inflação de volta à meta. Isso permitiria recuperar a confiança e levaria os agentes econômicos a reavaliarem seus projetos de investimento, para que a economia comece a se recuperar.

A confiança é um dos valores mais importantes da economia. De quanto tempo o Brasil precisará para retomar essa confiança?

Os níveis de confiança de consumidores e produtores sofreram uma queda muito forte, porque a economia está em retração, há perda de emprego e as taxas de juros estão muito elevadas. Quando se pergunta às pessoas se as condições estão propícias para comprar bens duráveis, para investir, elas vão dizer que não. Mas, por outro lado, temos de destacar os muitos aspectos de solidez da economia brasileira. Porque, mesmo nessa situação, vemos um sistema financeiro que suportou tudo, que é saudável. O sistema bancário também é saudável. E temos uma dívida pública e corporativa que está sendo rolada, que não gerou problemas de corrida bancária, e também vemos que muitas pessoas, a médio prazo, acreditam que a sociedade brasileira vai encontrar os meios para resolver seus problemas. Então eu diria que, caso se consiga reduzir de maneira significativa a incerteza e anunciar e começar a implementação de medidas na direção correta, a confiança vai voltar. Não de maneira imediata, mas começará a ser reconquistada, e poderemos ver surpresas favoráveis. Mas será necessário, obviamente, ter uma agenda econômica integral e a capacidade de implementar essa agenda.

FMIComo o Fundo pode auxiliar o Brasil neste momento?

O Brasil conta com recursos próprios muito importantes, tem reservas internacionais muitos grandes. Há também uma ampla discussão, com muitos atores, sobre que medidas o país precisa tomar para voltar a uma rota de crescimento. O Brasil hoje não tem uma necessidade de ajuda no balanço de pagamentos, como ocorreu no passado. Sempre estamos dispostos a ajudar os países membros, em aspectos técnicos, na medida em que eles considerem isso apropriado. Mas o Brasil tem toda a capacidade para resolver isso, a rota está bem traçada pelos agentes econômicos locais. Vemos que é mais uma questão de conseguir reduzir as incertezas políticas e abrir espaço para uma negociação sobre o que precisa ser feito na parte econômica.

No contexto do Mercosul, a Argentina está fazendo um grande ajuste, com alta de tarifas, corte de gastos sociais e demissões no setor público. Se houver uma mudança de governo, o Brasil teria de passar por um processo semelhante? Teria de fazer cortes em gastos sociais?

O Brasil já está passando por um ajuste econômico muito importante. O Brasil já ajustou tarifas públicas no começo de 2015. Além disso, os desequilíbrios no Brasil eram menores que os da Argentina. Então eu diria que nesse sentido o Brasil já está passando por uma recessão. Tendo dito isso, claramente o Brasil tem um desafio fiscal significativo. Há muito por fazer a médio prazo, como reequilibrar as receitas do governo com as promessas de gastos em vários setores. Com relação à questão da Previdência, muito discutida no Brasil, obviamente o nível de gastos, de 40% do PIB, representa um enorme desafio. O que é crucial para o futuro é um acordo político que permita levar a cabo as reformas estruturais, na parte de gastos e de aposentadorias, talvez também na parte de impostos.

Outros países da América Latina também passam por desafios. Como a situação do Brasil contagia países vizinhos?

O contágio brasileiro é menor do que no passado, porque nos últimos dez anos os países da América do Sul diversificaram seu comércio para outras regiões do mundo. Os vínculos do Brasil com Argentina, Uruguai e Paraguai são fortes, então esses países estão sentindo a recessão brasileira, mas não vemos qualquer tipo importante de contaminação financeira sobre os preços dos ativos brasileiros ou dos outros países da região.

O Brasil está muito ligado à economia chinesa e não aproveitou os últimos anos para novos acordos. Isso cria novas dificuldades agora?

Do meu ponto de vista, o Brasil, por ser uma economia relativamente fechada, não conseguiu atrair mais investimentos e obter maior crescimento da produtividade. Eu não diria que a economia brasileira se vinculou claramente à da China por meio das commodities. A economia brasileira tem um setor industrial muito significativo, que pode ser a base para um crescimento mais diversificado. Não é uma economia pequena, na qual o peso das commodities é crucial: nos últimos anos, o crescimento do país foi determinado por muitas coisas além das commodities, como os setores financeiro, de serviços e de consumo, e também pelas expectativas de desenvolvimento da indústria e do setor energético. Quando o ciclo atual se reverter, haverá um forte impulso a este setor, que hoje se encontra estagnado, devido a uma estratégia de concentração no petróleo, que hoje não é mais viável.

De qualquer maneira, o Brasil não pode contar com um cenário externo favorável para auxiliar seu ajuste?

Claro que não. Acredito que, hoje, para corrigir a situação do Brasil, os fatores domésticos são muito mais importantes que os externos. Uma melhora no cenário internacional não vai mudar a situação do Brasil, se a situação doméstica não mudar.

 

Mas uma piora do cenário global dificultaria mais a retomada brasileira?

Sim, mas mesmo que o cenário internacional piore, se o Brasil corrigir seus problemas internos, terá um potencial de crescimento muito grande, pois o que vemos é que, no desempenho econômico atual do Brasil, o fator doméstico é dominante. Nesse sentido, é aí que devem ser concentrados os esforços. Por outro lado, é certo que se tem um cenário internacional menos favorável que no passado, os riscos são elevados, que devem ser levados em conta nas políticas dos países, o que reforça a necessidade de arrumar a situação interna do país.

Como fica o fluxo de investimentos para o Brasil nesse cenário?

Um dos efeitos positivos (da recessão) é a correção do déficit em conta corrente, e também há uma reação das exportações não tradicionais. Por outro lado, quando vemos o balanço de pagamentos, é importante destacar que o investimento estrangeiro direto no Brasil continua muito elevado, em resposta a um fenômeno pulverizado de operações de empresas que estão entrando no país, ou que estão ajudando suas subsidiárias brasileiras. Então é preciso reconhecer que o investimento estrangeiro está trazendo alívio a uma situação tão incerta, bem como que as empresas internacionais veem o potencial do Brasil a médio prazo e continuam investindo na economia do país. Por outro lado, pensando no fluxo de capitais, temos visto no Brasil muita volatilidade nas últimas semanas.

Hoje há muito pessimismo em relação aos avanços sociais, e o próprio Fundo já projeta o desemprego em 10% para 2017. O Brasil pode perder os avanços sociais obtidos no passado?

Obviamente, haverá perdas nos avanços sociais, porque os ajustes estão tendo um efeito recessivo muito maior do que se projetava. Porque a crise política e a lentidão do ajuste fiscal fazem com que a recessão seja muito mais profunda do que deveria ter sido. Na medida em que essas questões macroeconômicas se resolvam, acredito que pode, sim, haver alguma perda, mas uma parte muito significativa dos avanços sociais do Brasil deve ser mantida, e a economia brasileira pode mantê-los, apesar de um cenário internacional menos favorável.

Só ação concentrada do governo, seja ele qual for, pode salvar economia em 2017, dizem analistas

Segundo economistas, controle da dívida pública é tarefa fundamental

    Enquanto as atenções do Brasil inteiro estão voltadas para os próximos movimentos no cenário político, no front econômico o país tem pouco tempo para evitar amargar, em 2017, seu terceiro ano seguido de recessão. Na média, os analistas de mercado ainda preveem leve alta no PIB (Produto Interno Bruto, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país) no próximo ano, de 0,3%, segundo o Boletim Focus, do Banco Central. Mas muitos não descartam uma contração. Inverter o rumo da economia a esta altura representa uma corrida contra o tempo. Na avaliação de especialistas, ainda é possível salvar o país do que seria o maior e mais profundo período de recessão em mais de um século, desde que a crise política tenha um desfecho rápido. Para isso, dizem os analistas, é preciso que o governo, seja ele qual for, adote ação concentrada, com medidas de compromisso fiscal para manter a dívida pública em patamar sustentável. Um resgate da confiança é, assim, fundamental para a retomada dos investimentos que tornem possível ao país voltar a crescer.

    FUTURO NEBULOSO

    ATIVIDADE ECONÔMICA PIORA COM A CRISE POLÍTICA

    A definição de quem estará no governo tem papel crucial sobre as expectativas. Entre os analistas de mercado, a tendência é de um viés mais otimista com uma troca de comando. Mas, em qualquer cenário, a retomada do crescimento não é vista como tarefa de fácil execução.

    — Se o processo do impeachment não passar, outras denúncias vão continuar atrapalhando o governo. Se passar, teremos a ação de movimentos sociais e não saberemos como será governar em meio a uma sociedade rachada. Então, mais do que quem vai estar lá (no comando do país), é a quantidade de nevoeiro que vai determinar quando voltaremos a crescer. Hoje, estamos descendo a serra sem enxergar cem metros à frente. Então, andamos devagar. Se você consegue tirar essa nuvem da frente, é possível olhar adiante e até recuperar o terreno perdido com crescimento rápido de médio prazo — avalia o economista-chefe do Banco ABC, Luis Otavio de Souza Leal.

    Para o economista, o governo precisa provar que a dívida pública ficará sob controle. No ano passado, o governo federal fechou o ano com rombo de R$ 114,9 bilhões no orçamento. É o maior déficit da história. Sem superávit, o governo não consegue economizar para pagar os juros da dívida pública.

    — A grande questão é mostrar, na parte fiscal, que a dívida do governo não vai entrar em trajetória insustentável. Estamos em um círculo vicioso, e tudo é pessimismo. Precisamos virar a chave para que os agentes econômicos comecem a achar que tem uma luz no fim do túnel. Com melhores expectativas, o dólar fica mais baixo, a inflação, mais comportada e os juros podem cair, melhorando as expectativas de crédito e as dos empresários, que voltam a investir — analisa Leal, que, ainda assim, avalia que a economia terá retração de 0,2% em 2017.

    DEPENDÊNCIA DO SETOR EXTERNO

    Analistas de agências de classificação de risco que participam da reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, avaliam que o impeachment, em si, não mudará a percepção econômica do mundo. Falando sob sigilo, dizem que, independentemente do governo, será necessário ver se o país obtém “consenso político” para fazer o ajuste fiscal. Ressaltam que não se atêm ao curto prazo, mas observam a trajetória e as expectativas em períodos de 12 a 18 meses. Levarão em conta a capacidade de o país voltar a crescer, pois, do contrário, o ajuste fiscal não será sustentável. Além de um plano crível, dizem que o governo terá de mostrar capacidade de implementá-lo.

    No ano passado, o consumo das famílias desabou 4%, e os investimentos, 14%. Os dois setores registram o pior desempenho em 19 anos e foram determinantes para a economia ter encolhido 3,8%. A indústria está cada vez mais ociosa e opera com um nível de utilização da capacidade instalada de 73%. O economista Luiz Gonzaga Belluzzo defende que é necessário incentivar o setor privado a investir, por meio de concessões, por exemplo:

    — Seja qual for o resultado sobre o pedido de impeachment, salvar 2017 depende da capacidade do governo de articular medidas com o setor privado, de modo a recuperar algum estímulo à economia. É preciso impulsionar os investimentos privados, com concessões. Mas as empresas de infraestrutura estão paralisadas com a Lava-Jato. É necessário que se separe o destino das empresas dos seus controladores.

    Ele acredita que, ao contrário da última vez em que o país passou por três anos seguidos de recessão, no início dos anos 1980, o crescimento não se dará por meio das exportações dessa vez:

    — Não há demanda global considerável. A economia mundial está devagar, quase parando.

    Para o professor do Instituto de Economia da UFRJ José Luis Oreiro, a recessão se aprofundou em razão da crise política. Para o professor, a presidente Dilma Rousseff não tem apoio político para criar um consenso mínimo em torno de uma agenda de reformas estruturais no lado fiscal que mostre, no médio e longo prazos, que o país é capaz de conter o ritmo de despesas primárias da União. Sem reformas, para ele, não é possível retomar o crescimento:

    — É preciso colocar as reformas estruturais em prática para que o Banco Central possa baixar juros e estimular consumo e investimento.

    Oreiro explica que a permanência da presidente Dilma no cargo seria mal recebida pelo mercado e, em consequência, o país voltaria a registrar forte desvalorização cambial, com o dólar voltando ao patamar dos R$ 4, e maior percepção de incerteza:

    — Isso afastaria qualquer possibilidade de retomada em 2017.

    A Tendências Consultoria estima que o país sairá da recessão em 2017 com crescimento de 1,2%. Isso baseado em cenário que considera probabilidade de 70% de uma interrupção do atual governo. E, ao contrário de Belluzzo, a casa de análises aposta numa retomada via exportações:

    — Vemos o setor externo puxando o crescimento, já que as exportações estão aumentando. As importações estão caindo dramaticamente e sendo substituídas por produção nacional — justifica a economista Alessandra Ribeiro, da Tendências.

    No cenário em que a presidente Dilma permanece na presidência, a Tendências prevê queda do PIB de 0,6% em 2017.

    PACTO DE CONVIVÊNCIA POLÍTICA

    Arminio Fraga, sócio da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, condiciona uma retomada à saída da presidente. O economista tem sido citado como possível ministro em um eventual governo Michel Temer, mas sustenta que tem interesse apenas em colaborar, não em assumir um cargo:

    — Se o impeachment vier acompanhado de uma proposta clara para o futuro do Brasil, uma mudança de rota com relação ao que temos hoje, acho que a economia pode reagir. Não creio que vá dar um salto e começar a crescer de forma acelerada porque os problemas são muitos e muito difíceis.

    Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, traça cenários distintos para a economia de acordo com o resultado da crise política e vê espaço para uma expansão de 0,6% em 2017 diante de uma troca de comando. Segundo Vale, os bons ventos sobre o mercado, neste cenário, poderiam ser aproveitados pelo novo governo com a retomada do tripé macroeconômico, pautado em metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante.

    — E também sinalizando com reformas mínimas, especialmente a da Previdência — diz.

    Sobre a possibilidade de Dilma se manter presidente e os efeitos na economia, Arminio Fraga demonstra preocupação:

    — Podemos mergulhar numa trajetória muito mais apavorante que a atual. Porque a atual se beneficia da expectativa de mudança.

    Para Francisco Lopreato, economista da Unicamp, independentemente de quem seja o presidente, é preciso que o governo firme um pacto de convivência política que crie estabilidade. Com esse pacto, acredita ser possível “ficar com o nariz fora d’água” durante 2017. Para, então, iniciar lentamente um processo de recuperação e chegar ao final do ano em situação melhor do que a atual.

    — Esse pacto é necessário para que o governo consiga governar. Nada foi aprovado no Congresso. Tudo está parado: concessões, renegociação da dívida dos estados, reforma tributária, da Previdência, nada teve continuidade — enumera Lopreato.

    Para Lopreato, a situação econômica é decorrente do que ele descreve como uma “situação de terra de ninguém no campo da política”:

    — Historicamente, as grandes crises do país ocorreram por causa do setor externo. Temos um volume de reservas enorme e o balanço de pagamento se recuperou. O grosso do ajuste das empresas já foi feito. A situação fiscal piorou muito em função da própria queda da arrecadação. Se houver melhora, a situação fiscal ficará mais manejável. Melhora a arrecadação, a situação de municípios e estados, e temos um câmbio favorecendo as exportações.

    Fonte: O Globo

    Em meio ao Fla-Flu político, grupo de brasileiros não apoia lado algum

    Professor, doméstica e outros profissionais afetados pela crise não confiam em ninguém

    Maria do Socorro vai acompanhar a votação ‘para ver se não vai acabar em pizza’ – Marcos Alves / Agência O Glob
    Em junho de 2013, o advogado Thiago Nascimento Estevam, de 31 anos, somava-se aos milhares de manifestantes que ocuparam as ruas pedindo um país melhor. Hoje, diz que observa do sofá os atos favoráveis e contrários ao governo nas ruas, porque “ninguém tem credibilidade no país”. Durante a votação de hoje na Câmara dos Deputados, que definirá o destino da presidente Dilma Rousseff, diz que ficará com a família fazendo alguma coisa que não seja acompanhar a sentença dos deputados, a partir das 14h. O carioca integra o coro crescente de brasileiros que não pendem para qualquer lado do Fla-Flu político, tamanho desabono com o rumo do país.

    — O problema é saber quem vai liderar o país. Cunha? Renan Calheiros? O presidente do STF? Vamos chamar novas eleições? Com quais candidatos? No atual momento, acho que a melhor situação seria a saída de todos eles — analisa Estevam.

    A emprega doméstica Maria do Socorro Rafael de Lima, de 48 anos, nunca foi eleitora do ex-presidente Lula ou de Dilma, mas elogia projetos como o Bolsa Família. Nordestina de Sumé, interior da Paraíba, a moradora de São Paulo diz que hoje os benefícios já não são suficientes para os brasileiros e reclama que sua terra natal está abandonada. Apesar do descontentamento, sublinha que “não se presta ao papel de ir às ruas porque sente que não vai dar em nada”. Hoje, vai acompanhar a votação “para ver se não vai acabar em pizza”.

    — Lula decepcionou bastante a gente. Da última vez em que fui para minha cidade, há dois meses, vi muita gente contra o PT porque fizeram promessas e não cumpriram. É como dar bala na boca de criança e depois tirar. Ajudaram, mas acabou. Essa história de Bolsa Família, Fome Zero já não é bem assim — reclama.

    Cesar Manieri, dono de escola, fechou o negócio por conta da crise e hoje dá aulas particulares – Marcos Alves / Agência O Globo

    O empresário Rafael Amorim, de 31 anos, também foi para as ruas do Rio em 2013. Nunca votou em Lula, mas em 2014 apoiou a reeleição de Dilma, acreditando que o tal gigante realmente tinha acordado. Contesta hoje se a queda da petista melhoraria o país, e considera anular o próximo voto para presidente.

    Descrente de que o impeachment mudará o rumo do país para melhor, aproveitará o domingo para assistir a uma outra disputa de poder. Ele fará uma maratona de “Game of Thrones”, série de TV em que vale tudo para ocupar o famoso trono de ferro.

    — É mais útil do que ir para a rua. O problema é que os discursos sempre se confundem. Ninguém se sente representado, mas acaba optando por um lado. Só querem mudar os peões, mas o jogo continua o mesmo. A única vantagem dessa crise é que nunca na História deste país se investigou com tanto afinco um governo — observa.

    O engenheiro paulistano César Manieri, de 53 anos, acha que a política precisa de um refresh. Dono de um colégio por três anos, ele conta que precisou fechar as portas em 2015 devido à crise econômica e hoje dá aulas de reforço na varanda de casa. Sem esperanças em qualquer postulante ao cargo mais importante do Brasil, prevê uma sociedade órfã após a votação de hoje.

    — Acho que deu tela azul no modelo político atual. Nossas instituições estão tomadas em grande parte por um projeto criminoso de poder e, na verdade, não tenho esperanças de que, num curto prazo, as coisas se alterem. Para mudar tudo isso, será necessário convocar novas eleições, com candidatos ficha limpa e sem a participação de partidos que acabaram ou ajudaram a acabar com o país. É reinicializar tudo — argumenta.

    A estudante de Engenharia Civil Eduarda Lucas, de 18 anos, assistiu de casa, em São Paulo, às últimas manifestações contrárias e favoráveis ao impeachment, e hoje não será diferente. Não acha correto pedir a saída de Dilma, já que a mandatária foi eleita democraticamente, mas também não consegue apontar um nome em quem votaria nas próximas eleições.

     

    — Acho que o impedimento da presidente Dilma agora só agravaria ainda mais a situação política e econômica do país. Mas, ao mesmo tempo, acho que temos que buscar mudanças — discursa a jovem.

    A pesquisadora Esther Solano, professora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), observa com preocupação a imprecisão política que cresce no mundo. Para ela, os discursos dos governantes estão cada vez mais vazios, o que dá espaço para o surgimento de figuras como o magnata Donald Trump, atual concorrente à candidatura republicana à presidência dos Estados Unidos.

    — Vejo especificamente no Brasil uma ideia muito focada no personagem. Temos hoje o bem contra o mal, o Sérgio Moro como símbolo de combate à corrupção e o ex-presidente Lula como o mal, ou o contrário. É difícil sair desse debate e encontrar o diálogo — analisa a pesquisadora.

    Fonte: O Globo

    Câmara dos Deputados decidiu em 17/4/16 que impeachment vai ao Senado

    17/04/2016
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      O ato a favor do governo Dilma Rousseff na orla do Rio foi encerrado com o hino nacional. Do carro de som, ouvia-se a mensagem: “Queriam que a praia fosse só dos coxinhas, e tomamos deles. Agora, vamos tomar o hino nacional também”.

      — Já estava planejado terminar com o hino. A orla não é só deles (favoráveis ao impeachment), é de todos nós. Com o hino, a mesma coisa — afirmou Rômulo Costa da Furacão 2000. — Foi um ato muito bom. Tivemos mais de 50 mil pessoas. A mensagem é que o impeachment não vai passar.

    • Manifestantes contra governo circulam na Câmara

      Os representantes do Movimento Brasil Livre (MBL), que defende o impeachment, continuam transitando no Salão Verde da Câmara. Ontem, houve confusão pela presença, e deputados governistas pediram a retirada deles. Como eles receberam credenciais, porém, poderão ficar.

    • Aliado de Temer faz romaria a gabinetes

      Acompanhado pelo deputado André Moura (PSC-SE), um dos maiores aliados do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o ex-ministro Eliseu Padilha faz uma romaria, na manhã deste domingo, por lideranças de partidos que apoiam o impeachment. Além do PMDB, ele já foi ao PSDB, DEM e PTB. Padilha disse que há um entusiasmo grande com o “efeito dominó” de deputados que, segundo ele, vêm aderindo ao impedimento de Dilma Rousseff nesta reta final.

    • Ato anti-impeachment tem Cunha como maior alvo

       

      Eduardo Cunha é o principal alvo dos manifestantes que participam do ato contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff em Copacabana. Muitos dos cartazes exibidos na passeata pela orla  exigiam a saída de Cunha da presidência da Câmara. No carro de som, artistas entoavam uma música dizendo que Cunha deixaria a Câmara “de camburão”.

      — Cunha representa todas as forças reacionárias do país. É um bandido. O projeto do PMDB, em vez de passo para o futuro, é um passo para o abismo — criticou Mônica Lemos, professora do Colégio Pedro II.

      Personagens folclóricos de manifestações, como o artista plástico Carlos Medeiros, o “Batman pobre”, também não pouparam críticas ao presidente da Câmara.

      — Quem está julgando a presidente Dilma não tem cacife para isso — resumiu.

      O ato chegou ao Leme por volta das 12h30m. A projeção dos organizadores é de cerca de 50 mil presentes. A polícia militar informou que não faria estimativa oficial.

    • Manifestações contra e a favor do impeachment ocorrem em dez estados e no DF

      Manifestantes já ocupam a Esplanada dos Ministérios, em Brasília  Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/brasil/manifestacoes-contra-a-favor-do-impeachment-se-espalham-pelo-pais-19106641#ixzz466A8zR8T  © 1996 - 2016. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

      A poucas horas do início da votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, manifestações contra e a favor se espalham por todo o país. Segundo o site “G1”, dez estados e o Distrito Federal registram protestos neste momento.

      No Rio de Janeiro, a manifestação contra o impeachment é embalada por sucessos como “Rap do Silva”, “Nosso Sonho” e “Rap do Salgueiro” na Praia de Copacabana. O protesto, que começou por volta das 10h30m, foi organizado pela Frente Brasil Popular e pela Furacão 2000. Em Brasília, os protestos estão tranquilos. Um corredor humano formado por policiais se posiciona em cada um dos lados do muro que separa os grupos. O número de manifestantes a favor do impeachment é maior no momento, com integrantes vestidos de verde e amarelo e tirando selfies.

      Em São Paulo poucos manifestantes se reúnem na Avenida Paulista, favoráveis ao impeachment. Um grupo pequeno protesta contra o processo no Vale do Anhangabaú, no centro da capital paulista. Polícias militares, no entanto, detiveram um homem acusado de cortar o pato gigante inflável da Fiesp usado como símbolo da campanha contra aumento de impostos intitulada “Não vou pagar o pato”.

    • Em Brasília, Lula tenta conquistar votos contra o impeachment

      Lula em manifestação contra o impeachment neste sábado

      O ex-presidente Lula voltou a Brasília na manhã deste domingo para tentar uma última ofensiva antes da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff: o petista está ligando para deputados para tentar conquistar votos contra o afastamento ou pelo menos para pedir a abstenção na sessão em plenário, de forma a evitar os 342 votos necessários ao impeachment. A estratégia foi confirmada ao GLOBO por deputados petistas próximos ao ex-presidente.

      Lula deixou Brasília no meio da tarde de ontem, depois de participar de encontro com movimentos sociais e de articular votos anti-impeachment. Ele voltou para São Paulo, mas decidiu retornar à capital no dia da votação.

      O Salão Verde da Câmara, que fica em frente à entrada central do plenário, é ocupado principalmente por deputados da oposição, eufóricos com o discurso de que já há mais de 360 votos a favor do impeachment. Os governistas são minoria e estão contidos.

      – Existe um movimento para convencer os deputados a votarem contra. Lula voltou para isso – diz o deputado Wadih Damous (PT-RJ), um dos interlocutores do ex-presidente.

      Os petistas dizem que ainda há deputados que “não se sentem à vontade” para votar pelo impeachment e que estariam sendo cobrados a fazer isso por conta do apelo de suas bases eleitorais. Junto a esse grupo, Lula tenta incentivar pelo menos a abstenção. Segundo parlamentares, o ex-presidente está ligando e se encontrando com deputados em Brasília.

    • Manifestantes contra impeachment se reúnem no Anhagabaú

      Centenas de manifestantes contrários ao impeachment da presidente Dilma Rousseff se reúnem na manhã deste domingo no Vale do Anhagabaú, no centro de São Paulo. Vestidos em sua maioria com camisas vermelhas, integrantes de movimento sociais, como a Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), e da Central de Movimentos Populares (CMP), aguardam o início das apresentações musicais e dos discursos políticos.

      O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é o principal alvo dos manifestantes. Uma grande faixa com a frase “Fora Cunha” foi estendida no local. Há também bandeiras de partidos políticos como o PCdoB e o PCO.

    • Guerra de versões no PP

      O PP trava uma batalha interna para ter o máximo de votos a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff. O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), ligou nesta madrugada para o ex-ministro Eliseu Padilha, um dos mais fiéis escudeiros do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), para garantir que 100% da bancada votará a favor do impeachment.

      O grupo que defende a saída de Dilma Rousseff na legenda garante que reconquistou o voto inclusive do deputado Waldir Maranhão (MA), que mudou sua posição na sexta-feira e foi destituído do comando do PP no Maranhão, e Eduardo da Fonte (PE), que vem negociando com o Palácio do Planalto.

      O grupo de Maranhão, no entanto, está reunido na manhã deste domingo no apartamento do vice-presidente da Câmara — entre os presentes estão os deputados Macedo (CE), Roberto Britto (BA) e Adail Carneiro (BA) — e garante que votará contra o impeachment, contrariando a decisão do PP, que fechou questão a favor do impedimento.

      O deputado Jerônimo Goergen (RS), um dos maiores defensores do impeachment, garantiu que o presidente virou os votos de Maranhão e da bancada da Bahia, além do voto de Eduardo da Fonte.

      — Entre o deputado ser expulso e perder diretório ou votar com unidade e fortalecer o partido, é melhor vir conosco para um novo governo. Eles entenderam, estamos 100% fechados a favor do impeachment. Quando chegar na Bahia e em Pernambuco, a votação já vai estar decidida. Além disso, o Maranhão sofreu muita pressão no estado — disse Goergen.

      A negociação maior é com os deputados da Bahia, porque o vice-governador João Leão, que é do partido, quer que votem contra o impeachment. A pressão do governador da Bahia, o petista Rui Costa, é grande. Mas a Bahia é um dos últimos estados a ser chamado para votação. Por isso, se até lá os 342 a favor do impeachment já tiverem sido alcançados, a tendência é que os deputados mudem e votem com o partido. É a chamada onda da votação.

      Integrante da direção, o deputado Ricardo Barros disse que há a busca pela unidade:

      — Está caminhando bem. Aumenta a adesão à decisão do partido de fechar questão pelo impeachment — disse Ricardo Barros.

      O PP tem a quarta maior bancada da Câmara, com 45 deputados. Eles podem ter papel decisivo na decisão, junto com parlamentares do PR e PSD, todos cortejados pelo governo e pelo grupo de Temer.

    • Homem é preso na Paulista após cortar pato inflável da Fiesp

      Um homem foi detido por policiais militares na Avenida Paulista, neste domingo, acusado de cortar o pato gigante inflável da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O pato é usado como símbolo da campanha contra aumento de impostos intitulada “Não vou pagar o pato”.

      Segundo a Polícia Militar, o acusado portava uma faca e teria cortado o pato inflável por volta das 8h30m. Ele foi levado, algemado, ao 78º DP (Jardins).

      A Fiesp disse que a entidade tem quatro patos e confirmou que um deles foi atacado pelo acusado. O principal pato tem 112 metros de altura e já está colocado na Avenida Paulista, em frente à sede da FIESP

    • Depois de cerca de 2h de concentração em frente ao Posto 3, em Copacabana, o carro de som da Furacão 2000 começou a se mover no trajeto combinado com a PM até o Posto 1, no Leme, com término marcado para as 13h.

      Por conta do horário apertado e do tempo gasto na concentração, os organizadores convocaram os manifestantes a se dirigirem à Lapa após o fim do ato, onde haverá telão para acompanhar a votação do impeachment.

      No deslocamento, um morador de um prédio na orla, entre as ruas Paula Freitas e República do Peru, balançou bandeira da União Soviética ao lado da bandeira do Brasil em sua janela. Manifestantes aplaudiram e gritaram “não vai ter golpe.

    • Hóspedes do Copacabana Palace se opõem a protesto pró-Dilma

      Enquanto a manifestação a favor do governo Dilma Rousseff passava em frente ao hotel Copacabana Palace, alguns hóspedes saíram na janela para protestar contra os manifestates pró-Dilma na Avenida Atlântica. Em reposta, os participantes da manifestação vaiaram e gritaram “Não vai ter golpe”.

      — Não vamos provocar ninguém e nem aceitar provocações. Esse é um ato de paz — disse um dos organizadores.

       

    • Já há 3 mil manifestantes pró-impeachment na Esplanada

       

      Boletim da Secretaria de Segurança do Distrito Federal informou que, no momento, existem 3 mil pessoas já na Esplanada dos Ministérios no lado Sul, destinado aos defensores do impeachment. No lado Norte, dos que apoiam o governo Dilma Rousseff, segundo a PM, não há movimentação. A informação é que o grupo ainda está se preparando para deslocamento do Estádio Mané Garrincha até a Esplanada.

      “A Polícia Militar está na Esplanada dos Ministérios e imediações com 1 mil homens e mulheres neste momento. A Polícia Civil trabalha desde sexta-feira com reforço de agentes e delegados nos plantões das delegacias da área central e do Departamento de Polícia Especializada (DPE). Mantém ainda 300 agentes nas ruas das Asas Sul e Norte, Cruzeiro e Sudoeste reforçando o policiamento ordinário. O Corpo de Bombeiros mantém na Esplanada e arredores 150 militares e 19 viaturas neste instante, podendo chegar a 1 mil, caso seja necessário”, informou a secretaria.

    • Manifestações em sete estados e no DF

      Além de Rio, Brasília e São Paulo, manifestantes saíram às ruas em cinco outros estados na manhã deste domingo. Em Belém, a Polícia Militar estimou em 350 o número de manifestantes que apoiam o pedido de abertura de impeachment. Em Blumenau, cerca de 200 pessoas se reúnem na Praça Doutor Blumenau, no Centro.

      Grupos contrários e favoráveis ao impeachment da presidente da República Dilma Rousseff fazem atos em Belo Horizonte. Já em São Luís, há manifestação em favor da permanência da petista no centro histórico.

    • Fonte: O Globo

    CRISE ECONÔMICA no Brasil

    10/04/2016

     

    Em um ano, número de famílias que desceu de classe social chega a quase 1 milhão

    Foi a primeira vez que houve um movimento inverso ao da ascensão socioeconômica que vinha ocorrendo desde 2008, segundo estudo da Abep

     

     

    Beneficiários do Bolsa Família fazem fila para resgate do benefício em agência da Caixa localizada na zona norte do Recife
    Apesar de benefícios como o Bolsa Família, número de pobres do país aumentou(CLEMILSON CAMPOS/JC IMAGEM/Estadão Conteúdo)

    Faz três meses que o pedreiro Maurício Paes de Souza tenta pagar a última prestação do Uno 2007, comprado há quatro anos. A parcela é de R$ 630, mas, sem emprego desde janeiro, com a mulher também desempregada e dois filhos para sustentar, ele corre o risco de perder o automóvel – assim como já perdeu tantas outras pequenas conquistas de consumo dos últimos anos. Aos poucos, Souza se dá conta de que não pertence mais à mesma classe social da qual chegou a fazer parte, como outros milhares de brasileiros. Só no último ano, quase um milhão de famílias desceram um degrau na escala social.

    Foi a primeira vez que houve um movimento inverso ao da ascensão socioeconômica que vinha ocorrendo desde 2008. O estudo, da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa (Abep), mostra que, de 2015 para 2016, a classe que abrange famílias com renda média de R$ 4,9 mil (chamada de B2) perdeu 533,9 mil domicílios. A categoria dos que ganham R$ 2,7 mil (C1) encolheu em 456,6 mil famílias.

    Ao mesmo tempo, as classes mais pobres ganharam um reforço. Na categoria em que as famílias têm renda média de R$ 1,6 mil (C2), o incremento foi de 653,6 mil domicílios. Outras 260 mil famílias passaram a fazer parte das classes D e E, com renda média de apenas R$ 768.

    “Porcentualmente, esse movimento é pequeno. Mas, em termos absolutos, estamos falando em um acréscimo de mais de 910 mil famílias nas classes pobres em apenas um ano. É um número expressivo”, afirma Luis Pilli, da Abep.

    Um resultado que chamou a atenção é que a classe A, a mais rica e que conta com reservas financeiras e de patrimônio para se defender da alta da inflação e do desemprego, cresceu em 109,5 mil famílias no período. Com isso, ao todo, 1,023 milhão de domicílios, ou cerca de 4 milhões de pessoas, se movimentaram de alguma forma na escala social por causa da crise – a maioria, porém, perdendo o status anterior.

     

    O que impressiona nessa crise, segundo Pilli, é a rapidez com que as famílias estão abrindo mão de itens como o segundo carro ou uma casa maior. “São decisões que geralmente demoram algum tempo para serem tomadas.”

    O pedreiro Maurício Paes de Souza entende bem o que Luis Pilli está querendo dizer. Em pouco tempo, ele perdeu muita coisa. Quando comprou o carro usado, por R$ 15 mil, há quatro anos, costumava gastar R$ 700 por mês no supermercado, pagando à vista. “Hoje, gasto a metade, procuro promoção e pego o cartão de um e de outro emprestado.” Os filhos comiam carne todo dia e tinha iogurte na geladeira. Agora, sem o salário de R$ 3,5 mil, “é arroz e feijão e, às vezes, falta dinheiro para comprar ovo.”

    Em breve, o pedreiro pode perder o carro. “Ficam mandando mensagem de busca e apreensão, mas não adianta eu ir lá para conversar se não tenho dinheiro.”

    Baque – Para Maurício de Almeida Prado, sócio-diretor da Plano CDE, consultoria especializada na baixa renda, os números da Abep indicam que quem está sentindo o baque da crise é principalmente a classe média. “Os estratos sociais que dependem do emprego formal foram os mais afetados”, explica. Os mais pobres, segundo ele, estão acostumados com a informalidade. “Eles se viram muito, fazem coisas em casa, vendem cosméticos, por exemplo. A classe média mais alta é dependente do emprego formal e tem dificuldade de gerar renda extra.”

    Nesta atualização da distribuição das famílias por classe, feita pela Abep, foram usados dados dos principais institutos de pesquisas que visitaram as casas dos brasileiros em 2015 e no início deste ano para descobrir como andava o padrão de vida da população. A associação utiliza o Critério Brasil, que tenta estimar a renda permanente das pessoas por meio da posse de bens e de outros quesitos.

    O coordenador do centro de Políticas Públicas do Insper, Naercio Menezes Filho, acredita que as famílias estejam se desfazendo dos ativos e por isso desceram degraus na pirâmide social. “Isso era esperado, porque a crise é muito forte”, diz. Ele ressalta, porém, que não há números oficiais do IBGE para avaliar esse movimento.

    Renda

    Já Adriano Pitoli, sócio da Tendências Consultoria Integrada, traça um cenário pior do que o da Abep. Ele estuda as mudanças na pirâmide social olhando apenas a renda monetária recebida pelos trabalhadores – e não a permanente, como fazem os institutos de pesquisa. Em estudo feito no final do ano passado, o economista da Tendências apontava, com base em projeções, que 3 milhões de famílias desceriam um degrau na escala social em três anos, entre 2015 e 2017.

    De lá para cá, com o agravamento da crise, Pitoli refez as contas e projetou que 4,2 milhões de famílias seriam devolvidas à base da pirâmide. Só no último ano, a baixa teria sido de 1,8 milhão de famílias.

    Pitoli explica que os critérios do seu estudo e o da Abep são diferentes. Ele olha renda monetária, que tem um impacto mais imediato no padrão de vida das famílias. Já a Abep usa a renda permanente, medida pela posse de bens, que teoricamente, demora mais para aparecer.

    “Mas o estrago está feito”, diz Pitoli. Segundo Pilli, da Abep, o país não voltou 20 anos atrás. “Mas, se continuarmos fazendo escolhas erradas, podemos retroceder.”

    Fonte: Veja

    Rombo fiscal pode chegar a R$ 65 bilhões em 2017

    Governo proporá hoje, na LDO, superávit zero e possibilidade de abatimentos

    Apertado. Barbosa apresenta hoje proposta de Orçamento ao Congresso – Ailton de Freitas / O Globo

     

    O governo apresenta hoje ao Congresso o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2017 prevendo a possibilidade de as contas públicas terminarem o ano que vem com um rombo de até R$ 65 bilhões. Segundo integrantes da equipe econômica, a meta fiscal do governo central (composto por Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) será equivalente a zero, mas poderá se transformar num déficit primário se houver uma frustração nas receitas esperadas.

    Os números foram fechados em reunião da presidente Dilma Rousseff com a Junta Orçamentária ontem e serão anunciados pelos ministros da Fazenda, Nelson Barbosa, e do Planejamento, Valdir Simão.

    Com isso, as contas do governo central completarão quatro anos seguidos no vermelho. Em 2014, o rombo foi de R$ 17,2 bilhões, ou 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de todos os bens e serviços produzidos no país). Em 2015, ele subiu para R$ 114,7 bilhões, ou 1,9% do PIB, por causa do pagamento das pedaladas fiscais — atrasos nos repasses de recursos do Tesouro para bancos públicos e para o FGTS.

    Este ano, a equipe econômica já pediu ao Congresso autorização para alterar a LDO de 2016 . O objetivo foi acomodar um déficit primário de R$ 96,6 bilhões, ou 1,55% do PIB.

    Projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgadas esta semana indicam que o Brasil somente voltará a realizar superávits primários (poupança para o pagamento de juros da dívida pública) em 2020. Em sua análise, a instituição ressaltou que a deterioração fiscal brasileira ocorreu num ambiente de recessão econômica e de crise política.

    Para o FMI, a dívida bruta — principal indicador de solvência observado pelo mercado internacional — saltará dos atuais 67,6% do PIB para quase 92% do PIB em 2021.

    O Ministério da Fazenda defendia que a LDO de 2017 trouxesse como novidade a fixação de um teto para os gastos públicos. Essa seria uma forma de sinalizar ao mercado que o governo está comprometido com o reequilíbrio das contas e que um novo rombo fiscal no ano que vem só ocorrerá em função de uma dificuldade do lado da arrecadação. No entanto, essa ideia foi descartada uma vez que já tramita no Congresso um projeto de reforma fiscal, que cria não apenas um teto para os gastos da União, mas também um regime especial de contingenciamento (que permite ao governo preservar gastos essenciais de cortes no Orçamento).

     

    A LDO também trará os parâmetros usados para compor o Orçamento de 2017, como PIB, inflação e câmbio, além do novo valor do salário mínimo. Segundo os técnicos, não haverá previsão de aumento real para o piso, que subiria para R$ 946, com reajuste apenas pelo INPC, em estimados 7,5%.

    ROMBO PODE SUPERAR R$ 100 BILHÕES

    Apesar de negativos, os números do desempenho das contas públicas em 2016 e 2017 são mais otimistas do que os do mercado financeiro. O boletim Prisma Fiscal de março, divulgado ontem pelo Ministério da Fazenda, mostra que os analistas esperam que o governo central termine este ano com um déficit primário de R$ 100,450 bilhões.

    No mês anterior, essa projeção era de R$ 79,743 bilhões. Para 2017, a estimativa agora é de um rombo de R$ 103,514 bilhões, contra R$ 71,329 bilhões no boletim de fevereiro. Com esse cenário, a trajetória esperada para a dívida bruta também piorou: subiu de 74,35% do PIB para 80% do PIB no ano seguinte.

    Fonte: O Globo

    Após Olimpíadas, 30 mil podem perder emprego no Rio

    Empresários do estado são os mais pessimistas, aponta pesquisa

    Gilvan Ferreira da Silva, desempregado – Fernando Lemos / Fernando Lemos

    A falta de perspectiva de criação de novas vagas desenha um cenário sombrio para o mercado de trabalho carioca, que, apesar da crise da Petrobras e da recessão que afeta o país, até agora vem sendo poupado pelo colchão de empregos criado pela preparação para os Jogos Olímpicos. Em um ano até fevereiro, a taxa de desemprego da Região Metropolitana do Rio cresceu apenas 1 ponto percentual, para 5,2%, contra aumento de 2,4 pontos da média geral, que pulou para 8,2%. É a menor alta entre as seis capitais analisadas pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE. Trajetória que, dizem economistas, deve começar a mudar no segundo semestre, com o fim de obras ligadas ao evento e o desligamento dos temporários que trabalharão nos Jogos, quando as taxas do Rio vão crescer e se aproximar das demais metrópoles.

    — Há várias obras de mobilidade urbana sendo feitas para as Olimpíadas que serão desmobilizadas até julho. Além disso, tem toda a parte de hotelaria e serviços empregando temporários para o evento. Haverá uma queda do nível de emprego nesses setores e, com a recessão, a taxa no Rio passará a crescer mais do que em outras capitais — diz o economista da PUC-Rio José Márcio Camargo.

    O economista do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets) Manoel Thedim diz que a tendência é que a taxa de desemprego do Rio se aproxime do resto do Brasil a partir do segundo semestre. O agravante local, ressalta, é que a queda será abrupta:

    — O fim das obras dos Jogos causará uma demissão em massa sem absorção, porque o estado está sem projetos de grande porte, que dependem do dinheiro público, cujas contas estão paralisadas.

    O ajudante hidráulico Gilvan Ferreira da Silva, de 49 anos, sente na pele as dificuldades para se reinserir no mercado. Ele está desempregado há duas semanas, quando acabaram as obras no Porto do Rio. E diz que o pior é perder os benefícios da carteira assinada:

    — Todo mundo reclama. Essa crise atingiu do mais rico ao mais pobre. Para mim, o pior é não ter mais clínica médica e tíquete-alimentação.

    O eletricista Lenaldo Azevedo de Oliveira, de 30 anos, também ficou sem emprego após o fim das obras do Porto do Rio. Para garantir o sustento das famílias, ele e Gilvan vêm recorrendo a bicos e darão entrada no seguro-desemprego esta semana.

    — Sou eletricista há dez anos e nunca vivi uma situação tão difícil. É caso de pedir força a Deus. Tenho mulher e dois filhos para sustentar e não posso ficar para trás — desabafa Lenaldo.

    Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada Intermunicipal do Rio, Nilson Duarte, há 30 mil trabalhadores em obras cuja previsão de término é em 15 de julho. E, sem novas obras, não há perspectiva de absorver esses trabalhadores:

    — Quando as obras começaram, em 2011, sabíamos que eram temporárias, mas não tínhamos ideia que uma crise dessas, junto com a Lava-Jato, ia paralisar o setor. Só no ano passado, fiz 8,6 mil homologações no sindicato em razão dos cortes no Comperj. Nos três primeiros meses deste ano, foram mais três mil, com a finalização do Porto Rio.

    Pedro de Lamare, presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro, ressalta que o setor tem o desafio de criar um ambiente de eventos constantes e conquistar os turistas que vierem para os Jogos, para que retornem ao Rio.

    Uma pesquisa da agência de empregos ManpowerGroup Brasil, que mede trimestralmente a intenção de empresas em contratar e demitir, aponta que o Rio é o estado onde os empregadores se mostram mais pessimistas para os próximos três meses entre São Paulo, Paraná e Minas Gerais. As perspectivas para contratações caíram 4 pontos percentuais em relação ao primeiro trimestre deste ano e 18 pontos frente ao mesmo período de 2015.

    — Esse pessimismo no Estado do Rio tem relação direta com a baixa perspectiva de atividade na construção civil e no setor de petróleo, por conta da crise na Petrobras — diz o diretor presidente da empresa, Nilson Pereira.

    Entre os setores pesquisados, o de construção é o que mais preocupa. Abrahão Roberto Kauffmann, presidente do Sindicato da Construção Civil no Rio, admite a falta de perspectiva de novas obras e conta que vai a Brasília esta semana discutir a possibilidade da liberação de recursos para fomentar o setor por meio de obras públicas e privadas. E diz que há um departamento de serviço social na entidade que tem oferecido a empregados de canteiros de obras curso de capacitação de 30 horas para que se tornem trabalhadores autônomos formais.

    Procurado, o governo do estado informou não haver “nada concreto” em relação a novas obras para o segundo semestre. Já a prefeitura disse que 25 mil empregos na área da construção civil devem ser criados nos próximos meses, em obras de infraestrutura, logística, mobilidade e saneamento.

    Fonte: O Globo

    Brasil vive crise econômica acentuada desde 2015

    Mercado de trabalho: sob o sol, sem renda fixa e com mais concorrentes

    No Rio, conta própria cresceu 13,2% em 2 anos, quase o dobro do país

    Insegurança: Heberton Anastacio vende quentinhas na Zona Sul do Rio: perdeu produtos para fiscais e teme roubos – Custódio Coimbra

    “E aí, padrinho, vai uma quentinha?” A frase é usada como chamariz para a venda de marmitas pelo ambulante Heberton Anastácio de Freitas, de 22 anos, que até o fim de 2014 era funcionário de uma prestadora de serviços do ramo da construção civil. Sem conseguir novo emprego, descobriu em Magé, cidade onde mora, na Baixada Fluminense, uma empresa que fornece as quentinhas. Resolveu comprá-las para revender a R$ 10 ou R$ 12 com suco, em uma área nobre do Rio. Mesmo com outros quatro concorrentes num raio de 500 metros, em um ano e três meses de trabalho na rua conquistou clientela fiel, que lhe rende cerca de R$ 1.200 todo mês:

    — Você vai ao mercado com R$ 400 e sai com 12 sacolinhas. Está tudo muito caro. E ainda tenho de pagar aluguel e sustentar meus vícios: o cigarro, o chopinho com os amigos e comprar roupas para estar bem apresentável. Eu tive de arrumar um jeito de sobreviver.

    MAIS 200 MIL CONTA PRÓPRIAHeberton é um dos novos trabalhadores por conta própria que engrossou este grupo no Estado do Rio. Nos últimos dois anos até dezembro, o acréscimo foi de 13,2% ou mais 202 mil pessoas trabalhando, em sua maioria como ambulantes. A alta é maior do que a registrada na média nacional, cujo salto foi de 7,6% ou mais 1,6 milhão de trabalhadores. No fim do ano passado, o grupo dos conta própria somava 1,73 milhão de pessoas no estado, o correspondente a 7,5% do total do país ( 22,9 milhões). Em São Paulo, a alta foi ainda maior, de 10%, pulando para 4 milhões de pessoas. Na capital federal, Brasília, o grupo ficou 3,7% maior, atingindo 251 mil trabalhadores.Para o estatístico da Fundação Getulio Vargas (FGV-Rio) Kaizô Beltrão, esse crescimento acima da média registrado no estado reflete a crise da Petrobras e se dá em razão de peculiaridades da capital:

    — A recessão no Rio foi maior porque fomos atingidos duramente pela crise do petróleo, que desempregou todo o pessoal terceirizado da Petrobras. Além disso, o clima de balneário da capital favorece o trabalho na rua. Se na cidade chovesse muito ou fizesse muito frio, talvez esse grupo não tivesse crescido tanto.

    Na avaliação do professor do Instituto de Economia da UFRJ João Saboia, pesa também o apelo turístico.

    — O fato de a cidade ser turística permite desenvolver atividades específicas para esse público — explica o professor.

    Saboia acredita que o aumento da informalidade não seja permanente:

    — Essas pessoas não estão condenadas a viver na informalidade. Assim que as oportunidades voltarem, elas vão migrar para o emprego com carteira, que dá mais estabilidade, benefícios e as deixa menos expostas à violência da rua e à ação da fiscalização.

     

    Essa insegurança das ruas incomoda Heberton.

    — Nós, ambulantes, não vendemos drogas, mas é como se vendêssemos. Se a guarda municipal chegar, vai pegar todo mundo. Eu já perdi R$ 700 em mercadoria num dia de apreensão. Na rua, há o risco de ser assaltado porque se anda com muito dinheiro das vendas. Carteira assinada é muito melhor, tem os benefícios e, se for demitido, tem o que receber. Na rua, a gente perde o trabalho sem qualquer renda para se manter por um tempo — afirma o ambulante.

    Pesa também a preocupação do trabalhador com a aposentadoria, observa Beltrão:

    — Elas querem voltar à formalidade porque se preocupam em contribuir para o INSS porque querem poder se aposentar um dia.

    Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, é pessimista. Ele afirma que a recessão, que caminha para ser a maior da história do país, está pondo em risco parte da formalização do mercado de trabalho conquistado em dez anos.

    — A maior parte desse aumento de informalidade não é cíclico, mas estrutural. Quando a economia reagir será a partir de uma estrutura institucional pior do governo, com inflação mais alta, com condição fiscal pior, sem as boas condições do passado — alerta Pessôa.

    TRABALHADOR FICA VULNERÁVEL

    Perde o trabalhador, que na informalidade está mais vulnerável às oscilações do mercado, sem um colchão de proteção que a formalização oferece, complementa Pessôa:

    — O trabalho com carteira reduz os riscos sobre o trabalhador. O conta própria é empresário de si mesmo. Não tem uma renda fixa, e qualquer oscilação do mercado vai afetar o seu bolso e o orçamento da família. Sente o impacto direto.

    Com o aumento do desemprego, a competição nas ruas vem crescendo.

    — O setor informal ainda é grande, mas há cada vez mais pessoas disputando espaço em um mercado com a renda em queda. A pessoa vai à luta, quer que os consumidores comprem seu produto, mas elas têm cada vez menos dinheiro disponível — afirma Saboia.

    A banda Fluidos é de Porto Alegre e viaja o Brasil tocando em bares e nas ruas – Edilson Dantas

    A banda Os Fluídos, que passou a se apresentar nas ruas desde que a crise começou a minguar os cachês dos bares, tem viajado pelas regiões Sul e Sudeste mostrando sua música nas ruas. Os músicos preferem os espaços públicos, onde a contribuição financeira dos motoristas ou pedestres acaba sendo mais atraente que o cachê de um bar.

    — Com a alta dos preços, se a gente tomava uma cerveja ou jantava no local do show, sobrava muito pouco do cachê. Na rua, em dias muito bons, já conseguimos arrecadar R$ 500 num show. Mas a média fica em R$ 200 — diz o guitarrista, Douglas Cassenott.

    Todos os quatro integrantes trabalharam no “mercado formal”, mas ou deixaram o emprego ou foram demitidos, e decidiram pôr o pé na estrada com os shows nas ruas.

    Douglas diz que o contato com as ruas acaba rendendo novas oportunidades de trabalho, como tocar em exposições, ou mesmo em bares. Em São Paulo, estão hospedados numa ocupação artística no Centro da cidade.

    — Nosso palco é público. E sempre convidamos alguém que esteja começando para tocar conosco — afirma Douglas.

    Recessão a olhos vistos: empurrados para a rua

    Sem oportunidades de emprego formal, brasileiros se viram para pagar as contas

    Da sala de aula às ruas. Glória Messias Curi trabalhava até 2014 numa universidade. Hoje, distribui panfletos no Rio – Custódio Coimbra / Custódio Coimbra

    De bermuda, camiseta e chinelo de dedo, Glória Regina Messias Curi nem de longe lembra a auxiliar de professora que, até meados de 2014, era funcionária de uma universidade pública carioca. Depois de perder o emprego, mesmo com um curso incompleto de Letras com habilitação em Libras, não conseguiu se fixar novamente no mercado formal. Para garantir uma renda, Glória trocou a sala de aula pela rua, onde entrega panfletos para uma clínica médica.

    A saída encontrada por Glória para sobreviver foi a mesma de milhares de brasileiros no último ano, quando a recessão destruiu 1,5 milhão de vagas de emprego formais em todo o país, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Os sinais da precarização do mercado de trabalho estão visíveis nas ruas e mudaram a ocupação do espaço público: mais ambulantes nas calçadas, mais vendedores no sinal, mais estratégias alternativas para pagar as contas no fim do mês.

    — Procurei trabalho em todos os lugares. Trabalhei numa loja por seis meses. Mas, como corria um boato de que ela estava falindo, saí antes que ficasse sem receber. Depois disso, até fui chamada para entrevista, mas ninguém quer contratar uma mulher de 40 anos — reclama Glória.

    Atualmente, Glória ganha R$ 40 por dia com uma jornada em oito horas, na saída da estação do metrô. Já faz isso há um ano. Mas está longe de se conformar com a situação. Sente falta do plano de saúde, das férias e do décimo terceiro, que vinham junto com a carteira assinada. Embora tenha esperanças de voltar a ter um bom emprego, Glória concentra esforços na formação do filho, um entregador de jornal de 21 anos que sonha em se tornar jornalista.

    — Já tranquei a faculdade há muitos anos e não começaria do zero de novo. Agora, tenho de investir no meu filho, que na escola só tirava notas dez — conta.

    Para alguns, atravessar a crise é questão de criatividade. O mineiro Pedro Henrique Santiago Ramos, de 28 anos, se mudou para Brasília em setembro, em busca de emprego. Antes, ele tinha trabalhado como garçom na churrascaria da família em Patos de Minas (MG), mas o negócio da família fechou. Na capital federal, fez bicos como servente de pedreiro, técnico em informática e topógrafo. Os trabalhos temporários acabaram, e ele retornou para sua antiga atividade de garçom nos sinais do Centro da cidade, vestido a caráter. Na bandeja, além de água e refrigerantes, guardanapos azuis para combinar com a gravata borboleta.

    — Usava gravata preta, mas não fazia tanto sucesso quanto a azul. O pessoal reparou bastante, e eu passei a vender mais — diz ele.

    A concorrência é acirrada: vendedores de balas e um outro vendedor de água disputam o pedaço de asfalto com Pedro, mas ele garante que já tem freguesia garantida. Entre um intervalo e outro, corre até as lojas próximas para trazer mais garrafas de água e encher o isopor que fica no meio-fio. Trabalhando diariamente “das 8h até o sol acabar”, como ele faz questão de dizer, Pedro chega a vender 60 garrafas por dia, com lucro de mais de 100% em cada uma delas. Ele compra a garrafa por R$ 0,90 e vende a R$ 2.

    O cientista político libanês Nami Hanna, de 49 anos, está há 15 anos no Brasil. Aqui, se tornou professor de árabe de universitários. Ganhava entre R$ 30 e R$ 100 por hora/aula, mas no ano passado viu o número de alunos encolher. Resolveu, então, fazer uma parceria com um refugiado sírio e vender comidas da culinária árabe numa banquinha. Começaram o negócio na última semana e sonham em abrir um restaurante.

    — Meu amigo faz os produtos e eu ajudo com a parte de transporte, compra dos ingredientes. Aqui é tudo caseiro. Este é o nosso diferencial — conta Nami.

    Para economistas, ao perder o emprego com carteira num momento em que novas vagas são escassas, o trabalho autônomo se torna a saída para recompor a renda.

    — As pessoas que vêm do mercado formal têm a possibilidade de permanecer alguns meses no seguro-desemprego, mas uma boa parte não tem acesso a esse benefício porque a regras mudaram ou já estavam empregadas sem carteira. Como muitos são chefes de família, é óbvio que têm impacto e não podem permanecer de braços cruzados. Acabam migrando para um trabalho precário, sem carteira — analisa o economista João Saboia, da UFRJ.

    Na crise, a rua também vira palco. A banda Os Fluídos, formada por quatro amigos de Porto Alegre, há dois meses se apresenta na Zona Sul de São Paulo. O cachê? Quando o semáforo fecha, um deles passa o chapéu junto aos motoristas parados no sinal vermelho. E quem gosta da música, uma mistura de jazz, rock e blues, costuma colaborar financeiramente. A escolha da rua como principal palco para apresentações foi feita quando a crise começou a se aprofundar. Era uma alternativa para divulgar o trabalho e reforçar os cachês, que começavam a minguar nos bares com a retração econômica.

    — A crise no mercado de música, para quem toca em bares, é permanente, mas piorou nos últimos tempos. A rua é uma forma de mostrarmos nosso trabalho, fazer contatos e reforçar o caixa — diz o guitarrista Douglas Cassenott, de 27 anos.

    DE COZINHEIRO A HOMEM-PLACA

    As plataformas da Central do Brasil também têm servido de porto seguro para muitos desempregados. O portfólio vai do cardápio tradicional, com doces, biscoitos e refrigerantes, a insuspeitos salames, iogurtes, chocolates quentes e até produtos como descascadores de legumes e absorventes íntimos.

    Desde que perdeu seu emprego como esmerilhador em um estaleiro no Caju, há um ano e dois meses, Ulisses Sousa Ferreira se posiciona todas as tardes com um isopor repleto de gelo e bebidas na plataforma de onde partem os trens rumo a Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Diz que consegue ganhar por volta de R$ 1.400 por mês, mesmo com a concorrência mais acirrada, embora, às vezes, o movimento seja menor e o lucro fique na casa dos R$ 700.

    — Depois que o estaleiro mandou todo mundo embora, não consegui arrumar mais nada. Todo mundo sabe que está “brabo”. Aqui, é o meu dinheiro certo — conta o vendedor.

    Um dos aspectos enfrentados por esses trabalhadores é a exposição a risco. Panfletar é proibido no Rio, vender artigos em trens, também. Para Ulisses, lidar com essa incerteza já faz parte do cotidiano:

    — Apenas de vez em quando eles pedem para a gente sair. É impossível acabar com isso.

    Perder a carteira assinada também significa adiar sonhos. Natan dos Santos, de 23 anos, quer ser advogado. Mas, se nem o salário como cozinheiro de uma rede de restaurantes permitiu que ele pagasse a mensalidade, depois de ser demitido, no mês passado, as dificuldades aumentaram.

    — Todos os dias passo nas lojas para ver se tem anúncio e me candidatar. Mas não tem vaga. Tenho de juntar dinheiro para pagar minha faculdade.

    Enquanto a vaga não aparece, ele tem feito dois bicos. De segunda a sexta-feira é homem-placa de compra e venda de ouro e nos fins de semana faz tatuagem de henna na praia:

    — Não dá para ficar parado. Meu seguro-desemprego em breve vai acabar.

    Fonte: O Globo

     

    Brasil perde 614 mil vagas sem carteira assinada em um ano

    Com desemprego recorde no país, 9,6 milhões estão sem trabalho

    Queda na renda. Demitido após sete anos, Diemerson tentará mudar de área para manter o mesmo salário – Hermes de Paula

     

    A piora das condições do mercado de trabalho está sendo tão rápida que nem mesmo o emprego informal, destino de muitos demitidos, está sendo poupado. Em janeiro deste ano, havia no país 614 mil trabalhadores sem carteira a menos do que em igual mês de 2015. E, ao contrário do que acontecia em anos anteriores, esse número não caiu por causa de uma migração para o trabalho formal, já que o total de empregados com carteira encolheu ainda mais no período, em 1,3 milhão de pessoas. No total, o contingente dos sem trabalho ganhou mais 2,9 milhões de pessoas em um ano e chegou a 9,6 milhões de brasileiros. E a taxa de desemprego do país chegou a 9,5%, recorde da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Mensal, iniciada pelo IBGE no começo de 2012. A outra alternativa ao desemprego, que já é válvula de escape de 23 milhões de pessoas, o trabalho por conta própria, também dá sinais de estrangulamento.

    — Há uma redução generalizada do emprego, porque estamos vendo uma queda do emprego formal e do informal também. Isso quer dizer que até mesmo os pequenos negócios e empresas sem registro, que não pagam impostos, estão com dificuldades e se desfazendo dos trabalhadores. Consequentemente, há um aumento recorde do número de trabalhadores por conta própria, já que a pessoa precisa achar uma saída para seu sustento — analisa Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE.

    A análise do economista da Unicamp Claudio Dedecca é ainda mais pessimista. Segundo ele, o desempregado está sem uma válvula de escape, pois o inchaço do número de trabalhadores por conta própria, que, em um ano, ganhou mais 1,3 milhão de pessoas, aumentou a concorrência dentro do próprio grupo. E, além de serem, em sua grande maioria, informais, os conta-própria enfrentam dificuldades de vender seus produtos e serviços para um consumidor que perdeu poder de compra. Prova disso é a queda da renda média real (descontada a inflação) dos conta-própria: ela encolheu 4,1% em um ano, para R$ 1.495, bem mais que os 2,4% de recuo médio. A perda só não foi maior do que a sofrida pelos empregadores, que chegou a -5,7%.

    NÚMEROS DO MERCADO DE TRABALHO

    EM RELAÇÃO AO TRIMESTRE ENCERRADO NO MÊS

    — Fechou o tempo. Não há mais porta compensatória para a perda do emprego assalariado, porque nem o mercado informal funciona mais como válvula de escape. A renda do conta-própria depende da soma de rendimentos da população, que está sem poder de compra. Além disso, como a concorrência aumentou muito, os ganhos entre eles são pulverizados — diz Dedecca.

    REDUÇÃO DE SALÁRIO VIA INFLAÇÃO

    Para quem se mantém empregado, a queda da renda está se dando por uma combinação de inflação alta e ausência de concessão de reajustes pelas empresas, explica Bruno Campos, economista da LCA Consultores:

    — Como as empresas não podem reduzir o salário dos trabalhadores, elas fazem o ajuste deixando de conceder aumento, e, assim, a inflação corrói os salários. Ou então demitem quem tem os salários mais altos e contratam um substituto por um valor menor.

    Nas contas de Dedecca, como não há sinal algum de melhora no cenário, no próximo mês a taxa de desemprego já deve atingir os 10% e o número de desocupados passar de 10 milhões, dois patamares inéditos na Pnad. A projeção da LCA é que o pico da deterioração do mercado ocorra no início do ano que vem, quando o desemprego pode atingir 13% dos trabalhadores. Para a média de 2016, a estimativa da LCA é uma taxa de 11,6%.

    Diemerson Araújo, de 29 anos, é um dos trabalhadores que acabou de entrar na fila dos desempregados. Depois de sete anos coordenando o setor de laticínios de um supermercado no Rio, foi demitido no mês passado. Agora, procura uma vaga no setor de construção civil:

    — Eu poderia buscar outro emprego em loja, mas vou tentar procurar em construção, para manter meu salário e padrão de vida, já que o pagamento nesse ramo é melhor — afirma ele.

    Para Miguel Foguel, técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea, a dispensa expressiva de trabalhadores sem carteira reflete as dificuldades das empresas para se manterem, mesmo pagando baixos salários livres de encargos:

    — Nem esse mecanismo de defesa da crise está funcionando. É uma sequência: elas têm problemas com faturamento porque não conseguem vender, tentam segurar o negócio atrasando pagamentos a funcionários e fornecedores, até a hora em que, mesmo demitindo funcionários, não há melhora, e acabam fechando.

    Claudio Dedecca alerta que o aprofundamento da crise no mercado de trabalho também traz riscos de aumento de problemas sociais, como a violência:

    — Há uma probabilidade de vermos os indicadores de segurança piorarem, com o aumento de latrocínios, por exemplo. Já há sinais visíveis de problemas sociais. Muitas áreas que durante os anos de crescimento econômico não contavam com ambulantes e “craqueiros” voltaram a exibir esse cenário. E ambulantes trabalham em situação de risco, sempre com medo de ações de fiscalização que os tirem do lugar onde estão.

    CRISE NO MERCADO DE TRABALHO

    Mais de 3 milhões de trabalhadores estão em ocupações precárias

    Mais de 20% estão em busca por vagas de emprego há mais de um ano

    Informal. O ambulante Luiz Carlos Santos vende escova de dentes na Central do Brasil, no Centro do Rio, e não consegue nem um salário mínimo por mês: “a situação está muito difícil” – Gabriel de Paiva / Agência O Globo

    O trabalho precário vem aumentando no Brasil. Trabalhadores esperam cada vez mais tempo por uma vaga — 21% ficam mais de um ano desempregados — e sobe a parcela dos que não conseguem ganhar nem um salário mínimo, ou menos que R$ 4 por hora, refletindo o aprofundamento da recessão no país. Luiz Carlos Santos é a síntese da crise econômica. Aos 46 anos, vende escovas de dentes e biscoitos em frente à Central do Brasil, no Centro do Rio. Consegue ganhar entre R$ 700 e R$ 800 por mês e está incluído numa população que somava em janeiro deste ano 3,424 milhões de trabalhadores, 426 mil a mais que no início de 2015, de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE, que acompanha o mercado de trabalho em seis regiões metropolitanas (Rio, São Paulo, Recife, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre). Eles respondem por 14,9% do total de ocupados do país. Em janeiro de 2015, representavam 12,7%.

    Rendimento cai desde fevereiro

     

    — Como não posso ficar parado, tenho que correr atrás vendendo meus biscoitos, escova de dente, o que eu conseguir comprar e vender — explica o camelô que era cobrador de ônibus até quase dois anos atrás, mesmo período em que tenta um emprego com carteira assinada.

    Santos está em outra estatística que piorou no últimos anos: o tempo para se conseguir um emprego. Hoje, um de cada cinco desempregados espera mais de um ano para conseguir trabalhar de novo. É o chamado desemprego de longa duração. No início de 2014, atingia 14,7% deles. A situação é ainda pior para 7,3% deles, que demoram mais de dois anos na fila por uma vaga.

    — A situação está muito difícil. Eu procuro qualquer tipo de emprego, mas nunca tem vaga e, quando tem, exigem muitas coisas, que nem sempre é preciso para a função, como mais tempo de estudo — afirma Santos.

    Segundo o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo, os reflexos da crise no mercado de trabalho começaram no início do ano passado. Os empregados com carteira assinada começaram a ser demitidos:

    — Permaneceram no mercado através da informalidade, do trabalho por conta própria, ficaram subempregadas, sub-remuneradas e subocupadas. E aliviaram a procura, evitando uma fila maior de pessoas procurando trabalho (o conceito clássico de desempregado).

    Segundo Azeredo, essa situação afeta toda a família. A renda na casa cai. Em janeiro, o salário médio do brasileiro recuou 7,4%. Desde fevereiro de 2015, o rendimento do trabalhador vem caindo fortemente em relação aos mesmos meses de 2014:

    — Quando o trabalhador vai para o subemprego, afeta a vida do filho que estava fora do mercado se qualificando. Ele perde plano de saúde, num círculo vicioso.

    Estudo x trabalho

    Kelly Alves, vendedora: trabalho no lugar do estudo – Gabriel de Paiva / Agência O Globo

    Kelly Alves, de 20 anos, foi obrigada a sacrificar os estudos. Era vendedora de loja, com carteira assinada, mas foi dispensada há cerca de seis meses. Atualmente, trabalha sem carteira num comércio também informal de roupas.

    — Eu moro sozinha e não tenho ninguém para me ajudar. Quero muito terminar o ensino médio até para conseguir empregos melhores, mas a situação está muito difícil — lamenta Kelly.

    Segundo o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, a crise está se tornando estrutural no mercado de trabalho. As provas desse cenário recessivo estão no desemprego de longa duração. O próximo passo será o desalento (quando o trabalhador desiste de procurar por não encontrar nada), que tinha se tornado praticamente residual nos últimos anos. O desencanto com a falta de perspectiva não aparece na taxa de desemprego (parcela da força de trabalho que procura emprego). Ela fica estável, dando uma falsa leitura de que o mercado não está piorando mais.

    — No início do ano passado, esperava-se que a crise seria mais rápida, e a recuperação viria logo. Não foi o que aconteceu. E começou a repercutir em outros indicadores: o emprego com carteira assinada, o assalariado sem proteção e o trabalho precário. Com o desemprego de longa duração, começa o desalento — explicou.

    Contribuição para Previdência recua

      – Paulo Fridman / Bloomberg

     

    O que chamou a atenção do economista Lauro Ramos, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) foi o aumento rápido do trabalho precário:

    — Já tivemos uma parcela maior (que os 14,9%) quando o mercado ia bem. Mas esse salto (eram 12,7% em 2015) mostra forte deterioração do mercado de trabalho. É uma inserção tangencial, de sobrevivência, é famoso “fazer um bico”, um trabalho bem mais precário.

    E a situação deve piorar ainda mais:

    — Temos que lembrar que o primeiro trimestre está se mostrando bem ruim. Uma estrutura um pouco mais fraca, menos pujante, tende a sofrer mais com os impactos. Em um mercado de trabalho menos dinâmico, a crise se faz sentir mais fortemente.

    A taxa de desemprego já vinha mostrando a recessão. No início de 2015, era de 5,3%. Um ano depois, em janeiro, subiu para 7,6%. Mas o número de trabalhadores que contribuem para Previdência Social ainda se mantinha. É a primeira vez, desde 2004, que esse indicador cai. Foram 377 mil que deixaram de pagar a Previdência em um ano, seja como trabalhador formal demitido ou como conta própria que não conseguiu mais pagar como autônomo.

    — É reflexo da queda na ocupação. É menos dinheiro entrando na Previdência, mas a proporção de trabalhadores se manteve, o que é bom — afirmou Ramos.

    Há dois anos vendendo refrigerante e água no Centro do Rio, José Correia, de 62 anos, trabalhou a vida inteira como porteiro de hotel. Aos 60 anos, cinco anos antes de poder se aposentar por idade no INSS, perdeu o emprego. Juntou alguma economias e comprou produtos para vender como ambulante:

    — Infelizmente, eu não consegui nada e parado eu não podia ficar. Hoje, eu vou de um lado para o outro debaixo de sol, chuva, não importa, tenho que levar algum dinheiro para casa.


    Fonte: O Globo

    Brasil fecha 1,54 milhão de vagas formais de trabalho em 2015

    Número de vagas fechadas é o mais alto desde 1992; ministro do Trabalho, Miguel Rossetto, admite: “Foi um ano difícil”

     

     

     

     

    Carteira de trabalho

    Número de postos fechados em dezembro, somente, chegou a 596.208, melhor que a expectativa do mercado de 655 mil(Camila Domingues/Palácio Piratini/Fotos Públicas)
     

    O Brasil encerrou 2015 com 1,54 milhão de vagas formais de trabalho perdidas, pior resultado anual desde o início da série histórica em 1992. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado pelo Ministério do Trabalho nesta quinta-feira, só em dezembro, o número de postos fechados chegou a 596.208.

    No ano, a retração foi puxada principalmente pelas perdas na indústria de transformação (-608.878 postos), seguida pela diminuição sofrida nos setores da construção civil (-416.959), serviços (-276.054) e comércio (-218.650). Houve expansão apenas na agropecuária (+9.821).

    Em coletiva de imprensa, o ministro do Trabalho e Previdência Social, Miguel Rossetto, disse que 2015 foi, de fato, um “ano difícil”, e que os “números não são bons em relação a emprego”.

    A atividade econômica registrou no ano passado seu pior desempenho em décadas. O ambiente de forte inflação e juros elevados foi também contaminado por intensa crise política e indefinições no fronte fiscal, que injetaram instabilidade no mercado e afetaram a confiança de empresários e famílias.

    Segundo Rossetto, o governo tem como “prioridade absoluta” neste ano concentrar os esforços na preservação de trabalho e geração de emprego no país. “Várias medidas foram tomadas e estão sendo tomadas”, disse. “O ano de 2015 não desorganizou de forma estrutural o mercado de trabalho do país.”

    Economistas vêm apontando que a piora nas condições de emprego deverá prosseguir neste ano, já que os reflexos do declínio da economia têm defasagem. Para 2016, o mercado prevê outro tombo na atividade, de quase 3%, segundo a versão mais recente da pesquisa Focus, realizada semanalmente pelo Banco Central com economistas de mercado.

    O IBGE deve divulgar em 28 de janeiro a taxa de desemprego do país em dezembro. Em novembro, ela ficou em 7,5%, numa ligeira melhora em relação ao mês anterior, mas que foi beneficiada pelo registro sazonal de empregos de fim do ano.

    A saúde econômica de um país é espelhada pelo mercado de trabalho. Se a primeira vai mal, o reflexo vem na forma de fechamento de vagas. No Brasil, que vive um cenário de recessão, a desaceleração econômica puxa a alta do desemprego. Foi assim em 2015, quando o Produto Interno Bruto (PIB) do país recuou 3,8%, o pior resultado em 25 anos, e o desemprego teve uma taxa média recorde de 8,5%, segundo os dados da Pnad Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No total, 9 milhões de pessoas estavam sem ocupação nos últimos três meses do ano passado. A Pnad Contínua com os dados de janeiro, divulgada na última quinta-feira, mostrou que a taxa de desemprego chegou a 9,5% no intervalo entre novembro e janeiro. Outro levantamento do instituto, a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que abrange as seis principais regiões metropolitanas do país, mostrou que o desemprego nas metrópoles atingiu 8,2% em fevereiro, maior índice para o mês desde 2009. Em paralelo, houve uma queda na renda média das pessoas ocupadas, que está retornando aos níveis de 2012.

    A retração da economia mexe diretamente com o mercado de trabalho – mas não são só as estatísticas que atestam o quadro negativo. Perder o emprego é um golpe não apenas para o bolso, mas para a autoestima de pais e mães de família. O padrão de consumo cai, serviços não-essenciais deixam de ser contratados e bens duráveis deixam de ser substituídos. A redução ou mesmo eliminação de prosaicas regalias conquistadas pelas famílias nos anos de bonança também ajuda a explicar o quadro do desemprego no país.

    É o caso do gerente de contas Márcio Hermínio, de 30 anos, demitido em agosto. Com a falta de trabalho, ele teve que adaptar seu estilo de vida. Passou a não comer mais fora de casa para economizar, por exemplo. Hoje, faz compras e cozinha em sua casa, onde mora com três amigos. A decisão de Hermínio e milhões de outros consumidores aparece nos dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel): o faturamento do setor teve queda real (descontada a inflação), de 3% em 2015, para 149 milhões de reais. O gerente de contas também sacrificou sua vida social. “Eu costumava sair todo fim de semana, viajava com frequência, ia à praia”, conta. Nada disso faz mais parte de sua rotina. Os hábitos do dia a dia também tiveram que ser readequados. Para economizar combustível, ele tem usado o carro quase que exclusivamente nos fins de semana. “Se a situação continuar como está, eu penso em vendê-lo até o meio do ano.”

    A deterioração no mercado de trabalho causa um efeito em cadeia em diversos setores da economia. Sem emprego e com menos dinheiro, a inadimplência sobe, as pessoas adiam a compra de bens duráveis, como móveis e eletrodomésticos, e, além disso, cortam serviços não-essenciais, como planos de saúde e escola particular. No caso dos planos de saúde, por exemplo, o número de beneficiários caiu em quase 1 milhão em dezembro no ano passado, segundo dados da Associação Nacional de Saúde (ANS). Foi o primeiro recui em dez anos.

    A perda de ocupação dos chefes de família estimula pessoas que já estavam sem emprego a voltar a procurar uma ocupação para recompor a renda familiar – e isso alimenta o círculo vicioso do desemprego, já que acirra a disputa pelas já escassas vagas. Entre essas pessoas, há um contingente de jovens que até pouco tempo atrás não estudavam nem trabalhavam, os chamados “nem-nem”.

    O adolescente Eduardo Albuquerque, de 17 anos, está parado desde janeiro. “Quero assumir responsabilidades para ajudar minha mãe, que não trabalha, e servir de referência para as minhas quatro irmãs”, diz. Ele não encontra um trabalho fixo há três meses. No momento, pensa em fazer curso de tatuagem e de cabeleireiro para tentar novas ocupações.

    Com mais gente desocupada, cresce a busca por bicos, como os buscados por Albuquerque. A taxa de informalidade, que vinha em tendência de queda até o segundo trimestre de 2014, quanto atingiu 43,9%, passou a subir, alcançando 45,1% no terceiro trimestre de 2015, segundo a pesquisa mais recente sobre o tema feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “No quadro macroeconômico, o país está muito mal”, diz o professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP) José Paulo Zeetano Chahad.

    A indústria foi o setor que mais demitiu no ano passado, com mais de 600.000 vagas eliminadas, segundo o Caged. Mas o que mais assusta, segundo analistas pelo site de VEJA, é o desempenho do setor de serviços. Esse segmento da economia, que já respondeu por 85% da criação de novos empregos, registrou no ano passado, pela primeira vez, um desempenho negativo, com o fechamento de 276.000 vagas formais. “Isso fecha uma importante válvula de escape para quem perde o emprego na indústria e na construção civil. Antes o brasileiro abria uma loja, um salão de beleza. Hoje, com a fraca demanda, nem isso acontece”, explica José Pastore, professor da FEA-USP.

    Conseguir um emprego sem registro é o objetivo de Deise Silva, de 26 anos. “Assim sobra mais dinheiro para mim no fim do mês”, diz Ela trabalhava como atendente de caixa e foi demitida no início de fevereiro. Na última semana, conseguiu seu seguro-desemprego, que vai lhe render quatro parcelas de 900 reais.

    Confiança – Perder o emprego tira a confiança dos trabalhadores. Não há otimismo que resista a uma sequência de meses sem um salário – e isso também se reflete nos indicadores. Em fevereiro, o Índice Confiança do Consumidor, calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), atingiu 68,5 pontos, maior que o resultado de janeiro, mas ainda muito inferior aos números de toda a série histórica, que já chegou a ultrapassar os 110 pontos, em 2012.

    “O consumidor brasileiro estava buscando alternativas para manter todos os itens em seu carrinho de compras, como reduzir gastos fora do lar, frequentar canais de compra com melhor custo-benefício, diminuir idas ao ponto de venda, optar por embalagens econômicas e até trocar de marcas”, diz, em nota, o instituto de pesquisa Nielsen, especializado em hábitos de consumo. Segundo Paula Valadão, analista de mercado da Nielsen, essas medidas paliativas já foram abandonadas – e o que ocorre agora é a exclusão de itens da lista de compras. Esse cenário tem afetado principalmente a classe C, segundo a Nielsen.

    Por ora, o horizonte do emprego não parece muito animador. Pastore fala em um avanço para até 12% ainda em 2016. José Paulo Chahad é ainda mais pessimista, e não descarta desemprego perto de 13% até o fim do ano. A reboque da crise política, o desemprego tende a seguir em alta – e os hábitos de consumo, mais comedidos.

    Fonte: MSN

    O futuro não é mais como era antigamente

    Recessão ameaça acesso de jovens à educação e ao mercado de trabalho

     Expectativa: emprego garantido, salário alto e satisfação profissional. Realidade: falta de vagas, dinheiro curto e sonhos adiados. A geração que foi convencida de que poderia conquistar tudo que quisesse quando a economia deslanchava vê hoje seus projetos ameaçados pelo agravamento da crise econômica. Só o primeiro ano de recessão empurrou 671 mil jovens para a fila do desemprego, chegando a 2,9 milhões de pessoas entre 18 e 24 anos à procura de uma vaga. O crescimento representa acréscimo de 30%, segundo dados do IBGE até setembro de 2015. Para se ter uma ideia, entre 2013 e 2014, o número de desempregados nessa faixa etária havia

    Não tá tranquilo nem favorável

    Não está nada tranquilo, muito menos favorável conseguir o primeiro emprego. A dificuldade começa a aparecer na hora do estágio. Segundo a Mudes, agência de integração entre empresas e estudantes, o número de contratos de estágio caiu mais de 15% no ano passado, na comparação com 2014. No Centro de Integração Empresa Escola (CIEE), a quantidade de estagiários encaminhados ao mercado desacelerou no começo deste ano. Hoje, 1,5 milhão de jovens aguardam uma vaga de estágio ou aprendiz em seu banco de dados.

    No momento em que a palavra de ordem é cortar custos, os jovens são os primeiros na lista das empresas porque têm menos experiência e exigem investimento em treinamento. Com quadros mais enxutos, leva vantagem o funcionário capaz de dar conta de um volume maior e mais complexo de trabalho.

    A crise também complica a preparação profissional. O orçamento apertado em casa traz ao jovem a necessidade de ajudar a pagar as contas e coloca em risco a permanência na faculdade. Em uma das maiores universidades particulares do país, a Unip, o número de trancamentos dobrou em quatro anos, alcançando 52 mil no ano passado. A situação fica ainda pior para quem deseja ingressar no ensino superior agora, já que o governo fechou a torneira do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

    Especialistas já temem que, se a recessão perdurar, teremos uma geração perdida: com menos qualificação e salários mais baixos. Os efeitos se estenderão por toda a economia, pois deixarão uma lacuna na formação de líderes e mão de obra.

    Sonho adiado

    Tiago Batista teve de escolher entre a família e o sonho da faculdade – ANTONIO SCORZA / Agência O Globo

    Desde 2013, quando concluiu o ensino médio, Tiago Batista da Silva adia o sonho de cursar a faculdade. Primeiro, veio o dilema entre investir na própria educação e ajudar nas despesas domésticas. Filho de um faxineiro e de uma dona de casa e com seis irmãos, procurar trabalho para contribuir com a família pareceu a escolha óbvia. Logo depois de terminar a escola pública, o jovem de 22 anos, morador de Honório Gurgel, na Zona Norte do Rio, conseguiu uma vaga de aprendiz em uma gráfica. Durante dois anos, a bolsa de R$ 400 serviu para ajudar a pagar as compras de supermercado.

    O ensino superior, no entanto, não estava descartado. Tiago tinha um plano. Se, após o período de estágio, conseguisse ser efetivado ou encontrasse um emprego, poderia continuar a ajudar em casa e bancar uma faculdade. O trabalho na indústria o ajudou a definir a carreira. Quer ser engenheiro de produção. Mas a crise apareceu no caminho: o jovem está parado desde novembro, quando seu contrato de estágio acabou.

    — Precisava escolher entre a faculdade e a minha família. Escolhi minha família e não me arrependo. Sem a efetivação, tive que fazer tipo um plano B. Todos queremos ter a independência, só que a situação ainda não permite. Uma hora vou trilhar meu caminho sozinho.

    Por enquanto, esse momento não chegou para o jovem, nem para outros milhões de brasileiros com idade entre 18 e 24 anos, que, sem trabalho, adiam seus planos. A taxa de desemprego nessa faixa etária chegou a 19,7% no terceiro trimestre do ano passado, bem maior que a média do país, de 8,9%. Normalmente, a taxa entre os mais jovens é mais alta, mas a recessão piorou essa relação.

    Ser a primeira na família com diploma

    Fabiana Hipólito do Nascimento, de 18 anos, está em busca de emprego para pagar a faculdade de Psicologia, mas ninguém oferece a primeira chance – Márcia Foletto / Agência O Globo

     

    A profundidade da deterioração do mercado de trabalho para esse grupo pode ser medida pelo fato de não fazer distinção entre classe social nem grau de qualificação: atinge do jovem de baixa renda recém-saído da escola ao superqualificado com intercâmbio no exterior.

    Filha de um zelador e de uma empregada doméstica, Fabiana Hipólito do Nascimento, de 18 anos, fez a transição do ensino fundamental para o médio no fim de 2012. Com o crédito, os salários e o emprego em plena expansão, famílias de baixa renda, como a dela, podiam se dar ao luxo de poupar os filhos de trabalhar para que se dedicassem em tempo integral aos estudos.

    — Meus pais me deixaram bem à vontade para eu me dedicar só à escola, pois o grande sonho deles é que eu seja a primeira da família a ter diploma — conta a jovem.

    Fabiana tomou os sonhos dos pais para ela. Mas, três anos depois, ao concluir o ensino médio num contexto de economia em contração, as dificuldades apareceram. Cursar a tão sonhada faculdade de Psicologia só será possível se conseguir um emprego para pagar a mensalidade, caso não entre em universidade pública. Mas, além de as vagas serem raridade, exigem experiência.

    — Está muito difícil. Se ninguém me der uma oportunidade, nunca terei essa experiência — reclama a jovem.

    Na quinta-feira passada, Fabiana e o primo Davi Nascimento, de 18 anos, que se formou com ela e está em busca do primeiro emprego, saíram de São João de Meriti, onde moram, ainda de madrugada, para fazer a carteira trabalhista na sede do Ministério do Trabalho, no Centro do Rio.

    ‘Volto quando a crise acabar’

    Gabriel Leite, de 24 anos, desistiu de buscar emprego no Brasil, depois de seis meses de procura, e mudou para a Argentina, onde já está trabalhando – Arquivo Pessoal
     

     

     

     

    “Seu currículo é excelente. Mas não estamos contratando”. A frase, ouvida repetidas vezes durante todo o segundo semestre do ano passado pelo então recém-formado engenheiro civil Gabriel Leite Inácio, levou o jovem carioca de 24 anos a mudar os planos que tinha para a carreira. Em outubro, fez as malas e embarcou para Buenos Aires, onde a namorada, da mesma idade e com um diploma de Geologia recém-conquistado em mãos, havia conseguido emprego por meio de uma empresa brasileira que tem negócios na Argentina. Dois meses depois, ele estava empregado também. O trabalho, no setor de finanças de uma multinacional produtora de tabaco, nada tem a ver com os canteiros de obras que sonhava comandar. Mas, nesse momento, rende um salário que considera bom e ameniza a frustração de ver seis anos de investimento na faculdade e num intercâmbio em Paris não lhe garantirem um emprego no país onde nasceu.

    — É muito frustrante. Eu falo três línguas estrangeiras, estudei fora e não tem trabalho para mim. Até julho, fui estagiário em uma construtora, mas ela perdeu para a concorrência uma obra na qual ia me efetivar e fiquei desempregado. Comecei a buscar emprego nos classificados, pelo LinkedIn, entregava meu currículo nas grandes construtoras e, se via uma obra, entrava para pedir emprego. E não sou exceção. Sou a regra. Pouquíssimos dos que se formaram comigo conseguiram trabalho. E, quando abre uma vaga, tem tanto profissional com currículo melhor na fila que fica mais difícil.

    Gabriel diz que os colegas argentinos se surpreendem quando ele conta que mudou de país porque no Brasil não há emprego:

    — A Argentina também está em crise, mas o presidente mudou, e a economia está melhorando. Ganho o equivalente a R$ 6 mil e pago R$ 1 mil de aluguel por um apartamento de 60 metros quadrados. Meus pais sempre me deram apoio para ter independência. Só volto para o Brasil quando a crise acabar

    • Outros serviços

      Os serviços de alojamento, transporte, limpeza urbana e serviços pessoais demitiram 43 mil trabalhadores

     

    Quero ver quem paga pra gente ficar assim

    Nathan Pinheiro de Lima, de 25 anos, sonha entrar na faculdade, mas pra isso precisa de um emprego que pague bem – Márcia Foletto / Agência O Globo
     

     

     

    Nathan Pinheiro de Lima, de 25 anos, trabalha desde os 18. Já foi atendente de lanchonete, conferente, vendedor de carros e, mais recentemente, almoxarife em uma construtora, emprego do qual foi desligado mês passado. Mas, seu maior sonho é se formar em segurança do trabalho. Admira quem cuida das vidas que fazem uma empresa funcionar, como ele mesmo define a profissão. Pagou com sacrifício um curso técnico na área, em 2014, mas até hoje não conseguiu vaga no setor. O investimento foi planejado justamente para ter um emprego com melhor remuneração — no último trabalho recebia menos de dois salários mínimos — e que lhe desse estabilidade para ingressar na faculdade:

    — Em Niterói, tem uma faculdade de segurança do trabalho. Mas a mensalidade custa R$ 600. Eu moro com meus pais e tenho de ajudar em casa. Faculdade só se eu tiver um bom salário. Mas está difícil até conseguir um emprego que pague pouco.

    A idade já o preocupa. Pelo curso natural, aos 25 anos, um jovem já saiu da universidade. Nathan sabe que, quanto mais tempo demorar para se formar, mais difícil será se inserir nesse mercado. A preocupação de Nathan procede e, potencializada por outras tantas histórias semelhantes que a recessão tem produzido, pode ter impactos sobre a formação de mão de obra qualificada e de novos líderes, apontam os especialistas.

    — Se temos uma geração que era para estar melhorando a produtividade e a qualificação, e isso não acontece, é algo sério, que compromete o futuro do país. Há muito jovens trancando matrícula ou subempregados — aponta o doutor em demografia e professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do IBGE José Eustáquio Diniz Alves.

    Nathan tenta se concentrar agora em encontrar um estágio em segurança do trabalho para ao menos começar a ganhar experiência.

    — Pelos relatos que tenho visto, em meados de 2017, a economia vai começar a melhorar. Enquanto isso, ganho experiência. Eu ainda moro com os meus pais e não tenho filhos. Tem muita gente numa situação pior — diz.

    De acordo com o superintendente educacional do Centro de Integração Empresa Escola (CIEE), Eduardo de Oliveira, hoje, em torno de 1,5 milhão de jovens a partir dos 14 anos aguardam por uma vaga de estágio ou aprendiz em todo o país.

    ‘Treinar custa caro’

    Paulo Sardinha, da ABRH-RJ: ‘Vamos voltar à realidade de 2009, quando havia uma escassez muito grande de mão de obra’ – Marcelo de Jesus / Agência O Globo
     

     

     

     

    Paulo Sardinha, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio de Janeiro (ABRH-RJ), compara os profissionais que demoram a ingressar em suas áreas àquele aluno repetente, que fica em desvantagem em meio aos mais jovens e com mais conhecimentos.

    — Carreira pressupõe vivência do ambiente organizacional e experiência. Se a crise durar três, quatro anos, vamos ter um grupo de pessoas que amadurecerá na idade e não no aspecto profissional, pois elas continuarão tendo dificuldades de se inserir em suas áreas — diz.

    O efeito será generalizado sobre a economia, prevê Sardinha, pois quando a atividade voltar a crescer, faltarão bons líderes e profissionais:

    — Vamos voltar à realidade de 2009, 2010, quando havia uma escassez muito grande de mão de obra. Parece ironia da vida, e ficamos num ciclo tenebroso.

    Como a palavra de ordem é cortar custos, as empresas também contribuem para desenhar esse futuro, aponta o economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Miguel Foguel, estudioso do mercado de trabalho:

    — Treinar custa caro. Logo, as empresas entendem que não é o momento de gastar recursos treinando alguém. Por isso, os jovens encontram dificuldades para ser contratados. O problema é que, quando a crise passar, a empresa estará com uma mão de obra envelhecida. O ideal seria seguir treinando trabalhadores para, lá na frente, ter gente com conhecimentos oxigenados.

    Com quadros mais enxutos, leva vantagem o funcionário capaz de dar conta de um volume maior e mais complexo de trabalho. Outro efeito que já começa a aparecer — e contribui para aumentar a taxa de desemprego entre os jovens — é o estrangulamento do mercado. Analistas preveem que a taxa de desemprego atinja dois dígitos no fim deste ano.

    Com uma oferta ainda menor de vagas, vai aumentar o contingente de trabalhadores experientes que se sujeitarão a ocupar um posto de trabalho de qualidade ruim ou salário baixo pela necessidade de ter um emprego, analisa Carlos Henrique Corseuil, pesquisador do Ipea:

    — Quando o mercado vai bem, as pessoas não pegam um posto abaixo de um nível crítico. Agora, as condições mudaram. Com as pessoas precisando ainda mais entrar no mercado, a tendência é que reduzam o nível de exigência. Isso pode se refletir em salários e níveis de produtividade mais baixos.

    Para Sardinha, o efeito é cruel:

    — As organizações voltam a contratar o mesmo trabalhador que tinha um salário alto por um muito menor, pois ele passou tanto tempo sem conseguir trabalho que passa a topar tudo.

    Tudo o que eu queria estava fora do meu alcance

    Luana Martins acabou de entrar na faculdade de Direito e procura trabalho para continuar estudando – Alexandre Cassiano / Agência O Globo
     

     

     

     

    Mal começou a faculdade, a estudante de Direito Luana Martins já precisa conciliar os estudos e o temor de não conseguir pagar pelo curso até o fim. Com as contas apertadas em casa, a mensalidade de R$ 850 pesa no orçamento. A mãe, uma professora que sustenta sozinha a família, precisará de ajuda para fechar as contas. Luana já começou a procurar um emprego.

    As dificuldades enfrentadas pela jovem, de 19 anos, são as mesmas vividas por outros universitários no país que, devido à queda na renda, inflação em alta e piora no mercado de trabalho, têm dificuldade para custear os estudos. A situação é agravada pelo fim do chamado boom do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), que durou de 2010 a 2015. No ano passado, em meio ao ajuste fiscal, as regras para acessar o crédito estudantil ficaram mais rígidas, e o número de novos contratos recuou 57%, para 313,5 mil.

    O arrocho no programa do governo tem aberto espaço para linhas de financiamento privado, como o Pravaler, oferecido pela Estácio desde o ano passado. A alternativa chamou a atenção da Luana. Se conseguir o crédito, poderá pagar seu curso ao longo de oito anos — o dobro do tempo da graduação —, o que cortaria à metade o valor da mensalidade. A concessão do benefício, no entanto, ainda deve passar por análise de crédito. Como a mãe tem dívidas, a jovem ainda não sabe se conseguirá acesso ao programa. Por enquanto, conta com um desconto de 20%, pagando R$ 670.

    — Estou procurando um estágio ou até mesmo um emprego. O maior problema é o salário, que às vezes não dá nem para pagar a mensalidade — conta Luana.

    Desde 2015, o Fies passou a priorizar vagas em cursos mais bem avaliados pelo Inep (com notas 4 ou 5). Além disso, os candidatos precisam somar pelo menos 450 pontos no Enem e não podem tirar zero na redação. O pagamento da dívida continua sendo em até três vezes o tempo de estudo financiado, mais 18 meses de carência.

    Apesar da queda no número de novos contratos, o Ministério da Educação destacou que o Fies atende cerca de 2,2 milhões de estudantes. A pasta destacou que, além do sistema de crédito, programas como o Prouni e o Sisu “têm possibilitado a democratização da educação superior ao garantir acesso e permanência de um contingente populacional que, historicamente, esteve excluído do ensino superior”.

    Gestores de universidades, no entanto, sentem o efeito das regras mais duras do Fies. É o caso da Unip, uma das maiores do país. O crescimento do número de alunos que cursam a universidade com o crédito do governo desacelerou drasticamente em 2015: subiu só 1,2%, para 73 mil. Para efeito de comparação, o salto entre 2013 e 2014 foi de 70,3%.

    — Até 2014, o Fies “corria solto”. Todo aluno que quisesse conseguia. Agora restringiu, e sentimos isso nos números — explica o vice-reitor de Planejamento, Administração e Finanças da Unip, Fábio Romeu de Carvalho.

    A instituição percebe uma tendência de aumento no número de trancamentos. Entre 2011 e 2015, eles saltaram 88,9% e somaram 52 mil. O crescimento das matrículas no período foi em ritmo menos acelerado: de 64,2%, para 390,5 mil.

    — Vemos que muita gente entra na universidade com a expectativa de continuar, mas, com o aperto das finanças, sente dificuldade. As pessoas trancam na esperança de voltar um dia. Com isso, estamos flexibilizando as negociações. Antes, parcelávamos dívidas em até seis vezes. Agora, já aceitamos em até 12 vezes, desde que as parcelas sejam de pelo menos R$ 200 — conta Carvalho.

    Concorrência mais acirrada

    Feira de estágio doNúcleo Brasileiro de Estágios – Thyago Pereira / Thyago Pereira
     

     

    Quando o orçamento aperta, a solução para continuar estudando é conseguir renda extra. E não são só alunos como Luana, que paga ensino privado, que precisam de mais dinheiro. Na última quarta-feira, o estudante de História da UFF Lucas de Luna, de 20 anos, respirava aliviado. Tinha acabado de conseguir um contrato de aprendiz como auxiliar administrativo. A vaga paga um salário mínimo, que vem em boa hora. Mesmo cursando uma faculdade pública, Lucas afirma ter de lidar com outros custos.

    — É passagem, material, xerox… Tudo isso pesa no dia a dia — relata.

    Embora ajude a compor o orçamento, a vaga, admite o estudante, representa um desvio em sua jornada profissional, de professor.

    — Eu me preocupo, porque o melhor seria se encontrasse algo na área. Mas é o que tem. A gente tem que agarrar o que aparece — afirma.

    Lucas tem razão. Segundo dados da Mudes, uma das principais agências de integração entre empresas e estudantes do Rio, as vagas de estágio já sofreram o baque da recessão. No ano passado, a entidade fechou 4.844 contratos de estágio no estado, uma queda de 16,7% em relação ao ano anterior. As empresas fluminenses também estão aproveitando menos os estagiários em seus quadros. As efetivações caíram 19,5%, para 316, no ano passado.

    As oportunidades para trainee — que têm salários maiores — até aumentaram no ano passado, de 73 para 137, mas se esgotaram desde setembro.

    — Em setembro, tínhamos um processo aberto, com 50 convocados, para uma grande empresa de petróleo. No último momento, pediram para suspender e não temos vagas abertas desde então — conta Bernardo Oliveira, gerente de acompanhamento e controle da Mudes.

    Um cenário assim aumenta a competição, explica Luis Testa, diretor de marketing e parcerias da Catho.

    — Mesmo o jovem qualificado, que fala vários idiomas e tem experiência pode competir, em alguns casos, com profissionais com bagagem um pouco maior que, na recessão, passam a aceitar propostas salariais um pouco menores — explica o especialista.

    A saída para se diferenciar é se qualificar. Mas, se está difícil até para se manter na faculdade, ir além é para poucos. Paulo Sardinha, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio de Janeiro (ABRH-RJ), diz que, em 2015, houve uma queda de 40% nas matrículas em cursos de pós-graduação. O problema, diz, é que, quando a economia voltar a crescer, haverá uma legião de pessoas que não são mais tão jovens, sem experiência ou capacitação para preencher as vagas que surgirão.

    João Saboia, professor do Instituto de Economia da UFRJ, também alerta para a tendência de piora no mercado de trabalho decorrente da queda do número de jovens qualificados.

    — Isso inverte o movimento que estava ocorrendo até 2014. A escolaridade estava aumentando no mercado de trabalho. É um atraso ter uma entrada precoce de uma pessoa que ainda está num momento de qualificação.

    Se está difícil se qualificar, ganha quem pode investir em cursos. Perdem, no entanto, os indicadores de desigualdade do país, lembra Carlos Henrique Corseuil, pesquisador do Ipea:

    — Quem pode não trabalhar investe mais em educação. Geralmente, tende a ser o jovem de família mais rica. O outro extremo, quem já tinha menos chance, agora terá menos ainda.

    Artigo: O desemprego e a geração perdida

    por José Eustáquio Diniz Alves*

    A chamada geração Y, ou geração do milênio, ou geração da internet, está vivendo momentos difíceis com a crise do mercado de trabalho que começou em 2013 e se aprofundou em 2015 e 2016. O sonho de jovens altamente qualificados, com boas perspectivas de emprego, salários e padrão de vida está se transformando no pesadelo de uma fraca formação educacional, alta ocupação informal, baixos salários e elevadas taxas de desemprego.

    A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE — que produz indicadores mensais para as regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre — mostra que a desocupação dos jovens vinha caindo desde 2004 e atingiu o ponto mais baixo em dezembro de 2012, entrando, a seguir, em uma tendência de rápida elevação.

    Em dezembro de 2012, a taxa de desemprego aberto estava em 19,1% entre os jovens de 15 a 17 anos e em 10,6% entre os de 18 a 24 anos. No entanto, começaram a subir em seguida. As manifestações da juventude brasileira, em junho de 2013, já foram reflexos da piora do mercado de trabalho e das condições de transporte e de educação.

    De lá para cá, o que estava ruim piorou. Em janeiro de 2016, a taxa de desemprego aberto dos jovens de 15 a 17 anos atingiu a cifra astronômica de 38,3% e a dos jovens de 18 a 24 anos ficou em um número, não menos preocupante, de 18,9%. Esse é o lado visível. Mas há também o desemprego oculto e o desalento. O problema, portanto, é muito mais grave e tende a se aprofundar ao longo da estagflação de 2016.

    Todavia, o desemprego é somente a ponta do iceberg, pois abaixo da superfície do mercado de trabalho há uma enorme quantidade de jovens que nem estudam, nem trabalham e nem procuram emprego. É a chamada “geração nem-nem-nem”.

    Dados recentes da Pnad, do IBGE, revelam a existência de cerca de dez milhões de jovens de 15 a 29 anos que nem estudam, nem trabalham e nem procuram emprego. O percentual de jovens nem-nem-nem ficou abaixo de 10% somente na região Sul. Na região Sudeste ficou em torno de 15% e na maioria dos estados das regiões Norte e Nordeste o percentual ficou acima de 20%.

    Tudo isso acontece quando o número absoluto de jovens está diminuindo, e o Brasil vive a fase mais favorável do seu bônus demográfico. Seria o momento ideal para se investir nos direitos da juventude, permitindo a integral transição para a vida adulta. O futuro de qualquer país depende da mobilidade intergeracional ascendente. Porém, a atual crise brasileira está parindo uma geração perdida.

     

    Dívidas devem provocar explosão de quebras e recuperações judiciais no ano

    Nos últimos sete anos, o endividamento das empresas brasileiras no mercado interno mais que dobrou, atingindo R$ 1,4 trilhão em janeiro. Com os empréstimos externos, essa conta sobe em mais US$ 211 bilhões. Não chegaria a ser um problema, se a economia estivesse crescendo, o consumo subindo, a produtividade aumentando. Mas o cenário é o inverso disso. Com redução nas vendas e a receita caindo, esse endividamento se tornou uma bola de neve para as empresas. E a percepção entre os analistas é uma só: o País vai viver este ano uma explosão das recuperações judiciais e quebras de empresas.

    Esse cenário, na verdade, já deu as caras no ano passado, quando as recuperações judiciais chegaram a 1.256, número mais de 50% superior ao registrado em 2014. No primeiro bimestre deste ano, o número foi ainda mais assustador: crescimento de 116% em relação ao mesmo período do ano passado. “As empresas estão sofrendo e ainda vão sofrer muito em 2016 por falta de liquidez”, diz Mauro Storino, diretor sênior da Fitch Ratings.

    O cenário traçado pela agência de classificação de risco para os grupos nacionais é dos mais pessimistas. Entre as companhias brasileiras acompanhadas pela Fitch, 53% estão com perspectivas negativas – ou seja, devem ter suas notas de crédito rebaixadas nos próximos meses. Em 2014, para cada empresa que tinha o rating elevado, três caíam. Neste ano, a proporção, segundo Storino, será de uma elevação para dez rebaixamentos.

    Para entender como a situação chegou a esse ponto não é preciso ir muito longe. Entre 2005 e 2013, os empresários brasileiros experimentaram um ambiente inédito, com fartura de crédito a um custo baixo para os padrões nacionais ao mesmo tempo em que o governo incentivava o consumo e o crédito das famílias. A decisão das corporações foi de tomar dívida para investir em expansão – o que fez com que o endividamento superasse a geração de caixa.

    O problema é que no meio do caminho veio uma recessão. A reviravolta econômica e política derrubou o nível de atividade e provocou uma intensa aversão ao risco. De um crescimento de 2,3% em 2013, o Brasil ficou praticamente estagnado em 2014 e recuou 3,8% em 2015. “Isso gerou um descompasso entre a geração de caixa e o endividamento das empresas”, diz Fábio Rodrigues, sócio diretor da Bizup Consulting, empresa de consultoria empresarial. Na prática, as empresas investiram com base em um cenário que não se realizou. E, mais grave: as dívidas começaram a vencer no pior momento da economia.

    A margem líquida – indicador que mede o quanto das vendas se converte em lucro – recuou, em 2015, aos mesmos níveis de 2003. O levantamento foi feito pela empresa de informação financeira Economática com base nos dados de 70 companhias de capital aberto que já apresentaram o balanço do ano passado.

    Dívida

    O indicador que mede a capacidade de pagamento das empresas (relação entre dívida líquida e Ebtida, ou geração de caixa) também se deteriorou. De um total de 198 companhias que tiveram essa relação positiva em 2015, 112 viram essa proporção subir, o que significa alta do risco. Há casos como o da construtora Mendes Júnior, que acabou de pedir recuperação judicial, em que relação dívida líquida sobre Ebitda é de 33,37, segundo a Economática. Isso significa que, com o caixa que ela gera hoje, levaria 33 anos para quitar os empréstimos.

    A saída é tentar um alongamento dos prazos. Do outro lado, no entanto, essas empresas têm encontrado bancos pouco dispostos a conceder crédito novo em condições razoáveis. O que ocorre é o contrário: os prazos estão mais apertados e as exigências de garantias, mais pesadas, diz José Braga, sócio da PriceWaterhouseCoopers.

    O resultado disso é que cada vez mais empresas têm de pedir à Justiça proteção contra os credores, a recuperação judicial. Na lista de companhias que já recorreram à Justiça só este ano estão empresas dos mais diversos setores, como a Viação Itapemirim, a rede de lojas de brinquedos BMart, a GEP, dona das varejistas de roupas Cori e Luigi Bertolli, e a fabricante de autopeças Arteb.

    Gigantes abaladas

    Para piorar, a crise, desta vez, atinge um grande número de empresas gigantes. Grandes empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato, que investiga corrupção em contratos da Petrobrás, já pediram proteção judicial desde o ano passado. Entre elas, a OAS, que até 2014 ocupava a 3.ª posição do ranking das maiores construtoras do Brasil, a Galvão Engenharia, que era a 6.ª maior, e a própria Mendes Júnior, na 13.ª posição.

    Essa é uma das características mais assustadoras da crise. “Antes, uma recessão afetava mais as pequenas e médias. Hoje, o problema está nas grandes, que podem abalar todo o sistema financeiro se quebrarem”, diz Artur Lopes, da consultoria Artur Lopes & Associados, especializada em gestão de crise. De olho nesse risco, os bancos fazem reservas para se protegerem dos calotes. Esses valores nunca foram tão altos. No ano passado, alcançaram R$ 68,8 bilhões nos três maiores bancos do País (Itaú, Bradesco e Banco do Brasil) – o maior valor desde 1986, segundo a Economática.

    Entre advogados, consultores, banqueiros e empresários é quase unânime a sensação de que as coisas vão piorar. A agência Standard & Poor’s, primeira a retirar o grau de investimento do Brasil, calcula que o volume de dívidas a vencer até o ano que vem de empresas que fazem parte do seu monitoramento é de US$ 24 bilhões. “Muitas companhias fizeram captações quando o País era grau de investimento”, afirmam Luisa Vilhena e Diego Ocampo, diretores da S&P. “Agora, terão de renegociar numa situação de rating rebaixado.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

    Fonte: Isto é

    Enquanto o país afunda na recessão, o restante do mundo cresce acima de 3%

    Desempenho no ano passado mostra que os erros na condução da política econômica estão custando caro. Só Venezuela e Ucrânia são piores que Brasil.

    O fraco desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2015 confirma o país na lanterna da economia global. Ao contrário do que diz o governo, especialistas avisam que as razões da forte recessão em que o país está mergulhado nada têm a ver com acontecimentos do exterior, pois o mundo está crescendo acima de 3%. O tombo de 3,8% do PIB no ano passado em relação a 2014 deixou Brasil à frente apenas da Venezuela e da Ucrânia, que encolheram 4,5% e 6,4%, respectivamente, em um ranking de 32 países pesquisados pela Austin Rating. O desempenho brasileiro foi pior que o da Grécia, país mergulhado em crises frequentes, mas que conseguiu crescer 0,5% em 2015
    Neste ano, o mundo avançará 3,4%, pelas estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), e o Brasil terá retração de 3% a 3,5%, ou de 4,4% a 4,9%, segundo as projeções mais pessimistas. “Os fundamentos da economia brasileira continuam piorando e não está havendo estancamento da deterioração da atividade. Um gatilho para melhoria do cenário seria a interrupção do mandato do governo, mas isso provocaria uma melhora apenas em 2017”, avisou a economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria , que espera recuo de 4% do PIB neste ano.
    Em nota, o Ministério da Fazenda tentou culpar a queda dos preços das commodities como um dos fatores da retração da economia em 2015, mas foi alvo de críticas. “Esse tipo de análise é totalmente equivocada. Há vários países que são mais dependentes que o Brasil de commodities e estão crescendo. O que fez o PIB cair foi um excesso de intervenção na economia que desorganizou tudo”, destacou o economista Mansueto Almeida.Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, também destacou que as razões da queda do PIB são domésticas. “Não tem crise lá fora para justificar isso. A economia encolheu mais do que na Grande Depressão e na recessão de 2008, ou seja, o governo não tem possibilidade de aludir a isso”, disse.O especialista em globalização e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Ernesto Lozardo fez uma analogia da economia com a matemática para resumir o assunto. “Em economia, ao contrário da matemática, se alterarmos os fatores, o produto muda. Nos últimos anos, o governo piorou as políticas fiscal e monetária, forçou a queda dos juros e adotou medidas populistas que desequilibraram as contas públicas, geraram instabilidade derrubaram os investimentos”, resumiu. Para ele, o país ainda vai demorar para sair da recessão, que deverá se prolongar até 2018.
    Fonte: Correioweb

    Se  você acha que somente aqui no Brasil há muitas demissões, então se enganou. O governo chinês acaba de anunciar a maior demissão em massa da história do país, dispensando cerca de 1,8 milhão de trabalhadores que atuavam nas minas de aço e carvão.

    O corte foi anunciado por Yin Weimin, o ministro de Recursos Humanos e Segurança Social do país. A má notícia segue as dificuldades políticas que o presidente, Xi Jinping, vem enfrentando ao reestruturar a segunda maior economia do mundo.

    Nas últimas décadas, a China investiu muito em indústrias que produziam materiais de exportação. Contudo, esse investimento excessivo causou uma sobrecarga de matéria-prima para uma baixa demanda de produto, algo que forçou o setor industrial a baixar os preços ainda mais.

    Gráfico das mudanças do PIB chinês das últimas décadas

    Esses valores baixos estão deixando as indústrias no negativo, ou seja, um prejuízo no qual é o Estado que arca com as despesas. Esse cenário já era esperado, já que o foco da economia sempre foi esse e apenas agora é que os governantes pensam em alterar a base de consumo externo para a interna – ou pelo menos balancear a equação.

    Em outras palavras, o consumo global diminuiu nos últimos tempos, forçando a China a baixar os preços e arcar com as perdas de investimento massivo em materiais básicos. Agora, o governo pensa em incentivar a economia interna. Segundo o Quartz, o Brasil e a Austrália enfrentam situações semelhantes no momento, com uma baixa nas exportações.

    Por outro lado, a ausência de aço chinês pode ser uma boa notícia para a indústria americana, que vinha perdendo espaço há muito tempo para a concorrência chinesa.

    Fonte: Tecmundo

    Dez companhias, com dívidas de R$ 100 bi, têm ‘possibilidade real de inadimplência’

    Crise leva a número recorde de empresas brasileiras com notas do tipo “CCC” e “Caa1” ou piores pelas agências de risco

    Loja da Oi no Centro do Rio: operadora tem dívida líquida de R$ 43,7 bilhões, segundo a Bloomberg – Dado Galdieri / Bloomberg
     

     

    RIO – Nunca antes tantas empresas brasileiras de grande porte estiveram sob risco tão elevado de não honrar suas dívidas. Acusando o golpe da fraca demanda interna, da disparada do dólar e dos juros e da perda do selo de bom pagador pelo Brasil, dez companhias nacionais — incluindo gigantes como Oi, Usiminas e Gol — receberam notas do tipo “CCC”/“Caa1”, ou piores, pelas agências de classificação de risco Fitch ou Moody’s. Esses ratings, como são chamados, indicam um risco de crédito muito alto, situação em que o calote “é uma possibilidade real”, como define a Fitch. São empresas que acumulam, somadas, dívidas líquidas de aproximadamente R$ 100 bilhões, segundo números da Bloomberg.

    Em um sintoma da rápida piora da condição econômica brasileira, no fim de 2012 — quando o país gozava de sua melhor classificação, o grau de investimento — eram cinco firmas naquela situação, sendo que quatro delas pertenciam ao mesmo grupo, que enfrentava dificuldades financeiras. Juntas, tinham dívidas líquidas de R$ 5 bilhões (valores nominais, não corrigidos pela inflação), uma pequena fração do montante atual.

    — Desde que as empresas brasileiras começaram a receber ratings, este é o pior momento em termos de geração de caixa e liquidez (oferta de dinheiro). O problema não é só o cenário econômico ruim, mas a falta de perspectiva para restabelecer o apetite dos investidores — diz Ricardo Carvalho, diretor sênior da Fitch. — Em 2012, era diferente, seja no lado operacional das companhias, seja pelo alto valor das commodities e pela grande liquidez no mundo. Empresas que não ostentavam perfil de crédito muito bom conseguiam levantar capital com facilidade. Isso afastava possibilidade de inadimplência.

    Carvalho observa que a classificação de crédito reflete o risco de inadimplência das companhias. Isso abarca, em tese, a totalidade das dívidas, mas, em alguns casos, parcela do montante pode apresentar um tipo de garantia diferente e, portanto, com risco diferente.

    Consequências do ‘boom’

    Fábrica da CSN, em Volta Redonda – Custódio Coimbra / Agência O Globo
     

     

     

    As agências de classificação de risco avaliam a condição de pagamento de débitos pelas companhias que emitem títulos de dívida para financiar suas operações. Uma década atrás, esse rol era restrito a um grupo de companhias exportadoras tradicionais, como Petrobras, Vale e CSN. Com a valorização das commodities e o crescimento da economia brasileira, o interesse em investir nas empresas nacionais ganhou força junto ao capital estrangeiro. Nesse processo, foi determinante a atribuição do grau de investimento à dívida soberana brasileira, em 2008. Com essa garantia de solidez das finanças locais, empresas de menor porte passaram a experimentar a emissão de dívida no mercado internacional. Em 2010, por exemplo, US$ 53,7 bilhões foram levantados no exterior.

    Hoje, a situação é praticamente inversa. O Brasil perdeu o grau de investimento pelas três maiores agências de risco nos últimos seis meses, a economia registrou contração de 3,8% no ano que passou, as commodities estão no menor nível em mais de uma década e os EUA começaram a subir juros, enxugando parte da oferta de capital no mundo.

    Adeodato Volpi Netto, analista da Eleven Financial Research, afirma que grande parte do problema enfrentado hoje se deve a um certo exagero de emissões promovidas nos tempos de bonança:

    — As companhias ficaram muito mal acostumadas entre 2010 e 2013. Foram menos diligentes em sua estrutura de capital porque se sentiam muito à vontade em captar lá fora, num momento em que o Brasil era destino seguro de investimento.

    Desistência de fusão frustra Oi

    Oi foi a empresa mais reclamada nos procons de todo o Brasil em 2012 – FOTO: Divulgação
     

     

    Chama a atenção no grupo de empresas notas “C” o tamanho das dívidas de algumas. A Oi é a dona da maior delas: R$ 43,68 bilhões de dívida líquida, quase metade do valor das dez empresas somadas, segundo dados compilados pela Bloomberg. A operadora de telefonia entrou na categoria “Caa1” pela Moody’s na terça-feira, e a perspectiva é negativa (na avaliação da Fitch, sua nota é ainda “B”).

    A Moody’s citou como uma das razões para o rebaixamento o fato de o fundo estrangeiro Letter One ter desistido de injetar US$ 4 bilhões na operadora depois de a concorrente TIM ter descartado o interesse em uma fusão entre as duas, no mês passado. Segundo os analistas Daniel Liberato e Felipe Silveira, da corretora Coinvalores, o problema da Oi é que a receita não é suficiente para dar conta, ao mesmo tempo, da alta demanda por investimentos do setor e de sua dívida. A operadora sofre com a dependência de telefonia e banda larga fixas (70% de sua receita) e com o fato de ter 78% da dívida denominada em moeda estrangeira. Só este ano, R$ 11,3 bilhões terão que ser amortizados.

    — Desde 2012, a Oi vem vendendo ativos, como torres de telefonia, mas isso lhe deu fôlego apenas momentâneo. O dinheiro levantado era usado para pagar dívida já vencendo — explica Liberato. — Seu rebaixamento é preocupante, porque encarece o custo da rolagem da dívida.

    Para os analistas da Coinvalores, a solução mais viável para evitar um calote seria a injeção de ao menos R$ 15 bilhões pelos acionistas, junto com a convocação de credores para renegociar débitos. Procurada, a Oi não comentou a reportagem.

    Usiminas: dívida curta e em dólar

    Chaminés da Usiminas em Ipatinga, no Vale do Aço – Leonardo Morais / Agência O Globo
     

     

    Também sofrem com elevado endividamento as siderúrgicas CSN e Usiminas. As duas têm nota “Caa1” pela Moody’s. Além da queda na demanda interna por aço, o setor tem sido afetado pela desaceleração da China, que consumia mais da metade do aço produzido no mundo. O ritmo menor nas obras de infraestrutura no país asiático fez com que parte da produção de aço chinesa passasse a ser exportada, derrubando os preços ao redor do mundo.

    Em janeiro, a Usiminas encerrou a produção de aço na unidade de Cubatão (SP), demitindo dois mil funcionários. No mesmo mês, a CSN paralisou um alto-forno em Volta Redonda (RJ) e demitiu 700 pessoas. A dívida líquida da CSN é de R$ 26 bilhões, mas a relação entre os débitos e a geração de caixa é menor que a da Usiminas, que tem dívida de R$ 5,84 bilhões. Segundo Lenon Borges, da corretora Ativa, com o atual geração de caixa da Usiminas, ela levaria 20 anos para quitar toda a sua dívida.

    — O perfil de dívida da Usiminas é muito ruim. A maior parte vence a curto prazo, e metade está indexada ao dólar. Da outra metade, 80% estão atrelados à taxa CDI, que acompanha os altos juros básicos — diz. — Um default (calote) ou o pedido de recuperação judicial são possibilidades reais.

    Procurada , a CSN não respondeu aos pedidos de comentários. Já a Usiminas disse que seu conselho avalia um plano de capitalização apresentado pela diretoria, além de “buscar o reperfilamento da dívida” junto aos bancos. A companhia disse ainda que pretende cortar pela metade o investimento este ano, que, em 2015, foi de R$ 784 milhões.

    Gol: custo em dólar, receita em real

    Avião da Gol decola do Santos Dumont – Dado Galdieri / Bloomberg News/31-3-2015

    A Gol está na categoria “CCC” (Fitch) e “Caa1” (Moody’s). A companhia vem sofrendo com a queda da demanda doméstica por voos, que recuou pelo sexto mês seguido em janeiro. Segundo a Moody’s, cerca de 90% de sua receita são em reais, enquanto 50% dos seus custos e 80% de sua dívida total estão em dólar. Com isso, a desvalorização do real impediu que a empresa se beneficiasse do barateamento dos combustíveis das aeronaves. Sua dívida líquida é de R$ 6,8 bilhões, segundo a Bloomberg, e a Fitch a incluiu na lista das dez empresas mais problemáticas da América Latina.

    Na semana passada, uma medida provisória elevou de 20% para 49% o limite de capital estrangeiro nas companhias aéreas nacionais. Como 9,48% da Gol pertencem à Delta, investidores especularam que a americana pode injetar dinheiro na companhia, melhorando a situação financeira. Os papéis da Gol disparam 45% na Bolsa na semana passada.

    A construtora PDG (“Caa3″ pela Moody’s) disse que “traçou plano estratégico para acelerar o processo de desalavancagem” e está em “negociação avançada com credores”. Segundo a empresa, ela reduziu a dívida líquida em R$ 1,4 bilhão desde 2013. Procuradas, Gol, USJ e General Shopping não comentaram. Cimento Tupi e Samarco não responderam. A MDL Realty informou que o rating atribuído pela Moody’s (“Caa1”) em junho teve como base números do fim de 2014 e “não reflete a atual situação”. Os dados de 2015 ainda estão sendo auditados. A MDL esclareceu que o endividamento “está dimensionado para o tamanho de suas operações, não havendo nenhuma dívida em aberto”.

    Firmas não conseguem captar no exterior

    Desmoronamento da barragem de Fundão, na mineradora Samarco, na cidade mineira de Mariana – Márcia Foletto / Agência O Globo

    Não bastasse a geração de caixa desidratada pela demanda fraca, as empresas brasileiras não estão conseguindo captar recursos no exterior nem rolar os débitos que estão vencendo. O aumento da percepção de risco refletido nos rebaixamentos das empresas faz com que credores estrangeiros exijam juros proibitivos para emprestar às corporações nacionais. Segundo Ricardo Carvalho, da Fitch, há seis meses nenhuma companhia nacional promove captações no exterior. No ano passado, as captações externas já haviam despencado 82% em relação a 2014, para US$ 8 bilhões, de acordo com dados da Anbima, associação que reúne instituições financeiras. Esse é um dos fatores que faz Carvalho acreditar que 2016 deve bater recordes de pedidos de recuperação judicial.

    — Há um grande mau humor com relação às empresas brasileiras com notas “B” para baixo. Assim, o que era péssimo em 2015 tende a ser tenebroso em 2016. Por isso, acreditamos que este ano deve ser aquele com maior nível de recuperação judicial — lamenta o diretor sênior da Fitch. — Hoje, há uma grande possibilidade de que as empresas que estão em categorias baixas de rating caiam ainda mais na escala.

    Carvalho estima que dez rebaixamentos devem ocorrer este ano para cada aumento de nota entre as empresas brasileiras. Em 2015, a relação já havia sido de 4,4 (31 downgrades contra sete upgrades), a maior de uma série iniciada em 2004. Hoje, a perspectiva da Fitch é negativa para 35 companhias e positiva para apenas quatro.

    Adeodato Volpi Netto, da Eleven Financial Research, lembra que, nos anos de bonança, as empresas se financiavam com facilidade no exterior. Entre 2010 e 2013, as corporações brasileiras levantaram US$ 181,2 bilhões lá fora.

    Reflexo do déficit público

    Agora, além de não captarem recursos novos, as companhias não estão conseguindo “rolar” suas dívidas lá fora na proporção que costumavam fazer. É praxe, em condições normais de mercado, que as empresas renovem os empréstimos que têm no exterior, em vez de quitar essas dívidas no vencimento.

    Segundo Luis Otavio Leal, do banco ABC Brasil, a taxa de rolagem da dívida externa das empresas brasileiras era de 116% no início de 2015. Ou seja, além de renovar toda a dívida que estava vencendo, tomavam mais recursos emprestados. Em janeiro deste ano, porém, a taxa caiu para 20%, com a entrada de apenas US$ 1 bilhão, contra uma saída de US$ 5 bilhões.

    Carvalho, da Fitch, lembra que o financiamento por meio dos bancos no Brasil também se mostra emperrado, com as instituições aumentando provisões contra calote e enxugando a oferta de crédito.

    O problema com o crédito corporativo não é exclusividade do Brasil. Com a derrocada das commodities afetando vários países produtores de materiais básicos, a Moody’s prevê que este ano os calotes de títulos por empresas avaliadas como de grau especulativo atingirão o maior nível desde 2009, auge da crise global. A agência estima que o calote atingirá 4% da base, contra taxa de 3,5% em 2015.

    Na opinião de James Gulbrandsen, sócio da NCH Capital no Brasil, as companhias também estão sendo punidas pelo descontrole fiscal do governo.

    — Todos os problemas deste país começam no gasto excessivo. Enquanto o governo não parar de imprimir dinheiro, a inflação continuará sendo pressionada e os juros terão de continuar altos — critica o americano baseado no Rio. — Se uma Usiminas ou uma CSN recorressem agora aos mercados externos para levantar capital, os juros seriam tão altos que poderiam levar à quebra dessas empresas.

     Fonte: O Globo

    Total de desempregados cresce 41,5% e atinge mais de 9 milhões

    Em um ano, taxa de setembro a novembro passa de 6,5% para 9%

    Com a carteira de trabalho nas mãos, mulher aguarda atendimento em agência de emprego em São Paulo – Paulo Fridman / Bloomberg

     O desemprego no país ficou em 9% entre setembro e novembro, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgados nesta sexta-feira pelo IBGE. É a maior taxa para o período desde o início da série histórica, em 2012, e se manteve no maior nível da pesquisa, que tinha sido registrado no trimestre encerrado em outubro. O índice, que inclui todos os estados brasileiros, acelerou fortemente frente ao mesmo período de 2014, quando o desemprego estava em 6,5%. Com isso, em um ano, o total de desocupados cresceu 41,5%, ao somar quase 3 milhões de pessoas a esse contingente, que já chega a 9,126 milhões de brasileiros com mais de 14 anos. É o maior contingente de desempregados desde o início da pesquisa.

    O resultado também subiu na comparação com o trimestre imediatamente anterior, de junho a agosto, quando a taxa foi de 8,7%. Já o rendimento real ficou em R$ 1.899, 0,7% a menos do que no trimestre encerrado em agosto.

    — O aumento do desemprego foi puxado pela expansão da população desocupada, ou seja, mais gente procurando trabalho. Mas também teve perda da população ocupada, redução de meio milhão de pessoas em um

    ano. Foi um movimento mais agressivo da população desocupada — apontou Cimar Azeredo, gerente da Coordenação de Trabalho do IBGE.

    Por outro lado, foi a primeira vez, depois de dez altas seguidas, na comparação com o trimestre encerrado no mês anterior, que a taxa ficou estável. A manutenção do desemprego em 9%, no entanto, não é uma notícia positiva. Nesta época do ano já começa a contratação de trabalhadores temporários para o período de Natal, mas ainda assim isso não se refletiu em recuo da taxa.

    — Já haveria uma expectativa de que a taxa cedesse a essa altura do ano por causa da entrada de trabalhadores temporários — afirmou Azeredo.

    O resultado ficou dentro da expectativa dos analistas. O banco Bradesco esperava que o desemprego ficasse em exatamente em 9%.

    MASSA DE RENDIMENTOS RECUA

    A população desocupada no país chegou a 9,1 milhões de pessoas, o que representa uma alta de 3,7% ou 323 mil pessoas a mais que no trimestre encerrado em agosto. Na comparação com um ano antes, o aumento foi de 2,7 milhões de pessoas, ou 41,5%.

    Já a população ocupada caiu 0,6% em relação a igual período de 2014, para 92,2 milhões de pessoas. Foram 533 mil pessoas a menos. Frente ao trimestre imediatamente anterior, ficou estável.

    A massa de rendimento dos trabalhadores ficou em R$ 169,9 bilhões, abaixo dos R$ 172,780 bilhões de igual período de 2014. Para Azeredo, este é o grande destaque da divulgação:

    — Tem menos dinheiro circulando no mercado porque teve queda do rendimento e redução de pessoas ocupadas. A massa de rendimentos volta ao trimestre encerrado em setembro de 2014.

    Os dados da pesquisa mostram ainda recuo do emprego formal. O número de empregados com carteira assinada ficou em 35,413 milhões, o que significa 1,114 milhão de trabalhadores a menos do que um ano antes, ou 3,1%. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, foram 126 mil pessoas a menos.

    Na avaliação de Azeredo, foi este recuo do emprego formal que empurrou as pessoas de volta à força de trabalho, ou seja, fez com que mais gente voltasse a buscar trabalho. Pessoas que não estavam trabalhando na família, como jovens, por exemplo, retomam a busca. Com isso, aumentou o número de desempregados.

    – Mais de um milhão de pessoas perdeu o emprego com carteira assinada em um ano. Essa carteira é a estabilidade. Com isso, tivemos uma corrida para a fila da desocupação – apontou o gerente do IBGE.

    MAIS PESSOAS POR CONTA PRÓPRIA

    Já o número de trabalhadores por conta própria avançou quase um milhão (969 mil pessoas) em um ano. Frente ao trimestre encerrado em agosto, foram 458 mil pessoas a mais ou 2,1%.

    Pela Pesquisa Mensal de Emprego — que engloba as seis principais regiões metropolitanas do país (Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Porto Alegre) —, a taxa de desemprego fechou em 6,8%, o maior nível desde 2009. Em 2014, a taxa ficou em 4,8%, o menor patamar da série histórica do IBGE, iniciada em 2002.

     

    O mercado de trabalho vem sentindo os efeitos da recessão na economia e a taxa de desemprego vem subindo. Cálculos divulgados ontem pelo Banco Central (BC) mostraram que a recessão brasileira é mais grave do que o imaginado. A economia encolheu 4,11% em 2015, segundo o Índice de Atividade Econômica da autoridade monetária (IBC-Br). Em dezembro, o recuo foi de 0,52% e o desempenho mensal ficou no negativo pelo décimo mês seguido — o maior período de retração desde que o BC passou a registrar os dados.

    Em um movimento contrário, o número de trabalhadores domésticos aumentou 3,8% no trimestre encerrado em novembro, para 6,230 milhões de pessoas, na comparação com um ano antes. O aumento é resultado das dificuldades de se encontrar oportunidades em outras áreas

    O IBGE vai divulgar na próxima sexta-feira, dia 26, os valores do rendimento domiciliar per capita dos estados. Os dados são usados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para atender a lei para cálculo de rateio do fundo de participação dos estados.

    Número de trabalhadores domésticos avança 3,8% em um ano, aponta IBGE

    Na contramão do emprego geral, aumento reflete menos oportunidades em outras áreas

    Cintia Agripina de Carvalho trabalha como empregada doméstica – Fabio Seixo/Agência O Globo/07-05-2015
     

    Em um movimento contrário ao recuo do emprego geral, o número de trabalhadores domésticos avançou 3,8% no trimestre encerrado em novembro, para 6,230 milhões de pessoas, na comparação com um ano antes. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) contínua mostram que existem 228 mil trabalhadores domésticos a mais

     

    O aumento é resultado das dificuldades de se encontrar oportunidades em outras áreas, como no comércio e em serviços, segundo o gerente de Coordenação de Trabalho do IBGE, Cimar Azeredo:

    — Com o avanço da educação e do trabalho nos últimos anos, o contingente dos trabalhadores domésticos vinha reduzindo. Eram trabalhadores que estavam migrando para outros setores. Só que agora as pessoas estão retornando a esse grupamento por falta de oportunidades em outras áreas.

    O recuo da renda das famílias, no entanto, tem pressionado para baixo o rendimento dos trabalhadores domésticos. Em um ano, a renda média desse grupo caiu 2,4% (R$ 18), para R$ 750.

    — Como o domicílio está com renda menor, também está pagando menos. Há uma negociação entre as famílias e o empregado, seja pelo número de horas de trabalho ou dias.

    Nesta sexta-feira, o IBGE divulgou que o desemprego no país ficou em 9% entre setembro e novembro, uma forte alta em relação a um ano antes, quando a taxa estava em 6,5%. Em um ano, o total de desocupados cresceu 41,5%, ao somar 2,7 milhões de pessoas a esse contingente, que já chega a 9,1 milhões de brasileiros com mais de 14 anos.

     

    Economia encolheu 4,1% em 2015 nas contas do BC

    IBC-Br, considerado uma prévia do PIB, recuou 0,52% em dezembro

    POR GABRIELA VALENTE

     / atualizado 
    Aluga-se: espaço comercial disponível em ano de crise – Dado Galdieri / Bloomberg News

    Os cálculos do Banco Central mostraram que a recessão brasileira é mais grave do que o imaginado. A economia encolheu nada menos que 4,11% no ano passado, segundo o Índice de Atividade Econômica da autoridade monetária (IBC-Br). Em dezembro, o recuo foi de 0,52% e o desempenho mensal ficou no negativo pelo décimo mês seguido — o maior período de retração desde que o BC passou a registrar os dados.

    O resultado anual — o mais baixo desde o início da série do BC, há 13 anos — foi pior que as expectativa dos analistas do mercado financeiro, que preveem uma retração de 3,8% em 2015. Essa é a aposta para o dado oficial do Produto Interno Bruto (PIB), que será divulgado pelo IBGE apenas no mês que vem. Ele é mais complexo que o índice do BC, que é considerado apenas um indicador antecedente e foi criado para ser uma referência do comportamento da atividade econômica que sirva para orientar a política de controle da inflação pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Se confirmada a projeção, será a primeira retração da economia em seis anos. E também a pior queda desde 1990, quando a atividade econômica no país encolheu 4,3%.

    Apesar das diferenças metodológicas, o IBC-Br traduz o que os dados setoriais têm revelado nos últimos meses: a crise é mais profunda do que o esperado. Esse foi o pior resultado desde o início da série histórica há 13 anos. E aumentou as apostas de que o resultado oficial ficará perto dos 4% de retração.

    “Os dados reforçam, assim, nossa expectativa de contração de cerca de 1,5% do PIB no último trimestre do ano passado, acumulando queda de 3,9% em 2015”, frisou o diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Octavio de Barros.

    O CRESCIMENTO DA ECONOMIA MEDIDO PELO BANCO CENTRAL

    O QUE É

    O Índice de Atividade Econômica do Banco Central – Brasil (IBC-Br) reflete a evolução da atividade econômica do país e baliza a elaboração da estratégia de política monetária. O BC leva em consideração o desempenho de varejo, agropecuária, indústria de transformação, extrativa, da construção civil e produção e distribuição de eletricidade, gás e água, esgoto e limpeza urbana

     

    Fonte: BC

    Tanto o IBC-Br quanto o PIB são indicadores que medem a atividade econômica, mas têm diferenças na metodologia. O indicador do BC leva em conta trajetória de variáveis consideradas como bons indicadores para o desempenho dos setores da economia (indústria, agropecuária e serviços).

    Já o PIB é calculado pelo IBGE a partir da soma dos bens e serviços produzidos na economia. Pelo lado da produção, considera-se a agropecuária, a indústria, os serviços, além dos impostos. Já pelo lado da demanda, são computados dados do consumo das famílias, consumo do governo e investimentos, além de exportações e importações.

    Fonte: O Globo

    Na contramão de gigantes, 22 bancos menores ficam no vermelho em 2015

    Instituições de pequeno porte sofrem com caixa limitado e pouca flexibilidade operacional

    A despeito dos lucros recordes de gigantes como Itaú e Bradesco, nem todo banco brasileiro passa ao largo da crise. A recessão estrangula os negócios de instituições financeiras de porte pequeno e médio, que têm carteiras de crédito concentradas em setores problemáticos da economia, pouca flexibilidade operacional e caixa limitado para buscar compensação lucrativa nos maiores juros dos últimos dez anos. Bancos com essas características são maioria entre as 22 instituições que, na contramão do mercado, tiveram prejuízo até o terceiro trimestre de 2015. Para analistas do setor, a crise do segmento já desperta interesse de instituições financeiras que buscam alvos de aquisição no país, o que poderia elevar a concentração bancária.

    Fachada de agência do HSBC. Institução está entre as que registraram perdas– ANDREW HARRER / BLOOMBERG NEWS

    Segundo os balancetes disponibilizados pelo Banco Central e compilados pelo GLOBO, essas instituições registraram, juntas, perda líquida de R$ 1,5 bilhão até o terceiro trimestre de 2015. Enquanto isso, os 71 bancos que deram lucro acumularam ganho coletivo de R$ 64,86 bilhões no período. Para 17 instituições, a situação é especialmente ruim, já que também sofreram prejuízo em 2014.

    Os dados do BC representam o desempenho dos conglomerados financeiros aos quais pertencem cada banco, excluindo operações entre participantes do mesmo grupo, dentro dos parâmetros do Plano Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional (Cosif). Nessa metodologia, em alguns casos, os números do BC não são exatamente os mesmos divulgados ao mercado pelos balanços financeiros dos bancos.

    INTERESSE DE ESTRANGEIROS

    Na avaliação de Ceres Lisboa, analista da agência de risco Moody’s, a crise desses bancos começou a se fazer notar em 2013, quando a economia demonstrava os primeiros sinais de fragilidade. Com a recessão instalada, os problemas de crédito dessas instituições ficaram mais óbvios, levando a perda de receita e aumento de provisões contra calotes.

    — Esses bancos têm sensibilidade a risco muito maior do que os grandes porque apresentam concentração elevada, seja com carteira dependente de um setor específico, seja com determinados tipos de operação — disse a analista.

    Os analistas da agência Fitch veem como inevitável a redefinição do modelos de negócio dos bancos brasileiros pequenos e médios. E isso, segundo eles, passará necessariamente por consolidação e parcerias estratégicas. Enquanto veem pouco fôlego para fusões entre os próprios bancos em crise, analistas creem que a saída será a venda para instituições estrangeiras.

    — Temos conversado com bancos estrangeiros e há interesse de operar no brasil. Os asiáticos talvez sejam os mais privilegiados, com “funding” maior. Os europeus estão diminuindo o apetite, porque, além da crise brasileira, há uma regulação mais rigorosa, que exige a segregação de atividades de banco de investimento e de varejo. O Deutsch fez uma reestruturação global e fechou a operação da América Latina. O Barclays fechou no Brasil — afirmou Claudio Gallina, diretor sênior da Fitch.

     

    O gigante francês Société Générale é um dos estrangeiros que mudaram o foco no Brasil. Em nota, a instituição esclareceu que, em fevereiro de 2015, decidiu focar em clientes corporativos e institucionais no país. Assim, saiu do segmento de crédito ao consumidor fechando duas subsidiárias, os bancos Cacique e Pecúnia. Segundo a nota, essa reestruturação explica o prejuízo de R$ 254,45 milhões até o terceiro trimestre. Para focar no segmento corporativo, o Société Générale aumentou seu capital em R$ 315 milhões.

    Gallina admite que o movimento de consolidação poderia levar a maior concentração no setor, mas descarta um acréscimo significativo.

    — Em termos de concentração, 85% dos ativos totais já estão nas mãos dos dez maiores bancos. Então isso já existe e esse número não deve mudar muito. É improvável haver novas fusões entre os grandes — acrescentou.

    O conglomerado do CCB Brasil (antigo BicBanco) é o que registra maior perda acumulada, segundo o BC: R$ 243,9 milhões. Em 2014, aliás, o banco já registrara o maior prejuízo dos bancos comerciais, de R$ 734,9 milhões. Focado em operações de crédito para o segmento middle market, o banco fechou capital na Bolsa em outubro, após ter sido comprado pelo China Construction Bank. Em julho de 2015, a agência Standard & Poor’s rebaixou o banco para grau especulativo citando a deterioração da economia e o “aumento nos empréstimos problemáticos do banco”, além da redução do seu portfólio de empréstimos por causa da reestruturação interna provocada pela venda.

    Segundo o último balanço do banco, as provisões para créditos de liquidação duvidosa totalizaram R$ 1,08 bilhão no fim do primeiro semestre de 2015, 75% mais que um ano antes.

    — O banco reduziu bastante a atividade de crédito ao mesmo tempo em que aumentou as provisões, atendendo à política mais rígida do banco chinês. Isso enquanto o banco praticamente parava, à espera do processo de mudança de controle — analisou Luis Santacreu, da Austin Rating. — Mas foi comprado por um dos maiores bancos do mundo, mudou a marca, tornou-se parte de um grupo com avaliação de risco internacional e capacidade financeira para aguentar essas provisões.

    Outra situação difícil é a do paulista Fibra, que ruma para fechar 2015 como o sexto ano seguido de prejuízo líquido, totalizando perda superior a R$ 1,2 bilhão desde 2010. De acordo com o último balanço do banco, a família Steinbruch — que controla a instituição e também a combalida siderúrgica CSN — aportou R$ 50 milhões no Fibra.

    No fim de 2015, o Fibra foi rebaixado por Moody’s e S&P, que citaram piora na qualidade do crédito e aumento no provisionamento. Entre janeiro e setembro, o Fibra perdeu R$ 240,9 milhões.

    — O banco teve um problema relacionado à atividade de varejo. Entrou no mercado de crédito consignado e de financiamento de veículo, mas não foi feliz por causa de inadimplência. Resolveu desmontar essas operações, mas são operações de três anos, por exemplo, e a inadimplência acaba batendo — observou Santacreu.

    O HSBC não comentou a reportagem por causa do período de silêncio em razão da divulgação do balanço. Procurados, os bancos CCB Brasil, Fibra e Arbi não quiseram comentar. Não responderam ao contato do GLOBO o Banco da China (Brasil), o Novo Banco Continental, o BPN Brasil, o Banco de la Nación Argentina e o Capital. O GLOBO não conseguiu contato com responsáveis dos bancos Ficsa e Cédula nos telefones das matrizes.

    Fonte: O Globo

    A indústria automotiva está no chão. No pior momento dos últimos 25 anos, o setor está com metade das linhas de produção parada. As montadoras têm capacidade de produzir até 5 milhões de veículos por ano. A situação deve piorar em 2016. Pelas previsões, será o quarto ano seguido de queda nas vendas, e o uso da capacidade deve ficar abaixo de 50%. Nem entre 1998 e 1999, quando o real desvalorizou 53% devido a choques externos, a indústria operou em nível tão baixo. O recuo no setor automotivo contaminou outros ramos, que estão usando até 60% de capacidade, como máquinas e equipamentos (58%), metalurgia (60%), produtos de metal (54%) e outros equipamentos de transporte (59%), de acordo com levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Juntamente com o setor automotivo, eles representam um quarto da indústria brasileira. Somente a cadeia do automóvel responde por 23% do PIB industrial e 5% da economia.

    — São setores diretamente relacionados à indústria automotiva que lideram a queda, associada à crise do investimento. Esses setores estão muito ociosos porque o resto da indústria não está investindo — disse Rafael Cagnin, economista do Iedi.

    Rodrigo Baggi, economista da Tendências Consultoria, afirma que a indústria automotiva não sofre revés tão forte desde 1990. O momento só é comparável ao fim daquela década.

    — Como naquela época, houve investimento seguido de choques, que provocaram depreciação cambial, afetando o poder de compra das famílias.

    ‘CÂMBIO NÃO É VARINHA MÁGICA’

    Segundo Baggi, no mais recente período de expansão, entre 2004 e 2012, o mercado de automóveis cresceu 11% ao ano, impulsionado também pelos incentivos fiscais, depois da crise global de 2008. De 2009 a 2014, foram mais de R$ 16 bilhões de desonerações, somente com o corte de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI):

    — O pico de produção de 1997 só foi retomado em 2007. Quando a indústria começar a se recuperar, deve levar de dez a 15 anos para voltar ao nível recorde de 2012. As vendas devem despencar 19,5% este ano. Depois de já terem recuado 23% em 2015.

    Para Raphael Galante, consultor do mercado automotivo, da Consultoria Oikonomia, além da recessão, o setor chegou ao CTI por se voltar apenas ao mercado interno. Em 2014, a balança comercial do setor, incluindo autopeças foi negativa em US$ 12 bilhões. O país exportou naquele ano 359 mil unidades (inclusive ônibus e caminhões), queda de 59% em relação a 2005, quando o país exportou 897 mil unidades.

    — Fabricamos veículos globais, como o Focus, da Ford. Nos últimos anos, as montadoras não se preocuparam em prospectar mercados, depois dos problemas na Argentina. Agora, numa época de baixa do setor, as exportações poderiam ajudar as fábricas. Mas isso não acontece da noite para o dia, e leva-se ao menos dois anos para começar uma operação de exportação.

    O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, afirma que o setor está dimensionado para produzir entre 4,8 milhões e 5 milhões de unidades ao ano, mas atualmente produz 2,5 milhões de veículos. Em condições normais, o uso alcança perto de 70% da capacidade:

    — Todo o investimento foi feito projetando um mercado de 5 milhões de veículos. Atualmente, o nível de produção recuou a 2006, enquanto o emprego equivale ao de 2010.

    Moan diz que a paralisação das linhas de produção também está acontecendo com os fornecedores de autopeças que dimensionam a produção à demanda do parque automotivo:

    — Quando a economia se recuperar, as vendas voltam. Não estamos cancelando investimentos. Há R$ 82 bilhões entre 2012 e 2018 de investimentos que estão mantidos. Começamos 2016 com a Nissan anunciando injeção de R$ 750 milhões na fábrica de Resende (RJ) e a Toyota, de R$ 30 milhões em Sorocaba (SP).

    EXPORTAÇÃO PODE AJUDAR

    Moan aposta também na exportação, com a valorização do dólar. Ele estima alta de 8% nas vendas externas para México, Argentina, Colômbia e Uruguai, países africanos e Europa.

    Flávio Castelo Branco, gerente-executivo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), alerta que o caminho não é tão fácil assim de trilhar:

    — O Poder Público está sem capacidade para dar estímulo. Tem que olhar para fora, para o mercado externo. Mas o câmbio não é a varinha mágica do Mago Merlin. Voltar ao mercado não é trivial.

    Baggi acredita que o próprio mercado interno é a solução mais para frente. O Brasil ainda tem muita gente sem carro, mesmo comparando com países de mesmo perfil como México e Argentina. Atualmente, dois em cada dez brasileiros têm carro. Nos Estados Unidos são oito, no México e Europa Oriental entre três a quatro em cada dez.

    — A recuperação das vendas virá das cidades médias. Nas capitais, o mercado está estacionado há muito tempo. No Nordeste, em algumas regiões, há um habitante com carro para cada dez. Há um potencial enorme ainda a ser explorado.

    O caminho do exterior, facilitado pela valorização do dólar, pode ser bloqueado diante da revolução tecnológica que vive o setor, com carros inteligentes, híbridos e elétricos. Revolução que não chegou às indústrias por aqui.

    — O futuro da indústria automobilística exige cada vez mais tecnologia embarcada e veículos menores e não poluentes. As cidades não sustentam essa quantidade de carros que entram todo o ano. Não é o que acontece no Brasil. Há altíssima capacidade instalada de produção, jogando cada vez mais veículos baratos no mercado — afirmou Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Logística e Infraestrutura da Fundação Dom Cabral.

    Ele diz que não há política de substituição de frota, estimada em 40 milhões, com inspeção veicular:

    — O novo vira seminovo, seminovo vira usado e usado vira velho e todos eles convivem no mesmo espaço. A mesma coisa com os caminhões. É uma história de acidentes e mortes. Somos o país que mais mata caminhoneiros no mundo. São 9 mil por ano. Sem contar com as 50 mil mortes no trânsito. É uma guerra. A maioria morre em colisões frontais, de pistas simples, em carros sem airbag.

    Para Galante, da Oikonomia, embora a fabricação de carros elétricos seja uma alternativa para garantir o futuro, ela só deve começar em escala daqui a uma geração.

    José Velloso Dias Carneiro, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), diz que nem na crise da dívida externa, com hiperinflação, no início dos anos 1980, o uso da capacidade instalada foi tão baixo.

     

    — Nem no (governo de Fernando) Collor, com hiperinflação, nem no calote de (José) Sarney, a utilização foi tão baixa. Outra medida da crise é a carteira de pedidos que está em 2,4 meses. Isso é inimaginável para indústria de máquinas e equipamentos, que pode levar até dois anos para entregar uma máquina. É muito grave.

    A utilização de capacidade da indústria geral está em 66% quando se olha as grandes empresas e baixa para 58% quando se inclui as pequenas. Normalmente, a ociosidade é de 20% e não de 40% como agora. O setor caminha para o terceiro ano seguido de queda na produção. Ano passado, recuou 14% e deve cair mais 9% este ano.

    — E ainda querem taxar a importação de aço, aumentando mais os custos — diz Velloso.

    Fonte: O Globo

    Carga tributária alcança R$ 2 trilhões em 2015, novo recorde

    Marca foi registrada pelo Impostômetro em 30/12/15

    O impostômetro atinge marca de R$ 2 trilhões na arrecadação de impostos – Marcos Alves / Agência O Globo

    O total de impostos e tributos pagos por cidadãos e empresas no país ultrapassou os R$ 2 trilhões, de acordo com o Impostômetro, sistema criado pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP) em parceria com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT). A marca de R$ 2 trilhões foi alcançada na manhã desta quarta-feira é o maior valor desde a implantação do Imostômetro, em 2005. Em 2014, o sistema registrara a arrecadação de R$ 1,95 trilhão.

    De acordo com o IBPT, os tributos federais respondem por 65% da arrecadação, ao passo que os estaduais equivalem a 28,47% e o municipaís, 5,58%. Individualmente, contudo, o tributo com maior arrecadação é o ICMS (19,86%), cobrado pelos estados, seguido do INSS (19,18%), Imposto de Renda (15,62%) e Cofins (10,13%).

    Para Alencar Burti, presidente da ACSP, a crise fiscal por que passa toda a administração pública (federal, estadual e municipal) evidencia a ineficiência da aplicação dos recursos arrecadados. “Se fossem mais bem aplicados, os R$ 2 trilhões em tributos pagos pelas empresas e cidadãos seriam mais que suficientes para atender às necessidades dos brasileiros”, diz Burti, em comunicado, lembrando que o Impostômetro foi criado com a finalidade de informar os cidadão sobre o peso dos tributos e incentivá-los a exigir dos governos (federal, estaduais e municipais) serviços de qualidade.

    Por isso, acrescenta o dirigente, é imprescindível uma reforma tributária no país. “Reforma que só poderá ser feita se houver solução satisfatória para a crise política, com a urgência que o país requer”, completa o dirigente.

    Fonte: O Globo

    Brasil ainda cria oportunidades de empregos: saiba onde estão as vagas

    Pela alta rotatividade, vagas operacionais podem ser as mais fartas no mercado. No entanto, a disputa por elas está se acirrando

    Carlos Moura/CB/D.A PressA proprietária de um salão de beleza, Priscilla (ao centro), com a equipe: Géssica e Jaqueline (à frente) foram contratadas recentemente
    Tanto para quem busca o primeiro emprego quanto para quem quer se recolocar, o cenário é frustrante. No terceiro trimestre de 2015, o índice de desemprego subiu para 8,9%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No caso dos jovens de 18 a 24 anos, a taxa é de 19,7%. No entanto, especialistas garantem que a recessão não é sinônimo de conjuntura estática, e as vagas existem — em todas as vagas. Em alguns ramos, porém, podem ser mais fartas.Professor de cenários econômicos e macroeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Mauro Rochlin aponta que o mercado continua dinâmico. “Há fechamento e abertura de vagas em todo momento — só que, nos últimos 18 meses, o número de encerramentos foi bem maior”, pondera. Segundo Rochlin, a tendência é que empresas ligadas à exportação — que podem ser de vários setores, como automóveis, soja e aço — demandem mais diversos tipos de profissionais porque o dólar em alta torna o setor mais competitivo. “Fazendo um corte por setor, nenhum abre mais do que fecha no momento. No entanto, algumas empresas estão em situação melhor que outras”, diz.“Há mais desemprego e menos vagas que o normal, mas os setores são afetados pela crise de manerias distintas. Alguns — como o automotivo — sofrem mais. Crescimento e contratações, porém, dependem muito da postura da empresa: se ela é agressiva e vê a crise como oportunidade pode contratar em vez de demitir”, aponta Ana Seraceni, estrategista de carreira da Comserventia. Coordenadora de recursos humanos da OD&M Consulting, Andréia Melo, acredita que as ofertas de trabalho estão diminuindo no geral e afirma que “a alta rotatividade dos profissionais operacionais faz com que oportunidades do tipo sejam constantes e representem a maior fatia disponível no mercado.”

    Radiografia do emprego
    Segundo a 8ª edição do guia salarial da Robert Half, divulgado na semana passada, as empresas estão se adequando ao cenário de menor crescimento e buscam eficiência. Nesse contexto, profissionais capazes de alcançarem bons resultados em situações adversas são mais valorizados. A expectativa é que não haja significativa expansão de vagas em 2016. Uma coisa é certa para as contratações futuras: serão mais rigorosas. É o que aponta Fernando Mantovani, diretor de Operações da empresa no Brasil. “Pessoas morrem, se aposentam, e incompetentes são demitidos. Tem empresa mandando embora dois para contratar um. Vagas de trabalho existem sim, mesmo que apenas de reposição. A questão é que, quando o mercado está crescendo, contrata-se mais e não há tantos critérios na busca. Em momento de crise, a situação muda”, decreta.

    “Empresas de exportação estão crescendo por causa da alta do dólar e podem contratar profissionais de diversas áreas. Instituições automotivas estão produzindo menos carros e podem tentar recuperar rendimento contratando bons profissionais. Há muito mais movimento numa exportadora do que numa firma do setor automotivo, mas pode ser que as duas contratem”, exemplifica. Segundo ele, é difícil indicar carreiras específicas que devem contratar mais em 2016, mas, entre essas, ele destaca a área jurídica societária e a comercial em startups.

    Cenário comercial
    “Setores de essencialidades — como supermercados, farmácias, postos de combustíveis — continuam e vão continuar contratando”, garante o presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Distrito Federal (Fecomércio-DF), Adelmir Santana. O comércio do DF teve queda de -0,23% nas vendas em outubro na comparação com setembro. O setor de serviços apresentou decréscimo de -0,11%. No comércio, os segmentos com maior alta nas vendas foram: tecidos (13,49%) e floriculturas (8,86%); tiveram queda bares, restaurantes e lanchonetes (-2,59%) e material de construção (-1,86%), por exemplo. No setor de serviços, alguns dos que apresentaram crescimento são casa de eventos (12,29%), aluguel de artigos para festas (9,41%), clínica de estética (1,85%) e salão de beleza (0,92%).

    Entre os segmentos em baixa e que não devem contratar, Cyndia Bressan, mestre em psicologia do trabalho, coordenadora do MBA em gestão de pessoas por competências, indicadores e resultados do Instituto de Pós-Graduação e Graduação (Ipog), destaca o de restaurantes. Em contrapartida, o ramo de entrega de comida tem crescido: é o que aponta a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). O nicho deve movimentar R$ 9 bilhões até o fim do ano, R$ 1 bilhão a mais que 2014. Diferentemente de restaurantes, a opção elimina custos, como o de transporte. “Em fim de ano, há demanda por setores de festa e estética”, diz Cyndya Bressan — conclusão reiterada pelos números da Fecomércio. Sobre o mercado de beleza — incluindo salões, lojas e até cirurgias plásticas —, ela percebe que esse continuará efetivando mão de obra. “As pessoas economizam, mas não deixam de fazer exceções em prol da autoestima”, diz.

    Priscilla Amaral, 31 anos, proprietária do salão de beleza Zug Hair, localizado no Lago Sul, percebe os bons ventos. Durante a crise, o número de clientes até aumentou. Nos últimos dois meses, ela contratou duas novas empregadas — uma em vaga de reposição e outra em nova oportunidade. “As pessoas não deixam de vir, no máximo param de procurar atendimentos para tarefas que conseguem fazer sozinhas, como manicure e escova”, observa. Entre as novas aquisições do Zug Hair, está a cabeleireira Géssica Luzia Carvalho, 24. “Saí do antigo salão em que eu trabalhava porque o movimento estava fraco. Fiquei dois meses em casa para resolver problemas pessoais e fui indicada para a vaga.” Jaqueline Alves, 21, entrou para trabalhar como manicure. “Demorei duas semanas para encontrar trabalho depois de ter saído do meu antigo emprego. Não me preocupei com a crise porque percebo que não falta emprego na área”, comemora.

    Educação deficiente, burocracia e corrupção derrubam produtividade

    O Brasil ocupa as piores posições em rankings internacionais que medem a capacidade de produzir mais e melhor com menos recursos.

    Quando o assunto é competitividade — capacidade de produzir mais e melhor com menos recursos —, o Brasil ocupa as piores posições nos rankings internacionais. No Índice de Competitividade do Talento Global, que mede a qualidade do capital humano, o país está em 49° lugar entre 93 países. Na produtividade por trabalhador, fica ainda mais abaixo, na 64ª posição. As razões para essas disparidades, dizem especialistas, são educação deficiente ou inapropriada para o mercado de trabalho, alto índice de analfabetismo, queda dramática nos investimentos e excesso de burocracia, além da nódoa cultural da corrupção, do jeitinho brasileiro e do desinteresse do próprio funcionário em melhorar sua condição.

    “Tudo converge para a educação. Começa na capacitação”, resume Luiz Gonzaga Bertelli, presidente dos conselhos diretor e de administração do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE). Há, destaca, um pernicioso e intencional afastamento da tecnologia de ponta, resultado de um problema que se tornou endêmico no país: o temor da matemática por jovens e adultos. “Uma sociedade sem bons conhecimentos matemáticos é pouco competitiva no mercado internacional”.

    Bertelli lembra que estudo encomendado pelo Instituto Círculo da Matemática aponta que 75% das pessoas pesquisadas, em 25 cidades, não sabem calcular média simples, 63% não conseguem responder a perguntas sobre percentuais, 75% não entendem frações e 69% não fazem contas com taxas de juros. “A matemática é a base para a engenharia. Quanto mais um país cresce, mais precisa de profissionais dessa área. Mas temos problemas piores: 25% da população é analfabeta, outros 25% não entendem o que leem, além de milhões que cultivam a ignorância desejada, isto é, são alienados”, lamenta.

    Fonte: correioweb

    Mais de cem mil devem perder emprego em grandes obras

    Construção sofre efeitos de ajuste e da Petrobras. Belo Monte demitirá 12 mil até 2016

      Mais de cem mil trabalhadores devem ser demitidos das obras de infraestrutura daqui até o fim do ano, estima a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), somando 180 mil em 2015. Somente de janeiro a setembro, foram 79.131 demissões. Quando se inclui nessa conta a construção de edifícios, o total chega a 222.711. O setor está em crise, e todos os impulsos para a atividade avançar foram anulados, dizem especialistas. As demissões normalmente são concentradas no último trimestre. No início do ano, costumam acontecer as contratações, mas não foi o que ocorreu desta vez, diz José Carlos Martins, presidente da Cbic. Sem novos ciclos de investimento à vista e com grandes obras no fim ou em ritmo mais lento, a crise no setor se agravou. Operários da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará, estão sendo demitidos em razão da conclusão de etapas da obra. Em Pernambuco, cerca de 40 mil perderam o emprego em 2014 com a paralisação dos trabalhos da refinaria de Abreu e Lima e não houve como absorver essa mão de obra. No Rio, o Comperj praticamente parou.

    Dissídio: assembleia de operários de Belo Monte na semana passada: preparação de pauta de reivindicações – Divulgação / Divulgação

    — A restrição fiscal nos estados e municípios fez parar tudo. Não tem um centavo para aplicar. Não temos expectativa de quando isso vai mudar — diz Martins, que calcula um total de 530 mil empregos cortados na construção civil este ano, incluindo obras de infraestrutura, construção de edifícios e serviços especializados.

     

    O ajuste fiscal no governo federal e nos estados e municípios abateu a indústria da construção pesada, já afetada pelo corte de mais de 30% nos investimentos da Petrobras e pela Operação Lava-Jato, que paralisou ou fez andar mais devagar obras de grandes empreiteiras do país e seus fornecedores.

    — É um quadro bastante ruim e, particularmente ruim na infraestrutura, por um conjunto de fatores. Na Região Norte, o emprego caiu 19,06% este ano (até setembro) já por causa das demissões em Belo Monte. E vai piorar quando essa desmobilização for completa. Como não houve licitação para as obras para o complexo hidrelétrico do Rio Tapajós, o impacto vai ser forte na região — afirma Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da construção do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

    Em Altamira, o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Construção Pesada do do Pará já não dá conta das homologações das dispensas no canteiro de Belo Monte. Acertou com o consórcio construtor a demissão de 50 trabalhadores por dia, mas o número vem crescendo. Em agosto, foram 1.749 demissões. De acordo com cronograma enviado ao Ministério Público do Trabalho (MPT) pelo consórcio construtor da usina de Belo Monte, formado por Camargo Corrêa, Odebrecht e Andrade Gutierrez, serão demitidos 12 mil trabalhadores de outubro a fevereiro do ano que vem. Em abril, o canteiro abrigava 31.800 trabalhadores. Em fevereiro, serão 13.100.

    O temor dos procuradores do Trabalho é que esses trabalhadores, sem conseguir outra obra, fiquem na cidade sem condições de voltar para seus locais de origem. Muitos, para conseguir a vaga na construção da hidrelétrica, disseram que moravam em cidades próximas — os contratantes preferiam trabalhadores da região — e ficaram sem receber a “baixada” (direito a transporte e tempo para ver a família).

    — A cidade de Altamira poderia receber milhares de trabalhadores de uma só vez, o que poderia gerar uma situação de confusão na cidade. Por esta razão, o consórcio comprometeu-se a garantir o transporte dos trabalhadores partindo diretamente dos canteiros de obras, sem a necessidade de passarem pelo terminal rodoviário, com vistas a garantir a tranquilidade neste momento — afirma o procurador Erik de Oliveira.

    O vice-presidente do sindicato dos trabalhadores, Roginel Gobbo, diz que os operários voltam para suas cidades por conta própria, com raras exceções.

     

    REGIÃO NÃO CONSEGUIRÁ ABSORVER OPERÁRIOS

    Ele diz ainda que as medidas recomendadas pelo MPT consideram que não haverá, a princípio, como absorver esse pessoal na região de Belo Monte (Altamira e Vitória do Xingu), pela própria singularidade de tais locais, nem mesmo para a operação de Belo Monte, que exigirá pessoal especializado e de formação diversa desses trabalhadores.

    Grande parte dos trabalhadores de Belo Monte veio de Rondônia, depois que acabaram as obras nas duas hidrelétricas do Rio Madeira — Jirau e Santo Antônio — também nas mãos das construtoras que hoje sobem as barreiras no Rio Xingu. A construção do complexo no Rio Tapajós não saiu do papel e, portanto, não vai absorver essa mão de obra desligada dos canteiros de Belo Monte.

    — Vieram equipes inteiras para Belo Monte. Há alguma obra no Pará que pode absorver, mas a expectativa era que eles fossem deslocados para Itaituba (Tapajós) — diz Roginel Gobbo, vice-presidente do sindicato dos trabalhadores .

    Alguns estão sendo aproveitados na próxima etapa da obra, a montagem dos equipamentos. Mas a demanda é bem menor: 4.500 na obra inteira. O Consórcio Construtor Belo Monte afirmou que não faria comentários sobre as demissões.

    ‘Mais de 10 mil trabalhadores ficaram sem receber salário na refinaria de Abreu e Lima’

    – DÉBORA TITOProcuradora do Trabalho

    Também no Pará, as obras em Canaã do Carajás, o maior projeto de mineração da Vale, já estão no auge, com 32 mil operários trabalhando na construção da ferrovia (13 mil), do porto (4 mil) e da mina e da usina (15 mil). Segundo a empresa, a mina começa a operar no segundo semestre do ano que vem, mas as obras da ferrovia vão até 2018. Essas obras não vão abrir mais vagas na construção civil. Gobbo, do sindicato, diz porém que, no caso da Vale, sempre tem obra em Parauapebas, mas não o suficiente para absorver toda a mão de obra que deixará Belo Monte.

    Outra grande obra de infraestrutura foi atingida duramente pela Operação Lava-Jato: a da Refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco. Somente no ano passado foram 30 mil demitidos. A desmobilização era esperada, segundo a procuradora do Trabalho do estado Débora Tito. Eles criaram um fórum juntamente com o governo do estado para tentar realocar esses operários que, em sua maioria (58%), eram de Pernambuco. Mas a Operação Lava-Jato, com o bloqueio dos recursos da Petrobras para determinados fornecedores, obrigou os procuradores a mudarem a direção dos trabalhos: passaram a lutar pelo pagamento de indenizações.

    — Mais de 10 mil trabalhadores ficaram sem receber salário. Foram 42 mil contratações para a construção de Abreu Lima e foram mantidos apenas 30% desse quadro. Uma empresa ainda tem dívidas trabalhistas de R$ 75 milhões no estado — diz Debora.

    Agora a situação começa melhorar na região, com a construção de uma petroquímica, que está contratando operários. Mas novos problemas começam a surgir.

    — Recebemos denúncia do sindicato de que há pessoas, agenciadores, vendendo vagas de emprego por R$ 4.000. Com a massa de demissões que houve, há muito mais gente desempregada do que postos oferecidos — afirma a procuradora do Trabalho.

     

    CONSTRUÇÃO EM QUEDA DESDE 2014

    A construção civil vive uma das suas piores crises nos últimos anos. Nas Contas Nacionais, o setor vem em queda desde o segundo trimestre de 2014 na comparação com o ano anterior. Já caiu 4,7% nos últimos quatro trimestres, um recuo bem mais acentuado do que o da média da economia, que caiu 1,2%. Essa retração do setor é mais aprofundada com o pessimismo que se instalou, principalmente entre os que tocam obras de infraestrutura. A Sondagem da Construção que a FGV divulgou na última semana mostra a confiança do setor no seu mais baixo patamar desde 2010. Na composição do índice, os empresários de infraestrutura são os mais pessimistas. Nesse grupo, a queda na confiança foi de 5,5%, contra 3,9% na média, e de 1,9% na construção predial. E a piora foi rápida. Até agosto, os empresários até melhoraram a percepção da situação atual, mas, em setembro e outubro, o pessimismo dominou: queda de 10% em setembro e de 5,5% em outubro.

    A situação do emprego também é pior na infraestrutura. No ano, até agosto, a ocupação caiu 13,7% contra 9,6% da média da construção.

    Outro setor da construção que poderia absorver esses trabalhadores também sofre com a crise econômica. Com o ajuste fiscal, diminuiu a verba para o programa Minha Casa Minha Vida, os recursos da Caixa Econômica Federal para financiamentos habitacionais estão mais escassos e a demanda recua mais ainda com o emprego e o salário em queda em todas as atividades. Este ano, o setor de edificações já demitiu 115 mil trabalhadores.

    Fonte: O Globo

    Inflação no DF chega a ser o triplo da média nacional

    Em Brasília, preços de mercadorias e serviços sobem, em outubro, quase o triplo do que no resto do país. Boa parte da alta é provocada por reajustes de serviços públicos, como passagens de ônibus e de metrô, além da elevação de tributos

    Tamara Paiva diz que está assustada com os preços na cidade: “Tudo subiu”

    A inflação tem subido sem dó no Brasil inteiro. Mas, em Brasília, a população tem pagado mais do que em qualquer outro lugar pelos produtos e serviços que consome. De acordo com o o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice de Preços ao Consumidor Amplo medido entre 16 de setembro e 15 de outubro (IPCA-15) aumentou 0,66% no país. Em Brasília, foi o dobro: 1,28%. O mesmo ocorreu com o Índice de Preços ao Consumidor—Semanal (IPC-S), da Fundação Getulio Vargas. Pelo indicador, a carestia nacional registrou alta de 0,67% na terceira quadrissemana de outubro, mas na capital federal o salto foi quase três vezes maior: 1,79%.

    Pelos dados do IPC-S, o que mais tem contribuído para o aumento da carestia no Distrito Federal é o arrocho nos preços da tarifas públicas: a passagem de ônibus urbanos subiu 18,33%, e a conta de luz teve alta de 7,61%. No ano, os bilhetes de ônibus já aumentaram entre 20% e 50% dentro do pacote de reajustes promovido pelo governo local. As passagens do metrô ficaram 33% mais caras. Cigarros e bebidas subiram por causa da elevação do ICMS de 25% para 29%. E a alta nos combustíveis aplicada pela Petrobras nas refinarias foi repassada integralmente aos consumidores pelos donos dos postos de gasolina da cidade.

    Outra bomba está prometida para janeiro no quesito impostos. O governo distrital já anunciou que IPTU, IPVA e ICMS de combustíveis vão subir. Em Brasília, também se paga mais do que em qualquer outro lugar por serviços de internet e de tevê por assinatura, e um aumento de até 15% só de ICMS está previsto nos pacotes dos clientes. Só com a elevação dos impostos desses serviços, o GDF espera uma receita extra de R$ 52 milhões para cobrir rombos no orçamento. A conta dos desajustes, como sempre, é paga pelo consumidor.

    Transportes
    Para Nilton Marques, ex-coordenador do Núcleo de Análise de Preços da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), a inflação na capital subiu acima da média principalmente pela alta generalizada das tarifas. Ele explica, no entanto, que também pesa muito o fato de a capital ser um hub (entroncamento) aéreo. “Dentro do grupo transportes, os preços das passagens aéreas têm impacto enorme na economia da cidade porque a maioria dos produtos vem de outros estados, por avião ou por rodovia. Nessa conta, entra ainda a gasolina, que já acumula alta de, pelo menos, 15% este ano”, explica. “Não temos indústrias. Desde carros até alimentos, tudo vem de fora”, destacou.

    Marques ainda salientou que o aumento de preços dos serviços públicos e dos produtos em geral também chega à moradia. “Os aluguéis em Brasília estão entre os mais altos do país.” Segundo o Sindicato dos Condomínios (Sindicondomínio-DF), os boletos dos moradores tiveram elevação média de 12% em 2015. A alta foi puxada principalmente pela contas de energia elétrica e de água.

    A fisioterapeuta Tamara Paiva, 28, está assustada com os preços praticados na cidade. Ela veio há três anos de São Gonçalo do Sapucaí, no sul de Minas, e, até hoje, não se acostumou. “Minha mãe, quando me visita, fica inconformada. Ela diz que os comerciantes daqui pensam que todo mundo é político”, contou. Tamara reclama que, neste ano, os preços dispararam. “Tudo subiu: alimentação, combustível, produtos de limpeza, luz, água, internet, telefone. Já reduzi quantidades, troquei de marca, mas está difícil diminuir os custos. Minha vida social também não existe mais. Restaurantes, só uma vez por mês”, afirmou.

    Tamara diz que veio morar em Brasília porque arrumou emprego com salário quatro vezes maior do que ganhava em São Paulo. “Na minha cidade, em Minas, no Sudeste todo, a minha profissão está saturada. Aqui é um bom campo”, constatou. A questão dos salários é destacada por Marques como um dos fatores determinantes da inflação mais alta na cidade. “As pessoas pagam. O DF tem a maior renda per capita do país. O setor público ganha muito bem e puxa o setor privado”, avaliou.

    No entanto, a vida não está fácil mesmopara quem trabalha ou é aposentado do serviço público. Paulo Furtado, 72 anos e a mulher, Antonia Furtado, disseram que já não têm ideia de quanto gastavam no mês passado. “Perdemos as contas. Sempre procuramos o mais barato. Se não fosse a aposentadoria integral, não teríamos como viver”, asseguraram, enquanto faziam compras num supermercado do Cruzeiro.

    Já o servidor Alexandre Magno avalia que a inflação vem dos desmandos políticos e da alta do dólar. “A carne subiu 100% desde o ano passado. A crise chegou para todo mundo. Os políticos tratam o dinheiro dos nossos impostos como se fosse deles. As contas públicas não são transparentes, não tem fiscalização”, indignou-se.

    Recessão devolve 3,3 milhões de famílias à classe D/E, diz estudo

    Eles começaram a ter acesso a produtos e serviços que antes não cabiam no bolso, mas começam a fazer o caminho de volta.

    A recessão derrubou parte da nova classe média, a população da classe C, para a base da pirâmide social. Entre 2006 e 2012, no boom do consumo, 3,3 milhões de famílias subiram um degrau, das classes D/E para a classe C, segundo um estudo da Tendências Consultoria Integrada. Eles começaram a ter acesso a produtos e serviços que antes não cabiam no seu bolso, como plano de saúde, ensino superior e carro zero. Agora, afetadas pelo aumento do desemprego e da inflação, essas famílias começam a fazer o caminho de volta.

    De 2015 a 2017, 3,1 milhões de famílias da classe C, ou cerca de 10 milhões de pessoas, devem cair e engordar a classe D/E, aponta o estudo. “A mobilidade que houve em sete anos (de 2006 a 2012) deve ser praticamente anulada em três (de 2015 a 2017). Estamos vivendo, infelizmente, o advento da ex-nova classe C”, diz o economista Adriano Pitoli, sócio da consultoria e responsável pelo estudo.

    Para projetar esse número, Pitoli considerou que, entre 2015 e 2017, a economia deve recuar 0,7% ao ano; a massa real de rendimentos, que inclui renda do trabalho, Previdência e Bolsa Família, vai cair 1,2% ao ano, e o desemprego deve dar um salto, atingindo 9,3% da população em idade de trabalhar em dezembro de 2017 – o maior nível em 13 anos. Segundo o estudo, a classe C é formada por famílias com renda mensal entre R$ 1.958 e R$ 4.720 e a classe D/E por aquelas com rendimento mensal de até R$1.957

    “É a primeira queda da classe C em número de famílias desde 2003 e o primeiro ano de crescimento expressivo da classe D/E”, diz Pitoli. Só neste ano, a classe D/E vai ser ampliada em cerca de 1,5 milhão de famílias; em 1,1 milhão em 2016 e em 454 mil em 2017. “Grande parte dessas famílias está fazendo o caminho de volta, vieram da classe C”, diz Pitoli. Mas ele pondera que outra parcela é de novas famílias formadas dentro da própria classe D/E.

    O economista diz que as pesquisas do IBGE, base da projeção, não permitem saber quanto é cada parcela, uma vez que a instituição não acompanha família a família. “Mas, naturalmente, a mudança de composição tem a ver com as migrações (de uma classe para outra).”

    Para o economista Mauro Rochlin, professor de MBAs da Fundação Getúlio Vargas (FGV), os fatores que estariam levando parte das famílias de classe C a retornar ao estrato de origem são a alta impressionante no número de desempregados, o fechamento de vagas, o salário médio real que parou de subir e o crédito mais caro e restrito. “Tudo isso conspira a favor da ideia de que estaria havendo essa migração.”

    Maurício de Almeida Prado, sócio-diretor do Plano CDE, consultoria com foco na baixa renda, aponta que a faixa mais vulnerável à recessão é a baixa classe C, uma vez que 50% dela estão na informalidade. “A classe média baixa tem maior risco de voltar atrás. Ela tem pouca escolaridade, sente muito a queda da economia pelo emprego informal, quase nenhuma poupança e uma rede de contatos limitada para obter emprego.”

    Na prática

    Myrian Lund, professora da FGV e planejadora financeira, que orienta por meio de um site famílias que precisam reestruturar as finanças, diz que a perda de poder aquisitivo da classe C afeta tanto empregados como desempregados. No caso dos empregados, ela diz que estão muito endividados, pois pegaram empréstimo com desconto em folha (consignado). Apesar de o juro dessa linha de crédito ser menor, hoje a prestação do financiamento está pesando mais no bolso dessas famílias, já que, em meio à recessão, o salário não terá aumento acima da inflação.

    Para Prado, da Plano CDE, ainda que essas famílias tenham queda de renda, elas configuram uma classe baixa diferente, pela experiência adquirida com a ascensão. “É um novo tipo de classe baixa: mais conectada, escolarizada e de certa forma até mais preparada.”

    Desemprego atinge as mulheres: empresas preferem demitir trabalhadoras

    Esse movimento amplia a desigualdade no mercado. Em 2012, quando a economia ainda crescia, elas respondiam por 45,5% do total de vagas. Agora, ocupam 43,2%

    A crise econômica está destruindo, com mais força, o mercado de trabalho para um dos grupos que foi determinante à reeleição da presidente Dilma Rousseff: as mulheres. Neste ano, a taxa de desocupação entre elas saltou de 6%, em janeiro, para 8,7%, em setembro, segundo a Pesquisa Mensal do Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na mesma base de comparação, o desemprego entre os homens pulou de 4,7% para 6,6%. Na avaliação de especialistas, as empresas estão preferindo demitir as mulheres por terem salários menores — as rescisões de contratos são mais baratas —, mesmo sendo elas, na maior parte dos casos, mais escolarizadas e produtivas, e por preconceito, pois muitas se ausentam por causa da maternidade.

    Os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), confirmam esse quadro preocupante, principalmente em estados menos desenvolvidos, nos quais a inserção da mulher no mercado de trabalho sempre foi mais difícil. Em Alagoas, enquanto as demissões das profissionais subiram 7,1% ante os 12 meses imediatamente anteriores, entre os homens, os desligamentos recuaram 9,8%. Na Paraíba, o fechamento de vagas entres as trabalhadoras foi 8,7% maior; entre eles, houve incremento de minguado 0,3%. No Piauí, os cortes entre as mulheres saltou 17,1% e, entre os homens, 3,7%. Essas discrepâncias mostram que a desigualdade no mercado de trabalho voltou a aumentar.

    “A questão é: os homens estão sendo desligados com menos frequência do que as mulheres”, diz Fábio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). “É uma regressão. Nos anos de bonança, mais mulheres entraram no mercado. Agora, com a recessão, são elas as que mais sofrem com o fechamento de vagas formais”, acrescenta. A tendência, ressalta Bentes, é de esse quadro se agravar à medida que a economia afunda. Em 2012, elas chegaram a responder por 45,5% dos postos de trabalho. No fim do ano passado, esse índice já estava em 43,2%.

    As demissões têm sido dramáticas para muitas mulheres. Grazielle Araújo ainda não se recuperou do dia em que foi comunicada da dispensa do cargo de gerente de uma loja de cosméticos. “Faz três meses, mas continuo abalada”, afirma. Não sem razão. “Estava me planejando financeiramente para comprar um imóvel. Esse sonho teve que ser abandonado”, relata. Não foi só. Com a perda do emprego veio o fim do casamento. A falta da garantia do salário todos os meses foi determinante para a desestruturação do relacionamento.

    O que mais assusta Grazielle é que, olhando para a frente, não há perspectivas de melhoras. A recessão na qual o país se atolou está destruindo ao menos 100 vagas com carteira assinada por hora. Vários amigos dela já foram vítimas do desemprego. “Há um ano, eram muitas oportunidades. Era chamada para várias entrevistas de trabalho. Hoje, até com indicações de amigos e familiares está difícil arrumar alguma coisa”, lamenta. A jovem cursa direito com a ajuda do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e teme as condições futuras para o pagamento da dívida. “Não sei se estarei empregada quando me formar. Preciso de um emprego para honrar os compromissos que virão”, afirma.

    Na opinião do professor Carlos Alberto Ramos, do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), a crise econômica pode estar amplificado o preconceito contra as mulheres no mercado de trabalho. “Existe uma lógica econômica que, diante da possibilidade de gravidez e da ausência por conta dos filhos, o empregador tenda a contratar um homem. Já os que dão chances às mulheres oferecem rendimentos menores, mesmo que elas sejam mais produtivas”, afirma. Nos cálculos de Fábio Bentes, da CNC, em média, os salários pagos a elas são 20,8% menores que os dos homens.

    Informalidade
    Pelos dados do Caged, 7,6 milhões de mulheres perderam o emprego neste ano. Como as demissões vão continuar, diz Tiago Cabral Barreira, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), a tendência é de que parte delas migre para a informalidade, trabalhando por conta própria. Foi o que fez Viviane Florentino da Silva, 26 anos, que tem vendido produtos de beleza desde o desligamento de uma loja de informática, em agosto do ano passado. Quando as vendas estão boas, ela embolsa aproximadamente R$ 1,1 mil, salário que recebia como recepcionista.

    Com esse valor, no entanto, Viviane só consegue bancar as necessidades básicas. Para ela, que é mãe de uma criança de apenas um ano, não será fácil retornar ao mercado de trabalho. “Acredito que antes era mais fácil conseguir um emprego porque eu não tinha filho. Agora, muitas portas se fecharam”, lamenta.

    Fonte: Correioweb

    Governo corta verbas de sete programas sociais

    Vitrine de Dilma, ações como Farmácia Popular e Ciência sem Fronteiras sofreram cortes

    O programa Farmácia Popular sofreu com cortes – Fábio Guimarães (arquivo/Agência O Globo
    A crise econômica e o ajuste fiscal levaram o governo federal a fazer cortes em pelo menos sete programas sociais, alguns exibidos como bandeiras de campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff. Somente em dois deles (Pronatec e Aquisição de Alimentos) os gastos previstos no orçamento de 2016 caíram R$ 2,487 bilhões em relação à previsão de despesas deste ano. O governo cortou, no orçamento do próximo ano do Farmácia Popular, R$ 578 milhões para subsídios na compra de medicamentos vendidos na rede conveniada, o que permite descontos de até 90% no preço dos remédios. Dilma, que chegou a prometer que a área social seria poupada, já admitiu cortes no setor.

    Há casos de programas, como o Minha Casa Melhor (de aquisição de móveis e eletrodomésticos para beneficiados pelo Minha Casa Minha Vida) que tiveram suas contratações suspensas em fevereiro deste ano. Outros já haviam sofrido cortes drásticos em 2015. O Água para Todos, por exemplo, destinado a garantir água para regiões carentes, teve uma queda de R$ 550 milhões, se comparado o orçamento de 2014 com o deste ano.

    No caso do Fies, a oferta de vagas do primeiro para o segundo semestre de 2015 ano caiu 75%. Além disso, os juros cobrados subiram de 3,5% para 6,5% ao ano. Entre 2014 e 2015, o programa já sofrera uma redução de 418 mil vagas (de 731 mil para 313 mil). Já o Ciência sem Fronteiras sofre um baque no número de bolsas oferecidas para interessados em estudar no exterior. O objetivo inicial, anunciado em 2011, era distribuir 101 mil bolsas até o fim deste ano. Mas o painel de controle do próprio programa informa que a meta não será alcançada. Até o primeiro trimestre de 2016, serão 87 mil bolsas oferecidas.

    A redução dos investimentos prejudica a vida de quem depende dos programas sociais, entre eles, os produtores rurais. A Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB) afirma que em estados como São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná, o governo não renovou contratos de fornecimento de alimentos este ano, tampouco informou aos produtores com antecedência que o programa sofreria cortes. Com isso, os alimentos que já haviam sido plantados e estão em ponto de colheita vêm sendo descartados e até mesmo jogados aos porcos.

    — Foi um desastre. Era a nossa sobrevivência. A gente não sabe o que vai acontecer daqui para frente — conta Lucilei Guilhem, presidente da Associação Nossa Senhora Das Graças e Malu, em Caiuá, interior de São Paulo.

    A Confederação de Trabalhadores na Agricultura (Contag) confirma o impacto dos cortes e diz receber reclamações de atrasos de pagamento aos profissionais rurais. O governo nega a falta de pagamentos e cortes, mas confirma a redução do orçamento do programa este ano e também na previsão orçamentária de 2016. Enquanto em 2014 o orçamento do Aquisição de Alimentos era de R$ 1 bilhão, este ano a previsão de gastos já havia caído para R$ 647 milhões. Desse montante, foram gastos até setembro R$ 300 milhões. A previsão de orçamento para 2016 é de R$ 560 milhões.

    — Já enviamos diversos documentos pedindo ao governo que o orçamento se recomponha. Recebemos reclamações de vários estados falando sobre a falta de pagamento aos agricultores — conta Alberto Broch, presidente da Contag.

    Em Goiás, a presidente da Cooperativa Mista Agropecuária dos Produtores Rurais de Ferninópolis, Luciana Naves, conta que enviou à Conab o projeto de 2015, com o que cada agricultor continuaria a produzir, mas os contratos não foram celebrados.

    — Enviamos o projeto de 2015 e a Conab aprovou. Mas, no fim de agosto, tivemos a má notícia de que a verba para atender aos projetos estava cortada. Pegaram-nos de surpresa. Não fomos orientados a não fazer o projeto e os produtores se organizaram para entregar esses produtos. São 84 famílias cadastradas pela cooperativa e a maioria tem esse valor como uma forma de sobrevivência. Nunca passamos por essa situação antes — diz.

    Na pasta da Educação, os cortes atingem principalmente um dos programas mais exaltados durante a campanha presidencial, o Pronatec. O programa sofreu corte de mais da metade em seu orçamento para 2016, em comparação com o gasto previsto para 2015, que é de R$ 4 bilhões. Na lei orçamentária apresentada à Câmara pelo governo, a previsão caiu para R$1,6 bilhão no próximo ano. Do montante previsto para 2015, foram executados até setembro R$ 2,4 bilhões. O Pronatec terá este ano um milhão de vagas, um terço do oferecido em 2014.

    Sobre a redução dos investimentos nos programas, o MEC afirma que tem trabalhado para viabilizar as metas do Plano Nacional de Educação e, para tanto, todos os programas e ações do ministério estão mantidos e terão continuidade no próximo ano. Porém, diante da situação fiscal pela qual passa o país, o ministério terá que fazer mais com menos.

    SUSPENSÃO NO CRÉDITO

    Lançado em junho de 2013, o Minha Casa Melhor, da Caixa, foi suspenso no fim de fevereiro deste ano e não há previsão de retomada das contratações. O objetivo do programa era oferecer linha de crédito para aquisição de móveis e eletrodomésticos para os beneficiários do Minha Casa Minha Vida. Dos R$ 3 bilhões destinados ao programa, aproximadamente R$ 2,92 bilhões foram utilizados. Cerca de 700 mil famílias utilizaram o cartão, segundo o banco.

    Ainda na área da habitação, o governo afirma que pretende investir este ano R$ 250 milhões no programa Água para Todos. Deste montante, foram gastos R$ 204 milhões até setembro. Os investimentos estão bem abaixo do valor de 2014, quando foram gastos R$ 800 milhões no programa. Para 2016, a previsão orçamentária é de R$ 268 milhões. De acordo com o Ministério da Integração Nacional, o programa continua, e, desde 2011, já beneficiou mais de cinco milhões de pessoas com “tecnologias de abastecimento de água”.

    Na área da Saúde, a navalha vai passar pelo Farmácia Popular. A doação de remédios vai continuar, mas o governo acabará com subsídios de R$ 578 milhões, que garantiam descontos nas farmácias e drogarias da rede privada com a identificação “Aqui tem farmácia popular”.

    Com o fim do cofinanciamento de medicamentos, a Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) estima que cerca de três milhões de pessoas devem deixar de ser beneficiadas. A modalidade oferece tratamento para colesterol, osteoporose, mal de Parkinson, glaucoma e rinite.

    Em nota, o Ministério da Saúde disse que os medicamentos cofinanciados ofertados como parte do programa integram a Relação Nacional de Medicamentos (Rename) e, portanto, devem ser ofertados na rede pública de saúde, independente da disponibilização no Programa Farmácia Popular.

    Sobre a redução nos programa sociais, o Ministério do Planejamento afirma que, em momento de cenário restritivo, escolhas precisam ser feitas. Segundo a pasta, a prioridade é pagar o que já está contratado e alterar o calendário de novas ações. O objetivo é reduzir os restos a pagar, com menos limite orçamentário e mais limite financeiro.

    Fonte: O Globo

    Em apenas um semestre, a taxa de desemprego nas grandes metrópoles voltou aos níveis de 2010, e analistas já preveem que ela ultrapasse os 10% no próximo ano. A piora rápida do mercado de trabalho fica mais evidente quando se observa o aumento da parcela de lares onde ninguém trabalha. Em 2012, ela correspondia a 17,4%. O número subiu para 18,6% em 2014 e já chega a 19,3% no primeiro semestre. De um ano para outro, o número de domicílios nos quais ninguém trabalha aumentou em 770 mil. No país, já são 13,1 milhões de casas em que não há renda do trabalho. As informações são do jornal O Globo.

    O cruzamento de dados foi feito pelo pesquisador do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets) e diretor de Oportunidades, Pesquisa e Estudos Sociais (OPE Sociais), Samuel Franco, a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. O levantamento mostrou que, no Rio, essa situação é realidade em 23,5% das casas ou em 1,44 milhão de famílias. É a terceira maior parcela entre os estados, só perdendo para Alagoas (28%) e Pernambuco (24,5%). Nesse conjunto, há desempregados, aposentados, pessoas que vivem de renda e de transferências do governo. A piora no Rio foi mais intensa do que no resto do país. Aqui, a alta do indicador foi de 9,73%, no Brasil, de 6,73% em um ano.

    — O mercado de trabalho piora a cada mês, e esse aumento na proporção de domicílios sem ocupados está acontecendo mais nos lares onde o chefe tem baixa escolaridade, tanto no Rio quanto no Brasil. Poderia estar até pior no Rio se não fossem as obras para as Olimpíadas – afirmou Franco.

    NO CAMINHO DO EMPOBRECIMENTO

    Esse pode ser considerado um dos sinais do empobrecimento da população previsto pelos especialistas num cenário de recessão — estimada em 3% neste ano e em 1% no próximo — e da inflação, que pode chegar a 10% este ano.

    — É praticamente certo que haverá empobrecimento de grande parte da população. Mas sem perder todos os ganhos de uma década. As informações são que houve aumento substancial do desemprego. Além da perda de renda dos desempregados, isso quebra o poder de barganha do trabalhador. Certamente está ocorrendo aumento da pobreza – disse Rodolfo Hoffmann, pesquisador da Esalq USP, especialista em pobreza e desigualdade.

    A servente Sonia Maria de Sousa Barbosa, de 55 anos, já sente os efeitos desse cenário. Ela perdeu o emprego depois que a empresa terceirizada na qual trabalhava não conseguiu renovar o contrato com uma universidade. O salário mínimo era a única renda da casa onde Sonia e o neto, de 13 anos, moram. Na última sexta-feira, ela estava na fila para dar entrada no seguro-desemprego, mas faltavam documentos. Sem eles, não conseguiu obter renda para sustentar a família até encontrar outra vaga:

    — Conto com a ajuda da minha irmã, que me dá uma cesta básica. Mas ela tem seis filhos para criar. Estou procurando uma faxina, roupa para passar. A mãe do meu neto não me passa a guarda do menino, e não posso pedir o Bolsa Família.

    Ao perder o emprego, Sonia engrossou a estatística de domicílios sem ocupados no Rio. Nos lares em que o chefe da família tem ensino fundamental incompleto, como é o caso de Sonia, a proporção chega a 34,6% no estado, realidade em 707 mil lares.

    Luísa Azevedo, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), lembra que o Rio tem a maior parcela de população com 60 anos ou mais entre os estados e isso ajuda a explicar a alta proporção de lares sem ocupados. O aumento do indicador em um ano, porém, reflete, segundo ela, a crise na Petrobras, que cortou vagas em petróleo, construção civil e indústria naval:

    — Em janeiro, o Rio respondeu por metade das vagas cortadas no Brasil. De 80 mil vagas extintas, 40 mil foram no Rio. Depois disso, o Rio tem acompanhado o (ritmo de fechamento de vagas do) Brasil, inclusive com aumento menor do desemprego.

    Luísa acredita que a falta de esperança de encontrar um emprego, que os especialistas chamam de desalento, também explica o resultado, já que houve queda na taxa de participação (parcela de empregados e desempregados entre os que estão em idade de trabalhar):

    — Enquanto essa taxa ficou estável no Brasil, caiu no Rio. E a piora parece estar mais concentrada nos domicílios com a escolaridade menor.

    A renda de Luciana Félix da Silva caiu pela metade há dois meses. Ela perdeu o emprego de camareira, onde estava há nove meses. Mora com o marido, que é contínuo, e com a enteada, de 16 anos. Está endividada no cartão de parentes, e os planos de continuar a mobiliar a casa doada pela sogra foram abandonados. Os cortes feitos para conter os gastos públicos do governo atingiram diretamente Luciana. Ela precisava ter ficado um ano no emprego para ter direito ao seguro-desemprego. No sistema da Secretaria Estadual de Trabalho não apareceu uma vaga em que ela se encaixasse:

    — Estou escolhendo que conta posso pagar.

    O carpinteiro Adailson Aires dos Santos, casado e com um filho de 3 anos, espera encontrar emprego quando voltar do Maranhão. A parte da obra do estádio Engenhão onde trabalhava acabou:

    — Tenho fé em Deus que quando voltar em dezembro conseguirei vaga nas obras do BRT.

    Rafael Bacciotti, economista da Tendências Consultoria, avalia que a piora no mercado de trabalho afeta até a sazonalidade. Ele estima que a taxa média de desemprego de 2015 nas seis principais regiões metropolitanas fique em 7%, mas chegue a 8% em dezembro, mês em que tradicionalmente a procura por trabalho é menor:

    — Em 2014, a taxa média foi de 4,8%. Voltamos aos números de 2010 em um semestre. Houve a volta das pessoas inativas ao mercado com a queda da renda, e a recessão tem se intensificado.

    Quase um milhão de vagas formais foi extinta no país nos últimos 12 meses. A saída do emprego formal é um dos fatores que deixam a família com mais chance de entrar na pobreza. Dissertação de mestrado, premiada pelo BNDES, da economista Solange Ledi Gonçalves listou o que torna as famílias mais vulneráveis à pobreza.

    — Formalidade é uma questão importante para garantir menor vulnerabilidade. O trabalho informal tem uma insegurança maior, a renda varia bastante, o que pode fazer a família entrar e sair da pobreza. Quando se está no setor informal, perde-se benefícios que compõem a renda da família como vale-alimentação e seguro-saúde.

    Diante do desemprego, a família é obrigada a fazer escolhas que têm impacto no médio prazo, como cortar gastos com educação, diz Solange. Sem carteira assinada, fica mais difícil obter crédito, que funciona como tábua de salvação. Os lares chefiados por mulheres e pessoas com baixa escolaridade também correm risco de entrar na pobreza:

    — Nas famílias chefiadas por mulher, majoritariamente não há cônjuge. Nas famílias formadas por pessoas sem instrução, 25% são vulneráveis. Nas que têm 15 anos de estudos, somente 1%. O Bolsa Família pode amenizar a pobreza, mas a renda do trabalho é muito importante — disse Solange.

    O benefício social não sofre reajuste desde junho de 2014. A inflação acumulada ultrapassa 10%.

    — A experiência passada mostra que a inflação elevada é particularmente prejudicial para os pobres, que, de maneira geral, têm menos condições de se proteger da elevação de preços. A inflação elevada também contribui para o aumento da pobreza — disse Hoffmann.

    Fonte: O Globo

    Governo já cortou quase 800 mil famílias do Bolsa-Família

    Junto com os sem-casa e os sem-Pronatec, excluídos do principal programa social do governo formam um novo contingente de desvalidos: o daqueles de quem o Estado, silenciosamente, começou a tirar o que deu

    Os novos retirantes – Desde maio, o agricultor Osmar de Oliveira não recebe mais os 309 reais a que tinha direito pelo Bolsa Família. A moto estacionada na frente da casa, ou o fato de sua mãe, que mora no mesmo terreno, receber aposentadoria do INSS, pode ter sido o motivo da suspensão do pagamento, desconfia ele. Agora, sem dinheiro para a carne e a gasolina, Oliveira estuda seguir a trilha que conterrâneos percorreram décadas atrás e deixar a mulher, Jailma, e os filhos, Beatriz e Ismael, para buscar emprego em São Paulo

    Os novos retirantes – Desde maio, o agricultor Osmar de Oliveira não recebe mais os 309 reais a que tinha direito pelo Bolsa Família. A moto estacionada na frente da casa, ou o fato de sua mãe, que mora no mesmo terreno, receber aposentadoria do INSS, pode ter sido o motivo da suspensão do pagamento, desconfia ele. Agora, sem dinheiro para a carne e a gasolina, Oliveira estuda seguir a trilha que conterrâneos percorreram décadas atrás e deixar a mulher, Jailma, e os filhos, Beatriz e Ismael, para buscar emprego em São Paulo(Leo Caldas/VEJA)

    Primeiro, chega a “cartinha”. Com carimbo do Ministério do Desenvolvimento Social, ela pede ao beneficiário do Bolsa Família que se apresente na prefeitura da cidade para agendar a visita de um assistente social à sua casa. A partir desse momento, o dinheiro do programa já para de entrar na conta da família. Semanas depois, o assistente social toca a campainha. Prancheta, caneta e almofadinha de carimbo na mão (para os casos em que o beneficiado não sabe escrever), ele faz perguntas sobre cada morador da casa: quem estuda, quem trabalha, quanto ganha. Caso note a presença de uma moto, de uma TV de LED ou de qualquer elemento que destoe do cenário de pobreza obrigatório, indaga quando a família adquiriu o bem e com que recursos. Encerrada a entrevista, pede ao beneficiário que assine o formulário preenchido e encaminha o papel à prefeitura. Feito isso, o resultado é quase sempre o mesmo: adeus, Bolsa Família. Poucos dos que recebem a visita do assistente social conseguem manter o benefício.

    Sem anúncio nem alarde, o governo federal começou a passar a tesoura nos programas sociais. O Bolsa Família, carro-chefe da administração petista, sofreu neste ano o mais profundo corte desde que foi criado, há onze anos. Apenas no primeiro semestre de 2015, 782.313 famílias deixaram de receber o benefício.

    Para diminuir os custos do programa sem admitir sua redução, o governo passou a promover um pente-fino silencioso entre os cadastrados. Desde maio, vem cruzando seus dados com informações do INSS e do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), por exemplo. O objetivo é identificar quem possui bens incompatíveis com o teto de renda permitido aos participantes do programa (até 154 reais por membro da família, o que torna difícil a compra de um carro, por exemplo) ou está acumulando benefícios indevidamente. Os que já recebem a aposentadoria rural de um salário mínimo não podem ganhar Bolsa Família. Também estão impedidos de integrar o programa pescadores que recebem o seguro-defeso – pago durante o período de procriação dos peixes. Esse veto surgiu de uma portaria criada pelo governo federal em março deste ano. Desde então, em cidades do Nordeste que vivem da pesca, como Saubara, na Bahia, a queda no número de beneficiários do Bolsa Família foi de quase 70%.

    Na crise, brasileiro corta salgadinho e compra menos cerveja

    Com a alta da inflação, consumidores economizam em produtos considerados menos relevantes para gastar em luxos alcançados nos últimos anos

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    112Com menos poder de compra, consumidor troca carne bovina por frango ou porco (Foto: Ricardo Matsukawa/VEJA.com)

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    A aposentada Maria da Conceição trocou o contrafilé por carne moída e peito de frango. “E ainda misturo com bastante arroz para render mais”. A desempregada Lilian Silva de Oliveira aderiu às marcas próprias dos supermercados, geralmente mais em conta. “E compro tudo em menor quantidade”. A analista administrativa Tatiana Medeiros substituiu o cream cheese pelo requeijão, mas manteve o achocolatado da melhor qualidade. O comerciante Dailson Pereira de Sousa só pega o que estiver em promoção, mas não abre mão do refrigerante mais caro. A empregada doméstica Alcione América de Souza preferia melancia e manga, mas passou a se contentar com banana e maçã – estas, mais baratas.

    Personagens

    Aposentada Maria Rosa e a servidora pública Ivete Santos(VEJA.com/VEJA)

    Com a inflação beirando os 10% no ano, o comportamento dos brasileiros no supermercado mudou. A mesa está menos farta, a variedade de produtos é menor, mas, ao economizar comprando menos quantidade e menos itens, sobra um trocado para levar ao menos um “luxo”, como que em um afago à memória dos tempos de bonança – ou, ao menos, para se sentir menos pobre. Essas são algumas das conclusões da pesquisa feita pela Dunnhumby, consultoria de mercado com sede em Londres, obtido com exclusividade pelo site de VEJA. “A crise força os clientes a tomar decisões mais fortes e conscientes”, diz Adriano Araújo, diretor geral da Dunnhumby no Brasil, onde a empresa tem como clientes empresas como Pão de Açúcar, Coca-Cola, Drogasil e Unilever. “Assim, ele escolhe categorias que realmente fazem a diferença para ele. Nas categorias menos importantes, ele vai para o mais barato.”

    Os salgadinhos são os primeiros a serem riscados da lista: 30% dos entrevistados disseram que não os compram mais. Em relação aos produtos de limpeza, os mais baratos agora são os mais procurados – 38% dos consumidores ouvidos afirmaram ter optado por marcas mais econômicas. Já com bebidas alcóolicas (cerveja, vodca e vinho), a qualidade é o que mais importa – 42% afirmaram ter mantido a marca, mas reduzido a quantidade. Obviamente, os alimentos básicos (arroz, feijão e açúcar) continuam a vender a todo vapor – 54% disseram ter conservado o mesmo padrão de consumo de antes da crise.

    Sim, a crise força compras menores e de versões mais baratas de produtos essenciais. Mas, no Brasil pós-ascensão da classe C, agora a carestia dá chance a um mínimo de autoindulgência. “Os dois extremos – o dos produtos mais baratos e o dos mais caros – são os menos afetados. A faixa intermediária é a que se dá pior”, afirma Araújo. A Dunnhumby ouviu 700 consumidores das classes A, B e C entre os dias 25 e 28 de agosto deste ano.

    Segundo a pesquisa, 80% dos entrevistados declararam economizar em determinados produtos para manter o luxo em outros. É o caso da empregada doméstica Alcione Souza, de 26 anos. Mãe de uma menina de 4 anos, ela diz que cortou tudo o que podia. “Mas com criança não dá para cortar leite, biscoito e ‘Danone’. Por isso, economizo no material de limpeza. Nem sei mais o nome do sabão em pó que compro”, diz. O mesmo raciocínio, embora com outros itens, fez a funcionária pública Ivete Santos, de 46 anos. Ela diz ter eliminado de sua lista de compras o que chama de “besteirinhas” – salgadinho e biscoito -, mas na sua geladeira não podem faltar os iogurtes funcionais. “Para mim, eles são saúde”.

    “O necessário, somente o necessário. O extraordinário é demais”, cantarola a professora Maria Rosa, de 83 anos, ao ser perguntada sobre o que continua comprando com o orçamento mais apertado. “Antes eu comia mais fruta do que arroz e feijão. Agora, é o contrário”, conta. Ainda assim, ela não eliminou alguns luxos, como tomar uma taça de vinho à noite no jantar. Em vez das caras frutas, arroz e feijão – e vinho.

    As principais vítimas da alta dos preços são os mais pobres. Nos cálculos da Associação Paulista de Supermercados (Apas), enquanto as classes A e B gastam, em média, 22% da sua renda com o abastecimento de produtos básicos, as classe C, D e E consomem 40% da renda. “O brasileiro tentar manter o seu padrão de consumo. O país teve uma evolução muito rápida nos últimos anos. E essas pessoas que nunca tiveram acesso a certos produtos não querem mais perdê-lo”, diz Rodrigo Mariano, economista da entidade.

    Gráfico sobre hábitos de consumo durante a crise

    (VEJA.com/VEJA)

    De acordo com a Dunnhumby, mais da metade dos brasileiros (66%) passaram a visitar mais supermercados em busca do melhor preço. A vendedora Maria das Graças Silva Lima, de 61 anos, leva a prática bastante a sério. Ela diz saber de cor os dias de oferta dos mercados da região onde mora, na Santa Cecília, no centro de São Paulo – “na quarta-feira, é no Extra e no Futurama. Na quinta, é no Dia” -, e os melhores locais para comprar determinados produtos – “verdura é mais barato no Todo Dia, produtos de limpeza no Dia, e no Extra às vezes tem umas boas promoções”. Ao final de cada compra, Maria pega a nota fiscal e olha item por item. Se pagou algum centavo a mais, volta rapidamente ao caixa. “Na semana passada, me devolveram 9 reais porque o preço que caiu na tela não era o mesmo da estante”, diz, orgulhosa. No último dia 9, ela ficou com vontade de comprar uma melancia. “Mas por sete reais eu não levava”, contou. E deu um jeito: achou uma mulher que topou dividir a fruta com ela. Cada uma ficou com uma parte por 3,50 reais.

    Veio para ficar – Dos números, os especialistas tiram a seguinte lição: com a crise, os brasileiros estão ficando cada vez mais parecidos com os consumidores de países desenvolvidos, como Estados Unidos e Europa. O nível de exigência aumentou e eles não se contentam mais em escolher entre apenas dois tipos de mercadoria na prateleira. “Ele passa a demandar mais diversidade e um mix maior na cesta. Então, o supermercado não pode mais ter só uma marca de molho, mas no mínimo sete”, diz Mariano.

    Para Ricardo Alvarenga, especialista em tendências de mercado da consultoria Nielsen, este é um ótimo momento para as marcas desafiantes – as que não são líderes dos segmentos – ganharem espaço no mercado. “Na crise, as pessoas ficam mais abertas para experimentar, conhecer novos produtos. E, se gostarem, é possível que continuem com ele quando a situação melhorar. As mudanças vêm para ficar”, afirma. Em contrapartida, argumenta o especialista, as marcas mais consolidadas têm mais capacidade para inovar e formular estratégias mais certeiras para atrair os clientes. Segundo estudo da Nielsen, elaborado entre fevereiro e abril deste ano, 29% das 127 marcas líderes perderam volume de vendas em comparação com o mesmo período do ano passado.

    Essa procura pelo menor preço alavanca a venda de produtos de marca própria. É o caso do carro chefe do Grupo Pão de Açúcar, a Qualitá. Segundo o gerente de marcas exclusivas do grupo, Rafael Berardi, o volume de vendas da marca cresceu 10% neste ano em meio ao fraco desempenho do varejo. Berardi também ressalta que só as marcas próprias já respondem por 11% da comercialização de todos os produtos da rede – em 2010, esse porcentual estava em torno de 6%. Lilian de Oliveira, de 26 anos, é um bom exemplo desse fenômeno. “Eu vou no Dia porque gosto das marcas de lá. É mais barato”, diz “Mas na crise até elas estão ficando mais caras.”

    Para não perder o controle das suas finanças, Lilian passou a racionalizar os gastos. “Eu ainda compro tudo o que comprava antes, mas em menos quantidade. Se pegava quatro, agora só pego dois”, diz. Ela também entra em outra estatística, que só vem crescendo com a crise econômica, a do desemprego – há dois meses foi demitida do restaurante onde trabalhava, que fechou as portas por falta de movimento. “Só espero para ver quando vai acabar essa carestia. Coitados de nós, brasileiros: sem trabalho e com tudo aumentando”. A aposentada Maria Francisca da Silva, de 63 anos, resume bem a situação: “O que antes eu comprava com 100, agora dá 300 reais. Se continuar assim, a coisa vai ficar preta”.

    Fonte: Veja

    Fazenda vai propor a Dilma vetar qualquer aumento para funcionalismo público

    Ministério também vai insistir na recriação da CMPF


    O ministro da Fazenda, Joaquim Levy – Marcelo Carnaval / Agência O Globo

     

    O Ministério da Fazenda preparou uma lista com dez itens que serão levados à presidente Dilma Rousseff propondo novas ações para ampliar a arrecadação do governo e reduzir os gastos. Entre as medidas que foram definidas pelos técnicos da Fazenda em reunião que terminou na noite de ontem estão insistir na recriação da CMPF, o chamado imposto do cheque, e não conceder aumento nenhum aos servidores públicos federais em 2016.

    A proposta de recriar a CMPF já foi duramente criticada por integrantes da base do governo e pode ser uma medida com dificuldade para aprovação no Congresso. Já a ideia do “aumento zero” para o funcionalismo surgiu na Comissão Mista de Orçamento. O relator da comissão, deputado Ricardo Barros (PP-RS), passou a defender a proposta diante do rombo nas contas do governo no orçamento do ano que vém.

    Também estão na lista de ações preparadas pela equipe econômica alteração na cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), mudanças no imposto de renda de pessoa jurídica, na contribuição sobre a folha e ainda no recolhimento do FGTS.

    Essas medidas fazem parte do arrocho nas contas que a Fazenda defende para tentar reequilibrar as contas do governo. Já o Ministério do Planejamento prepara cortes no orçamento dos demais ministérios e a redução de ser iniciada nos gastos com empresas terceirizadas.

    Fonte: O Globo

    A economia brasileira, medida pelo PIB (Produto Interno Bruto), encolheu 0,6% no 2º trimestre em relação aos três meses anteriores. Além disso, os resultados do 1º trimestre de 2014 foram revisados de alta de 0,2% para queda de 0,2%.

    Com dois trimestres seguidos de resultado negativo, considera-se tecnicamente que o país está em recessão. Isso não acontecia desde a crise financeira global de 2008 e 2009.

    Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (29) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

    Em valores correntes, o PIB do 2º trimestre alcançou R$ 1,27 trilhão.

    Em relação ao mesmo período do ano passado, a queda foi ainda maior: de 0,9%.

    No acumulado do 1º semestre, houve crescimento de 0,5% em relação a igual período de 2013.

    O PIB acumulado nos quatro trimestres terminados em junho de 2014 teve crescimento de 1,4% em relação aos quatro trimestres imediatamente anteriores.

    Após a divulgação do resultado do 1º trimestre, no final de maio, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tinha dito que a Copa do Mundo ajudaria a impulsionar os setores de comércio e serviços, e que o resultado do PIB no 2º trimestre provavelmente seria melhor

    Agropecuária cresceu 0,2%; indústria e serviços encolheram

    A agropecuária foi o único setor que cresceu no 2º trimestre em relação ao trimestre anterior, com leve alta de 0,2%.

    A indústria encolheu 1,5%. Dentro dos subsetores, apenas a extrativa mineral registrou expansão: 3,2%. A indústria de transformação encolheu 2,4%, a de construção civil recuou 2,9%, e a de eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana caiu 1%.

    Os serviços encolheram 0,5%, puxados pelo desempenho negativo do comércio, que recuou 2,2%.

    Na comparação com o segundo trimestre de 2013, a agropecuária permaneceu estável, a indústria encolheu 3,4% e os serviços cresceram 0,2%.

    No acumulado do 1º semestre em relação a igual período de 2013, a agropecuária cresceu 1,2% e os serviços, 1,1%. A Indústria, por sua vez, encolheu 1,4%.

    Previsões para o PIB têm sido cortadas

    O governo federal cortou sua projeção de crescimento econômico de 2,5% para 1,8%, segundo relatório bimestral de Receitas e Despesas divulgado pelos ministérios da Fazenda e do Planejamento em julho. Ainda assim, a previsão está otimista em relação às demais.

    O Banco Central diminuiu sua previsão para o PIB neste ano de 2% para 1,6%, de acordo com o relatório trimestral de inflação divulgado em junho.

    Já o FMI (Fundo Monetário Internacional) cortou sua previsão pela quinta vez seguida, em julho, e agora estima um crescimento de 1,3% do Brasil neste ano.

    Os economistas das principais instituições financeiras, por sua vez, falam em PIB de 0,7% em 2014. A informação aparece no Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central na segunda-feira (25). Foi a 13ª semana seguida em que a previsão foi cortada.

    Dado do BC apontou queda de 1,2% no acumulado do trimestre

    A estimativa do Banco Central, mostrada por meio do Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), era de recuo de 1,2% em relação ao 1º trimestre.

    O índice é elaborado mensalmente pelo BC e é considerado pelo mercado uma prévia do PIB, embora o Banco Central oficialmente não reconheça que seja uma previsão do PIB.

    Mesmo assim, o indicador do BC é visto pelo mercado como uma antecipação do resultado do PIB, e serve de base para investidores e empresas adotarem medidas de curto prazo. Porém, não necessariamente reflete o resultado anual do PIB e, em algumas vezes, distancia-se bastante.

    Em entrevista, um diretor do BC justificou a diferença, dizendo que o IBC-Br não tem a pretensão de medir o PIB, apesar de o mercado o usar como um balizamento.

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    É de se esperar que economias conhecidas como “emergentes” cresçam em um ritmo mais rápido que os mercados maduros. Mais ainda se os tais mercados maduros estão em crise.

    Mas não é isso que está acontecendo neste ano. O PIB (produto interno bruto) do Brasil no segundo trimestre foi 0,6% menor do que no primeiro e 0,9% menor do que no segundo trimestre do ano passado, como informou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os resultados foram piores que o da maior parte dos países ricos que estão em crise.

    Na comparação com o primeiro trimestre, a retração de 0,6% foi mais intensa do que a de qualquer dos países da zona do euro que já divulgaram seus números. Na Alemanha e na Itália, a queda foi de 0,2%. Na França, o PIB ficou estagnado.

    A Grécia, que sofre para se recuperar de uma crise, não divulgou os dados do segundo trimestre em comparação com o primeiro. Informou, apenas, a variação em relação ao segundo trimestre do ano passado: uma queda de 0,2% – mais branda, portanto, que a do PIB brasileiro, de 0,9% no mesmo tipo de comparação.

    Entre as grandes economias, o Japão foi a única que apresentou uma retração maior que a do Brasil, quando se compara o segundo trimestre com o primeiro. A economia japonesa encolheu 1,7% no período.

    Na comparação entre o segundo trimestre deste ano e o período equivalente do ano passado, o PIB do Brasil encolheu mais do que o de qualquer grande economia, entre as que já divulgaram seus resultados, como aponta o gráfico abaixo.

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    Entrevista

    O professor de economia Otto Nogami, do Insper, concedeu ao blog a entrevista abaixo, a respeito do assunto.

    O que a variação do PIB do Brasil significa em comparação com a de outros países?

    É um resultado péssimo. Se compararmos com o contexto das principais economias mundiais, incluindo os emergentes e América Latina, a nossa performance é a pior [entre os países que já divulgaram os dados], excetuando-se o Japão, que está em uma crise que já dura 20 anos.

    Esses números reforçam uma característica da maneira como o governo vem conduzindo a politica econômica nos últimos quatro anos. O governo age de maneira muito pontual, sem ações de médio e longo prazo que possam dar sustentação a um processo de crescimento.

    Que ações poderiam levar ao crescimento de longo prazo?

    Reduzir gastos públicos para diminuir a necessidade de financiamento do deficit e, consequentemente, ter mais recursos para o setor privado investir.

    PIB do Brasil fica em 33º lugar em ranking de 35 países

    Crescimento do país só não foi pior que o da Ucrânia e Rússia, segundo lista elaborada pela agência de classificação de risco Austin Ratings

    Austin Rating prevê queda de 2,1% para o PIB de 2015 e retração de 0,3% em 2016(Jefferson Bernardes/VEJA)
    Taxa de crescimento do PIB no 2º semestre de 2015

    (VEJA.com/VEJA)

    Com a queda de 1,9% da economia brasileira no segundo trimestre deste ano em relação ao trimestre anterior, e de 2,6% na comparação com mesmo período do ano passado, o Brasil ficou com a 33ª colocação em um ranking que leva em consideração a taxa de crescimento de 35 países.

    De todas as nações analisadas pela agência de classificação Austin Rating – que contempla os países que publicaram seu resultado até o momento – só três não tiveram resultado positivo: Brasil, Rússia e Ucrânia. O país superou somente as duas outras economias, que amargaram retração de 4,6% e 14,7%, respectivamente, na comparação anual. A China lidera o levantamento, com um crescimento de 7%, seguida por Filipinas (5,6%) e Malásia (4,9%).

    A estimativa da Austin Rating é de queda de 2,1% para o PIB brasileiro de 2015 e de recuo também em 2016, de 0,3%. “Se confirmado nossa estimativa de retração do PIB brasileiro no biênio 2015-2016 será o pior desempenho econômico do Brasil em 85 anos Ou seja, a última vez que o Brasil anotou queda do PIB por dois anos consecutivos foi em 1930 (-2,1%) e 1931 (-3,3%) refletindo, em parte, o crash da bolsa de Nova York em 1929 e o ambiente político nacional conturbado com o fim da oligarquia paulista devido a revolução de 1930″, destaca a Austin. A agência tomou como base a série histórica do Ipea, que compila dados anteriores à série do IBGE, que começa em 1948.

    Fonte: Uol e Veja

    Contas públicas registram rombo de R$ 10 bilhões em julho, pior desempenho desde 2001

    Além da União, estados, municípios e empresas estatais também tiveram déficit


    Notas de real – Andrew Harrer / Bloomberg News

    O resultado fiscal é um reflexo da crise econômica que vive o país. Como as empresas produzem menos e o consumo caiu, os entes públicos deixam de arrecadar. Além disso, os gastos pressionam o orçamento e é difícil economizar para pagar juros da dívida pública, que não param de subir porque o próprio governo teve de aumentar a taxa básica para conter a inflação.

    — O resultado está fortemente impactado pelo desempenho da economia neste ano. É o resultado de uma economia fraca e em recessão. Todos viram o resultado do PIB divulgado nesta manhã (queda de 1,8% da economia no 2o trimestre). Uma economia com o desempenho menor, se traduz em menor desempenho fiscal — frisou o chefe-adjunto do departamento econômico do BC, Fernando Rocha.

    Somente no mês passado, os juros que o governo deveria ter pago chegaram a nada menos que R$ 62,8 bilhões. De janeiro a julho, o peso dessa carga é muito maior: R$ 288,6 bilhões. Além de ser um recorde, está perto do que deveria ser pago em todo o ano passado: R$ 311,5 bilhões.

    — O resultado está impactado pelos gastos com swap cambial. Em julho, o gasto chegou a R$ 23,9 bilhões — informou Rocha

    As despesas com os chamados contratos de swaps cambiais – instrumentos de intervenção que funciona como venda de moeda americana no mercado futuro – aumentaram desde quando o BC retomou a política de irrigação do mercado, apelidada de “ração diária”. Desde 2002, o BC tem colocado contratos desse tipo no mercado para oferecer “hedge” (ou seja, proteção) para a oscilação da moeda americana.

    Ontem, o BC apresentou o balanço do semestre que mostrava perdas de R$ 37 bilhões. No entanto, ela é feita com outra metodologia contábil. Pelo critério de competência, os gastos somam R$ 66,7 bilhões. Pelo critério caixa, a despesa é de R$ 57 bilhões.

    De janeiro a julho, o peso dessa carga é muito maior: R$ 288,6 bilhões. Além de ser um recorde, está perto do que deveria ser pago em todo o ano passado: R$ 311,5 bilhões.

    Como em 2014, o setor público não tem a menor condição de arcar com essa fatura agora. Ou seja, essa conta vai aumentar o endividamento. Nos sete primeiros meses, as contas públicas têm superávit primário de R$ 6,2 bilhões. A meta é economizar 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB).

    Nos últimos 12 meses, entretanto, há um déficit primário por causa dos constantes rombos do ano passado de nada menos que 51 bilhões. Ou seja, o Brasil não conseguiu pagar nenhum centavo dos R$ 451,8 bilhões em juros que deveriam ser pagos nesse período. É uma carga de juros de 7,2% do Produto Interno Bruto (PIB).

    Assim, o chamado déficit nominal (que teoricamente deveria ser o valor dos juros menos o esforço fiscal feito pelo governo) somou dois prejuízos: a carga de juros e o déficit primário. Por isso, chegou a R$ 505,8 bilhões. Isso representa nada menos que 8,81% do PIB: nunca o país teve um rombo desse tamanho, segundo o Banco Central.

    Fonte: O Globo

    Mais de 40% dos trabalhadores brasileiros trocam de emprego pelo menos uma vez por ano. Essa alta rotatividade tem aumentado os pedidos de seguro-desemprego. Mas essa não é única explicação. Muita gente acaba caindo na informalidade para burlar a lei e pegar o seguro-desemprego.

    Existe hoje uma distorção. Com as regras atuais, em algumas situações pode ser até vantajoso sair do emprego formal e trabalhar sem carteira assinada por um período. O problema é que os gastos com o seguro-desemprego são pagos pelo contribuinte.

    A Andréia está sem emprego, mas não reclama. “Tem oferta. Quando você tem experiência na área, fica mais fácil”, diz Andréia.

    Já Edmilson, quer o seguro-desemprego. “Enquanto não arranja outro, a gente recorre a alguma coisa, para que a gente possa equilibrar as nossas contas”, afirma Edmilson Ribeiro, encarregado de obra.

    Apesar da queda expressiva do desemprego no país, os postos de atendimento ao trabalhador continuam recebendo um grande número de pessoas em busca do seguro-desemprego. Os números mostram essa contradição. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desemprego tem caído nos últimos 10 anos. Entre 2003 e 2013, passou de 12,4% para 5,4%.

    Ao mesmo tempo, aumentou muito a procura pelo seguro-desemprego, principalmente nos últimos anos. Até 2005, ficava por volta de cinco milhões de pessoas por ano. Mas de lá pra cá, esse número tem subido constantemente. No ano passado, chegou a 8,5 milhões de pessoas. E pode passar de nove milhões este ano.

    Além disso, segundo o governo, mais de 40% dos trabalhadores brasileiros trocam de emprego pelo menos uma vez por ano. Uma alta rotatividade. “Esse número, em princípio, parece um número elevado. E o ministério está justamente tentando ver se há como diminuir o patamar dessa rotatividade de mão-de-obra, inclusive com uma melhor qualificação profissional do trabalhador”, diz Rodolfo Torelly, diretor do departamento de emprego/MTE.

    Camila está sempre em busca de um emprego melhor. “Trabalhava em uma outra empresa, aí eu saí e agora eu estou buscando um outro. Uma coisa melhor, um salário melhor”, afirma Camila Silva, estudante.

    O governo diz que o aumento dos gastos com seguro-desemprego se deve, em parte, ao fato de que hoje há mais trabalhadores com carteira assinada e, portanto, mais gente tem direito ao seguro-desemprego. O especialista José Márcio Camargo diz que essa é apenas uma das explicações e mostra que há um estímulo a essa alta rotatividade no mercado de trabalho.

    Para quem ganha até dois salários mínimos compensa trabalhar sete meses, porque o dinheiro que o trabalhador ganha com a demissão com todos os benefícios equivale a um ano de trabalho.

    “O trabalhador ainda pode tentar trabalhar sem carteira assinada, enquanto está recebendo o seguro-desemprego. Isso significa que ao longo de três meses que ele está recebendo o seguro desemprego, ele tem dois salários. Tem que mudar a legislação. O acesso ao seguro-desemprego tinha que ser mais restrito”, afirma José Márcio Camargo, professor da PUC-RJ.

    Michelli, que é formada em administração e mudou há pouco tempo para Brasília, pediu o seguro-desemprego. Mas, quer voltar a trabalhar o mais rápido possível. “Eu requeri o seguro para esse tempo, até eu achar um emprego bacana para mim”, diz Michelli Kotoski, administradora.

    Segundo o governo, o trabalhador é o grande prejudicado nessa manobra de não assinar carteira para continuar recebendo o seguro-desemprego. O tempo de trabalho não conta para a aposentadoria. E no fim da vida profissional, quando já está cansado, ele será obrigado a trabalhar em média, mais cinco meses para completar o prazo mínimo para se aposent

    A balança comercial brasileira registrou um déficit (importações maiores do que vendas externas) de US$ 6,07 bilhões no primeiro trimestre deste ano, informou  o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

    Em igual período do ano passado, o saldo ficou deficitário em US$ 5,15 bilhões, de acordo com números oficiais. Segundo a série histórica do Ministério do Desenvolvimento, o déficit registrado nos três primeiros meses deste ano é o maior, para este período, desde o início da sua série histórica, em 1994. Até o momento, o pior resultado para o primeiro trimestre havia sido registrado em 2013.

    No acumulado deste ano, as exportações somaram US$ 44,58 bilhões, com média diária de US$ 812 milhões, uma queda de 4,1% na comparação com o mesmo período do ano passado. As importações, por sua vez, totalizaram US$ 55,66 bilhões, o equivalente a US$ 912 milhões em média por dia útil, com recuo de 2,2% sobre o mesmo período de 2013.

    De acordo com dados do governo, as vendas ao exterior de produtos semimanufaturados recuaram 11,4% no trimestre, enquanto que as exportações de manufaturados caíram 9,5%. Já as vendas de produtos básicos subiram 2% nos três primeiros meses deste ano. Do lado das importações, houve queda nas aquisições de combustíveis e lubrificantes (-12%), de bens de capital (-2,7%) e de matérias-primas e intermediários (-0,2%), enquanto cresceram as compras de bens de consumo (+3,9%).

    Pior março desde 2001
    Somente no mês de março, ainda de acordo com informações do governo, a balança comercial registrou um superávit (exportações menos importações) de US$ 112 milhões. Trata-se do pior resultado, para meses de março, desde 2001 – quando foi registrado um déficit comercial de US$ 276 milhões. Em março de 2013, houve um saldo positivo de US$ 161 milhões.

    No mês passado, as exportações recuaram 4%, contra o março de 2013, para US$ 17,62 bilhões. Ao mesmo tempo, as compras do exterior somaram US$ 17,51 bilhões, e registraram queda de 3,8% sobre o mesmo mês do ano passado.

    Resultado de 2013
    Em 2013, a balança comercial brasileira registrou superávit (exportações menos importações) de US$ 2,56 bilhões, o pior resultado para um ano fechado desde 2000 – quando houve déficit de US$ 731 milhões.

    De acordo com o governo, a piora do resultado comercial do ano passado aconteceu, principalmente, por conta do serviço de manutenção de plataformas de petróleo no Brasil, que resultou na queda da produção ao longo de 2013, e pelo aumento da importação de combustíveis para atender à demanda da economia brasileira.

    Os dados oficiais mostram, porém, que o saldo comercial do ano passado só foi positivo por conta da “exportação” de plataformas de petróleo que, na realidade, nunca deixaram o Brasil. Essas operações somaram US$ 7,73 bilhões em 2013.

    As plataformas foram compradas de fornecedores brasileiros por subsidiárias (empresas que têm o capital de outras) no exterior de companhias como a Petrobras e, depois, “internalizadas” no país como se estivessem sendo “alugadas”, mesmo sem saírem fisicamente do Brasil. Com isso, as empresas do setor recolhem menos tributos.

    Expectativa para este ano
    A expectativa do mercado financeiro para este ano, segundo pesquisa realizada pelo Banco Central com mais de 100 instituições financeiras, é de pequena melhora do saldo comercial. A previsão dos analistas dos bancos é de um superávit de US$ 4,25 bilhões nas transações comerciais do país com o exterior.

    O BC, por sua vez, baixou na semana passada sua previsão para o superávit da balança comercial deste ano. Antes, a autoridade monetária projetava um saldo positivo de US$ 10 bilhões para 2014 – valo

    Contas externas têm maior déficit da série histórica no 1º trimestre

    No primeiro trimestre de 2014, resultado negativo somou US$ 25,18 bilhões.
    Em 12 meses até março, déficit em conta corrente foi de 3,64% do PIB.

    O déficit em transações correntes, um dos principais indicadores das contas externas brasileiras (resultado da balança comercial, balança de serviços e transferências unilaterais, como remessas de lucros e doações), somou US$ 25,18 bilhões no primeiro trimestre deste ano, o maior valor nominal da série histórica, que tem início em 1947.

    Segundo o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, o resultado está relacionado com uma “reação mais lenta da balança comercial”. “Foi um resultado abaixo do que se esperava, grande parte em função dos preços de produtos importantes na nossa pauta. Estão em patamar relativamente baixo, em especial produtos agrícolas”, declarou ele.

    Na proporção com o Produto Interno Bruto (PIB), o resultado negativo somou 4,71% nos três primeiros meses de 2014. Trata-se, do pior resultado para o primeiro trimestre de um ano, desde 1983 – ou seja, em mais de 30 anos.

    Nos três primeiros meses do ano passado, ainda segundo informações da autoridade monetária, o resultado negativo havia somado US$ 24,76 bilhões – o equivalente a 2,98% do Produto Interno Bruto.

    Resultado em doze meses
    O chefe do Departamento Econômico do Banco Central avaliou que, na proporção com o PIB, o resultado mais importante é o acumulado em doze meses – que somou US$ 81,5 bilhões, ou 3,64% do PIB – até março.

    “O PIB tem sazonalidade acentuada. A proporção em relação ao PIB mais adequada é aquela que a gente faz em doze meses, quando o efeito da sazonalidade é anulado”, declarou Tulio Maciel.

    Para todo este ano, a previsão do Banco Central é de um resultado negativo de US$ 80 bilhões na conta de transações correntes – a “conta” do Brasil com o exterior, formada pela balança comercial, pelos serviços e pelas rendas, em 2014.

    Componentes das contas externas
    Nos três primeiros meses deste ano, ainda segundo informações do Banco Central, a balança comercial brasileira registrou déficit de US$ 6,07 bilhões, contra um resultado negativo de US$ 5,15 bilhões em igual período do ano passado.

    A conta de serviços, por sua vez, que engloba os gastos de brasileiros no exterior, registrou um déficit de US$ 10,43 bilhões no primeiro trimestre de 2014, contra um resultado negativo também de US$ 10,4 bilhões no mesmo período do ano passado.

    Já as rendas registraram um déficit de US$ 9,1 bilhões no acumulado deste ano, contra um valor negativo de US$ 10 bilhões no mesmo período de 2013.

    Investimentos estrangeiros
    O BC informou que os investimentos estrangeiros diretos somaram US$ 14,17 bilhões no primeiro trimestre deste ano, contra US$ 13,25 bilhões nos três primeiros meses de 2013. A previsão da autoridade monetária, para todo este ano, é de um ingresso de US$ 63 bilhões em investimentos estrangeiros no país.

    Com isso, o resultado negativo da conta corrente, nos três primeiros meses deste ano, não foi, novamente, “financiado” em sua totalidade pela entrada de investimentos produtivos na economia brasileira – algo que já aconteceu em 2013 e que, antes disso, não ocorria desde 2001.

    Financiamento do déficit externo
    Quando o déficit não é “coberto” pelos investimentos estrangeiros, o país tem de se apoiar em outros fluxos, como ingresso de recursos para aplicações financeiras, ou empréstimos buscados no exterior, para fechar as contas.

    Analistas alertam, entretanto, que em um cenário de crescimento menor do PIB e menor disponibilidade de recursos nos mercados (com a sinalização do fim das medidas de estímulo nos Estados Unidos), a atratividade da economia brasileira também é menor – o que pode significar um pouco mais de dificuldade no financiamento do déficit das contas externas.

    O governo tem lembrado, entretanto, que as reservas internacionais brasileiras, acima de US$ 375 bilhões, conferem tranquilidade na administração das contas externas brasileiras.

    Despesas de brasileiros no exterior caem para US$ 1,83 bilhão em março

    Com isso, houve leve queda de 1,34% sobre o mesmo mês de 2013.
    No trimestre, gastos somaram US$ 5,87 bilhões, com recuo de 1,83%.

     

    O recorde para março continua sendo o de 2013, quando as despesas lá fora somaram US$ 1,86 bilhão

    Os gastos de brasileiros no exterior somaram US$ 1,83 bilhão em março, com um pequeno recuo de 1,34% sobre o mesmo mês do ano passado, informou nesta sexta-feira (25) o Banco Central (BC).

    Desse modo, o recorde para o terceiro mês do ano continua sendo o de 2013, quando as despesas lá fora somaram US$ 1,86 bilhão, ainda de acordo com números da autoridade monetária. A série histórica do Banco Central teve início em 1947.

    Dólar
    Em março, o dólar fechou em R$ 2,26, com queda de 3,22% em relação ao final de fevereiro  O chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, observou, porém, que o dólar estava em R$ 1,98 em março do ano passado.

    Com isso, houve um encarecimento de passagens e hotéis no exterior frente ao mesmo mês de 2013. “O principal fator [que impactou os gastos no exterior] foi o câmbio. Houve uma mudança do câmbio: o dólar ficou mais caro [na comparação com março de 2013], o que desestimulou as viagens”, declarou Maciel.

    Primeiro trimestre
    Ainda de acordo com o Banco Central, as despesas no exterior somaram US$ 5,87 bilhões nos três primeiros meses deste ano – o que representa queda de 1,83% frente ao mesmo período do ano passado, quando somaram US$ 5,98 bilhões (recorde histórico para o período).

    Alta do IOF
    No fim de 2013, o governo também adotou medidas para conter os gastos no exterior. A alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente nos pagamentos em moeda estrangeira feitos com cartão de débito, saques em moeda estrangeira no exterior, compras de cheques de viagem (traveller checks) e carregamento de cartões pré-pagos foi elevada de 0,38% para 6,38%. Com isso, essas operações passaram a ter a mesma tributação dos cartões de crédito internacionais.

    Histórico de gastos no exterior
    Em 2013, os gastos no exterior somaram US$ 25,3 bilhões e bateram recorde para um ano inteiro, contra US$ 22,2 bilhões nos 12 meses anteriores. Em 2011, as despesas de brasileiros lá fora haviam somado US$ 21,2 bilhões.

    Até 1994, quando foi editado o Plano Real para conter a hiperinflação no Brasil, os gastos de brasileiros no exterior não tinham atingido a barreira dos US$ 2 bilhões. Naquele ano, porém, somaram US$ 2,23 bilhões. Entre 1996 e 1998, as despesas no exterior oscilaram entre US$ 4 bilhões e US$ 5,7 bilhões.

    Com a maxidesvalorização cambial de 1999, com o dólar subindo para além de R$ 3 em um primeiro momento, as despesas no exterior também ficaram mais caras. Com isso, os gastos voltaram a recuar e ficaram, naquele ano, próximo de US$ 3 bilhões.

    As despesas de brasileiros fora do país voltaram a atingir a barreira de US$ 5 bilhões por ano apenas em 2006. Desde então, têm apresentado forte crescimento: em 2007, 2008 e 2009, por exemplo, atingiram US$ 8,2 bilhões, US$ 10,9 bilhões e US$ 10,8 bilhões, respectivamente

    INFLAÇÃO

    A previsão do mercado para
    o IPCA de 2014 subiu pela sétima semana consecutiva

    Os economistas do mercado financeiro já esperam que a inflação deste ano ultrapasse o teto da meta do governo, de 6,5%. Segundo dados coletados pelo Banco Central, a expectativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), passou de 6,47% para 6,51% na semana passada. O relatório de mercado, também conhecido como Focus, é fruto de pesquisa com mais de 100 instituições financeiras.

    Esta foi a sétima alta consecutiva da previsão para a inflação. Para 2015, a estimativa ficou estável em 6%. Pelo sistema que vigora no Brasil, a meta central, para 2014 e 2015, é de 4,5%. Entretanto, há um intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Desse modo, o IPCA pode oscilar entre 2,5% e 6,5%, sem que a meta seja formalmente descumprida.

    No início de 2013, o mercado previa que o IPCA deste ano somaria 5,5%. Nos meses seguintes, a estimativa foi se deteriorando, terminando o ano passado em 5,97%. A estimativa ficou consistentemente acima de 6% a partir de 20 de fevereiro, e superou o teto da meta após a inflação de março ter registrado o pior resultado desde 2003

    Quando a meta de inflação é descumprida, o presidente da autoridade monetária precisa escrever uma carta aberta ao ministro da Fazenda explicando as razões que motivaram o “estouro” da meta formal. No começo do ano, a inflação avançou com mais intensidade por conta do aumento dos preços dos alimentos – resultado das condições climáticas adversas (seca ou excesso de chuvas) no país.

    Taxa de juros
    A perspectiva do mercado financeiro é que a elevação dos juros, feita no fim do mês passado pelo Banco Central, não seja a última alta do ano na taxa básica (Selic) da economia brasileira – que vem avançando desde abril do ano passado para conter pressões inflacionárias.

    Para o fechamento de 2014, a previsão dos analistas para a taxa de juros permaneceu em 11,25% ao ano e, para o final de 2015, ficou estável em 12% ao ano.

    Crescimento do PIB
    Para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2014, a previsão dos economistas caiu de 1,65% para 1,63% na última semana. O PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos em território brasileiro, independentemente da nacionalidade de quem os produz.

    O crescimento do PIB do país previsto para 2014 continua abaixo do estimado no orçamento federal – de 2,5% – e também menor que a previsão (2%) divulgada pelo Banco Central no mês passado. Para 2015, a perspectiva de expansão da economia brasileira, feita por analistas do mercado financeiro, ficou inalterada em 2% de alta.

    Câmbio, balança comercial e investimentos estrangeiros
    Nesta edição do relatório Focus, a projeção do mercado financeiro para a taxa de câmbio no fim de 2014 ficou estável em R$ 2,45 por dólar. Para o fechamento de 2015, a estimativa dos analistas dos bancos para o dólar caiu de R$ 2,53 para R$ 2,51.

    A projeção para o superávit da balança comercial (exportações menos importações) em 2014 subiu de US$ 3 bilhões para US$ 3,02 bilhões na semana passada. Para 2015, a previsão de superávit comercial permaneceu em US$ 10 bilhões.

    Para 2013, a projeção de entrada de investimentos estrangeiros diretos no Brasil permaneceu em US$ 60 bilhões. Para 2015, a estimativa dos analistas para o aporte de investimentos estrangeiros ficou inalterada em US$ 55 bilhões.

    Fonte: G1

    Reportagem publicada  no site do jornal britânico “Financial Times” utilizou o termo “sentença de morte” em uma projeção para o futuro da estratégia econômica brasileira.

    A publicação afirma que a nova matriz de políticas econômicas, que consiste em taxas de juros baixas e o câmbio enfraquecido por meio de controles cambiais e incentivos fiscais temporários para a indústria, visava uma taxa de crescimento de 4%. Entretanto, de acordo com o jornal, o resultado dessas medidas foi um cenário de baixo crescimento e alta inflação.

    O jornal apontou que, este ano, a economia do Brasil deverá crescer cerca de 2%, continuando com uma de suas mais lentas taxas desde a década de 1990. Enquanto isso, a inflação deverá atingir 6,3%.

    Pressões inflacionárias forçaram o Banco Central do Brasil a retomar as taxas de juros, que estavam em uma baixa recorde de 7,25% em 2012, para 11% na última semana, com possibilidade de novos aumentos, segundo o jornal.

    De acordo com a publicação, entre as questões estruturais mais importantes estaria a redução da carga tributária, que subiu de 27% do Produto Interno Bruto (PIB) em 1997 para 36% em 2012. Essa taxa é maior que a do Chile, cerca de 20%, e superior à média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

    O ministro da Fazenda, Guido Mantega, criticou a falta de crédito para estimular o consumo do brasileiro e, consequentemente, a economia do país. “Temos um dos maiores mercados internos do mundo porque a massa salarial do brasileiro continua crescendo e continuará crescendo, mas temos crédito escasso para o consumo. Tão logo ele seja reimplantado, teremos um avanço maior do mercado interno”, afirmou Mantega durante o Seminário Brasil Novo, na Câmara dos Deputados, em 29/4/14.

    Para o presidente do banco Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, essa análise é equivocada. “Não existe escassez de crédito. Mesmo nos balanços que foram publicados, o crédito, ano a ano tem crescido acima de 10%. Ele tem uma relação com o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). Temos um PIB potencial e a oferta de crédito vai crescer na proporção da demanda por parte das pessoas físicas e das empresas. O credito está colocado”, afirmou o presidente do Bradesco, após participar de um debate no mesmo seminário na Câmara e pouco antes de participar de um encontro na Confederação Nacional da Indústria (CNI).

    Na avaliação de Trabuco, o peso dos tributos sobre financiamentos chega a 16% do PIB e é um dos fatores que inibem o crédito porque compõem boa parte do spread bancário. “Segundo as estatísticas, metade da carga tributária quando olhada para os impostos que são relacionados ao crédito, ele chega a esse nível. Não cogitaríamos não ter imposto. O problema é que a cunha fiscal é forte, que responde por mais de um terço do spread final”, disse ele destacando que o lucro dos bancos, que tem sido bastante elevado é resultado, em sua essência, da eficiência dos bancos porque eles investem bilhões de reais em informatização. “O spread é uma parte do lucro”, resumiu.

    Diálogo

    De acordo com Trabuco, o setor financeiro tem tido várias conversas com o governo e representantes do setor automotivo para facilitar a retomada das vendas de veículos, criando um fundo garantidor para os financiamentos. “Existe um diálogo no sentido de criar condições para que o crédito seja mais acessível. O volume total de crédito ao setor automotivo não caiu. O fundo tem relação com a demanda. Cada banco possui sua política e o financiamento depende do montante de entrada e do prazo de cada instituição. Os carros no pátio não podem ser justificados unicamente pela falta de crédito”, ponderou.

    Nesta tarde, Mantega se reúne em seu gabinete com representantes do governo argentino e das montadoras para tentar encontrar uma solução para a retomada das vendas de veículos fabricados no país para o parceiro do Mercosul.

    Análises rasas

    Mantega voltou a afirmar que o governo não vai deixar a inflação estourar o teto da meta (de 6,5% ao ano). Na avaliação do ministro, a taxa de investimento está crescendo e as críticas de especialistas de que o modelo econômico está somente baseado no consumo não passam de “análises rasas”. “O investimento cresceu 6,1% de 2003 a 2012, e a gente espera que ele avance 7% a partir de 2013 até 2022. O investimento é uma prioridade do governo. A crise derrubou o investimento, mas ele vem se recuperando. No ano passado, cresceu 6,2%, e foi um excelente desempenho e poucos países tiveram um crescimento do investimento tão grande”, afirmou Mantega destacando que o plano de concessões em infraestrutura vai atrair quase R$ 700 bilhões de recursos da iniciativa privada no país, o que vai garantir “um novo ciclo de desenvolvimento da economia brasileira”. “Temos necessidade de aumentar a oferta de infraestrutura do país”, disse ele enumerando as áreas estratégicas como transportes, energia elétrica, petróleo e construção civil.

    A taxa de juros do crédito para as famílias de 41,6% ao ano, em março deste ano, é a mais alta desde fevereiro de 2012, quando ficou em 41,7% ao ano, de acordo com dados do Banco Central (BC)

    A alta dos juros ocorre em momento de ciclo de alta da taxa básica Selic, usada pelo BC para regular a inflação. O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC elevou a Selic, que serve de referência para as demais taxas no mercado, nove vezes seguidas. Atualmente, a Selic está em 11% ao ano. Quando o Copom aumenta a Selic, o objetivo é conter a demanda aquecida e isso gera reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

    Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, o crédito é um canal importante de transmissão dos efeitos da alta da Selic. “Boa parte das modalidades [de crédito] tem taxas de juros em março deste ano superior àquela observada no início do ano passado, refletindo o ciclo [de alta da Selic], mas muito aquém do pico da série [histórica do BC, iniciada em março de 2011]. A taxa média de juros mais alta na série histórica para as famílias foi registrada em julho de 2011, quando ficou em 42,7% ao ano.”

    A taxa de inadimplência para as famílias ficou estável em relação a fevereiro, em 6,5%. Segundo Maciel, a inadimplência na maioria das modalidades de crédito “está no piso ou muito próximas a isso”. Uma exceção é a inadimplência de financiamento de veículos que ficou em 11,3%, em março. Por isso, Maciel acredita que ainda há espaço para recuo na inadimplência de financiamento de carros.

    O BC classifica como inadimplência atrasos superiores a 90 dias. Mas o BC também tem dados de atrasos entre 15 e 90 dias, considerado um indicador antecedente de inadimplência. Por esse indicador, os atrasos para pessoas físicas subiram de 6,2%, em fevereiro, para 6,8%, em março. Entretanto, Maciel disse que ainda é preciso esperar para saber se esse aumento mostra uma tendência de alta da inadimplência nos próximos meses. É preciso aguardar um pouco mais para inferir se isso representa uma interrupção da trajetória de declínio das taxas de inadimplência que temos observado desde 2012”, destacou.

    Fonte: Correioweb

    O percentual de famílias brasileiras que afirmaram ter dívidas chegou a 63,4% em janeiro, alta de 1,2 ponto percentual em relação aos 62,2% registrados em dezembro de 2013, segundo dados divulgados nesta quarta-feira pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).. Os débitos dos brasileiros incluem cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro.

    O índice também aumentou na comparação com janeiro de 2013, quando marcou 60,2%. Já o percentual de famílias com contas em atraso recuou tanto na comparação mensal quanto anual, passando de 20,8% em dezembro para 19,5% em janeiro. Em  janeiro de 2013, o  indicador alcançava 21,2%.

    A diferença entre os índices de famílias que têm dívidas com o das que têm contas em atraso é simples. Um consumidor que usa cartão de crédito, por exemplo, e paga suas mensalidades em dia, entra na primeira categoria: ele tem dívidas programadas e se organiza para quitá-las dentro do prazo. Se esse sujeito deixa de pagar um único mês, torna-se inadimplente e entra na segunda categoria, ainda que tenha recursos para cumprir com seu débito no futuro. Se não tiver o dinheiro, vai para um terceiro indicador, o das famílias que não têm condições de pagar suas contas ou dívidas em atraso, permanecendo inadimplentes.

    O percentual dessas famílias ficou estável nas comparações mensal e anual, alcançando 6,5% em janeiro, mostrou a pesquisa da CNC.

    Marianne Hanson, economista da confederação, afirma que, apesar da alta do endividamento no país, os indicadores de inadimplência diminuíram em janeiro.

    “O efeito sazonal dos ganhos com o 13° salário continuou influenciando positivamente esse resultado. Houve, também, melhora na percepção das famílias em relação à sua capacidade de pagar débitos em atraso. Na comparação anual, a melhora no perfil de endividamento permitiu que os indicadores de inadimplência recuassem, apesar do maior nível de endividamento”

    Fonte: G1

    Em Jundiaí, foram demitidos 1.500 trabalhadores. Fabricantes de plásticos que fornecem para montadoras enfrentam redução de pedidos e suspensão de encomendas

    Eduardo* foi pego de surpresa – ou quase. Aos 34 anos, 15 deles dedicados à empresa onde trabalhava com produção de autopeças plásticas, foi demitido. Cursando a faculdade e pai de dois filhos, de fato, não esperava ficar sem emprego, mas confessa não ter estranhado a decisão. A empresa onde ele trabalhava passa por uma reestruturação e o mercado de plásticos para veículos vai mal.

    “Esse segmento é muito cruel. É uma disputa brava por projetos, qualquer coisa que perde já reflete na operação”, conta. A crise na venda de veículos não passaria despercebida. “As montadoras arrancam o couro mesmo. Já vi pegar projeto que dá prejuízo para poder manter o fornecimento para a montadora. As empresas estão cambaleando.”

    Agora, Eduardo vai procurar uma nova colocação. Diz já estar acionando os contatos pelo LinkedIn. “A rescisão foi boa, mas não dá para ficar descansando muito, a oportunidade passa”, comenta. Difícil vai ser conseguir novamente os R$ 7,5 mil que ganhava. “Era acima da média de mercado, já havia recebido propostas em que não pagavam isso.”

    Eduardo é um dos 1,5 mil já demitidos em Jundiaí (no interior paulista), conhecida pela forte produção de materiais plásticos para veículos. O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) ainda não tem número consolidado, uma vez que o aumento no volume de demissões começou neste mês, segundo Alexandro Zavarizi, vice-diretor da instituição.

    No Estado de São Paulo, o saldo de emprego no setor transformação de plásticos – que inclui produtos para cozinha, entre outros – é de 791 empregos neste ano, segundo números fornecidos ao iG pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Esse valor é brutalmente menor que o saldo de 2.297 vagas no mesmo período do ano passado.

    Na empresa que Zavarizi preside, a demanda das montadoras já caiu 25%. Por enquanto o Ciesp segue consolidando as informações de outras fabricantes da região. “Já estamos acompanhando a redução das encomendas e até a suspensão de alguns pedidos”, comenta.

    Os fabricantes de plástico que investiram em diversos mercados ainda encaram o momento sem grandes traumas. O mesmo não acontece com as indústrias que produzem exclusivamente para a cadeia automotiva. “Esses já estão demitindo em massa”, comenta Zavarizi. “Especialmente quem fabrica para modelos de veículos mais antigos, que estão para sair de linha. Os modelos novos ainda estão rendendo algumas encomendas.” O executivo não sabe dizer quais são as montadoras que estão cortando os pedidos;

    Zavarizi explica que a queda na produção tem como pano de fundo em questões relacionadas ao mercado externo. O fechamento das portas do mercado e a queda na cotação do dólar não só dificultaram a venda de produtos nacionais como também estimularam a entrada de produtos importados.

    Os efeitos do programa Inovar-Auto, que previa 60% de nacionalização do conteúdo, também frustraram os industriais. “A coisa não ficou como imaginávamos ainda”, lamenta o empresário. O mau momento enterra a expectativa dos empresários do mercado de plástico, que contavam um aumento de demanda das montadoras, que estariam de olho no cumprimento dos requisitos de redução no consumo de combustível – quanto mais plástico, mais leve e menos poluente o veículo.

    Sindicatos entram em estado de alerta

    Na base do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Material Plástico de Jundiaí e Região (Sindiplástico, ligado à Força Sindical), desde janeiro já foram demitidos 11% ou 1,5 mil trabalhadores ligados à produção de materiais plásticos, segundo João Henrique dos Santos, presidente da

    Os fabricantes de plástico que investiram em diversos mercados ainda encaram o momento sem grandes traumas. O mesmo não acontece com as indústrias que produzem exclusivamente para a cadeia automotiva. “Esses já estão demitindo em massa”, comenta Zavarizi. “Especialmente quem fabrica para modelos de veículos mais antigos, que estão para sair de linha. Os modelos novos ainda estão rendendo algumas encomendas.” O executivo não sabe dizer quais são as montadoras que estão cortando os pedidos;

    Zavarizi explica que a queda na produção tem como pano de fundo em questões relacionadas ao mercado externo. O fechamento das portas do mercado e a queda na cotação do dólar não só dificultaram a venda de produtos nacionais como também estimularam a entrada de produtos importados.

    Os efeitos do programa Inovar-Auto, que previa 60% de nacionalização do conteúdo, também frustraram os industriais. “A coisa não ficou como imaginávamos ainda”, lamenta o empresário. O mau momento enterra a expectativa dos empresários do mercado de plástico, que contavam um aumento de demanda das montadoras, que estariam de olho no cumprimento dos requisitos de redução no consumo de combustível – quanto mais plástico, mais leve e menos poluente o veículo.

    Sindicatos entram em estado de alerta

    Na base do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Material Plástico de Jundiaí e Região (Sindiplástico, ligado à Força Sindical), desde janeiro já foram demitidos 11% ou 1,5 mil trabalhadores ligados à produção de materiais plásticos, segundo João Henrique dos Santos, presidente da entidade.

    Para Santos, os empresários estão contando com a mão amiga de Brasília para estimular as vendas e resgatar a indústria. “Só que o governo já está na defensiva, não há previsão de novas medidas e o cenário que se desenha não é nem um pouco favorável”, diz. Futuras demissões não estão descartadas.

    A grande sensibilidade do setor estaria na fragilidade da gestão. “Cerca de 90% dessas empresas são pequenas, aquelas típicas empresas ‘do dono’, que giram conforme o mercado”, explica o sindicalista. A falta de planejamento teria feito com que os administradores fossem pegos de surpresa por esse momento de retração. “Com as empresas grandes a gente até conseguiu negociar três avisos prévios ou extensão do plano de saúde, mas com as pequenas foi demissão sumária mesmo.”

    Sérgio Luiz Leite, presidente Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado de São Paulo (Fequimifar, ligada à Força Sindical), já solicitou mais informações às suas regionais. “Estamos em alerta, porque como as montadoras não trabalham com estoques a crise chega instantaneamente no nosso setor”, sinaliza.

    Ameaça se espalha pelo interior de São Paulo

    As regiões de Americana e Sorocaba (no interior paulista) também estão em estado de alerta com a crise na indústria automotiva. Fabrício Cardoso, presidente do Sindicato dos Químicos de Americana e Região (ligado à Força Sindical), que engloba sete cidades, conta que ainda não enfrenta demissões, mas não desconsidera essa possibilidade. Por conta disso, três advogados já estão o dia inteiro fazendo homologações de funcionários.

    Já em Guarulhos (na Grande São Paulo), Antonio Silvan Oliveira, presidente do Sindicato dos Químicos de Guarulhos e Região (ligado à Força Sindical), acha que o aumento no custo dos juros tem sido o maior gerador de impacto. “A demanda ainda não caiu tanto, mas as empresas já estão sem capital de giro”, explica. “As demissões que tivemos estão mais relacionadas às dificuldades financeiras que à parada de produção.”

    Na região, além dos plásticos também são produzidas as tintas para automóveis. “Ainda acho que vamos ver uma melhora do cenário no segundo semestre.”

    Fonte: Ig

    Com os pátios das fábricas abarrotados e as vendas de automóveis em queda, pelo menos 11 montadoras já anunciaram medidas para diminuir a produção no país, como férias coletivas, na tentativa de reequilibrar a oferta com o apetite do consumidor.

    Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) indicam que, no final de março, os estoques eram equivalentes a 48 dias de vendas, volume semelhante ao de novembro de 2008, um dos períodos mais agudos da crise financeira. Estima-se que o tamanho ideal de reserva seria de 23 a 32 dias.

    Além do desaquecimento da economia e do endividamento das famílias, contribuíram para a situação a queda das exportações para a Argentina e o aumento da produção das montadoras nos últimos meses de 2013, diz Milad Kalume Neto, executivo da consultoria Jato Dynamics no Brasil, especializada no segmento automotivo.

    – As fabricantes aceleraram a produção no final do ano passado porque a partir de 2014 seria obrigatório que os automóveis viessem com freios ABS e airbag. Com isso, os veículos ficariam em média R$ 1,1 mil mais caros. Em janeiro e fevereiro houve muita venda desse estoque antigo, mas em março o mercado despencou – explica Milad.

    No mês passado, o emplacamento de automóveis nacionais novos caiu 16,5% em relação a março de 2013, enquanto a produção retraiu 16,7%. Milad lembra que em julho termina a retirada escalonada dos incentivos fiscais de IPI, o que tornará os veículos ainda mais caros.

    Por ser um ano eleitoral, o especialista ainda espera medidas do governo federal, sob pena de demissões na indústria. Com a alta da Selic, dificilmente a saída seria reduzir juros ao consumidor. A alternativa poderia ser facilitar acesso ao crédito.

    Na unidade da General Motors (GM) no Rio Grande do Sul a situação é melhor, mas a montadora avisou que haverá parada de dois dias de produção, embora não tenha confirmado datas, revela Edson Dorneles, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Gravataí. A entidade chegou a ameaçar uma greve, mas desistiu na quinta-feira.

    Na contramão do mercado nacional, as vendas dos dois veículos produzidos na planta gaúcha, Onix e Prisma, aumentaram na passagem de fevereiro para março.

    – Mas visualmente dá para perceber que há muito carro no pátio. Temos receio porque não somos uma ilha – afirma Dorneles.

    Enquanto o mercado interno ainda demonstra procura pelos veículos leves produzidos no Estado, os primeiros sinais do ano quanto às exportações gaúchas são preocupantes. O sistema de consulta do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior mostra que, na comparação do primeiro trimestre de 2013 com o período equivalente deste ano, os embarques de automóveis caíram de US$ 42,3 milhões para US$ 9 milhões.

    Barreiras argentinas emperram exportações

    O quadro reflete principalmente as barreiras impostas pela Argentina, destino de quase toda a exportação gaúcha de automóveis no ano passado. O cotejo dos dois trimestres mostra que as vendas para o país vizinho murcharam de US$ 40,7 milhões para apenas US$ 1 milhão. Em unidades, a queda foi de 5 mil veículos para somente cem.

    Apesar das exportações, o Índice de Desempenho Industrial (IDI) do setor de veículos – que engloba automóveis, caminhões, ônibus e autopeças – aponta para uma situação razoável pelo menos até o primeiro bimestre.

    O Indicador da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) mostra em fevereiro um nível de atividade positivo em relação a janeiro, na comparação com o mesmo mês do ano passado e em 12 meses. No acumulado do ano, porém, está abaixo do bimestre inicial de 2013.

    Fonte: Zerohora

    Com pátios lotados, montadoras liberam pessoal e cortam produção

    Quase metade das fabricantes de veículos do país anunciou medidas de redução da jornada de trabalho, como férias coletivas e dispensa temporária de funcionário

     

    A queda de 8% na produção de veículos no primeiro trimestre e de 32% nas exportações para a Argentina no mesmo período já afeta o regime de trabalho nos principais parques automotivos brasileiros. Das 20 fabricantes de automóveis, comerciais leves e caminhões instaladas no país, quase metade anunciou alguma medida para reduzir o ritmo de produção, como corte de turno, férias coletivas e plano de demissão voluntária. Nessa lista estão Volkswagen, Renault, Fiat, Peugeot-Citroen, Ford e GM, na área de automóveis, e Mercedes-Benz, Man e Scania, na de caminhões.

    Sem saída

    Metalúrgicos da Volks aprovam suspensão de mais 400 contratos

    Após três assembleias, os trabalhadores da Volkswagen em São José dos Pinhais aprovaram a proposta da montadora de suspender os contratos de trabalho de mais 400 empregados. Em fevereiro outros 300 já tinham tido seus contratos interrompidos por três meses. Com essa nova leva, cerca de 30% dos funcionários de chão de fábrica da Volks no Paraná vão ficar em casa nos próximos meses.

    A suspensão – conhecida como layoff – é um mecanismo previsto na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que autoriza a empresa a interromper temporariamente os contratos de trabalho. Os 400 funcionários da Volks ficarão cinco meses sem trabalhar a partir do próximo dia 5.

    Segundo Jamil D’Avila, secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, dos 300 que tiveram os contratos suspensos no início do ano, 150 entraram em recesso em fevereiro e outros 150 vão parar em junho. Cada grupo desse ficará afastado das funções por três meses.

    Nesse período, a empresa vai pagar parte dos salários, que serão complementados com o valor do seguro-desemprego. Benefícios como participação nos lucros e resultados (PLR), férias e 13.º salário são mantidos. A empresa pagará 8% do valor do FGTS. A medida tem como objetivo equilibrar a demanda aos estoques. A Volks tem uma capacidade de produção de 870 veículos por dia, mas hoje monta 640.

    Os funcionários que estarão fora da linha de produção receberão treinamento e qualificação. A Volks planeja lançar novos produtos em 2015, entre eles o novo Golf. Hoje a empresa fabrica os modelos Fox, CrossFox e Spacefox no Paraná.

    Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), no fim de março havia 387,1 mil veículos acumulados nos pátios, o que equivale ao volume de vendas de 48 dias. É o estoque mais alto desde novembro de 2008, quando correspondia a 56 dias de vendas. O setor considera saudável um estoque entre 25 e 35 dias.

    Impacto

    Diante disso, montadoras instaladas no Paraná adotaram medidas de contenção. Ontem, os funcionários da fábrica da Volkswagem em São José dos Pinhais, na região de Curitiba, aprovaram a proposta da montadora para suspender temporariamente mais 400 contratos de trabalho, a partir de maio.

    Já a Renault, que cortou parte da produção após o Carnaval, parou a linha de montagem de automóveis, também em São José, ao decidir prolongar a folga do feriado de Tiradentes até o fim da semana.

    Antes da Páscoa, a Fiat concedeu férias coletivas de 20 dias a 800 funcionários na fábrica de Betim (MG). Mas a ação mais radical até agora foi da Mercedes-Benz, que anunciou um plano de demissão voluntária e suspendeu um dos dois turnos da linha de caminhões em São Bernardo do Campo (SP). Parte do excedente de mão de obra – estimada em cerca de 2 mil operários – ficará afastada da fábrica por meio de licença remunerada.

    Para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, Sergio Butka, a situação preocupa porque não há sinais de reação do mercado. “No Paraná, o caso mais difícil é o da Volkswagen, porque a empresa adiou a renovação de produtos e o mercado interno está mais fraco. No caso da Renault, o principal problema é a crise na Argentina”, diz. O mercado argentino é o destino de 13% da produção brasileira de veículos.

    Autopeças

    O pé no freio das montadoras já atinge a cadeia de autopeças. “O ajuste é imediato”, diz o presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças) no Paraná, Benedicto Kubrusly Júnior. Segundo ele, no entanto, ainda não há informações sobre demissões no setor.

    Kubrusly afirma que o mercado não deve esboçar reação até o fim do semestre, ainda pressionado pelo endividamento do consumidor, o fim da redução do IPI e o crédito mais seletivo por parte dos bancos. “As montadoras não vão conseguir produzir o mesmo que em 2013, como previam inicialmente. A produção vai cair”, prevê.

    Anfavea propõe mais prazo para férias coletivas

    Da Redação

    A indústria automotiva e as centrais sindicais discutem, conjuntamente, uma proposta para flexibilizar as férias coletivas e manter o emprego na indústria. Segundo o presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, a proposta consiste em ampliar o prazo para suspensão de contratos de trabalho (o chamado layoff) em tempos de queda na produção para evitar demissões. As informações são da Agência Brasil.

    Atualmente, a legislação permite que as montadoras concedam férias coletivas de até cinco meses aos empregados. Nesse período, os trabalhadores ficam em casa recebendo 100% do salário líquido. Do total, parte é bancada pelas empresas e parte é coberta pelo seguro-desemprego. De acordo com Moan, os empresários e os trabalhadores querem a ampliação do prazo de dispensa, mas o novo período de férias coletivas ainda não está definido.

    A proposta, disse o presidente da Anfavea, ainda não foi discutida com o governo. “Essa é uma ideia que está sendo formatada. Não há nenhuma definição. Estamos traçando, com as centrais sindicais, um planejamento de médio e longo prazo”, esclareceu.

    Na opinião dele, a flexibilização das férias coletivas é essencial para preservar os postos de trabalho.

    Fonte: Gazeta do Povo

    O saldo da geração de empregos formais no mês de abril  de 2014 foi de 105.384 vagas, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados nesta quarta-feira, 21, pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O número é o resultado da diferença entre 1.862.515 contrações e 1.757.131 demissões. Conforme a pasta, o número é o pior para meses de abril em 15 anos.

    O resultado ficou abaixo do piso do intervalo das previsões dos economistas do mercado financeiro ouvidos pelo AE Projeções, que esperavam saldo líquido de empregos formais de uma geração de 130 mil a 208 mil vagas. A mediana encontrada foi de criação de 160 mil postos de trabalho.

    Na crise, vale tudo para atrair clientes aos shoppings

    Crise faz administradores negociarem aluguéis com lojistas, e os novos projetos minguam


    Eventos como desfiles, shows e recreação infantil, além de promoções, compõem a estratégia dos shoppings para atriar o cliente e ampliar vendas em tempos de crise – Gustavo Stephan / Fotos de Gustavo Stephan

     

    A expectativa é que 15 shoppings sejam inaugurados até dezembro, ante 25 em 2014. Até julho, as vendas em shoppings subiram 3,5% – um tombo em relação aos 7% do mesmo período de 2014. A previsão original para este ano era de 8,5%, segundo dados da Associação Brasileira de Shoppings Centers (Abrasce).

    – As inaugurações deste e do próximo ano foram pensadas há dois, três anos, em um momento que a economia estava melhor. Vemos poucos lançamentos em 2017, porque agora o momento da economia é pouco favorável – diz Adriana Colloca, da Abrasce.

    Além disso, quando possível, a inauguração de empreendimentos está sendo adiada.

    – Alguns shoppings estão postergando os projetos, para não pegar o pior momento da economia. Esperam conseguir comercializar os seus espaços em melhores condições – explica Luiz Alberto Marinho, sócio-diretor da consultoria em varejo GS&BW.

    PROMOÇÕES E EVENTOS

    Para evitar que o cenário se agrave, os administradores de shoppings investem em promoções e eventos, sem se restringir às datas fortes do varejo, como Dia das Mães e Natal.

    – Isso faz com que o fluxo aumente e o consumidor pode fazer alguma compra por impulso – explicou Eduardo Prado, superintendente de Relações com Investidores da Aliansce, que administra, entre outros, o West Plaza, em São Paulo, e o Leblon, no Rio.

    Em agosto, o fluxo de pessoas em centros comerciais do país caiu 3,3% ante igual mês de 2014, segundo o Ibope. As vendas têm crescido cada vez menos, conta Felipe Vasconcelos, diretor-executivo da Brookfield Gestão de Empreendimentos. A inadimplência, o prazo de vacância (período em que uma loja fica fechada) e a rotatividade estão maiores. Os mais afetados são aqueles mais novos e os voltados para a classe C, público mais afetado pela alta dos preços.

     

    – Num período de crise, quanto maior a diversidade do mix de lojas e serviços, maior a resiliência do shopping, pois está mais atrelado ao dia a dia das pessoas – explica Eduardo Novaes, diretor superintendente de shoppings da Multiplan.

    A empresária e estilista Mary Zaide aposta em qualidade de serviço e em operações enxutas para atravessar o período de retração no consumo – Gustavo Stephan

    Com os lojistas vendendo menos, a Abrasce viu a inadimplência subir de 3,8% para 4,4% no primeiro semestre, em comparação ao mesmo período de 2014. Christian Vasconcellos, que dirige a área de shoppings da JHSF, que administra o Cidade Jardim, avalia que é preciso ajudar o lojista a vender mais, como ações de marketing e promoções, e a reduzir os custos do condomínio. Já os descontos são dados caso a caso.

    – Este ano, não reajustamos o condomínio, economizando em custos de água, energia e mão de obra. O fundo de promoção foi reduzido de 24% para 21% do valor do aluguel. E mesmo o pagamento do aluguel é negociado em alguns casos – diz Cecília Figueiredo, superintendente dos shoppings cariocas Rio Design Barra e Leblon.

    Maria Fernanda de Poli, corporativa de marketing da BRMalls, conta que é preciso se adaptar às necessidades do consumidor:

    – Só liquidação não basta. A experiência mostra que se fisga o cliente pela emoção. Focamos em entretenimento para a família e buscamos trazer a pessoa para o shopping oferecendo momentos de felicidade e relaxamento. A venda é uma consequência disso.

    A estratégia parece funcionar. A cabeleireira Luciene Lopes, que mora e trabalha na Zona Sul, foi pela primeira vez ao Rio Design Barra na última quinta-feira. Levou os dois cachorrinhos da família, em companhia da filha e do marido, para o desfile pet que abriu a programação da edição deste ano da Vogue Fashion’s Night Out. Depois da passarela, ela ficou para rodar pelos corredores do mall.

    QUITUTES E CHAMPAGNE

    Juntos, os dois Rio Design somaram R$ 1,5 milhão em vendas no dia do evento de moda do ano passado. As lojas ofereceram uma profusão de produtos inspirados na coruja-símbolo do programa da Vogue – incluindo camiseta de colorir – contrataram barmen, DJs, montaram mesas com quitutes e champagne. E havia descontos de até 50%.

    A estilista e empresária Mary Zaide, à frente da grife homônima, recebia pessoalmente, ao lado das filhas Flávia e Renata, a clientela na filial do Rio Design Barra. Ela afirma que, na crise, é preciso reforçar mais o serviço:

    – Hoje, as pessoas buscam bom serviço e preço justo, estão mais seletivas. É um ano para se recolher, tirar o que não está funcionando e se preparar para a retomada.

     

    Ainda assim, há grupos firmes na expansão. A carioca Saphyr inaugura o Bossa Nova Mall, no terminal vizinho ao Aeroporto Santos Dumont, em novembro. E apostam no perfil de entretenimento do projeto, que contará com hotel, casa de show, restaurantes, vista para a Marina da Glória e a Baía de Guanabara, além de ser vizinho de museus e do Centro do Rio, como garantia de resultado.

    – O Bossa Nova é uma espécie de shopping temático do Rio de Janeiro, tem um quê de atração turística, boa localização – diz Luís Henrique Stockler, da consultoria ba}Stockler.

    Eliza Santos, gerente de marketing corporativo da Saphyr, destaca justamente esse perfil de entretenimento como o trunfo do Bossa Nova para conquistar mercado. Nos demais empreendimentos do grupo, os esforços estão concentrados em eventos e novidades como lojas temporárias, as pop-up stores.

    Fonte: O Globo

    Sonhos adiados na classe C

    Após década de bonança, camada social sofre mais com a crise e abre mão de projetos para o futuro

    Na última década, o bom momento da economia elevou milhões de brasileiros à classe média. Com juros baixos e renda em alta, a chamada classe C conseguiu comprar carro, financiar a casa e entrar na faculdade. Agora, sente o peso da crise e se vê obrigada a adiar sonhos. Das grandes compras ao consumo do dia a dia, precisou frear o processo de ascensão social para não perder as conquistas acumuladas no período de bonança.

     

    Inflação e endividamento cancelam projetos

    A consultora de negócios Fernanda Alves cogita trocar o curso presencial por outro à distância, no qual a mensalidade custa um terço do valor – Custódio Coimbra / Agência O Globo

     

    A crise não estava nas contas da família Almeida. Há dois anos, Mario e Marlene Almeida, de Queimados, Baixada Fluminense, resolveram abrir a própria lanchonete, embalados por uma economia que, embora já desse sinais de desaceleração, ainda resistia — cresceu 2,5% em 2013, ante um horizonte de recessão de até 2% este ano. Hoje, o sonho de empreender perdeu o brilho. Com o freio no consumo no país, as vendas do negócio despencaram 70%, passando de R$ 500 para R$ 150 por dia de fim de semana. Ao mesmo tempo, a conta de luz da loja subiu mais de 65%, saltando de R$ 160, em dezembro passado, para R$ 267, em junho. Resultado: o espaço, alugado por R$ 600 mensais, precisou ser fechado, sendo substituído por uma estrutura mais modesta na garagem de casa.

    A história da família Almeida é um retrato do que vive a classe C atualmente. Mais vulnerável, sente mais os efeitos da alta da inflação e dos juros. Com o orçamento familiar encolhendo, há corte de gastos e aumento do endividamento. Caso o cenário de recessão persista, as conquistas socioeconômicas da última década estarão ameaçadas, avaliam especialistas ouvidos pelo GLOBO. Por ora, para evitar o retrocesso, a classe média faz bicos para manter suas conquistas e adia sonhos — do projeto de ampliar o próprio negócio à compra do carro zero quilômetro, dos supérfluos na cesta de consumo ao investimento em educação superior.

    — Fui obrigado a fazer um “bico” numa transportadora, e ganhava R$ 1.500 por mês — conta Mario de Almeida, motorista de ônibus aposentado, que foi obrigado a parar de prestar o serviço após o diagnóstico de problemas cardíacos. — Chegamos a colocar o carro à venda, mas desistimos por causa da minha saúde.

    O esforço para ampliar a renda vem de uma necessidade comum às famílias da classe média: pagar dívidas. Os Almeida somam dois empréstimos consignados no valor de R$ 16 mil, contratados em 2012 e que devem ser quitados ano que vem. Mario recebe aposentadoria de R$ 1.700, de onde sai a parcela para pagar esses débitos. Sobram pouco mais de R$ 1 mil. Por mês, a família desembolsa R$ 540 para pagar o imóvel adquirido pelo Minha Casa Minha Vida três anos atrás. O financiamento se alonga por mais 22 anos. Pesa no déficit doméstico um empréstimo de R$ 7 mil obtido junto a familiares, além do cartão de crédito, cuja dívida pulou de R$ 800 para R$ 2 mil em quatro meses.

    ‘Quem provou mel dificilmente volta para o melado’

    – DORIVAL MATA-MACHADOPesquisador do Instituto Ipsos

    Com menor margem de manobra para acomodar reajustes de preços, a classe média tem mais dificuldade de pagar as contas em dia, explica Marianne Hanson, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Pesquisa da entidade mostra que a fatia de famílias endividadas com renda de até dez salários mínimos subiu de 58,8% para 63,3% em 2015. Nos lares com rendimento superior a dez salários, a expansão foi de 50,8% para 55,4%.

    A inadimplência no grupo de menor renda saltou de 19,8% para 24,1% de janeiro a julho, segundo a CNC. O percentual dos que se disseram sem condições de pagar dívidas avançou de 7,4% para 9,5%. No grupo acima de dez salários, o volume de pessoas com contas em atraso passou de 8,6% para 9,8%. O percentual dos que preveem dar calote foi de 2,6% para 2,8%.

    Parte da explicação para o quadro está na perda de poder aquisitivo, especialmente nas famílias com renda de até 2,5 salários mínimos, considerada a faixa mais vulnerável da classe C. A inflação dos últimos 12 meses ficou em 9,61%. Entre famílias de renda menor, ela chega a 10,31%, segundo o economista André Braz, da FGV, com base no Índice de Preços ao Consumidor, calculado pela entidade.

    PODER AQUISITIVO CAI 10%

    Despesas com itens básicos pesam mais no orçamento de quem ganha menos. O grupo de alimentação e bebidas, que responde por 25% do índice oficial de inflação, representa mais de 30% da cesta de produtos consumidos pelos mais pobres.

    — Se a inflação subiu 10%, a renda das famílias dessa classe recuou em termos reais. Na prática, eles precisam desembolsar mais dinheiro para consumir a mesma cesta de bens e serviços de um ano antes. Isso mostra que a inflação já pesa mais para os menos favorecidos — explica Braz.

    Há ainda uma crise de confiança do consumidor, pondera Dorival Mata-Machado, do Instituto Ipsos. A queda na renda e a retração no mercado de trabalho seguram os gastos. No entanto, o esforço é para manter as conquistas:

    — A classe C levou um tombo em confiança. Depois do que experimentou, em melhorias de condições de vida e ganho de renda, é frustrante a expectativa de deixar esse caminho de melhora. É como se diz em Minas Gerais: Quem provou mel dificilmente volta para o melado.

    Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, a classe C está empenhada em fazer o ajuste doméstico pois não vê saída para a crise. O lado positivo é que, ao mesmo tempo, se vira para manter o patamar de consumo conquistado:

    — A classe média se vira sempre. Está acostumada a contornar dificuldades e se sai melhor na crise. Encontra uma forma de complementar a renda, faz hora extra, arruma uma segunda atividade. Faz rodízio de contas, num mês paga as Casas Bahia; no outro, a conta de luz. A crise é forte, mas não há indicativo de encolhimento da classe C. Isso só aconteceria com o desemprego em torno de 15%.

    O peso da inflação já fez os planos da técnica de laboratório Flávia Rezende mudarem. Moradora de Inhaúma, Zona Norte do Rio, adiou o projeto de substituir o Gol ano 2000 — parado na garagem à espera de conserto — por um zero quilômetro. As viagens foram cortadas:

    — Está tudo mais difícil para quem é pobre. A última vez que viajamos foi para a Região dos Lagos, queríamos ter feito uma viagem melhor — diz Flávia, que trocou a casa alugada por um imóvel menor e próprio, após reajuste do aluguel em 50%.

    ‘PERSPECTIVA DE FUTURO PREOCUPANTE’

    Faltam recursos para pagar mensalidades escolares, sobretudo em curso de nível superior. Muitos jovens estão entrando no mercado de trabalho para reforçar o orçamento familiar. A Educafro, ONG que mantém uma rede de cursos de pré-vestibular para afrodescendentes e carentes, registra evasão de 30% no primeiro semestre, conta Frei David, à frente da entidade:

    — A evasão preocupa. A perspectiva de futuro que o povo pobre está projetando para si é preocupante. Um dos problemas é os governos não incluírem a gratuidade de transporte público para estudantes de pré-vestibulares comunitários.

    O aperto nas finanças, diz ele, leva jovens já na universidade a desistir ou a adiar o curso. A ONG tem uma rede de instituições de ensino conveniadas, que oferece bolsas a estudantes. Mês passado, a Unicastelo, de São Paulo, rompeu o contrato, levando centenas de alunos a deixarem a faculdade, diz Frei David:

    — Só para a Unicastelo enviamos 1.065 alunos em 2013 e 2014. Este ano, mais de 600 abandonaram seus cursos. Houve suspensão de bolsa, aumento súbito das mensalidades, além do corte do Fies, que atingiu em cheio os pobres, e a crise econômica. Enviamos contranotificação à UniCastelo, contestando a rescisão em 18 de julho. Não obtivemos resposta. Vamos fazer uma ocupação da universidade.

    A recepcionista Jennipher Nascimento, de 20 anos, abandonou o curso de Odontologia na Unicastelo, iniciado em 2014:

    — Comecei com bolsa de 50%, pagando R$ 570. No meio do ano, a regra mudou. E metade da mensalidade seria paga pelo Fies. Como isso não se confirmou, teria de pagar R$ 1.100. Sem desconto, não dá.

    A Unicastelo argumenta, em nota, que a crise atinge o segmento educacional. E destaca “o agravamento das dificuldades causado pelas alterações realizadas pelo governo federal na sistemática do Fies, privando milhares de alunos que pleiteiam uma vaga nas instituições de ensino de prosseguirem com seus estudos, acarretando perda de receita considerável para as instituições, obrigando-as a rever estratégias”. Nesse sentido, a universidade rescindiu o contrato com a Educafro e com as outras instituições com as quais mantinha convênios. Ressalta, porém, que a medida não afeta alunos da ONG já beneficiados.

    Frederico Abreu, diretor financeiro da Kroton, maior grupo de educação privada do país, afirmou, na semana passada, que “existe um potencial de aumento da inadimplência”. Ele admitiu que o pagamento em dia desde o início do ano está “um pouco pior”. A empresa trabalha em planos de controle da evasão de alunos diante da queda da renda da população e de mudanças regulatórias no Fies.

    O funcionário público Reinaldo Oliveira adiou a entrada do filho na faculdade:

    — Em fevereiro, teria como pagar a mensalidade do Pedro. Mas o aluguel subiu quase 65%. Pensamos em partir para a compra da casa própria, mas não é viável pagar a entrada ou valor das prestações.

    Já a consultora de negócios Fernanda Alves cogita trocar o curso presencial por outro à distância, no qual a mensalidade custa um terço do valor. Em 2010, ela iniciou o curso de publicidade na Unigranrio. Fez apenas um semestre. Desde então, teve dois filhos e está construindo uma casa:

    — Assim que tranquei, deixei três meses em aberto. Só consegui pagar no ano passado. Tentei conseguir bolsa ou desconto para não parar, já que meu trabalho exige curso superior para que eu seja promovida.

    No supermercado, menos tem de ser mais

    A hora de ir às compras é, para o consumidor da classe C, a de encarar a realidade: o dinheiro no bolso já não é suficiente para encher o carrinho como antes. Com a renda garfada pela inflação, a nova classe média tem encontrado alternativas para lidar com a crise. Busca promoções, compra menos, evita supérfluos, pesquisa mais.

    Essa é a receita da produtora de eventos Elma Lúcia Antônio. Com renda familiar de R$ 4 mil, ela tenta manter as compras de mês na faixa dos R$ 600. Da última vez, no entanto, não conseguiu cumprir a meta. Acabou gastando cerca de R$ 620 e diz que levou menos do que gostaria:

    — Não uso mais vários produtos de limpeza. Para economizar, passo cloro em tudo.

    Este ano, 28 categorias estão perdendo espaço na cesta de consumo da classe C, ante cortes de 22 na AB e 11 na DE, segundo dados da Nielsen. Outro parâmetro do freio nas compras é que 64% dos supérfluos têm presença decrescente nos itens comprados pela classe média, enquanto produtos mais básicos avançam 56%. A meta é comprar o necessário e na medida do consumo.

    Fazer poucos produtos renderem mais é lema da cantora Noêmia Duque. A inspiração vem da infância. Baiana que mora no Rio há 20 de seus 44 anos, ela hoje usa as receitas da mãe que, na infância, precisava alimentar sete filhos:

    — Não dava pra fazer bife todos os dias. Minha mãe fazia omelete, e a gente achava que era um manjar dos deuses. Hoje, faço risoto no lugar de moqueca para render mais.

    De acordo com a Nielsen, a classe C gastava 15,1% mais do que recebia em 2013. Do ano passado para cá, essa taxa encolheu para apenas 2,9% a mais que a receita. Os reflexos no consumo são imediatos.

    — Em 2015, a classe C estabilizou o número de idas ao ponto de venda e o aumento do tíquete médio. E há mudança no consumo. A categoria de acesso, quando a pessoa compra um produto que nunca consumiu, parou de crescer. E ela só faz a troca por um produto de qualidade superior ao que usa se enxergar vantagem real na troca — explica Natalia Uliano, analista de mercado da Nielsen.

    Substituir marcas mais caras por mais baratas foi a estratégia encontrada pela técnica de laboratório Flávia Rezende, que cortou supérfluos. Nem o cereal matinal pedido pelo filho de 13 anos escapou da tesourada.

    — Estou substituindo as marcas, principalmente. Hoje fiz compras e troquei a marca líder, que estava R$ 4,95, por outra que saiu por R$ 2,99. Meu filho adora cereal, e não estou podendo mais comprar — diz ela.

    Outras estratégias são a compra de produtos de marca própria das varejistas, com preço até 30% menor, e o uso de encartes de promoções para garantir o melhor preço na boca do caixa, diz o consultor de varejo Marco Quintarelli.

    Apesar do mau momento, a classe média deve continuar comprando este ano. Segundo Marcos Pazzini, sócio da IPC Marketing, o gasto médio dos domicílios da nova classe média baterá R$ 42,8 mil em 2015. O valor é 24% superior ao calculado para 2014, mas o avanço é menor que o das outras classes sociais, menos impactadas pela crise.

    — A classe C ainda está resistindo bravamente à crise, mas, a partir do momento em que os níveis de emprego começarem a diminuir, pode ter uma menor participação no potencial de consumo brasileiro — avalia Pazzini.

    Christian Travassos, gerente de Economia da Fecomércio-RJ, lembra que o forte freio em vendas é também consequência do pico de consumo experimentado nos últimos anos.

    Analistas veem risco de retrocesso social

    Lojas fechadas na praça central do shopping Itaipu Multicenter – Hermes de Paula / Agência O Globo

    O processo de encolhimento da classe C já começou e pode se intensificar, caso o mercado de trabalho não reaja rapidamente. A análise é do economista Waldir Quadros, professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp. O pesquisador usa um critério próprio para classificar a população brasileira, em que a profissão também influencia. Pela metodologia, professores do Ensino Médio e técnicos em contabilidade, por exemplo, estão entre as ocupações mais comuns da chamada média classe média. Assim, divide o país em cinco padrões de vida, que vão de “alta classe média” a “miseráveis”.

    Com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), cujos dados mais recentes são referentes a 2013, Quadros calcula que, naquele ano, a população da média classe média encolheu de 2,6 milhões de pessoas, na comparação com 2012, desconsiderando o crescimento populacional no período. Os dados são de um estudo publicado no ano passado.

    — Os mais prejudicados foram os que subiram recentemente, de 2004 para cá. As tendências estão claras. Olhando o que aconteceu em 2013, projetamos que 2014 e 2015 vão ser piores ainda — avalia Quadros

    Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), também vê risco de encolhimento da classe C e retrocesso social:

    — Se as condições atuais se deteriorarem ainda mais, o retrocesso socioeconômico será inevitável. Já existe perda de renda. Isso freia o consumo em diversas frentes, no supermercado, na saúde, na educação — afirma Oliveira. — As pessoas já estão sendo afetadas. Elas já precisam fazer escolhas que incluem perdas em qualidade de vida. Todos já sofrem um rebaixamento em bem-estar.

    Rudi Rocha, pesquisador do Instituto de Economia da UFRJ, lembra que a classe C tem se mostrado resiliente à desaceleração da economia. Em artigo de 2013, ele avaliava que a perda de ritmo, que já começava a aparecer, tinha pouco impacto. Mas, agora, destaca que o agravamento da crise preocupa:

    — O que vemos agora é uma crise de grandes proporções. Recessões como esta tendem a afetar mais fortemente trabalhadores com baixa qualificação e com dificuldades de inserção no mercado de trabalho. De todo modo, ainda precisamos de tempo e de uma análise mais cuidadosa a respeito de como os efeitos desta recessão em particular têm se distribuído entre os diferentes setores de atividade e trabalhadores.

    QUEDA NO CONSUMO

    Outros especialistas reconhecem perdas, mas negam o recuo da classe C.

    — A redução no número de postos de trabalho vai reduzir o padrão de vida de muitas famílias. No geral, porém, o cenário hoje não é de encolhimento da classe média. Queda de 2% no PIB e 7% de desempregos não são suficientes para reverter o avanço de mais de dez anos -— diz Marianne Hanson, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

    Já Bianca Ambrósio, gerente de estatística da TNS — uma das consultorias que participou da elaboração do novo critério de classificação social, em vigor desde o início do ano, destaca que não há risco de perda brusca das conquistas da última década. Isso porque o critério mais aceito leva em conta não só a renda, mas também condições mais difíceis de serem perdidas, como anos de estudo.

    — O modelo de classificação socioeconômica é muito robusto A gente não vai ver um movimento brusco das classes, do tipo quem está na classe C ir para D — argumenta Bianca. — A crise vai impactar de forma mais visível só no ano que vem. Quem tem um grau de instrução elevado não vai deixar de ter. Não vão deixar de ter água encanada. O que vai acontecer é que a capacidade dos indivíduos de consumir vai diminuir.

    Esse freio no consumo já aparece nos dados oficiais do IBGE, mostrando que o momento atual é o ponto mais baixo de uma trajetória de desaceleração iniciada há alguns anos. O volume de vendas do varejo cai ano a ano. Em 2012, cresceu 8,4%. Em 2013, 4,3%. No ano passado, a expansão foi de 2.2%. Agora, de janeiro a junho de 2015, registrou retração de 2,2%, pior resultado para o primeiro semestre desde 2003, de acordo com a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC).

    — O consumo continua sendo a mola propulsora, via comércio e serviços, puxando a economia. A vantagem é que nesta crise temos um cliente mais preparado do que em outras crises do passado. As pessoas têm cartão de crédito, há maior número de pessoas com carteira assinada e mais capacidade de manter o padrão de consumo — avalia Christian Travassos, gerente de Economia da Fecomércio-RJ.

    Christine Pereira, diretora comercial da Kantar, lembra que a queda, que iniciou nas grandes compras, os chamados bens duráveis, já começa a aparecer no pequeno varejo, afetando os bens não duráveis também. A consultoria calcula que o volume médio de compras da classe C recuou 10% no semestre, frente a igual período do ano passado — a pior retração entre as classes pesquisadas pelo levantamento.

    — A gente já estava vendo essa racionalização do consumo, com as famílias indo menos vezes aos pontos de venda. Mas, no ano passado, o volume médio se mantinha estável. Agora, começou a cair — argumenta Christine.

    ESFORÇO PARA MANTER PADRÃO

    Uma das principais preocupações de economistas é que uma queda do investimento em educação torne a parcela dos que ascenderam recentemente à classe média ainda mais vulnerável, em um momento de desaceleração do mercado de trabalho. Analistas estimam que o país destruirá cerca de 1 milhão de vagas formais até o fim de ano.

    — Esses 40 milhões que trasladaram estão no maior risco. Eles têm, na média, uma escolaridade mais baixa, e consequentemente uma produtividade mais baixa. São as pessoas menos demandadas pelo mercado de trabalho. Quando o mercado está em crise, demite quem tem menos produtividade — explica Manuel Thedim, coordenador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS).

    A boa notícia é que há um esforço da classe C para manter as conquistas e o padrão de vida atual. As pessoas passaram a buscar formas de complementar o orçamento, o que inclui atividades informais e formais. Áreas como as de gastronomia, beleza e bem-estar estão entre as que podem garantir um dinheiro a mais para as famílias nesse momento de aperto no bolso.

    O Senac RJ registrou o dobro de acessos por informações sobre curso de maquiador em seu site este ano, na comparação com igual período de 2014. A área de ensino à distância — que oferece cursos técnicos com preços até 30% menores que os dos cursos presenciais e maior flexibilidade de horário — teve 50% mais consultas.

    — O brasileiro vai tentar se virar, tem muita criatividade. Vai procurar saídas para atravessar essa crise. Mas a gente está torcendo que esse momento passe o mais rápido possível — afirma Ricardo Ismael, professor do departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio.

    Penhora de joias aumenta 17%

    por Juliana Garçon / Luiza Xavier

    Em 2001, o pai de Ovídio Faria morreu e deixou um cordão de ouro penhorado na Caixa – Leo Martins / Agência O Globo

    Com juros em alta, crédito mais escasso e a capacidade de endividamento dos brasileiros abalada pela crescente inadimplência das famílias —, mais gente está se voltando para uma tradicional forma de conseguir dinheiro com custo relativamente baixo e pouca burocracia: o empréstimo garantido com penhor de joias e metais preciosos, que dispensa análise cadastral, comprovação de renda e avalista. Nos primeiros seis meses deste ano, o número de pessoas que foi a uma agência da Caixa — único banco que faz a operação no país — buscar um fôlego imediato, usando o penhor, aumentou em 16,6% em comparação com o primeiro semestre do ano passado. O salto foi especialmente alto em março, quando o volume de contratos superou em 34% o registrado em igual mês de 2014.

    E o contingente de interessados pode ser maior, mas a Caixa só tem avalistas e faz empréstimos mediante penhor em 479 de suas 3.404 agências. A instituição pretende, até o fim do ano, ampliar os canais de renovação de contratos do penhor, e a operação poderá ser feita até por internet, diz o superintendente de Estratégia de Pessoa Física da Caixa, Jeyson Leyser. Hoje, são fechados 60 mil contratos por mês, com valor médio de R$ 1.360. O limite para empréstimo imediato é de R$ 100 mil.

    Os apelos são evidentes: com poucos documentos e um objeto de valor — diamantes lapidados, pérolas, joias, relógios e canetas originais de valor, metais preciosos (ouro, platina, prata e paládio) e pratarias autênticas —, é possível obter dinheiro no dia, com seis meses para quitar e um dos menores custos do mercado — juro de 1,93% ao mês, contra a média, em julho, de 4,13% ao mês no crédito pessoal e de 10,1% do cheque especial, conforme pesquisa da Associação Nacional de Executivos de Finanças.

    VALOR AFETIVO NÃO TEM PREÇO

    Mas, às vezes, o barato sai caro — em termos financeiros e sentimentais. O professor de educação física Ovídio Faria que o diga: em 2001, o pai dele morreu e deixou um cordão de ouro penhorado na Caixa. Ele entrou com processo para obter o alvará que liberaria o item, mas, toda vez que levava o documento à agência, os funcionários alegavam que não se tratava do papel adequado. O vaivém durou uma década. Após reclamação ao GLOBO, a Caixa informou que encaminhou ofício ao cartório sobre o penhor, “tendo em vista que a sentença judicial contemplava decisão diferente da que constava no alvará apresentado”, acrescentando: “Desta forma, a agência Bangu reiterou o ofício (…) e aguarda retorno do cartório para providenciar a entrega das garantias”. Acontece que a joia sumiu, conta o professor.

    — No processo, dizem que foi extraviada.

    O cordão foi, então, avaliado em R$ 3.500, cifra que Faria considera baixa. Além disso, ele se ressente porque a peça tinha valor afetivo.

    — Sempre disseram que o cordão estava lá, mas nunca mostraram. O cordão tem mais de cem gramas de ouro e foi do meu pai — pondera.

    Procurada pela repórter, a Caixa disse que não se manifestará sobre os desenvolvimentos do processo e informa que, em caso de morte do cliente, “o empréstimo deve ser liquidado pelos herdeiros e, para a entrega dos bens, é necessária a apresentação de alvará judicial, inventário ou partilha por escritura pública”.

    Numa situação análoga, uma cliente de São Paulo ficou sem as joias penhoradas porque a agência onde estavam guardadas foi assaltada. A Caixa reconheceu o dever de indenizá-la, mas o valor a ser pago gerou impasse. O caso acabou na Justiça, que, em primeira instância, condenou o banco a pagar R$ 2.044,25. A cliente achou pouco e pediu elevação do montante para R$ 14.155,80, além de ressarcimento por danos morais, pois as peças tinham valor sentimental: algumas tinham pertencido à mãe, outras foram recebidas em ocasiões especiais, como aniversário de casamento. O processo ainda está em tramitação.

    Sem comentar o caso específico, a Caixa afirma apenas que “utiliza diversos meios de segurança com modernos equipamentos eletrônicos para proteção das garantias”, completando: “Em quase dez anos, houve apenas uma ocorrência de furto com menos de 50 garantias. Não existem ocorrências registradas de algum tipo de desvio de garantia”.

    No Rio, o aposentado Marcelo Bastos Goulart conseguiu o empréstimo — e a devolução das peças, quando fez o pagamento —, mas reclama que o atendimento foi muito ruim. Relata que teve de esperar “por horas” na agência de Copacabana até ser atendido. A Caixa diz que tem cerca de 900 avaliadores de penhor, “que suprem a necessidade atual de atendimento”.

    O ALTO CUSTO DA INADIMPLÊNCIA

    Se o empréstimo é barato, o custo da inadimplência é alto: se o pagamento estiver com mais de 30 dias de atraso, a peça pode ir a leilão. E, segundo a Caixa, não é preciso nem avisar o cliente. “Mesmo não sendo obrigatório, a Caixa emite aviso de licitação para todos os clientes que possuem contratos relacionados, além de publicar edital em jornal de grande circulação e em sua vitrine virtual”. O advogado Gustavo Gonçalves Gomes, sócio de relações de consumo do escritório Siqueira Castro, discorda:

    — Se, por algum motivo, o banco precisar se desfazer do bem em virtude do não pagamento da dívida, o devedor precisa ser cientificado de que o bem poderá ser leiloado ou vendido.

    Não foi o que aconteceu com uma cliente da região Sul, que ajuizou uma ação após suas joias — de grande valor sentimental, entre elas, alianças de casamento e bodas — serem leiloadas. Ela argumentou que, ao não comunicar que venderia as peças, a Caixa feriu o Código de Defesa do Consumidor (CDC). O Tribunal Regional Federal da 4ª Região contudo, negou indenização por danos morais.

    A respeito do leilão, a Caixa destacou que “não tem interesse na venda das garantias, mas é um instrumento necessário para manter a carteira saudável. O cliente deve manter seus dados cadastrais atualizados, principalmente quando houver alteração de endereço”. E frisou: “O percentual de garantias vendidas é menor que 1% do estoque”.

    Para evitar que a dívida se transforme em mágoa, aconselha Gonçalves, é preciso estar atento a todas as condições: valor estimado do bem, juros e prazos de vencimento.

    — Esse tipo de operação é muito comum em crises, quando o consumidor precisa obter rapidamente algum tipo de aporte financeiro.

    Fonte: G1

    Expectativa é que a nova CPMF traga R$ 80 bilhões aos caixas dos governos

    A proposta pode chegar ao Congresso na próxima segunda-feira, a depender dos avanços das negociações com os parlamentares

    Com novo nome, mas a velha alíquota de 0,38% sobre qualquer operação bancária, o governo ameaça ressuscitar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), admitiu ontem à noite o ministro da Saúde, Arthur Chioro. Ele assegurou que não se trata de uma proposta pessoal, mas algo discutido com a presidente Dilma Rousseff — no primeiro semestre, ela o desautorizou a falar sobre o tema.

    Na tentativa de tornar palatável a proposta altamente impopular — ainda mais com o país mergulhado em recessão —, a ideia é dividir a receita com estados e municípios, que seriam obrigados, como o governo federal, a direcionar os recursos exclusivamente para a área. Daí o novo nome: Contribuição Interfederativa da Saúde (CIS). Só que o tributo deve financiar programas de assistência média que já existem, portanto sobrarão recursos de outras fontes para cobrir o crescente rombo nas contas públicas.

    A confirmação da medida pelo ministro da Saúde funcionou como contraponto a declarações de outros integrantes da Esplanada e de líderes da base aliada, que negaram, ao longo do dia, a intenção da volta no próximo ano do imposto do cheque, como era conhecida a CPMF.

    Segundo Chioro, há um entendimento avançado entre os governos federal, estaduais e municipais em adotar o que ele chamou de Contribuição Interfederativa da Saúde (CIS). A alíquota de 0,38% é uma referência para o debate e é o mesmo percentual da última cobrança da CPMF, antes de ser extinta pelo Congresso há oito anos. “Os repasses serão feitos diretamente para estados e municípios, ficando uma terceira parte para o governo federal”, disse Chioro.

    A proposta pode chegar ao Congresso na próxima segunda-feira, a depender dos avanços das negociações com os parlamentares. O ministro afirmou que ainda não está definido se o texto será em forma de Proposta de Emenda Constitucional (PEC), que prevê quórum qualificado e dois turnos de votação nas duas Casas, ou um projeto mais simples, de lei complementar.

    A expectativa é que, com a aprovação da contribuição, os governos tenham em caixa R$ 80 bilhões por ano — hoje, os gastos com a saúde no país chegam a R$ 215 bilhões. Segundo Chioro, os recursos seriam usados diretamente para a saúde, ao contrário da antiga CPMF, que estabelecia repasses também para a Previdência Social e para o Fundo de Erradicação da Pobreza. “Há uma dificuldade e uma pressão do governo federal e dos governos estaduais e municipais para bancar esse gasto”, disse Chioro.

    Fonte: Correioweb

    Lava-Jato ajuda a derrubar construção civil no pior trimestre desde 1996

    Setor amarga queda de 8,4%, afetando os indicadores de investimento


    Setor de construção civil teve o pior trimestre desde o início da série história do PIB, em 1996 – Fabio Rossi / Agência O Globo

     

    Com peso de 28% sobre a indústria, a construção civil teve o seu pior trimestre desde o início da série histórica do PIB, em 1996. Com uma queda de 8,4% frente ao primeiro trimestre, o setor respondeu por pelo menos um quinto (21%) da queda de 1,9% do PIB, segundo cálculo da LCA Consultores. Isso representa 0,4 ponto percentual do resultado negativo. Se forem incluídos impactos indiretos — o setor é intensivo em mão de obra e, por isso, demissões têm impacto em consumo — essa parcela pode chegar ao dobro, ou 0,8 ponto percentual.

    As perdas também ocorreram em outras bases de comparação. Frente ao segundo trimestre do ano passado, o recuo foi de 8,2%, o pior desde 2003. No acumulado do semestre, o recuo já chega a 5,5%.

    Um desempenho que tem impacto direto sobre o nível de investimentos no país. No segundo trimestre, a formação bruta de capital fixo (indicador que inclui a compra de máquinas, equipamentos e a construção civil) teve queda de 8,1% em relação aos três meses anteriores. Frente ao mesmo período do ano passado, o tombo foi de 11,9%, o pior desde 1996.

    CBIC: ‘MORTE ANUNCIADA’

    Com isso, a taxa de investimento recuou de 19,5% do PIB, no segundo trimestre de 2014, para 17,8% — menor percentual para o período em oito anos. Em proporção semelhante, caiu também a taxa de poupança, formada pelos recursos guardados por empresas, famílias e governo: e 16% para 14,4%. Segundo Carlos Rocca, diretor do Centro de Estudos do Ibmec e autor de estudos sobre a deterioração da poupança nacional, a maior parte desse recuo decorre do estrangulamento da capacidade de poupar das empresas.

    — Essa queda da taxa de poupança já vem há alguns anos. A partir de 2010 e 2011, isso começa a acontecer de modo muito significativo — diz Borges.

    Com a piora do ambiente para investir, as perspectivas para a construção civil não são boas. Para José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a situação do setor é uma “morte anunciada”.

    — Estamos alertando o governo desde o início do ano que isso iria acontecer. Elevar impostos e reduzir investimento para equilibrar as contas públicas não dá certo. Sem receita, a conta não fecha — diz Martins, que estima corte de 500 mil empregos no setor neste ano. — É preciso coragem para encarar o problema real: cortar gastos públicos.

    Luís Otávio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil, lembra que a situação tende a se deteriorar, com a piora da economia e do cenário político:

    — Não é surpresa essa queda na construção civil. E a tendência não é de melhora, porque o setor é um reflexo da situação econômica e política do Brasil.

    Para Fabio Silveira, da GO Associados, é preciso uma retomada da confiança.

     

    — O investimento depende de confiança e expectativa. Quando não tem, não há investimento — afirma. — Para melhorar, tem de baixar o endividamento das famílias e das empresas. Aí vamos ver a tão decantada força do empreendedorismo, é preciso saber como e onde cortar.

    Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos de Construção da Fundação Getulio Vargas (FGV), explica que o resultado da construção civil não foi inesperado. Pesquisa de emprego da FGV mostrou recuo de 8,8% nas empresas com canteiro de obras na construção civil no primeiro semestre, em comparação ao mesmo período de 2014.

    — A sondagem da Construção mostrou queda de 26% na confiança do empresário em agosto. O setor está sofrendo pressão de todos os lados. Há corte de investimentos públicos e privados, além de queda na demanda — explica ela.

    Brasileiro começa a trocar o avião pelo ônibus

    Com queda na renda e alta do dólar, viagens para destinos domésticos ganham espaço

    Sala de espera na rodoviária: empresas de transporte de ônibus esperam se beneficiar da migração de passageiros que usavam o avião – Agência O Globo / Custódio Coimbra

    Diante da necessidade de economizar, o brasileiro volta a incluir o ônibus em seus planos de viagem. Com o orçamento apertado, a rodoviária ganha espaço, principalmente, para quem viaja com frequência. Um levantamento do Ministério do Turismo e da Fundação Getulio Vargas mostra que 14% dos entrevistados pretendem usar o transporte rodoviário nos próximos seis meses. Trata-se do maior percentual para o mês desde 2005, quando a pesquisa começou a ser divulgada. Segundo especialistas, o pano de fundo da mudança de rota inclui a queda na renda e a alta do dólar.

    A preferência pela viagem de avião recuou de 58,3% em setembro de 2014 para 51,8% no mês passado. Nos últimos anos, com os ganhos de renda conquistados antes de a crise reduzir o poder de compra do brasileiro, o número de “marinheiros de primeira viagem” era de tal ordem que as agências de turismo passaram a publicar guias para quem começava a se familiarizar com a rotina dos aeroportos. A pesquisa do Ministério do Turismo mostra essa trajetória. Entre 2005 e 2010, nas sondagens realizadas em setembro, a intenção de viajar de ônibus caiu constantemente, até chegar a 8%. Agora, a tendência começa a se inverter. A alta do dólar afeta diretamente o custo do querosene de aviação, o combustível usado pelas aéreas.

    — É como carne de segunda e carne de primeira. Quando aumenta a renda, aumenta o consumo de carne de primeira. E quando diminui, acontece o contrário — compara o consultor Adalberto Feliciano, professor licenciado de Economia do Transporte Aéreo da Universidade Anhembi Morumbi.

    Mesmo assim, Feliciano avalia que a retomada das viagens de ônibus será apenas parcial:

    — Se o ônibus perdeu 50% dos passageiros para o avião, não vai ganhar esses 50% de volta.

    TROCA GRADUAL

    Entre viajantes frequentes, há quem comece gradualmente a substituir o transporte aéreo pelo rodoviário. É o caso do produtor Vitor Aiello, usuário da ponte aérea Rio-São Paulo. Anteontem, ele embarcava para fazer o trajeto pelas estradas, pela primeira vez:

    — Tive de fazer essa viagem em cima da hora. Antes, conseguia preços melhores, mesmo com pouca antecedência. Agora, fui pesquisar, e a passagem estava R$ 500 só a ida. Preferi pagar R$ 90 na passagem de ônibus.

    A biomédica carioca Julia Lemos sente na pele a alta de preços. Com um namorado mineiro, viaja ao menos uma vez por mês para Belo Horizonte. Até o início do ano, fazia o trajeto de avião — desde que a passagem saísse por menos de R$ 200, o que tem sido cada vez mais difícil:

     

    — Nas últimas vezes que meu namorado veio para cá, veio de ônibus. Na semana passada, ele encontrou passagem de ida e volta de avião por mais de R$ 900. Optamos pelo ônibus.

    – Editoria Arte

    Para as viagens de férias, a pesquisa do Ministério do Turismo mostra ainda outra tendência que beneficia o transporte rodoviário: a preferência por destinos domésticos. Também na esteira do dólar alto, as rotas internacionais têm sido deixadas de lado. Em setembro, 77,6% dos entrevistados para o estudo responderam que pretendem fazer viagens pelo Brasil, contra 76,4% calculados em setembro de 2014. Viagens para o exterior eram preferência de 18,7%, contra 20,4% no mesmo mês do ano passado.

    José Francisco Salles Lopes, diretor de Departamento de Estudos e Pesquisas do Ministério do Turismo, acrescenta que as rotas mais próximas ganham espaço, quando o consumidor tem menos para gastar.

    — Se a pessoa está pretendendo sair de Juiz de Fora e passar uma temporada no Rio, o ônibus é a opção natural — avalia.

    O aumento da preferência pelo ônibus, no entanto, não impediu o setor de amargar um mau momento. Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o número de passageiros pagantes em ônibus interestaduais recuou 5,16%, para 23 milhões de pessoas.

    As empresas confirmam a fase ruim. Segundo Carolina Esteves, gerente de marketing da Util, a tendência é que a alta do diesel afete a margem de lucro, já que o mercado é regulado, e não é possível reajustar preços até julho. A migração do meio aéreo para o rodoviário traz esperança ao setor.

    — Existe uma estimativa de aumento da demanda por uma migração dos passageiros do aéreo que, nos próximos meses, possivelmente, passarão a usar as empresas rodoviárias. Esse cenário é muito recente, e ainda não estamos sentindo um impacto significativo, mas esperamos aumento de 10% nos próximos meses — disse a executiva, em entrevista por e-mail.

    Nos terminais de São Paulo, a crise também foi sentida. Segundo a Socicam, empresa que administra as rodoviárias da cidade, o movimento nos três terminais paulistas (Tietê, Barra Funda e Jabaquara) recuou 1,1% entre janeiro e setembro, na comparação com o mesmo período do ano passado, ficando em 13,3 milhões de passageiros. Para os feriados de Natal e Ano Novo, a expectativa é de estabilidade.

    No Rio, a rodoviária Novo Rio também sentiu a queda de passageiros, e diz que busca atrair clientes com novas instalações. “Nos últimos 5 meses, registramos, inclusive, uma queda de aproximadamente 8% no embarque de passageiros pela Novo Rio, em reflexo da crise econômica”, afirmou a concessionária, em nota.

    ALTA NO FERIADÃO

    Em nota, a viação 1001 admitiu o momento ruim para o setor, mas destacou que busca competir com outros meios de transporte. “O transporte rodoviário de passageiros também foi afetado pela crise, com retração da demanda e aumento dos custos”.

    Para Cesário Martins, sócio da ClickBus, plataforma de vendas de passagens rodoviárias on-line, o cenário é parecido com o que o setor viveu em 2013, com a alta do dólar — na época, em outro patamar. A empresa é parceira de 60 companhias de ônibus e tem 1 milhão de usuários frequentes:

    — Em 2013, quando o dólar subiu a R$ 2,28, valor alto para a época, a gente viu esse movimento. Para o feriado de 12 de outubro, tivemos alta de 10% nas vendas em relação ao último feriado prolongado, de 7 de setembro. Para o fim do ano, a expectativa é de alta de 150% em relação ao ano passado.

    Fonte: O Globo

    Crise de moradias é mundial

    10/04/2016

     

    Apartamentos compactos são quase metade dos lançamentos de SP; entenda a tendência

    Lançamentos ganham força nos bairros centrais de grandes cidades e focam em solteiros ou divorciados que priorizam mobilidade em vez de espaço, dizem especialistas.

     

    Quem está procurando apartamento novo para comprar poderá notar que as metragens encolheram. É comum encontrar imóveis de 40, 30 ou 25 metros quadrados à venda, especialmente em bairros centrais de grandes cidades.

    Os apartamentos com menos de 45 metros quadrados já são 42,6% das unidades lançadas na capital paulista este ano e 36,8% das vendidas, segundo dados do Secovi-SP, entidade que representa o setor imobiliário. É mais do que esse mercado tinha no ano passado, quando os compactos somaram 30% dos lançamentos.

    Na semana passada, a incorporadora Vitacon anunciou que vai construir em São Paulo um empreendimento com os menores apartamentos da América Latina. Cada unidade terá apenas 10 metros quadrados e custará a partir de R$ 99 mil.

    G1 visitou uma unidade decorada de 14 metros quadrados da empresa para mostrar como é o espaço. A unidade menor ainda não está disponível para visitas.

    G1 visitou um apartamento decorado de 14 metros quadrados

    G1 visitou um apartamento decorado de 14 metros quadrados

    Os chamados studios (apartamentos pequenos sem divisórias entre quarto, sala e cozinha) são tendência no mercado imobiliário de grandes cidades no mundo, disseram ao G1 especialistas no setor. Eles citam a mudança no perfil de famílias, a valorização da mobilidade, questões econômicas e de zoneamento municipal para explicar a expansão dos studios. São elas:

     

    Estilo de vida

     

    O foco dos studios é um público mais jovem, estudantes, pessoas que se divorciaram e trabalhadores de outras cidades, explica o diretor de vendas da imobiliária Lello, Igor Freire.

    Esse perfil de cliente abre mão do espaço em troca de preços mais baixos e mobilidade em pontos privilegiados da cidade.

     

    “Há quem prefira morar em uma ‘cabine de navio’ bem equipada perto do centro do que perder duas horas por dia para sair da periferia ao trabalho”, afirma o vice-presidente de Imobiliário do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), Odair Senra.

     

    Para compensar a falta de espaço, as empresas investem em áreas compartilhadas, como lavanderia e espaços de coworking, serviços semelhantes ao oferecido por hotéis.

    Não por acaso, a maior parte dos imóveis de um dormitório lançados em São Paulo neste ano está nos bairros República, Pinheiros e Sé, regiões centrais da capital e repletas de comércio e lazer, segundo o Secovi-SP.

    Ao mesmo tempo, são áreas mais caras. O preço médio do metro quadrado em Pinheiros, por exemplo, é de R$ 10.645,16; já a média da cidade é de R$ 8.680.

    Planta da unidade de 10 metros quadrados que será construída em São Paulo (Foto: Divulgação/Vitacon)Planta da unidade de 10 metros quadrados que será construída em São Paulo (Foto: Divulgação/Vitacon)

    Planta da unidade de 10 metros quadrados que será construída em São Paulo (Foto: Divulgação/Vitacon)

    Como o preço do metro quadrado é mais caro, o imóvel precisa ser menor para caber no bolso do consumidor que procura esses bairros.

     

    “O valor mais baixo de uma unidade tem apelo muito grande para quem não pode comprar um maior”, diz Senra.

     

     

    Investidores

     

    Além dos solteiros e divorciados, quem procura imóveis para investir também é um público-alvo das incorporadoras nos lançamentos de studios, lembra o presidente da incorporadora Vitacon, Alexandre Frankel.

    “É um produto que tem muita liquidez. É muito fácil de vender e tem liquidez para alugar. Tem um retorno muito bom”, diz.

    Dados do índice FipeZap de julho de 2017 mostram que os imóveis de até 1 dormitório eram os mais rentáveis no país para alugar. Enquanto as unidades mais espaçosas, de quatro quartos, tinham retorno de 0,31%, as menores tinham ganho de 0,40%.

    O cálculo se dá pela divisão do valor de venda do imóvel pelo preço do aluguel. Quanto maior o aluguel em relação ao preço, maior o retorno para o investidor.

    Apesar disso, Freire, da Lello, lembra que o apelo para comprar imóveis para investimento não é tão forte como no passado. Com a crise, o mercado imobiliário esfriou.

    A rentabilidade média do aluguel no país caiu de 0,43%, há quatro anos, para 0,36%, em julho, segundo o FipeZap.

    Studio tem 14 metros quadrados; quarto é integrado com cozinha (Foto: Fabio Tito/G1)

     

    Plano diretor

     

    Algumas regras de zoneamento de grandes cidades influenciam na expansão dos imóveis pequenos. Segundo Senra, do SindusCon-SP, a legislação do plano diretor em São Paulo delimitou a altura dos prédios a serem construídos. Isso fez as empresas repensarem seus modelos de empreendimento para fazer a conta fechar.

    “Um prédio com menos andares tem uma diferença incrível no preço final do metro quadrado”.

    Apesar de o valor absoluto dos compactos ser mais baixo, o preço do metro quadrado costuma ser mais caro que a média. Segundo Senra, isso acontece porque prédios com mais unidades por andar têm um custo mais alto de construção. “A quantidade de áreas frias como cozinhas e banheiros encarece a obra e reflete no preço final”, explica.

    Juntamente com esse metro quadrado mais alto, de acordo com Eduardo Schaeffer, executivo-chefe do portal de classificados ZAP, existe o “bônus de compactação”, o que seria uma vantagem para as construtoras.

     

    “Quando eu reduzo o tamanho da unidade, aumenta o número de unidades, aumenta o metro quadrado e aumenta o aproveitamento do terreno. Sem contar que tenho mais possibilidade de aluguel, com IPTU menor, atraindo tanto o comprador quanto a pessoa que quer alugar.”

     

     

    Vagas de garagem

     

    Outra tendência observada nos compactos é a falta de vagas de garagem. Em São Paulo, ao contrário do passado, a nova lei desencoraja a construção destas vagas e até impõe um número máximo por empreendimento.

    Senra diz que, em tese, a presença da vaga encarece o valor do imóvel. “Existe um custo adicional para criar áreas de subsolo que é diluído no preço do metro quadrado”, explica o vice-presidente de imobiliário do Sinduscon-SP.

    Algumas incorporadoras têm lançado empreendimentos com unidades menores sem garagem e unidades maiores com mais de uma vaga. Em geral, o comprador de studios aceita com mais facilidade um imóvel sem garagem.

    Segundo Flavio Amary, do Secovi-SP, o ideal seria que o mercado regulasse o volume de garagem para cada tipo de produto.

     

    “Nesse caso de imóveis menores, o conceito de compartilhamento é muito comum entre jovens. A garagem se torna secundária. (…) Não vejo como vantagem ou desvantagem [para a construtora] , é uma característica do produto, do conceito passado.”

    Fonte: G1

    Acha seu apartamento pequeno? Veja como seria morar em apenas 8m²

    Projeto em Paris com metragem reduzidíssima é de autoria do escritório Kikoto. Veja vídeo

    pequenos espaço, apartamento pequeno, kitoko, paris, 8 m²Apartamento de 8m² em Paris esconde ambientes dentro do armário. Fotos: Kitoko / Reprodução

     

    Oito metros quadrados parece um tamanho suficiente para um quarto. Mas já pensou planejar e decorar uma casa inteira com essa metragem? Esse foi o desafio dos arquitetos Morgane Guimbault e Gaylor Lasa Zingui, do escritório Kitoko em um projeto em Paris, na França.

    pequenos espaço, apartamento pequeno, kitoko, paris, 8 m² Apartamento de 8m² em Paris esconde ambientes dentro do armário.
    Fotos: Kitoko / Reprodução

    Eles transformaram o cômodo em um micro apartamento com relativo conforto. O projeto é inspirado no conceito “canivete suíço”, assim o móvel principal do ambiente “se abre para diversas funções”, resume a descrição do projeto.

    pequenos espaço, apartamento pequeno, kitoko, paris, 8 m² Apartamento de 8m² em Paris esconde ambientes dentro do armário.
    Fotos: Kitoko / Reprodução

    Chamado não por acaso de “maid’s room”, ou quarto de empregada, o imóvel consiste em um tipo de habitação antiga encontrada no topo de alguns prédios da capital francesa, geralmente ocupados por zeladores e outros funcionários.

    pequenos espaço, apartamento pequeno, kitoko, paris, 8 m² Apartamento de 8m² em Paris esconde ambientes dentro do armário.
    Fotos: Kitoko / Reprodução

    Quem entra no espaço acredita estar em uma uma pequena sala, com um banheiro e uma pia ao fundo. Para caber tudo lá dentro, os cômodos e objetos foram escondidos dentro do armário de onde saem uma escada-estante, a cama, mesa para refeições e por aí vai.

    pequenos espaço, apartamento pequeno, kitoko, paris, 8 m² Apartamento de 8m² em Paris esconde ambientes dentro do armário.
    Fotos: Kitoko / Reprodução

    Cada compartimento pode ser completamente isolado com portas de correr, o que permite que o morador utilize os cômodos de acordo com a sua necessidade.

     

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