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Suicídio é principal causa de morte entre homens japoneses com idades entre 20 e 40 anos
No ano passado, no Japão, mais de 25 mil pessoas cometeram suicídio. Isso dá uma média de 70 por dia. A maioria delas, homens.
Estes números não representam a maior taxa de suicídio entre países desenvolvidos – o título ainda cabe à Coreia do Sul, com uma média anual de 28,9 suicídios por 100 mil habitantes. Mas estão muito acima de outras nações ricas.
O índice japonês de 18,5 suicídios para cada 100 mil habitantes é, por exemplo, três vezes o registrado no Reino Unido (6,2) e 50% acima da taxa dos Estados Unidos (12,1), da Áustria (11,5) e da França (12,3).
O assunto voltou a ter destaque quando um idoso jogou-se de um trem bala em 30/6/15.
O que fez um pacato idoso a se matar desta forma em um vagão lotado?
Conforme ele derramava o líquido inflamável sobre si mesmo, teria se afastado de outros passageiros, segundo testemunhas, para não colocá-las em perigo. Algumas disseram que ele tinha lágrimas nos olhos ao fazer isso.
Agora, conforme seu passado começa a ser investigado pela mídia japonesa, surgem sinais de se tratar de um homem no limite. Ele vivia sozinho e não tinha emprego. Passava os dias coletando latas de alumínio para vendê-las para reciclagem.
Vizinhos disseram a repórteres que o ouviram quebrar uma janela ao se trancar do lado de fora de seu apartamento dilapidado.
Outros afirmaram raramente tê-lo visto fora de casa, mas ouviam com frequência a televisão ligada. Pobre, de idade avançada e sozinho. É um caso bastante familiar.
“O isolamento é o fator número um que antecede a depressão e o suicídio”, diz o psicólogo Wataru Nishida, da Universidade Temple, em Tóquio.
“Hoje em dia, são cada vez mais comuns histórias de idosos que morrem sozinhos em seus apartamentos. Eles estão sendo negligenciados. Os filhos costumavam cuidar de seus pais no Japão, mas isso não ocorre mais.”
‘Suicídio em nome da honra’
Muitas pessoas costumam citar uma antiga tradição de “suicídio em nome da honra” para a alta taxa do país.
Elas citam, por exemplo, a prática samurai de cometer “seppuku” e dos jovens pilotos “kamikazes” de 1945 para explicar por que razões culturais tornam os japoneses mais propensos a tirar suas próprias vidas.
De certa forma, Nishida concorda com este ponto de vista: “O Japão não tem história de Cristianismo. Então, o suicídio não é um pecado. Na verdade, alguns encaram como uma forma de assumir responsabilidade por alguma coisa”.
Ken Joseph, que trabalha no serviço de ajuda a suicidas do país, concorda. Ele diz que sua experiência ao longo dos últimos 40 anos mostra que idosos que têm problemas financeiros podem ver o suicídio como uma saída para esta situação.
“Os seguros de vida no Japão são muito ambíguos quanto ao pagamento por suicídio. Então, quando uma pessoa se mata, o seguro costuma ser pago”, afirma Joseph.
“Os idosos vivem sob uma pressão intolerável e acreditam que o melhor que podem fazer é tirar suas vidas para sustentar sua família.”
Pressão financeira
Por causa disso, alguns especialistas acreditam que a taxa de suicídios no Japão é na verdade muito mais alta do que os registros mostram.
Muitos casos de idosos que morrem sozinhos nunca chegam a ser completamente investigados pela polícia. De acordo com Joseph, a prática quase universal no país de cremar os corpos também significa que qualquer evidência de um suicídio é rapidamente destruída.
Mas não são apenas os idosos homens com problemas financeiros que estão tirando suas vidas. O índice vem crescendo rapidamente entre homens jovens, fazendo com que o suicídio seja a principal causa de morte entre os homens japoneses com idades entre 20 e 40 anos.
E as evidências apontam que estes jovens estão se matando porque perderam completamente a esperança e são incapazes de pedir ajuda.
Os números começaram a crescer após a crise financeira asiática de 1998 e aumentaram novamente após a crise financeira mundial de 2008.
Especialistas acreditam que estes aumentos estão ligados a um crescimento das “condições precárias de emprego”, em que jovens são contratados por curtos períodos de tempo.
O Japão já foi a terra do emprego vitalício, mas, enquanto muitas das pessoas mais velhas ainda desfrutam de estabilidade e benefícios generosos, quase 40% dos jovens japoneses não conseguem encontrar empregos estáveis.
A ansiedade causada por problemas financeiros e a instabilidade no trabalho é reforçada pela cultura japonesa de não reclamar. “Não há muitas formas de expressar raiva ou frustração no Japão”, diz Nishida.
“Esta é uma sociedade muito orientada por regras. Jovens são moldados para se encaixar em nichos existentes. Não há como alguém expressar seus sentimentos vendadeiros. Se são pressionados por seu chefe ou se deprimem, alguns acham que a única saída é morrer.”
Isolamento tecnológico
A tecnologia pode estar piorando esta situação, ao aumentar o isolamento dos jovens. O Japão é famoso por uma condição conhecida como “hikikomori”, um tipo de isolamento social grave.
O jovem nesta situação pode se fechar completamente ao mundo, permanecendo em um quarto por meses ou mesmo anos. A maioria deles são homens.
Mas esta é apenas a forma mais extrema de uma atual perda generalizada de socialização cara a cara. Uma pesquisa recente sobre o comportamento dos jovens em relacionamentos e sexo trouxe resultados impressionantes.
Publicada em janeiro pela Associação de Planejamento Familiar do Japão, o estudo indicou que 20% dos homens com idades entre 25 e 29 anos tinham pouco ou nenhum interesse em relações sexuais. Nishida aponta para a internet e a influência da pornografia online sobre isso.
“Os jovens japoneses têm muito conhecimento, mas pouca experiência de vida. Não sabem como expressar suas emoções”, afirma Nishida.
“Eles esqueceram como é tocar uma pessoa. Quando pensam sobre sexo, podem ficar ansiosos e sem saber como lidar com isso.”
E, quando jovens se encontram isolados e deprimidos, eles têm poucos lugares aos quais recorrer. Doenças mentais são um tabu no país, e a depressão é geralmente pouco compreendida. Quem sofre deste problema, normalmente tem medo de falar sobre o assunto.
Sistema de saúde ruim
O sistema de saúde para doenças mentais também é ruim. Faltam psiquiatras, e não há qualquer tradição destes profissionais trabalharem junto com psicólogos.
Pessoas com problemas mentais podem receber prescrições de medicamentos psicotrópicos fortes, mas, com frequência, isso não vem acompanhado de um acompanhamento psicológico.
O próprio mercado de psicologia do Japão é uma bagunça. Ao contrário de outros países, não há um sistema de ensino estabelecido pelo governo nem para qualificação profissional de psicólogos clínicos.
Qualquer um pode ser apresentar como tal, e é muito difícil saber se quem presta este tipo de serviço sabe o que está fazendo.
Não é um bom cenário, ainda mais porque, apesar da taxa de suicídio ter começado a declinar nos últimos três anos, ela ainda é muito alta.
Nishida diz que o Japão agora começa a debater mais sobre doenças mentais e não tratar isso como algo assustador e estranho que afeta apenas a alguns poucos. Mas o especialista acredita que ainda há um longo caminho a ser percorrido.
“Quando há uma discussão na TV sobre problemas mentais no Japão, eles ainda falam como se depressão fosse sinônimo de suicídio. Isso precisa mudar.”
Para o bem ou para o mal, o desfecho que se dará à arrastada tragédia grega está longe de resolver o que, hoje, é uma das maiores fragilidades da Europa: a distância entre ricos e pobres. Desde a crise financeira global, há quase sete anos, pelo menos cinco dos 19 sócios da moeda única na chamada zona do euro amargam um receituário doloroso de aperto fiscal e cortes em benefícios sociais tradicionais. Espanha, Itália, Portugal e Irlanda foram os primeiros socorridos pela União Europeia (UE) entre 2009 e 2012. A Irlanda já se recuperou. Os outros três saíram-se bem até agora, diferentemente da Grécia, mas ainda causam desconfiança aos mercados.
— A crise de 2008 expôs a fragilidade da arquitetura europeia e as enormes diferenças entre os países. Não se pode crescer em meio a tantos desequilíbrios e discrepâncias entre ricos e pobres — diz o especialista em Europa da Universidade de Glasgow Georgis Karyotis.
Os indicadores socioeconômicos desses países não são tão diferentes dos gregos. E isso explica o motivo da preocupação. A dívida pública bruta da Grécia é, de longe, a mais alta do grupo — chegou a 177% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Mas a da Itália, que está em 132,1% do PIB, era de 102,3% em 2008. Já a de Portugal bateu os 130,2% do PIB. A da Espanha saltou para 97,7% do PIB.
Dentro da zona do euro, é nesses países — considerados os “patinhos feios” do bloco — que se encontra o maior percentual da população sob risco de pobreza e exclusão social. São 34,5% na Grécia, 28,4% na Itália, 27,4% em Portugal e 27,3% na Espanha. E foram eles os submetidos aos ajustes e reformas mais rigorosos nos anos recentes.
— É óbvio que a situação na Grécia terá implicações em outros países da zona do euro. Cria um precedente ruim. A Itália, por exemplo, principal aliada da Grécia neste momento, tem muitos problemas e pode ser afetada. Itália, Portugal e Espanha são os principais alvos das pressões do mercado. O contágio não está descartado. E o custo de salvar a Grécia agora é relativamente pequeno se comparado ao custo para salvar economias maiores como Itália ou Espanha — alerta Karyotis.
RECADO AO MERCADO E AO ELEITOR
O desafio das autoridades europeias agora é mostrar se era a Grécia o ponto fora da curva — ou se questões semelhantes poderão surgir nas chamadas economias periféricas europeias. Todos agora têm pressa para buscar uma solução, sobretudo, depois das turbulências que vieram da China e abalaram os mercados mundo afora na semana passada.
É verdade que a Grécia representa menos de 2% do PIB da zona do euro e menos de 0,5% da economia mundial. Mas o fato de estar dentro da zona do euro faz do país uma peça importante do mercado financeiro, pelos sinais que pode levar o resto da Europa a emitir para o mundo.
Diante dos riscos de contaminação e temores entre os investidores, nos últimos dias, líderes dos países considerados mais frágeis não perderam a oportunidade de reafirmar seu compromisso com a austeridade. E reiteraram que o discurso com a Grécia deve ser duro.
Eles têm a dupla tarefa de acalmar os mercados em relação a quaisquer dúvidas quanto à sua capacidade de cumprir o dever de casa, e de reiterar ao seu eleitorado que o remédio amargo imposto à economia — que vem tendo um custo alto para a população — era a única alternativa possível.
— No pior dos cenários, de uma saída da Grécia da união monetária, os riscos de contágio para outros países do euro são menos altos que entre 2010 e 2011. Um choque poderia levar a um aumento da aversão a risco entre os investidores, credores e consumidores. Como o índice de confiança das empresas e dos consumidores é um fator-chave para as nossas previsões para os próximos dois anos e meio, o Grexit (saída da Grécia do euro) poderia facilmente enfraquecer a retomada que estamos esperando (para a região) — diz o economista-chefe da Standard&Poor’s para Europa, Oriente Médio e África, Jean-Michel Six.
A três meses das eleições legislativas, o primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, apressou-se para defender esta semana a estratégia “de rigor, crescimento e estabilidade” adotada pelo governo nos últimos anos:
— O pior que se pode fazer nessas circunstâncias é somarmos a elas a nossa própria incerteza e desorientação.
Para Karyotis, ainda que o contágio econômico não se confirme, o político será inevitável e deve dominar o debate daqui para frente. Se a Grécia receber condições mais camaradas para continuar dentro do euro, os partidos de esquerda se sentirão fortalecidos para pedir mais. Não resta dúvida de que os líderes em Portugal, Espanha e Itália serão cobrados pela população.
O argumento contra a austeridade ganhou os discursos não apenas da esquerda, mas também dos eurocéticos. E esse tem sido o maior temor dos grupos políticos no poder pela Europa. Na Espanha, a oposição do Podemos, que se aproximou do Syriza grego, vem encampando o discurso antiausteridade.
— Existe um grande desafio político pela frente nos países da UE. A austeridade foi apresentada como única saída. E, agora, a Grécia está mostrando que pode haver uma alternativa. As discussões foram abertas. O debate político europeu tornou-se uma questão nacional também — afirma o professor.
Para Ian Bigg, especialista da London School of Economics (LSE), a zona do euro está bem blindada, e não há riscos de contágio econômico. Mas ele vislumbra no médio prazo mudanças importantes no projeto da união monetária para que não haja riscos futuros.
Fonte: O Globo
‘Não’ lidera em votação na Grécia com 85% dos votos apurados
Eleitores responderam se aceitam ou rejeitam acordo proposto por credores.
A estimativa é que 65% dos eleitores tenha comparecido à votação.
Partidários do ‘não’ comemoram resultado do referendo na praça Syntagma, em Atenas (Foto: Marko Djurica/Reuters)
A maioria dos eleitores gregos decidiu pelo “não” às exigências dos credores do país para pagar sua dívida, segundo os primeiros resultados do referendo no país. Com 85% dos votos apurados, o “não” tinha 61,54% dos votos.
Milhares de partidários do “Não” lotavam a praça Syntagma, no centro de Atenas, para comemorar a vitória no referendo celebrado este domingo na Grécia. Cerca de 5 mil manifestantes, segundo a polícia, exibiam bandeiras gregas e cartazes com a palavra OXI (Não), repetindo palavras de ordem contra a austeridade.
“Não por uma pátria livre” e “Não pelo futuro, por nossos filhos”, diziam alguns dos cartazes levados pelos manifestantes de um partido de extrema-esquerda, EPAM (Frente Unidos Popula).
Também havia festejos perto da Universidade, onde se concentrava cerca de mil militantes do Syriza. Ao redor da praça Syntagma os manifestantes gritavam “Oxi, oxi”, alguns cantavam e outros dançavam.
Urna é retirada após o fim da votação em Atenas (Foto: Marko Djurica/Reuters)
Segundo as agências de notícias, a votação ocorreu sem incidentes. A estimativa é que 65% dos eleitores tenha comparecido à votação.
Pouco depois do final da votação, o porta-voz do governo grego, Gavriil Sakellaridis afirmou que o governo quer retomar as negociações com os credores gregos imediatamente. “As negociações que vamos começar devem ser concluídas muito rapidamente, mesmo em 48 horas”, afirmou.
De acordo com o Palácio do Eliseu, sede do governo da França, o presidente francês, François Hollande, vai receber na tarde de segunda-feira a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, para discutir o resultado do referendo. No comunicado, a presidência francesa aponta que o encontro marca a “cooperação permanente entre França e Alemanha para contribuir com uma solução duradoura para a Grécia”.
Com os bancos correndo o risco de ficar sem dinheiro já na segunda-feira, o ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, deve se reunir ainda neste domingo com os banqueiros do país. O governo também deve pedir ajuda ao Banco Central Europeu para garantir a liquidez das insttuições. Sem esses recursos, o governo grego pode ser obrigado a voltar a emitir dracmas – a moeda anterior ao euro.
Protestos
Manifestantes tomaram conta de Atenas nos dias que antecederam a votação, mostrando o país dividido entre os que defendem as reformas impostas à Grécia e os que recusam as medidas. Houve tumultos e a polícia chegou a intervir com gás lacrimogêneo.
Pesquisa do Instituto Alco para o Jornal Ethnos mostrava uma pequena vantagem dos defensores do acordo, mostrando o “sim” com 44,8% contra 43,4% para o “não”. Mas a vantagem fica dentro da margem de erro de 3,1 pontos percentuais, e 11,8% dos entrevistados disseram que ainda estavam indecisos, segundo a Reuters.
O que o referendo perguntou?
A consulta quer saber se os eleitores aceitam o acordo proposto pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 26 de junho. Dividido em duas partes, o acordo exige uma série de reformas para cortar gastos e aumentar a arrecadação. Os gregos terão que escolher entre duas respostas: não ou sim. Para os principais líderes europeus, a pergunta é outra: se a Grécia deve ou não ficar na zona do euro.
Quais são os termos do acordo?
Os credores pedem que os gregos cortem benefícios de aposentadorias e pensões e aumentem impostos para melhorar a saúde financeira do país. Os pontos centrais da proposta são a ampliação do imposto IVA e uma redução drástica no número de pessoas que podem optar por uma aposentadoria antecipada. Os credores também exigem ações para reduzir a evasão fiscal e acabar com a corrupção. Só assim vão liberar a ajuda de € 1,8 bilhão que Atenas precisa para pagar uma parcela de sua dívida com o FMI – e que venceu no dia 30 de junho.
O que pensa o governo grego?
O partido que ocupa o poder na Grécia não aceita as condições impostas no acordo, alegando que as medidas são “humilhantes”, pouco eficazes e penalizam a população. Na sexta-feira, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, fez um pronunciamento na televisão apelando aos gregos para votar pelo “não”, rejeitando o que chamou de “chantagem” e “ultimato” por parte dos credores.
Cédula de votação do referendo
(Foto: Reprodução)
E se o “sim” vencer?
Tsipras disse que respeitará a decisão do povo se houver vitória do “sim”, mas não ficará no governo para implementar a proposta do Eurogrupo. O ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, também assegurou que se o “sim” vencer renunciará e não assinará o que qualificou como um “acordo hipócrita”, que não aborda questões-chave como a sustentabilidade da dívida. A Grécia possivelmente passará por um novo episódio de instabilidade política se aceitar os termos do acordo.
E se o “não” vencer?
O porta-voz do governo da Grécia, Gavriil Sakellaridis, afirmou na quinta-feira que uma vitória do “não” permitirá voltar à mesa de negociações para conseguir um acordo em melhores condições. Mas se esse acordo não sair, a Grécia pode ser expulsa da zona do euro por calote. A saída do país da unidade monetária permitirá que a Grécia volte a controlar sua política monetária (que hoje é “terceirizada” para o BC europeu), o que pode ajudar nas exportações. Mas também deve fechar o país para a entrada de capital estrangeiro e agravar a crise econômica.
A Grécia vai sair do euro na vitória do “não”?
Ninguém sabe ao certo. Não existe uma regra e até o vice-presidente do Banco Central Europeu, Vitor Constancio, disse em abril que não havia qualquer lei que determine a expulsão da zona do euro em caso de calote. O governo grego insiste que não está tentando abandonar a moeda e até insinuou que poderia iniciar processos legais caso os outros países da zona do euro tentem expulsar a Grécia. Se o Banco Central Europeu decidir bloquear completamente o crédito para Atenas, as autoridades gregas não teriam mais opção a não ser começar a imprimir sua própria moeda para tentar manter a economia funcionando.
O que diz o FMI?
O Fundo disse que considera a dívida da Grécia “insustentável”. Em documento publicado após a Grécia deixar de pagar uma parcela de sua dívida, o FMI apontou que o país precisa de ao menos € 50 bilhões até 2018 para conseguir fechar as contas. Segundo o fundo, mesmo que a Grécia aprove o plano dos credores no referendo, o país precisará de uma nova ajuda nos próximos três anos. Do total, ao menos € 36 bilhões teriam de ser financiados com recursos europeus. Hoje, a dívida grega supera € 300 bilhões.
O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, discursa pelo não no centro de Atenas, nesta sexta (3) (Foto: Reuters/Yannis Behrakis)
Manifestantes reúnem-se no centro de Atenas antes do referendo sobre o futuro da economia grega, nesta sexta-feira (3) (Foto: Reuters/Yannis Behrakis)
RESUMO DO CASO- A Grécia enfrenta uma forte crise econômica por ter gastado mais do que podia.
– Essa dívida foi financiada por empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do resto da Europa.
– Na última terça-feira (30), venceu uma parcela de € 1,6 bilhão da dívida com o FMI. Então, o país entrou em “default” (situação de calote), o que pode resultar na sua saída da zona do euro.
– Essa saída não é automática e, se acontecer, pode demorar. Não existe um mecanismo de “expulsão” de um país da zona do euro.
– Como a crise ficou mais grave, os bancos estão fechados nesta semana para evitar que os gregos saquem tudo o que têm e quebrem as instituições.
– A Grécia depende de recursos da Europa para conseguir fazer o pagamento ao FMI. Os europeus, no entanto, exigem que o país corte gastos e aumente impostos para liberar mais dinheiro. O prazo para renovar essa ajuda também venceu nesta terça-feira.
– O governo grego apresentou nova proposta ao Eurogrupo, grupo que reúne ministros da União Europeia, fazendo concessões, mas rejeitando algumas das medidas de cortes mais duras.
– O primeiro-ministro grego convocou um referendo para domingo (5 de julho). Os gregos serão consultados se concordam com as condições europeias para o empréstimo.
– A Europa pressiona para que a Grécia aceite as condições e fique na zona do euro. Isso porque uma saída pode prejudicar a confiança do mundo na região e na moeda única.
– Para a Grécia, a saída do euro significa retomar o controle sobre sua política monetária (que hoje é “terceirizada” para o BC europeu), o que pode ajudar nas exportações, entre outras coisas, mas também deve fechar o país para a entrada de capital estrangeiro e agravar a crise econômica.
Dívida da Grécia com o FMI vence em 30/6/15
Também termina o prazo para receber ajuda financeira da União Europeia.
Se a moratória se confirmar, Grécia pode sofrer restrições do FMI.
Manifestantes reúnem-se em frente ao BC Europeu em defesa da Grécia, em Londres, nesta segunda-feira (29) (Foto: Reuters/Neil Hall)
Vence nesta terça-feira (30) o prazo para a Grécia pagar uma parcela de 1,6 bilhão de euros de sua dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Também vence nesta terça o prazo para o país receber ajuda financeira da zona do euro, necessária para evitar um possível calote. Sem essa ajuda, o país não conseguirá pagar o FMI e entrará em situação de calote.
O Banco Central Europeu (BCE) e a União Europeia (UE) exigem, em troca da ajuda financeira, que a Grécia faça uma série de reformas econômicas que incluem medidas como aumento de impostos e cortes na aposentadoria. O esforço fiscal seria da ordem de 2 bilhões de euros. A Grécia não aceita fazer essas reformas e, caso o calote ao FMI se confirme, o país pode deixar a zona do euro.
CRISE GREGA
Nas últimas semanas, houve diversas tentativas de acordo em negociações entre o governo grego e ministros da zona do euro, sem sucesso. A Grécia recusou as exigências, alegando que elas prejudicariam ainda mais a situação econômica do país.
Há ainda um fator político: o premiê grego, Alexis Tsipras, venceu as eleições em Janeiro de 2015 com a promessa de acabar com medidas de “aperto financeiro” como as do governo anterior.
Na sexta-feira (26), Tsipras convocou referendo para que a população diga se quer ou não que a Grécia aceite as reformas econômicas impostas pelos credores. Em pronunciamento pela TV em 29/6/15, pediu que o povo vote pelo “não”
Assustados com a crise, os gregos iniciaram uma corrida aos bancos para retirar seu dinheiro das instituições. Com a onda de retiradas, o governo anunciou feriado bancário, que teve início em 29/6/15, quando milhares reuniram-se em Atenas para dizer “não” às reformas exigidas pelos credores. Tsipras disse que vai respeitar a decisão do povo “qualquer que seja”, e que após a votação o governo retomará as negociações. “O referendo dará à Grécia melhores armas para negociar”, afirmou.
O referendo, porém, foi marcado para 5 de julho, quando já terá vencido o prazo de pagamento.
E se a Grécia declarar moratória?
Pensionistas aguardam em frente a uma agência do Banco Nacional da Grécia, na esperança de receberem suas pensões, em dia de bancos fechados após decisão do governo (Foto: Stefanos Rapanis/Reuters)
O FMI não tem nenhuma margem de manobra e ficará legalmente impossibilitado de emprestar dinheiro a Atenas.
A Grécia já usou uma cláusula no início de junho para reagrupar pagamentose obter um alívio até o final do mês – ou seja, deixou acumular pagamentos que venceriam em datas distintas para quitar a soma no último vencimento. Essa soma é justamente o montante de 1,6 bilhão de euros que precisam ser pagos nesta terça.
Sem o pagamento, o país pode declarar sua própria moratória – semelhante ao que foi feito na Argentina em 2002. A moratória acontece quando um país declara não ter condições financeiras de cumprir suas obrigações.
Pelas regras do FMI, a diretora-gerente do fundo, Christine Lagarde, teria um mês para informar à junta de diretores que representam os 188 países-membros da instituição sobre a moratória. Mas ela não esperará tanto tempo “dada a visibilidade e a importância do caso grego”, afirmou um porta-voz do FMI.
Manifestantes participam de um comício anti-austeridade na frente do prédio do parlamento em Atenas, na Grécia. Os gregos enfrentam bancos fechados, longas filas nos supermercados e incerteza após negociações com os credores internacionais (Foto: Marko Djurica/Reuters)
Três meses após a moratória, e após a apresentação formal de uma queixa, a Grécia pode ser privada de sua capacidade de usar os Direitos Especiais de Giro (DEG), a moeda criada pelo FMI com base em uma cesta das principais moedas do mundo.
Depois, o FMI terá até 15 meses para emitir formalmente uma “declaração de não cooperação”, que pode provocar nos três meses seguintes a suspensão dos direitos de voto de Atenas dentro da instituição. Essa decisão teria consequências sobretudo simbólicas, mas confirmaria o isolamento do país dentro do FMI.
Nos seis meses seguintes, totalizando dois anos depois do descumprimento do pagamento inicial, pode ter início então um procedimento de expulsão do FMI. Mas esse resultado é pouco provável: deve-se obter o consentimento da maioria dos Estados-membros (85%) e até agora sempre preferiu-se evitar este tipo de situação extrema.
Países em moratória
Manifestante anti-austeridade queima uma nota de Euro em frente aos escritórios da União Europeia em Atenas neste domingo (Foto: Reuters/Alkis Konstantinidis)
Na história do FMI, só um país, a Tchecoslováquia, foi excluído do fundo, na década de 1950, em plena Guerra Fria. Zimbábue, Sudão e Somália, que estão em moratória há décadas, nunca foram ameaçados com a exclusão, embora os montantes devidos por esses países sejam incomparáveis aos da Grécia.
O Zimbábue, último país a descumprir pagamento com o FMI em 2001, deve 101,1 milhões de euros à instituição. Só em 2015, a Grécia deve pagar 5,4 bilhões ao FMI.
Cinco números da crise e da austeridade na Grécia
Dados mostram o impacto da deterioração econômica sobre a vida dos gregos; ainda não há acordo entre Atenas e seus credores internacionais.
A Grecia e seus credores internacionais não conseguiram resolver o impasse da dívida, após uma rodada de diálogo
A discordância diz respeito aos termos das medidas de austeridade a serem impostas no país em troca de uma parcela de um pacote de resgate que permita a Atenas pagar dívidas de vencimento iminente e, assim, evitar a moratória – que pode resultar na sua saída da zona do euro.
Uma nova reunião foi agendada para sábado, em uma última tentativa de acordo.
As origens da atual crise remetem a dez anos atrás, quando autoridades europeias descobriram que a Grécia havia maquiado suas contas, ao longo de vários anos, para conseguir entrar na zona do euro.
Endividado, o país sucumbiu durante a crise financeira de 2008 e precisou pedir dois pacotes milionários de resgate e aplicar, em contrapartida, um doloroso plano de austeridade.
Agora, depois de três anos de cortes de gastos públicos, o recém-eleito governo esquerdista do premiê Tsipiras, do partido Syriza, volta a tentar negociar com a União Europeia, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Central Europeu.
Os credores exigem do governo novos cortes de gastos e de aposentadorias, enquanto Tsipras propõe aumentar a arrecadação via elevação de impostos sobre empresas e fortunas. Enquanto isso, a economia vive paralisação, o desemprego cresce e muitos gregos estão ameaçados de pobreza.
A BBC apresenta algumas cifras-chave da crise grega:
25% de queda do PIB
Nos últimos sete anos, o Produto Interno Bruto (PIB, soma de tudo o que é produzido na economia) caiu cerca de 25% na Grécia, fazendo com que a crise nos demais países europeus pareça, comparativamente, um mero resfriado.
Em 2011, pior ano da atual crise, a contração foi de 8,9%.
Após três anos de intenso recuo econômico, a Grécia saiu da recessão no início de 2014 e conseguiu crescer 0,8%, cifra que não se traduziu na melhoria das condições de vida da maioria dos cidadãos mais pobres.
E a alegria durou pouco: a economia voltou a se contrair no final do ano passado.
As previsões para 2015 tampouco são animadoras: o Banco Central Europeu prevê crescimento de apenas 0,5%.
Os credores pedem um superávit primário (economia de recursos públicos feitas para pagar os juros da dívida) de 1% do PIB neste ano e elevá-lo gradativamente até 3,5% em 2018.
O cumprimento disso exigirá duras medidas de austeridade: calcula-se que o governo teria de cortar gastos e aumentar impostos em quantidade equivalente a 1,5% do PIB neste ano.
52% dos jovens não têm emprego
Ainda que, mesmo antes da recessão, a Grécia já tivesse elevado nível de desemprego entre jovens e de dívida pública, a situação se deteriorou fortemente nos últimos anos.
O desemprego triplicou, alcançando 26% da força laboral. E três quartos dos desempregados estão há 12 meses ou mais sem trabalhar.
Se a situação é ruim para a população em geral, é mais crítica para os menos experientes: mais de 52% dos jovens estão sem emprego. Em 2013, essa cifra chegou a 58,3%.
45% dos aposentados são pobres
O pagamento de pensões é uma das frentes de batalha entre Tsipras e os credores.
O premiê grego assumiu o poder prometendo não cortar mais as aposentadorias, mas os detentores dos títulos da dívida grega insistem em mais reformas nessa área.
A questão é que as aposentadorias são o principal sustento na metade dos lares do país, o que dá uma ideia dos efeitos que teriam eventuais novos cortes.
Ainda que a Grécia seja um dos países europeus que mais gastam com pensões (15% do PIB), muitos pensionistas vivem sob a linha de pobreza.
Os credores pedem um corte de 1% do PIB nas pensões até 2017 e reformas no sistema de pagamento; o governo também aceitou eliminar, pouco a pouco, as aposentadorias antecipadas.
40% das crianças estão sob a linha de pobreza
Segundo a Unicef, a Grécia tinha em 2013 597 mil crianças vivendo abaixo da linha de pobreza. Entre elas, 322 mil não tinham supridas suas necessidades nutricionais mais básicas.
Um relatório do Escritório Orçamentário do Parlamento grego estimava em 2,5 milhões o número de gregos vivendo em pobreza no fim de 2014.
200 mil funcionários a menos
A Grécia aceitou cortar 15 mil funcionários públicos durante as negociações do primeiro pacote de resgate.
Em abril deste ano, os cortes subiram para totalizar 200 mil funcionários públicos demitidos desde 2009, reduzindo o custo salarial em 8 bilhões de euros anualmente.
Em maio, porém, o governo anunciou que voltará a contratar 4 mil pessoas demitidas.
De acordo com uma pesquisa no site Numbeo, a Islândia é o quarto país com o custo de vida mais caro do mundo, perdendo apenas para Suíça, Noruega e Venezuela. Segundo o site, o custo de alimentos, transporte, restaurantes e amenidades é 2.14% mais alto do que em Nova Iorque. O custo de vida de todos os países membros da União Européia é mais baixo que na Islândia.
A pesquisa também revela que o poder de compra o poder de compra da maioria dos países europeus é maior que da Islândia, inclusive de país afetados gravemente pela crise financeira dos últimos anos, como Espanha e Itália.
Esses números me parecem corretos. O custo de vida aqui na Islândia é realmente muito alto enquanto ao mesmo tempo os salários são no geral menor es que nos outros país do norte da Europa. O custo de vida é especialmente alto se considerarmos o custo de bens de consumo como roupas e eletrônicos, que frequentemente chegam a custar o dobro ou triplo aqui do que em outros países europeus.
Esse custo de vida alto gera um fenômeno interessante de que islandeses só compram roupas, eletrônicos, etc, aqui na Islândia se for uma emergência e não der mesmo pra esperar até a próxima viagem internacional que fizerem. Da última vez que viajei com amigos islandeses, por exemplo, eles levaram apenas a roupa do corpo e nenhuma bagagem, para passar duas semanas nos EUA. Chegando lá compraram cada um duas malas e roupas para encher as duas.
Olhando pelo lado bom, quando se mora na Islândia, as suas férias são sempre boas, porque seja lá onde você for, é garantido que você vai achar o clima ótimo e os preços muito baratos! 😉
A Islândia, uma ilha pouco povoada no meio do Atlântico Norte, continua ocupando seu posto de país mais pacífico do mundo, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto para a Economia e Paz, uma organização sem fins lucrativos. O Brasil é o 103º colocado no ranking de 162 países.
O instituto divulgou seu Índice Global da Paz de 2015 nesta semana, que classifica países ao redor do mundo com base em fatores como nível de criminalidade, envolvimento em conflitos e grau de militarização.
Como era de se esperar, seis dos dez países mais pacíficos são da Europa, com Dinamarca e Áustria segurando, respectivamente, o segundo e o terceiro lugares.
“A Europa manteve sua posição como a região mais pacífica do mundo, sustentada por uma ausência de conflitos internos e externos”, aponta o relatório.
O quarto lugar é ocupado pela Nova Zelândia, seguida de Suíça, Finlândia, Canadá, Japão, Austrália e República Checa.
A Síria, devastada por uma guerra que já está no quinto ano, é a última colocada no ranking. O Iraque, outro país onde o grupo militante Estado Islâmico (EI) ocupa grandes faixas territoriais, é o segundo menos pacífico. Depois vem Afeganistão e Sudão do Sul.
Os Estados Unidos estão na metade inferior do índice. O ranking do país melhorou um pouco em relação ao ano anterior, passando de 101º para 94º.
Já o Brasil caiu 11 posições, ocupando o 103º colocado, atrás de Haiti, Cuba, Argentina e Serra Leoa.
Pesquisa revela 54 endereços no berço da cidade, alguns do século XIX
Um dos cortiços mais antigos da cidade fica na Rua Senador Pompeu 65, perto do antigo Cabeça de Porco, demolido em 1893 na rua paralela. A herdeira do imóvel conta já ter visto assombração de madrugada – Domingos Peixoto
Tábuas de madeira rangem quando alguém caminha na varanda. Tudo é antigo e vem de outra época, de uma cidade que já não existe e que, ao mesmo tempo, resiste. Debruçada no tanque, Nivea lava roupa antes de ir à praia. Ao lado, Paulo toma banho e se barbeia para fazer um bico como segurança. Dona Francisca, recém-chegada de Brasília, se aproxima com uma panela de feijão e lava os grãos junto aos vizinhos. A vida pulsa em um dos cortiços mais antigos da cidade, na Rua Senador Pompeu 43, onde moram 80 pessoas.
Símbolos de um passado distante, quando o Rio foi centro do Império, cortiços eram os quilombos da capital — habitações coletivas à margem de uma cidade que aspirava ser europeia. Seus habitantes, escravos libertos e imigrantes, homens e mulheres pobres, foram expulsos de onde viviam pelos prefeitos Barata Ribeiro e Pereira Passos. O primeiro pôs abaixo, em 26 de janeiro de 1893, o lendário Cabeça de Porco, onde moravam pelo menos duas mil pessoas numa imensa construção na Rua Barão de São Félix 154. Após a demolição, a “Revista Illustrada” publicou em sua capa um poema melancólico e um desenho, mostrando uma cabeça de porco servida num prato, com uma lágrima escorrendo.
Mas os cortiços nunca deixaram de existir. Coordenada pelo cientista social Orlando Alves dos Santos, uma pesquisa do Observatório das Metrópoles (UFRJ) conseguiu mapear 54 cortiços existentes no berço do Rio: a Zona Portuária. São habitados por cerca de 800 famílias e diferem, em sua maioria, das habitações que inspiraram Aluísio Azevedo no romance “O cortiço”, publicado em 1890. Há desde invasões promovidas por traficantes do Morro da Providência, em endereços comerciais abandonados, até ocupações de casarões da Venerável Ordem Terceira por moradores sem teto. Quatro desses cortiços foram erguidos em meados do século 19 — três deles na mesma rua, a Senador Pompeu, e um na Rua Costa Ferreira. Os quatro ficam a uma curta distância do velho Cabeça de Porco.
No primeiro andar da Senador Pompeu 43, há moradias com quarto, sala e banheiro. Um fogão é improvisado na sala, que serve de cozinha, e as refeições, muitas vezes, são feitas do lado de fora, onde há mais espaço. As instalações do segundo andar são franciscanas, com quartos de aproximadamente cinco metros quadrados, paredes de estuque cheias de buraco, um banheiro feminino, um masculino e apenas um chuveiro.
— O problema no andar de cima é que só as mulheres limpam o banheiro — reclama a cearense Bianca Souza, prestes a completar 21 anos.
Nivea Freire pendura as roupas recém-lavadas no cortiço onde vive, na Rua Senador PompeuFoto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Vida em comunidade: mulher lava os cabelos no tanque de sua casaFoto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
A pequena Ana Bela vive em um dos cortiços mais antigos da cidade, na Rua Costa FerreiraFoto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Paulo Otero faz a barba antes de sair para o trabalhoFoto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Vizinhos almoçam na varanda de cortiço na Senador Pompeu, onde as tábuas de madeira rangem quando alguém passaFoto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Baiana, Dona Maria passava fome na casa de família onde conseguiu seu primeiro trabalho no Rio, no Leblon, há 40 anosFoto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Embaixo, casas com quarto, sala e banheiro; em cima, apenas quartos de cinco metros quadradosFoto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Morador de cortiço à vontade após tomar banho em ducha comunitáriaFoto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
No número 65 da Senador Pompeu, as placas dos quartos são em algarismos romanos, como antigamenteFoto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Paulo Otero na janela enquanto Nivea Freire lava suas roupas no Dia dos FinadosFoto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Seu Raimundo está ficando cego e não vê as baratas ao seu redor. Perdeu os documentos e espera uma cirurgia de catarata há seis meses Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Dona de um cortiço na Senador Pompeu, Andreia Barros, neta de portugueses, passa as noites com sua família na calçada de casaFoto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Segundo ela, “as portas de casa ficam abertas, mas é cada um por si”.
— Não vou na casa de ninguém, ninguém vem na minha casa, mas todos se cumprimentam — afirma Bianca, que vive há um ano na cidade, sempre naquele endereço. — Nunca achei que fosse visitar o Rio um dia. Agora vivo aqui. É mais do que sonhei.
Se fizessem um censo com moradores deste antigo endereço, propriedade de um português que herdou o imóvel, talvez a maioria fosse cearense. Claudio Fontenelle, de 46 anos, chegou à antiga habitação há cinco. Há pouco tempo se juntaram a ele dois primos do Nordeste, e os três passaram a dividir o mesmo quarto — cada um paga R$ 125 por mês. Claudio trabalha com confecção de camisas. Quando está em casa, gosta de ficar na varanda ouvindo forró no celular.
— Vale a pena pelo preço. À noite é perigoso, mas ninguém mexe com você, a menos que você mexa com alguém.
EM CADA QUARTO, UM DRAMA
Os velhos cortiços do Rio estão cheios dos velhos dramas da gente. Angela Leal, de 52 anos, sonha em conseguir um emprego para voltar a cuidar dos cabelos, dos dentes, da vida — e sambar na Sapucaí outra vez. Seu Raimundo Juarez, de 75, está ficando cego e já não enxerga as baratas subindo pelas paredes, espalhadas pelo quarto todo. Seu pedido de cirurgia de catarata foi feito há seis meses no SUS, mas ainda não há previsão de quando será atendido. Seu Raimundo é tão pobre que só faz uma refeição por dia. No almoço do Dia de Finados, comeu arroz e farofa.
— Só quero voltar para São Benedito (CE), onde sei roçar e plantar. Meus quatro filhos estão lá — afirma, lembrando depois de uma quinta filha, na verdade a mais velha, que ele deu para uma mulher de Botafogo quando a criança tinha 8 anos. — Nunca tive sorte na vida. Estávamos passando fome, não consegui cuidar da menina. Penso nela sempre.
Na habitação vizinha, com os mesmos cinco metros quadrados, vivem Maria Rosa Régis dos Santos, de 60 anos, e seu sobrinho André, de 32. Enquanto ela come macarrão na panela, o rapaz está deitado na cama. Dona Maria explica:
— Esse menino é trabalhador, estava entregando água aqui perto, na virada do ano, quando um policial encrencou com ele. O PM sacou a pistola e deu um tiro à queima-roupa na virilha do meu sobrinho. Por que na virilha? — indaga.
André só anda apoiado em muletas. Precisa de remédios controlados para dormir. Vive deprimido, com as mãos trêmulas. Até para levantar da cama lhe falta força. A impressão é que só um milagre é capaz de salvá-lo. Mas ele sorri.
— Viver é difícil, moço — diz apenas.
Nivea Freire lava roupa no Dia de Finados pouco antes do segurança Paulo Otero sair para fazer um biscate em Copacabana – Domingos Peixoto
Como as paredes são de pau-a-pique, e como todos estão muito próximos, qualquer briga ou discussão pode ser ouvida. Vizinhos sabem quem está preso, grávida, os que traíram ou tiveram a mercadoria apreendida pela Guarda Municipal. Alguns reclamam dessa vida de cidade pequena — ao estilo carioca, é verdade, onde é possível acordar com o som de um beija-flor ou o barulho de uma granada, como o que se ouviu no último feriado. Um funcionário antigo da Secretaria municipal de Habitação admite que a prefeitura não tem ideia de quantas pessoas vivem em cortiços no Rio. Segundo o último Censo do IBGE, o Estado do Rio tem o segundo maior número de moradias compartilhadas no país, com mais de 35 mil — São Paulo tem 86,5 mil, de um total de 296 mil em todo o Brasil.
Na Rua Costa Ferreira 70, também um dos poucos cortiços que sobreviveram, em um dos acessos ao Morro da Providência, vive a família de Mislene de Souza, de 26 anos. É o mais abandonado dos endereços, infestado de ratos e baratas que vêm do lixão no terreno ao lado, onde talvez houvesse outro cortiço antigamente. O único sinal do Porto Maravilha, que também deveria estar ali, é uma lixeira azul com o símbolo da concessionária Porto Novo.
O celular de Mislene quebrou há dois meses e não há dinheiro para o conserto. Como as creches públicas estão lotadas, ela não tem com quem deixar Ricardo, de 7 anos, e Ana Bela, de 2, então não pode trabalhar. São crianças muito espertas. Ricardo quer mostrar que é bom na escola. Ele escreve do que mais gosta no cortiço: “Família”. O que menos gosta: “Barulho alto”. O que comeu no almoço: “Miojo”.
— Quando o dinheiro dá, a gente coloca um ovo no miojo. Não passamos fome, mas é quase isso — diz a mãe.
Da porta do número 65, na Senador Pompeu, vê-se a proprietária Andreia Barros, de 45 anos, varrendo o chão. Sua família está na calçada, a tarde cai e a noite vai chegando. O imóvel foi herança deixada para ela e mais duas irmãs. Andreia cuida de tudo. Diz que os contratempos são a internet, que cai de cinco em cinco minutos, e as telhas francesas, com barro que faz gotejar em dias de chuva. Há fila de espera para ocupar uma das 39 residências:
— Uma vez veio aqui um pastor evangélico. Descobrimos que ele era ligado ao tráfico e que tinha uma mala em casa com mais de R$ 1 milhão em dinheiro vivo. Mandei embora na hora.
O cortiço tem aposentados, músicos, camelôs. Tem o Marquinho, querido por todos, que fez um canteiro de flores e plantas na varanda em frente ao seu quarto. Quase todos os móveis de sua casa foram encontrados no lixo.
O ar parece mais leve no cortiço de Andreia. Os vizinhos bebem juntos no entardecer, fazem feijoada de São Jorge no dia 23 de abril, e o Natal também é em comum. Bem diferente do tempo de seu avô, Abílio Rodrigues, um português que só alugava o imóvel para conterrâneos. Alguns quartos do cortiço estão fechados. Há uma infinidade de móveis e ferramentas deixados pelos patrícios que lá viveram. Andreia não fala muito sobre isso para não assustar os inquilinos, mas conta que já viu “vultos estranhos”:
— Gosto de fumar de madrugada. Desde criança vejo esses vultos. Você tem a nítida impressão de que é uma pessoa, mas logo desaparece.
Seu pai já recusou uma oferta de R$ 5 milhões pelo terreno. Ela diz que faria o mesmo. Joga na loteria toda semana e sonha alto. Quer revitalizar o imóvel inteiro — pagando um hotel para os inquilinos durante a reforma — e depois voltar para lá, todos juntos, mantendo o espaço como sempre foi: cortiço.
Novos hotéis no Japão oferecem espaço apertado para um orçamento reduzido
Opções vão desde “hotéis cápsulas” até quartos cobrados por hora
Uma das opções mais econômicas de acomodação em Tóquio – Reuters
TÓQUIO – Com o número de turistas e os preços dos hotéis em ascensão no Japão, graças a um iene mais fraco, novos nichos criativos de acomodações que não perdem o estilo, porém mais baratas, que incluem beliches, cabines e “pods”, têm crescido no país.
Atualmente, um pequeno quarto duplo em um hotel com serviço limitado pode custar até 30 mil ienes (US$ 240) por dia, no centro de Tóquio, por exemplo. Mas, se você procurar um pouco mais, é possível encontrar conforto em opções que custam uma mera fração deste valor.
Apenas a 10 minutos a pé da famosa zona comercial de Akihabara, na capital japonesa, um prédio branco de oito andares chamado Grids (grids-hostel.com) está localizado entre edifícios de escritórios e apartamentos. O hotel, uma conversão de um edifício de escritórios, foi inaugurado em abril, e oferece quartos de 3.300 ienes (US$ 26) a 5 mil ienes (US$ 40) por pessoa.
A cama de beliche em um quarto compartilhado é a opção mais barata, e vem com chinelos, uma toalha de banho e um armário com chave.
Um duplo padrão de 12 metros quadrados, com banheiro compartilhado, custa apenas 3.600 ienes (US$ 29) por pessoa. E, se você veio com a família ou amigos, no andar de cima há quartos premiums de 28 metros quadrados, onde os hóspedes podem esticar futons para quatro pessoas. A acomodação custa cerca de 5 mil ienes (US$ 40) por pessoa.”A conversão de um edifício de escritórios em um hotel é uma maneira ideal para responder às necessidades imediatas de quartos de hotel”, disse Yukari Sasaki, diretor gerente sênior para Sankei Edifício Co, um promotor imobiliário para Grids. “A construção de um hotel a partir do zero custa muito dinheiro agora por causa dos altos custos de construção”, acrescentou.
O tempo médio para se construir um novo hotel é de três anos, enquanto Sankei passou menos de um para abrir o Grids: ele começou a planejar o empreendimento no verão passado (entre junho e setembro). O empresário já garantiu uma outra propriedade para o Grids no distrito de Nihonbashi, não muito longe da estação de Tóquio. E ele ainda está planejando construir em Kioto e Osaka.
Um recorde de 13,4 milhões de estrangeiros visitaram o Japão no ano passado, em parte graças ao iene mais fraco. O país pretende aumentar o número para 20 milhões até 2020, ano dos Jogos Olímpicos de Tóquio, e para 30 milhões em 2030.
GRADES, CABINES E HORAS
Decoração do hotel Grids, que oferece acomodação mais econômica em Tóquio – Reuters
O First Cabin(first-cabin.jp), presente em seis cidades do país, também é uma rede de hotéis convertidos a partir de edifícios de escritórios. Com diárias de 5.500 ienes (R$ 44), a “classe executiva” tem uma cama de solteiro, com espaço suficiente apenas para que os hóspedes possam se levantar. Por mil ienes (US$ 8), é possível obter uma “cabine de primeira classe”, com espaço para abrir uma mala de viagem e se trocar, o que é um pouco maior do que uma unidade em um dos famosos “hotéis cápsula”.
O First Cabin de Tsukiji, perto do famoso mercado de peixe de Tóquio, é um edifício de escritórios convertido, com um café no térreo que se torna um bar de vinhos à noite. Os hóspedes podem tomar banho em casas de banho comuns grandes o suficiente para cerca de 10 pessoas.
Há também hotéis de “nove horas”, com base na noção de que as pessoas dormem durante sete horas e precisam de uma hora em cada extremidade, no Aeroporto Internacional de Narita e em Kioto. Estes “pods sono”, que parecem semelhantes a “hotéis cápsula”, são mais elegantes e afirmam ter melhores colchões. “Nosso serviço é limitado a camas e chuveiros,” disse Takahiro Matsui, diretor executivo da Nine Hours Inc, que administra o hotel. “Mas nós temos a melhor qualidade para o que oferecemos.”
O Nine Hours (ninehours.co.jp) em Kioto é uma estrutura de nove andares com 125 pods, enquanto o de Narita ocupa um grande andar de um prédio de escritórios. A empresa planeja abrir mais “hotéis nove horas” no futuro, disse Matsui.
Finalmente, para aqueles que querem uma experiência mais interativa, a cadeia de Sakura Hotel (sakura-hotel.co.jp), em Tóquio, que foi construída em torno de 2007, organiza excursões, incluindo viagens para ver sumô. As tarifas dos quartos variam de 3 mil ienes (US$ 24) por pessoa para uma cama de beliche até 7 mil ienes (US$ 56) para um quarto single.
Polícia prende 49 pessoas acusadas de corrupção na Receita do Paraná
Segundo investigações, fiscais identificavam empresas que deviam impostos e depois exigiam dinheiro para anular ou reduzir o valor das multas.
Na segunda etapa da Operação Publicano, a polícia do Paraná prendeu, nesta quarta-feira (10), 49 acusados de corrupção na Receita Estadual. O ex-coordenador geral do órgão é um dos presos.
Um a um, os presos em Curitiba entraram numa van com destino a Londrina, norte do estado, sede das investigações. Ao todo, a polícia prendeu 49 pessoas em dez cidades do Paraná: auditores, empresários, contadores e um advogado. Um ônibus lotado levou todos para a penitenciária.
Entre os presos estão José Aparecido Valêncio da Silva, que até o mês passado era coordenador-geral da Receita Estadual e o ex-inspetor chefe da Receita, Márcio de Albuquerque Lima, apontado pelos promotores como chefe da quadrilha. Ele foi preso no início da operação e estava em liberdade graças a um habeas corpus.
Outras dez pessoas estão foragidas: o empresário Luiz Abi Antoun, primo distante do governador Beto Richa, do PSDB, é um dos procurados pela polícia. Todos são acusados de participar de um esquema fraudulento na Receita Estadual.
De acordo com as investigações, fiscais identificavam empresas que deviam impostos para o estado e, depois, exigiam dinheiro para anular ou reduzir o valor das multas.
Em delação premiada, o auditor Luiz Antônio de Souza preso em janeiro, disse que parte da propina ia para partidos e políticos do Paraná. Segundo ele, R$ 2 milhões teriam sido usados na campanha de reeleição do governador.
Segundo as investigações, os auditores cobravam das empresas propinas que variavam de R$ 100 mil a R$ 150 mil. Depois, esses valores eram divididos entre os integrantes do esquema. O Ministério Público já sabe que essas cobranças vinham sendo feitas há muito tempo, e em outras delegacias, mas ainda não calculou o dinheiro movimentado pela quadrilha.
“Isso é uma situação endêmica na Receita, ou pelo menos as informações são de que esse fato já perdura há anos, e por isso não há como estimar”, disse Leonir Batisti, coordenador do Grupo de Combate ao Crime Organizado.
O governador Beto Richa, do PSDB, disse que o governo é o maior interessado no esclarecimento dos fatos e que se houver culpados eles devem ser punidos.
O advogado de José Aparecido Valêncio da Silva, ex-coordenador geral da Receita, disse que ficou surpreso com a prisão e que ainda vai analisar os próximos passos.
As defesas de Luiz Abi Antoun, que está foragido, e do ex-inspetor chefe da Receita Márcio Albuquerque Lima não quiseram se manifestar.
Para especialistas, a globalização não trouxe todos os benefícios prometidos
Na década de 1990, qualquer debate político-econômico sempre envolvia uma “palavra mágica”: globalização.
O termo define as políticas seguidas por países e empresas dentro de uma realidade em que as multinacionais podiam mudar de país num piscar de olhos e o dinheiro cruzava fronteiras com a velocidade da internet.
Hoje, o cenário é outro. O comércio mundial e os investimentos internacionais sofrem uma retração. Nas principais economias, florescem discursos e práticas anti-imigração, e a Rodada de Doha, como são conhecidas as negociações promovidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) em prol da liberalização de negócios, já dura 13 anos, sem ser concluída.
Simon Evenett, especialista em comércio mundial da Universidade de Saint Gallen, na Suíça, defende que houve uma inegável mudança na tendência de globalização desde a crise financeira global de 2008.
“Isso afeta mais alguns setores do que outros, mas é evidente no comércio internacional e no setor financeiro, um símbolo da globalização”, afirma.
E este novo momento já tem inclusive um nome: “desglobalização”.
Portas fechadas
Com uma economia global abalada, o impacto sobre o comércio tem sido claro
Na reunião dos países do G20 em 2009 em Londres, no Reino Unido, o grupo das maiores economias do mundo se comprometeu a “evitar a repetição de erros históricos”, conscientes do perigo que a recessão mundial representava para a globalização.
Foi uma referência clara a outra grande crise econômico-financeira dos últimos 90 anos, vivida na década de 30, quando países lançaram mão de políticas ultraprotecionistas, que, segundo seus críticos, agravaram ainda mais aqueles tempos difíceis.
O exemplo mais claro foi a lei Smoot-Hawley, nos Estados Unidos, que elevou impostos de importação para mais de 20 mil tipos de produtos estrangeiros.
“Ainda não foi adotada agora uma medida tão óbvia quanto esta, mas os governos vêm aplicando de forma discreta toda sorte de mecanismos para proteger sua produção nacional”, destaca Evenett.
Com a economia global abalada, o impacto sobre o comércio tem sido claro.
Se nos anos anteriores a 2008 cada aumento de 1% no PIB global era acompanhado por um aumento de 2% no comércio mundial, hoje esta proporção é de um para um, nos melhores casos.
Em janeiro, o comércio mundial caiu 1,6% e em fevereiro, 0,9%.
“Isso afeta os setores exportadores, que deixam de ser um motor de crescimento. Impacta ainda a criação de emprego e o nível dos salários, porque é nestes setores que estão os postos mais bem remunerados”, explica Evenett.
Política de imigração
Em todo o mundo, cresce a polêmica em torno da imigração
As barreiras não são comerciais. O mal estar econômico após 2008 tem alterado o cenário político.
No centro do debate de muitos países desenvolvidos, está o mundo multicultural gerado pelos fluxos migratórios, outro símbolo da globalização.
Ao mesmo tempo, movimentos anti-imigração, como a Frente Nacional, na França, e o UKIP, no Reino Unido, vêm ganhando peso.
Um ponto-chave do futuro referendo do Reino Unido sobre sua permanência na União Europeia diz respeito a uma mudança defendida pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, em um princípio sagrado do bloco: a liberdade de circulação dos seus cidadãos entre os países-membros.
Ann Pettifor, da consultoria Prime Economics, avalia que o surgimento do partido Syriza, na Grécia, e dos nacionalistas do SNP, na Escócia, também são simbólicos deste questionamento da globalização.
“Também vimos isso na crise de 1930. As pessoas buscam refúgio em diferentes grupos políticos diante da instabilidade dos mercados e da incapacidade do governo de reagir”, destaca Pettifor.
Fluxo financeiro
A globalização do sistema bancário também desacelerou
Outro ícone do mundo globalizado é o livre fluxo financeiro.
Com milhões de transações sendo processadas por segundo pela internet nos dias de hoje, é fácil se esquecer de que, até o fim dos anos 1970, havia um forte controle sobre a movimentação de capital.
Os britânicos tinham, por exemplo, um limite de 50 libras (R$ 240) para levarem em viagens ao exterior
Tanto a direita quanto a esquerda costumam não se lembrar que o pilar desta política foram os acordos de Bretton Woods, promovidos pelos Estados Unidos e o Reino Unido e que criaram o Fundo Monetário Internacional (FMI), como o organismo que supervisionaria o mundo criado no pós-guerra.
Hoje, não se vê um retorno àquele controle rígido, mas um comunicado do Banco Central britânico destaca que os bancos estão evitando realizar empréstimos internacionais.
‘Desglobalização’
Em um recente discurso, Kristin Forbes, integrante do Comitê de Política Monetária da entidade, afirmou que há uma “contração massiva dos fluxos financeiros globais”, que qualificou como “desglobalização bancária”.
Entre os exemplos deste fenômeno, estão o encerramento de operações bancárias em mais de 20 países da terceira maior instituição do tipo no mundo, o HSBC.
Muitos de seus empregados viveram em primeira-mão os efeitos desta retração da globalização de grandes bancos: entre 2011 e 2013, foram fechados mais de 30 mil postos de trabalho.
Este caminho também foi percorrido por outro gigante do setor, o Citi, que reduziu sua presença global para quase a metade de antes, passando a operar apenas em 24 países.
“Mesmo com a redução de empréstimos internacionais por bancos, para aumentar suas reservas, a arquitetura financeira mundial não se estabilizou, como mostra o aumento de US$ 57 bilhões na dívida global desde a crise”, diz Pettifor.
O banco HSBC reduziu presença global, com milhares de demissões
Pausa ou retração?
A pergunta é se estas tendências comerciais, financeiras e políticas marcam uma nova era ou se são um fenômeno transitório.
Nos últimos 25 anos, a unificação mundial gerada pela globalização desenhou um novo planeta.
A incorporação plena da China e da Índia – que, juntas, têm cerca de 40% da população do mundo -, bem como do Leste Europeu, são claros sinais do avanço da globalização.
Enquanto a Rodada de Doha pela liberalização segue paralisada, os acordos comerciais têm se multiplicado, com dois destaques: entre os EUA e a União Europeia, que representam 40% da economia mundial, e entre 15 países do Pacífico na Ásia e nas Américas.
A tecnologia também está do lado da globalização, levando mais à ruptura de fronteiras do que a criação de obstáculos.
Em um comunicado recente, o chefe de pesquisas de comércio internacional do banco holandês ING, Raoul Leering, apontou fenômenos econômicos, como a crise na Europa, como a causa da atual desaceleração, mas destacou que a globalização seguirá em frente.
“Não veremos se repetir o ‘boom’ dos anos 1990 e do princípio deste século, mas a integração econômica prosseguirá. Ainda falta uma integração entre países emergentes, como China, Índia e Filipinas, que têm baixos níveis de investimentos estrangeiros em comparação com os países desenvolvidos”, avalia.
“A fragilidade da economia europeia foi um fator desta desaceleração transitória.”
Segundo Pettifor, é importante diferenciar a globalização comercial e financeira.
“Não se pode subestimar o poder das forças que têm contribuído para a globalização. Mas é preciso distinguir a globalização comercial, que traz benefícios, da financeira, que gera instabilidade e uma forte reação social e política, que seguirá presente se não for controlada sua volatilidade.”
Os melhores e piores mercados imobiliários do mundo
Após anos de boom, imóveis em São Paulo subiram menos de 1% no último trimestre de 2014
Se você tem uma casa de campo na Irlanda, uma mansão em uma ilha artificial em Dubai ou até um pequeno apartamento em Tallinn, a capital da Estônia, é muito provável que a vida esteja lhe sorrindo neste momento.
O que esses três destinos têm em comum? Sua posição como os mercados imobiliários com melhor desempenho do mundo, em termos de valorização da propriedade, segundo dados coletados pela consultoria britânica Global Property Guide no quarto trimestre de 2014.
Esses três mercados sofreram grandes quedas durante a crise econômica mundial, em 2008, mas o disparo sofrido posteriormente pelos preços dos imóveis foi impressionante.
Outras partes do mundo já não tiveram tanta sorte. Entre os 41 lugares analisados, os piores colocados são Kiev, na Ucrânia, Pequim, na China, e toda a Rússia.
São Paulo é a única cidade brasileira no ranking, no 30º lugar, mostrando que os preços dos imóveis cresceram apenas 0,83% no período analisado, depois de quase cinco anos de aumentos percentuais nas casas dos dois dígitos.
Irlanda
Primeira do ranking, Irlanda se beneficiou da instalação de grandes multinacionais no país
O chamado Tigre Celta foi um dos países mais afetados pela crise de 2008. Mas desde então a economia da Irlanda se tornou mais forte – para alguns a recuperação foi algo digno de um conto de fadas.
Benefícios fiscais bastante convidativos também ajudaram no processo. Grandes empresas multinacionais como o Google e o PayPal instalaram seus escritórios europeus no país, atraindo mais pessoas vindas de fora e procurando por lugares para morar.
Segundo Matthew Montagu-Pollock, editor do Global Property Guide, a Irlanda pode se vangloriar de “uma economia fundamentalmente sólida”. O país hoje abriga o melhor mercado imobiliário do mundo, com uma alta de 16,5% nos preços em 2014, segundo a publicação.
Edifícios novos construídos antes do estopim da crise – e que permaneceram vazios por alguns anos – agora estão totalmente habitados.
Os preços dispararam e novos prédios estão sendo erguidos. “Não pensei que seria possível construir tantas novas obras em Dublin”, afirma Montagu-Pollock. “Agora, o boom da construção civil ultrapassou os limites da capital.”
O único senão é que a Irlanda tem um longo histórico de altos e baixos no setor imobiliário.
Dubai, Emirados Árabes Unidos
Atingido em cheio pela crise de 2008, mercado imobiliário de Dubai retomou ritmo frenético
O mercado imobiliário de Dubai foi outro atingido em cheio pela crise de 2008. Os imóveis perderam metade de seu valor praticamente da noite para o dia, e empreendimentos no valor de centenas de milhares de dólares foram suspensos ou cancelados, deixando investidores de mãos abanando.
No entanto, assim que o mundo começou a se recuperar economicamente, a demanda por propriedades ressurgiu rapidamente e com muito vigor. As construções foram retomadas e, pouco tempo depois, os compradores abocanharam seus imóveis no mesmo ritmo frenético de antes.
Apesar disso, há alguns sinais de que esse movimento está se reduzindo gradualmente: o número de transações imobiliárias em abril de 2015 foi metade do volume durante o mesmo período em 2014. E a empresa de auditoria e consultoria Deloitte previu que os preços médios dos imóveis em Dubai “deve continuar a cair entre 1% e 5% na primeira metade de 2015”.
Por que Dubai voltou ao topo dos rankings? Primeiramente, porque ainda é um paraíso fiscal. E, segundo Ahmet Kayhan, diretor-executivo da Reidin, uma empresa de dados sobre o mercado imobiliário, Dubai hoje é muito diferente do que em 2008.
O Banco Central instituiu uma regulamentação mais rígida sobre impostos, limitando a demanda, e o governo promulgou demandas mais rigorosas aos empreendedores que queiram lançar novos projetos, o que fez reduzir a oferta.
Além disso, os impostos sobre as transações imobiliárias aumentaram “para evitar uma especulação rápida e sistemática no mercado”, explicou Kayhan.
Tallinn, Estônia
Com menos de 400 mil habitantes,Tallinn tem alta demanda da geração nascida após fim da URSS
Enquanto a maior parte da Europa vem se recuperando fortemente desde a crise de 2008, os preços dos imóveis da Estônia estiveram entre os que subiram mais rapidamente em todo o continente. Em 2014, os imóveis residenciais aumentaram cerca de 12,6%.
Além da recuperação econômica, o jornal estoniano Postimees afirma que a maior demanda por habitação está sendo provocada pela geração da chamada Revolução Cantada – os jovens que nasceram quando a Estônia se tornou independente do domínio soviético.
Eles agora entram no mercado como chefes de família e os bancos estão oferecendo empréstimos acessíveis.
Pequim, China
Excesso de imóveis fez oferta aumentar e preço cair em Pequim
A potência industrial tem a economia que cresce mais rapidamente no mundo, mas está entre os últimos colocados na lista de melhores mercados imobiliários, com preços sofrendo uma queda de quase 5,7% em 2014.
“A China está sobrecarregada de imóveis”, explica Montagu-Pollock, indicando uma sobreoferta de propriedades residenciais no mercado particular. Os preços estão inflacionados e os empréstimos saem muito caros.
Desde o ano passado, muitos analistas do mercado imobiliário vêm esperando que a bolha estoure, o que ainda não ocorreu.
Neste ano, os preços médios das casas continuam caindo. Algumas pessoas estão se preparando para o pior, enquanto outras acreditam que o governo está controlando a situação.
“Baseados nos dados de mercado que monitoramos, não acreditamos que Pequim se recupere logo”, diz Kayhan.
Juros de até 17% provocaram queda na demanda por imóveis na Rússia
Inúmeras mudanças no cenário mundial fizeram o mercado imobiliário da Rússia se manter no fim da lista. Houve a queda no preço do petróleo, que atingiu a economia desse país exportador, assim como a desvalorização do rublo frente ao dólar.
Para evitar uma queda ainda maior do rublo, as autoridades aumentaram as taxas de juros em 17% no fim de 2014 – o que afetou ainda mais o setor imobiliário. Os valores dos imóveis caíram mais de 6% em 2014.
“Os preços estão caindo, e ainda vamos assistir a novas quedas consideráveis”, aposta Montagu-Pollock.
“Há apenas dois anos, um colunista da revista Forbes dizia que a Rússia era um mercado imobiliário aquecido”, baseado em um relatório da Ernst & Young. Mas o setor começou a enfrentar dificuldades no ano passado.
Ucrânia
Preços despencaram quase 49% em Kiev por causa dos conflitos no leste da Ucrânia
Não é mera coincidência o fato de entre os 41 mercados analisados globalmente, o local com os menores valores para os imóveis seja um país assolado por uma guerra.
A situação política incerta da Ucrânia desestabilizou o país social e economicamente, segundo um relatório mensal emitido pela empresa de private equity SigmaBleyzer.
Houve depreciação da moeda e hiperinflação, e os ucranianos viram seu dinheiro se desvalorizar continuamente e drasticamente.
Os preços dos imóveis despencaram quase 49% em Kiev em 2014. E até agora, 2015 não parece muito melhor.
Os empréstimos para hipoteca vinham com juros de 21,8% no fim do ano passado, tornando a compra da casa própria algo inalcançável para a maioria dos ucranianos.
“A Rússia e a Ucrânia caíram muito por causa das condições políticas”, explica Kayhan. “Sem que a situação se estabilize, os mercados imobiliários desses países não poderão se recuperar adequadamente.”
Aposentados podem entrar na Justiça por antecipação de salário
Governo silencia sobre decisão de não pagar o benefício a 30 milhões de pessoas
Os beneficiários da Previdência Social não devem receber o adiantamento de metade do 13º salário em agosto. Com a queda na arrecadação em virtude da crise econômica, a presidente da República, Dilma Rousseff, não publicou o decreto que autoriza a antecipação da primeira parcela do benefício, e informações extraoficiais do Ministério da Fazenda admitem que a decisão de não pagar já foi tomada. Desde que chegou ao Palácio do Planalto, a chefe do Executivo costuma autorizar o desembolso entre o fim de julho e o início deste mês. Diante da indefinição, centrais sindicais e sindicatos de aposentados prometem ir à Justiça para garantir o recebimento do dinheiro.
No ano passado, 27,6 milhões de segurados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) receberam R$ 13,9 bilhões em adiantamento de 13º, entre 25 de agosto e 5 de setembro. Em 2015, quase 30 milhões de aposentados e pensionistas teriam direito ao benefício que custaria pelo menos R$ 15 bilhões aos cofres públicos. O adiamento dos desembolsos pode aumentar a pressão popular sobre Dilma e implicar uma queda ainda maior na popularidade da presidente da República.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que mais de 17 milhões de famílias no Brasil têm um idoso como provedor. Significa dizer que 24,89% do lares, ou quase um quarto, têm como responsável pelo sustento uma pessoa com mais de 60 anos. Desde 2006, os segurados da Previdência colocam no bolso uma parte da bonificação natalina antecipada na folha de agosto. O adiantamento é resultado do acordo firmado entre o governo e as entidades representativas de aposentados e pensionistas, que estabelecia que a antecipação ocorreria até 2010. Para atender reivindicação dos aposentados, o Executivo manteve o adiantamento até o ano passado.
Expectativa
Muitos idosos contam com a renda extra e contratam empréstimo consignado, ou antecipam as compras para pagar com o dinheiro do 13º. “Estamos preparando um mandado de segurança para entrar na Justiça. É direito adquirido e não vamos abrir mão. Além disso, vamos fazer uma mobilização dos nossos associados em Brasília”, antecipou Plínio Sarti, secretário-geral do Sindicato Nacional dos Aposentados e Pensionistas da Força Sindical.
A Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas (Cobap) também se articula para recorrer ao Judiciário. A entidade aguarda a confirmação oficial do governo para ingressar com uma ação na Justiça. Moacir Meirelles, vice-presidente da Cobap, argumentou que grande parte dos aposentados já negociou com os bancos a primeira parcela do benefício. Ou seja, tomaram empréstimos dando como garantia o dinheiro extra na folha de agosto. “Eles já contavam com o dinheiro este mês. É um golpe para os aposentados.”
O secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sérgio Nobre, disse que o trabalhador e o aposentado acabam pagando a conta do ajuste fiscal. “O aposentado não tem como fazer sacrifício porque é o lado mais vulnerável.” Segundo Nobre, neste momento, a Justiça poderá não ser o melhor caminho para resolver o problema. Ele aposta na instalação do fórum de negociação proposto pelo governo para 2 de setembro, com a participação das centrais, a fim de tratar das questões dos aposentados.
A Previdência Social informou que trabalha com a perspectiva de depositar o adiantamento ainda em agosto e tem debatido com as demais áreas do governo para efetivar a antecipação. Entretanto, até o momento, não há definição sobre o assunto e a pasta trabalha para buscar uma alternativa responsável nos próximos dias, devido aos problemas decorrentes da queda de arrecadação. Procurado, o Ministério da Fazenda não se pronunciou até o fechamento desta edição.
Fonte: Correioweb
Enquanto o mundo cresce, Brasil e mais quatro estão na pior
Levantamento da Economist Intelligence Unit (EIU) mostra que os países em recessão vão na contramão do mundo
Dilma, Maduro e Cristina: Brasil, Venezuela e Argentina estão entre os que não crescem(Jorge Silva/Reuters)
Na contramão da maioria das economias do mundo, o Brasil amargará recessão este ano. De acordo com um estudo da Economist Intelligence Unit (EIU), a economia brasileira deve recuar 1,2% em 2015, uma previsão até mesmo otimista em relação à do próprio governo, que prevê queda de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Enquanto o governo por muito tempo atribuiu a culpa da crise à conjuntura internacional, o levantamento mostra que, ao lado do Brasil, apenas outros quatro países estão na pior: Argentina (-0,7%), Ucrânia (-4,9%), Venezuela (-3,7%) e Rússia (-4%). A estimativa da consultoria engloba 56 países de todos os continentes.
A ideia de que a desaceleração econômica mundial é mais nociva aos emergentes também se mostra errônea quando confrontada com os números. Brasil e Rússia definham porque seus governantes usaram a ideologia como principal ferramenta de gestão. Já outros membros dos Brics, como China, Índia e África do Sul, devem avançar 6,9%, 7,9%, e 2,1%, respectivamente. Até mesmo a Grécia, em situação fiscal caótica, crescerá mais de 1% este ano. Países asiáticos, como Filipinas e Vietnã, também lideram a lista dos que mais crescem: 6,6% e 6,2% este ano, respectivamente.
Confira a lista elaborada pela Economist:
(VEJA.com/VEJA)
Esta semana li na imprensa econômica uma projeção citada pelo ex-ministro Delfim Neto: o governo brasileiro deverá pagar este ano R$ 400 bilhões de juros para remunerar a dívida pública. É um número astronômico: 400.000.000.000,00. Em termos relativos, ou seja, em relação ao que isto corresponde do PIB (Produto Interno Bruto, que é a soma de todas as riquezas produzidas pelo país) é mais do que o dobro na comparação com os anos anteriores. É o lado pouco trombeteado do chamado “ajuste”.
É para manter a dívida pública administrável, diga-se, que o ajuste atual está sendo feito. Se há quem lucre com o “aperto dos cintos”, estes são os credores da dívida, as instituições financeiras, os bancos. O ajuste, afinal, é principalmente (e não apenas, é claro) para que o país eleve o seu superávit primário, a reserva de dinheiro para pagar os juros.
Mais de R$ 1 bilhão ao dia devem sair dos cofres públicos para pagar juros em 2015. R$ 41 milhões por hora. R$ 694 mil por minuto. R$ 11,5 mil por segundo. Assim como comerciantes paulistas bolaram um placar que contabiliza o quanto brasileiros pagam em impostos, por que não colocar na Avenida Paulista um placar para mostrar o quanto o país paga de juros? Os números vão girar rápido na tela de plasma.
A questão, evidentemente, não é de hoje, e não se circunscreve aos governos Dilma, Lula ou FHC. Em termos de forças políticas de maior expressão, diga-se, o PT foi último (até 2002 quando Lula assinou a Carta ao Povo Brasileiro comprometendo-se a honrar os compromissos da dívida) a colocar na agenda pública um debate dessa natureza.
Pode ser que não haja outro caminho, nem outro horizonte nos próximos anos, que livre o país deste enredo. OK. Mas também fica difícil explicar as carências todas de serviços públicos sem este componente tão básico e gritante: o direcionamento dos recursos (que come parcela gigantesca do Orçamento Federal) para instituições financeiras. Claro que corrupção, desvios, má gestão contam, e muito, para explicar as insuficiências na saúde, educação etc, mas e a drenagem dos juros? Por que não colocar este elemento em debate, ao menos levá-lo em conta? Algo para que futuras gerações possam maturar alternativas, quem sabe. Para que não vire sina eterna a pontuar nossos vôos de galinha na economia.
Não custa lembrar, conforme escreveu o economista Luiz Gonzaga Belluzzo na revista Carta Capital recentemente, que entre 1995 e 2011, “o Estado brasileiro transferiu para os detentores da dívida pública, sob a forma de pagamento de juros reais, um total acumulado de 109,8% do PIB”. Ou seja: é como se em 16 anos seguidos de produção de riquezas por todos os brasileiros, um fosse dedicado exclusivamente ao pagamento de juros para instituições financeiras.
OK, não somos a Grécia (que quebrada, desafiou os credores), não há o que fazer. Quem manda no mundo são as finanças. É verdade. Os países são peças de um cassino global. Nossas riquezas, as fichas de um jogo no qual as variantes fogem ao controle de governantes de plantão. Um JURÔMETRO na Avenida Paulista, portanto, poderia nos lembrar cotidianamente dessas verdades. Talvez fosse mais honesto com todo mundo.
Fonte: Yahoo
A matemática de consumir movido pelo crédito, fácil e caro, pode levar o consumidor para a inadimplência e até ao superendividamento, aquela dívida que nem se dispusesse de toda sua renda mensal a família conseguiria quitar, que tira o sono e transforma a euforia do consumo em tormenta. Indicadores econômicos mostram que o comprometimento da renda do brasileiro está em patamar crescente, avançando junto com a alta das taxas de juros e encarecimento do crédito. Mecanismos para que os endividados possam colocar a vida financeira em dia, renegociando com o credor, são uma luz no fim do túnel e já estão ganhando fôlego em vários estados brasileiros, sendo também alternativa para revisão Código de Defesa do Consumidor (CDC).
Indicador do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) mostra que, em março, 54,7 milhões de brasileiros estavam endividados, 2,2 milhões a mais que em março do ano passado e cerca de 900 mil brasileiros a mais do que em fevereiro. Desse percentual, 71% (38,8 milhões) têm dívidas vencidas há mais de um ano. A inadimplência dos consumidores em março avançou 3,76% frente a 2014, o percentual que estava estável voltou a ganhar fôlego a partir de meados do ano passado.
“O percentual é preocupante porque mostra que essas pessoas estão em sérias dificuldades para quitar os seus compromissos. Negativadas elas deixam de consumir”, observa Flávio Borges, gerente financeiro do SPC Brasil. Segundo ele, as dívidas de valores menores são quitadas em até 90 dias e aquelas de maior valor geralmente constituem o percentual atrasado há mais de um ano
A luz amarela já foi acesa por especialistas que apontam 2015 como um período que pode potencializar a crise nas famílias. Ao fim de um ano os juros do cartão de crédito, por exemplo, em alta e somando mais de 240% ao ano, quadruplicam o valor da fatura. Para Borges a negociação e o pagamento são sempre a melhor saída. Um possível alívio para os afogados nas contas que atingem patamares impagáveis pode ser a atualização do Código de Defesa do Consumidor (CDC), proposta no PLS 283/12 em tramitação no Senado. Se aprovada, a medida pode incluir na lei uma espécie de recuperação judicial do consumidor, permitindo a negociação de dívidas, respeitando o percentual necessário à sobrevivência da família. A medida é um grande avanço na opinião da juíza Clarissa Costa de Lima, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e estudiosa do tema do superendividamento.
O nível de endividamento das famílias saltou de 35,9% em 2010 para 46,35% em janeiro de 2015, segundo dados do Banco Central. As dívidas envolvem todas as classes sociais e onde as dívidas impagáveis chegam os danos são de grandes proporções.
Drama Em 2014, Joana (nome fictício), funcionária pública, recebia salário de R$ 16 mil e havia acabado de comprar um apartamento financiado pela Caixa. Movida pelo desejo de decorar a casa nova e motivada pelo crédito fácil, que pode ser contratado pela internet, ela fez um empréstimo utilizando uma linha de crédito pessoal (CDC) para comprar móveis novos, eletrodomésticos e peças de decoração.
Mas o sonho virou tormento. Em 12 meses a dívida de Joana dobrou, atingindo o montante de R$ 150 mil. No mesmo período ela perdeu a remuneração de um cargo comissionado e sua renda baixou para pouco mais de R$ 6 mil líquidos. “Desse montante o banco está retendo mais de R$ 5mil, me sobrando R$ 802 por mês”, conta a funcionária pública. Ela diz que pegou o empréstimo movida pela facilidade do crédito e por não acreditar que pudesse, de uma hora para outra, perder parte de sua renda.
Joana perdeu a renda e a paz. O valor que lhe resta não é suficiente para pagar suas despesas básicas e ela está contando com a ajuda de familiares. O casamento também sofreu. “Meu marido não aceita que eu tenha caído nessa bola de neve.” Na Justiça contra o banco, Joana está tentando agora renegociar a dívida para ter acesso a uma maior parte de seu salário. “Sei que tenho que pagar, mas o que estão me deixando não é suficiente para eu viver.”
Clarissa Lima explica que a proposta para revisão do CDC também prevê a educação financeira, mas ressalta que ao contrário do que muitos podem pensar não é só a falta de experiência para lidar com o crédito e as contas que levam ao descontrole nas sociedades de consumo, mas também os revezes da vida, como o desemprego que começou a crescer no país.
O descontrole financeiro do brasileiro também aparece na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Segundo o levantamento, 59,6% das famílias têm a renda comprometida por dívidas, sendo que 20,7% revelam que o comprometimento chega a superar 50% do orçamento e 6,2% disseram que não terão condição de quitar a fatura.
Fonte: Em
A taxa de desemprego no Brasil deve continuar crescendo nos próximos dois anos e atingir 7,1% em 2015 e 7,3% em 2016, prevê a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em estudo divulgado nesta segunda-feira.
No ano passado, o índice de desemprego no Brasil atingiu 6,8%, nos cálculos da organização.
Segundo o relatório “Perspectivas para o emprego e o social no mundo – Tendências para 2015”, o desemprego no Brasil também deverá ser de 7,3% em 2017, o mesmo índice do ano anterior.
As taxas de desemprego previstas em relação ao Brasil em 2015 e nos dois próximos anos se situam acima da média mundial e também dos índices médios na América Latina e Caribe e dos países do G20, grupo que reúne as principais economias do planeta, entre elas o Brasil.
“Pela primeira vez desde 2002, o crescimento do PIB na América Latina em 2014 (e 2015) deverá ser inferior ao das economias avançadas. O desemprego voltou a crescer em toda a região, em particular nos países mais dependentes das exportações de matérias-primas”, diz a OIT.
“O ritmo do crescimento econômico na região desacelerou claramente, afetando os mercados de trabalho”, ressalta a organização.
De acordo com o estudo, o desemprego na América Latina deverá ser de 6,8% neste ano e de 6,9% em 2016. Em 2017, a previsão é de leve recuo na região, que deve voltar a registrar uma taxa de 6,8%.
Há grandes diferenças entre os países da América Latina. Impulsionado pela recuperação da economia americana, o México deve ter uma taxa de 4,8% neste ano.
Já para a Argentina, o índice de desemprego previsto é de 9,5%, segundo a OIT. Na Colômbia, deverá atingir quase 10% e, na Bolívia, apenas 2,7%.
O relatório aponta que as perspectivas mundiais de emprego vão se deteriorar nos próximos cinco anos.
Em 2014, mais de 201 milhões de pessoas estavam sem emprego, o que representa 31 milhões a mais do que antes do início da crise financeira mundial, em 2008.
Segundo a OIT, deverá haver cerca de 3 milhões de novos desempregados no mundo em 2015 e 8 milhões nos quatro anos seguintes.
O “déficit de empregos” no mundo, que contabiliza o número de postos de trabalho perdidos desde o início da crise mundial, é de 61 milhões, nos cálculos da organização.
“Se levarmos em conta as pessoas que vão entrar no mercado de trabalho nos próximos cinco anos, serão necessários 280 milhões de empregos suplementares até 2019 para absorver esse déficit”, afirma a OIT.
A organização destaca que a economia mundial continua crescendo a taxas bem inferiores às registradas antes da crise de 2008 e que ela parece “incapaz” de reabsorver o déficit de empregos e reduzir as desigualdades sociais que surgiram nesse período.
“O desafio de fazer com que o desemprego e o subemprego voltem aos níveis antes da crise parece ter se tornado uma tarefa insuperável”, ressalta a organização, que também alerta para os “sérios riscos sociais e econômicos” da situação.
De acordo com o relatório, o desemprego está caindo em algumas economias avançadas, como Estados Unidos, Japão e Grã-Bretanha, mas permanece “preocupante” na maior parte dos países europeus.
Nos Estados Unidos, o desemprego deve atingir 5,9% neste ano e 5,5% em 2016, depois de ter atingido 6,2% no ano passado.
Apesar da melhoria em algumas economias desenvolvidas, a situação de emprego se deteriora nos países emergentes e em desenvolvimento, diz o estudo.
Na China, o desemprego, que deve ser de 4,7% em 2014, segundo estimativas, deverá aumentar para 4,8% neste ano e 4,9% em 2016.
Para a OIT, o subemprego e o emprego informal “deverão permanecer irredutivelmente elevados” nos próximos cinco anos na maior parte de países emergentes e em desenvolvimento.
Fonte: OIT
Os dados do PIB do primeiro trimestre, divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira, confirmam o que consultorias econômicas vinham prevendo há algum tempo: 2015 será um ano de aperto.
Entre janeiro e março, a economia retraiu 0,2% em relação ao trimestre anterior e 1,6% na comparação com o mesmo período do ano passado. “Houve queda tanto no consumo das famílias, quanto no investimento e gastos do governo”, analisa o economista e professor do Insper João Luiz Mascolo.
Especialistas esperam que o segundo trimestre seja ainda mais difícil, em parte em função do anúncio, feito na semana passada, de que o governo pretende cortar R$ 69,9 bilhões do orçamento de 2015.
“Não há dúvida de que ainda vai piorar antes de melhorar”, diz Mascolo.
“Pelas estimativas mais otimistas, uma recuperação só ganhará fôlego em 2016”, concorda Márcio Salvato, coordenador do Curso de Economia do Ibmec-MG.
Até o governo já admite que o PIB deve cair 1,2% neste ano, o que seria a maior contração econômica vivida pelo país desde 1990, quando o governo Collor confiscou a poupança de milhares de pessoas desatando uma onda de demissões e falência de empresas.
Nos últimos anos, os brasileiros se acostumaram a um cenário de relativa bonança. Os salários vinham subindo, o índices de desemprego batiam recordes históricos de baixa e o acesso ao crédito estava cada vez mais fácil.
O que esperar, então, de um ano de recessão? E como se preparar para as incertezas e o aperto econômico dos próximos meses? A BBC Brasil consultou analistas financeiros e economistas para responder a essa questão. Confira:
Emprego em risco?
Se as previsões dos analistas estiverem corretas, centenas de milhares de brasileiros perderão seu ganha-pão este ano.
Em abril, a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE registrou uma taxa de desemprego de 6,4%, a maior desde março de 2011. O índice ainda é baixo se comparado aos do início da década passada (que costumavam ter dois dígitos). Mas há um ano, era de 4,9%.
Já há setores que enfrentam demissões coletivas, como as montadoras, a construção civil e petróleo e gás (cuja crise foi acentuada pelas repercussões da Operação Lava Jato).
Um levantamento feito pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostrou que só a indústria paulista no ano passado teve uma perda de 128 mil postos de trabalho. E para este ano as perspectivas não são muito melhores.
“O desemprego está aumentando e infelizmente isso é só o começo, porque o mercado de trabalho reage ao cenário econômico com defasagem”, diz Alessandra Ribeiro, analista da consultoria Tendências. “Pelos nossos cálculos teremos uma média de 370 mil desempregados a mais que no ano passado.”
Para Samy Dana, professor de Finanças da FGV-SP, diante de um cenário como este é importante que as famílias mais vulneráveis revisem seus gastos e acumulem reservas.
Márcio Salvato, do Ibmec-MG, concorda e recomenda que essas economias para emergências sejam colocadas em uma aplicação de baixo risco, como um fundo de renda fixa ou títulos do tesouro.
“Um trabalhador que perde o emprego hoje provavelmente demorará mais para achar outra coisa – e possivelmente terá de aceitar um salário menor”, diz Dana.
“Se alguém da família corre o risco de ficar desempregado, o ideal é que seus integrantes enxuguem seus gastos fixos para fazer uma reserva de precaução o quanto antes. Talvez seja hora de cortar a TV a cabo ou contratar um plano mais barato de celular. Eles também devem evitar fazer grandes compras ou comprometer o orçamento com a prestação de um carro ou imóvel.”
Para Salvato, para alguns profissionais também pode valer a pena investir em formação e reciclagem.
“Em um ambiente de mais competição pelos postos de trabalho disponíveis, uma boa formação ou um treinamento específico podem fazer a diferença. Às vezes, pode até valer a pena pensar em mudar de área, se você trabalha em um setor que teve uma freada brusca”, diz ele.
“Além disso, essa é hora de se empenhar para garantir a produtividade de seu trabalho, porque profissionais vistos como pouco produtivos no geral estão entre os primeiros a serem demitidos.”
Bolsos mais vazios
Até o ano passado, era comum ouvir histórias de profissionais que pulavam de uma empresa para outra atraídos por salários mais altos. A partir deste ano, o grande diferencial de um bom emprego parece ser estabilidade.
A PME, do IBGE, já vem registrando quedas sucessivas na renda dos trabalhadores. Em abril, o rendimento real médio registrou a terceira queda consecutiva, ficando em R$ 2.138. O recuo foi de 0,5% frente a março e de 2,9% frente ao mesmo período de 2014.
“Em um cenário como esse, quem é demitido pode ter de aceitar um salário menor para voltar ao mercado”, diz Dana. “Além disso, deve ficar cada vez mais difícil negociar aumentos para repor a inflação.”
“Mesmo os sindicatos que estão saindo na rua hoje estão reivindicando estabilidade. Não há ambiente por uma briga por salários mais altos”, concorda Salvato, do Ibmec.
A inflação, que segundo as previsões do mercado deve ficar em 8,2%, também ajuda a apertar o orçamento das famílias brasileiras.
E ainda é preciso pôr na conta um possível aumento de impostos.
“Já tivemos um aumento da carga com as altas da Cide, sobre os combustíveis, e do IPI dos carros, por exemplo. Mas é bem possível que venham mais aumentos por aí” , diz Ribeiro.
Ela explica, que, pelas contas de analistas da Tendências, sem esses aumentos vai ser muito difícil para o governo entregar o superavit de 1,2% do PIB, prometido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Ainda mais considerando o impacto do desaquecimento da economia na arrecadação.
“Por isso, o momento é mesmo de revisar gastos e cortar o que não for essencial”, aconselha Dana.
Casa própria ou aluguel?
Os preços médios de imóveis em 20 cidades brasileiras já registraram uma queda real de 3,47% neste ano de acordo com o índice FipeZap.
Os mercados imobiliário de cada região e cidade brasileira têm dinâmicas próprias, mas Eduardo Zylberstajn, coordenador do índice, diz que no geral, os preços tendem a continuar caindo este ano em função de dois fatores.
Primeiro, o aumento do desemprego e a queda nos salários, que reduz a demanda do setor. “Esse é um mercado que depende muito da renda e confiança dos consumidores”, diz Zylberstajn.
De outro, as mudanças nas regras da Caixa Econômica Federal para o crédito imobiliário, que reduzem o teto de financiamento com recursos da poupança para a compra de imóveis usados.
“Mas não vejo o risco de nada que se assemelhe a um ‘estouro de bolha’ no mercado imobiliário. O que devemos ter é um período de correção moderada de preços”, diz ele.
Para quem quer comprar um imóvel, vale a pena esperar uma queda maior?
Ribeiro, da Tendências acredita que sim. Já para Zylbertajn vale a pena ficar de olho no mercado para tentar uma barganha desde já.
“Ao encontrar um imóvel de seu interesse você pode fazer uma oferta 20%, 15% mais baixa que o preço oferecido. Quem precisa vender sabe que no atual cenário é provável que tenha de aceitar um desconto”, diz.
No caso do aluguel, a recomendação de muitos economistas e analistas financeiros é que se tente uma renegociação de contratos. “Mesmo antes do vencimento você pode tentar pagar menos se notar que o aluguel de outros imóveis em sua região está caindo”, diz Dana.
Ribeiro, porém, acredita que, embora os preços do aluguel já tenham mostrado uma boa desaceleração este ano, “as novas dificuldades para o acesso ao crédito para a compra de um imóvel podem bloquear essa queda.”
Câmbio volátil
Segundo as previsões do mercado, registradas no relatório Focus, do Banco Central, o dólar deve fechar o ano em R$ 3,20, mantendo uma média de R$ 3,07 ao longo de 2015.
Mas em função do cenário doméstico complicado e de uma série de incertezas relacionadas a recuperação da economia internacional também podem haver surpresas sobre esse indicador.
“Devemos ter muita volatilidade no câmbio. Ao que tudo indica, o Fed (Banco Central americano) deve começar a aumentar os juros no segundo semestre deste ano, o que tende a provocar uma valorização do dólar. Mas as variáveis que influenciam esse mercado são muitas – também temos as expectativas sobre a implementação do ajuste fiscal no Brasil – então é difícil fazer previsões de médio prazo”, diz Ribeiro, da Tendências.
Dana diz que planos de viagens e estudos no exterior precisam ser repensados diante do novo patamar do dólar e dessa esperada volatilidade. A queda de 16% nos gastos de brasileiros no exterior nos primeiros meses deste ano mostra que muitos já estão refazendo as contas.
“Ao menos esse novo patamar do dólar faz com que tenhamos uma boa notícia no que diz respeito aos dados do PIB: as exportações estão começando a se recuperar”, opina Ribeiro.
Mascolo, do Insper, concorda. Ele nota que o setor externo foi o que evitou uma queda mais acentuada no PIB do primeiro trimestre. “As exportações cresceram 5,7% em relação ao trimestre anterior”, diz. “E o novo patamar do dólar também ajuda a indústria, ao dar mais competitividade a produtos brasileiros frente a concorrência externa.”
Em 2014, a balança comercial brasileira teve deficit de US$ 3,93 bilhões. Para este ano, o mercado espera um superavit de US$ 4 bilhões.
Em Washington, Levy reforça aceno do Brasil ao FMI
Ministro reuniu-se com representantes do FMI três vezes noa últimos três meses
Após vários anos na geladeira, a relação entre o governo brasileiro e o Fundo Monetário Internacional (FMI) vive dias agitados.
Em visita a Washington nesta segunda-feira, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, se encontrou com dirigentes da organização pela terceira vez em três meses, quando mais uma vez tentou tranquilizá-los sobre os rumos da economia brasileira.
Ele já havia participado da reunião de primavera da organização, em abril, e no mês passado recebeu, em Brasília, a diretora-geral da instituição, Christine Lagarde.
Nos Estados Unidos, Levy foi a principal atração de um painel sobre a economia latino-americana. Em sua fala, ele reforçou o discurso de que o Brasil tem feito ajustes para voltar a crescer e foi elogiado por membros da plateia.
A postura do ministro quanto ao fundo contrasta com a dos quatro primeiros anos do governo Dilma Rousseff e a da gestão de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. Lula e Dilma costumam criticar a relação que o Brasil mantinha com o FMI nos anos 1990, quando o país recorreu ao fundo em busca de empréstimos durante crises.
Tradicionalmente o PT e partidos de esquerda brasileiros acusam o FMI de impor nos países onde atua uma agenda “neoliberal”, que prejudicaria trabalhadores e favoreceria bancos e grandes empresas.
Em 2013, Lula afirmou em Portugal que o “FMI nunca resolveu nenhum problema”.
“Muitas vezes o FMI empresta dinheiro a um país, que ao receber o dinheiro paga a dívida de outros bancos, e o prejuízo fica com a parte pobre da população que trabalha. Sempre foi a assim e sempre será assim.”
Em 2014, ao se referir à quitação da dívida do Brasil com o fundo, Dilma afirmou que “o FMI nunca mais dirigiu a política brasileira”. No ano passado, o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, não participou da reunião anual da instituição.
O governo brasileiro chancelou ainda o lançamento de duas iniciativas dos Brics (bloco que integra ao lado de Rússia, índia, China e África do Sul) que, segundo analistas, podem reduzir o poder do FMI e de outras organizações financeiras tradicionais: o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e um acordo de reserva de contingência.
O acordo, que prevê a criação de um fundo para socorrer países dos Brics, em tese livraria os membros do bloco de pedir socorro ao FMI.
Há tempos, o Brasil e os demais membros dos Brics cobram mudanças no FMI para que a organização reflita melhor a nova ordem global, cedendo mais espaço e poder de voto a países emergentes. A própria direção do FMI defende a necessidade de reformas, mas a proposta está empacada no Congresso americano, que precisa dar aval às mudanças e teme ceder espaço na instituição a rivais russos e chineses
De devedor a credor
No governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), o Brasil recebeu três empréstimos do FMI, somando US$ 67 bilhões (R$ 213 bilhões, em valores de hoje). Como contrapartida, o país teve de realizar ajustes fiscais e cumprir metas definidas pela instituição.
Já no governo Lula, o Brasil sanou sua dívida com o FMI e, em 2009, tornou-se credor do fundo.
Para Paulo Sotero, presidente do Brazil Institute do Wilson Center, centro de pesquisas e debates em Washington, não se pode comparar o momento que o Brasil vive hoje com o que enfrentava nos anos 1990, quando perigava dar calote em suas dívidas e teve de bater às portas do fundo por ajuda.
Hoje, apesar da economia em recessão, o país possui US$ 370 bilhões em reservas internacionais, o que lhe protege dos riscos daquela época, diz ele.
Sotero afirma que, ao visitar Washington e manter reuniões frequentes com o FMI, Levy busca pôr fim a uma “crise de confiança” entre o Brasil e a organização, criada em parte pela postura do ex-ministro Guido Mantega.
“A crise foi alimentada por ele (Mantega) não vir tanto aqui, não manter diálogo. Deve-se estar em contato permanente, não perder nenhuma oportunidade de alimentar a confiança, e é isso o que o Joaquim (Levy) está fazendo.”
Sotero diz que, ao se acercar do FMI, Levy também busca tranquilizar investidores, que normalmente compartilham das visões do fundo.
“Ele mostra que o Brasil está dialogando, atento e que valoriza essas instituições”.
No painel, Levy atualizou os presentes sobre o ajuste fiscal em curso no país. Ele comemorou a aprovação pelo Congresso de alguns pontos do ajuste e disse que novas medidas serão submetidas aos legisladores em breve.
O brasileiro Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial, diz que não é Levy quem tem buscado uma maior aproximação com o FMI, “mas sim o mundo que se interessa cada vez mais pelo que ele tem a dizer” sobre a economia brasileira.
“O importante é que há uma mensagem consistente, reconhecida como uma que conduzirá ao crescimento de longo prazo da economia brasileira.”
Em sua visita, o ministro também se reuniu com o secretário do Tesouro americano, Jacob Lew, para tratar da viagem de Dilma a Washington no fim do mês.
Há outro motivo – pessoal – para as vindas frequentes de Levy à capital americana: a mulher e as duas filhas do ministro moram na cidade.
Visita a Paris
O giro do ministro se encerrará em Paris, onde ele se reúne com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em abril, estimulado por Levy, o governo anunciou que firmaria um acordo marco com o grupo, que reúne 34 países, em sua maioria desenvolvidos.
O Brasil já recebeu convites para aderir à organização, o último deles em 2009, mas sempre recusou. Para participar da OCDE, o país teria, entre outras ações, de adotar padrões de transparência nas contas públicas e de combate à corrupção em empresas privadas.
Em 2009, ao justificar a recusa brasileira ao convite, Mantega disse que ela impediria o país de exportar ou importar em moeda local e perdoar as dívidas de nações pobres, o que o Brasil já fez na África e no Haiti.
Assessores do ministério da Fazenda disseram que, em Paris, Levy discutirá a adesão do Brasil ao bloco.
Para Sotero, do Brazil Institute, o gesto marcaria uma nova etapa na relação do Brasil com organizações econômicas mundiais.
“O Brasil sempre teve muita dificuldades com essas instituições (…), mas não são elas que estão impondo nada ao Brasil – quem está impondo as reformas é o governo, é a presidente reeleita, é o seu ministro da Fazenda e é o Congresso nacional”.
CNI: ‘Indústria não pode ser sacrificada pelo ajuste fiscal
A indústria brasileira está “pronta para contribuir” com os esforços de ajuste fiscal do governo, mas não concorda com alguns rumos que essa política tem seguido, disse à BBC Brasil o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade.
Em entrevista na segunda-feira na Cidade do México, onde integra a delegação que acompanha a visita de Estado da presidente Dilma Rousseff ao país, Andrade afirmou que o Brasil precisa do ajuste fiscal promovido pelo governo para voltar a crescer, mas criticou a revisão de políticas que favorecem a indústria.
“Nós da indústria estamos prontos a contribuir, mas não (concordamos) com tirar as condições que a indústria colocou como sendo necessárias para sermos competitivos no exterior”, afirmou Andrade.
Na terça-feira, Andrade foi abordado por jornalistas nos corredores do Palácio Nacional mexicano durante o encontro de Dilma com o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto. Os repórteres repercutiram a notícia de que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, estaria insatisfeito com os cortes de gastos neste ano e desejava uma economia maior.
“Ele quer o nosso pescoço agora? Já teve um corte de R$ 70 bilhões e ainda quer mais?”, indagou Andrade.
‘Sacrifício’
À BBC Brasil, o presidente da CNI disse que a indústria está disposta a contribuir com a economia dos gastos, mas não quer ser prejudicada além do necessário.
“O ajuste faz parte das condições necessárias para crescermos no futuro com sustentabilidade. Temos de fazer um sacrifício. É um dever de todos os setores, não só da indústria, mas dos serviços, da agricultura”, disse.
“Nós da indústria estamos prontos a contribuir, mas não (concordamos) com tirar as condições que a indústria colocou como sendo necessárias para sermos competitivos no exterior.”
Em particular, ele criticou duas propostas do governo capitaneadas por Levy que integram o ajuste fiscal. Uma delas – em tramitação no Congresso – é reduzir a desoneração da folha de pagamentos, política que nos últimos anos diminuiu a cobrança de contribuições previdenciárias de empresas brasileiras para evitar demissões.
“Essas desonerações sempre foram negociadas com o governo, e a função delas não é levar subsídios às indústrias, mas reduzir o custo do trabalho no Brasil, que é muito elevado não pelos salários, mas por encargos trabalhistas”, disse o empresário.
Em fevereiro, o ministro da Fazenda classificou as desonerações de uma “brincadeira” que custa R$ 25 bilhões aos cofres brasileiros por ano e afirmou que ela não alcançou os efeitos desejados.
A outra proposta criticada pelo presidente da CNI é a redução do papel do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Levy tem defendido diminuir os empréstimos subsidiados do banco, que inflam os gastos do governo.
“Você acaba com o BNDES e quem o vai substituir? Que mecanismos vamos ter para não só a indústria, mas a infraestrutura, os projetos brasileiros serem levados à frente?”, questiona Andrade.
“O BNDES é o único banco de financiamento de longo prazo de investimentos no Brasil. Ele financia investimentos em infraestrutura com 20, 30 anos de prazo, e a indústria nacional com 6, 8 anos. Isso não existe nos bancos comerciais.”
‘Principais mercados’
Andrade integra a comitiva de empresários que acompanha a presidente Dilma Rousseff em sua visita de Estado ao México. Ele elogia a iniciativa e diz que, depois de abrir mercados importantes em todo o mundo, é hora de o governo brasileiro voltar a focar nos seus principais parceiros.
“O Brasil tem hoje poucos acordos comerciais, e isso é um dificultante para as exportações brasileiras e investimentos de empresas do Brasil no exterior. Acho que agora o governo está sentindo a necessidade de ampliar esses acordos”, afirmou.
“Claro que há acordos com países da África que são importantes, mas nós empresários queremos os principais mercados. O dos Estados Unidos, do Japão, da União Europeia, do México.”
Por que é tão difícil para o governo cortar gastos?
Após semanas de negociações e embates, governo anunciou corte de R$ 69,9 bilhões
Após semanas de negociações e embates, o governo anunciou um corte de R$ 69,9 bilhões no Orçamento Federal, com objetivo de garantir recursos suficientes para o pagamento da dívida da União e manter as contas públicas equilibradas.
Com um orçamento amarrado, o governo teve que sacrificar áreas consideradas prioritárias. O Ministério da Saúde perderá R$ 11,8 bilhões e o da Educação, R$ 9,4 bilhões. O corte no orçamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) será de R$ 25,7 bilhões.
Emendas apresentadas por parlamentares, que em geral destinam recursos para gastos e investimentos em seus Estados de origem, sofrerão um corte de R$ 21,4 bilhões.
Os cortes são uma consequência do baixo crescimento da economia, o que tem impacto direto na arrecadação de impostos. Em sua apresentação, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, anunciou que o governo agora trabalha com uma queda de 1,2% do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano.
O valor total anunciado ficou no meio do intervalo debatido pela equipe de Dilma Rousseff. De um lado, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, recomendou um contingenciamento de R$ 80 bilhões. De outro, os ministérios da Casa Civil e do Planejamento, defendiam uma redução menor, de R$ 60 bilhões.
A previsão para as receitas primárias (essencialmente com impostos e tributos) do governo foi reduzida de R$ 1,45 trilhão para R$ 1,37 trilhão. Os valores anunciados no contingenciamento podem parecer, então, uma parcela pequena desses ganhos vindos da arrecadação. Mas, na prática, representam um esforço expressivo de economia.
Diante disso, afinal, por que é tão difícil para o governo cortar gastos?
Gastos
O que acontece é que boa parte do Orçamento do governo é formada por despesas obrigatórias, ou cujas alterações são impopulares e dependem de aprovação do Congresso Nacional (Previdência Social, por exemplo) ou ainda por gastos fixados em contratos, como o pagamento dos salários dos servidores.
Aposentadorias compõem um gasto crescente devido ao envelhecimento da população e aos reajustes do salário mínimo, que hoje servem de referência para esses benefícios. Dessa forma, a Previdência Social deve consumir R$ 437 bilhões neste ano.
Já os gastos com pessoal, que subiram devido aos reajustes salariais e aos novos concursos realizados principalmente no governo Lula, devem somar R$ 235 bilhões. Além disso, o governo é obrigado a repassar parte do que arrecada para Estados e municípios, o que deve representar R$ 213 bilhões em 2015.
As chamadas despesas discricionárias, aquelas que de fato podem ser cortadas imediatamente pelo governo estão previstas em R$ 312 bilhões neste ano – e a maior parte desse valor corresponde a gastos em áreas sociais, como Educação, Saúde e os benefícios do Programa Bolsa Família, ou investimentos do PAC.
“O governo está apagando fogo. Não dá tempo de fazer uma reforma da Previdência e ele precisa cortar agora. Inevitavelmente terá que sacrificar investimentos”, observa Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central e hoje economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio.
Boa parte do Orçamento do governo é formado por despesas obrigatórias, cuja alteração é impopular e depende de aprovação do Congresso Nacional
Cortes impopulares
O economista da PUC-Rio José Márcio Camargo nota que essas despesas previdenciárias representam 13% do PIB brasileiro, o que, segundo ele, é alto em relação à idade média da população.
A realização de uma reforma da Previdência, porém, é algo impopular, que enfrenta grande resistência na sociedade, pois representa cortes de benefícios sociais.
A tentativa do governo de mudar, por exemplo, as regras de seguro-desemprego, abono salarial e pensões está sofrendo forte resistência dentro do Congresso, até mesmo de parlamentares do PT, devido a grande impopularidade das medidas junto aos trabalhadores.
Nesse contexto, o governo tem sido pressionado por parcelas da sociedade e pelo PMDB, em particular, a enxugar a máquina federal. No entanto, o custeio administrativo – passagem aérea, luz, equipamentos, etc – não tem um peso tão expressivo nos gastos que permitam que o ajuste fiscal seja viabilizado simplesmente com a redução dos números de ministérios (atualmente 39), por exemplo.
Ainda assim, Camargo considera que a redução do número de ministérios, assim como a de cargos comissionados (postos preenchidos por indicação), seria muito importante simbolicamente, para convencer a população e o Congresso da necessidade de ajuste fiscal.
“Você não consegue fazer um ajuste só cortando esses gastos, mas você pode conseguir mudar a atitude da sociedade em relação aos gastos. As pessoas vão entender muito melhor porque o seguro-desemprego, o abono salarial, as pensões estão sendo cortados”, acredita Camargo.
“Eu acho que o ajuste está tendo dificuldade de ser aprovado no Congresso exatamente por isso, porque ninguém percebe que o governo está efetivamente interessado em diminuir os seus próprios gastos”, frisa.
Com oçamento amarrado, governo teve de sacrificar áreas consideradas prioritárias, como educação, saúde e infraestrutura
Corte insuficiente
Apesar do contingenciamento anunciado ser expressivo, Camargo diz que ele será insuficiente para garantir o cumprimento da meta de superávit primário deste ano, de 1,1% do PIB.
O objetivo dessa economia é pagar juros da dívida pública, evitando que ela cresça em proporção ao PIB. A estabilidade da dívida é considerada importante para manter a oferta de crédito para o governo, a juros menores. Seu crescimento descontrolado, pode afastar investidores dos títulos públicos, elevando as taxas pagas pelo Tesouro Nacional.
Diante das dificuldade de aprovar no Congresso as medidas de ajuste fiscal – além das mudanças nos benefícios, o governo também busca reduzir a desoneração da folha de pagamento das empresas – o Ministério da Fazenda vem promovendo aumento de impostos.
Hoje foi anunciado também o aumento da alíquota da CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) paga pelos bancos de 15% para 20%, o que vai gerar uma receita de R$ 3,8 bilhões por ano. Em 2015, porém, o ganho é de apenas R$ 747 milhões.
Para Camargo, o governo deve evitar ao máximo esses recursos, porque a carga tributária do país já elevada.
O economista da FGV José Roberto Afonso, referência nos estudos de contas públicas, considera que o governo pode fazer mais na contenção de gastos. Ele defende, por exemplo, que a União seja mais dura na relação com seus fornecedores, procurando renegociar contratos.
“É possível cortar gastos tidos como fixos fazendo recenseamento de servidores e de aposentados, renegociando e reduzindo à força os contratos de compra de serviços, de bens e sobretudo de obras, cancelando restos a pagar (valores autorizados mas ainda não efetivamente gastos) ainda não efetivamente gastos e propondo descontos no pagamento dos que são inevitáveis”, enumera.
“Imagina o poder de negociação do maior comprador de uma economia em recessão? Essas medidas estão sendo adotadas por alguns Estados e algumas prefeituras, mas eu nunca ouvi que tenham sido adotadas em Brasília”, afirma.
Fonte: BBC
“Ajuste é insuficiente e recuperação será lenta”, diz ex-presidente do BC
O ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore considera que o país está preso a um círculo vicioso em que a recessão reduz a arrecadação do governo, elevando a necessidade de mais cortes de gastos e aumento de carga tributária, gerando mais recessão.
Para ele, o atual governo está pagando o custo político da falta de confiança da sociedade na sua capacidade de fazer a economia voltar a crescer. “O único caminho é continuar com o ajuste fiscal até recriar a confiança”, disse à Folha. “Mas o desemprego ainda não chegou ao pico. É difícil prever qual vai ser a reação do governo.”
Pastore acredita que a saída da recessão será lenta e o crescimento só voltará, devagar, em 2016.
Folha – O ajuste fiscal promovido pelo governo é suficiente?
Affonso Celso Pastore – O ajuste é necessário. O país entrou numa trajetória insustentável de crescimento da relação dívida/PIB. Se perdêssemos o grau de investimento, o ajuste seria mais traumático e acentuaria o período de estagnação.
Agora, qual é o tamanho do ajuste necessário? O Levy optou por um ajuste gradual; nas atuais circunstâncias, não é suficiente para trazer o crescimento da dívida para uma trajetória sustentável.
Karime Xavier/Folhapress
O economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco central, em seu apartamento, em São Paulo
Por quê?
No ano passado, o crescimento da economia foi nulo. Neste ano, teremos uma recessão em torno de 1,5%. Os investimentos estão caindo muito. Com sorte, no futuro, poderemos crescer 1%. Com um juro real de 6% e essa perspectiva de crescimento, é preciso um superavit primário [economia para pagar juros] de 3% do PIB para estabilizar a dívida.
Mas isso é factível?
Se é factível ou não, é outra discussão, mas é o necessário para estabilizar a dívida. Se não chegar a esse patamar, é preciso continuar fazendo ajuste fiscal nos próximos anos. As alternativas seriam reformas que acelerassem o crescimento ou um aumento de confiança no governo que permitisse a redução de juros. Nada disso está visível agora. Portanto, esse ajuste fiscal é insuficiente.
O governo cortou R$ 69,9 bilhões de gastos do Orçamento. Foi adequado?
O problema é a arrecadação de impostos. Ouvi atentamente o pronunciamento do ministro Nelson Barbosa [Planejamento] e não sei de onde ele tirou aquele crescimento de 5,8% da receita. Aquilo não existe com essa desaceleração da atividade.
Ele disse que podemos ter receitas extraordinárias e citou o exemplo da venda da seguradora da Caixa. Se essa operação tiver um enorme sucesso, vai produzir um infinitésimo do necessário. As concessões de infraestrutura também não serão um sucesso de arrecadação. Corremos o risco de mais cortes de gastos e mais carga tributária.
O que gera mais recessão. Parece um círculo vicioso.
Temos uma forte retração do consumo das famílias, que é consequência do aumento do desemprego. Os bancos estão pisando no freio do crédito, para provisionar recursos para abater os prejuízos que tiveram com Petrobras, Sete Brasil, empreiteiras.
O consumo está caindo e o investimento também. Não tenho dúvida de que o PIB do segundo trimestre vai cair bem mais do que o do primeiro e que, no terceiro, possivelmente teremos queda também. Ou seja, o governo vai perder mais arrecadação, o que gera maior necessidade de cortes, acentuando a recessão. É um círculo vicioso.
Como quebrar esse círculo?
As pessoas têm mania de comparar as recessões. Na última recessão, em 2009, o governo podia cortar imposto e aumentar gasto. Com a inflação próxima da meta, foi possível baixar juros. Quando faltou crédito, o governo reduziu o compulsório. Nada disso é possível desta vez. E o comércio internacional agora está estagnado. Portanto, essa recessão é mais longa e o ajuste vai prosseguir por mais tempo. A saída é continuar no ajuste até recriar a confiança e pagar o custo político.
O governo está disposto a pagar esse custo?
O Levy está isolado, com uma certa ajuda do [vice-presidente] Michel Temer. Ele joga de centroavante, ponta-direita, goleiro. Mas o que existe hoje é tarefa para mais do que um ministro da Fazenda. Precisa-se de todo o governo para fazer isso.
Ele briga por cada medida e vai sofrendo derrotas. Logo não consegue completar o círculo em velocidade suficiente para gerar aumento de confiança. Com isso, não volta o investimento e a economia não cresce. A recessão vai ficando mais longa. O crescimento só deve voltar, lentamente, em 2016.
A fragilidade política do governo piora a situação?
O atual governo paga o custo político da falta de confiança da sociedade na sua capacidade de entregar o crescimento econômico.
O custo político gera uma profecia que se autorrealiza.
O mercado adora pessoas otimistas, que dizem que o Brasil é maior do que a crise. É mesmo, mas não é imediato. Isso implica alternância de poder, o que ainda não está à vista. A solução mais fácil é a presidente e seu partido fazerem um grande acordo nacional, cedendo poder a outros partidos. Sem isso, é inverossímil entregar mais crescimento econômico.
O BC paga pelos erros passados, quando desancorou as expectativas de inflação. Agora tem que praticar juros mais altos a um custo social maior. Infelizmente, temos que pagar por esse erro.
O senhor vê algum risco de o governo desistir do ajuste?
A lógica é que ele não desista de nada, porque o custo alternativo é muito maior. Mas a pressão social ainda não chegou ao topo, porque o desemprego não chegou ao pico. Quando isso ocorrer, é impossível prever a reação que o governo vai ter.
Fonte: Uol
América Latina deve buscar crescer como os países emergentes da Ásia, diz economista-chefe do BID
Para José Juan Ruiz região está resignada a só crescer 3,5%
RIO – Com mais de três décadas de acompanhamento da economia da América Latina (AL), o economista-chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), José Juan Ruiz, viveu todas as crises da região. E diz que, apesar do baixo crescimento da economia, a situação nem se compara ao passado, pois já se consegue reagir à piora do cenário internacional.
O GLOBO:As previsões da AL são de expansão menor, mas o senhor vê dois ritmos diferentes. Como?
José Juan Ruiz: É preciso distinguir o crescimento potencial, a que velocidade pode crescer um país a médio prazo, de um crescimento de curto prazo. Entre 2003 e 2008, a América Latina cresceu em média quase 5% (ao ano) porque havia fatores externos positivos: alto crescimento da economia mundial, amplas condições de liquidez, altos preços de commodities e dólar baixo. Nos últimos 24 meses, esses fatores mudaram, o que afeta a América Latina, que provavelmente terá crescimento de 1% em 2015 e 2% em 2016. E afetam de maneira diferente a região. A América Latina é exportadora líquida de commodities, mas há países no Caribe e na América Central que importam alimentos e energia. E, em vez de exportar para a China, vendem mais para os EUA e dependem mais de sua economia. Em geral, os países do Sul são mais sensíveis à desaceleração econômica dos países asiáticos e aos preços das commodities, enquanto os países do Norte, América Central, Caribe e México, são mais ligados aos EUA, que crescem mais que há dois anos. Por isso, a curto prazo há uma disparidade do crescimento. O Sul desacelera mais que o Norte. Venezuela, Argentina e Brasil respondem por 51% da economia da região e vivem recessão, mas o resto avança.
No Brasil, há um debate entre os que creditam a crise ao cenário mundial e os que apontam o impacto da demanda doméstica. Como o senhor avalia?
A crise mundial tem impacto, mas há uma parte da crise mais doméstica. Nos últimos anos, o Brasil teve inflação mais alta, o superávit primário caiu, o crédito cresceu demais. A demanda cresceu muito, e a oferta, não. É preciso reequilibrar isso para que o Brasil possa voltar a crescer perto de 3,5%, seu potencial. É preciso reajustar a macroeconomia. O Banco Central adota medidas para controlar a inflação, há um programa de ajuste fiscal para restaurar o superávit primário e crescer de forma mais sustentável. Há momentos em que é preciso fazer ajustes. O importante não é tanto identificar responsabilidades, mas ressaltar que o Brasil e outros países mostram capacidade de reação a essa piora do cenário internacional. É o que nos diferencia do passado. A América Latina aprendeu e não deixou chegar o momento de medidas desesperadas. Os países tomam medidas duras porque os desequilíbrios são grandes, mas mostram que tem instituições, políticas e regras que permitem enfrentar um novo ambiente internacional. Os mercados têm confiança de que o Brasil faz o que precisa. É verdade que se perdeu oportunidades de fazer mais na época de expansão. Não só no Brasil, todos poderiam ter feito.
O que mudou para o Brasil?
A volatilidade econômica era muito maior porque as pessoas não sabiam o que era o país. O Brasil é uma economia que teve prodigioso crescimento por dez anos, se transformou socialmente, está no mapa mundial, é uma das grandes economias. Não é só porque é grande, mas porque fez as coisas razoavelmente bem. Há muito mais credibilidade na política econômica.
Alguns temem a capacidade do ajuste…Não crê no risco de perda do grau de investimento?
Há muitas coisas a fazer socialmente. Todos os países têm. Há uma espécie de resignação não apenas no Brasil como na América Latina de que só pode crescer 3,5%, 4%, enquanto olhamos taxas de 6%, 7% na Ásia. Essa resignação é porque não fizemos tudo o que deveria ter sido feito. Não há nenhuma razão para o Brasil crescer menos que China, Índia, Filipinas ou Turquia. Há muitas reformas a serem feitas, que favoreçam a produtividade, a inclusão social, redução da informalidade, mais infraestrutura, mais investimento. É preciso criar um ambiente de negócios para que isso possa ocorrer. Mas realmente estamos em situação muito melhor que no passado, sobretudo porque estamos vendo a capacidade de reação. O Banco Central está atuando, o programa fiscal está aí e o analisamos. Ainda que numa democracia haja diferentes pontos de vista, sobre como se faz o ajuste, a percepção é que se está fazendo e da forma como quer. No passado, que faziam de acordo com o programa do FMI. Hoje, é a democracia que seleciona o ajuste que quer, é um grande avanço em relação ao passado.
Muitos países da região estão com a inflação mais alta. Isso lembra o passado?
Nem todos os países estão na mesma situação. A região deixou de estar no mapa como a de maiores taxas de inflação do mundo. Há casos isolados, mas realmente a inflação não é uma variável que define o continente, é preciso lembrar de onde viemos. O Brasil têm uma inflação acima do limite do Banco Central, mas não é a inflação que teve no passado. A Colômbia viveu três décadas de inflação de 20% e muito, hoje tem taxas em torno de 4%. Chile tem inflação de 3%. No Peru, de 2%. São aumentos temporários da inflação. Na medida em que haja uma política fiscal responsável, como faz o Brasil, haverá reação. Não é que a inflação voltou para ficar.
O BID tem destacado as semelhanças dos países latinos em relação à deterioração da situação fiscal. O que explica?
A região teve uma época boa, com os preços altos de commodities, e melhorou enormemente os resultados fiscais. Houve muitos países que introduziram leis de responsabilidade fiscal, como o seu, regras fiscais, adotaram objetivos de superávit primário. Tudo isso criou um colchão, para que os países pudessem reagir na época de vacas magras. O problema é que as vacas magras chegaram muito rápido, com a grande crise internacional. Então muitos países de América Latina usaram corretamente esse colchão para evitar que entrassem em recessão. Foi o momento em que a região, pela primeira vez em uma crise, foi capaz de usar políticas anticíclicas. O que ocorreu depois é que as condições internas e externas não foram boas o suficiente para retomar o colchão e se chegou a uma situação de déficit. Foi o que ocorreu no Brasil, por exemplo. Nesses momentos, é preciso reajustar e restaurar o colchão para fazer frente a possíveis deteriorações das condições internacionais e domésticas. Isso é o que toda a região está fazendo, cada país com suas próprias condições. Não depende só do número do superávit primário. O número do superávit primário (economia para pagar os juros da dívidadeve ser o número que permita voltar a gerar segurança e assegurar vai seguir recebendo fluxos internacionais e vai pagar um valor razoável porque acreditam que a situação é estável. Aqueles países nos quais o nível de dívida é mais alta, precisam de mais ajuste. A situação é muito diferente, mas em geral a maior parte dos países da América Latina têm que revisar receita, gastos, déficit, em função do nível de dívida e do preço que tem que pagar, do rating para assegurar que a credibilidade se mantenha e os investidores saibam que há um marco de políticas sólido.
Entre os dias 2 e 26 de março, representantes da província canadense de Quebec fizeram uma turnê pelo Brasil para divulgar oportunidades de trabalho em carreiras muito específicas e recrutar mão de obra fluente em francês. Visitaram sete cidades do Nordeste, Sudeste e Sul e se surpreenderam com a reação: em uma semana 140 mil brasileiros visitaram o site do órgão de migração, mostrando interesse em se mudar para o Quebec.
Números obtidos pelo GLOBO junto à Receita Federal confirmam que a emigração qualificada está em alta. Entre 2011 e 2015, o total de Declarações de Saída Definitiva do país — documento apresentado ao Fisco por quem emigra de vez — subiu 67%. Em 2011, a Receita recebeu 7.956 declarações, 21 para cada dia do ano. Em 2015, foram 13.288, numa média diária de 36 saídas.
— Esse número é apenas uma amostra pequena da realidade da emigração — diz Joaquim Adir, supervisor nacional de imposto de renda da Receita. — Mas reflete a saída de uma elite financeira e cultural, de pessoas que se preocupam em ficar quites com a Receita e que têm conhecimento da importância disso. Não entram aí os brasileiros que não têm bens ou rendimentos, como crianças e jovens, nem os que querem sair de forma ilegal. Essa emigração está em alta.
Os engenheiros José Wellington e Silvia Oliveira chegaram a Toronto, no Canadá, em abril. Levaram Julia, de 7 anos, e Nicolas, de 3. Em Belo Horizonte, a família tinha casa própria. Wellington trabalhava na área de mineração, e Silvia, na firma de avaliação de imóveis do pai. Nos últimos meses de 2013, a empresa de Wellington deu um alerta: diante da crise incipiente, não teria como manter toda a equipe a partir de agosto de 2014.
— Foi a gota d’água — diz Silvia. — Estávamos cansados da corrupção, da violência, do espírito do cada-um-por-si. A gente odeia o PT, o Lula, a Dilma. Vimos que o país estava afundando num buraco e que não havia luz no fim do túnel. Cada escândalo de corrupção que surgia solidificava nossa decisão. Então nos inscrevemos no programa canadense e passamos por um processo trabalhoso. Não digo que foi difícil. Só burocrático.
Desde que optou pelo “frio”, a família virou fonte de informação e observa um efeito dominó:
— Uma vez por semana alguém entra em contato conosco para perguntar como fizemos para migrar — conta Sílvia. — Se o número da Receita está alto em 2015, vai ser pior em 2016.
A Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP/FGV) está de olho nas causas e efeitos da migração no Brasil. Um grupo de pesquisadores lançará nos próximos meses um estudo que defende a criação de uma entidade migratória nos moldes do que existe no Canadá, na Austrália e na Alemanha.
— Esses países traçam o perfil do trabalhador que precisam e selecionam os imigrantes que interessam. O Brasil não tem política alguma — diz a pesquisadora Bárbara Barbosa. — Está perdendo na briga por mão de obra qualificada e, em consequência, na corrida pelo desenvolvimento.
— Hoje estão envolvidos na questão da migração o Ministério da Justiça, das Relações Exteriores, do Trabalho e a Polícia Federal — completa a também pesquisadora Margareth Da Luz. — Não há uma coordenação, e nós estamos perdendo cérebros, o que é preocupante num momento de envelhecimento da população.
Em abril, a carioca Flávia Peres Sabagh e o marido, o paulista Márcio Ghiraldelli, ambos de 36 anos, trocaram São Paulo por Sydney, na Austrália. Estavam empregados quando tomaram a decisão de entrar no LinkedIn e disparar currículos. Viviam de aluguel. Ela era coordenadora de CRM em um banco. Ele, especialista em sistemas. Em poucos dias, Márcio recebeu uma proposta.
— A empresa que o contratou patrocinou o visto de trabalhador experiente e deu entrada no processo — conta Flávia. — Só tivemos que enviar alguns documentos, fazer um exame de tórax e esperar algumas semanas.
Flávia trabalha hoje como analista de data marketing numa revista, e Márcio é engenheiro de qualidade de software. A mudança dos dois tem relação não só com “a possibilidade de criar um filho num país de primeiro mundo e língua inglesa”, mas também com a crise instalada no Brasil.
— Estávamos muito preocupados com a desvalorização do real e a dificuldade das empresas em conseguir crédito. Isso, de maneira geral, torna as coisas mais difíceis aí — diz Flávia.
O carioca Thiago Fonseca optou pela Filadélfia, nos Estados Unidos. Em maio, mudou-se para lá com a mulher, Juliana, e a filha, Maria Luisa. A família morava em casa própria, no Rio, e o casal, assim como os demais, estava empregado.
— Quero dar melhor qualidade de vida e proporcionar uma experiência diferente para minha família. Com a recessão no Brasil e o crescimento americano, foi mais fácil justificar junto à empresa minha transferência para os EUA — diz Thiago.
A família ainda arruma a casa nova, mas já se surpreende com a quantidade de pessoas que dizem pensar seriamente em segui-los. Desde maio, ao menos dez já consultaram Thiago.
As três famílias lembram, no entanto, que emigrar não é fácil. Silvia e Wellington aconselham “mente aberta”. Flávia e Márcio dizem que trabalhar numa língua não nativa é “cansativo”. Thiago fala da nova realidade das tarefas domésticas. E todos sentem o peso de estar longe da família e dos amigos.
LEI É APROVADA NO SENADO
Apesar de ser um país composto pela mistura de raças, o Brasil não tem uma Lei de Migração. Desde agosto de 1980, a norma vigente é o Estatuto do Estrangeiro, que, do ponto de vista de especialistas, está totalmente ultrapassado. Criado em meio à ditadura militar,o texto tem foco na segurança nacional e não nos direitos dos indivíduos que decidem morar no Brasil.
Em sessão realizada no último dia 2, no entanto, a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou um projeto de lei, de autoria do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), que busca revogar o antigo texto e estabelecer a primeira Lei de Migração do país. Aprovado em caráter terminativo, a proposta segue para avaliação da Câmara dos Deputados. No trajeto, no entanto, leva consigo uma polêmica: apesar de reduzir a burocracia para a concessão de vistos para investidores, estudantes e acadêmicos, o texto não prevê a criação de uma entidade migratória, como a que existe em países como Canadá e Austrália. Essa era uma das principais propostas apresentadas pela comissão de especialistas que foi criada pelo Ministério da Justiça em 2013 para avaliar o assunto. O grupo fez sete reuniões e duas audiências públicas. Em seguida, produziu um documento final em que destacou que: “a criação de um órgão estatal especializado para atendimento dos migrantes” seria um “elemento crucial” para o país. A entidade ficaria responsável pela produção de dados e pela formação de políticas públicas sobre migração.
— Canadá e Austrália são países que estão envelhecendo rápido. Cada vez há mais pessoas para serem sustentadas, e menos em idade de trabalho. Eles viram no recrutamento de estrangeiros um mecanismo para enfrentar isso, e o fazem de forma planejada. O Brasil não — lamenta o pesquisador da DAPP/FGV Wagner Oliveira — Ainda não envelhecemos tanto, mas deveríamos entender a política migratória como uma oportunidade para resolver uma questão do futuro. Ter uma autoridade migratória é importante. Ela ficaria responsável por estabelecer diretrizes e ver o tipo de estrangeiro de que o país precisa.
‘Capital’ da facção Estado Islâmico é bombardeada por coalizão
A coalizão liderada pelos Estados Unidos realizou, em 5/7/15, 38 ataques aéreos na Síria e no Iraque contra a facção terrorista Estado Islâmico (EI).
Dezoito dos ataques ocorreram em Raqqa, considerada a capital do califado declarado pela milícia sunita em 29/6/14 na região.
Ainda na Síria, ocorreram bombardeios nas imediações de Hasaka e Kobani.
Estado Islâmico
“Essa foi uma das maiores ações que já conduzimos. A capacidade do EI de se movimentar a partir de Raqqa foi enfraquecida”, disse Thomas Gilleran, porta-voz da coalizão.
Já no Iraque, houve 12 ataques aéreos.
Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, ao menos 23 membros do EI foram mortos nos ataques.
O grupo, no entanto, informou que uma escola de Raqqa também foi atingida, deixando seis civis mortos, incluindo uma criança.
Em comunicado, a coalizão militar informou que unidades táticas e veículos da facção foram atingidos e 16 pontes destruídas, dificultando o trânsito dos terroristas pelos territórios sírio e iraquiano.
Em maio, o EI conquistou a importante cidade iraquiana de Ramadi, a capital da província de Anbar.
Ataques dos EUA contra o EI ocorrem desde agosto de 2014. Segundo analistas, a estrutura da facção remonta a pelo menos 1999 e foi fortalecida por décadas desastrosas de política regional.
EUA gastam US$ 9 milhões ao dia para combater ‘Estado Islâmico’
A coalizão liderada pelos Estados Unidos realizou milhares de ataques aéreos no Iraque e Síria
Os Estados Unidos gastam, em média, mais de US$ 9 milhões (US$ 28 milhões) por dia para combater o grupo autodenominado “Estado Islâmico”, e os custos totais já passaram de US$ 2,7 bilhões (US$ 8,4 bilhões) desde o início da campanha de bombardeios contra o grupo radical.
Uma coalizão internacional realiza ataques aéreos no Iraque e na Síria – onde os extremistas dominam partes consideráveis do território – desde agosto de 2014.
O primeiro balanço dos custos da operação para os Estados Unidos, divulgado pelo Pentágono, mostra que dois terços da conta total são pagos pela Força Aérea americana.
Os números são apresentados um dia depois de o Congresso americano ter rejeitado um projeto de lei que proibia mais gastos na operação.
General Martin Dempsey não descarta convocação de mais ataques aéreos
O custo da operação militar dos Estados Unidos aumentou consideravelmente desde seu início, em agosto de 2014, no Iraque.
Nesta semana, a Casa Branca anunciou que vai enviar mais 450 militares para treinar tropas do Iraque em seu esforço para retomada de territórios sob o domínio do “EI”, o que aumentou o total de funcionários militares americanos no país para 3,5 mil.
Mas as autoridades destacam que não há soldados em combate, apenas em funções de treinamento das forças locais.
Na quinta-feira, o mais alto general dos Estados Unidos afirmou que a intervenção do país no Iraque pode se estender ainda mais.
Martin Dempsey, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas americanas, afirmou que a realização de mais ataques aéreos, que colocaria os soldados mais próximos da linha de frente, continua sendo considerada como mais uma opção para o futuro da missão.
E Dempsey também levantou a possibilidade de estabelecer uma rede de centros de treinamento dos americanos no norte do Iraque.
Quem será capaz de conter o ‘Estado Islâmico’ no Iraque
As tropas do governo iraquiano abandonaram suas posições na cidade de Ramadi, o que fez com que a capital da maior Província do Iraque – a apenas 112 km de Bagdá – caísse nas mãos do grupo autodenominado “Estado Islâmico”.
A polícia e o Exército fizeram um recuo caótico após dias de intenso combate. O “EI” afirma ter capturado tanques e lançadores de mísseis largados pelos militares.
Eventos semelhantes ocorreram quando o “EI” ocupou Mosul – a segunda maior cidade do Iraque -, Fallujah e Tikrit (todas em 2014), ainda que esta última tenha sido retomada pelo governo.
O que explica a falência do governo iraquiano em enfrentar o “EI”? Será que outras froças armadas – como milícias xiitas – têm poder de fogo para vencer os extremistas?
Corrupção
No papel, as forças militares do Iraque têm tamanho considerável: um Exército de 193 mil e estimados 500 mil policiais e paramilitares, segundo estimativas de 2014 de grupos internacionais de estudos estratégicos.
A agência americana CIA calcula que o “EI” tenha até 31 mil combatentes no Iraque e na Síria – ou seja, numericamente bastante inferior às tropas oficiais. Mas esses números parecem não refletir a realidade do campo de batalha.
Jaqueta militar abandonada em área de combate em Mosul, em junho de 2014; organização é alvo de escândalos de corrupção
Uma investigação sobre a corrupção no Exército iraquiano, em novembro de 2014, identificou 50 mil nomes falsos na folha de pagamento da instituição.
Conhecidos internamente como “soldados fantasmas”, eles já não se apresentavam mais para combate ou de fato não existiam. Mas seus salários continuavam a ser pagos.
Falhas organizacionais
A máquina militar de Saddam Hussein foi completamente desmantelada após a derrubada do ex-presidente pelas forças americanas, em 2003, e foi substituída por um Exército nacional não-sectário – ou pelo menos assim se esperava. Mas claramente houve erros no caminho.
Pode ter sido um erro tentar estabelecer um Exército em estilo ocidental, porém sem o preparo suficiente. A saída das forças americanas do país, no fim de 2011, pôs fim ao treinamento e à orientação provida às tropas iraquianas, que ficaram despreparadas para combates futuros.
Além disso, antigos líderes militares da época de Saddam estão hoje entre os mais importantes comandantes do “Estado Islâmico”.
Milícia xiita
Quando Mosul foi dominada pelo “EI”, em junho de 2014, uma aliança de combatentes – chamada Força de Mobilização Popular, com dezenas de milhares de integrantes – foi formada para conter a ameaça do grupo extremista.
Simpatizantes do “EI” em Fallujah, em 2014; apesar de serem numericamente menores que o Exército, grupo rebelde tem conseguido vitórias importantes
O Serviço Árabe da BBC relata que essa força é composta por dois grupos principais: um primeiro oriundo de fortes organizações paramilitares, como a Brigada Badr, braços do Hezbollah e outros (há relatos de que esses soldados sejam apoiados pelo Irã); e um segundo grupo, estimulado por clérigos xiitas a combater o sunita “EI”.
Poucos dias depois de militantes do “EI” terem tomado o controle de Mosul, o mais importante clérigo xiita local fez um chamado às armas.
Segundo relatos recentes de Bagdá, muitos jovens xiitas têm se alistado em mesquitas e treinado para entrar nos campos de batalha.
Mas será que a Mobilização Popular conseguirá derrotar o “EI” em Ramadi?
O grupo conseguiu, recentemente, impor uma derrota militar ao “Estado Islâmico” ao retomar Tikrit. Mas as milícias também foram acusadas por grupos de direitos humanos de promover “ataques de vingança” contra sunitas da região.
Jaafar al-Hussaini, porta-voz do Kataib Hezbollah-Iraq, um dos grupos que integram a Mobilização, disse à BBC que, ainda que as milícias xiitas sejam aliadas próximas do Exército iraquiano, os sunitas não os aceitam nesse papel.
Na Província de Anbar, até mesmo tribos sunitas que apoiam o governo central iraquiano rejeitam a presença da Mobilização como força libertadora na região.
O líder sunita Abdurazak Al-Shamari afirmou recentemente que “ninguém pode libertar áreas sunitas a não ser os seus filhos”.
EUA oferecem recompensa de US$ 20 milhões por líderes do Estado Islâmico
Entre os procurados do “Estado Islâmico” estão porta-voz e chefe de homens-bomba
O governo americano está oferecendo um total de US$ 20 milhões (R$ 61 milhões) em recompensa por informações que levem a quatro supostos líderes do autoproclamado Estado Islâmico.
Os quatro foram identificados como Abdul Rahman Mustafa al-Qaduli, Abu Mohammed al-Adnani, Tarkhan Tayumurazovich Batirashvili e Tariq bin al-Tahar bin al-Falih al-Awni al-Harzi.
Eles foram colocados em uma lista de procurados do Programa Recompensas para a Justiça.
Na terça-feira, o Estado Islâmico assumiu a autoria de uma tentativa de atentado contra uma competição de caricaturas sobre o profeta Maomé no Texas no último domingo.
A organização afirmou que “dois soldados do califado” atacaram o evento no centro de conferência de Garland, perto de Dallas.
O Departamento de Estado americano ofereceu US$ 7 milhões por informações que levem a Abdul al-Qaduli, descrito como uma autoridade da cúpula do Estado Islâmico que antes pertencia às fileiras da al-Qaeda no Iraque.
Além disso, Washington ofereceu US$ 5 milhões para Adnani e Batirashvili e até US$ 3 milhões por Harzi.
Adnani foi descrito como porta-voz do EI e Batirashvili – que também é conhecido como Omar Shishani – como um comandante de operações de campo no norte da Síria.
Harzi seria o chefe dos homens-bomba do grupo.
O “Estado Islâmico” conquistou partes do território leste da Síria e do norte do Iraque e os declarou um califado. Passou então a impor na região uma dura interpretação da lei islâmica.
O Departamento de Estado disse que o grupo é responsável por abusos sistemáticos de direitos humanos, incluindo execuções em massa, estupros e assassinatos de crianças.
Zawahiri encabeça a lista
A recompensa mais alta oferecida pelo programa é de US$ 25 milhões – por Auman al-Zawahiri, que se tornou líder da al-Qaeda em junho de 2011, após a morte de Osama Bin Laden.
O governo americano também oferece até US$ 10 milhões pelo líder do “Estado Islâmico” Abu Bakr al-Baghdadi.
Na terça-feira, a organização extremista afirmou em uma rádio que a exibição em Garland estava “exibindo imagens negativas do profeta Maomé”.
A organização do evento havia oferecido um prêmio de US$ 10 mil pela melhor caricatura de Maomé.
Contudo, retratar o profeta Maomé é considerado ofensivo pelos muçulmanos.
Dois extremistas foram mortos por um policial quando abriram fogo do lado de fora do evento no domingo.
Mais cedo, autoridades americanas haviam duvidado do envolvimento direto do grupo no episódio.
Imagens exclusivas mostram brutalidade e opressão da vida sob ‘Estado Islâmico’
Imagens exclusivas obtidas pelas BBC em Mosul, a segunda cidade mais importante do Iraque, mostram como o grupo extremista autodenominado “Estado Islâmico” controla a vida cotidiana daqueles que vivem nos territórios conquistados pelos militantes.
A queda de Mosul marcou o início do veloz avanço dos militantes pelo norte do país, o que forçou milhares de pessoas a deixar suas casas em busca de refúgio do conflito.
Filmados secretamente, os vídeos obtidos pelo jornalista Ghadi Sary, da BBC, exibem uma mesquita xiita sendo explodida, escolas abandonadas e mulheres sendo forçadas a cobrir seus corpos.
Moradores relatam como é viver constantemente sob perseguição e com medo de serem punidos por desrespeitar a rígida interpretação a lei islâmica pelo “EI”.
Desde a captura de Mosul, no Iraque, a vida na cidade mudou radicalmente
‘Homens foram açoitados porque suas mulheres estavam sem luvas’
Feitos ao longo de vários meses, os vídeos dão mostras de como é o dia a dia sob o controle dos militantes, com destaque às exigências para que as mulheres não exibam seu corpo em público.
O código de vestimentas para elas é bastante rígido: cobrir-se de preto dos pés à cabeça. Em um dos vídeos, uma mulher é repreendida por ter deixado as mãos à mostra.
“Um dia, estava tão entediada que pedi a meu marido para me levar para passear, mesmo que tivesse que usar um khimar (um tipo de véu que encobre a cabeça, pescoço e ombros, mas deixa o rosto visível) completo”, conta Hanna, mulher que mora na cidade.
“Não tinha saído de casa desde que o ‘EI’ tomou a cidade. Conforme me preparava, meu marido me disse que eu seria forçada a colocar um niqab (véu sobre a face). Fiquei chocada e pensei em ficar em casa, mas acabei cedendo.”
“Fomos para um bom restaurante próximo ao rio que costumávamos frequentar quando éramos noivos. Assim que sentamos, meu marido me disse que eu poderia finalmente mostrar meu rosto, já que não havia militantes à vista e o restaurante era um local familiar. Fiquei feliz e ergui o véu com um grande sorriso no rosto. Instantaneamente, o dono do restaurante se aproximou, implorando que meu marido me pedisse para escondê-lo de novo, porque os integrantes do ‘EI’ faziam inspeções de surpresa e ele poderia ser açoitado se eles me vissem daquele jeito”, relata.
“Já tínhamos ouvido histórias de homens que foram açoitados, porque suas mulheres estavam sem luvas. Os pais de outra mulher foram proibidos de dirigir. Aqueles que fizeram objeções foram espancados e humilhados. Acatamos o pedido do dono do restaurante. Mas comecei a pensar a que ponto a situação chegou.”
‘EI confiscou minha casa e marcou-a com um N (referente a cristãos)’
A filmagem secreta foi levada de casa em casa e para fora da cidade. Ela mostra como minorias étnicas e religiosas em Mosul tiveram seus bens confiscados pelo “Estado Islâmico”. Muitas áreas residenciais antes habitadas por essas minorias hoje estão vazias.
Mariam, uma ginecologista cristã, foi uma das pessoas forçadas a deixar suas casas.
“Sou uma leitora voraz e tenho uma grande coleção de livros, que continuava a crescer conforme amigos e familiares me doavam seus livros ao deixar o Iraque por saberem que não iria embora e cuidaria deles. Fui ameaçada e assediada (por extremistas sunitas) antes da captura de Mosul, mas continuei a fazer partos de mulheres de todas as religiões e grupos étnicos. Nunca discriminei meus pacientes, porque acredito que todos merecem os mesmos cuidados”, diz ela.
“No entanto, tive que fugir de Mosul quando a cidade foi tomada. Escapei com meu corpo ileso, mas minha alma permaneceu na cidade, em casa, com meus livros. Depois de me mudar para Irbill (região curda do Iraque), recebi notícias chocantes: o ‘EI’ havia confiscado minha casa e a marcado com a letra N (para nasrani, palavra usada pelos militantes para se referir a cristãos). Liguei imediatamente para amigos em Mosul e implorei para salvarem meus livros. Mas era tarde demais. Eles disseram que minha biblioteca havia sido jogada na rua. Um dos meus vizinhos conseguiu resgatar alguns livros preciosos, que agora estão escondidos.”
‘Em caso de adultério, o homem é jogado de um prédio’
Vídeos mostram mesquitas e templos sendo destruídos. Moradores relatam punições brutais para todos que violam a interpretação dos jihadistas da lei islâmica, que é imposta em todo o “califado” que os militantes disseram ter criado semanas após a tomada de Mosul.
Entre eles está Zaid: “Desde que o ‘EI’ tomou a cidade, o grupo vem aplicando as ‘Leis do Califado’, como eles as chamam. A punição mínima é o açoitamento, que é aplicada a casos como fumar um cigarro. Roubos são punidos com a amputação da mão”.
“Em caso de adultério, se for homem, é jogado do alto de um prédio. Se for mulher, é apedrejada até a morte. Estas punições são realizadas em público para intimidar as pessoas, que são obrigadas a testemunhá-las”, diz Zaid.
“Conheço muitas pessoas que foram presas pelo ‘EI’. Algumas são meus parentes. Algumas foram mortas, porque trabalhavam nas forças de segurança. Outras foram libertadas. Elas contam histórias inimagináveis de atrocidades cometidas por militantes nas prisões. Muitas das que são libertadas preferem o silêncio. Não falam, porque morrem de medo de serem presas novamente.”
Fouad foi uma das pessoas presas pelo “Estado Islâmico”: “Eles vieram até minha família em busca de meu irmão. Quando não o encontraram, decidiram me levar para a prisão em seu lugar. Eles me torturaram. O cara que fez isso só parava quando ficava cansado. Ele estava o tempo todo muito nervoso e não dava ouvidos ao que os prisioneiros diziam. Ele me açoitou com um cabo de energia e me torturou psicologicamente”.
“Quando meu irmão se entregou, eles descobriram que as acusações contra ele eram falsas, mas me mantiveram preso até considerarem que eu estava bem o suficiente para ir embora. Eles me bateram tão forte com aquele cabo que as marcas nas minhas costas ainda são visíveis.”
‘Até passatempos simples, como piqueniques, estão proibidos’
A vida dos moradores da cidade em nada lembra o passado. Os vídeos mostram que falta combustível, há muita poluição, a construção civil foi suspensa e muitas escolas fecharam.
Hisham diz que as mudanças são impressionantes: “Todos os militares e trabalhadores não têm mais renda, porque não há mais empregos. Os ricos vêm usando suas economias. Quem ainda ganha um salário tenta sobreviver. Mas os pobres foram deixados à mercê de Deus”.
“Perdi meu emprego e fui forçado a abandonar os estudos”, prossegue ele. “Assim como todos, tenho meus direitos básicos negados. De acordo com o ‘EI’, tudo é haram (proibido), então, fico em casa o tempo todo. Até mesmo passatempos simples, como piqueniques, estão proibidos, sob o pretexto de que são um desperdício de tempo e dinheiro.”
“O ‘EI’ fica com um quarto do salário de qualquer um, como contribuição para a reconstrução da cidade. As pessoas não podem dizer não, porque seriam severamente punidas. O grupo controla tudo. O aluguel é pago a ele, e os hospitais são para uso exclusivo de seus membros. O grupo substituiu até mesmo os imãs das mesquistas com pessoas pró-‘EI’. Muitos de nós paramos de ir à mesquita, porque quem comparece deve jurar lealdade, e odiamos isso.”
“Enquanto isso, meu irmão foi punido com 20 chibatadas, porque ele não quis fechar sua loja durante o momento da oração – como se a religião pudesse ser imposta à força!”
‘Vi meu irmão desenhando a bandeira do EI’
As filmagens mostram como os militantes têm usado formas cada vez mais sofisticadas para controlar os habitantes da cidade, como a implantação de “centros de mídia” para disseminar suas mensagens.
Mahmoud sentiu os efeitos dessa propaganda em sua casa: “Meu irmão de 12 anos permaneceu na escola mesmo após ela passar a ser controlada pelo ‘EI’. Pensamos que, sem nenhuma outra alternativa, ele poderia ao menos continuar a ter algum tipo de educação e que isso seria melhor do que nada. Mas um dia cheguei em casa e encontrei meu irmão desenhando a bandeira do grupo e cantarolando uma das canções mais famosas. Fiquei doido e comecei a gritar com ele.”
“Peguei o desenho e o rasguei em mil pedaços na frente dele. Ele se assustou e correu para nossa mãe chorando. Alertei que, se ele desenhasse a bandeira ou cantasse alguma música dessas pessoas, eu o colocaria de castigo, o proibiria de ver seus amigos e pararia de falar com ele. Tiramos ele imediatamente da escola, porque preferimos que ele não tenha qualquer educação a ser educado pelo ‘Estado Islâmico’. Cheguei à conclusão de que o objetivo dessa organização é plantas sementes de violência, ódio e sectarismo na mente das crianças.”
‘Eles plantaram bombas e encheram a cidade com atiradores’
Nas imagens, os militantes são vistos transportando armamento pesado (em parte obtido depois que as forças iraquianas fugiram) e retaliando ataques com artilharia antiaérea.
Zaid explica que são precauções: “Eles sabem que o Exército tentará retomar Mosul. Eles destruíram a cidade cavando túneis, construindo barricadas, plantando minas e bombas e enchendo a cidade com atiradores. Apesar disso, se o governo conseguir retomar Nineveh e Mosul, ficarei muito feliz. Espero que as pessoas que se mudaram ou se refugiaram possam retornar, para que trabalhemos juntos para construir um Iraque unido e seguro. O ‘EI’ é inimigo da humanidade.”
“Fico preocupado com a forma como o Exército retomará a cidade, no entanto. Acho que as violações cometidas em Tikrit pela Mobilização Popular (grupo pró-governo formado em sua maioria por milícias xiitas) acontecerão também aqui. O governo deveria armar a população local para que ela possa proteger a cidade por conta própria. Com a ajuda de Deus, derrotaremos o ‘EI’.”
Fonte: BBC
Iraque inicia contra-ataque para retomar Ramadi do Estado Islâmico
Soldados iraquianos têm ajuda de milícias xiitas e de bombardeios aéreos.
Coalizão lançou 22 ataques no Iraque e na Síria desde 22/5/15
Um comboio de tropas do exército do Iraque e de milícias muçulmanas xiitas partiram de uma base perto da cidade de Ramadi neste sábado (23) para avançar em direção às áreas controladas pelo grupo Estado Islâmico (EI), disse um porta-voz xiita. A contra-ofensiva foi lançada para reverter as impressionantes conquistas dos insurgentes jiahdistas na região.
A tomada de Ramadi pelo EI, em 17 de maio, poderá ser um golpe devastador para o fraco governo central de Bagdá. Os jihadistas muçulmanos sunitas do grupo agora controlam grande parte da província de Anbar, da qual Ramadi é capital, e podem ameaçar as aproximações do Ocidente sobre Bagdá, que fica a 100 km de Ramadi, ou até mesmo avançar pelo sul, rumo ao coração do reduto xiita do Iraque. O grupo também tomou controle de um posto de fronteira entre Síria e Iraque, o que permitiria a ele ampliar sua área de influência.
O contra-ataque do Exército conta com a ajuda de grupos paramilitares xiitas, enviados pelo premiê iraquiano, Haider al-Abadi, um xiita, em desvantagem devido à moral e coesão baixas entre suas forças de segurança. A medida, no entanto, tem risco de aumentar a tensão com a população de Anbar, província predominantemente sunita.
Jaffar Husseini, porta-voz do grupo paramilitar xiita Kataib Hezbollah, disse que enviou mais de 2 mil reforços que haviam conseguido proteger Khalidia e a estrada que a liga à Habbaniya.
Sunitas deslocados que fogiram da violência na cidade de Ramadi, no Iraque, chegam aos arredores de Bagdá (Foto: REUTERS/Stringer)
“Hoje vamos testemunhar o lançamento de algumas operações táticas que preparam o terreno para uma eventual libertação de Ramadi”, disse à agência Reuters, por telefone.
Azzal Obaid, membro do Conselho Provincial de Anbar, disse que centenas de combatentes xiitas, que chegaram à base aérea de Habbaniya na semana passada, depois que o EI tomou Ramadi, se posicionaram em Khalidiya e estavam se aproximando de Siddiqiya e Madiq, cidades no território disputado perto de Ramadi.
Comandantes da operação disseram à France Presse que as tropas iraquianas conseguiram reconquistar posições do EI. Um coronel da polícia iraquiana que pediu anonimato citou a libertação da delegacia de Husaybah, sete quilômetros ao leste de Ramadi, e de seus arredores. Segundo ele, também apoiam a operação a polícia local e a federal, assim como a força de intervenção rápida do ministério do Interior e combatentes tribais.
Bombardeios aéreos
Os soldados iraquianos também contam com a ajuda da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, que desde sexta-feira realizou 22 ataques aéreos contra alvos do Estado Islâmico desde 22/5/15, incluindo quatro perto de Ramadi.
Os ataques próximos de Ramadi atingiram unidades táticas, veículos armados e uma posição de luta em territórios controlados por militantes.
Forças de coalizão atacaram ainda cinco locais em poder do Estado Islâmico na Síria entre sexta e sábado, segundo um comunicado da Força Tarefa Conjunta Combinada emitido neste sábado.
A perda de Ramadi é o mais grave revés para as tropas iraquianas em quase um ano e lançou dúvidas sobre a eficácia da estratégia dos Estados Unidos, de fazer ataques aéreos para ajudar Bagdá a parar o Estado Islâmico, que controla um terço do Iraque e da vizinha Síria.
Fugade moradores
A tomada de Ramadi pelo EI provocou a fuga de quase 25 mil pessoas, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A mioria delas foi para a capital Bagdá. Muitos tiveram que escapar do grupo extremista pela segunda vez, já que 130 mil deixaram a cidade iraquiana em abril.
“Nada é mais importante agora do que ajudar as pessoas que fogem de Ramadi. Elas estão em apuros e precisamos fazer todo o possível para ajudá-las”, disse a coordenadora humanitária da ONU no Iraque, Lise Grande.
Agências da ONU e outras organizações de ajuda estão dando assistência a mais de 2,5 milhões de pessoas deslocadas e refugiadas no Iraque, mas os recursos estão quase acabando e 56 programas de saúde terão de fechar em junho, acrescentou o comunicado.
Civis refugiados recebem ajuda humanitária da ONU em um acampamento em Amiriyat al-Fallujah, no Iraque. A entidade está apressando a ajuda com alimentos para os milhares de moradores que fugiram de Ramadi após a cidade ser tomada pelo Estado Islâmico (Foto: Hadi Mizban/AP)
Os Estados Unidos e seus aliados realizaram, nesde sábado (24), 28 ataques aéreos na Síria e no Iraque contra os militantes do grupo Estado Islâmico (EI), disseram militares dos EUA neste domingo. Do total, 11 ataques aéreos foram lançados na Síria e 17 no Iraque.
Na Síria, os ataques da coalizão internacional deste sábado atingiram as posições do EI perto de Kobani e perto de Al Hasakah, disseram militares dos EUA.
Naquele país, a recente tomada do grupo é a cidade de Palmira, que segundo analistas ouvidos pela agência France Presse deixa os jihadistas em posição de executar ofensivas contra a capital Damasco e Homs, a terceira maior cidade do país.
Em Palmira o EI assassinou ao menos 400 pessoas, a maioria, mulheres e crianças, segundo informações divulgadas pela rede de televisão estatal síria.
A informação veio de moradores da cidade antiga, que é conhecida por Tadmur em árabe e possui cerca de 50 mil habitantes.
Ativistas afirmara em redes sociais que centenas de corpos estavam nas ruas, depois que o grupo extremista assumiu o controle da cidade na quarta-feira (20).
O Observatório Sírio para os Direitos Humanos confirmou que algumas pessoas foram decapitadas na cidade, mas não estimou o número de mortos. Pelo menos 300 soldados morreram em combates, segundo o órgão.
Patrimônio
A cidade de Palmira é famosa por suas colunas romanas, templos e torres funerárias, vestígios de um brilhante passado. Situada 210 km ao nordeste de Damasco, a “pérola do deserto”, considerada patrimônio mundial da humanidade pela Unesco, é um oásis que viu seu nome aparecer pela primeira há 4.000 anos e foi um local de trânsito das caravanas entre o Golfo e o Mediterrâneo, assim como uma etapa na Rota da Seda.
Colunas preservadas de Palmira, em foto de 2010 (Foto: Mohamed Azakir/Reuters)
Em 23/5/15, uma bandeira do EI foi fixada na cidade histórica, de acordo com fotos postadas na Internet durante a noite por simpatizantes do grupo. “A cidadela de Tadmur está sob o controle do Califado”, dizia a legenda de uma das fotos.
Ataques no Iraque
Os ataques aéreos no sábado no Iraque incluíram quatro áreas perto de Ramadi, que foi capturada por forças do EI uma semana atrás, disse o comunicado. Os bombardeios ajudam a contra-ofensiva do Exército do Iraque, lançada em 23/5/15, para reaver a Cidade
A tomada de Ramadi pelo EI, em 17 de maio, poderá ser um golpe devastador para o fraco governo central de Bagdá. Os jihadistas muçulmanos sunitas do grupo agora controlam grande parte da província de Anbar, da qual Ramadi é capital, e podem ameaçar as aproximações do Ocidente sobre Bagdá, que fica a 100 km de Ramadi, ou até mesmo avançar pelo sul, rumo ao coração do reduto xiita do Iraque.
Sunitas que fugiram da violência em Ramadi, após o grupo Estado Islâmico tomar controle da cidade, chegam nos arredores de Bagdá (Foto: REUTERS/Stringer)
A perda de Ramadi é o mais grave revés para as tropas iraquianas em quase um ano e lançou dúvidas sobre a eficácia da estratégia dos Estados Unidos, de fazer ataques aéreos para ajudar Bagdá a parar o Estado Islâmico, que controla um terço do Iraque e da vizinha Síria.
A tomada de Ramadi pelo EI provocou a fuga de quase 25 mil pessoas, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A maioria delas foi para a capital Bagdá. Muitos tiveram que escapar do grupo extremista pela segunda vez, já que 130 mil deixaram a cidade iraquiana em abril.
Projeto de terceirização gera ‘escravos modernos’, analisa Antunes
O livro Adeus ao Trabalho?, quando foi publicado no Brasil em 1995, apontava entre suas teses que, se as empresas fossem deixadas em sua lógica livre, o que é exceção, como o trabalho terceirizado, tenderia a se tornar regra. “Esta é a tragédia que nós estamos vivendo hoje, 20 anos depois”, alertou o autor Ricardo Antunes, professor titular da Unicamp e sociólogo, em conversa com JB por telefone. Na entrevista, além de chamar a atenção para os perigos do projeto de terceirização da Câmara e sobre como este representa bem o caminho da informalidade global indicado pelo livro, Antunes oferece uma análise do mercado de trabalho nos últimos anos e atesta, “o dia de amanhã é razoavelmente imprevisível”, para todos.
Edição comemorativa de ‘Adeus ao trabalho?’ conta com novos textos do autor
O livro, que se apresentava apenas como um ensaio sobre o tema proposto, se tornou um clássico da literatura sobre sociologia e trabalho. Ficou esgotado nas livrarias em três semanas e não só virou referência na América Latina como incrementou o debate vigente na Europa dos anos 1990. A Cortez Editora acaba de lançar uma edição comemorativa, com novos textos e uma visão atualizada.
O Brasil viveu, de certo modo, no contrafluxo do movimento que foi devastador para a Europa do Norte, por exemplo, com altos níveis de desemprego, a partir de 2008. No ano passado, entretanto, esse movimento chegou com intensidade. O país entrou em uma onda recessiva, expressa pelos milhares de desempregados, como os da indústria automobilística e dos setores vinculados à expansão da Petrobras, analisa Antunes.
“Entramos numa era terrível, como se constata agora com a votação do PL 4330, que é um projeto selvagem porque amplia de modo absoluto a terceirização e outras medidas que penalizam os trabalhadores. É uma regressão profunda que equivale ao caso brasileiro, com uma metáfora forte, a uma regressão à escravidão do trabalho. Esse projeto rasga a CLT no que ela tem de melhor. Ele precisa ser derrotado pela classe trabalhadora, é imperioso, senão nós entraremos em uma lei da selva que vai nos aproximar de trabalhadores escravos modernos em pleno século 21”, ressaltou Antunes.
De acordo com ele, exemplo dos malefícios desse processo é o caso de terceirizados de universidades brasileiras, como da UFRJ e da Uerj, que trabalham “como loucos” mas são os primeiros a pagar o ônus da crise quando ela vem. “Não há nenhuma pesquisa acadêmica séria que diz que a terceirização traz vantagem. Qual é a vantagem, então, da terceirização? Ela reduz custos para o empresariado, e divide a classe trabalhadora entre estáveis e terceirizados, regulamentados e terceirizados. Ela desorganiza ainda mais a vida sindical e cria dificuldades de identidade e de solidariedade no interior da classe.”
Os parlamentares brasileiros não têm ideia do potencial que o projeto de terceirização aprovado na Câmara tem para rebelar trabalhadores e trabalhadoras, aposta Antunes.
Para ele, no cenário mundial, a única certeza que se tem agora “é que o dia de amanhã é razoavelmente imprevisível”, em relação aos trabalhadores e trabalhadoras, mas também para grandes corporações.
Confira a entrevista, na íntegra:
Jornal do Brasil – O Brasil avançou muito nos últimos anos no mercado de trabalho, com redução na taxa de desemprego e aumento de direitos, por exemplo, no caso das empregadas domésticas. Considerando o caminho do mercado de trabalho global, como o senhor analisa esse período do país?
Ricardo Antunes – Na década de 2000, de fato, nós tivemos um crescimento forte de emprego, na casa de 20 milhões de empregos, o que é significativo num país como o nosso. Mas, segundo ponto, esses empregos foram predominantemente no setor de serviços, com maior força no setor de serviços, onde a rotatividade, as precárias condições de trabalho, eram muito acentuadas. Basta dizer que a grande maioria desses empregos encontram-se na faixa de um salário e um salário mínimo e meio. Terceiro ponto, isso desmonta o mito do país da classe média.
Sociologicamente falando, imaginar que um trabalhador ou uma trabalhadora que ganha entre um salário mínimo e um salário mínimo e meio seja parte da chamada classe média é um equívoco completo. As classes médias são muito heterogêneas. Quer no que diz respeito a sua inserção no mercado de trabalho, mais predominantemente intelectual, quer pela sua inserção no consumo, pelos seus valores, pela sua dimensão simbólica, a classe média é muito diferenciada desses trabalhadores. Quarto ponto, é verdade que esse crescimento com essas tendências foi um crescimento significativo de emprego, mas com alto nível de precariedade nas condições de trabalho.
Ricardo Antunes ressalta que parlamentares brasileiros não têm ideia do potencial que projeto de terceirização tem para rebelar trabalhadores e trabalhadoras
Mas, é preciso dizer também, ponto quinto, que houve um crescimento, não pequeno, do chamado trabalho terceirizado. Basta dizer que nós estamos perto hoje de 13 milhões de trabalhadores e trabalhadoras terceirizados, espaço onde a burla da legislação social protetora do trabalho é completa.
O cenário global dos anos 2000 foi muito crítico no contexto dos países avançados, especialmente depois de 2007, 2008. Mas ele vinha, digamos, com tendências declinantes já em anos anteriores. O Brasil viveu, de certo modo, no contra fluxo desse movimento crítico que foi devastador nos países da Europa do Norte, por exemplo.
Os níveis de desemprego da Inglaterra, França, Itália, Espanha, Portugal e tantos outros [países] foram muito altos. A própria Alemanha mascarava os seus níveis de desemprego, considerando empregados, trabalhadores e trabalhadoras, que perderam o emprego em tempo integral e passaram a trabalhar em tempo parcial. Continuavam empregados, mas as condições de precarização do seu trabalho e do seu emprego se avultaram.
Acontece que a crise que devastou, digamos assim, o mercado de trabalho europeu, norte-americano e também afetando o Japão, a partir de 2008, chegou com intensidade aqui para nós a partir do ano passado. No final do ano passado já eram visíveis os traços de retração, e nós entramos numa onda recessiva acentuada, que se expressa pelos milhares de desempregados. Toda semana nós temos centenas de milhares de desempregados, na indústria automobilística, nas indústrias que dependem das atividades industriais, que estavam vinculadas à expansão da Petrobras. Mais de 200 mil terceirizados foram desempregados nesses últimos meses em função da crise da Petrobras, e tudo isso mostra a fragilidade do que foi conquistado nos anos 2000. Na verdade, nos anos 2000, houve, de fato, crescimento do emprego, mas ele era circunstancial, fundado num modelo de expansão do mercado interno, que esgotou-se. Hoje, de cada dez brasileiros, quatro, digamos assim, estão atolados em dívidas, em situação de insolvência.
Isso mostra, primeiro, que esse projeto dos anos 2000 faliu, ele fracassou, e que nós entramos numa era terrível, como se constata agora com a votação do PL 4330 [de terceirização das atividades-fim na Câmara], que é um projeto selvagem porque amplia de modo absoluto a terceirização. E também com as medidas do governo Dilma / Levy que estão penalizando os trabalhadores no seguro desemprego, abono salarial, etc.
O que esse projeto de terceirização aprovado pela Câmara representa neste momento?
Uma regressão profunda que equivale ao caso brasileiro, com uma metáfora forte, a uma regressão à escravidão do trabalho. Esse projeto rasga a CLT no que ela tem de melhor, no que concerne aos direitos do trabalho, este é o primeiro ponto. Segundo, rasga a CLT na medida em que as empresas poderão contratar trabalhadores e trabalhadoras em uma relação contratual, mas através de empresas contratantes, negociam com empresas de terceirização a contratação da força de trabalho, como era na escravidão, que os senhores de terras compravam escravos de comerciantes que viviam do tráfico de escravos.
O PL 4330 diz que quer beneficiar os terceirizados, mas isso é mentira. Que quer regulamentar os terceirizados, mas isso é falácia
Terceiro ponto, o PL 4330, que agora chama-se PLC 30/2015 no Senado, ele diz que quer beneficiar os terceirizados, mas isso é mentira. Que quer regulamentar os terceirizados, mas isso é falácia. De fato, ele quer desregulamentar o conjunto da classe trabalhadora assalariada.
Se nós quiséssemos regulamentar os terceirizados era só pegar o PL 4330, artigo 4º, isso aparece também no artigo 1 do PLC 30/2015, que é o que está valendo agora, quando ele diz nesse artigo 1 que todas as atividades estão liberadas, nós poderíamos dizer ‘aprovamos o PL 4330 beneficiando, ou seja, estendendo o direito a todos os terceirizados da CLT’. Agora, à medida que esse projeto amplia a extensão da terceirização das atividades meio para as atividades fim, o que ele efetivamente quer é criar um sistema onde o mercado de trabalho seja inteiramente terceirizado, de informais, precários, terceirizados, PJs, empreendedores, falsas cooperativas, e essa miríade de trabalhos precários. Esse é o objetivo do PL, por isso ele é nefasto, ele precisa ser derrotado pela classe trabalhadora, é imperioso. Senão nós entraremos em uma lei da selva, que vai nos aproximar de trabalhadores escravos modernos em pleno século 21.
Antunes, o Sr. Fala no prefácio da 16ª edição do livro Adeus ao Trabalho? que esse caminho da informalidade do trabalho só seria obstado com a confrontação aberta do trabalho. Como é isso?
Veja bem, por que há mais terceirização nos Estados Unidos e na Inglaterra do que na França e na Alemanha? Porque na França e na Alemanha os sindicatos de trabalhadores são mais fortes e eles conseguem, e então, conseguiram impedir que a flexibilização fosse ampliada. Na Inglaterra, com a eleição da Margaret Thatcher em 1979, e os governos que lhe sucederam, houve uma devastação da vida sindical, e uma devastação do mercado de trabalho. De tal modo que as terceirizações se ampliaram.
Há um contrato chamado zero hour contract, contrato de zero hora, lá na Inglaterra hoje, que os trabalhadores ficam com um celular esperando uma ligação, pode ficar um dia, pode ficar dois dias, três dias, quatro dias. Se vem uma ligação, eles têm que atender ao trabalho, se não vem, eles continuam sentados, não recebem. É isso que estou chamando de escravo moderno do século 21. Sem legislação protetora do trabalho, são como se fossem trabalhadores autônomos que são autônomos só na sua aparência, porque são completamente dependentes de um trabalho contingente e precário.
Onde e o que eu quis dizer então com essa frase que consta no meu livro Adeus ao Trabalho?, nessa edição comemorativa de 20 anos? Quando há resistência, oposição a estas pressões pela terceirização, pelas flexibilizações e pela informalidade, essas pressões do capital são controladas. Por exemplo, quando foi aprovada o PL 4330 na Câmara, foi uma votação esmagadora, na calada da noite, foi um projeto votado na surdina.
É um crime que um parlamento que se encontra no mais alto nível de rejeição da população brasileira vote um tema desta envergadura na calada da noite sem debate. Três semanas depois, algumas semanas depois, quando ele foi votado novamente, a votação se encurtou muito, porque a população trabalhadora, seja eles trabalhadores de limpeza, trabalhadores metalúrgicos, trabalhadores e trabalhadoras bancários, trabalhadores e trabalhadoras jornalistas, trabalhadores e trabalhadoras no call center, todos sabem o seguinte, os terceirizados padecem condições de precarização.
Você vê, por exemplo, o caso do Rio de Janeiro. Hoje, a UFRJ e a Uerj paralisadas porque os terceirizados não recebem, como se eles fossem párias sociais. E eles trabalham como loucos para manter as universidades, serviços públicos e empresas privadas onde estão limpas. E, na hora na crise, eles são os primeiros a pagarem o ônus da crise.
O terceirizado e a terceirizada sabem que se eles pudessem eles gostariam de ter direitos, e não há nenhum trabalhador que tenha direitos que diz ‘eu quero ser terceirizado’. Ele é um flagelo, só interessa ao capital financeiro, que são os bancos, as indústrias, o agronegócio e as suas fusões, e os grandes grupos corporativos. Então, ele [o PL] é muito nefasto. Ele é muito negativo, e só quando há oposição, resistência, greves, paralisações, manifestações, debates públicos – por exemplo, as associações de juízes do trabalho, magistrados, os procuradores do trabalho, têm se posicionado claramente contrário. Vários juízes progressistas do Tribunal Superior do Trabalho são contrários à terceirização. Vários intelectuais, críticos, pesquisadores, todas as pesquisas sérias.
Eu publiquei também junto com essa edição nova do Adeus ao Trabalho? o terceiro volume do meu livro Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil, o Adeus ao Trabalho? é pela Editora Cortez e o Riqueza e Miséria do Trabalho é pela editora Boitempo. Nesta pesquisa, nós mostramos como, digamos assim, os terceirizados têm salários mais baixos, jornadas mais altas, sofrem mais acidentes, adoecem mais, há mais mortes no trabalho, há mais assédio moral.
Federações não têm autoridade para falar em nome dos 13 milhões de terceirizados que padecem as agruras do mercado
Não há nenhuma pesquisa acadêmica séria que diz que a terceirização traz vantagem. Qual é a vantagem então da terceirização? Ela reduz custos para o empresariado, divide a classe trabalhadora entre estáveis e terceirizados, regulamentados e terceirizados. Ela desorganiza ainda mais a vida sindical, e ela cria dificuldades de identidade e de solidariedade no interior da classe. Agora, nenhum projeto com esse sentido malévolo vai dizer que esse é o sentido.
Então, é grotesco ver a Fiesp, em São Paulo, a Febraban, tantas outras, dizerem que esse projeto é bom para os terceirizados. A Fiesp, a Febraban e a Federação do Comércio não têm autoridade e nem legitimidade para falar em nome dos 13 milhões dos terceirizados e terceirizadas que padecem as agruras do mercado de trabalho.
Em uma tese importante do Adeus ao Trabalho?, publicado em 1995, 20 anos atrás, eu dizia, se deixarmos as empresas na sua lógica livre, o que é exceção, o trabalho terceirizado, tende a se tornar regra. Esta é a tragédia que nós estamos vivendo hoje, 20 anos depois, nós estamos na iminência da terceirização, do flagelo, e do precariado dentro da classe trabalhadora deixar de ser exceção para se tornar a regra e a totalidade.
Antunes, o Ministério do Trabalho brasileiro, por exemplo, já atuou para tentar combater sindicatos que existem apenas no papel. No ano passado, os garis do Rio de Janeiro se articularam e conquistaram um salário superior ao de outras categorias, sem a ajuda do sindicato. Como você enxerga a organização sindical no país hoje?
Veja, é natural que num quadro de tantas mudanças, no caso brasileiro, de 1990 para cá, nós tivemos uma profunda reestruturação produtiva, tivemos uma enorme privatização da res publica, do Estado brasileiro e das suas atividades públicas, das suas empresas públicas, tivemos uma forte desregulamentação do trabalho, tivemos o que eu chamo de – isso está apresentado no Adeus ao Trabalho? – redesenho, uma reconfiguração da classe-que-vive-do-trabalho. Há uma nova morfologia da classe trabalhadora, e os sindicatos, claro, sofreram com isso. É muito difícil para os sindicatos saírem de uma empresa taylorista e fordista, aquela que o Chaplin magistralmente caricatura nos Tempos Modernos, sua obra-prima, e ver uma empresa hoje que funciona toda ela terceirizada. Ela não contrata nenhum trabalhador, ela contrata empresas que alugam trabalhadores. Portanto, é uma relação interempresas. Isso mudou muito, isso dificultou muito.
Mais do que isso, o mercado de trabalho se tornou mais feminino, há uma feminização da força de trabalho, e o contrato de trabalho passa a ter mais terceirizados e precarizados para os quais não há tradição de organização sindical.
Então, o que se passou nesse período? Primeiro, há sindicatos e sindicatos. Sindicatos comprometidos com a classe trabalhadora e que lutam, que apesar das dificuldades fazem esforços para tentar impedir esse flagelo que afeta o mundo do trabalho. E há sindicatos e máfias sindicais que são verdadeiras burocracias, máfias sindicais que vivem do imposto sindical, vivem em colaboração com o patronato e não defendem os trabalhadores.
É por isso, por exemplo, sem ter estudado em detalhes esse fenômeno, que a greve dos garis foi muito importante, foi à margem do sindicato, mostrou que os sindicatos não os representam. Assim como frequentemente temos visto, por exemplo, greves de rodoviários, motoristas, que saem à margem do sindicato, porque os sindicatos estão corrompidos – lutas entre grupos, máfias sindicais.
Mas, atenção, isso não pode ser generalizado, há muitos sindicatos comprometidos, por exemplo, sindicatos dos professores do ensino superior, vários sindicatos dos bancários. O sindicato dos bancários de São Paulo e a Contraf têm feito esforços contra a terceirização. O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e de Campinas sempre lutaram contra a terceirização.
Os sindicatos vivem um momento difícil. Alguns buscam alternativas, outros são contrários aos trabalhadores
Então, os sindicatos vivem um momento difícil. Alguns buscam alternativas, outros, digamos, são contrários aos trabalhadores. Mas há casos em que temos, digamos assim, uma espécie de resistência da base, que passa por cima dos sindicatos, como tem ocorrido em vários casos. Isso mostra que o cenário sindical brasileiro está se redesenhando, assim como quando nós mudamos do século 19 para o século 20 de um sindicalismo de ofício, típico de empresas ainda manufatureiras, para sindicalismo de massa porque as empresas se tornaram, as grandes empresas automobilísticas, começando pela Ford, se tornaram, por exemplo, determinantes e grandes, foi preciso criar um sindicato de massa.
Hoje, nós temos empresas que se horizontalizaram. A terceirização invadiu vários setores, empresas que se fragmentam, e isso cria dificuldades sindicais, mas tem a ver com resistência sindical. Um exemplo disso é a ação que os sindicatos têm feito de modo importante, os sindicatos comprometidos de algum modo com os interesses da classe trabalhadora, contra o PL 4330, como há um outro fenômeno muito importante também, quando o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), quando o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) dizem que são contra a terceirização, são iniciativas importantes, porque a maioria dos que militam nesses movimentos já tiveram experiência de serem terceirizados e sabem que é o pior flagelo.
Nós estamos vendo agora uma manifestação importante, por exemplo, dos terceirizados na UFRJ, que não aceitam trabalho escravo, e eles haverão de buscar formas autônomas de organização, se os sindicatos não os representam. Como os garis do Rio conseguiram, de algum modo, uma organização embrionária na base dos garis que vai ser por certo um embrião de uma possível oposição sindical ou da criação de um outro tipo de sindicalismo. É mais ou menos esse o cenário que nós temos hoje. O quadro é muito difícil e não há um sindicato, há muitos sindicalismos.
É possível esboçar em que momento o mundo está?
É possível. O cenário mundial hoje é muito contraditório, complexamente contraditório. Se nós estivéssemos fazendo essa entrevista em 2012 eu diria ‘estamos em uma fase ascensional’, Indignados na Espanha, rebeliões na Grécia, rebelião que incendiou várias cidades da Inglaterra e do Reino Unido, etc., rebeliões dos estudantes do Chile, isso em 2011, 2012. Hoje, em 2015, eu diria, nesta complexidade que marca o mundo atual, nós estamos numa fase mais difícil.
As direitas, desde a direita autocrática até as direitas fascistas, ganham força em vários países, por exemplo, na Europa. Ainda que nós tenhamos tido, no final do ano passado, uma vitória importante da esquerda de esquerda da Grécia através do Syriza, e uma certa mobilização forte do Podemos na Espanha também, digamos que o momento hoje é mais difícil.
A crise econômica, essa nova fase dela a partir de 2008, que tanto a mídia diz que já estava superada, ela na verdade não só superou como nós tivemos 32% dos trabalhadores do Japão hoje são precarizados. Bom, não vou falar da China, da Índia. Aliás, com o meu livro Os Sentidos do Trabalho, eu tive o prazer de tê-lo publicado no final do ano passado também na Índia, depois de ter saído em vários países, e também de ter conhecido esses países e debatido com eles. O próprio Adeus ao Trabalho?, esse que está sendo reeditado, saiu na Itália em 2002 e está saindo agora uma edição atualizada em 2015, publicada pela editora da Universidade de Veneza, publicado também na Espanha, além de vários países da América Latina. Eu pude debater também outro livro, Sentidos do Trabalho, publicado na Inglaterra, Estados Unidos, Holanda, Portugal. Isso tem me dado condições de perceber esse cenário.
Esse cenário é oscilante, há rebelião, por exemplo, dos precarizados. Tem uma tese que ganhou força na Europa, com a qual eu não concordo, que diz, há uma nova classe, o precariado, que é o jovem que vai do imigrante ao pós-graduado, que pega os piores trabalhos, sendo imigrante sem qualificação ou sendo pós-graduado com ultraqualificação, ele não tem trabalho. Então, ele se forma em engenharia mas ele vai trabalhar no setor de limpeza de um motel, ou ele vai trabalhar num restaurante ou ele vai trabalhar num supermercado, atividades e serviços que são, em geral, as que mais precarizam as condições de trabalho. Mas há rebeliões importantes, há manifestações de descontentamento.
Nós estamos numa era, eu usaria uma frase clássica. ‘Tudo que é sólido desmancha no ar’ é a frase clássica. Fazendo uma pequena adaptação, tudo que é sólido pode derreter. Como vem derretendo, e gela de novo. Depois da crise das empresas de energia elétrica privatizadas, acaba a luz, derrete de novo. O cenário mundial é mais ou menos assim.
A precarização da classe trabalhadora que incide sobre a mulher e sobre as mulheres negras é ainda mais intensificada
No nosso caso, com o PL 4330, os parlamentares não têm ideia do potencial que ele tem de rebeldia dos trabalhadores e das trabalhadoras. Aliás, a terceirização afeta mais duramente a mulher trabalhadora. A precarização geral da classe trabalhadora que incide sobre a mulher e sobre as mulheres negras é ainda mais intensificada. Você citou um exemplo na tua primeira pergunta importante, do direitos das mulheres trabalhadoras domésticas, aquilo ainda é saldo de uma conjuntura de um período um pouquinho anterior, estava mais perto das manifestações de junho de 2013 que das manifestações das direitas de março de 2015.
Esse é o cenário mundial. A única certeza que nós temos é que o dia de amanhã é razoavelmente imprevisível. Desde o que vai acontecer com os trabalhadores e trabalhadoras, que só conseguem obstar estas quebras da legislação social protetora do trabalho com resistência, como também é mais ou menos imprevisível para grandes corporações, que não sabem se vão fechar, se vão pra Índia, se vão mudar de ramo. Porque o cenário é muito imprevisível. E isso é o que caracteriza uma economia em uma fase de mundialização do capital ou de globalização dos capitais.
A presidente Dilma sancionou a lei que muda as regras para o cálculo da aposentadoria. As novas regras levam em consideração a soma da idade e o tempo de contribuição do segurado, a chamada regra 85/95 progressiva, e que será alternativa ao fator previdenciário, que continuará existindo para quem quiser se aposentar antes. Alcançados os pontos necessários, o trabalhador irá receber o benefício integral, e não haverá a aplicação do fator previdenciário.
A fórmula 85/95 significa que o trabalhador pode se aposentar, com 100% do benefício, quando a soma da idade e do tempo de contribuição for 85, no caso das mulheres, e 95, no caso dos homens. A partir de 31 de dezembro de 2018, essa fórmula sofrerá o acréscimo de um ponto a cada dois anos. A lei limita esse escalonamento até 31 de dezembro de 2026 quando a soma para as mulheres passará a ser de 90 pontos e para os homens, de 100 pontos. O tempo mínimo de contribuição permanece de 30 anos para as mulheres e de 35 anos para os homens.
Um exemplo: como o número de pontos é igual à idade da pessoa mais o tempo de contribuição com o INSS, uma mulher de 53 anos que tiver trabalhado por 32 anos soma 85 pontos e já pode receber aposentadoria integral. O mesmo vale para um homem de 59 que tiver trabalhado por 36 anos, somando assim 95 pontos. A partir de 31 de dezembro de 2018, essa soma deverá ser, respectivamente, de 86 e 96 pontos. A partir de 31 de dezembro de 2020, deverá atingir os 87 pontos para as mulheres e 97 pontos para os homens e assim progressivamente a cada dois anos até 2026.
De acordo com o Ministério da Previdência, a progressividade ajusta os pontos necessários para obter a aposentadoria de acordo com a expectativa de vida dos brasileiros.
Casos especiais
No caso dos professores dos ensinos infantil, fundamental e médio, que têm regras diferenciadas e se aposentam cinco anos mais cedo que as demais categorias, a lei determina que sejam acrescidos cinco pontos à soma da idade com o tempo de contribuição. Portanto, se um professor tem 90 pontos, será considerado que ele atingiu 95.
Fator previdenciário continua
O fator previdenciário continua em vigor e a nova regra é uma opção. Caso o trabalhador deseje se aposentar antes de completar a soma de pontos necessários, ele poderá se aposentar, mas vai haver aplicação do fator previdenciário e, portanto, o valor do benefício pode ser reduzido.
Novos limites
De acordo com o texto sancionado hoje pela presidente Dilma, a fórmula 85/95 será acrescida em um ponto a partir das seguintes datas:
Em 31 de dezembro de 2018: 86 para mulheres e 96 para homens
Em 31 de dezembro de 2020: 87 para mulheres e 97 para homens
Em 31 de dezembro de 2022: 88 para mulheres e 98 para homens
Em 31 de dezembro de 2024: 89 para mulheres e 99 para homens
Em 31 de dezembro de 2026: 90 para mulheres e 100 para homens
O Ministério da Previdência divulgou um conjunto de perguntas e respostas. Leia abaixo:
Com a nova regra, os trabalhadores vão se aposentar com 85 e 95 anos?
Não, 85 e 95 são os números de pontos que eles deverão atingir para se aposentarem integralmente. Esses números serão gradualmente aumentados até 2026, quando chegarão a 90 pontos para as mulheres e 100 para os homens.
Então agora só se aposenta por tempo de contribuição quem atingir os 85 ou 95 pontos?
Não. Para ter direito à aposentadoria por tempo de contribuição, os segurados da Previdência Social precisam ter 30 anos de contribuição, no caso das mulheres, e 35 anos, no caso dos homens. A nova regra é uma opção de cálculo, que permite afastar a aplicação do Fator Previdenciário. Caso a pessoa deseje se aposentar antes de completar a soma de pontos necessários, ela poderá se aposentar, mas vai haver aplicação do fator previdenciário e, portanto, potencial redução no valor do benefício.
Qual a idade mínima para se aposentar pela Regra 85/95?
Pelas regras de hoje, não existe idade mínima para aposentadoria por tempo de contribuição no INSS. O que é exigido para esse tipo de aposentadoria é o tempo mínimo de contribuição, de 30 anos para mulheres e de 35 para homens. A regra 85/95 não muda em nada o requisito de acesso ao benefício. A nova regra traz uma nova forma de cálculo do valor do benefício, permitindo que não se aplique o Fator Previdenciário para quem atingir os pontos.
Esta regra acaba como Fator Previdenciário?
Não, ele continua em vigor. A nova regra é uma opção. Caso a pessoa deseje se aposentar antes de completar a soma de pontos necessários, ela poderá se aposentar, mas vai haver aplicação do fator previdenciário e, portanto, potencial redução no valor do benefício.
Muda alguma coisa para quem já se aposentou?
Não. Para quem já está aposentado não há nenhuma mudança.
Me aposentei recentemente. Posso pedir alguma revisão?
Não. Este entendimento já é pacificado pelo STF Para os que se aposentaram com outra legislação, não cabe nenhum tipo de revisão em função da mudança das regras.
Por que as mudanças são necessárias?
Para garantir uma previdência sustentável e contas equilibradas para o futuro, de modo a assegurar a aposentadoria dos trabalhadores de hoje, mas também de seus filhos e netos.
Mas por que mudar as regras?
Diversos países estão revendo seu modelo de previdência por causa do aumento da expectativa de vida e da rápida transição demográfica que estão vivendo. As pessoas estão vivendo mais tempo e recebendo aposentadoria por um período maior de tempo, o que aumenta os custos da previdência. Simultaneamente, no caso brasileiro, as taxas de fecundidade estão caindo, o que significa que nas próximas décadas haverá menos contribuintes para cada idoso.
Por que instituir essa progressividade do sistema de pontos?
Porque o modelo não pode ser estático, já que a expectativa de vida do brasileiro continuará crescendo. A previdência social precisa seguir regras que se adequem às novas realidades sociais para garantir que no futuro ela seja sustentável. Vincular o sistema de pontos à expectativa de vida é uma forma de garantir uma adequação gradual do sistema, evitando mudanças bruscas no futuro.
Fonte: Yahoo
Entenda o fator previdenciário e a mudança aprovada pela Câmara
Proposta foi votada como emenda ao texto da MP da pensão por morte.
Medida reduz tempo para trabalhador ter 100% da aposentadoria.
A Câmara dos Deputados aprovou, em 13/5/15, uma proposta de mudança no fator previdenciário, que é o cálculo utilizado para a concessão de aposentadorias. A alteração foi incluída como emenda (proposta de mudança) ao texto da MP 664, que restringe o acesso à pensão por morte, aprovada por 232 votos a favor, 210 contra e duas abstenções.
Para que a mudança entre em vigor, a Câmara ainda precisa concluir a votação das demais sugestões de alteração da medida provisória. Após a aprovação da redação final, o texto segue para o Senado para sanção da presidente Dilma Rousseff.
O que é o fator previdenciário?
É uma fórmula matemática que tem o objetivo de reduzir os benefícios de quem se aposenta antes da idade mínima de 60 anos para mulheres e 65 anos para homens, e incentivar o contribuinte a trabalhar por mais tempo. Quanto menor a idade no momento da aposentadoria, maior é o redutor do benefício.
Por que foi criado?
O fator previdenciário foi criado em 1999 para conter os gastos da Previdência Social, que já ultrapassavam a arrecadação.
Um estudo da Câmara dos Deputados estima que desde 2000, ano em que entrou em vigor, até o final de 2011, o fator previdenciário tenha gerado uma economia em torno de R$ 55 bilhões para os cofres do governo.
Como funciona?
O fator previdenciário é composto por uma fórmula complexa, que se baseia na idade do trabalhador, tempo de contribuição à Previdência Social, expectativa de sobrevida do segurado e um multiplicador de 0,31.
O que a Câmara aprovou?
A proposta aprovada na Câmara é conhecida como sistema 85/95, no qual a mulher poderia ter aposentadoria integral quando a soma do tempo de contribuição e da idade fossem 85 e o homem poderia obter o benefício quando a mesma soma fosse 95.
Para professoras, de acordo com a emenda, a soma deve ser 80 e para professores, 90. Se o trabalhador decidir se aposentar antes, a emenda estabelece que a aposentadoria continua sendo reduzida por meio do fator previdenciário.
Quais os efeitos da mudança?
O principal benefício da mudança do favor previdenciário é para o trabalhador, que começa a trabalhar mais cedo e que, portanto, atinge o tempo de contribuição antes da idade mínima para aposentadoria.
Mudanças no fator, no entanto, podem prejudicar as contas públicas, que já se encontram em situação delicada.
Exemplo
Uma mulher de 47 anos de idade, que completou 30 anos de contribuição, ao se aposentar pela regra atual teria uma redução de quase 50% no valor da sua aposentadoria. Para conseguir 100% do valor, ela teria que trabalhar pelo menos mais 12 anos.
Se a regra aprovada pela Câmara entrar em vigor, ela teria que trabalhar mais 4 anos para ter direito a 100% do benefício, quando a soma da sua idade (51) mais seu tempo de contribuição (34) alcançar os 85.
Fonte: G1
Governo quer idade mínima para todos os aposentados
O governo Dilma vai discutir a elaboração de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que fixe uma idade mínima para a aposentadoria e apresente também uma nova fórmula para garantir o valor integral do benefício.
Essa é uma das propostas que serão apresentadas às centrais sindicais em 15/6/15 como alternativa ao fator previdenciário (índice que reduz o benefício de quem se aposenta cedo).
Segundo assessores da presidente, Dilma vai tratar do assunto em 14/6/15 com sua equipe e ainda não tem uma proposta fechada. A definição de uma idade mínima faz parte do conjunto de opções que será discutido com os sindicalistas na busca de garantir uma Previdência Social “sustentável no futuro”.
Dilma tem até quarta-feira (17) para tentar fechar um acordo com os sindicalistas, quando vence o prazo para sancionar ou vetar a proposta aprovada no Congresso que criou uma alternativa ao fator previdenciário, com a chamada fórmula 85/95.
Essa fórmula permite a aposentadoria integral (sem o corte do fator previdenciário) sempre que a soma da idade com o tempo de contribuição der 85, para mulheres, ou 95, para homens.
Editoria de arte/Folhapress
INSUPORTÁVEL
Para o governo, a fórmula 85/95 inviabiliza financeiramente a Previdência. Cálculos que serão apresentados às centrais indicam que, nos dois primeiros anos, haveria economia em vez de gasto adicional, porque as pessoas seriam estimuladas a postergar a aposentadoria para ter direito ao benefício integral.
Nos anos seguintes, porém, os gastos aumentariam se todos os trabalhadores optassem pela fórmula 85/95 em vez do fator previdenciário.
Em 2025, as projeções indicam que os gastos da Previdência aumentariam em R$ 33 bilhões. Em 2030, subiriam R$ 78 bilhões. Já em 2060, chegariam a um nível que, alertam técnicos, seria “insuportável”: um gasto adicional na casa de R$ 3,2 trilhões.
A fórmula aprovada pelo Congresso pode ser benéfica para quem vai se aposentar no curto prazo, mas quebra a Previdência no longo prazo, calcula o governo.
Segundo eles, seria “cômodo” para a presidente não vetar o dispositivo, mas ela tem “compromisso com as gerações futuras” e quer negociar uma proposta viável.
IDADE MÍNIMA
Técnicos que participam dos estudos afirmam que o ideal é fixar uma idade mínima para a aposentadoria por tempo de contribuição. O Brasil é um dos poucos países que não adotam esse limite.
Isso não significa, necessariamente, que seria aumentado o limite mínimo de idade estabelecido na lei -65 para homens e 60 mulheres.
Em países com economias mais relevantes, a idade mínima prevista chega a ser maior do que a do Brasil.
Além da PEC, caso seja esta a proposta aprovada, o governo teria ainda de enviar uma medida provisória ou projeto de lei regulamentando uma nova fórmula partindo da 85/95, mas com um escalonamento gradual considerando o aumento da expectativa de vida da população.
Segundo os técnicos, se esse mecanismo tivesse sido aprovado quando começou a ser formulado, em 2003, e fosse móvel, de acordo com a expectativa de sobrevida, hoje ele seria de 90/100.
Por exemplo: um homem com 60 anos de idade e 35 de contribuição ao INSS poderia receber a aposentadoria integral se a fórmula 85/95 estivesse em vigor.
Com a fórmula 90/100, ele teria de trabalhar mais 2,5 anos e receberia o benefício integral ao se aposentar com 62,5 anos de idade e 37,5 de contribuição.
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