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Por que juízes e promotores ainda ganham assim se a PEC limitando o gasto público já foi aprovada?

18/12/2016

Judiciário paulista: “A elite da elite financiada com dinheiro público”

Estudo analisa a dinâmica do governo tucano para se perpetuar no poder

A advogada Luciana Zaffalon apresentou os resultados de sua pesquisa de doutorado, defendida em fevereiro na FGV-SP, sobre o impacto das disputas corporativas do Sistema de Justiça nas disputas políticas do Estado de São Paulo, em um contexto de fascismo social.

Foram analisados centenas de documentos e projetos de lei, relativos às três instituições analisados, compondo um minucioso e importante diagnóstico sobre a captura do poder Judiciário pelo poder político em São Paulo. O estudo, inclusive, mostra o imbricamento entre os interesses corporativos e os políticos e partidários, em um contexto onde as carreiras são compostas por membros vitalícios em um governo sem alternância partidária no estado, desde 1994.

Em um espaço com forças políticas tão fortes, capazes de se consolidar em um projeto partidário e hegemônico no Estado de São Paulo, seria ingenuidade imaginar que essa força política não opere dentro do sistema de Justiça”, aponta a advogada ao salientar a “obscuridade”, a “perspectiva de privilégio” e de “proteção das elites” enquanto marcas do sistema da Justiça paulista.

Enquanto isso, o encarceramento em massa da população mais pobre se torna “regra do nosso sistema de Justiça”. O mecanismo é notório: blinda-se as elites enquanto à sociedade civil “se reservam as periferias, a prisão ou a morte”.

Cooptação via benefícios remuneratórios
Os dados apresentados por Luciana ao longo da conferência falam por si. Ao analisar os projetos de lei, entre janeiro de 2011 a junho de 2016, relativos ao TJSP, MPSP e DPESP, na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), ela descobriu, por exemplo, que no momento da aprovação da Lei Orçamentária de São Paulo, a ALESP transfere a sua atribuição de aprovar as complementações orçamentárias para o governo do Estado.

Ou seja, as negociações relativas a essas complementações que, no caso do Judiciário, dizem respeito a uma série de benefícios, são realizadas no gabinete do governador. “Isso cria a dinâmica de alimentação de um imbricamento muito profundo entre disputas remuneratórias e disputas políticas rigorosamente como regra”. Para termos uma dimensão do que isso significa, em 2017, o Judiciário paulista abocanhou 21% das suplementações orçamentárias do Estado de São Paulo.

Em relação às reformas corporativas aprovadas na ALESP, o PSDB e, em particular, o governador de São Paulo lideram a apresentação de projetos relativos à organização do sistema de Justiça ou benefícios remuneratórios, explicitando o “robustecimento corporativo e de vantagens das carreiras jurídicas viabilizado por propostas diretas do governo do Estado”.

Os projetos propostos pelo MPSP e TJSP, por sua vez, não apenas “se dedicavam ao apetrechamento das instituições do Judiciário, mas fomentavam a rotina de negociação direta de suplementação orçamentária com o governo, com a criação quase invariável desses benefícios e desses fortalecimentos institucionais”.

O resultado, aponta, é “uma espiral elitista de formação corporativa e institucional”. Segundo Luciana, “é frente aos atos de vontade do governador que o funcionamento aristocrático da justiça local tem se concretizado, viabilizando a evolução da organização corporativa do poder em detrimento da cidadania”.

Salários acima do teto constitucional
As folhas de pagamentos do MPSP, inclusive, dimensionam a “espiral elitista”. Em 2015, somente 60 dos 1.920 registros salariais dos promotores paulistas não superaram o teto constitucional como média mensal, ou seja, apenas 3,1% da carreira recebeu abaixo do teto constitucional de R$ 33.762,00. “E eu não estou contabilizando 13° e férias”, apontou Luciana.

Naquele ano, o rendimento mensal médio de um promotor de Justiça do Estado de São Paulo chegou a 46 mil reais, e a soma dos complementos remuneratórios (benefícios e penduricalhos) ultrapassou 62,5% da remuneração padrão. Na Defensoria Pública do Estado de São Paulo, por sua vez, o rendimento mensal médio foi de R$ 26.980,00. E com base em dados do CNJ, Luciana aponta uma despesa média mensal de R$ 45.906,00 com magistrados na Justiça paulista.

Para dar uma dimensão do que significam esses números, ela citou os dados da PNAD de 2015. No Brasil, apenas 2,3% das pessoas ganharam acima de 8 mil reais naquele ano. No Estado de São Paulo, foram somente 3,3% da população. E se considerarmos apenas os funcionários públicos com ensino superior, o índice não ultrapassa 12% com ganhos mensais acima de 8 mil reais.

Quando a gente olha o teto constitucional, estamos falando um patamar de rendimento acima do qual se encontram somente uma parcela ínfima da população: 0,8% no Brasil e 0,10% em São Paulo. É a elite da elite financiada com dinheiro público via projetos propostos pelo governo do Estado”, apontou.

Enquanto isso…
Em sua pesquisa, Luciana também analisou os pedidos de suspensão de decisões judiciais solicitados pelo governador paulista ao Tribunal de Justiça. O resultado impressiona: em 100% dos casos, quando o governador pedia a aplicação do teto constitucional, o pedido foi recusado. Por outro lado, 82% dos pedidos relativos à licitações e contratos públicos foram atendidos, assim como 87% dos pedidos relativos à privação de liberdade, leia-se pedidos da Fundação Casa ou do sistema prisional.

Em 13 dos 15 processos que trataram de temas relacionados à privação de liberdade os efeitos das de primeira instância foram suspensos a pedido do Governo do Estado”, destaca. A justificativa na solicitação da suspensão de direitos aos presos? “Há um prejuízo público em fazer um gasto público não previsto no orçamento original”. E isso acontece, destaca a advogada, “mesmo que o Tribunal fique com 21% de toda complementação orçamentária de São Paulo”.

São casos, por exemplo, de observância do Estado da Criança e do Adolescente relativos à superlotação e problemas com os banheiros e ventilação na Fundação Casa; de instalação de equipe mínima de saúde em unidade prisional  onde 60 pessoas haviam morrido por questões de saúde; de interrupção de novos presos e transferência dos que ali estavam por conta de condições de insalubridade nas carceragens; de superlotação e até de garantia de banho em temperatura adequada.

Eu fico com complementação para garantir os benefícios corporativos, mas os presos não vão ter equipe mínima de saúde porque isso vai ser um rombo no orçamento não previsto”, destaca. Apontando que o aprisionamento em massa da população mais pobre é “regra do funcionamento da nossa Justiça”, Luciana analisou a escalada das prisões no Estado, sobretudo após a aprovação da Lei de Drogas, que fez com que a polícia continuasse prendendo as mesmas pessoas mas, agora, com penas mais longas.

Nos últimos dez anos houve um aumento dramático da população carcerária”, destaca, apontando também o aumento, cada vez maior, de assassinatos por policiais em São Paulo. Uma média de 2,3 pessoas oficialmente mortas por dia, em 2015, pelas polícias do Estado de São Paulo.

Lembrando que a Constituição de 1988 garante que o controle externo das polícias compete ao Ministério Público e que as policias – civil e militar – estão sob a gestão da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, Luciana alertou para o fato de “estarmos no sétimo secretário da SSP que é promotor de Justiça”, ou seja, “o MP que devia fazer a fiscalização passou a ser o gestor da polícia”.

O que resulta disso é dramático: em 90% dos casos de letalidade cometida por policial, o MP pede arquivamento dos processos que é concedido pelo Tribunal de Justiça ou pelo Judiciário de primeira instância. Soma-se a isso a “seletividade racial, territorial e social do controle estatal exercido por meio do direito penal”.

Atuando sobretudo nas periferias, as prisões cometidas pela PM se dão sem nenhum controle. “Os flagrantes quase invariavelmente são convertidos em penas de prisão” e a PM, em geral, atua como única testemunha nestes casos, sem que a alegação policial no momento da prisão passe por algum tipo de revisão. “A categorização ou é mantida ou agravada até o momento de fixação da pena. Tudo só vai piorando para as pessoas que são presas nestas condições”.

*  Com a experiência profissional de quatro anos na Ouvidora Externa da Defensoria Pública do Estado de São Paulo e sete anos na coordenação do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDD), ela se debruçou sobre a dinâmica das relações entre o governo paulista e as instituições de Justiça – Tribunal de Justiça (TJSP), Ministério Público (MPSP) e Defensoria Pública (DPESP) – do Estado de São Paulo.

Fonte: Blog do AFR

 

46 mil é o salário médio dos Promotores paulistas

Para o corregedor nacional do Ministério Público, a falta de reajuste periódico de subsídio fomenta a criação de penduricalhos

Gratificações, auxílios e indenizações pagos a membros do Ministério Público de São Paulo fizeram com que 97% deles recebessem, em 2015, vencimentos acima do teto do funcionalismo público, estipulado em R$ 33,7 mil. O dado é de pesquisa realizada na Fundação Getulio Vargas de São Paulo pela pesquisadora e advogada Luciana Zaffalon. Chamadas informalmente de “penduricalhos”, essas verbas são previstas em lei ou em decisões judiciais. Na prática elevam vencimentos da categoria muito acima do limite constitucional.

Parte desses pagamentos é alvo de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) da PGR (Procuradoria-Geral da República).

A ADI questiona o pagamento de indenizações por atividades consideradas próprias da carreira, como plantões e juizados especiais. Em nota, a PGR informou que a ADI também contesta lei que permite ao procurador-geral de Justiça do Estado prover gratificações por meio de ato administrativo.

De acordo com a Constituição da República, subsídios e vantagens de agentes públicos devem, em regra, ser definidos por lei, não por atos administrativos“, diz a nota da PGR, que moveu ações contra a Promotoria de Santa Catarina e o Judiciário do Mato Grosso por pagamentos considerados abusivos.

Em manifestação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral de Justiça, Gianpaolo Smanio, argumentou que as gratificações são constitucionais e remuneram atividades extraordinárias. O ministro Ricardo Lewandowski, relator da ação no STF, rejeitou o pedido de liminar da PGR para a suspensão desses pagamentos, mas deu sequência à ação “devido à relevância da matéria e o seu especial significado para a ordem social e a segurança jurídica”. Em 31 de março, o ministro requereu informações a Smanio e à Assembleia Legislativa.

Além da ADI, a Promotoria paulista é objeto de investigação do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

A partir de denúncia, corregedores analisaram se o regime de distribuição de processos nas procuradorias de Justiça é automático, como deveria ser. Mudanças nesse regime poderiam gerar acúmulo de processos, o que demandaria mutirões, quando promotores recebem diárias extras pelo serviço. O resultado da investigação do CNMP sai em maio.

O corregedor nacional do Ministério Público, Cláudio Portela, diz que o pagamento de diárias não poderia ser responsável pelo volume de vencimentos acima do teto apontado pela FGV.

Ele afirma que indenizações, em geral, “buscam dar uma melhorada no salário” da categoria. Para Portela, a falta de reajuste periódico de subsídio fomenta a prática. “Criam esses monstrinhos, que dificultam o entendimento [da remuneração da categoria].”

A rubrica “Vantagens”, por exemplo, presente em quase todas as faixas salariais, foi classificada, em nota enviada à reportagem pelo Ministério Público de São Paulo, como “situações personalíssimas de vantagens que o membro já recebia antes de 2003”, ano em que foi estabelecido o teto dos funcionários públicos.

Em “Outras Indenizações” está o pagamento de “férias indeferidas por absoluta necessidade do serviço“. Os membros da Promotoria paulista têm direito a duas férias por ano, além do recesso de 20 dias na virada do ano.

Há ainda auxílio-moradia até para proprietários de imóveis na comarca de atuação.

Fonte: Folha de São Paulo

LEGALIDADE

Norma Cavalcanti, presidente da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público, diz que essas verbas “são legais e reconhecidas pelos governos dos Estados e pelo STF”. “Enquanto a lei não for declarada inconstitucional, tem de ser cumprida”, diz.

Segundo o artigo 37 da Constituição, nenhum servidor federal ou ocupante de cargo eletivo pode receber remuneração superior à dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Na redação atual do artigo, verbas indenizatórias não são contadas dentro deste limite.

Desde novembro de 2016 tramita no Senado Federal a Proposta de Emenda Constitucional 63, que inclui verbas indenizatórias no cômputo da remuneração até o teto.

Segundo o senador José Aníbal (PSDB-SP), que apresentou a proposta, a fórmula atual é a “senha” para a criação de benefícios “falsamente indenizatórios” que contornam a proibição de remuneração acima do teto.

OUTRO LADO

O Ministério Público de São Paulo afirmou em nota que nenhum membro recebe vencimentos acima do teto constitucional. O texto informa que pagamentos indenizatórios reembolsam despesas de promotores no cumprimento da função e, por isso, não constituiriam remuneração.

Sobre a ação em que a PGR questiona a natureza de indenizações pagas, além do mecanismo pelo qual elas são definidas pelo próprio Procurador-Geral de Justiça, o Ministério Público destacou que o pedido de liminar para interromper esses pagamentos foi negado pelo ministro Ricardo Lewandowski.

Segundo a nota, isso indicaria que “a tese do ilustre chefe do Ministério Público da União não procede”. A ação será votada em plenário pelo tribunal.

O órgão também afirma que o modelo de distribuição de processos às procuradorias, objeto de investigação, segue o critério constitucional que prevê o repasse automático e imediato dos casos.

Fonte: Folha

Supersalários do MP de S.Paulo. Direito ou privilégio?

Vale-livro, auxílio-moradia e supersalários somam até R$ 130 mil por mês

Em setembro, o governo de São Paulo encaminhou para a Assembleia Legislativa do Estado a proposta de orçamento do Ministério Público (MP) para 2017. A previsão é destinar R$ 2,3 bilhões para manter funcionando a estrutura criada para defender os direitos dos cidadãos paulistas. Um orçamento três vezes maior do que o previsto para a Secretaria de Cultura e o dobro do que será destinado para pastas como Agricultura, Meio Ambiente ou Habitação. É com esse dinheiro que o MP vai cobrir gastos com água, luz, telefone, salários – e os polpudos benefícios destinados a procuradores e promotores.

A remuneração inicial de um promotor público em São Paulo é de R$ 24.818,71. Na última etapa da carreira, o procurador de justiça, o salário chega a R$ 30.471,11. São valores que seguem o teto constitucional: promotores e procuradores paulistas recebem, no máximo, 90,25% do salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Mas os vencimentos não terminam por aí. Somam-se benefícios como vale-alimentação, auxílio-moradia, auxílio-livro, auxílio-funeral, pagamento de diárias, remunerações retroativas, duas férias anuais. A Lei Orgânica do Ministério Público de São Paulo, de 1993, prevê 16 auxílios extras que, apesar de serem considerados legais, ajudam a ultrapassar, em muito, o teto constitucional.

As informações sobre os rendimentos dos membros do MP estão disponíveis no Portal da Transparência. Veja abaixo a lista dos 20 membros mais bem pagos do MP paulista em outubro:

Na prática, dos 2015 membros do MPSP que receberam salário em outubro, 1243 receberam a partir de R$ 38.900, ou seja,  61,7% do total. É um valor acima dos R$ 33.763 pagos aos ministros do STF, mais os extras. Se prosperar o entendimento de que “teto é teto” e os “extras” não deveriam estar nem na conta dos ministros do Supremo, a proporção de promotores e procuradores que receberam acima do teto constitucional sobe para 79,8%. Foram 1.608 promotores e procuradores que receberam mais do que o salário teto de R$ 33.736.

A Comissão foi instalada, em novembro, no Congresso Nacional, para propor um fim aos “supersalários” de funcionários públicos.

A folha de pagamento do MPSP de outubro é repleta de exemplos de “supersalários”. Naquele mês o promotor de justiça de entrância final Milton Theodoro Filho, lotado na capital, recebeu o maior valor da folha: R$ 129.469,78. Foram R$ 28.947,55 de salário bruto (sem descontar a contribuição previdenciária e o imposto de renda) e R$ 89.979,35 de indenizações (incluídos R$ 5.087,73 auxílio-moradia e vale-alimentação). Além disso, há mais R$ 9.179,62 de valores retroativos da Parcela Autônoma de Equivalência (PAE), resultado de uma decisão de 1992 do Supremo Tribunal Federal (STF) que equipara os salários do Judiciário com os do Congresso Nacional.

No mesmo mês, o promotor Julio César Palhares, que serve em Bauru, no interior paulista, recebeu R$ 118.480,60. Desse montante, R$ 28.947,55 referem-se ao salário bruto, R$ 82.281,19 a indenizações não discriminadas, à exceção de R$ 5.087,73 de auxílio-moradia e vale-alimentação.

Orlando Bastos Filho, promotor em Sorocaba, foi o terceiro membro com maiores vencimentos no mês, recebendo R$ 107.025 brutos. Nesse valor estão incluídos R$ 64.901,22 de indenizações não discriminadas e R$ 7.864,41 retroativos da PAE. Em 2015, Bastos Filho acirrou os ânimos dos vereadores do município ao iniciar uma investigação sobre seus gastos com despesas de telefone, carro oficial e itens de escritório.

O professor de ética e filosofia política na Unicamp Roberto Romano estuda o poder Judiciário e defende o papel do MP como instituição de garantia da democracia brasileira. Mas critica: “Eu acho que o Ministério Público, justamente porque é o zelador da lei, o fiscal da aplicação da lei, deveria renunciar a esse tipo de acréscimo ao seu salário, sobretudo porque não corresponde à experiência de todos os demais funcionários do estado”.

Para Antônio Alberto Machado, promotor aposentado, as altas remunerações do MP estão diretamente associadas a práticas conservadoras: “As carreiras jurídicas, em geral, se tornaram muito atrativas de algumas décadas para cá. Há 40 anos não era assim. Isso fez com que os membros dessas carreiras tivessem um padrão remuneratório equivalente ao que a gente chama de classe A. A leitura que eu faço é que essas carreiras jurídicas estão ‘sitiadas’. Foram tomadas por essas classes média, média alta, classe alta que têm um valor de mundo conservador e que estão julgando as classes de baixo”.

Promotores e procuradores têm a prerrogativa de legislar sobre os próprios vencimentos. Alguns dos valores e critérios para o pagamento de cada um desses extras são definidos por resoluções e atos normativos que cabem ao procurador-geral de justiça do estado. Foi um ato normativo de 2003 que definiu, por exemplo, que o valor de uma diária corresponde a 1/30 do salário bruto de um promotor em início de carreira. Em 2016, corresponde a R$ 827,30. O valor extra é pago quando o promotor tem de substituir um colega de trabalho.

Um ato normativo de 2014 definiu que promotores e procuradores cedidos para outros órgãos continuam tendo direito a receber o auxílio-moradia. Trata-se de um complemento à lei orgânica que já garante que membros do MP que se afastem do cargo para ocupar cargos eletivos, por exemplo, possam continuar recebendo os vencimentos do órgão se abrirem mão do outro salário. É o que garante ao deputado Fernando Capez continuar na folha de pagamento do MP. A troca vale a pena. Enquanto um deputado estadual tem remuneração de R$ 25.322,25, os vencimentos de Capez em outubro chegaram a R$ 40.497. Como secretários do governo de São Paulo, os procuradores Mágino Barbosa e Elias Rosa receberiam R$ 19.467,94. Porém, ao manterem os salários do MP, eles receberam, em outubro, respectivamente R$ 56.911,63 e R$ 47.685,94.

Auxílio-moradia

O maior benefício é o auxílio-moradia, no valor de R$ 4.377 mensais. A ajuda financeira foi autorizada por meio de liminar do ministro do STF Luiz Fux em setembro de 2014 e se estende a membros da magistratura e dos ministérios públicos de todo o país. À diferença do que ocorre com todos os outros funcionários públicos – até mesmo dos congressistas –, o benefício se destina também para quem tem residência própria e vive na mesma cidade em que atua. Ficam de fora apenas aposentados e licenciados.

Segundo a folha de pagamento de outubro de 2016, disponível no Portal da Transparência do MPSP, dos 2.084 promotores e procuradores públicos na ativa, pelo menos 1.593 recebem o auxílio (76%). O custo anual para os cofres públicos é de aproximadamente R$ 69,7 milhões. O valor daria para atender mais de 14 mil famílias com o programa Auxílio-Aluguel da prefeitura de São Paulo, de R$ 400 mensais.

Mas a despesa não fica por aí. O adicional foi tratado como retroativo pelo ministro Luiz Fux. Assim, promotores e procuradores tiveram direito a receber os “atrasados” dos cinco anos anteriores à liminar, ou seja, desde 2009. Para a maioria da classe, isso significou uma bolada de mais de R$ 262 mil que vem sendo paga em parcelas regulares desde então.

Outro auxílio que ajuda a compor o orçamento anual dos promotores é o auxílio-livro. Uma ajuda extra de até R$ 1.700 por ano, criada em 2010 com o objetivo de garantir a atualização técnica dos promotores e procuradores.

Entre 2010 e 2013, o advogado Rodrigo Xande Nunes trabalhou como oficial de Promotoria dentro do MP, cuja tarefa era solicitar verbas indenizatórias para os promotores e procuradores que assessora. “Bastava o promotor apresentar uma nota fiscal de qualquer livraria com a descrição ‘livro’ para assegurar o reembolso. Vi livros de doutrina jurídica que iam parar nas mãos de sobrinhos do promotor que estavam cursando faculdade de direito, ou romances virarem presentes de aniversário”, lembra.

Depois de ter deixado o cargo de oficial de Promotoria, Rodrigo Xande seguiu carreira como advogado. É justamente por estar do lado de fora que ele se dispõe a falar o que pensa sobre os benefícios, que acredita afastarem a categoria da realidade dos brasileiros: “É impossível garantir direitos para quem vive cercado de tantos privilégios”, argumenta.

Uma das instituições mais aguerridas na defesa de benefícios é a Associação Paulista do Ministério Público (APMP). O escritório da associação ocupa o 11º andar da sede do MPSP e é presidida pelo ex-candidato a procurador-geral Felipe Locke. Procurado pela Pública, ele não concedeu entrevista para a reportagem.

O presidente da APMP tem, no entanto, se posicionado publicamente sobre o tema. Segundo texto publicado na página da associação em outubro, sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 62 que derruba a vinculação automática dos salários de agentes públicos à remuneração dos ministros do Supremo, ele escreveu: “Sem recursos nossas instituições não funcionam e sem Ministério Público e a Magistratura, corrupto não vai para a cadeia. Esses projetos têm o mesmo objetivo da PEC 37 [proposta derrubada pelo Congresso que propunha limites ao poder de investigação de promotores e procuradores], acabar com o poder de investigação, deixando os corruptos à solta”.

Ao mesmo tempo em que a APMP faz campanha contra a PEC 62, também exerce pressão pela aprovação do Projeto de Lei Complementar (PLC) 27, que eleva os salários dos ministros do Supremo para R$ 39,2 mil em janeiro de 2017. Mas nestes tempos em que o governo federal fala em limitar gastos públicos, a luta corporativa da APMP ficou mais difícil.

Mais direitos

Agora, a nova demanda da classe é garantir ainda mais benefícios.

A Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) discute, em regime de urgência, o pagamento de planos de saúde de caráter vitalício para os membros do MPSP. O PLC 52/15  foi apresentado pelo então procurador-geral Márcio Elias Rosa e acolhido pelo então recém-eleito presidente da Alesp e promotor afastado Fernando Capez. O PLC 52 já foi aprovado pelas Comissões de Constituição e Justiça e de Finanças, Orçamento e Planejamento e está pronto para ser votado pelo plenário desde dezembro de 2015.

plc52-2015-mp

 Fonte: BLog d o AFR

Mais de 90% dos magistrados do Rio receberam acima do teto em março

O salário mais alto foi da diretora de um Fórum, que faturou R$ 129.253 mil

Foto:  Angelo Antônio Duarte / Arquivo Agência O Dia

Oitocentos e quarenta e três juízes e desembargadores do Rio de Janeiro receberam vencimentos superiores ao teto constitucional no mês de março. Trinta e quatro ganharam mais de R$ 80 mil. O salário mais alto foi da diretora de um Fórum, que faturou R$ 129.253 mil. Dois meses antes, em janeiro, o contra-cheque de um juiz chegou a registrar R$ 241 mil.

Ao todo, dos 871 magistrados do estado, apenas 28 não ultrapassaram, em março, o limite de R$ 33.763, valor determinado pela Constituição Federal para o pagamento da categoria e que corresponde a cerca de 90% dos rendimentos de cada ministro do Supremo Tribunal Federal.

Só em março, a folha de pagamento de juízes e desembargadores totalizou R$ 39.620.635,75, o que corresponde a 50.279 salários mínimos. Outra comparação que ajuda a dimensionar o peso dos supersalários para o Erário mostra que o gasto de março com os juízes é superior ao valor total do custeio mensal da UFRJ. A maior universidade federal do Brasil desembolsa R$ 36,5 milhões por mês para manter toda sua infra-estrutura — seu orçamento anual é de R$ 438 milhões.

Os dados são de levantamento feito pelo DIA  nas folhas de pagamento do Tribunal de Justiça. A pesquisa se concentrou nos três primeiros meses de 2015 e mostra que os ganhos não são eventuais. Em todos os meses pesquisados, 90% dos vencimentos ultrapassaram o teto. A reportagem optou por não revelar os nomes dos juízes, mas os valores dos rendimentos são públicos de acordo com a Lei de Acesso a Informação.

Penduricalhos

Oficialmente o salário de um juiz gira em torno de R$ 27.500, mas há uma prática sistemática de agregar aos vencimentos uma série de benefícios que, somados turbinam os ganhos. Em março, a recordista dessa prática recebeu R$ 92.503 em ‘vantagens eventuais’. São benefícios como a venda de férias, bonificação por dar aulas, abono de permanência, licença, acúmulo de cargos e auxílio moradia.

Veja os salários

A magistrada também ganhou R$ 9.232 das chamadas ‘indenizações’ — elas financiam transporte, mudança, alimentação e moradia — todo mês, os juízes, independentemente de onde moram e trabalham, recebem R$ 4.300 de auxílio-moradia.

Para o diretor do Sindicato dos Servidores do Tribunal, Alzimar Andrade, os magistrados ganharem acima do teto prejudica a imagem do TJ perante à população. “Há uma discrepância enorme entre o salário dos juízes e dos servidores. Nenhum servidor ganha nem perto disso. O orçamento é o mesmo, e os magistrados abocanham boa parte dele”, disse Alzimar. Segundo ele, a média salarial do servidor do TJ é R$ 4 mil.

Para o ex-presidente da OAB-RJ, deputado Wadih Damous (PT), os salários dos magistrados são inconstitucionais. “Desde a época da OAB, eu denunciava isso. Estes penduricalhos são usados para extrapolar o teto”, afirma o advogado. “O teto constitucional deve ser respeitado e os juízes do Rio, não respeitam. Isso passa uma péssima impressão para o cidadão comum, que tem um nível de salário muito abaixo dos juízes”, pondera Wadih.

Outro lado

Por meio de sua assessoria de imprensa, o Tribunal de informou que os rendimentos não são ilegais, já que os aditivos estão previstos em lei (leia matéria ao lado). O TJ afirma que um dos benefícios que mais pesa no orçamento, a acumulação de cargos, ocorre em função do déficit de cerca de 100 juízes.

Novos ganhos: vale locomoção 

O Tribunal de Justiça do Rio aprovou no final de abril mais um benefício para os juízes: o auxílio-locomoção. Ele será válido para todos os juízes, independentemente de onde trabalham ou moram. Segundo a assessoria de imprensa do Tribunal, ainda não há valor estipulado para benefício, nem quando ele começará a valer.

Porém, fontes que participaram da reuinão garantem que ele deve girar em torno de R$ 1 mil. Na última segunda-feira, o governador Luiz Fernando Pezão sancionou uma lei aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) que garantiu o auxílio-educação de até R$ 2.860,41 para juízes e funcionários do TJ custearem a educação dos filhos entre 8 e 24 anos (R$ 953,47 por cada um).

O custo da medida é estimado em R$ 130 milhões anuais, pagos pelo Fundo Especial do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ).

OAB condena supersalários do Judiciário

O presidente da OAB-RJ, Felipe Santa Cruz, criticou os valores altos dos salários dos magistrados. Ele afirma que os supersalários e benefícios acima do teto atingem a população dependente da Justiça.

“Eles impactam limitando a expansão do Judiciário no Estado, principalmente na área mais sensível para a sociedade: na primeira instância, que vive sucateada pela falta de estrutura, de juízes e de serventuários”.

O presidente da OAB também afirmou que “as remunerações distorcidas”, que colocam o Tribunal de Justiça no teto da Lei de Responsabilidade, esgotam as fontes pagadoras e reduzem investimentos.

“Quantos mais gastos em auxílio, menos será destinado para a melhoria da estrutura na primeira instância, gerando grande carência ao cidadão fluminense”, disse.

TCE criticou ganhos no TJ

Mutos dos benefícios que compõem os supersalários do Judiciário do Rio de Janeiro não estão previstos na Lei Orgânica Nacional da Magistratura, que trata da organização do Poder Judiciário. Eles são possíveis graças uma lei estadual aprovada pela Assembleia Legislativa (Alerj) e sancionada pelo então governador Sérgio Cabral. Uma das possibilidades da lei é vender as férias, já que os juízes tem direito a tirar 60 dias por ano. Outro penduricalho são bonificações por acumular cargos e por desempenhar funções de chefia no Tribunal.

Estes tipos de bonificações em forma de indenizações já foram proibidos pelo Conselho Nacional de Justiça, através de resolução. A lei estadual também já foi questionada pela Procuradoria Geral da República, que entrou com uma ação de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal. Relator do processo, o ex-ministro Carlos Ayres Britto votou pela inconstitucionalidade, mas o ministro e ex-desembargador do Rio, Luiz Fux, pediu vista em 2012 e caso ainda não foi julgado.

Na semana passada, o DIA revelou que uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE) constatou que 17 desembargadores e juízes do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro receberam indevidamente salários acima do limite

 

Fonte: O Dia

 

Promotores e procuradores querem também a extensão do auxílio-moradia para seus colegas aposentados. Em outubro de 2015, o Colégio de Aposentados da APMP reiterou o pedido que já vem sendo feito desde 2013 à Procuradoria-Geral, apelando para o princípio da simetria para justificar a ampliação da benesse.

Privilégio nos detalhes

Em novembro de 2015, o MPSP fechou um contrato para o fornecimento de copinhos de água mineral para a instituição. Ao custo de R$ 71.724, garantiu o fornecimento de 11.904 copinhos de 200 ml com água mineral por mês, durante um ano. Porém, o produto é usado para a hidratação apenas de parte dos servidores, os promotores e procuradores. A regra, em vigor desde 2011, ganhou forma em um comunicado interno da diretoria geral do órgão.

copo-de-aguaAs diferenciações são tão grandes que os “outros” funcionários costumam brincar que, se uma pessoa do século 19 pudesse viajar no tempo, o lugar que se sentiria mais à vontade seria o MPSP. “Eu já cheguei a falar para um procurador que a época da escravidão passou, que a ditadura também passou. Tem membro [do MPSP] que, se pudesse colocar o servidor no tronco e dar um surra, ele faria isso”, critica Jacira Costa Silva, oficial de promotoria desde 1989 e presidente do Sindicato dos Servidores do MPSP. A sindicalista enumera situações em que funcionários tiveram de lavar carros e até pagar contas pessoais dos promotores.

Levantamento mostra que juízes ganham o dobro do salário de ministros do STF

Os deputados federais receberam, no sábado (8/8) uma espécie de levantamento de membros de carreiras jurídicas cujas remunerações ultrapassam, e muito, o teto remuneratório do serviço público. São juízes federais e procuradores da República que chegam a receber mais de R$ 60 mil, contados, além do salário, os benefícios que recebem sob a cifra de indenização em decorrência do serviço.

De acordo com o texto, intitulado O Teto virou Piso, “juízes e membros do Ministério Público recebem remunerações estratosféricas”. Pelo que diz o artigo 37 da Constituição Federal, os funcionários públicos devem ser remunerados em parcela única, sempre limitados ao salário do ministro do Supremo Tribunal Federal, hoje em R$ 37,4 mil.

No entanto, segundo o autor do texto, o procurador federal Carlos André Studart Pereira, que escreveu a pedido da Associação Nacional dos Procuradores Federais (Anpaf), essas verbas têm sido pagas de maneira disfarçada, como se fossem indenizações — e por isso não estariam sujeitas à parcela única ou ao teto remuneratório. “Foram criadas várias espécies de auxílios: auxílio-livro, auxílio-saúde, auxílio-educação, auxílio-transporte, auxílio-táxi etc”, diz o procurador. No Senado, o texto foi enviado a Fernando Collor (PTB-AL).

De acordo com o levantamento feito pelo procurador, alguns casos destoam mais que outros. Há o juiz federal em Curitiba que, em determinado mês, recebeu R$ 64 mil, contando salário, auxílios e benefícios. Outro, levou R$ 73 mil. Outro, afastado da jurisdição, nesse mesmo mês ganhou R$ 52,5 mil.

No caso do Ministério Público Federal, há procuradores com remunerações de R$ 48 mil. Outros, com atuação em segundo grau, que ganham quase R$ 65 mil por mês.

Além de um alerta ao Congresso, o texto de Studart é uma defesa da PEC 443, que vincula o salário dos advogados da União e procuradores federais ao do ministro do STF. Ele afirma que o MP consegue os benefícios “com o poder e a influência que tem”, e o Judiciário, “invocando a simetria”, também consegue. “A advocacia pública tenta, mas sem a necessária autonomia é difícil conseguir algo eficaz”, afirma. “Quem sobra? Ora, o Poder Legislativo.”

Fora da lei
É uma discussão jurídica de efeitos práticos. Remuneração de servidor público depende de lei, sempre de iniciativa do chefe do poder em questão. Já verbas indenizatórias independem de lei. Basta que haja “situação jurídica merecedora de reparação, com base no poder da autotutela”, conforme explica artigo da procuradora federal Marina Fontoura de Andrade.

Nessas situações jurídicas estariam a necessidade de benefício para pagar transporte, para comprar livros e estudar matérias relacionadas à atividade-fim do juiz ou do procurador e até para andar de táxi, já que determinada vara não tem carro oficial.

“A mais nova benesse” relatada pelo procurador federal é a “gratificação por exercício cumulativo de função” para juízes federais. Criado pela Lei 13.093/2015, o benefício é concedido a juízes que acumulam funções, como a de titular e substituto de uma vara, ou varas eleitorais.

Esse benefício é de um terço do salário do juiz, limitados a cada 30 dias de acúmulo de funções. De acordo com a Resolução 341/15, do Conselho da Justiça Federal, que regulamenta a lei, no entanto, quando esse acúmulo de jurisdição ultrapassar os 30 dias, esses dias serão remunerados com folgas, que obedecem ao teto de 15 dias e não podem ser vendidas. “O que deveria ser vantagem eventual — a ser gozada nas férias e demais afastamentos do colega — degenerou-se em aumento salarial”, diz o texto de Studart, citando artigo do colega Luciano Rolim.

Fator estoque
Studart também aponta que a regra do CJF determina que os juízes federais têm um “limite” de acervo de mil processos, mais um “limite” de mil processos novos por ano. Passando disso, o acervo será dividido com outro juiz sempre que o número chegar a múltiplos de mil.

Considerando que em 2010 foram 5,9 milhões de processos para 1,7 mil juízes federais, segundo o CJF, todos eles têm, em tese, direito à redistribuição de seus trabalhos.

Pedro Canário é editor da revista Consultor Jurídico em Brasília.

 

Fonte: Consultor Jurídico

Mongólia apresenta crescimento econômico

12/12/2016

Mongólia tem crescimento recorde seguido de crise econômica

Quedas no consumo da China e nos preços das commodities afetaram combate à pobreza

    A crise econômica fez do combate à pobreza um dos principais desafios da Mongólia. A bonança do mercado internacional e os altos preços das commodities nos anos 2000 permitiram um alívio das desigualdades, enquanto o país registrava a maior taxa de crescimento do planeta: 17,5% em 2011 — percentual de fazer inveja à China. Mas se o índice de pobreza caiu de 38,8% da população em 2010 para 21,6% em 2014, cerca de 20% dos mongóis ainda vivem com menos de US$ 1,25 por dia.

    O problema é que os preços das matérias-primas despencaram, a demanda da China, seu maior comprador, caiu, o país continua dependente de energia da Rússia e não consegue destravar as negociações sobre os contratos de exploração da mineração — atividade que, sozinha, carrega 20% da economia nas costas. Este ano, o comparecimento às urnas foi recorde (72%). O voto de protesto levou o Partido do Povo da Mongólia (PMM), o mais antigo do país, de volta ao poder depois de quatro anos na oposição. E pela primeira vez desde 2000 com maioria absoluta, sem a necessidade formar coalizões.

    Entre Rússia e China, a Mongólia usa a conhecida política do “terceiro vizinho” para contrabalançar o peso das fronteiras. Aproximou-se dos EUA, com quem tem uma aliança militar. Os americanos têm sido um importante aliado, mas a eleição de Donald Trump pode afetar a estratégia mongol. Professora da Escola de Relações Internacionais da Universidade Nacional da Mongólia, Oyunsuren Damdinsuren afirmou que existe uma grande preocupação sobre como o presidente eleito conduzirá a política externa.

    — Temos um bom relacionamento, embora os EUA não tenham investimentos significativos na Mongólia e o comércio exterior seja mínimo.

    Para o especialista da King’s College Kerry Brown, não restam alternativas. O país depende da Rússia e da China para ter liberdade de acesso, ambos mais importantes para o país do que vice-versa. Já foi um aliado importante da Rússia e uma espécie de para-choque contra a China.

    — Não estão entre as prioridades dos EUA. A China tem hoje mais interesses na Ásia Central e na Ásia do Pacífico, onde há disputas sobre o Mar do Sul da China.

    O professor explica que todos os países da Ásia fazem o mesmo jogo do “terceiro vizinho”. O problema é que a Mongólia acaba com os vizinhos de sempre. (V.O.)

    Fonte: O Globo

    Depois de Dilma, crise política no Governo Temer

    26/11/2016

     

    Líder do PCdoB defende saída de Temer e eleições diretas

     
    Agência Câmara

    Para Daniel Almeida, Temer deve deixar o povo escolher o novo presidente em eleição direta.

    Para Daniel Almeida, Temer deve deixar o povo escolher o novo presidente em eleição direta.
    Conterrâneo de Geddel, Daniel comentou que as artimanhas do agora ex-ministro são conhecidas há tempos pelos baianos. No cenário nacional, o então deputado federal Geddel ficou conhecido como um dos anões do orçamento. Em 1993, a CPI dos Anões do Orçamento investigou 37 parlamentares por envolvimento em esquemas de fraudes na Comissão de Orçamento do Congresso Nacional. Os envolvidos roubaram mais de R$ 100 milhões públicos, com esquemas de propina, para favorecer governadores, ministros, senadores e deputados. O desvio era feito de emendas do Orçamento da União para entidades fantasmas.

    “Fica claro que este governo está inviabilizado”

    Para Daniel, as denúncias que pairam sobre Geddel, Padilha e Michel Temer são tão graves que podem tirar o próprio presidente da república. “O momento é de uma reflexão profunda para sanar uma crise que já é institucional e devolver à soberania popular para a decisão em relação à presidência da república”.

    Eleições diretas

    O deputado comunista recomendou que o presidente Temer tome a decisão de sair do governo para permitir que o povo possa voltar a se posicionar sobre a presidência da república. “Em nome das forças democráticas do país vamos nos mobilizar para resgatar o processo democrático brasileiro. Temer não tem condições de liderar este processo”, destacou Daniel.

    Crime de responsabilidade

    Para a deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) todo esse imbróglio escandaloso mostra as entranhas e os métodos deste governo ilegítimo que comete crime de responsabilidade.

    “A demissão do Geddel é uma tentativa de salvar o presidente Temer que está completamente implicado com a circunstância e comete crime de responsabilidade, colocando o Brasil nessa insegurança jurídica cotidiana. Lamentavelmente, o Brasil está achincalhado nos ambientes internacionais e encontra-se, neste momento, envolvido em um processo ilegítimo e desmoralizante na política, destacou a deputada.

    “Espero que esta lição sirva de estímulo ao povo nas ruas para pedir eleições diretas e o impeachment do Temer”.

    “Está chegada a hora do Brasil voltar à legalidade democrática. Não vamos permitir que esse período de ilegitimidade seja estendido no Brasil”, afirma.

     
     
     
     

     

    Devido à turbulência política em torno da saída do ministro Geddel Vieira Lima do governo, hoje (25), parlamentares da oposição se preparam para pedir o adiamento, na próxima semana, da votação em primeiro turno, no plenário do Senado, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55, que congela os gastos públicos por 20 anos. A matéria está na pauta para terça-feira (29), mas a maior parte dos discursos desta tarde foi no sentido de convencer as bancadas de que não há clima no país para a votação.

    Geddel pediu exoneração do cargo durante a manhã depois de toda a repercussão sobre o caso envolvendo uso do cargo por ele, para proveitos pessoais referentes a um investimento imobiliário em Salvador. O empreendimento consistia na construção de um edifício no centro histórico da cidade que tinha sido negada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Na semana passada, Marcelo Calero pediu demissão do cargo de ministro da Cultura acusando o então então secretário de Governo de pressioná-lo para o Iphan liberar a construção.

    Ontem, foi divulgado que Calero afirmou, em depoimento à Polícia Federal que teria recebido também um pedido do próprio presidente Michel Temer para que encontrasse uma saída no sentido de liberar a obra, na qual Geddel tinha comprado um apartamento

    Em meio à confusão, que levou à queda do ministro, um dos principais defensores dessa possibilidade de adiamento da PEC, o líder da minoria na Casa, Lindbergh Farias (PT-RJ), argumentou que a saída de Geddel do governo não reduziu a crise pela qual passa o atual Executivo. E, diante da expectativa de pedidos de impeachment do presidente Michel Temer a serem protocolados a partir de segunda-feira (28), não considera possível a votação de uma matéria que vai interferir na vida dos brasileiros por duas décadas.

    “O episódio pode comprometer a votação da PEC. Temos caravanas de trabalhadores viajando até Brasília para acompanhar essa votação porque todos sabem da importância dessa matéria para a vida dos brasileiros. Queremos colocar a crise no meio da discussão. Não é para fazer mera oposição, mas porque achamos que se trata de um contrassenso discutir mudanças tão radicais para a economia do país num momento como esse”, disse Lindbergh.

    Desespero e culpa

    Para o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), a saída do ministro foi “uma demonstração desesperada de tirar o foco do presidente Michel Temer, porque a crise já invadiu a sala da presidência”. “A queda de Geddel foi uma tentativa de jogar carne aos leões para segurar o governo, além do reconhecimento de culpa e gravidade do fato ocorrido”, acrescentou.

    Na avaliação de Costa, o episódio caracteriza a existência do que ele chamou de “articulação de uma estrutura organizada para defender interesses privados”. “E isso caracteriza, sem dúvida, crime de responsabilidade”, destacou.

    Costa e a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) também defenderam o adiamento da votação da PEC. Segundo ambos, não há clima para a votação da matéria. “O governo perdeu todas as suas condições políticas de continuar e não permitiremos que seja votado um texto envolvendo tantas mudanças”, afirmou.

    Na Câmara, os oposicionistas também se manifestaram de forma firme e contrária à votação de qualquer medida de ajuste em meio à crise política do atual governo. A deputada Margarida Salomão (PT-MG) afirmou que com a saída de Geddel o Congresso precisa se dedicar, daqui por diante, a comprovar e ouvir a suposta gravação feita pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero de conversas com o presidente Michel Temer – na qual ele teria sido pressionado por Temer, conforme contou – para que sejam tomadas as devidas providências.

    O deputado Bohn Gass (PT-RS) afirmou que a queda do ministro “espelha com nitidez a verdadeira face imoral desse governo, que coloca o interesse pessoal e privado acima do público”. Bohn Gass disse que “não surpreende o fato de o governo Temer estar derretendo e que, em seis meses, seis ministros tenham caído ou sido derrubados”.

    Na visão do deputado, “quem dá sustentação a tudo isso são os demotucanos, que ainda não caíram porque, sabendo com quem lidavam, combinaram com seus amigos da grande mídia nativa uma blindagem prévia”.

    O deputado Pedro Uczai (PT-SC) lembrou da rejeição, esta semana, por integrantes da base aliada do governo, de dois requerimentos apresentados nas comissões de Cultura e Comissão de Fiscalização Financeira e Controle (CFFC) da Câmara, que pediam a ida de Geddel ao Congresso para se explicar. “Por que a base do governo evitou esses requerimentos? Provavelmente estavam querendo esconder alguma coisa”, ressaltou.

    Para Henrique Fontana (PT-RS), somente a renúncia de Michel Temer e novas eleições conseguiriam repactuar a democracia e “abrir caminho para solução dos problemas do país”.

    Apesar da mobilização dos parlamentares no sentido de avaliar a conduta dos integrantes do governo e, ao mesmo tempo, trabalhar pelo adiamento da votação das matérias previstas para a próxima semana, os integrantes da base aliada reforçaram o discurso de que uma questão não deve interferir em outra. “Temos votos suficientes para aprovar a PEC 55 e a tramitação dessas matérias deve andar em paralelo ao trabalho legislativo, porque nossa missão é ajudar o país e o andamento do nosso trabalho não deve parar”, afirmou o senador Paulo Bauer (PSDB-SC).

    Fonte: Portal Vermelho

    Crise no Brasil segue sem trégua

    26/11/2016

    ‘Você compra remédio ou comida’: as escolhas das famílias que vivem com um salário mínimo em SP

    Chefes de família que vivem em condições precárias contaram à BBC Brasil como se desdobram para fazer esse dinheiro render até o próximo mês.


    Felipe Souza, BBC, BBC Brasil, São Paulo

     

    O salário que Reginaldo dos Santos Santana recebe como auxiliar de limpeza é a única renda de sua família  (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)O salário que Reginaldo dos Santos Santana recebe como auxiliar de limpeza é a única renda de sua família  (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)

    O salário que Reginaldo dos Santos Santana recebe como auxiliar de limpeza é a única renda de sua família (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)

    Há certos meses em que Carlos e Odilene deixam de comprar sabonete. Moradores de uma ocupação, eles trocam o conforto da higiene por um pedaço de carne a mais no prato. Reginaldo e Rafaela não têm previsão para trocar o telhado quebrado do barraco em que vivem, na favela de Paraisópolis. Melhor aguentar as goteiras a deixar de alimentar seus três filhos. Renata enfrenta uma maratona diária: percorre quilômetros em busca de feiras e sacolões que vendam alimentos mais baratos para a produção de marmitex. É na diferença de centavos na batata ou no tomate que ela encontra o lucro para sustentar sozinha a família, composta por mais sete crianças, em um cortiço na região da Cracolândia.

    Essas são as escolhas diárias feitas por famílias que vivem com um salário mínimo, R$ 937, na cidade de São Paulo. Chefes de família contaram à BBC Brasil como se desdobram para esticar por 30 dias os rendimentos – e evitar ter que morar na rua.

    Uma pesquisa divulgada em julho deste ano pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) apontou que o salário mínimo para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 3.810,36. O montante é quatro vezes maior do que o valor atual do mínimo brasileiro.

    O levantamento considera os custos das necessidades básicas de uma família, como moradia, alimentação, educação, saúde e lazer. Para o Dieese, R$ 937 seria o valor mínimo para viver com dignidade em novembro de 1999. Logo, as três famílias ouvidas pela reportagem sofrem com uma defasagem de quase 20 anos no orçamento.

    Em uma condição financeira como essa, elas admitem que, por diversas vezes, não tiveram comida suficiente para todos na casa.

    Carlos e Odilene torcem para que o filho de 18 anos tenha um futuro diferente do deles e tenha sucesso profissional  (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)Carlos e Odilene torcem para que o filho de 18 anos tenha um futuro diferente do deles e tenha sucesso profissional  (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)

    Carlos e Odilene torcem para que o filho de 18 anos tenha um futuro diferente do deles e tenha sucesso profissional (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)

     

    Moradia

    Na favela de Paraisópolis, na Zona Sul, o barro engole o par de tênis do auxiliar de limpeza Reginaldo dos Santos Santana, de 28 anos, em seu trajeto até o ponto de ônibus. Um forte cheiro de esgoto preenche os becos da área.

    Em um barraco de dois andares feito com portas velhas, madeirites e restos de tábuas moram Reginaldo, a mulher, Rafaela, e os três filhos do casal, de 8, 5 e 2 anos. O imóvel é alugado por R$ 250, valor que abocanha mais de um quarto do salário de Reginaldo. Em dia de chuva na segunda maior favela de São Paulo, eles não dormem. O risco é o barraco desabar.

    “Quando chove um pouco forte, fica parecendo um chuveiro. Molha logo a cama. Mas não tem jeito. É morar aqui ou na rua”, diz Reginaldo.

    A falta de estrutura da casa não se limita aos problemas no telhado e nas paredes. Um grito agudo de Raianny, a filha de 5 anos do casal, anuncia que o banho começou no cômodo abaixo. O banheiro do barraco não tem chuveiro. Uma torneira acoplada na ponta de um cano à meia altura faz as vezes de uma ducha.

    A água gelada faz tremer o corpo magro da menina. “É só no primeiro minuto, logo ela se acostuma”, diz Rafaela, enquanto ensaboa a criança.

    Em uma ocupação a poucos quilômetros dali, o pedreiro Carlos Augusto Silva, de 43 anos, conta que ajudou a erguer 12 prédios de 23 andares, há três anos, em Interlagos, na Zona Sul. Depois de prontas, ele jamais entrou nas torres de alto padrão.

    “A gente entra com a mão de obra, mas não vale a pena para a gente. É como diz a música: ‘Está vendo aquele prédio? Eu ajudei a fazer, mas hoje não posso passar nem perto'”, diz Carlos.

    Cansado de viver no limite do orçamento, ele decidiu erguer um barraco com teto de lona, colocar um colchão dentro e morar.

    Renata com cinco de seus sete filhos, que cria vendendo marmitex na Cracolândia  (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)Renata com cinco de seus sete filhos, que cria vendendo marmitex na Cracolândia  (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)

    Renata com cinco de seus sete filhos, que cria vendendo marmitex na Cracolândia (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)

    A ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em um terreno na Zona Sul de São Paulo abriga 300 famílias. O objetivo de quem vive ali é aliviar o custo do aluguel e mostrar ao poder público que há espaços valiosos e ociosos na cidade. Em sua visão, ali seria um local ideal para a construção de moradias populares.

    A família, no entanto, não pode ficar reunida sob o teto de lona. O filho mais velho de Carlos e Odilene sofre de epilepsia e atraso mental, condição que forçou a mulher a largar sua ocupação como empregada doméstica para se dedicar aos cuidados dele.

    Por causa da doença, ele precisa de um ambiente mais adequado para viver, razão pela qual a família paga R$ 400 pelo aluguel de uma casa de dois cômodos na região, onde vivem a mãe e os dois filhos. Já Carlos passa a maior parte das noites no barraco da ocupação, algumas na companhia da mulher.

    O problema de saúde do filho garante uma pensão mensal no valor de um salário mínimo – a única renda segura com que a família pode contar.

    Como complemento, o pedreiro faz bicos em troca de R$ 100 por dia. Mas, em tempos de crise, ele chega a passar semanas em branco.

    A cerca de 22 quilômetros dali, no centro de São Paulo, a mão direita de Renata Moura Soares, de 34 anos, segura a mão do filho menor enquanto a esquerda mistura os temperos na panela para fazer uma macarronada. Sozinha, ela sustenta seus sete filhos – o mais velho de 20 anos, o mais novo de 1 – vendendo marmitex na região da Cracolândia.

    “(Meus clientes) são os usuários e quem trabalha lá dentro. Eu trabalho com vagabundo, com todo tipo de gente. Eu não escolho cliente. Eu não quero saber quem é. Não quero saber o que eles estão fazendo lá dentro. Eu quero saber que eu tenho que vender a minha comida e receber”, conta.

    Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, é vizinha de área nobre  (Foto: Felipe Souza/BBC Brasil)Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, é vizinha de área nobre  (Foto: Felipe Souza/BBC Brasil)

    Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, é vizinha de área nobre (Foto: Felipe Souza/BBC Brasil)

    Hoje, a família vive em um cortiço na região central da capital. A casa antiga, com fiação aparente, foi dividida em vários cômodos, dois deles ocupados pelos Soares. O banheiro, no entanto, é compartilhado com mais três famílias. Renata não reclama das condições do imóvel: é melhor do que dormir com as crianças na rua, como já aconteceu.

    Ela conhece a dona do imóvel e consegue alguma flexibilidade na cobrança do aluguel – que normalmente custaria R$ 400 mensais. O preço é acertado a depender do desempenho de venda de suas quentinhas – em um dia bom, ela chega a vender até 50 marmitex por R$ 15 cada.

    Mãe solteira, ela sempre teme não dar conta de chegar ao fim do mês abrigada.

    “Quem é mãe não merece pagar aluguel a vida inteira”, diz.

     

    Alimentação

     

    Quem vive com o orçamento contado tem uma preocupação urgente: garantir comida no prato por 30 dias. Para isso, as famílias desenvolvem estratégias.

    Reginaldo faz uma maratona semanal pelos supermercados da região de Paraisópolis, aproveitando as diferentes promoções de cada estabelecimento. Se a tarefa é bem sucedida, ele consegue manter os potes de arroz e feijão abastecidos. Se não, vai faltar.

    “Aí, eu peço (dinheiro) emprestado para uma vizinha. Se acaba de novo, eu pego com outra pessoa no mês seguinte para pagar a anterior e assim vai”, conta.

    Mas a fome teima em aparecer.

    Pedreiro diz que criar dois filhos com um salário mínimo é um jogo de escolhas: 'Você deixa de cortar o cabelo para comer' (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)Pedreiro diz que criar dois filhos com um salário mínimo é um jogo de escolhas: 'Você deixa de cortar o cabelo para comer' (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)

    Pedreiro diz que criar dois filhos com um salário mínimo é um jogo de escolhas: ‘Você deixa de cortar o cabelo para comer’ (Foto: Felix Lima/BBC Brasil)

    Rafaela, a mulher de Reginaldo, vai à feira todos os sábados para “fazer a xepa”, como é conhecida a prática de recolher e reaproveitar os alimentos descartados pelos feirantes.

    Ela espera as barracas serem desmontadas para selecionar, em meio a restos de caixotes e pilhas de frutas, verduras e legumes parcialmente estragados, o que servirá no almoço de sua família. “Dá vergonha, é muito ruim. Mas tem que fazer”, diz a dona de casa.

    O casal conta que fica abalado em datas comemorativas, como o Dia da Criança e Natal, quando seus filhos pedem presentes. Mas a noção de prioridade é vital na gestão financeira da família. “Em dia de festa, a gente compra ovo, salsicha e dá um pedacinho para cada um. Às vezes, eles comem até puro. Não ligam.”

    Se o feijão está escasso, Rafaela aumenta a quantidade de pão que a família come.

    Odilene, na ocupação, enfrenta racionamento semelhante. “A gente só compra o essencial: arroz e feijão. Mistura só de vez em quando”, conta, referindo-se a carnes, ovos ou legumes.

    A economista e supervisora de preços do Dieese Patrícia Lino Costa diz que a dificuldade que as famílias sentem no estômago se confirma nos números: São Paulo tem a segunda cesta básica mais cara do Brasil entre as capitais, perdendo apenas para Porto Alegre.

    “Com metade de um salário mínimo, hoje essas famílias compram uma cesta básica. Com a metade restante, tem que dar conta de todas as outras despesas”, diz Costa.

    O pedreiro Carlos define sua vida em uma ocupação na Zona Sul como um jogo de escolhas.

    “Você compra remédio ou comida. Às vezes, você deixa de cortar o cabelo para comer, deixa de comprar um sabonete para comer. Você deixa de tirar barba. Você sempre precisa cortar uma coisa para fazer a outra”, conta ele.

    A precariedade da ocupação é compensada pela certeza de que não passarão fome. Graças às doações recebidas, eles garantem três refeições diárias. “Aqui não acontece de ficar sem comida, mas em casa acontece. E não é raro”, diz Carlos.

    Renata faz um esforço ainda maior para enxugar gastos com alimentos – já que a produção de marmitas depende disso. O bairro de Campos Elíseos, onde ela vive com os sete filhos, tem um alto custo de vida.

    “Você tem que pesquisar, ir mais longe mesmo. Já chegou a faltar leite e açúcar em casa. Semana passada eu passei aperto porque não tinha dinheiro para comprar leite e fralda para o meu filho. Hoje, fui com R$ 200 fazer compras perto de casa e não consegui trazer quase nada”, contou.

    Descontando o dinheiro que usa para reabastecer seu estoque de mercadorias e embalagens para produzir marmitas, Renata conta que sobra menos de um salário mínimo.

    “Com esse dinheiro, ninguém consegue ter nada. A renda que você tem é o que você vai comendo. Não consigo comprar roupa, material escolar, remédios e ainda cortaram o Bolsa Família que eu recebia. Essa semana, meu bebê estava sem um sapatinho para usar e eu tive que tirar do dinheiro das mercadorias para comprar”, diz.

    Filhos de Renata brincam no corredor de cortiço onde moram no centro de SP  (Foto: Felipe Souza/BBC Brasil)Filhos de Renata brincam no corredor de cortiço onde moram no centro de SP  (Foto: Felipe Souza/BBC Brasil)

    Filhos de Renata brincam no corredor de cortiço onde moram no centro de SP (Foto: Felipe Souza/BBC Brasil)

     

    Futuro

    Os pais de família que vivem com um salário mínimo costumam ter alguns elementos em comum: a baixa escolaridade, a infância marcada por privações e pela necessidade de trabalhar. Um enredo que tentam, com diferentes níveis de sucesso, evitar repetir com seus filhos.

    Desde que se mudou de Ilhéus, na Bahia, para São Paulo, há dois anos e meio, a família de Paraisópolis nunca teve uma renda mensal superior a um salário mínimo. Rafaela, que estudou até a 5ª série e já trabalhou como auxiliar de limpeza, diz que sonha que o marido consiga um emprego bom e que o casal compre uma casa.

    Ela ainda espera que os filhos estudem e obtenham sucesso profissional. Aos 8 anos, no entanto, o mais velho ainda não começou a 1ª série.

    Reginaldo gosta de sonhar no trajeto de cerca de uma hora e meia de ônibus até o trabalho. É no tempo no transporte coletivo que ele se imagina em outra vida: “É um pouco difícil de realizar. Pelo que eu ganho não tem como… Mas meu sonho é ter uma casa própria e um carrinho na garagem para eu dar para a minha família”, conta.

    Para ele, o ideal seria ganhar ao menos dois salários mínimos “para me levantar um pouco”. Mas ao ser questionado sobre suas expectativas disso acontecer, Reginaldo fica em silêncio.

    A família chegou a receber Bolsa Família, mas não conseguiu renovar o benefício porque a certidão de nascimento do filho acabou danificada e os pais não conseguiram fazer o cadastro.

    O casal que vive na ocupação também parou os estudos no ensino fundamental, mas tem a esperança de que seu filho de 18 anos trace uma história diferente. “Ele ganhou uma bolsa de estudos muito boa e está tendo uma formação mais digna”, disse.

    Os olhos de Carlos se enchem de lágrimas ao lembrar de um pedido feito pelo caçula. “Nunca pude dar um videogame para o meu filho. Até hoje ele fala disso. Meu filho, seu pai ainda vai conseguir lhe dar o melhor videogame do mundo. Isso fica na minha cabeça, até choro”, afirmou.

    Para a economista do Dieese Patrícia Costa, a política atual perpetua a pobreza porque as famílias não conseguem ter gastos além de alimentação e moradia.

    “Essa realidade impede a mudança de classe porque as crianças precisam ir trabalhar. Da forma que estamos hoje, a tendência é piorar a situação dessas famílias. O que deve haver é uma política de valorização do salário mínimo, investimento em saúde e, principalmente, em educação básica e profissionalizante”, diz.

    A comerciante que vive na Cracolândia conta que se incomoda por seus filhos crescerem em um ambiente de degradação e violência. Embora acorde às 6h para dar conta de preparar e vender almoço e jantar nas ruas da Cracolândia, ela não conseguiu evitar que os filhos mais velhos tivessem que deixar a escola para ajudá-la no trabalho. A história repete sua própria juventude:

    “Ver que meu filho não pode dar continuidade na escola, da mesma forma que eu, é triste. Eu estudei até a terceira série e hoje convivo com essa falta”, afirma, antes de completar: “Futuramente, a gente não sabe o que pode acontecer. Medo qualquer mãe tem. Dá medo de amanhã ou depois ele querer partir para o lado errado porque a preocupação dele ao ver a minha dificuldade para conseguir alguma coisa é grande”.

    Fonte: G1

    Crise econômica pode levar Brasil de volta ao mapa mundial da fome da ONU

    Relatório de entidades da sociedade civil que será levado à ONU alerta que Brasil pode voltar ao mapa da fome

    No armário suspenso sobre a geladeira quase vazia, sacos de farinha de milho empilhados de uma lateral a outra são a única abundância no casebre onde moram três adultos e uma criança, no alto de um morro do bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio.

    — Estamos comendo angu a semana toda. Ganhamos de uma vizinha. Mas é melhor angu do que nada. Carne, não vemos há meses — lamenta Maria de Fátima Ferreira, de 61 anos, enquanto abre as portas do móvel, como se precisasse confirmar seu drama.

    Três anos depois de o Brasil sair do mapa mundial da fome da ONU — o que significa ter menos de 5% da população sem se alimentar o suficiente —, o velho fantasma volta a assombrar famílias como a de Maria de Fátima. O alerta, endossado por especialistas ouvidos pelo GLOBO, é de relatório produzido por um grupo de mais de 40 entidades da sociedade civil, que monitora o cumprimento de um plano de ação com objetivos de desenvolvimento sustentável acordado entre os Estados-membros da ONU, a chamada Agenda 2030. O documento será entregue às Nações Unidas na semana que vem, durante a reunião do Conselho Econômico e Social, em Nova York.

    Na casa de Maria de Fátima, a comida se tornou escassa depois que ela foi demitida do emprego de cozinheira na prefeitura de Belford Roxo, há oito meses. Os dois filhos mais velhos vivem de bicos, cada vez mais raros. Os três integram a estatística recorde de 14 milhões de desempregados, resultado da recessão iniciada no fim de 2014. Pesam ainda a crise fiscal, que tem levado União, estados e municípios a fazerem cortes em programas e políticas de proteção social, e a turbulência política.

    — Quando o país atingiu um índice de pleno emprego, na primeira metade desta década, mesmo os que estavam em situação de pobreza passaram a dispor de empregos formais ou informais, o que melhorou a capacidade de acesso aos alimentos. A exclusão de famílias do Bolsa Família, iniciada ano passado, e a redução do valor investido no Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), que compra do pequeno agricultor e distribui a hospitais, escolas públicas e presídios, são uma vergonha para um país que trilhava avanços que o colocava como referência em todo o mundo — afirma Francisco Menezes, coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e consultor da ActionAid, que participaram da elaboração do relatório.

    A Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia) é uma versão adaptada da produzida pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos durante a década de 90. Ela vem sida aplicada pelo IBGE desde 2004 – a pesquisa mais recente diz respeito a 2013 – e, em 2019, serão divulgados os dados referentes a 2017 e 2018. Ao aplicar a Ebia, é possível classificar os lares de acordo com o grau de segurança alimentar, ou seja, se existe uma situação de conforto ou de medo e risco de ficar sem comer.
    Rita de Cássia dos Santos Souza, com cinco de seus seis filhos: ela precisa da ajuda de vizinhos para alimentar as crianças Foto: Gustavo Miranda / Agência O Globo

    ‘Mãe, tem leite? Como não tenho nada em casa, digo: vai dormir que a fome passa’

    É justamente à noite que a fome é mais sentida pelo indivíduo. Rede de solidariedade ameniza falta de dinheiro para a compra de alimentos

       Na última quarta-feira, os seis filhos de Rita de Cássia dos Santos Souza, de 37 anos, não foram dormir com fome. Era noite de festa na casa de Maria Helena Cardoso, que completava 66 anos. O cardápio: feijão tropeiro. Maria Helena mora com o marido e a mãe, de 87 anos, em um casarão no entorno da Praça Redenção, em Paciência, Zona Oeste do Rio. Costuma ser o refúgio das crianças da família Souza quando falta comida em casa. Principalmente na hora do almoço, depois da escola.

    — À noite, meus filhos não costumam ter sono cedo e ficam assistindo TV. Daí, quando chega umas 23h, eles pedem: “Mãe, tem biscoito? Mãe, tem leite?” Como eu não tenho nada em casa, tenho de dizer: Vão dormir que a fome passa — conta Cássia, como costuma ser chamada.

     

    É justamente à noite que a fome é biológica e fisiologicamente mais sentida pelo indivíduo, que acaba tendo dificuldades para dormir, explica Maria do Carmo de Freitas, especialista em antropologia da alimentação e autora do livro “Agonia da fome”, sobre uma comunidade pobre de Salvador:

    — A fome é tida no campo subjetivo como uma metáfora do fantasma que caminha à noite. O indivíduo externaliza que é o fantasma da fome tomando o corpo.

    rede de solidariedade

    Cássia amamentou todos os filhos pelo menos por três anos: ‘Nunca ficam doentes’ – Gustavo Miranda / Agência O Glob

     

    Cássia diz que Maria Helena é fundamental na vida da família:

    — A casa dela está sempre cheia, e eu sou um dos quatro filhos de coração dela — completa, enquanto amamenta a filha mais nova, Carolina, de 3 anos.

    A cozinheira desempregada amamentou todos os seis filhos por pelo menos três anos. Além de dificilmente ficarem doentes, no caso da mais nova é uma refeição a menos com que se preocupar. Ela também recebe alimentos e roupas da igreja evangélica que frequenta. A família pode não saber, mas faz parte de um contexto classificado por especialistas como estratégias da fome.

    — As pessoas acabam se integrando a uma rede de apoio social, que pode vir de amigos, familiares, da igreja e de ONGs. Pede ao vizinho, compra fiado. Quanto maior essa rede, menor a chance de passarem fome — observa a nutricionista Rosana Salles da Costa, professora do Instituto de Nutrição Josué de Castro, da UFRJ, e pesquisadora sobre segurança alimentar.

    Em 2008, em uma pesquisa realizada em cinco mil lares que recebiam o Bolsa Família, foi identificado que um terço deles vivia em segurança alimentar por conta dessas estratégias, conta Rosana

     

    Edir Dariux Teixeira, de 58 anos, amiga de Maria Helena, integra essa rede de solidariedade. Já dedica mais de duas décadas ao voluntariado. Ajudou Betinho em sua saga pela arrecadação de alimentos nos primeiros anos do Movimento Ação da Cidadania, nos anos 1990, entidade da qual faz parte até hoje. Cansou de pagar as compras de supermercado da Maria de Fátima Ferreira, que passou uma semana comendo só angu. São vizinhas. Não tem dinheiro sobrando para fazer caridade, mas não consegue ver um irmão, como chama, passar necessidade e ficar de braços cruzados:

    — Digo que sou uma pobre metida a besta — brinca.

    Quando a solidariedade leva à falta de comida na própria casa, recorre à filha, onde dorme algumas noites e se alimenta. A solidariedade parece vocação.

    — A primeira vez que fiz isso tinha 12 anos. Comprei fiado na conta da minha mãe na banca para distribuir aos meus colegas na escola. Quando ela descobriu, levei uma surra — conta Edir, rindo. — Eu não quero saber se é pobre, rico, gay, espírita, evangélico. Eu olho para o ser humano. Se a pessoa precisar de ajuda, vou ajudar. Às vezes, ela só quer uma palavra de apoio.

    Outro refúgio importante para driblar a fome são as escolas. Segundo Rosana, pesquisas mostram que durante as férias escolares cai a qualidade da alimentação de crianças e adolescentes.

    Cássia e o marido, Orlando, estão desempregados. Ele sempre foi o chefe de família. Pedreiro de grandes obras, chegaram a viver por um bom tempo com uma renda mensal de R$ 2 mil. Mas, com a crise paralisando o setor de construção civil, está sem emprego há dois anos. Há oito meses, nem bico aparece. Não foi à festa de Maria Helena porque estava com febre e diarreia. Segundo Cássia, ele tem estado abatido e já emagreceu muito. Sente-se incapaz por não conseguir trazer dinheiro para casa. Cássia é cozinheira. Mas o rompimento de uma artéria na última gravidez limita as oportunidade de trabalho. Para piorar a situação, a família é ameaçada de despejo pelo administrador da casa que alugam em uma comunidade próxima à favela de Antares, em Santa Cruz. Devem R$ 2.500 de cinco meses atrasados de aluguel. A única renda certa do casal são R$ 120 mensais do Bolsa Família.

    — Quando você ganha R$ 2 mil e cai para nada é muito difícil se adaptar. É como ganhar na Mega-Sena e de repente perder tudo — diz Cássia.

    ‘Admitir a fome não é fácil. Causa vergonha’

    Maria do Carmo de Freitas é autora do livro ‘Agonia da fome’, sobre uma comunidade pobre de Salvador – ARQUIVO PESSOAL

     

    Admitir a fome não é tarefa fácil. Causa vergonha e desconforto, observa Maria do Carmo. Renata (nome fictício), de 39 anos, recebeu a reportagem no quarto e cozinha erguidos em um terreno que divide com outras duas famílias, todos parentes, em Vendas de Varanda, comunidade de Santa Cruz. É mãe solteira de dois filhos, de 10 e 6 anos. Teve de largar o emprego, há cerca de um ano, porque não conseguia mais pagar uma babá para tomar conta das crianças. Há seis meses, quando teve cortado os R$ 160 do Bolsa Família, passaram a conviver com a fome.

    — O mais velho entende um pouco mais. Mas o mais novo, quando é dia de levar lanche para a escola e eu não tenho nada para mandar, não quer ir. Ele sente muita vergonha — conta Renata, que não permitiu ser fotografada. — Não tenho orgulho da minha condição. Não quero que saibam o que eu passo.

    No dia em que a reportagem esteve em sua casa, o almoço era arroz, doado pela mãe, e sardinha frita, presente de um amigo. A pesquisadora Maria do Carmo identificou que as pessoas acabam criando outras expressões para se referir à fome, para evitar mencionar a palavra — a chamam de “coisa”, “mulher mulambenta”, “demônio”.

    — É muito difícil admitir a possibilidade de fome dentro de casa quando se tem crianças. Na comunidade que estudei, a população explicava a fome como um fantasma, como espíritos, como algo que está fora do corpo. Uma externalidade, porque é duro imaginar a fome dentro do filho, dentro do bebê. Essa comunidade tinha muitas escadas. Tinha muito dessas expressões: “Ela que veio aqui e atacou” ou “derrubou da escada”. Como se a fome fosse do mal — explica Maria do Carmo.

    Única refeição do dia

    Francisco perdeu a casa para o tráfico e está morando na rua – Paulo Nicolella / Agência O Globo

     

    Sentado na ponta da penúltima mesa do Restaurante Popular de Niterói, o único que ainda funciona no Estado do Rio, Francisco Carlos Leite, de 61 anos, come o que deve ser a sua única refeição do dia. Um prato com arroz, feijão, angu, alface, picadinho de fígado e uma banana. Naquele dia, dormiria na rua pela terceira noite, nos fundos do terminal rodoviário, ali perto. O local se tornou refúgio de desempregados e vítimas da violência, como Francisco.

    — Eu sou um homem decente, trabalhador. Onde está o Estado? — indaga.

    Quando foi visitar amigos em Macaé, traficantes saquearam sua casa. Está impedido de voltar, alertaram vizinhos. Passar fome ainda não parece ser o maior problema. Chora quando lembra que levaram até o cachorro.

    — O estado de insegurança alimentar não pode ser medido apenas pelo prato de comida, mas pelo que provoca essa falta de certeza de ter o que comer — explica a especialista Maria do Carmo de Freitas.

    Fonte: O Globo

    Crise com nome

    e sobrenome

    CANDIDATOS NA FILA DO EMPREGO CONTAM SUAS HISTÓRIAS

    Os números dão a dimensão da crise: 14 milhões tentam e não conseguem trabalho, quase 3 milhões estão fora do mercado há mais de dois anos, cerca de 30% são jovens. Por trás das estatísticas, há histórias de vida. Os depoimentos a seguir foram colhidos durante uma ação social de inscrição para vagas, na Zona Oeste do Rio. Muitos aguardaram mais de 24 horas na fila, enfrentando frio e sono para tentar uma das oportunidades. De diferentes perfis, têm em comum a necessidade de conseguir um sustento e superar o efeito mais duro da recessão que o país tenta deixar para trás: o desemprego.

    Na Páscoa, fui com minhas filhas fazer compras. Não tinha como comprar os ovos de Páscoa. Colocamos bombons numa cesta e demos para elas

    Godofredo dos Santos

    EFEITO LAVA-JATO

    Aos 31 anos, Godofredo dos Santos sempre trabalhou na construção civil, mas hoje sente os efeitos da crise nas empresas do ramo. O setor foi o que mais demitiu nos últimos 12 meses, segundo dados do Ministério do Trabalho. Hoje, o desempregado, pai de duas meninas de 2 e 5 anos, tenta qualquer vaga para recompor parte do salário de R$ 3 mil que recebia no último emprego.

    SALDO DE VAGAS POR SETOR

    Construção civil foi o que mais demitiu nos últimos 12 meses

    Se me pede para passar roupa eu passo, se for para fazer salgadinho, estamos lá, mas isso não é uma renda fixa. Hoje você tem e amanhã você não tem

    Margarete Franciscano

    MENOS QUE O NECESSÁRIO

    Margarete Franciscano está há quase um ano em busca de um emprego fixo. Aos 52 anos, ela faz parte de um grupo de brasileiros que até consegue algum tipo de trabalho, mas gostaria para trabalhar mais horas por dia, em busca de renda melhor. É a chamada subutilização da força de trabalho, que já afeta mais de 26 milhões de pessoas.

    SUBUTILIZAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

    Número de pessoas (em milhões) que gostariam de trabalhar mais

    São milhões de jovens que estão à procura de seu primeiro emprego. Para a gente que tem mais idade, fica um pouco mais difícil

    Wilton Sérgio de Almeida

    O PESO DA IDADE

    Apesar da experiência acumulada, retornar ao mercado de trabalho não é tarefa fácil para quem tem mais idade. É o que sente o técnico Wilton Sérgio de Almeida, especializado em telecomunicações. Aos 50 anos, ele atribui à idade a dificuldade para encontrar uma vaga — uma busca que já dura sete meses. Assim como Wilton, outros brasileiros nessa faixa etária vivem esse drama. A taxa de desemprego no grupo dos que têm 40 e 59 anos saltou de 4%, no início da crise, em 2015, para 7,9% no primeiro trimestre deste ano.

    TAXA DE DESEMPREGO 40 A 59 ANOS

    Parcela dos desocupados nessa faixa etária deu um salto

    Com 20 anos é complicado ficar desempregado, porque você acaba dependendo dos seus pais

    Patrick Boumgratz

    O PESO DA INEXPERIÊNCIA

    Jovens, sem experiência e em busca da primeira oportunidade. É o perfil dos desempregados entre 18 e 24 anos, que já somam 4,5 milhões no país. Patrick Boumgratz chegou à fila de inscrição para vagas de emprego nessa condição. Com dois anos de serviço militar e diploma técnico em logística, não conseguia oportunidade na área. Dias depois de passar a noite na fila, o esforço foi recompensado: Patrick conseguiu uma vaga de operador de telemarketing.

    TAXA DE DESEMPREGO 18 A 24 ANOS

    Jovens são os mais afetados na crise

    Estou desempregada há três anos e vivo de bico para sustentar a família. Estou toda enrolada com conta e dívidas, tenho que trabalhar

    Ana Carla Lima

    LONGA ESPERA

    Ana Carla Lima dos Santos faz parte do grupo de brasileiros que enfrenta o desemprego há mais tempo. Segundo o IBGE, 2,8 milhões de pessoas buscam uma vaga há pelo menos dois anos. O principal problema para Ana Carla é pagar as despesas, já que mora de aluguel. Assim como outros, enfrenta a espera por um emprego fixo vivendo de serviços informais, como de cabeleireira.

    NÚMERO DE DESEMPREGADOS (EM MILHÕES) HÁ MAIS DE DOIS ANOS

    Afastamento duradouro dificulta reinserção no mercado

    Fonte: O Globo

    Declaração de Temer no G20 contrasta com indicadores e recebe críticas

    A voz das ruas também mostra desacordo com a afirmação de Temer ao minimizar o atual momento

    Desemprego em alta, baixo nível de investimentos, deflação de 0,23% em junho pelo IPCA — que não representa necessariamente boa notícia —, lojas fechadas, menos brasileiros com acesso a crédito e economia em compasso de espera por conta das incertezas sobre o rumo político do país. Esse é o Brasil “sem crise” que o presidente Michel Temer anunciou ontem ao desembarcar na Alemanha para a reunião do G20.

     

    Na Praça Tiradentes, no Centro, várias lojas foram fechadas, o que mostra enfraquecimento no comércioMárcio Mercante

    “Crise econômica no Brasil não existe. Vocês têm visto os últimos dados”, disse aos jornalistas.

    Como se não bastasse a declaração, Temer comentou uma nova gafe. Em um vídeo na sua conta oficial no Twitter, disse que seu governo está “fazendo voltar o desemprego” no país. A frase foi dita quando o presidente falava sobre sua mensagem no encontro na Alemanha.

    A visão do presidente sobre a crise não é compartilhada por economistas. “A redução do número de desempregados de 14,2 milhões para 13,2 milhões, queda de juros e a inflação sob controle, por exemplo, mostram melhora nos indicadores, mas não é possível afirmar que não existe crise. É muito cedo para isso”, rebate o economista e especialista em Finanças, Alexandre Prado.

    A comerciante Marina Pereira afirma que a crise econômica afetou seu estabelecimentoMarcio Mercante / AG. ODIA

    Nem mesmo a deflação do mês passado comemorada ontem pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles é sinal de que não há crise. “A deflação, que significa queda de preço, não ocorre pela eficiência do funcionamento da economia, mas pela severidade da crise que o país atravessa”, alerta Gilberto Braga, economista do Ibmec e da Fundação D. Cabral.

    Até mesmo a coordenadora de índices de preços do IBGE, Eulina Nunes — responsável pela pesquisa que mostra variação negativa dos preços de 0,23% no IPCA — credita o resultado ao momento conturbado que o país atravessa e a queda no consumo. “O país vive situação de redução acelerada da inflação em função, principalmente, da crise econômica e do desemprego, que desestimulam o consumo”, diz Eulina.

    “A queda de preços verificada pela deflação não quer dizer que as pessoas melhoraram de vida. Depende do aumento do poder aquisitivo. E a média da população vem sofrendo muitas perdas nos últimos dois anos”, diz Braga.

    A voz das ruas também mostra desacordo com a afirmação de Temer ao minimizar o atual momento.

    Já a socióloga Graça Almeida reclama da alta dos preços dos produtos no mercado. E o presidente diz que não há criseDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

    “Enfrentamos uma grave crise econômica e não vejo essa baixa da inflação em praticamente nada. Ao contrário do que o presidente Temer falou no G20, estamos sim encarando uma grande crise por aqui. Os preços continuam subindo em produtos nos supermercados, conta de luz, gás e em serviços, como, de televisão, que aumentou nos últimos meses. Tudo só aumenta e pagamos cada vez mais caro”, critica Graça Almeida, 60 anos, socióloga e moradora de Santa Teresa.

    Comércio fecha quase 10 mil lojas

    Ao contrário do que Temer tenta passar lá fora, a crise tem impacto negativo em setores da economia, como o comércio. Segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), só no primeiro trimestre do ano foram fechadas 9.965 lojas no país.

    A conjuntura econômica tem preocupado Marina Pereira, 34, sócia da cafeteria Fazenda Paradiso Café, na Lapa, onde também muitos empreendimentos fecharam. “A declaração do Temer não foi condizente com a realidade. Eu que tenho comércio sinto isso com a perda de clientes”, relata. E desafia: “Acho que o presidente deveria sair pelo país para ver a realidade de perto.”

     Fonte: O Dia

    Esther Dweck: Não é o fim da recessão e quadro vai piorar com reformas

    Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

     

    “Não é o fim da recessão de jeito nenhum. No início dos anos 2000 e em outros períodos da história do Brasil, a gente teve uma coisa que chamamos de estagnação puxada por exportações. É mais ou menos o que a gente vai viver esse ano, se de fato se configurar um crescimento positivo até o final do ano, que ainda tem chances de não acontecer”, disse, em entrevista ao Vermelho.

    O IBGE divulgou que o PIB cresceu  1% no primeiro trimestre. E o resultado acumulado dos quatro últimos trimestres, terminados agora em março, registra queda de 2,3%.

    Segundo Esther Dweck, o resultado positivo desse começo de 2017 é “pontual”, influenciado pela boa safra agrícola e por uma mudança na metodologia do IBGE. Mas o detalhamento dos dados mostra que, pelo lado da demanda, a única coisa que de fato teve bom desempenho foram as exportações, enquanto a demanda interna continua desapontando.

    O investimento caiu 1,6% em relação ao trimestre anterior, o consumo das famílias teve retração de 0,1% e o consumo do governo, de 0,6%. “Com o desemprego crescente, as pessoas ou estão sem renda, ou não querem gastar a renda que têm porque querem se proteger de um eventual problema mais na frente. As empresas não estão investindo nem têm nenhuma perspectiva de investir, porque estão com capacidade ociosa muito grande. Então a única coisa que sobra para quem está produzindo, é exportar, principalmente com uma safra recorde como esta. Houve, na verdade, um crescimento puxado pelas exportações, que não é capaz de puxar a economia brasileira de fato”, disse.

    Na avaliação da professora, o crescimento de 1% não pode, portanto, ser associado à ação do governo Michel Temer, que relaciona a retomada atividade à recuperação da confiança na economia, algo que seria influenciado pela capacidade da gestão de aprovar as reformas.
    “Foi uma coisa muito pontual, ligada a essa safra recorde, que é uma questão climática, não tem nenhuma relação com aprovação de medida ou qualquer coisa do gênero, porque a safra não sabe se o governo aprovou x ou y no Congresso, então não tem nenhum sinal efetivo de retomada”, analisou.

    Na sua avaliação, o mais provável é que o país tenha um crescimento próximo de zero em 2017. “Pode ser um pouquinho positivo ou um pouquinho negativo, o que no fundo é uma estagnação. E isso é normal, porque é muito raro uma economia cair duas vezes seguidas. Três, então, só numa guerra. O mais provável é que Brasil se estabilize, mas num nível muito baixo – o que é muito ruim em termos de geração de emprego e distributivo – e fique crescendo muito próximo de zero. Não tem nenhum sinal de retomada vigorosa”, declarou.

    Para a economista, ao contrário do que o governo fala, a aprovação das reformas só vai piorar esse cenário. “Porque, na verdade, [aprovar as reformas] é retirar um canal distributivo importante, que ajuda da distribuição de renda, consequentemente, no crescimento econômico e na própria proteção da economia, para situações de crise como a que a gente vive. Porque muita gente consegue ter algum auxílio e não fica sem nenhum tipo de renda, mesmo com o desemprego crescente. E com as reformas, esse colchão de proteção social vai diminuir”, lamentou.

    Esther destacou que a lógica da seguridade social é justamente proteger a população em momentos de dificuldade. “Ela foi criada depois da grande crise mundial da década de 30 e depois da segunda guerra, para dizer que, se a gente não tiver um mínimo de proteção social, as economias entram em colapso. E a economia mundial só não entrou nunca mais em colapso tão profundo como na grande depressão porque passou a ter um sistema de proteção social muito forte”, disse.

    Desde que o atual governo assumiu, prometia que a retomada seria liderada pelos investimentos. O resultado do primeiro trimestre contraria o discurso da gestão. E, para Esther, isso não deve mudar.

    “Ninguém investe porque o governo aprovou ou não uma medida no Congresso. A pessoa investe se tiver alguém comprando o produto dela. Então, enquanto não retomar mesmo o crescimento, o investimento não vai voltar tão cedo. A gente está com uma capacidade ociosa enorme. Então o que o governo chama de investimento não é investimento, é um capital especulativo financeiro, que pode vir, sim, porque você aprovou uma reforma que protege exatamente o capital especulativo e não o produtivo”, encerrou.

    “Aparentemente chegamos ao fundo do poço”, diz economista

     

     

    O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, chegou a classificar este momento como “histórico”. “Depois de dois anos, o Brasil saiu da pior recessão do século”, disse, em nota. No Twitter, o presidente Michel Temer foi na mesma linha: “Acabou a recessão! Isso é resultado das medidas que estamos tomando. O Brasil voltou a crescer”, afirmou.

    Para o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, o PIB “reflete um conjunto de ações de política econômica que tem sido implementado (…) e, em particular, o avanço das reformas econômicas no Congresso”.

    Os números, no entanto, não justificam o otimismo oficial. O próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi ponderado e avaliou que “ainda é cedo para falar em saída da recessão”.

    “É preciso esperar um pouco para ver o que vai acontecer este ano. A gente teve crescimento no trimestre, mas foi sobre uma base muito deprimida. Se olharmos no longo prazo, ainda estamos no mesmo nível de 2010”, disse a coordenadora de contas nacionais do órgão, Rebeca Palis.

    O crescimento foi puxado, principalmente, pelo bom resultado da agropecuária, que teve expansão de 13,4%, e do comércio exterior, com as exportações subindo 4,8%. A indústria cresceu um tímido 0,9%, e os serviços registraram estabilidade. Os investimentos e o consumo das famílias sofreram contração no trimestre, respectivamente 1,6% e 0,1%. Apesar do crescimento da economia na comparação com o trimestre anterior, o PIB recuou 0,4% em relação ao primeiro período do ano passado.

    O economista Bráulio Santiago Cerqueira avalia que os números do PIB para o primeiro trimestre já eram esperados por analistas. Mas destaca que, mesmo que a economia se recupere ao longo de 2017 crescendo, por exemplo, 1,0% em 12 meses – as previsões hoje apontam uma ampliação de 0,5% para o ano –, a economia não chegará sequer a atingir o nível que tinha em 2011, diante do tombo provocado pela recessão nos últimos anos.

    “As quedas do PIB acumuladas nos últimos anos fizeram a economia brasileira voltar a um ponto entre 2010 e 2011. Então, mesmo se a economia crescer o dobro do que apontam as expectativas, ela não vai ter chegado ao nível sequer de 2011. Ou seja, tem que levar em conta a gravidade da recessão”, diz.

    Cerqueira ressalta ainda que o resultado positivo do trimestre não anula outros números negativos. Considerando os 12 meses terminados em março deste ano, o PIB brasileiro recuou 2,3% em relação aos 12 meses imediatamente anteriores.

    “Então continua caindo na base anual. De fato, na margem, houve esse pequeno crescimento, muito associado à safra de grãos. E eu diria que o fator mais importante do ponto de vista da demanda para esse resultado foi o setor externo. O consumo não recuperou e o investimento não recuperou”, reiterou, chamando atenção para o fato de que a taxa de investimento – que é o total de investimento da economia sobre o produto – encontra-se hoje no valor mais baixo de toda a série histórica do IBGE, que começa em 1995: 15,6%.

    De acordo com ele, o resultado positivo, portanto, tem pouco a ver com a política econômica praticada pela atual gestão. “Eu não associaria essa recuperação na margem da economia brasileira àquilo que o governo enfatiza, que seria um choque de confiança proporcionado pela política econômica que seria agora mais responsável. Os números não mostram isso”, defende.

    O economista diz que o bom desempenho do setor externo, é fruto principalmente da desvalorização do câmbio, que ocorre desde 2015, e da depressão do mercado doméstico. “É a situação de contração da demanda interna, é natural. As empresas, os exportadores de produtos primários, se voltam mais para o mercado externo. Se você não vende aqui dentro, então você tenta vender para quem tem poder de compra no exterior.”

    Para ele, mais realista do que falar em volta do crescimento, é afirmar que o país pode estar em estagnação, parando de afundar. “O que podemos falar que está acontecendo é menos algo que aponta para um crescimento sustentável e para a recuperação de uma trajetória mais dinâmica da economia e mais que a gente chegou ao fundo do poço. Aparentemente, não dá para cavar mais fundo. Melhor que falar em recuperação, a gente pode dizer com mais cautela que a economia está parando de afundar. Estamos entrando em uma estagnação depois da depressão, tenderia mais a isso”, afirma.

    Segundo Cerqueira, o fato de que a economia possa estar “parando de afundar” é algo natural, próprio dos movimentos cíclicos da economia. “Como você tem um consumo e um investimento muito reduzidos, qualquer sopro que a gente experimente causa um efeito estatístico positivo. Era normal que esse momento um dia chegasse. Mas tem que ver qual será a intensidade de uma possível recuperação que ainda está para se confirmar”, pondera.

    O economista não crê que, com a atual política econômica, vá haver uma recuperação robusta. “O movimento cíclico natural da economia, independente da política econômica, aponta, sim para alguma recuperação. Mas a política econômica podia ajudar mais, acelerando o ritmo de queda da taxa de juros – não só da taxa de juros básica, mas para o crédito em geral dos bancos, os spreads – e na recuperação do investimento público e do próprio gasto público, que na verdade estão comprimidos pelas regras fiscais que a gente tem. Em razão desses fatores, não acredito em uma recuperação intensa da economia”, conclui.

    Fonte: Vermelho

    IBGE: Taxa de desemprego alcança 14,2 milhões de pessoas

    IBGE: Taxa de desemprego alcança 14,2 milhões de pessoasIBGE: Taxa de desemprego alcança 14,2 milhões de pessoas – Foto: Joedson Alves/Estadão
    De acordo com novos dados divulgados pelo IBGE, a taxa de desemprego alcança uma série histórica e chega a 14,2 milhões pessoas

    A taxa de desemprego no Brasil bateu o recorde histórico, segundo os dados divulgado na manhã desta sexta-feira (28), pelo IBGE. São 14,2 milhões de pessoas desempregadas, na apuração de janeiro a março. São os maiores índices desde que o cálculo começou a ser feito em 2012.

    Na avaliação anterior do IBGE, encerrada no mês de fevereiro, o número de desempregados era de 13,5 milhões de pessoas.

    No segundo trimestre de 2016, a taxa de desemprego no país estava em 10,8%, ou seja, em 12 meses ocorreu uma alta de 2,9 pontos percentuais. Neste mesmo período, o volume de pessoas em busca de uma ocupação teve um acréscimo de mais de 3,1 milhões de desempregados.

    Número de inadimplentes no Brasil cai em abril, mas segue perto de 40% dos adultos, dizem SPC Brasil e CNDL

    O indicador ainda mostrou queda no volume de dívidas em nome de pessoas físicas na comparação com o mesmo mês de 2016.


    Reuters

     

    Quase 40% da população adulta brasileira está inadimplente, de acordo com estimativa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).

    As duas entidades calculam que um total de 59 milhões de pessoas físicas estavam com as contas atrasadas no país no final de abril, número que representa 39,19% da população com idade entre 18 e 95 anos.

    Apesar de ainda elevado, o mês de abril mostrou uma leve queda no número de inadimplentes, de 1,6% na comparação com igual período de 2016 e de 0,35% frente ao mês anterior.

    De acordo com o SPC Brasil e a CNDL foi a segunda vez, desde o início da série histórica em 2010, que houve uma queda anual.

    “O consumidor tem tido maior cautela com o consumo, além de maior dificuldade para conseguir crédito. Assim, ele se endivida menos e, com isso, torna-se mais difícil ficar inadimplente”, disse o presidente da CNDL, Honório Pinheiro.

    De acordo com a estimativas das entidades, a região Sudeste é a que concentra, em termos absolutos, o maior número de inadimplentes do país, somando 24,90 milhões de consumidores, equivalente a 38,17% da população adulta da região. Na sequência, aparecem o Nordeste e o Sul do país.

    Por faixa etária, a maior frequência de pessoas com contas em atraso é a daqueles entre 30 e 39 anos – em abril metade dessa população (49,83%) estava com o nome incluído em listas de proteção ao crédito, um total de 17 milhões de pessoas.

    O indicador do SPC Brasil e da CNDL ainda mostrou queda de 7,13% no volume de dívidas em nome de pessoas físicas na comparação com o mesmo mês de 2016.

    O levantamento apontou também que os bancos concentraram em abril a maior parte das dívidas no país, com 48,36% do total, seguidos pelo comércio (20,26%) e o setor de comunicação (13,51%).

    Inadimplência (Foto: Reprodução Globo News)Inadimplência (Foto: Reprodução Globo News)

    Inadimplência (Foto: Reprodução Globo News)

    Foto: G1

    Crianças ficam mais pobres, e desemprego entre jovens ultrapassa 30%

    Sabrina Coelho e filho Cauã: “Eu só almoço. Pulo o café da manhã e o jantar”

     

     

     

    Sabrina Coelho e filho Cauã: “Eu só almoço. Pulo o café da manhã e o jantar” Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
     

     

     

     

    A parcela mais vulnerável da população, as crianças e os adolescentes, está sendo a mais castigada pelos três anos de estagnação e recessão seguidos. Mais pobres, desempregados e com a ameaça crescente da violência urbana, que mata mais os jovens, o futuro dessa geração está em risco. Pesquisa inédita da economista Sonia Rocha, do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade (Iets), constatou que a pobreza entre crianças e adolescentes de até 14 anos aumentou mais entre 2014 e 2015. Era de 25,8% em 2014 e passou para 29%. O avanço foi ainda maior quando se observa a faixa de pessoas de 15 a 19 anos, que agora tem 22,3% na pobreza, acima dos 17,9% do ano anterior:

    — A conjuntura econômica piorou. Famílias com crianças dependem essencialmente do mercado de trabalho, que está muito ruim. E os benefícios voltados para as crianças são mais restritos e mais baixos que os para idosos — afirma Sonia.

    As escolas — o caminho para ter uma chance de vida melhor — são pouco atraentes e acabam afastando os adolescentes, na avaliação do movimento Todos pela Educação. Dos 2,8 milhões de crianças e jovens que estavam fora da escola em 2015, 60,8% tinham entre 14 e 17 anos. E a taxa de frequência de quem tem 17 anos é de 74,3%. Inferior à presença de crianças de 4 anos (77,3%).

    Quando deixam a escola para enfrentar o mercado de trabalho, a dificuldade aumenta. Na faixa de 14 a 24 anos, a taxa de desemprego já ultrapassou os 30%, o dobro da taxa média da força de trabalho, de 13,7%, no primeiro trimestre do ano. Há 1,265 milhão de adolescentes de 14 a 17 anos procurando trabalho, quase 10% do total de 14 milhões de desempregados. Uma faixa etária que deveria estar apenas nos bancos escolares e não na fila do desemprego. A taxa de desocupação para eles é de 45,2%, o dobro de antes do início da recessão, nos primeiros meses de 2014.

    Especialistas em mercado de trabalho apontam duas razões para essa explosão nas taxas: o desemprego dos pais acaba empurrando os jovens para o mercado e a falta de experiência e de capacitação dificulta ainda mais a contratação.

    — Quando vão dispensar, os escolhidos são os jovens, que têm menos experiência e vão fazer menos falta no processo produtivo. Se for estagiário ou aprendiz, os custos de demissão também são menores. O problema é que, ao mesmo tempo em que as portas se fecham, muitos precisam se lançar no mercado para ajudar a família. É uma minoria que pode, em tempos de crise, aproveitar a falta de oportunidades para investir em formação — afirma Maria Andreia Parente Lameiras, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

    E a violência fecha o cerco em torno dessa população. Na média, há 29 homicídios para cada cem mil habitantes. Em países desenvolvidos, ficam entre 0,5 e 1 por cem mil. Na população de 15 a 29 anos, a taxa é de 60 por cem mil. Se forem homens, quase dobra: 113 mortes por cem mil.

    — Em todo o mundo, os homicídios são maiores nessa faixa etária. O jovem é o ator principal sofrendo e cometendo crimes. O que difere no Brasil é o patamar. E o pico da taxa era aos 25 anos, hoje é aos 21. Estamos matando nossos jovens cada vez mais jovens — afirma Daniel Cerqueira, economista e especialista em segurança pública do Ipea.

    Em busca de uma vaga desde os 14 anos

    Morreram assassinados 318 mil jovens de15 a 29 anos entre 2005 e 2015, de acordo com os dados do Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. Somente em 2015, houve 31.269 mortos. Apesar de significar cerca de 86 homicídios por dia, é um número menor que os 32.436 mil de 2014.

    A família de Sabrina Graziele Coelho, de 35 anos, está sofrendo todos os efeitos da crise. Casada com Francinei Lopes da Silva, e mãe de Davi, de 15 anos, Beattriz, de 14 anos, e Cauã, de 9 anos, Sabrina perdeu o emprego em abril. O marido, em outubro. A renda minguou. Só sobrou o Bolsa Família, de R$ 202, que não dá para alimentar a família de cinco pessoas.

    — Minha filha fica na escola o dia inteiro e agora está dormindo na casa da minha mãe. Davi está na casa da minha irmã. Eu só almoço. Pulo o café da manhã e o jantar. Muitas vezes, venho para a casa da minha mãe, que reúne toda a família. Aqui sempre tem comida — diz Sabrina na casa da mãe numa comunidade na Zona Norte.

    Logo que saiu do emprego de cuidadora de um idoso, que morreu em abril, Sabrina comprou bijuterias para revender e conseguir comprar uma coisa ou outra que falta para os filhos e remédios. O cabelo do marido e do filho, ela mesmo corta:

    — A escola não dá uniforme, e Davi só tem uma camisa. O frio vai aumentar, e preciso comprar outra camisa de manga comprida. Também falta material escolar. A escola não tem dado. Mas minha família ajuda muito. Um sempre dá apoio ao outro.

    Produtividade ainda menor

    Thamires Oliveira de Souza, de 18 anos, cresceu sonhando em cursar enfermagem, mas procura emprego desde os 14 anos. O pai é um pedreiro desempregado há dois anos e a mãe, empregada doméstica. Aluna do 3º ano do ensino médio de uma escola pública, procura estágio para tentar ajudar a pagar os cursos que vem fazendo para entrar em uma universidade pública. O pai faz bicos para custear um curso pré-vestibular e um básico de administração para a filha:

    — É difícil não ter experiência, ter de estudar e procurar um trabalho ao mesmo tempo. Estou tentando vaga de estágio porque o dinheiro dos meus pais já está acabando e preciso me manter nesses cursos. Além de as vagas serem escassas, quando aparece algo, não casa com o horário das minhas aulas, é muito longe de onde moro ou pede inglês intermediário, que não tenho. Enquanto isso, cortamos qualquer luxo. Nada de comprar roupa ou calçado. Não podemos fazer dívida.

    Para Maria Andreia, portas fechadas para jovens que precisam custear os próprios estudos podem comprometer a formação.

    — Vai afetar a especialização de muitos adolescentes que têm como condição para a entrada na universidade ter um emprego — avalia.

    Os impactos negativos na economia e na própria trajetória profissional desses jovens são inevitáveis, observa Bruno Ottoni, pesquisador na área de mercado de trabalho do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV):

    — Quanto mais tempo uma pessoa fica sem emprego, mais ela demora para se inserir novamente no mercado. Quando falamos do primeiro emprego, isso é ainda mais grave. Atrasa a aquisição de experiência. Os anos vão passando, eles ficam mais velhos e sem experiência. Fases de desemprego alto e longos, como o que vivemos hoje, tornam mais precário o capital humano e fazem a produtividade média do trabalhador brasileiro, que já é baixa, cair ainda mais.

    Ottoni avalia que a falta de formação dos recursos humanos pode atrasar a reação da atividade econômica.

    — Vamos nos tornando menos produtivos, e a retomada da economia demora ainda mais. É uma condição que cria um círculo vicioso — afirma.

    A educação para Sabrina é imprescindível. Os filhos nunca repetiram de ano na escola, e a filha Beattriz é medalhista de ouro de xadrez.

    — Aqui em casa, ninguém pode tirar menos de 7. Davi está estudando à noite para tentar uma vaga de aprendiz durante o dia, mas ninguém contrata antes dos 16 anos — diz Sabrina.

    Davi engrossa o universo de adolescentes desempregados, mas a formação está encaminhada. Não foi o caso de Sabrina. Trabalhando desde os 14 anos, concluiu o ensino médio e chegou a conseguir bolsa para cursar Gestão Ambiental:

    — Mas não consegui cursar.

    Na sala da casa da mãe, LPs antigos do irmão de Sabrina enfeitam a parede. É uma lembrança, pois ele morreu há 27 anos, assassinado aos 17:

    — Meu filho mais velho fica na casa da minha irmã, onde há mais atividades oferecidas pela igreja. Ele faz luta, computação, toca teclado. Não está ocioso. Às vezes, os meninos veem que está faltando coisa dentro de casa, e o dinheiro é fácil lá fora.

    Fonte: Extra

    Crise e excesso de oferta deixam prédios comerciais vazios em SP e no Rio

    Mercado de escritórios registra vacância recorde e preços caem para valores de 2010. Empresas aproveitam descontos para migrar para prédios melhores.

    Alugam-se. Muitas salas. Andares inteiros. E até o prédio todo. A quantidade de espaços vazios em edifícios de escritórios aumentou e a taxa de vacância nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro atingiu patamar recorde, segundo os indicadores das principais consultorias e empresas de pesquisa imobiliária corporativa.

    Em meio ao prolongamento da crise econômica e ao boom de novos empreendimentos, o percentual de imóveis comerciais não ocupados saltou de 3,56% em 2010 para 17,47% em 2016, segundo monitoramento da Buildings. No Rio, o índice passou em 7 anos de 2,03% para 18,8%.

    Já nos espaços corporativos de alto padrão ou classe A, categoria que reúne os prédios com melhor infraestrutura e com lajes de até mais de 2 mil metros quadrados por andar, a taxa de vacância é ainda maior. De acordo com a Buildings, o índice fechou 2016 em 23,42% em SP e em 38,33% no Rio.

    “Com crise ou sem crise, há excesso de oferta. Esse é o ponto”, resume o diretor da Buildings, Fernando Libardi. Ele explica que a quantidade de espaços vagos de alto padrão passa de 600 mil metros quadrados no Rio de Janeiro e de 860 mil metros quadrados em São Paulo. Em 2012, a vacância era de 280 mil m² em SP e de 52 mil m² no Rio.

     

    ‘Cartão postal’ para alugar

     

    No edifício Pátio Victor Malzoni, na Av. Faria Lima, onde fica a sede do Google, o bloco da esquerda é visto quase completamente apagado por volta de 19h30 de um dia útil; a recepção informa que apenas os 3 últimos andares estão ocupados. (Foto: Fábio Tito/G1)No edifício Pátio Victor Malzoni, na Av. Faria Lima, onde fica a sede do Google, o bloco da esquerda é visto quase completamente apagado por volta de 19h30 de um dia útil; a recepção informa que apenas os 3 últimos andares estão ocupados. (Foto: Fábio Tito/G1)

    No edifício Pátio Victor Malzoni, na Av. Faria Lima, onde fica a sede do Google, o bloco da esquerda é visto quase completamente apagado por volta de 19h30 de um dia útil; a recepção informa que apenas os 3 últimos andares estão ocupados. (Foto: Fábio Tito/G1)

    Entre os prédios que continuam com vacância elevada estão megaempreendimentos e vários dos novos “cartões postais” da capital paulista como o Pátio Victor Victor Malzoni (o da casa bandeirista), que ocupa um quarteirão na Avenida Faria Lima e foi anunciado em 2102 como a mais cara de São Paulo

    Também estão com grandes espaços vagos o edifício Tower Bridge, ao lado da Ponte Estaiada, no Brooklin, o complexo corporativo do shopping JK Iguatemi, no Itaim, e a recém-concluída Torre Sul do São Paulo Corporate Towers, também no Itaim, que ainda não ocupou nenhum dos seus 30 andares.

    G1 pediu para visitar os espaços disponíveis nestes prédios, mas os proprietários ou administradores não autorizaram e não quiseram comentar o ritmo de ocupação nestes empreendimentos.

    A EZ Towers foi a única que autorizou fotos no interior do empreendimento e dos espaços vazios. Na Torre B, inaugurada no ano passado, a área ocupada ainda é inferior a 60%. Por enquanto, são apenas 2 inquilinos: Amil e Coca-Cola.

    Sala vazia no edifício EZ Tower - torre B, na Chácara Santo Antônio, Zona Sul de São Paulo (Foto: Fábio Tito/G1)Sala vazia no edifício EZ Tower - torre B, na Chácara Santo Antônio, Zona Sul de São Paulo (Foto: Fábio Tito/G1)

    Sala vazia no edifício EZ Tower – torre B, na Chácara Santo Antônio, Zona Sul de São Paulo (Foto: Fábio Tito/G1)

    Ainda que a vacância seja um assunto tabu para as incorporadoras e investidores, as placas de aluga-se, os letreiros vazios nas recepções e os andares às escuras nos prédios dão uma dimensão do tamanho do encalhe.

    O grande número de espaços vazios reflete o descompasso entre a aposta dos investidores e a evolução da atividade econômica do país. Muitos dos prédios ociosos começaram a ser erguidos no começo da década de 2010, quando a economia brasileira ia bem, havia uma demanda crescente novos escritórios, pouca oferta e preços de aluguel em alta. Como as construções costumam levar de 5 a 6 anos, muitos prédios erguidos em meio à euforia desenfreada do setor imobiliário acabaram ficando prontos em plena recessão.

     

    Rio de Janeiro

     

    No Rio, a estimativa dos analistas é de que a taxa de vacância possa aumentar em, pelo menos, 6% ao término do primeiro trimestre deste ano. O aumento será puxado pela devolução dos dois edifícios antes ocupados pela Petrobras, além da entrega do Passeio Corpore – centro empresarial que conta com três torres integradas e um mall – no Centro.

    Olhando de fora, o Passeio Corpore está totalmente desocupado. O edifício ainda passa por obras no térreo, embora a informação da Construtora Dominus indique 100% de finalização do projeto. A administração do empreendimento é do Banco Opportunity, que até a publicação desta reportagem não respondeu aos questionamentos do G1.

    Edifício no Rio de Janeiro (Foto: Daniel Silveira / G1)Edifício no Rio de Janeiro (Foto: Daniel Silveira / G1)

    Edifício no Rio de Janeiro (Foto: Daniel Silveira / G1)

    Outro gigante de alto padrão que, segundo fontes do mercado, segue completamente vazio na região Central do Rio é o Eco Sapucaí. Projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, ele está localizado ao lado do Sambódromo e tem classificação AAA (triple A).

    Edifício Eco Sapucaí, no Rio de Janeiro (Foto: Daniel Silveira / G1)Edifício Eco Sapucaí, no Rio de Janeiro (Foto: Daniel Silveira / G1)

    Edifício Eco Sapucaí, no Rio de Janeiro (Foto: Daniel Silveira / G1)

    Com quase 5 mil metros quadrados, 17 pavimentos e heliporto, o Eco Sapucaí chegou a ser cotado pelo governo do estado para sediar todos os órgãos estaduais no mesmo local. A penúria financeira impediu que o intento fosse levado adiante.

    Já a Zona Portuária do Rio, que sofreu intenso processo de revitalização em função da realização da Olimpíada, era apontada pela prefeitura como principal aposta para instalação de um novo polo empresarial na cidade. O primeiro grande empreendimento construído na região foi o Port Corpore Tower.

    Port Corpore Tower, no Rio de Janeiro (Foto: Daniel Silveira / G1)Port Corpore Tower, no Rio de Janeiro (Foto: Daniel Silveira / G1)

    Port Corpore Tower, no Rio de Janeiro (Foto: Daniel Silveira / G1)

    À época de sua inauguração, em 2014, o então prefeito Eduardo Paes disse que se tratava do “primeiro presente que a cidade ganha nessa revitalização”. Até hoje, segundo fontes do mercado, ele segue ocupado apenas pela empresa que o construiu – a Tishman Speyer, responsável por empreendimentos como o Rockfeller Center, em Nova York, e CBX Tower, em Paris.

     

    Devoluções de espaços

     

    O professor da Poli/USP e especialista em mercado imobiliário João da Rocha Lima Junior, destaca que o número de devoluções também contribui para a vacância ser recorde. “A economia retraída provocou uma não demanda e o aumento dos espaços vazios por causa das movimentações das empresas, seja para reduzir espaço, seja para fazer migração”, afirma.

    Com a crise, muitas empresas acabaram reduzindo o quadro de funcionários, fechando escritórios e até mesmo devolvendo andares ou prédios inteiros. A Petrobras, por exemplo, concluiu em fevereiro a devolução de 2 prédios inteiros no Centro do Rio de Janeiro – os edifícios Torre Almirante e Castelo – em meio à reestruturação e enxugamento impostos após a detonação da operação Lava Jato. “A força de trabalho foi transferida para prédios já em uso pela Petrobras e não houve locação de área nova”, explicou a estatal, em nota.

    Segundo os dados da Buildings, o mercado total de imóveis comerciais registrou no ano passado, pela primeira vez desde 2010, absorção líquida (balanço entre espaços ocupados e devolvidos) negativa tanto no Rio (-29 mil m2) como em São Paulo (-84 mil m2). Ou seja, a área total devolvida superou a área contratada para ocupação.

    Com a virada do mercado, as construtoras e incorporadoras colocaram o pé no freio e interromperam os lançamentos. Em 2016, o volume de área corporativa em construção somou cerca de 650 mil m² em São Paulo, caindo para cerca de metade da média dos anos anteriores.

    Sala vazia no edifício EZ Tower - torre B, na Chácara Santo Antônio, Zona Sul de São Paulo (Foto: Fábio Tito/G1)Sala vazia no edifício EZ Tower - torre B, na Chácara Santo Antônio, Zona Sul de São Paulo (Foto: Fábio Tito/G1)

    Sala vazia no edifício EZ Tower – torre B, na Chácara Santo Antônio, Zona Sul de São Paulo (Foto: Fábio Tito/G1)

    O PIB (Produto Interno Bruto) da construção civil como um todo no país caiu 5,2% em 2016, segundo o IBGE, contribuindo para a pior recessão da história do Brasil. Em 2015, o setor já havia recuado 6,5%.

    “O setor imobiliário tem enfrentado uma situação sem precedentes de devolução de imóveis, com penalidades aplicadas aos incorporadores que, neste momento, colocam em pausa qualquer programa de novos investimentos que possibilitam retomada da atividade econômica e do emprego no curto prazo, afirma Emílio Fugazza, diretor financeiro e de relação com investidores da Eztec.

    No edifício Central Vila Olímpia, em São Paulo, 7 dos 14 andares ainda não estão totalmente ocupados (Foto: Fábio Tito/G1)No edifício Central Vila Olímpia, em São Paulo, 7 dos 14 andares ainda não estão totalmente ocupados (Foto: Fábio Tito/G1)

    No edifício Central Vila Olímpia, em São Paulo, 7 dos 14 andares ainda não estão totalmente ocupados (Foto: Fábio Tito/G1)

     

    Risco de bolha mais à frente

     

    Segundo pesquisa da Cushman & Wakefield, está prevista para 2017 a entrega de mais 203 mil m² de espaços corporativos de alto padrão em São Paulo e de mais 175 mil m² no Rio.

    Pelas previsões dos analistas, as taxas de vacância em SP e no Rio devem começar a cair a partir de 2018, na medida em que também deve recuar significativamente o volume de construções e entregas.

    “2017 é o fundo do vale. A partir de 2018 deveremos estar em recuperação dos preços de aluguéis”, avalia Lima Junior. O professor da USP alerta, entretanto, para o risco de uma disparada nos preços a partir de 2020 caso não ocorra desde já uma nova leva de lançamentos.

    “Os investidores nesse momento estão totalmente recuados. Sem novos projetos, quando chegar 2021, 2022 vai ter uma demanda forte e não vai ter oferta. E é muito provável que os aluguéis sofram uma bolha”, afirma.

    Um novo ciclo de expansão imobiliária só é esperado para a partir de 2022, após a absorção do atual estoque. Construtoras e incorporadoras vem cobrando uma regulamentação sobre a questão do distrato após a compra de imóveis de forma a conter as compras puramente especulativas e permitir maior segurança jurídica para a retomada de lançamentos e vendas.

    “Por enquanto, perde também o consumidor, que sem contar com novos produtos em lançamento, verá os estoques diminuírem e uma possível elevação de preços nos próximos anos”, afirma Fugazza, da Eztec.

    Letreiro na recepção do Centrral Vila Olímpia indica os andares que ainda não foram ocupados (Foto: Fábio Tito/G1)Letreiro na recepção do Centrral Vila Olímpia indica os andares que ainda não foram ocupados (Foto: Fábio Tito/G1)

    Letreiro na recepção do Centrral Vila Olímpia indica os andares que ainda não foram ocupados (Foto: Fábio Tito/G1)

    O gerente de pesquisa e inteligência de mercado da Cushman & Wakefield, Gustavo Garcia, prevê que o mercado deva voltar a uma situação de maior equilíbrio entre oferta e procura somente a partir de 2020 e recomenda cuidado e planejamento para as empresas que decidiram aproveitar o momento favorável para dar um upgrade no escritório.

    “Dependendo do tempo do contrato, os inquilinos precisam prestar atenção na curva de volta do mercado”, alerta o especialista, citando o risco de daqui a alguns anos as empresas não conseguirem renovar os aluguéis pelo preço desejado e terem maior dificuldade de barganhar ou encontrar outra opção.

    Ele explica que a partir de uma ocupação de 50% um empreendimento corporativo já costuma operar sem prejuízo e que, com a desaceleração do ritmo de novas entregas e retomada da economia, a tendência é de redução dos descontos e alta dos preços, mesmo em meio a uma vacância ainda acima do chamado ponto de equilíbrio – algo entre 10% e 15%.

    “Não temos mais um grande volume de prédios em construção. A partir de 2020, não teremos mais prédios inteiros vazios. Então, o inquilino terá mais dificuldade para mudar”, afirma Garcia.

    Ou seja, os descontos de hoje podem acabar sendo pagos pelos inquilinos de amanhã.

    Na Torre B da EZ Tower, inaugurada no ano passado, Amil e Coca-Cola são os únicos inquilinos até o momento (Foto: Fábio Tito/G1)Na Torre B da EZ Tower, inaugurada no ano passado, Amil e Coca-Cola são os únicos inquilinos até o momento (Foto: Fábio Tito/G1)

    Na Torre B da EZ Tower, inaugurada no ano passado, Amil e Coca-Cola são os únicos inquilinos até o momento (Foto: Fábio Tito/G1)

    Fonte: G1

    Com crise, desigualdade no país aumenta pela primeira vez em 22 anos

    A desigualdade voltou a aumentar no país. Ao atingir patamares recordes em 2016, o desemprego fez com que a disparidade da renda domiciliar per capita no Brasil registrasse o primeiro aumento em 22 anos, desde o início do Plano Real, mostra o índice de Gini calculado pela FGV Social. O indicador — que varia de zero a um e que, quanto mais perto de zero estiver, mais igual é a sociedade — chegou a 0,5229 no ano passado, alta de 1,6% em relação ao ano anterior. Com o resultado, o Brasil voltou três anos no tempo e anulou a redução da desigualdade registrada em 2014 e 2015.

    — Além do aumento do desemprego, tem a inflação corroendo a renda média. O desemprego se tornou sério porque aumentou, mas também porque é de longa duração. A pessoa fica desempregada e demora a sair da situação — analisa o economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

    Segundo Neri, o aumento na desigualdade registrado no ano passado preocupa principalmente porque o bolo a ser dividido não só encolheu, mas murchou para os mais pobres. Além do custo social, o economista observa que os efeitos sobre esse grupo são muito ruins para a economia, pois os mais pobres comprometem a maior parte da renda com consumo. Eles são, portanto, parte importante na demanda que tanto se espera destravar para que a atividade econômica brasileira volte a crescer.

    — Estamos andando para trás em justiça social. Em 2015, apesar de o índice de Gini ter ficado estável, a renda dos 5% mais pobres já havia caído 14%, e a pobreza, aumentado 19,3%. O resultado de 2016 penalizando este grupo novamente é uma desgraça. Se os mais pobres estão perdendo mais, as empresas vendem menos. A queda do consumo é mais forte quando a desigualdade aumenta. Programas voltados aos mais pobres, como o Bolsa Família, têm um impacto multiplicador sobre a demanda da economia três vezes maior que o da Previdência ou o do FGTS — exemplifica o diretor da FGV Social.

    MAIS POBRES SÃO OS MAIS PENALIZADOS

    Manuel Thedim, economista do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), não se surpreende com esses dados:

    — Quem perde o emprego primeiro na recessão são os mais pobres e menos escolarizados, logo, o de menor produtividade. Um economista, na década de 1950, conseguiu comprovar que renda, escolaridade e produtividade têm uma correlação forte. Quem tem mais anos de estudo terá mais renda do que quem tem menos anos de estudo. Se o desemprego tivesse atingido os mais ricos, a desigualdade teria caído.

    Ele lembra que, quando esse trabalhador consegue uma recolocação em meio à crise, é em uma ocupação inferior:

    — São pessoas que vão deixar, por exemplo, de ser vendedores de sapato e, para sobreviver, vão virar ambulantes. Além do desemprego, há a perda da qualidade do posto de trabalho para um grande grupo.

    Marcelo Lima de Carvalho, de 34 anos, é um desses cidadãos afetados pela queda na renda. Desempregado há quatro meses, o morador do Caju, Zona Norte do Rio, mantém a rotina de sair de casa às 5h30m, como quando trabalhava como garçom.

    — Minha mulher está empregada, mas tivemos que cortar pela metade quase todas as coisas lá em casa. Cortamos TV a cabo, plano de saúde. Procuro emprego todos os dias. Passo o dia todo na rua, só paro de procurar alguma coisa lá pela 18h. Fiquei sem dinheiro, dependo dos bicos que as pessoas me arrumam, como pintor. Nessa crise, a gente aceita o que vier. Na minha família, meu primo e meus irmãos também estão sem emprego — comenta.

    Com a taxa de desemprego em 12,3%, atingindo 12,6 milhões de pessoas, difícil é não conhecer alguém nessa situação. E, quando a falta de emprego atinge um membro da família, não apenas o desempregado é afetado, mas toda a casa sente as consequências.

    — Minha irmã trabalhava em limpeza e perdeu o emprego há dois meses. Ela mora comigo, meu irmão e minha mãe. Sem o salário dela, ficamos sem uma renda em casa, e isso impactou muito a ajuda à minha mãe, que tem muitos problemas de saúde — conta Pierre de Oliveira Rodrigues, de 31 anos, que trabalha em suporte técnico.

    BEM-ESTAR CAI HÁ DOIS ANOS

    Para piorar o cenário, o indicador de bem-estar medido pela FGV Social, que observa os efeitos do crescimento da renda, do somatório geral e a dinâmica da sua divisão junto às diferentes classes, cai há dois anos.

    — A crise se instalou no mercado de trabalho e no bolso do brasileiro no fim de 2014. No primeiro ano, a queda de renda puxou a piora do bem-estar, pois a desigualdade ficou estável. Já a partir de 2016, a perda se dá nas duas pontas: o bolo de renda cai e atinge mais fortemente os pobres — explica Neri.

    Mas há uma boa notícia, ressalta o economista da FGV Social. Apesar do aumento forte da desigualdade em todos os trimestres de 2016, a queda na renda média real vem desacelerando. Nas contas de Neri, no último trimestre do ano passado, a renda média registrou, em relação ao mesmo período de 2015, a oitava queda seguida. No entanto, a variação do recuo já havia caído pela metade em relação ao segundo trimestre de 2016. Enquanto no período de abril a junho, a renda encolheu 6%, em relação aos mesmos três meses de 2015, no quarto trimestre de 2016, a queda foi de 2,8%.

    — A queda da renda está perdendo força. Ainda não está no azul, mas está convergindo para uma estabilidade, ainda este ano, porque a inflação está desacelerando — completa Neri.

    Pouco mais de um ano foi o tempo suficiente para Rosimaria Rodrigues de Santana Amorim deixar o programa Bolsa Família. Há quase uma década, ela deu “baixa” no cartão porque conseguiu emprego como auxiliar de serviços gerais. O marido, Wagner Amorim, também passou a trabalhar de ajudante de pedreiro com carteira assinada. A renda do casal que mora em Planaltina de Goiás, mais conhecida como “Brasilinha” devido à proximidade de 60 km com a capital federal, permitiu financiar uma casa popular, comprar móveis modestos, ter eletrodomésticos e fazer um agrado vez por outra para os dois filhos, que adoram pizza e sonham com um tablet.

    Após o nascimento do mais novo, Enzo, de três anos, que tem crises de asma e fica frequentemente internado, Rosimaria saiu do emprego para cuidar do menino. O setor de construção e reforma ainda estava em alta e o salário do marido, em torno de R$ 1 mil, era suficiente para as necessidades da casa. Em 2014, porém, a firma onde Wagner trabalhava fechou. A família continuou vivendo dos bicos que ele arranjava com frequência. Mas, no fim do ano passado, até os serviços temporários sumiram. O jeito foi recorrer novamente ao Bolsa Família.

    — Nunca pensei que a gente ia passar por essa situação. A crise chegou mesmo aqui em casa. O Bolsa Família é a nossa única renda desde setembro — conta Rosimaria.

    Apesar da perplexidade, Rosimaria não está sozinha. No Brasil, mais de meio milhão de famílias que haviam saído do Bolsa Família até 2011 reingressaram no programa apenas no ano passado. Foram, mais exatamente, 519.568 retornos em 2016. O número é superior ao de 2015, quando houve o primeiro salto, com a reinclusão de 423.668 famílias. Antes disso, o movimento de volta ao programa era bem menos intenso: 104.704 famílias em 2014, 186.761 em 2013 e 164.973 em 2012, segundo dados inéditos do Ministério do Desenvolvimento Social obtidos pelo GLOBO.

    Para o sociólogo Elimar Nascimento, professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador na área de políticas públicas e desenvolvimento sustentável, a explosão do desemprego a partir de 2015 é o principal responsável pelo retorno da população à pobreza.

    — Nos últimos dois anos de recessão, o desemprego explica por que as pessoas estão voltando ao Bolsa Família, que é um paliativo, não resolve o problema da pobreza. Só com a retomada do crescimento esse movimento pode ser superado, não existe mágica a ser feita — afirma o pesquisador.

    Os dados gerais, sem distinção entre quem já foi ou não beneficiário do programa, mostram que a demanda pelo Bolsa Família cresceu 33% nos dois últimos anos. Em 2015, 1,2 milhão de famílias foram habilitadas a receber o benefício por atender aos requisitos de baixa renda, ou 105 mil famílias por mês. Em 2016, a média mensal bateu 141 mil, totalizando 1,6 milhão de famílias cadastradas ao longo do ano.

    A fila de espera para o Bolsa Família chegou a janeiro deste ano com 463,9 mil famílias. Na última semana do mês, o governo anunciou ter conseguido incluir quem aguardava. O saldo de habilitados hoje conta com 1.898 famílias.

    Essa diminuição significativa da fila só foi possível por causa do pente-fino feito no segundo semestre do ano passado e o reforço nas fiscalizações de rotina, que culminaram no desligamento de milhares de famílias do programa. Ao longo de 2016, 3 milhões de famílias tiveram o benefício cancelado, por não atender aos requisitos exigidos, ao mesmo tempo em que 2,4 milhões foram contempladas. Por isso, sem aumentar a cobertura de 13,5 milhões de famílias atendidas no total, o governo chegou perto de zerar a fila.

    O governo estuda dar um reajuste no benefício com base na inflação medida entre julho de 2016 e julho de 2017, que deve oscilar de 4% a 5%. O valor médio pago às 13,5 milhões de famílias atendidas hoje — que reúnem cerca de 50 milhões de pessoas — é de R$ 182. A quantia pode ser maior ou menor conforme a renda da família, o número de dependentes, entre outros fatores.

    Com o benefício mensal de R$ 341 que recebem do programa, Rosimaria, de 30 anos, e Wagner, de 25, se desdobram para pagar as contas básicas, como água e luz. A família recebe ajuda de parentes para a alimentação. A mulher até brinca com o fato de há meses não frequentar um supermercado:

    — Acho que vou até me perder quando entrar num mercado de novo. Minha despensa hoje só tem o básico e tudo é dado pelos parentes.

    A preocupação maior do casal, no momento, é garantir o pagamento do financiamento da casa popular que compraram num programa habitacional do governo. O pai de Wagner, pensionista, auxilia como pode. Mas a 55ª e 56ª parcelas — de um total de 300 — devidas para a Caixa Econômica estão atrasadas. O valor da prestação é de aproximadamente R$ 500. Com o extrato nas mãos, Wagner explica por que a dívida tira o sono dele:

    — Se atrasar três parcelas, tomam a casa da gente. Eu nunca passei por um tempo tão difícil para arranjar serviço.

    Se a casa se tornou a maior preocupação do casal, ela é o motivo de eles não terem retornado para Socorro do Piauí, cidade natal dos dois.

    — A gente lutou tanto para ter essa casa que a gente não quer deixar isso para trás — diz Rosimaria.

    Rosa por fora e verde por dentro, a habitação de três quartos é modesta mas confortável. A cobertura de cerâmica do piso do quintal está pela metade. Depois que o orçamento apertou, Wagner não teve como comprar a argamassa. Na janela de um dos quartos, repousam as botas encardidas usadas para trabalhar em obras.

    — Já faz tempo que estão aí, paradas — comenta Wagner, com ar desolado.

    Fonte: Extra

    Banco Mundial: Crise pode levar 3,6 milhões de brasileiros de volta à pobreza

    São consideradas abaixo da linha de pobreza pessoas que vivem com menos de R$ 140 por mês

    A crise econômica poderá levar até 3,6 milhões de brasileiros para abaixo da linha de pobreza até o fim do ano. A estimativa é do Banco Mundial, que divulgou estudo referente ao impacto da recessão sobre o nível de renda do brasileiro. A projeção considera que a economia encolherá 1% no segundo semestre de 2016 e no primeiro semestre deste ano (ano-fiscal 2016/2017).

    Num cenário mais otimista, que prevê crescimento de 0,5% da economia nesse período, o total de pobres subiria em 2,5 milhões, segundo o Banco Mundial.

    Pelos critérios do estudo, são consideradas abaixo da linha de pobreza pessoas que vivem com menos de R$ 140 por mês. Segundo o Banco Mundial, a maior parte dos “novos pobres” virá das áreas urbanas. O aumento da pobreza na zona rural, segundo o estudo, será menor porque as taxas de vulnerabilidade já são elevadas no campo.

    Bolsa Família

    O estudo também avaliou o impacto do aumento da pobreza no Programa Bolsa Família. De acordo com o Banco Mundial, 810 mil famílias passariam a depender do benefício no cenário mais otimista (crescimento econômico de 0,5%) e 1,16 milhão na previsão mais pessimista (queda de 1%).

    Atualmente, o Bolsa Família tem 14 milhões de famílias cadastradas, informa o Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário.

    O Banco Mundial recomenda a expansão do Bolsa Família para fazer frente à crise. “A profundidade e duração da atual crise econômica no Brasil cria uma oportunidade para expandir o papel do Bolsa Família, que passará de um programa redistributivo eficaz para um verdadeiro programa de rede de proteção flexível o suficiente para expandir a cobertura aos domicílios de ‘novos pobres’ gerados pela crise”, destacou o estudo.

    De acordo com o Banco Mundial, o Brasil conseguiu construir uma das maiores redes de proteção social do mundo. A instituição recomenda que o orçamento do Bolsa Família cresça acima da inflação para ampliar a cobertura e atender a um número crescente de pobres. No cenário mais otimista, o programa deveria subir 4,73% acima da inflação acumulada entre 2015 e 2017. Na previsão mais pessimista, a alta deveria ser 6,9% superior à inflação.

    Em termos nominais, o orçamento do Bolsa Família subiria de R$ 26,4 bilhões no fim de 2015 para R$ 30,41 bilhões este ano na simulação que considera crescimento econômico e para R$ 31,04 bilhões no caso de um novo encolhimento da economia. O estudo não considerou o efeito da introdução do teto para os gastos públicos, que entrou em vigor este ano, mas avalia que o ajuste fiscal não seria comprometido com a ampliação do Bolsa Família.

    “O ajuste fiscal que vem sendo implementado no Brasil pode ser alcançado praticamente sem onerar ou onerando muito pouco a população pobre”, destacou o Banco Mundial. “A despeito das limitações no espaço fiscal a médio prazo, existe uma grande margem para ampliar o orçamento para os elementos mais progressivos da política social, remanejando verbas de programas de benefícios e melhorando a eficiência do gasto público.”

    Fonte: O Dia

    Brasileiro só vai recuperar padrão de compras daqui a quatro anos

    Economia deve iniciar recuperação em 2017, mas impacto da recessão no consumo será mais longo

    Casal faz compras em shopping do Rio – Guilherme Pinto-15-6-2016

    — É um ciclo econômico natural e um processo longo de recuperação até que se reverta em ampliação do consumo. O consumo das famílias só volta ao patamar pré-crise em 2020, mas com mais certeza em 2021 — avaliou Rafael Bacciotti, economista da Tendências Consultoria.

    Carro-chefe dos últimos anos de crescimento da economia, o consumo perdeu fôlego com a maior seletividade dos bancos na concessão de crédito e com o aumento do desemprego. E o resultado mais visível dessa deterioração foi a queda nas vendas de bens e serviços. Segundo especialistas, o consumo de bens considerados prioritários, como itens de supermercado que foram colocados de lado, deve se recuperar até 2018. Já os produtos de maior valor vão demorar mais para voltar aos níveis mais elevados de demanda. Há segmentos, como o de automóveis, em que se espera que isso só ocorra em 2025, já que o consumidor precisará de crédito e da confiança de que não perderá o emprego para assumir financiamentos.

    CESTA DE CONSUMO MENOR

    O PIB brasileiro atingiu valor recorde em 2014, mesmo ano em que o consumo das famílias também foi histórico, totalizando R$ 3,989 trilhões. De lá para cá, corrigido pela inflação, esse número só diminuiu e regressará àquele patamar em 2020, segundo cálculos de Rodolfo Margato, economista do Banco Santander.

    — O cenário ainda é desafiador para o consumo das famílias. Será uma melhora bastante gradual. Em 2017, esse componente deve apresentar, no máximo, um leve crescimento. Isso porque é um dado que depende muito do mercado de trabalho, e o que vimos nos últimos anos foi uma destruição de vagas no mercado formal. A taxa de desemprego vai subir até o segundo trimestre do ano que vem — avaliou Margato.

    Sem emprego, a renda das famílias cai, o que dificulta novas aquisições. Aliado a isso, temendo o aumento da inadimplência, os bancos ficam mais restritivos em conceder empréstimos. Cenário que fez com que o consumidor fosse tirando produtos do carrinho de compras e adiasse a aquisição de bens de maior valor.

     

    Das cestas de produtos acompanhados pela consultoria Kantar Worldpanel, o melhor ano em número de unidades consumidas foi 2014, mas declinou desde então. E os itens com maiores perdas, segundo Christine Pereira, diretora de negócios da Kantar, foram os de maior valor, como ceras para assoalho e cremes — ou seja, foram postos de lado itens não essenciais à manutenção da casa.

    — Veremos alguma recuperação em 2017. E os itens básicos são os primeiros que respondem em um processo de aquecimento da economia. Mas a volta ao que foi em 2014, será possível só em 2018 — disse Christine.

    E as vendas de produtos que dependem mais de crédito, como eletroeletrônicos e veículos, naturalmente levarão mais tempo para se recuperar. Não só devido ao crédito escasso, mas também porque o consumidor terá de retomar a confiança, recuperar o emprego e superar o temor do desemprego, o que está longe de acontecer. O índice de confiança do consumidor medido pela FGV está abaixo dos 80 pontos. Nos bons tempo do otimismo no Brasil, em 2012, passava dos 120 pontos.

    A crise da economia brasileira não poupou ninguém, mas foi mais dura com os mais pobres. A parcela dos 10% mais pobres da população teve redução de 7,1% nos rendimentos do trabalho. Na faixa dos 10% mais ricos, a queda foi de 5,9%, mostrando um efeito menos perverso para os que estão no topo da pirâmide de renda, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/2015), divulgada nesta sexta-feira, pelo IBGE. De acordo com o maior levantamento sócioeconômico do país, o rendimento do trabalho caiu 5% na média. Esse é primeiro recuo em 11 anos. O rendimento passou de R$ 1.950 para R$ 1.853 (-5%). Já o rendimento de todas as fontes, que inclui aposentadorias, recebimento de aluguéis, juros, benefícios sociais, entre outros, foi R$ 1.845 para R$ 1.746 (-5,4%), enquanto o domiciliar caiu de R$ 3.443 para R$ 3.186 (-7,5%)

    Embora na base da pirâmide a perda tenha sido maior, entre a metade mais pobre da população a queda da renda foi menor que entre os 50% mais ricos, o que levou à queda de desigualdade, num processo que vem desde 2001. O Índice de Gini (indicador que quanto mais perto de 1 mais concentrada é a renda) caiu de 0,490 para 0,485. Apesar da aparente boa notícia de redução da desigualdade, Maria Lucia Vieira, gerente da Pnad, explica que as razões não são tão positivas, já que há perda de renda em todas os grupos

    — A redução da concentração de rendimentos é boa quando vai ficando com uma situação mais homogênea para todos. Quando todo mundo perde, fica pior para todo mundo. Caiu, mas não melhorou a situação das pessoas.

     

    A queda da desigualdade foi menor quando se olha o rendimento da família. Nesse recorte, o Brasil ficou parado. Passou de 0,494 em 2014 para 0,493. O mesmo aconteceu na Região Norte (de 0,476 para 0,475) e na Região Nordeste (0,476 nos dois anos da pesquisa). No Sul, a desigualdade nos rendimentos domiciliares subiu de 0,446 para 0,449.

    CRISE TAMBÉM REDUZIU DESIGUALDADE DE GÊNERO

    A crise também poupou um pouco o rendimento das mulheres. O rendimento delas ficou 2,2% menor, passando de R$ 1.464 para R$ 1.432, enquanto o dos homens recuou 5,1% (de R$ 2.071 para R$ 1.965). Assim, o rendimento das mulheres que representava 70,6% do salário dos homens em 2014 subiu para 72,9% em 2015.

    Sétima queda seguida do PIB põe Brasil na lanterna das economias

    PIB do país agora aparece em último lugar numa lista de 40 países, segundo Austin Rating

      – Luiz Ackermann / Agncia O Globo
    A retração da economia brasileira no terceiro trimestre, de 2,9% em relação ao mesmo período de 2015, coloca o país na última posição em uma lista de 40 países que já divulgaram os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do trimestre passado, e que foram compilados pela Austin Rating.
     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    A Venezuela, que vive uma crise econômica ainda mais grave que a brasileira, vinha ocupando a lanterna desta lista nos trimestres anteriores, mas ainda não divulgou seus números do trimestre passado

    Na lista de 40 países analisados pela Austin, que representam 83% do PIB Mundial, o Brasil aparece atrás de economias como a Grécia (29ª na lista, com alta de 1,2% no PIB no terceiro trimestre), Ucrânia (que recupera-se de uma guerra civil, mas cresceu 1,8%).

    Entre os Brics (grupo das maiores economias emergentes) o país também ficou atrás da Rússia (a 38ª, com queda de 0,6% no PIB) e muito distante de Índia, com alta de 7,3%, e China, cujo PIB mesmo em desaceleração teve expansão de 6,7% entre julho e setembro. África do Sul, que completa o grupo dos Brics, ainda não divulgou seus números, segundo a Austin.

    Também em relação às economias latino-americanas o Brasil faz muito feio. O Peru, por exemplo, teve taxa de crescimento de 4,4% do PIB no triemstre passado, e figura na sexta posição na lista. O México, com expansão de 2%, é o 18º, o Chile, o 26º, com 1,6%, e a Colômbia, que cresceu 1,2%, na 30ª posição.

    A partir dos resultados do terceiro trimestre, a Austin Rating informou que revisou sua projeção para o PIB brasileiro de 2016, de uma retração de 3,1% para 3,5%. Já para 2017, a consultoria vai na contramão do mercado, que já trabalha com um PIB abaixo de 1%. A Austin revisou para 1,3% ante 1,1% estimado no trimestre anterior

    — A revisão para cima do PIB de 2017 recai sobre a perspectiva de melhora vigorosa dos fatores de produção a partir do segundo semestre de 2017, com destaque aos investimentos privados, bem como pela retomada do mercado de crédito com estímulo da queda da taxa de juros e início de recuperação do mercado de trabalho, além do efeito estatístico da base de comparação menor — diz Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.

    Agostini acrescentou que a melhora da economia brasileira no ano que vem está ligada às mudanças no cenário global:

    — Porém, a concretização de um cenário econômico melhor aqui em 2017 depende, em parte, das alterações que a economia global sofrerá a partir da mudança de política econômica nos Estados Unidos, que deve elevar a taxa de juros neste final de 2016 e que, por sua vez, altera a relação de preços dos ativos financeiros globais (moedas, ações, títulos soberanos, commodities, etc.), bem como o “efeito Trump” sobre as relações internacionais de comércio exterior.

      – Paulo Fridman / Bloomberg
     

     

     

     

     

     

     

     

     

    A taxa de investimento, um indicador importante para a atividade econômica do futuro, caiu ao menor nível em 13 anos no terceiro trimestre de 2016, informou nesta quarta-feira o IBGE. O volume total de investimentos registrado entre julho e setembro representou 16,5% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de riquezas e serviços produzidos pelo país), na comparação com 18,2% no terceiro trimestre de 2015. Foi o nível mais baixo desde o terceiro trimestre de 2003, quando atingiu 16,3% do PIB.

    O desempenho do investimento tem sido pior que o da economia como um todo. A formação bruta de capital fixo — jargão do IBGE para investimento — havia crescido 0,5% no segundo trimestre deste ano mas voltou a cair entre julho e setembro, recuando 3,1%. O PIB caiu 0,8%, por sua vez.

    Na comparação com o mesmo período de 2015, o tombo dos investimentos foi de 8,4%, a décima queda consecutiva. De acordo com o IBGE, a razão foi a queda das importações e da produção interna de bens de capital (máquinas e equipamentos), além do desempenho negativo do setor de construção. Na mesma comparação, o PIB recuou 2,9%.

    Fonte: O Globo e Extra

    Os portos do país foram afetados pela crise, mas, no Rio, o efeito foi mais intenso. Na média, os terminais portuários tiveram queda de 4% na movimentação de contêineres no ano passado. No Porto do Rio, o recuo foi três vezes maior e chegou a 15,6%, de acordo com dados do Centro Nacional de Navegação Transatlântica (Centronave). Em 2015, o Rio já havia tido queda de quase 20%.

    O recuo na movimentação tem impacto também na arrecadação. Dados da Secretaria de Transportes indicam que a arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) a partir da movimentação de carga no Porto do Rio passou de R$ 2,39 bilhões em 2014 para R$ 1,66 bilhão em 2015. Os dados de 2016 não estão fechados, mas fontes do setor portuário e do governo estimam queda entre R$ 800 milhões e R$ 1 bilhão, mesmo considerando que uma pequena parcela do mercado tenha sido conquistada pelo Porto de Itaguaí. Procurada, a Secretaria de Fazenda não faz projeções, embora destaque que o Porto do Rio correspondeu a cerca de 15% da arrecadação total de ICMS com importações no ano passado.

    OCIOSIDADE NA FAIXA DE 80%

    A perda de mercado do Porto do Rio é explicada por uma combinação de fatores. Os portos públicos vêm perdendo participação em contêineres para novos terminais privados criados após a lei de 2013 que facilita a instalação de portos privados, mas o Rio vem caindo mais. O nível de ociosidade média fica na faixa dos 80%, segundo o sindicato dos operadores portuários. Muitos dos novos portos são especializados em contêineres — nos quais são transportados produtos de maior valor agregado — com estrutura verticalizada, que facilita a negociação com armadores e tem vantagens em custos trabalhistas. Não bastassem os efeitos da crise, o Porto do Rio também sofre com problemas de dragagem no canal de acesso, que impedem a chegada de navios de grande porte, usados em rotas na América do Sul com mais frequência a partir de 2014. A Marinha impôs restrições a manobras. As maiores dimensões das embarcações que atracam em portos brasileiros são de 336 metros de comprimento por 48 metros de largura. No Rio, só podem chegar navios de até 300 metros de comprimento por 40 a 42 metros de largura.

     

    — A crise econômica não é a principal causa para a queda da movimentação nos últimos anos. O Porto do Rio é competitivo, tem custo menor para o armador, mas tinha esse problema da dragagem. Isso fez com que muitas empresas trocassem o porto por outros — afirma Luiz Henrique Carneiro, presidente do Sindicato dos Operadores Portuários e diretor-presidente da Multi-Rio, terminal de contêineres, e da Multi-Car, do grupo Multiterminais.

    A restrição do calado (profundidade mínima de água necessária para a embarcação flutuar) é barreira relevante, que pode impor risco aos navios ou atrasar operações. Hoje, 40% dos navios de grande porte que circulam na rota entre América do Sul e Ásia não podem atracar aqui, segundo Carneiro.

    — Esses problemas vêm gerando dificuldades para os grandes navios cargueiros, inclusive em custos operacionais, como a necessidade de mais rebocadores a cada manobra de atracação ou desatracação — disse Claudio Loureiro de Souza, diretor-executivo do Centronave, que reúne 22 armadores, brasileiros e internacionais, responsáveis por 95% da carga em contêineres do comércio exterior brasileiro.

    PELO PORTO DO RIO

    • Porto do Rio pretende aumentar movimentação com obras de dragagem Foto: Fernando Lemos / Agência O Globo

    • Capacidade de movimentação de carga no porto aumentou em cinco vez Foto: Fernando Lemos / Agência O Globo

    • Empresas privadas que operam terminais investiram cerca de R$ 1 bilhão em sua ampliaçãoFoto: Fernando Lemos / Agência O Globo

    • Movimentação de carga gerou cerca de R$ 900 milhões em ICMS no ano de 2016 Foto: Fernando Lemos / Agência O Globo

    • Exportação de carros aumentou 13% no ano passado, segundo o terminal de carros do Porto, a Multi-CarFoto: Fernando Lemos / Agência O Globo

    • Porto fez obra de dragagem para receber navios de maior porte Foto: Fernando Lemos / Agência O Globo

    • Foram exportados 95 mil veículos em 2016 pelo Porto do Rio Foto: Fernando Lemos / Agência O Globo

    Loureiro, da Centronave, resume os problemas do terminal em quatro fatores: sofrível sistema de acesso terrestre, crise do setor de petróleo e gás, segurança no estado e problemas de acesso marítimo ao porto, notadamente a dragagem. Entre os terminais que estão roubando participação do Rio e, por consequência, aquecendo as economias em suas regiões estão aqueles localizados em Santa Catarina, como Itajaí e Navegantes, o que mais cresceu no ano passado.

    Para Riley Rodrigues, gerente de Estudos de Infraestrutura da Firjan, o porto do Rio tem vantagens como localização, proximidade dos locais de origem e destino das encomenda e tempo menor de liberação de cargas quando é necessária vistoria física. Em dados que serão publicados pela Firjan, ele diz que o tempo médio de liberação no Rio é de 12 dias, contra 15 de Santos:

    — Três dias fazem grande diferença porque a carga pode chegar ao destino antes ainda de sair de Santos, mesmo com o trânsito.

    OBRA DE DRAGAGEM PARA RECONQUISTAR MERCADO

    Segundo o presidente do Sindicato dos Práticos do Estado do Rio (especialistas que fazem as manobras para a atracação dos navios nos portos), Everton Schmitd, a maior dificuldade atual é que a área de manobra é estreita: o navio tem de entrar de frente no terminal e, depois, ser manobrado com a ajuda de, no mínimo, dois rebocadores:

    — O que faltava era a dragagem. Não adiantava só aumentar a profundidade, mas também alargar o canal. A manobra é mais demorada e complexa por causa da geografia da região, mas os práticos sabem fazer isso bem.

    Em 2011, o porto passou por obras de dragagem, mas elas não tiveram o efeito esperado. No mês passado, foram concluídas novas obras e o terminal aguarda a homologação da Marinha. Carneiro estima que o porto poderá receber navios de grande porte no 2º semestre.

    — O porto poderá receber navios que transportam até 10.000 TEU (medida usada para calcular volume em contêiner), enquanto antes só podia receber navios com cerca de 6.000 TEU. Quase dobra a capacidade — disse, destacando que as empresas privadas que operam os terminais investiram quase R$ 1 bilhão nos últimos anos.

    A dragagem também cria expectativa do ponto de vista do recolhimento de tributos. A Secretaria de Fazenda avalia que a obra pode “atrair novas empresas ao estado, ao facilitar o transporte de mercadorias, o que poderia gerar aumento na arrecadação de ICMS”.

    Segundo o presidente da Associação dos Usuários dos Portos do Rio (Usuport-RJ) e da Comissão Permanente para Assuntos Portuários da Prefeitura do Rio de Janeiro (CPAP-Rio), André de Seixas, após a dragagem, ainda existirá o gargalo rodoviário:

    — Precisamos, ainda, equacionar os acessos terrestres, e isso vem sendo prioridade na comissão. Temos pela frente, de forma bem concreta, dois grandes projetos: a Via Alternativa e Avenida Portuária.

     

    Segundo Carneiro, a EcoPonte deve construir o viaduto que ligará a Avenida Brasil, na altura de Manguinhos, até o Porto do Rio, a chamada Avenida Portuária. A obra tem previsão de conclusão até 2020. Isso reduziria o fluxo de caminhões no fim da Avenida Brasil. O Sindicato dos Operadores Portuários negocia com governos federal, estadual e municipal a construção da Via Alternativa, por ruas internas do Caju até o Porto. A primeira fase foi feita há alguns anos. Falta concluir a segunda etapa. O gasto estimado é de R$ 80 milhões.

    Especialistas apontam a falta de segurança e conservação das rodovias de acesso, além do trânsito na Avenida Brasil em horários de pico. Para Nilson Carlini, consultor do setor, a localização urbana é um entrave para o Porto do Rio, que dificulta o acesso em terra e limita sua expansão.

    Outras entidades do setor, como a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e Associação Brasileira dos Terminais de Contêineres de Uso Público (Abratec), adotam metodologia própria, mas seus dados também apontam recuo no movimento de contêineres do Rio, em 2016. O Porto do Rio é administrado por Docas, que não quis comentar o assunto.

    Fonte: O Globo

    Com eleição de Trump, cisão nos Estados Unidos

    13/11/2016

     

    Trump promete expulsar dois a três milhões de imigrantes

    Donald Trump está preparado para expulsar imediatamente dos Estados Unidos dois a três milhões de imigrantes sem documentos. A revelação foi feita pelo Presidente eleito dos EUA, numa entrevista que vai ser emitida neste domingo pela CBS News.

    O Presidente-eleito norte-americano diz ainda que o muro que pretende construir na fronteira com o México pode ser parcialmente uma vedação, como foi sugerido por alguns congressistas republicanos. “Em algumas áreas sim, mas noutras é mais apropriado construir um muro”, afirmou Trump, ao programa 60 Minutes. “Sou bom nesta área, chama-se construção”, disse o empresário do sector do imobiliário e construção civil, citado pela CBS News.

    No entanto, Newt Gingrich, o antigo speaker republicano da Câmara dos Representantes e agora próximo de Donald Trump, citado como um dos nomes possíveis para ocupar o posto de secretário de Estado, sugeriu que o muro não seria pago pelo México. Essa ideia foi uma “super ferramenta de campanha”, disse.

    Trump chegou a ameaçar taxar as remessas dos imigrantes mexicanos, o dinheiro que mandam para casa, para financiar a construção do muro entre os EUA e o México para controlar a imigração.

    Quanto aos cerca de 11 milhões de migrantes que vivem nos Estados Unidos sem documentos de residência legais – e que foram parte central da sua campanha para a presidência – prometeu agir rapidamente contra os que tiverem cadastro, contra os “bad hombres”.

    “O que vamos fazer é apanhar as que tenham registo criminal, os membros de gangues, os traficantes de droga. Provavelmente dois milhões, podem ser até três milhões, destas pessoas vão ser deportadas, ou presas”, afirmou. “Vamos tirá-las do nosso país, estão cá ilegalmente”, prometeu.

    “Depois de a fronteira ficar segura”, disse, “os serviços de imigração vão começar a determinar” o que fazer com os restantes imigrantes sem documentos que estão nos EUA. “É muito importante, vamos garantir a segurança da nossa fronteira.”

    Fonte: O Público

    EUA têm novos protestos contra Donald Trump neste sábado

    Manifestantes marcharam até as Trump Towers em Chicago e Nova York.
    Cineasta Michael Moore estava entre a multidão.

    Imagem publicada no Twitter mostra manifestação contra Trump na 5ª Avenida (Foto: Reprodução/Twitter/Brian Oliver)Imagem publicada no Twitter mostra manifestação contra Trump na 5ª Avenida (Foto: Reprodução/Twitter/Brian Oliver)

    Um novo protesto contra Donald Trump acontece na tarde deste sábado  (12) em Nova York. Os manifestantes caminharam pela famosa 5ª Avenida. A polícia divulgou um alerta para que motoristas evitem a área. O documentarista Michael Moore aparecia em fotos nas redes sociais em meio ao protesto. Pelo menos em Chicago e Los Angeles também há manifestações.

    Em Los Angeles, mais de 8.000 pessoas tomaram as ruas m uma passeata organizada por organizações imigrantes locais para expressar sua rejeição à eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

    Em Nova York, o cineasta Michael Moore entrou no edifício Trump Tower de Manhattan para tentar falar com o presidente eleito, Donald Trump, mas agentes do serviço secreto lhe impediram de subir até os escritórios do magnata nova-iorquino.

    “Senhor Trump, estou aqui, quero falar com o senhor”, escreveu o polêmico diretor em uma breve nota que conseguiu entregar ao porteiro do edifício, durante um protesto do qual participaram centenas de pessoas em frente ao arranha-céu do empresário.

    A noite de sexta já havia sido agitada nos EUA, quando milhares de manifestantes levaram às ruas suas frustrações com Trump como novo presidente.

    Pela terceira noite consecutiva, os protestos ocorreram em diversas cidades, incluindo Portland, no Oregon, onde uma pessoa foi baleada. 

    Michael Moore chega à Trump tower de Nova York neste sábado (12) (Foto: Eduardo Munoz/Reuters)Michael Moore chega à Trump tower de Nova York neste sábado (12) (Foto: Eduardo Munoz/Reuters)

    Também fora do território americano houve protesto neste sábado: pessoas reuniram-se em frente à embaixada dos Estados Unidos em Berlim, para protestar contra Trump, e seu propósito de erguer um muro na fronteira com o México, à imagem do que dividiu a capital alemã durante a Guerra Fria.

    Manifestantes protestam contra eleição de Donald Trump neste sábado (12) em Los Angeles (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)Manifestantes protestam contra eleição de Donald Trump neste sábado (12) em Los Angeles (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)

    A concentração tinha sido convocada pelas redes sociais sob o lema de “Berlin against Trump” (“Berlim contra Trump”) e se seguiu a um ato de protesto espontâneo que aconteceu na quarta-feira passada nesse mesmo lugar, após a confirmação da vitória do candidato republicano.

    Manifestantes protestam contra eleição de Donald Trump neste sábado (12) em Los Angeles (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)Manifestantes protestam contra eleição de Donald Trump neste sábado (12) em Los Angeles (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)

     

     

    Protesto se encaminha para a Trump Tower de Chicago neste sábado (12) (Foto: Nova Safo/AFP)Protesto se encaminha para a Trump Tower de Chicago nest

    Como serão os primeiros dias do governo Trump?

    Republicano deve dedicar seus primeiros dias na Casa Branca à avaliação sobre rompimento ou renegociação de acordos e compromissos internacionais e a reverter decretos de Obama.

    Caso cumpra as promessas feitas durante a campanha, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, deve dedicar seus primeiros dias no Salão Oval da Casa Branca à avaliação sobre o rompimento e renegociação de acordos e compromissos internacionais, bem como a reverter decretos presidenciais de Barack Obama.

    “No primeiro dia, irei (…) cancelar todas as ações executivas inconstitucionais, memorandos e ordens emitidas pelo presidente Obama”, prometeu o então candidato em seu plano para os primeiros 100 dias de governo, divulgado no fim de outubro – menos de um mês antes do pleito de terça-feira, em que derrotou a candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton.

    Durante seus oito anos na Casa Branca, Obama assinou 235 decretos presidenciais que permitiram implementar medidas sem aprovação do Congresso, já que seu partido, o Democrata, não tinha maioria no Senado ou na Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira) nos anos finais do segundo mandato, iniciado em 2012.

     

    Entre as medidas estão iniciativas para endurecer o controle sobre a venda de armas, proteger de deportação imigrantes que chegaram aos EUA quando crianças ou reduzir emissões de usinas de energia.

    Porém, a partir de 20 de janeiro, quando tomará posse em Washington, Trump poderá cancelar muitos desses decretos. O novo presidente também pode romper ou renegociar compromissos internacionais – como o acordo nuclear firmado com o Irã em julho do ano passado, em conjunto com Alemanha, Reino Unido, União Europeia, França, Rússia e China.

    Também deverá buscar reverter algumas leis, neste caso com a aprovação do Congresso. Entre elas, a reforma da saúde, conhecida como Obamacare, alvo de críticas de seu partido, o Republicano.

    Na quinta-feira, Trump e sua mulher, Melania, foram recebidos na Casa Branca por Obama e pela primeira-dama, Michelle, para discutir detalhes da transição.

    “Minha prioridade número um nos próximos dois meses é tentar facilitar uma transição que assegure que nosso presidente eleito seja bem-sucedido”, disse Obama ao fim da reunião, que durou cerca de uma hora e meia.

    Trump disse que o encontro foi “uma grande honra” e observou que o presidente “explicou algumas das dificuldades” e “algumas das grandes conquistas”. O republicano também se reuniu com líderes do Congresso.

    Congresso favorável
    Trump não deverá ter muitos problemas no Legislativo, já que a eleição de terça-feira manteve sob controle dos republicanos tanto a Câmara dos Representantes qundo o Senado.

    “(A reforma da saúde) Está no topo da nossa agenda”, disse na quarta-feira, em entrevista coletiva, o presidente do Senado, Mitch McConnell.

    Trump não forneceu detalhes específicos sobre como subsituiria o Obamacare, que ampliou o acesso universal à saúde, mas também aumentou os preços de planos para quem não recebe assistência do governo. Quando candidato, Trump anunciou que pretendia trazer um sistema baseado no livre mercado, mas não explicou como isso seria implementado.

    No entanto, o Wall Street Journal publicou na sexta-feira uma entrevista com oempresário em que ele se disse aberto a manter o que chamou de “pontos-chave” do pacote de Obama: a proibição de que planos de saúde neguem cobertura para condições médicas pré-existentes em novos segurados e a permissão a jovens adultos sejam cobertos pelas apólices dos pais.

    Como os republicanos continuam com o controle das duas casas, será fácil reverter alguns aspectos da lei, como os subsídios que ajudam milhões a pagar planos de saúde. A substituição completa é mais difícil, já que os republicanos não chegam a 60 das 100 cadeiras no Senado, maioria necessária para impedir que os democratas tentem obstruir algumas votações.

    Formação de gabinete
    Outra das primeiras medidas que podem ser tomadas por Trump é a definição de um nome para a Suprema Corte, a mais alta instância da Justiça americana e responsável por decisões sobre grandes temas, como aborto, liberdade de imprensa, pena de morte ou porte de armas.

    A vaga aberta com a morte do juiz Antonin Scalia, em fevereiro, ainda não foi preenchida porque congressistas republicanos se recusaram a avaliar o candidato apontado por Obama.

    Além de escolher o substituto de Scalia, Trump poderá fazer novas indicações futuras, já que três juízes estão perto dos 80 anos de idade e da aposentadoria compulsória. Isso consolidaria uma maioria conservadora entre os nove integrantes do tribunal.

    A equipe de transição de Trump, liderada pelo governador de Nova Jersey, Chris Christie, está trabalhando desde 1º de agosto.

    Christie, um dos primeiros ex-adversários nas primárias a aderir à campanha de Trump, poderá integrar o novo gabinete.

    Outros aliados que se mantiveram fiéis enquanto parte do Partido Republicano rejeitava Trump ou evitava manifestar apoio expressivo também devem ser recompensados com cargos no alto escalão.

    Há rumores de que o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani seria o novo procurador-geral (o equivalente a ministro da Justiça). Newt Gingrich, que foi presidente da Câmara nos anos 1990, é mencionado como possível secretário de Estado.

    Imigração
    Ainda não está claro quantas das promessas Trump realmente levará adiante, uma incerteza agravada pelo fato de que, em muitos casos, ele mudou de ideia várias vezes durante a campanha e não detalhou como pretende implementar as mudanças.

    Um dos principais temas da campanha foi imigração. Trump disse que, no primeiro dia de governo, começará a deportar “mais de 2 milhões de imigrantes ilegais criminosos” e cancelar vistos de países que se recusem a recebê-los de volta.

    O então candidato chegou a prometer proibir a entrada de muçulmanos no país e deportar todos os 11 milhões de imigrantes atualmente sem documentos, mas depois afirmou que se concentraria apenas naqueles com condenação criminal.

    Ele afirmou ainda que iria construir um muro na fronteira com o México (onde já existe uma barreira cobrindo cerca de um terço da extensão) e obrigar o governo mexicano a pagar pela obra. Mas muitos analistas – e mesmo eleitores – não acreditam que Trump cumprirá essas promessas.

    O México já avisou que não vai pagar pelo muro, cuja construção, dizem críticos, seria mais simbólica do que eficaz para deter a imigração ilegal. Deportações em massa exigiriam altos gastos e desafios logísticos, além de ter impacto negativo sobre a economia, especialmente em setores como a agricultura, altamente dependente da mão de obra migratória.

    Mas, mesmo que não leve adiante medidas mais drásticas, Trump deverá reverter muitas das iniciativas de Obama para proteger imigrantes.

    “Trump poderia simplesmente cancelar programas lançados por Obama, como o Daca (que beneficia imigrantes que chegaram ao país ainda crianças) e o Dapa (para imigrantes cujos filhos são cidadãos americanos), porque eles não foram aprovados pelo Congresso”, disse à BBC Brasil a especialista em imigração Silvia Pedraza, professora de sociologia e cultura americana da Universidade de Michigan.

    “Ele também pode assinar uma ordem executiva dizendo que o país não vai mais receber refugiados do Oriente Médio”, observa.

    Clima e comércio
    Outras promessas de Trump para seu primeiro dia como presidente são anunciar a retirada dos Estados Unidos da Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), acordo comercial assinado em 2015 com outros 11 países e ainda não ratificado pelo Congresso, e renegociar o Nafta (acordo de live comérico entre EUA, México e Canadá).

    Disse também que, em sua estreia, irá propor uma emenda constitucional para impor limites a mandatos de congressistas e congelar contratações de funcionários públicos federais.

    Outras medidas iniciais serão levantar restrições à produção e exploração de petróleo e gás, além de “cancelar bilhões em pagamentos a programas da ONU sobre mudanças climáticas e usar o dinheiro para consertar a infraestrutura ambiental e de água dos EUA”.

    Mas o especialista Nathan Hultman, do centro de pesquisas Brookings Institution, lembrou, em artigo publicado na quarta-feira, que muitas das políticas climáticas adotadas por Obama foram medidas regulatórias, e não apenas decretos, o que torna mais difícil revertê-las.

    Mesmo assim, a posição do republicano, que chegou a dizer que rejeitaria o Acordo de Paris sobre o clima, preocupa especialistas.

    “A eleição de Donald Trump levanta questões sobre os EUA continuarem a serem líderes em mudanças climáticas e energia limpa”, diz Hultman.

    Fonte: O Globo

    Cidadão, diga “NÃO” à PEC 241/16

    09/10/2016

    © Fornecido por New adVentures, Lda. 

    Manifestantes contrários à aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, que limita os gastos públicos, protestaram hoje (25) em São Paulo em um ato que reuniu movimentos sociais, sindicatos e coletivos ligados à Frente Povo Sem Medo e à Frente Brasil Popular. Eles partiram do vão-livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e seguiram em passeata até o escritório da Presidência da República, também na Avenida Paulista.

    A PEC 241 foi aprovada em segundo turno pela Câmara dos Deputados na noite desta terça-feira por 359 votos a favor, 116 contrários e duas abstenções. O texto também precisa ser votado em dois turnos no Senado.

    O coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Josué Rocha, criticou a PEC e disse que não houve debate suficiente com a sociedade antes do envio da proposta ao Congresso Nacional.

    “Queremos ampliar o diálogo com a população e esclarecer, de fato, o que representa essa PEC. O [presidente da República] Temer, ao fazer essa aprovação a toque de caixa, quer pegar de surpresa a população. Como não é um projeto que traz um impacto imediato para a vida de todos, demora um tempo para que a gente consiga de fato fazer a discussão na sociedade e ampliar as mobilizações”, disse o ativista. “A PEC representa um grande retrocesso e é claro que, assim que a população perceber isso, vai sair às ruas, e a gente ainda tem chance de barrar”, acrescentou.

    Também participaram do ato na Paulista a Central dos Movimentos Populares (CMP), a União Juventude Socialista, o Coletivo Rua, a Unificação das Lutas de Cortiços e Moradia, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Arquibancada Ampla Geral e Irrestrita (Agir), entre outras entidades.

    Durante o protesto, os manifestantes gritaram palavras de ordem como “Fora Temer”, “Trabalhador, preste atenção, são 20 anos sem saúde e educação”, “Para a PEC eu digo não, eu quero investimento em saúde e educação”. O grupo ocupou aproximadamente um quarteirão da Avenida Paulista e caminhou sobre quatro das oito faixas da via. Com informações da Agência Brasil.

    Fonte: MSN

    A PEC 241 não é a melhor alternativa que temos para hoje, diz Miragaya

    Por Helena Borges*, The Intercept

    Jornal de Brasília

    O economista Júlio Miragaya é presidente do Conselho Federal de Economia.O economista Júlio Miragaya é presidente do Conselho Federal de Economia.

    E se isso que nos apresentam como “o melhor que temos para hoje” não for exatamente o melhor para todos? Fizemos a pergunta ao presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Júlio Miragaya, e a resposta foi clara: “de jeito nenhum” esse seria o melhor que temos para hoje.

    Miragaya apontou cálculos feitos pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e exemplos de práticas internacionais que provam existirem outras saídas. E ainda explicou por que a PEC pode congelar não apenas os gastos governamentais, mas também o salário mínimo brasileiro.

    The Intercept Brasil: Há economistas dizendo que a “PEC é o melhor que temos para hoje”. O senhor concorda?

    Júlio Miragaya: Não, de jeito nenhum. Esse é um raciocínio um pouco preso às amarras do mercado financeiro. Se for para fazer uma discussão como essa, a gente tem que abrir a discussão.

    Na nota do Cofecon a gente coloca isso. Tem que fazer ajuste fiscal? Tem! Ninguém em sã consciência diria o contrário. O conselho federal não é favorável ao desequilíbrio fiscal eterno. Claro que não.

    Quando a gente fala de orçamento público, há uma visão distorcida de que o Estado se apropria do dinheiro do povo para ficar com ele. Não. O Estado é mero intermediário. Quando o governo arrecada esse dinheiro, ele o distribui. O papel do Estado é esse: arrecadei, agora vou distribuir.

    Parte distribui para a massa mais pobre, em abono salarial, que é o “Bolsa Família”, essas coisas. Parte vai para a classe média, em universidade pública, porque o ensino universitário superior vai para a classe média, principalmente. Agora melhorou um pouco com as cotas, mas a classe média é a grande beneficiada. E parte vai para o topo da pirâmide quando o governo faz isenções fiscais, créditos subsidiados, juros da dívida pública.

    Sabe que 85% da dívida pública é apropriado por 0,3% dos investidores, três milésimos. Isso aí é transferência direta para a turma do topo da pirâmide. Então é aí que ele tem que mexer, não é lá embaixo. Ele tem que mexer é nessa renúncia fiscal, nos gastos com juros da dívida pública.

    Ele [Temer] coloca a situação em que ou faz assim, a PEC 241, ou o país quebra, ou é o desastre, ou é o caos. E a gente sabe que não é nada disso.

    Alguns países possuem imposto de renda progressivo, cobrando mais dos mais ricos. Seria uma opção viável?

    Tem uma pesquisa do IPEA [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] que fala do problema no imposto de renda do Brasil: o pequeno número de alíquotas que a gente tem. Nós trabalhamos com três alíquotas, enquanto em outros países a média é de cinco até sete. Se você começa com uma alíquota pequena, não precisa começar já com 15%. Começa com alíquotas de 7 a 8%, e tem países que vão com alíquotas de até 50% ou, às vezes, mais, chegam a 55%.

    E tem de aumentar o número de faixas [salariais]. Para que as faixas menores não sejam tão baixas, porque o cara mal ganha dois salários mínimos e já está pagando imposto de renda, o que é um absurdo. É abaixo do salário mínimo Dieese [Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos], que está em R$ 3 mil. E fecha em R$4,8 mil, que é também um absurdo.

    Um cara com um salário de R$ 5 mil e outro cara com o salário de R$ 200 mil pagam os mesmos 27,5%. Isso não tem o menor cabimento. Você tem que estender essas faixas, botar uma faixa de 15% para esse camarada com R$ 5 mil e ir aumentando, 20 a 25%. E esse cara com R$ 200 mil paga 40 a 45%.

    Não vou nem falar 50 a 55% como tem na Dinamarca, porque aí tem uma revolução aqui no Brasil por conta dessa turma. Mas que evidentemente teria que ter uma diferenciação… não pode parar em R$ 4800.

    Então, nessa pesquisa o Sérgio Gobetti mostra isso. A própria tabela do imposto de renda deveria ser profundamente modificada, para que efetivamente pudesse cobrar mais para quem tem condições de pagar.

    E a gente não tem imposto sobre lucros e dividendos no Brasil…

    Não tem. Somos um dos dois poucos países do mundo que isentam integralmente. Tem alguns que tributam pouco, mas no Brasil é integral, é isenção total. Só o Brasil e a Estônia fazem isso. O IPEA tem um estudo sobre isso, que mostra que, com uma alíquota sobre lucros e dividendos, o Estado arrecadaria R$43 bilhões. Significa que tem um total de aproximadamente R$ 350 bilhões por ano que são lucros e dividendos auferidos no país e que não são tributados, vai direto para o bolso dessas pessoas.

    Existem também outros impostos para as classes mais ricas que nós não temos e que são adotados em larga escala internacionalmente, não?

    A tributação sobre herança, que é pífia no Brasil. Varia de 4 a 8% e, em alguns países, chega a 30%. Imposto territorial rural que é tão pequeno, mas tão pequeno, que a União falou assim: “Oh, fica com os municípios, que é tão mixaria…” Não se tributa efetivamente a renda do capital pessoa física. Então, por que o governo não coloca em questão isso?

    Vamos fazer uma reforma no modelo tributário. Não uma reforma tributária, mexer no ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços], nisso, naquilo… Pode fazer, também, os ajustes que têm de ser feitos, mas o ideal é o modelo tributário. É um modelo que não tributa aqueles que deveriam pagar mais.

    Então, ele [Temer] coloca a situação em que ou faz assim, a PEC 241, ou o país quebra, ou é o desastre, ou é o caos. E a gente sabe que não é nada disso.

    “Aqui é curioso, porque quem reclama da tributação é quem não paga. São os mais ricos que estão sempre reclamando. Eles já não pagam o pato.”

    Então tem como mudar os impostos…

    O Estado tem uma máquina de tributação à sociedade. Aqui, ainda por cima, tributa mal a sociedade. Porque tributa muito mais o consumo e a renda do trabalho do que a renda do capital, na contramão do resto do mundo, que tributa mais quem pode pagar mais, o capital. Mas aqui é o contrário.

    Aliás, aqui é curioso, porque quem reclama da tributação é quem não paga. São os mais ricos que estão sempre reclamando. Eles já não pagam o pato. Mas são quem está reclamando, sempre. Porque não só proporcionalmente pagam menos, como o pouco que deveriam pagar ainda sonegam. Mas essa é uma outra história. Mas é a verdade.

    Mas por que essas coisas não são abordadas como solução para aumentar a arrecadação?

    Não à toa a PEC 241 fala em despesas não financeiras. Por quê? Porque não mexe, é imexível. Como dizia o [Antônio Rogério] Magri, são imexíveis essas despesas financeiras, são quase que sagradas. Então, pelo lado da despesa, o governo podia estar se movimentando em outra direção. Não vai nessa direção porque o choque é muito forte, com poderes econômicos muito fortes. Então vai no povão, coitado, que está acostumado a pagar o pato.

    E pelo lado da receita, aí tem essa história de que a carga tributária não permite. Não permite tributar mais o consumo, não permite tributar o trabalho, mas permite tributar a renda do capital.

    Talvez esse seja o grande desafio, de explicar a economia e as possibilidades para a população….

    Sim, mas tem como fazer.

    E por que as pessoas que são oposição à PEC no Congresso não mostram essas alternativas de que falamos, abordando a questão de forma técnica e econômica?

    Cá entre nós, o Congresso não é exatamente aquilo que representa bem a população mais pobre do país.

    Essa discussão foi feita de forma muito afobada. Eles estavam só esperando passar a eleição do primeiro turno e rapidamente resolveram a questão sem discussão, sem um processo de debate na sociedade.

    Acho que a população vai acordar quando começar a sentir os efeitos. Quando os recursos para o Fies, que já estavam desacelerando com a Dilma e estão desacelerando mais ainda, começarem a minguar. Quando os recursos do “Minha Casa, Minha vida” desaparecerem, quando começar a não mais ter abertura de vaga em universidade pública, quando a situação do SUS piorar. Porque, a cada ano, mais ou menos em torno de 1,2 milhão de pessoas entram para a clientela do SUS e essa população não vai ter como ser atendida. Vai ser a própria vivência da população que vai mostrar que essa decisão do governo, para a população, é catastrófica.

    “Então o país pode voltar a crescer? Pode! Mas vai voltar a crescer concentrando renda, promovendo a exclusão social.

    Então resolve o problema da economia às custas do que é melhor para a população…

    Pode até resolver o problema para a economia. Alguém falou que não vai? Não. Pode resolver! Já resolvemos no passado isso. O Brasil já voltou a crescer, no tempo da ditadura, crescíamos a 10% ao ano. O Delfim Neto falou: “Nós vamos primeiro crescer o bolo para depois dividir”. Mas na hora de dividir, esqueceu.

    O país pode voltar a crescer? Pode! Mas vai voltar a crescer concentrando renda, promovendo a exclusão social. Tem espaço para crescer, só que vai concentrar num modelo que já foi experimentado e que não foi nada bom.

    Então tem saídas para a PEC, sim. Vamos discutir os itens de despesa do nosso orçamento, vamos discutir o nosso modelo tributário e vamos encontrar uma saída que permita refazer o equilíbrio fiscal, mas sem jogar o ônus nas costas dos mais pobres e que têm o menor poder de defesa e de mobilização.

    O governo está querendo fazer economia em cima da população mais pobre.

    É curioso que nem se tenha chegado a considerar essa hipótese de cobrar mais dos mais ricos. A primeira solução apresentada passou longe dessas propostas, foi logo sobre cortar da previdência…

    Quando a gente entra nessa discussão, primeiro pega pela lógica da despesa. Porque é que tem de ficar limitado tão somente à mudança na lei da previdência? O aumento da idade mínima, igualar o coitado do agricultor, do trabalhador rural, para 65 anos dizendo que “ah, na Alemanha também é assim, na Suécia…” Pelo amor de deus! A expectativa de vida de lá é de quase 80 anos. A expectativa média de vida do camponês no norte e nordeste é de 63 anos. Então a grande maioria deles sequer vai se aposentar. A idade mínima deles é de 60 anos, até porque muitos deles começaram a trabalhar com 12, 14 anos. Então a idade mínima para eles tem que ser 60, porque a vida deles não vai muito além disso.

    Colocar 65 anos é deixar definido que ninguém vai ter aposentadoria. Tem se falado, inclusive, no benefício de prestação continuada, que é uma situação pior do que a do trabalhador rural. Quem tem uma renda familiar de até um quarto do salário mínimo, aquele que não consegue sequer se aposentar, porque não consegue comprovar o tempo de serviço, porque passou a vida inteira na informalidade. Pega esse benefício de 65 anos e quer elevar para 70 anos. Essa população que está aí na periferia das metrópoles, essa turma não chega aos 70 anos de idade.

    Não foi só o Temer que fez esses cortes para os mais pobres…

    Então, na verdade, a própria Dilma [Rousseff] mexeu nas regras do seguro desemprego. Tornou mais restritivas as regras de seguro-desemprego numa época em que o desemprego cresceu. Eu estou fazendo a crítica não só ao governo atual, mas ao anterior também.

    O próprio Nelson Barbosa adiou o pagamento do abono salarial para aproximadamente 8 milhões de trabalhadores que têm até dois salários. E adiou de um ano para o outro. Isso é um absurdo! O governo está querendo fazer economia em cima da população mais pobre.

    É como se fosse uma porta de entrada para possíveis alterações na lei de salário mínimo.

    Recentemente, houve uma discussão sobre como a PEC, que fala de gastos governamentais, congelaria o salário mínimo, que teoricamente seria algo da seara particular. O senhor poderia explicar os efeitos da lei no mínimo?

    Especificamente o salário mínimo, ele corre um risco grande. Porque a economia voltando a crescer, ele entra em contradição com a PEC, que tenta limitar os gastos ao limite da inflação passada.

    O que está na PEC é que os gastos têm que ser limitados à inflação. Feito o balanço geral, o governo está autorizado a, por exemplo, não promover ou vetar a realização de concurso público, ou não autorizar aumentos de reposições salariais.

    E, ali nas entrelinhas, pode estar entendido o seguinte: se um dos motivos para que isso [a limitação à inflação do ano anterior] possa não estar acontecendo for o reajuste do salário mínimo, está implícito aí uma questão de que ele [Michel Temer] pode, sim, modificar a lei do salário mínimo.

    Inclusive, está dito sobre aumentos reais. Significa o que? Que, se o salário mínimo está vinculado a um gasto, e ele prevê um aumento real naquele benefício concedido, isso pode não ser autorizado.


    Como assim?

    Existe uma lei do salário mínimo. Tá certo? Essa regra atual do salário mínimo entra em contradição com a PEC. E ela pode ser modificada para que a PEC não perca a validade.



    Trechos da lei do salário mínimo onde se explica como serão calculados os reajustes. Leva-se em conta a inflação, calculada no Índice Nacional de Preços ao Consumidor; e o crescimento ou queda da economia, que se traduz no índice do produto interno bruto (PIB) do país. Assim, os reajustes do salário mínimo proporcionam ganhos reais, acima da inflação, indo de encontro com o modelo de cálculo da PEC 241.

    Vamos supor que daqui a dois anos, ou ano que vem, o país cresça. Em 2019, teria que se pagar a inflação passada. Mas, ao mesmo tempo, existem cálculos de gastos do governo que são vinculados ao valor do salário mínimo.

    A aposentadoria rural, por exemplo, é salário mínimo. O que esse crescimento da economia, refletido no valor do mínimo, significaria para o INSS? Eles diriam: “Olha, vai explodir essa conta porque, agora, além da inflação eu vou dar mais 2% de aumento com base no salário mínimo, porque é quanto a economia cresceu. E aí já extrapola o limite”.

    Nesse caso, o que está dito é o seguinte: lá na frente, ele pode determinar que o ajuste do salário mínimo vai ter tão somente o aumento da inflação passada, sem aumento real. Isso para que não se contrarie o espírito da 241, que é limitar a variação das despesas a efetivamente a variação da inflação.

    Mas vamos ter aumento real no salário mínimo, mesmo com a crise?

    Em 2018 não vai ter. Porque o cálculo do mínimo é baseado na inflação de 2017, mais o PIB de 2016. Como a previsão para este ano é de retração do PIB, então em 2018 não vai ter aumento real.

    Mas, se em 2017 a economia crescer meio percentual, que seja, em 2019 o mínimo vai ter que levar em conta a inflação de 2018, mais o meio de aumento real. [A última previsão até agora é de crescimento de 1,3% do PIB em 2017, segundo o relatório Focus, feito pelo Banco Central]

    E se em 2018 a economia crescer o tanto que o mercado especula [o último relatório do banco Itaú estima um PIB de 4% para 2018], em 2020 o cálculo do salário mínimo vai ser a inflação de 2019, mais o ganho real. E isso pode significar uma contradição com a própria PEC, que prevê limitar os gastos à inflação.

    É como se fosse uma porta de entrada para possíveis alterações na lei de salário mínimo. Então a PEC passa a ter, sim, uma incidência no salário mínimo, na medida em que ela prevê medidas excepcionais caso haja alguma transgressão da norma geral, de que os gastos fiquem limitados à variação da inflação. Em suma, o salário mínimo corre riscos.

    Então, resumidamente, para a PEC funcionar o salário mínimo não pode ter ganhos reais. Se ele tiver, a conta não fecha.

    Exatamente. Dado que, no espírito da PEC, tudo fique mais ou menos naquilo que foi a base 2016. Então tudo daqui pra frente varia, no máximo, o que foi a variação da inflação. É como se fosse a reposição da inflação nos próximos vinte anos.

    Vamos raciocinar. Eu tenho que limitar à reação da inflação numa determinada área que seja basicamente composta por salários. A área de educação é bem típica, os gastos de educação são fundamentalmente salários [com cálculo que tem base no mínimo]. Se eu entro com um raciocínio de que vou repor apenas a inflação… A menos que a intenção do governo seja de que, com inflação de 8%, vou dar 4% de aumento para os professores. Porque, ou eu reponho a inflação, ou eu não reponho integralmente o salário para direcionar recursos para a ampliação, por exemplo, do parque escolar.

    Então, o orçamento da educação não está protegido como dizem os órgãos do governo?

    Por exemplo, a política de abertura de novas universidades no interior do Brasil vai para o espaço. E até a política de educação básica em tempo integral… De onde vai vir o recurso? A conta não fecha! De onde vai vir esse dinheiro?

    Ou essas políticas não vêm, ou então a intenção do governo é não pagar a reposição da inflação aos professores. Porque, ao limitar o gasto naquela área ao que foi feito no ano anterior, não há espaço para incremento que nao seja simplesmente repor a inflação passada. Então, ou os salários ficam defasados, ou não se investe mais em Universidades, em Centros Técnicos.

    Aliás, o piso salarial nacional dos professores também foi para as cucuias. Porque ele previa uma recuperação do valor do salário, aumentos reais na remuneração dos professores que, a essa altura do campeonato, já foi para o espaço.

    Fonte: Vermelho

     

    A PEC 241/2014 foi votada em 6/1/16, a partir das 11h, na Comissão Especial, e estão anunciando que, em 11/10/16, já será votada no plenário da Câmara dos Deputados.

    Essa PEC esconde privilégios fraudulentos ( NÃO A PEC 241/2016 – Auditoria Cidadã da Dívida:

    A PEC 241/2016 garante recursos para “empresas estatais não dependentes” que operam esquema fraudulento de transferência de recursos públicos para investidores privilegiados

    Bem escondido no texto proposto pela PEC 241/2016 para o Art. 102, inciso V, parágrafo 6o, inciso IV do ADCT, encontra-se o privilégio de recursos, à vontade, sem teto e sem limite, para “empresas estatais não dependentes”.

    As “empresas estatais não dependentes” são pessoas jurídicas de direito privado e operam escandaloso esquema de transferência de recursos públicos para o setor financeiro privado, tendo em vista que vendem, a investidores privilegiados, com desconto que pode chegar a 60%, debêntures com garantia real (dada pelos entes federados), pagando juros estratosféricos que podem ultrapassar 20% ao ano.

    Esse esquema está mascarado por sedutora propaganda de que entes federados poderiam “vender”, “ceder” ou “novar” direitos de créditos de Dívida Ativa de difícil arrecadação.

    Na prática, tais créditos continuam sendo cobrados por órgãos competentes (Procuradorias de Fazenda), e o que está sendo cedido de fato, pelos entes federados a “empresas estatais não dependentes”, é meramente uma garantia onerosíssima, sem contrapartida alguma, o que é ilegal! Os projetos de lei PLS 204/2016, PLP 181/2015 e PL 3337/2015 visam “legalizar” esse esquema, que irá provocar um enorme rombo nas contas públicas.

    Esse negócio entrou no país por meio de consultorias especializadas, como a ABBA Consultoria e Treinamento por exemplo. O Sr. Edson Ronaldo Nascimento, responsável da ABBA, é também assistente consultor do FMI, Presidente da PBH Ativos S/A (empresa estatal não dependente de Belo Horizonte); Superintendente Executivo da Secretaria de Fazenda do Estado de Goiás; Secretário de Fazenda do Estado de Tocantins, entre outros cargos estratégicos ocupados no Distrito Federal e Secretaria do Tesouro Nacional. Assim o esquema e se alastra.

    É infame que a mesma PEC que engessa por 20 anos investimentos sociais em saúde, educação, assistência etc. privilegie a destinação de recursos à vontade, sem limite e sem teto algum, para alimentar esse esquema semelhante ao que quebrou a Grécia.

    A PEC 241/2016 deixa de fora o privilégio do maior gasto público , referente à remuneração do Sistema da Dívida paga a banqueiros

    A chamada “dívida pública” nunca foi auditada e, conforme denunciado inclusive por CPI, é repleta de indícios de ilegalidade, ilegitimidade e até fraudes, tais como a suspeita de renúncia à prescrição, diversas transformações de passivos privados em dívidas públicas, além de escandalosas operações que geraram gastos de centenas de bilhões de reais em 2015 (swap cambial e operações compromissadas).

    Em 2015, o estoque de títulos da dívida interna cresceu R$ 732 bilhões em 11 meses (31/01 a 31/12), conforme Quadro XXXVI publicado pelo Banco Central, e destinou-se principalmente a cobrir operações ILEGAIS:

    · pagamento de juros (o que é inconstitucional, pois fere o Art. 167, III, da Constituição Federal, o qual impede a emissão de títulos da dívida para pagar despesas correntes, tais como salários e juros);

    · remuneração da sobra de caixa dos bancos (operações compromissadas que chegaram a ultrapassar R$ 1 trilhão em 2015, quase 20% do PIB, e

    · prejuízos do Banco Central com operações de swap cambial (ilegais, conforme TC-012.015/2003-0: “Não há, na Lei n.º 4.595/64 ou em outra legislação, dispositivo que autorize o Banco Central a atuar no ramo de seguros ou que o autorize a assumir posições de agente segurador de capital, muito menos a especular com variações cambiais, assumindo posições que podem dar muito lucro ou muito prejuízo.”)

    O relator da PEC 241/2016 “assinala que a Dívida Bruta do Governo Geral aumentou de 51,7% do PIB em 2013 para 67,5% do PIB em abril de 2016”, porém, não menciona as razões desse aumento, que não teve absolutamente nada a ver com os gastos sociais que essa PEC vai congelar por 20 anos, mas sim com o que ela deixa de controlar: os juros abusivos e os mecanismos financeiros ilegais que estão gerando dívida pública, tais como os exemplos acima mencionados.

    É infame que essa mesma PEC 241/2016 que aniquila, por 20 anos, a possibilidade de investimentos sociais necessários à garantia de vida digna, libere recursos à vontade para o abusivo gasto com mecanismos financeiros ilegais e até inconstitucionais que estão usurpando o instrumento de endividamento público e alimentam o Sistema da Dívida.

    NÃO À PEC 241/2016

    Faça o que puder:

    Divulguem para todos os seus contatos.

    Maria Lucia Fattorelli

    Coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dívida

    Fonte: AFR paulista

    Deputados ignoram danos à população e aprovam PEC 241

     

    Por 23 votos a 7, a comissão especial que analisa a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241/16, que congela por 20 anos o investimento em áreas cruciais para o povo brasileiro, aprovou o relatório do deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS) na tarde desta quinta-feira (6).

    Foram sete horas de falas contrárias e favoráveis à proposta e bate-boca entre parlamentares da base e manifestantes, até que a maioria conseguiu levar adiante a votação da matéria. Agora, a análise da PEC segue para Plenário, onde deve ser apreciada já na próxima segunda-feira (10), conforme anunciado pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

    O texto foi enviado por Michel Temer logo que o então vice assumiu interinamente a Presidência da República com a promessa de limitar os gastos públicos e tirar o país do “vermelho”, como brada a recém-lançada campanha golpista. Na prática, no entanto, a PEC 241 interfere na gestão dos próximos cinco presidentes e acaba com políticas públicas importantes para a população.

    Para a presidenta nacional do PCdoB, deputada Luciana Santos (PE), o texto desconstitui as bases do modelo de cidadania criado em 1988 com a Constituição Federal e limita a capacidade de o Estado agir em prol da construção de um modelo de desenvolvimento, com distribuição de renda.

    “A PEC 241 é a expressão mais cruel do governo golpista contra o povo. Quando a situação do país não está boa, o papel do Estado precisa aumentar e não diminuir. Hoje, por exemplo, as despesas com saúde e educação possuem critérios específicos de proteção, mas perderão as garantias atuais e apenas a correção inflacionária sobreviverá. E, como o limite é total, qualquer recurso a mais que for direcionado para essas áreas implicará cortes em outros programas”, aponta a parlamentar.

    Em um voto em separado, a deputada afirma ainda que a proposta inverte a lógica constitucional, pois onde há obrigação de gastos mínimos haverá um teto, um máximo de gasto. “Esses limites, até 2037, restringirão os programas de governo e a vontade do povo, expressa nas ruas e nas urnas, pelos próximos cinco mandatos presidenciais. Mesmo que a economia cresça e permita, e o Estado tenha capacidade para melhorar as condições de vida da sociedade, o teto vai impedir qualquer avanço social e ainda vai obrigar a desconstituição dos direitos existentes. Além de atentar contra os direitos sociais e a prestação dos serviços públicos, o modelo inviabiliza saídas ou a construção de um projeto de desenvolvimento pautados na política fiscal ou na econômica”, descreve o texto.

    Para a deputada Jô Moraes (PCdoB-MG), só “um governo sem voto apresenta uma agenda sem legitimidade” como a proposta nesta PEC.

    A ideia é reforçada pela deputada Angela Albino (PCdoB-SC). “Não se faz economia com redução de saúde, de educação, segurança, assistência social. É criminosa essa proposta e ela irá afetar muito a qualidade dos serviços públicos oferecidos à população.”

    Para se ter uma ideia do tamanho do prejuízo, de acordo com estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), se a regra da PEC estivesse valendo desde 2002, a saúde teria perdido R$ 295,9 bilhões até 2015. Já a educação teria um prejuízo de R$ 377,7 bilhões no mesmo período.

    O embate agora segue no Plenário da Câmara. Apesar do rolo compressor que a base golpista vem passando pelos direitos conquistados, os comunistas acreditam que ainda é possível reunir parlamentares – incluindo alguns da base que estão insatisfeitos com o teor da PEC – para impedir que a proposta avance.

    Para ser aprovada, a PEC 241 precisa de, pelo menos, 308 votos favoráveis, em dois turnos.

    Pedro Rossi: PEC da Maldade é o golpe dentro do golpe

     

     

    A PEC 241, apresentada pelo governo Michel Temer e em tramitação na Câmara, limita por duas décadas o crescimento dos gastos públicos à variação da inflação do anterior. Significa congelar, em termos reais, as despesas do governo nos patamares atuais, mesmo que a economia cresça, que a proporção dívida-PIB caia, que a população aumente e surjam novas demandas.

    Em audiência no Senado sobre o tema, Pedro Rossi destacou que, pelas restrições contidas na PEC, o gasto público não vai contribuir para o crescimento, e isso vai exigir um esforço muito maior da demanda privada para que o país consiga crescer alguma coisa. “O que está sendo proposto é que o estado não vai contribuir para o crescimento. Zero.”, afirmou.

    De acordo com ele, diferente do que diz o texto da medida, o novo regime fiscal não é anticíclico. “Essa PEC, pelo contrário, vai tirar do Estado a possibilidade de fazer frente a crises de demanda agregada”.

    O economista critica ainda o fato de o projeto não incluir uma cláusula que permita a violação das regras, sob certas condições. “Não tem uma cláusula de escape, o que é raro nos regimes fiscais no mundo inteiro. Ou seja, se acontecer mais uma crise fenomenal internacional, o que a gente vai fazer? Nada. Vai ficar amarrado numa PEC. A gente vai cortar gastos. Ou seja, do ponto de vista macroeconômico, ela tem problemas gravíssimos”, apontou.

    Na sua avaliação, o projeto retira o poder do Executivo, do Congresso e da sociedade de moldar o tamanho do orçamento público e deve ter resultados nocivos para os mais pobres. “Só é possível realocar [os recursos] dentro do orçamento. Isso vai provocar um enorme acirramento do conflito distributivo dentro do orçamento. Vai reduzir muito o orçamento disponível e, evidentemente, quem tiver mais força política, vai conseguir um pedaço maior. E a população mais vulnerável, que não tem articulação política, pode sair prejudicada desse processo”, previu.

    Além disso, Rossi avaliou que será muito difícil cumprir o que diz a PEC, já que as novas regras significarão um corte drástico nas polícias públicas. A partir de uma previsão otimista de que a economia vá crescer 2,5% a partir de 2018, o economista fez uma projeção na qual mostrou que o tamanho da despesa primária do governo federal vai passar de algo em torno de 20% do PIB em 2016, para cerca de 15,7% em 2026 e de 12,3% em 2036.

    “Então essa PEC implica numa redução substancial do gasto do governo federal, uma redução fenomenal do Estado”. Na sua apresentação, ele lembrou que, mesmo com a PEC, alguns gastos não poderão diminuir, como é o caso das despesas da previdência, o que complicará ainda mais a situação de outras áreas.

    “Mesmo considerando uma reforma da previdência, tal como está sendo proposta, chegaremos em 2036 com 8,6% do PIB com gastos com previdência. Supondo ainda que as despesas com saúde e educação fiquem congeladas, o que vai acontecer com o gasto das demais despesas? Vai cair de 8% para cerca de 1% em 2036. Dá para caber as demais despesas em 1% do PIB? Eu acho que não”, diz o economista.

    Rossi destacou que o Brasil é um país extremamente desigual, com uma necessidade de serviços sociais enorme e que propôs na Constituição de 1988 um Estado de bem-estar social. “Se a gente almeja melhorara a saúde e a educação pública, não é por meio dessa PEC”, defendeu.

    “Essa PEC está dizendo que as benesses do crescimento econômico não vão ser direcionadas para os serviços públicos e para a população que mais precisa dos serviços públicos. A PEC está dizendo que, quando o bolo crescer, a parte que crescer não fica com o Estado”, resumiu.

    De acordo com o economista, a proposta vai muito além de um mero ajuste fiscal, ao propor mudanças que alteram os destinos do país e tratam dos rumos do projeto nacional. “E é um projeto completamente incompatível com o projeto da Constituição de 1988”, acrescenta.

    Para ele, a proposta impõe uma “redução brutal do estado e revisa a ideia de que o Estado tem deveres com a população e que a população tem direitos sociais”. O professor defende, então, que a discussão da matéria precisa passar por um pleito eleitoral. “Se a população decidir por isso, que seja implementado. Mas eu desconfio que esse projeto não passaria num pleito eleitoral”, encerrou.

    Temporão: Regra fiscal de Temer implantará “barbárie social” no país

     

     

    “Se essa regra vigesse há 20 anos, não teríamos o programa nacional de imunizações que é o maior do mundo, não teríamos o programa de aids que é um dos mais respeitados do mundo, não seríamos o segundo maior país em transplantes de órgãos, não teríamos os 100 milhões de brasileiros cobertos pelo Programa de Saúde da Família e o impacto, dando só um exemplo, da redução dramática da mortalidade infantil (…) Eu diria que viveríamos uma situação de barbárie social, simplesmente”, disse, nesta segunda-feira (18), durante o seminário Austeridade contra a Cidadania, em São Paulo.

    Temporão teceu duras críticas à visão do atual presidente Michel Temer de que “os direitos sociais não cabem no orçamento”De acordo com ele, o que há é uma disputa pela apropriação dos fundos públicos. “Você tem conflitos entre o setor público e privado e, dentro do setor privado, o setor filantrópico, os hospitais privados e os planos e seguros de saúde”.

    O ex-ministro informou que, no Brasil, 52% dos gastos com saúde são de origem privada e 48% vêm do setor público. Já na Inglaterra, 85% dos gastos são públicos. Ou seja, a maior parte dos gastos aqui recai sobre as famílias e empresas. Para Temporão, a estrutura do gasto com saúde no Brasil é incompatível, portanto, com um país que pretende construir um sistema universal de saúde.

    “O que devemos fazer como estratégia de fortalecer o sistema público, a ideia de saúde como um direito, é ampliar o gasto público e, não, restringir. Mas está sendo feito exatamente o contrário: ‘a saúde não cabe no orçamento, então vamos restringir o orçamento destinado a isso e vamos deixar para o mercado’. E aí essa distorção, que já existe, vai ser agravada”, disse.

    Temporão rechaçou a proposta do Ministro da Saúde, de colocar no mercado planos de saúde “bem baratinhos” e com cobertura reduzida, como forma de reduzir a demanda pelo SUS. Para ele, trata-se de mais uma medida que vai no sentido da precarização, da redução de direitos e da focalização da política de saúde pública.

    Sistema de castas na Saúde

    Ele também condenou o fato de Barros ter afirmado que não é ministro do SUS e ter dito, “diante de epidemiólogos perplexos”, que a maioria dos pacientes que procura a rede pública apenas imagina que está doente Ele comparou o tratamento dado à maioria da população àquele dispensado à elite política do país.

    “Ou seja, o não ministro do SUS propõe aos cidadãos comuns um plano de saúde bem simples. Agora, o plano de saúde do Senado, esse é vitalício. Ele banca as despesas de senadores, ex-senadores, dependentes, filhos, enteados, cônjuges, e, para usufruir, não precisa fazer nenhum a contribuição, basta ter exercido o cargo por 180 dias. E após a morte do titular, o cônjuge continua usando a carteirinha”, criticou.

    “Então é um sistema de castas: para o cidadão comum, o homem e mulher que constroem o Brasil cotidianamente, um planinho bem simplificado e um SUS bem desestruturado e bem precário. Para os outros…”, completou.

    Ele também aponta que as medidas anunciadas vão no sentido da ampliação da política de subsídios e renúncias fiscais que, segundo o ex-ministro, hoje totalizam cerca de R$ 20 bilhões de reais ao ano – recursos que deixam de entrar no financiamento do setor público e terminam indo para a saúde privada.

    Saúde é vista como gasto

    Para Temporão, por trás de todo o pensamento conservador que domina o debate atualmente, está a o modo de ver a saúde como um gasto, o que seria um grande equívoco. “A saúde é política social fundamental para o desenvolvimento e bem estar e também é uma das políticas econômicas mais importantes, do ponto de vista de criar riqueza, conhecimento, inovação e desenvolvimento”, defendeu.

    Temporão destacou ainda que os países em desenvolvimento, especialmente, passam por diversas transformações, que exigem não a redução de investimentos, mas o fortalecimento e a criação de políticas públicas ousadas, inovadoras, construídas a partir de um “modelo que tenha o desenvolvimento humano no centro do processo”.

    Ele mencionou como exemplo as transições demográfica, epidemiológica, tecnológica e nos padrões alimentares, com impacto sobre os sistemas de saúde, que precisam se adequar para atender a essas novas realidades.

    “Vamos ter, em 2030, mais brasileiros acima dos 65 que entre 0 e 19. Uma população mais velha significa mais doença crônica, mais demanda por tecnologia médica, mais cuidados com atenção etc. (…) Há a transição tecnológica, que pressiona o custo saúde, com a introdução permanente de novidades terapêuticas. Ou seja, quando você avalia essa dinâmica, tem que propor um conjunto de políticas sociais – e a saúde é um dos elementos, porque a educação por exemplo tem impacto também”, disse.

    O ex-ministro criticou a defesa que o governo e alguns economistas fazem do ajuste fiscal, alegando que se trata de um mal necessário e provisório. “Mas como você traduz essas medidas na vida real das pessoas? Com desemprego, queda da renda das famílias, redução dos serviços essenciais. Como isso impacta um hospital público? O que significa para alguém que precisa de um medicamento? O que significa em termos de metrificação de dor, sofrimento, doença e morte? Isso não é preocupação”, lamentou, classificando a política aplicada por Temer como “antipovo e antidesenvolvimento”.

    O fim da dissimulação

    Para Temporão, se há um aspecto positivo no atual governo é que ele não esconde suas intenções. “Pela primeira vez há o fim da dissimulação”, defendeu. Segundo ele, no país, nenhum político costumava criticar o SUS, mesmo que, na prática, atuasse para enfraquece-lo.

    “Todos dizem que amam de paixão o SUS (…), mas, na prática legislativa, torpedeiam, esvaziam, inviabilizam que ele cumpra de fato sua função”. Segundo ele, esta é primeira vez que “um ministro fala de modo claro que quem vai ditar a política de saúde é o mercado, com toda a transparência”.

    Agenda conservadoraTemporão disse que o país vive um momento “muito doloroso e singular”. De acordo com ele, ainda é difícil “o diagnóstico claro e preciso dessa patologia política e social que começou a se manifestar com mais intensidade a partir de 2013”.

    Ele, contudo, destacou no cenário uma espécie de ruptura entre a política, na sua representação formal e institucional, e a dinâmica “viva e colorida da sociedade civil”, além da “explicitação de uma face que agora aparece em todo o seu esplendor, corporificada nas agendas ultraconservadoras na economia e no social”.

    Temporão citou então a pauta liderada por parlamentares da bancada BBB (bala, boi e bíblia), que inclui mais de 50 projetos que buscam destruir direitos sociais e impedir novas conquistas. Entre os temas em debate no Congresso, ele citou o direito ao porte de armas, as restrições “à já precária e medieval legislação sobre o aborto”, a redução da maioridade penal, a revisão da Lei Maria da Penha, a revogação do estatuto do desarmamento e do projeto que criminaliza a homofobia, o projeto Escola Sem Partido, entre outros.

    Mencionou ainda a Medida Provisória 739, que implementou severas alterações na legislação previdenciária, com o objetivo de restringir o acesso a benefício por incapacidade, bem como cessar os benefícios para os segurados que já recebem benefícios e aposentadoria por invalidez ou auxílio-doença.

    “Esse conjunto de medidas, muitas delas no campo da saúde pública, expressa um novo fenômeno, que é um movimento forte de apropriação pelo Legislativo de responsabilidades claras do Executivo”, apontou.

    Resistência

    Temporão, contudo, declarou que confia na força da sociedade e nas contradições que existem na “bancada da saúde”, que reuniria cerca de 200 parlamentares, para impedir retrocessos na área.

    “E eu diria que tem alguns constrangimentos colocados para o gestor federal, que são a existência do Conselho Nacional de Saúde, do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde e o que chamo de um exército de muitos milhares de trabalhadores do SUS, que sustentam seus princípios. Não devemos menosprezar essa força, que irá aparecer na defesa dessa política tão importante”

    Promovido pela Plataforma Política Social e o Le Monde Diplomatique Brasil, o seminário Austeridade contra a Cidadania integra o projeto Governo Sem Voto e analisou a atual conjuntura e o impacto das reformas propostas por Temer e seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, na desestruturação das políticas públicas. Participaram do debate, além de Temporão, o economista Sérgio Gobetti e o educador Sérgio Haddad. A mediação foi do também economista Eduardo Fagnani.

    No último dia 7, aconteceu o primeiro seminário do projeto, que contou com a participação dos economistas Pedro Rossi, João Sicsú e Fernando Rugitsky, além do assessor da Câmara dos Deputados, especialista em orçamentos e políticas públicas, Flávio Tonelli Vaz.

    Fonte: Portal Vermelho

    OPOSIÇÃO E ECONOMISTAS DIVULGAM ESTUDO QUE DESCONSTRÓI A PEC 241

    Economistas e líderes dos partidos de oposição e da Minoria na Câmara e no Senado lançam na próxima segunda-feira, 10, na Câmara, o estudo “Austeridade e Retrocesso – Finanças Públicas e Política Fiscal no Brasil”; segundo o líder do PT na Casa, deputado Afonso Florence (BA), o documento, elaborado por iniciativa do Fórum 21, Fundação Friedrich Ebert, GT de Macro da Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP) e Plataforma Política Social, apresenta uma análise aprofundada da questão fiscal, apontando seus problemas reais, denunciando os problemas fictícios; “Mostra que é possível o equilíbrio fiscal sem a famigerada PEC 241/16 do governo Temer, que limita gastos públicos prejudicando áreas essenciais como saúde educação e assistência social”

      Economistas e líderes dos partidos de oposição e da Minoria na Câmara e no Senado lançam na próxima segunda-feira, 10, às 16h, no Salão Verde da Câmara, o estudo “Austeridade e Retrocesso – Finanças Públicas e Política Fiscal no Brasil”.

    O líder do PT na Câmara, deputado Afonso Florence (BA), explicou que o trabalho “desconstrói mitos e mostra que é possível o equilíbrio fiscal sem a famigerada proposta de emenda à Constituição (PEC 241/16) do governo Temer, que limita gastos públicos prejudicando áreas essenciais como saúde educação e assistência social”.

    O documento, elaborado por iniciativa do Fórum 21, Fundação Friedrich Ebert, GT de Macro da Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP) e Plataforma Política Social, apresenta uma análise aprofundada da questão fiscal, apontando seus problemas reais, denunciando os problemas fictícios e desmascarando os mitos que sustentam um discurso que se traveste como técnico, mas que atende a interesses políticos.

    Em síntese, mostra que é possível o equilíbrio fiscal sem a PEC 241, conhecida como a “PEC da Maldade”, que é incompatível com a Constituição de 1988 e com a expansão de bens públicos como saúde e educação.

    Fonte: Brasil 247

    Real objetivo da PEC 241/16 é desvincular saúde e educação

    Ancorados em suposta crise financeira, os setores conservadores que controlam o governo ousam propor a desvinculação de recursos para a saúde e a educação


    Lula Marques

    Apresentada pelo governo federal em junho deste ano, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241 é capciosa. Quer impor um “Novo Regime Fiscal” que pretende congelar “por vinte exercícios financeiros”, ou seja por duas décadas, as “despesas primárias”: gastos sociais e custeio dos serviços públicos. A partir de 2017, as despesas da União passariam a ser corrigidas apenas pela inflação, sem crescimento real.

    A PEC 241 busca induzir a sociedade a concluir que o país gasta demais, sobretudo com as áreas sociais, em especial com a saúde e a educação. Ameaça agravar drasticamente o histórico subfinanciamento dessas áreas, o que provocaria uma tragédia social sem precedentes – pois o que já não está bom ficaria pior.

    A vinculação constitucional de recursos para a educação tem início em 1983 com a Emenda Constitucional (EC) 24, a “Emenda Calmon” — que instituiu a aplicação anual em manutenção e desenvolvimento do ensino (MDE) de nunca menos de 13% pela União e de 25% por Estados, Distrito Federal e Municípios, da receita resultante de impostos — reconhecendo uma luta por investimento regular e perene em MDE, como forma de propiciar o alicerce para o desenvolvimento do país.

    Saúde e educação foram definidas como direitos sociais na Constituição Federal de 1988, que criou o Sistema Único de Saúde (SUS) e ampliou a citada vinculação de recursos para a educação: “A União aplicará, anualmente, nunca menos de dezoito, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios vinte e cinco por cento, no mínimo, da receita resultante de impostos” em MDE (Art. 212).

    Contudo, a vinculação para a saúde só foi significativamente contemplada pela EC 29/2000 e, mais tarde, pela EC 86/2015, a qual determinou crescimento gradual dos recursos destinados ao SUS, definindo que apenas em 2018 atinjam sofríveis 15% da receita corrente líquida da União (RCL). Tímida ampliação que a PEC 241 quer revogar.

    Os setores conservadores “não engolem” a vinculação de recursos para áreas essenciais, sempre questionada e minada por eles. A “Desvinculação de Recursos da União” (DRU), fixada em 20% pela EC 68/2011, que vigorou até 2015 e ampliada para 30% pela EC 93/2016, em vigor até 2023, é um exemplo contundente dessa ação antissocial.

    Na exposição de motivos da PEC 241, os ministros da Fazenda e do Planejamento atribuem as dificuldades fiscais da União ao “crescimento acelerado da despesa pública primária” e aos “gastos em diversas políticas públicas”, e não aos trilhões de reais em juros pagos a bancos e especuladores. Pretendem conter a “expansão da dívida pública” às custas do congelamento das “despesas primárias”. Condicionam a redução da taxa de juros a esse ajuste. E calam sobre suspender os repasses ao sistema financeiro.

    Assim, ancorados em suposta e alardeada crise financeira, os setores conservadores que controlam o governo ousam propor a desvinculação de recursos para a saúde e a educação — o real objetivo da PEC 241/2016. Caso seja aprovada, engana-se quem imagina que em futuro próximo consigamos reinstituir tais vinculações constitucionais!

    *César Minto é presidente da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp). Pedro Pomar é jornalista e editor da Revista Adusp.

    Fonte: Carta Maior

    Brasil escolhe prefeitos e vereadores em 2/10/16

    03/10/2016

     

    Eleições consolidam ascensão de PSDB e PMDB e declínio do PT

    Os cinco principais partidos que deram suporte ao impeachment de Dilma já colhem frutos

    O candidato tucano em Porto Alegre, Nelson Marchezzan Júnior.
    O candidato tucano em Porto Alegre, Nelson Marchezzan Júnior. DIVULGAÇÃO

    A derrota do PT nas eleições municipais  já era esperada. Os petistas governam atualmente 15 das  92 maiores cidades brasileiras, que representam quase 40% do eleitorado. Podem chegar a no máximo oito no dia 30 de outubro, quando ocorre o segundo turno. Após o pleito deste domingo, a principal constatação é que o vácuo de poder deixado por quem administrou o Governo Federal por quase 14 anos renderá frutos aos maiores artífices do impeachment de Dilma, o PSDB e o PMDB.

    Os tucanos levaram 12 prefeituras no primeiro turno, inclusive a joia da coroa, São Paulo, com João Doria, e outra capital estadual, Teresina, com Firmino Filho. Ainda disputam outras 19 prefeituras no segundo turno e podem se consolidar como o maior beneficiário desse momento político, com 31 executivos municipais. Já o PMDB levou sete na primeira etapa, sendo uma capital (Boa Vista, com Teresa Surita), e ainda tem chance em outras quinze.

    Porto Alegre é o principal exemplo de como o cenário está desfavorável aos partidos ditos de esquerda e que o vento está a favor dessas duas legendas. A disputa na capital gaúcha será entre Nelson Marchezzan Júnior (PSDB), que surpreendeu ao liderar a corrida sem que nenhuma pesquisa eleitoral tivesse filtrado isso, e Sebastião Mello (PMDB). Raul Pont (PT) e Luciana Genro (PSOL), ficaram distantes da vaga na segunda etapa.

    Ao mesmo tempo em que a urna agora tem reforçado esse papel de liderança de tucanos e peemedebistas, ela já antecipa o que se pode esperar para a eleição presidencial de 2018. Considerada como uma disputa com menor importância, a escolha de prefeitos e vereadores reflete diretamente no número da bancada federal de cada legenda. Analistas afirmam que, quando um partido elege vários prefeitos, ele tem boas chances de aumentar seu número de parlamentares no Congresso Nacional e, consecutivamente, ampliar os recursos disponíveis no fundo partidário, sua exposição e as chances de governar o país ou se aliar com que o fará.

    Disputa interna na base

    A briga por espaço entre os dois principais aliados de Michel Temer já pode começar antes mesmo de 2018. Em seu primeiro escalão, há ao menos um tucano que sonha em disputar a presidência, o senador José Serra, que hoje é ministro das Relações Exteriores. Assim, o prazo de validade de Serra na função, caso ele não migre para o PMDB, pode ser encurtado.

    Outra constatação ao analisar os 92 maiores eleitorados brasileiros – exclui-se Brasília porque nela não há disputa municipal – é que o PSD, o PSB e o PPS, outras duas legendas que interferiram na destituição de Rousseff também estão colhendo os louros nessa disputa. As três juntas hoje administram 19 municípios. No primeiro turno, já levaram seis e podem chegar a 29. Depois deste domingo, ainda há 55 cadeiras de prefeito sob disputa.

    O número pode crescer, já que até o fim de semana, o Tribunal Superior Eleitoral havia registrado 71 impugnações de candidaturas apenas para prefeituras. Ou seja, algumas votações poderão ser revistas e resultados finais podem ser alterados. Um dos casos ocorre em Montes Claros, Minas Gerais. O prefeito Ruy Muniz (PSB), que teve sua prisão decretada, não desistiu de concorrer, mas como sua candidatura estava impugnada, todos os votos dados a ele foram considerados nulos. Se nos próximos dias o TSE revisar essa impugnação a cidade, que teoricamente deu a vitória a Humberto Souto (PPS) poderá enfrentar um segundo turno ou ter o próprio Muniz como prefeito reeleito.

    A derrocada petista também resultou na perda de espaço para quem esteve ao seu lado até os últimos dias em que governou o país. O PCdoB, que hoje administra três das 92 maiores cidades do país, pode chegar a no máximo duas. O PDT vai ficar estancado, hoje tem nove prefeituras e se ganhar todas as que ainda disputa, pode no máximo empatar esse número. Em Brasília, já há quem diga que quando os petistas decidirem se reinventar (se é que farão isso realmente), terão de descobrir uma fórmula semelhante para os demais.

    OS 55 MUNICÍPIOS QUE TERÃO SEGUNDO TURNO

    Cidade Estado Vencedor do 1º turno Partido Vice no 1º turno Partido
    Anápolis GO João Gomes PT Roberto do Orion PTB
    Aracaju SE Edvaldo Nogueira PCdoB Valadares Filho PSB
    Bauru SP Gazzetta PSD Raul PV
    Belém PA Zenaldo Coutinho PSDB Edmilson PSOL
    Belo Horizonte MG João Leite PSDB Kalil PHS
    Blumenau SC Napoleão Bernardes PSDB Jean Kuhlmann PSD
    Campo Grande MS Marquinhos Trad PSD Rose Modesto PSDB
    Canoas RS Beth Colombo PRB Busato PTB
    Cariacica ES Marcelo Santos PMDB Juninho PPS
    Caruaru PE Tony Gel PMDB Raquel Lyra PSDB
    Caucaia CE Naumi Amorim PMB Eduardo Pessoa PSDB
    Caxias do Sul RS Edson Nespolo PDT Daniel Guerra PRB
    Contagem MG Carlin Moura PCdoB Alex de Freitas PSDB
    Cuiabá MT Emanuel Pinheiro PMDB Wilson Santos PSDB
    Curitiba PR Rafael Greca PMN Ney Leprevost PSD
    Diadema SP Lauro Michels PV Vaguinho PRB
    Duque de Caxias RJ Washington Reis PMDB Dica PTN
    Florianópolis SC Gean Loureiro PMDB Angela Amin PP
    Fortaleza CE Roberto Cláudio PDT Capitão Wagner PR
    Franca SP Sidnei Rocha PSDB Gilson de Souza DEM
    Goiânia GO Iris Rezende PMDB Vanderlan PSB
    Guarujá SP Haifa Madi PPS Valter Suman PSB
    Guarulhos SP Guti PSB Eli Correa DEM
    Jaboatão dos Guararapes PE Anderson Ferreira PR Neco PDT
    Joinville SC Udo Dohler PMDB Darci de Matos PSD
    Juiz de Fora MG Bruno Siqueira PMDB Margarida Salomão PT
    Jundiaí SP Luiz Fernando Machado PSDB Pedro Bigardi PSD
    Macapá AP Clécio REDE Gilvam Borges PMDB
    Maceió AL Rui Palmeira PSDB Cicero Almeida PMDB
    Manaus AM Artur Virgílio PSDB Marcelo Ramos PR
    Maringá PR Silvio Barros PP Ulisses Maia PDT
    Mauá SP Atila Jacomussi PSB Donisete Braga PT
    Niterói RJ Rodrigo Neves PV Felipe PSB
    Olinda PE Antonio Campos PSB Prof Lupercio SD
    Osasco SP Rogério Lins PTN Jorge Lapas PDT
    Petrópolis RJ Bernardo Rossi PMDB Rubens Bontempo PSB
    Ponta Grossa Paraná Marcelo Rangel PPS Aliel Machado REDE
    Porto Alegre RS Nelson Marchezzan Jr PSDB Sebastião Melo PMDB
    Porto Velho RO Dr Hildon PSDB Léo Moraes PTB
    Recife PE Geraldo Julio PSB João Paulo PT
    Ribeirão Preto SP Duarte Nogueira PSDB Ricardo Silva PDT
    Rio de Janeiro RJ Crivella PRB Freixo PSOL
    Santa Maria RS Valdeci Oliveira PT Pozzobom PSDB
    Santo André SP Paulo Serra PSDB Carlos Grana PT
    São Bernardo do Campo SP Orlando Morando PSDB Alex Manente PPS
    São Gonçalo RJ José Luiz Nanci PPS Dejorge Patricio PRB
    São Luís MA Edivaldo Holanda PDT Eduardo Braide PMN
    Serra ES Sergio Vidigal PDT Audifax REDE
    Sorocaba SP Crespo DEM Raul Marcelo PSOL
    Suzano SP Rodrigo Ashiuchi PRB Lacerda PTB
    Taubaté SP Pollyana Gama PPS Saud PMDB
    Vila Velha ES Max Filho PSDB Neucimar Fraga PSD
    Vitória ES Luciano Rezende PPS Amaro Neto SD
    Vitória da Conquista BA Herzem Gusmão PMDB Zé Raimundo PT
    Volta Redonda RJ Baltazar PRB Samuca Silva PV

    A cidade de São Paulo teve um número maior de pessoas que não compareceram às urnas ou anularam seu voto comparado à eleição municipal passada. Neste domingo, foram registrados 367.471 votos brancos, 788.379 nulos e 1.940.454 abstenções. Somados, esses votos perdidos chegaram a 3.096.304 votos ou 34,84% do colégio eleitoral. O número é maior do que teve o tucano João Doria (3.085.187 votos), eleito prefeito de São Paulo. Em 2012, a soma de brancos, nulos e abstenções chegou a 2.490.513 votos, ou 28% do colégio eleitoral.

    Dos 20 prefeitos de capitais que concorreram à reeleição neste domingo, 75% venceram a disputa no primeiro turno ou passaram para o segundo. Sete venceram neste domingo e oito disputarão o segundo turno no dia 30 de outubro.

    Fonte: El País

    Veja os 55 vereadores eleitos em SP

    Confira a composição da Câmara Municipal de São Paulo.
    Eduardo Suplicy (PT) foi o mais votado, com 301 mil votos.

     

    Fachada da Câmara Municipal de São Paulo (Foto: Roney Domingos/G1)Fachada da Câmara Municipal de São Paulo (Foto: Roney Domingos/G1)

    Os eleitores de São Paulo definiram na eleição deste domingo (2) a composição da Câmara Municipal, com 55 vereadores eleitos (veja os nomes abaixo). O partido do prefeito eleito, Doria, tem o maior número de cadeiras, 11, seguido do PT, com 9. DEM, PR, PRB e PSD elegeram 4 vereadores cada.

     

    DORIA ELEITO EM SP

    O ex-senador Eduardo Suplicy, do PT, foi o mais votado, com 301.446 votos.

    Trinta vereadores que cumprem mandato foram reeleitos: Adilson Amadeu (PTB), Alfredinho (PT), Arselino Tatto (PT), Atilio Francisco (PRB), Aurélio Nomura (PSDB), Celso Jatene (PR), Claudinho de Souza (PSDB), Conte Lopes (PP), David Soares (DEM), Edir Sales (PSD), Eduardo Tuma (PSDB), Eliseu Gabriel (PSB), George Hato (PMDB), Jair Tatto (PT), Juliana Cardoso (PT), Mario Covas Neto (PSDB), Milton Leite (DEM), Noemi Nonato (PR), Ota (PSB), Patricia Bezerra (PSDB), Paulo Frange (PTB), Police Neto (PSD), Reis (PT), Ricardo Nunes (PMDB), Ricardo Teixeira (PROS), Sandra Tadeu (DEM), Senival Moura (PT), Souza Santos (PRB), Toninho Paiva (PR) e Toninho Vespoli (PSOL).

    A Câmara Municipal recebe 25 novos vereadores: Adriana Ramalho (PSDB), Alessandro Guedes (PT),Aline Cardoso (PSDB), André Santos (PRB), Camilo Cristófaro (PSB), Claudio Fonseca (PPS), Daniel Annenberg (PSDB), Donato (PT), Dr. Milton Ferreira (PTN), Eduardo Suplicy (PT), Fabio Riva (PSDB), Fernando Holiday (DEM), Gilberto Nascimento Jr (PSC), Gilberto Natalini (PV), Gilson Barreto (PSDB), Janaina Lima (NOVO), João Jorge (PSDB), Rinaldi Digilio (PRB), Rodrigo Goulart (PSD), Rute Costa (PSD), Soninha (PPS), Tripoli (PV) e Zé Turin (PHS).

    Veja os votos que cada vereador recebeu:

    Eduardo Suplicy (PT) – 5,62% (301.446 votos)
    Milton Leite (DEM) –  2,01% (107.957 votos)
    Tripoli (PV) – 1,66% – (88.843 votos)
    Conte Lopes (PP) – 1,49% (80.052 votos)
    Mario Covas Neto (PSDB) – 1,41% (75.593 votos)
    Eduardo Tuma (PSDB) – 1,31% (70.273 votos)
    Adilson Amadeu (PTB) – 1,25% (67.071 votos)
    Souza Santos (PRB) – 1,04% (55.924 votos)
    Ricardo Nunes (PMDB) – 1,02% (54.692 votos)
    Celso Jatene (PR) – 1,00% (52.715 votos)

    Eliseu Gabriel (PSB) – 0,98% (52.355 votos)
    Rodrigo Goulart (PSD) – 0,92% (49.364 votos)
    Fernando Holiday (DEM) – 0,90% (48.055 votos)
    Atilio Francisco (PRB) – 0,88% (46.961 votos)
    Ota (PSB) – 0,86% (45.915 votos)
    Senival Moura (PT) – 0,85% (45.320 votos)
    Patricia Bezerra (PSDB) – 0,84% (45.285 votos)
    João Jorge (PSDB) – 0,79% (42.404 votos)
    Aurélio Nomura (PSDB) – 0,78% (41.954 votos)
    Soninha (PPS) – 0,75% (40.113 votos)

    Edir Sales (PSD) – 0,73% (39.062 votos)
    Gilson Barreto (PSDB) – 0,72% (38.564 votos)
    André Santos (PRB) – 0,70% (37.393 votos)
    Daniel Annenberg (PSDB) – 0,69% (36.983 votos)
    Alfredinho (PT) – 0,68% (36.324 votos)
    Toninho Paiva (PR) – 0,66% (35.219 votos)
    Juliana Cardoso (PT) – 0,65% (34.949 votos)
    Sandra Tadeu (DEM) – 0,64% (34.182 votos)
    Rute Costa (PSD) – 0,63% (33.999 votos)
    Police Neto (PSD) – 0,63% (33.537 votos)

    Donato (PT) – 0,61% (32.592 votos)
    Noemi Nonato (PR) – 0,60% (32.116 votos)
    Jair Tatto (PT) – 0,58% (30.989 votos)
    Gilberto Nascimento Jr (PSC) – 0,57% (30.382 votos)
    Adriana Ramalho (PSDB) – 0,56% (29.756 votos)
    Camilo Cristófaro (PSB) – 0,55% (29.603 votos)
    Reis (PT) – 0,55% (29.308 votos)
    Paulo Frange (PTB) – 0,55% (29.242 votos)
    Ricardo Teixeira (PROS) – 0,53% (28.515 votos)
    Fabio Riva (PSDB) – 0,52% (28.041 votos)

    Gilberto Natalini (PV) – 0,52% (28.006 votos)
    Alessandro Guedes (PT) – 0,50% (26.780 votos)
    Arselino Tatto (PT) – 0,50% (26.596 votos)
    George Hato (PMDB) – 0,49% 26.104 votos)
    Isac Felix (PR) – 0,48% (25.876 votos)
    Aline Cardoso (PSDB) – 0,48% (25.769 votos)
    Claudinho de Souza (PSDB) – 0,46% (24.923 votos)
    David Soares (DEM) – 0,46% (24.892 votos)
    Dr. Milton Ferreira (PTN) – 0,41% (21.849 votos)
    Rinaldi Digilio (PRB) – 0,39% (20.916 votos)

    Janaina Lima (NOVO) – 0,36% (19.425 votos)
    Claudio Fonseca (PPS) – 0,34% (18.444 votos)
    Toninho Vespoli (PSOL) – 0,30% (16.012 votos)
    Zé Turin (PHS) – 0,28% (14.957 votos)
    Sâmia Bomfim (PSOL) – 0,23% (12.464 votos)

    Fonte: G1

    Corrupção no fundo de pensão da CEF

    25/09/2016

    As gravações que comprovam a fraude de R$ 2 bi na Funcef

    Documentos e áudios obtidos por ISTOÉ revelam como diretores do fundo de pensão da Caixa, pressionados por dirigentes petistas, entre eles o ex-tesoureiro João Vaccari, aprovaram investimentos prejudiciais à instituição que beneficiaram aliados e a OAS, de Léo Pinheiro, implicada no Petrolão

    As gravações que comprovam a fraude de R$ 2 bi na FuncefUM NOVO ESQUEMA Carlos Caser, diretor-presidente da Funcef, ao lado de Léo Pinheiro, da OAS, e João Vaccari (à dir), ex-tesoureiro do PT: ação entre amigos

     

    Segundo os procuradores, o núcleo político da organização criminosa influenciava os diretores dos fundos de pensão

    1

    *Ouça os áudios obtidos por ISTOÉ no final da matéria

    Aparelhados pelos partidos políticos durante a era petista, os fundos de pensão das estatais e empresas federais se tornaram alvo de uma megainvestigação da Procuradoria do Distrito Federal sobre desvios de recursos que lesaram os aposentados em R$ 8 bilhões. Trata-se da Operação Greenfield, que cumpriu, no último dia 5, um conjunto de 28 mandados de condução coercitiva, sete de prisões temporárias e 106 de buscas e apreensão. ISTOÉ obteve com exclusividade as gravações que fundamentaram a operação. Os áudios referem-se a reuniões de diretores da Funcef – órgão que administra a previdência complementar da Caixa e foi comandado por executivos indicados e ligados ao PT, acumulando um prejuízo de ao menos R$ 2 bilhões. O material explosivo revela a total negligência com os recursos dos aposentados e indica uma clara atuação de dirigentes da Funcef no sentido de honrar acertos políticos. Para a PF, há fortes indícios de que o ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto, atualmente preso pela Lava Jato, esteja por trás das operações fraudulentas aprovadas pela cúpula da Funcef. As suspeitas também recaem sobre o ex-ministro da Casa Civil de Dilma, Jaques Wagner. Um dos beneficiários do esquema, segundo as investigações, foi o ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, ligado ao PT, a Lula e a Jaques Wagner.

    Segundo o Ministério Público, os R$ 400 milhões aplicados
    pela Funcef na OAS viraram pó: passaram a valer R$ 117,5 mil

    A postura observada nas reuniões é escandalosa: diretores dão o aval aos investimentos mesmo admitindo não terem lido todos os documentos, autorizam aportes sem saber de onde a Funcef vai tirar dinheiro e passam por cima de riscos considerados graves por executivos do órgão, como a existência de dívidas tributárias e trabalhistas de uma empresa que demandava recursos do fundo. Em comum, nos encontros de diretores da Funcef, há o fato de os presidentes do Fundo de Pensão dos servidores da Caixa, indicados pelo PT, sempre defenderem a liberação dos recursos, a despeito dos reiterados alertas feitos pelos seus diretores. São eles, em dois momentos administrativos distintos da Funcef: Guilherme Lacerda e Carlos Alberto Caser, ambos ligados ao PT. Os dois e outros cinco gestores do fundo foram presos temporariamente durante a Operação Greenfield. Depois de prestarem depoimento, deixaram a cadeia.

    3

    A PF destaca três reuniões como as mais emblemáticas para demonstrar a existência de negociações prejudiciais à Funcef, feitas única e exclusivamente para cumprir acordos políticos: a que selou aportes de R$ 400 milhões na OAS Empreendimentos, a que confirmou investimentos de R$ 1,2 bilhão em três anos na Invepar (braço da OAS na área de transportes) e a que ratificou a aplicação de R$ 17 milhões no FIP Enseada, a fim de reerguer a Gradiente. Naquele momento, o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro pressionava a cúpula petista pelo aval aos negócios de seu interesse. Nas mensagens extraídas do celular do empreiteiro, há referências à atuação de Jaques Wagner e Vaccari na Funcef. Em julho de 2013, quando o caso estava sob discussão, Léo Pinheiro escreveu para o acionista da OAS Antônio Carlos Mata Pires: “Como foi na Funcef? O nosso JW [Jaques Wagner] me perguntou”. Ao que Pires respondeu: “Ótimo. Foi aprovado para contratação do avaliador, Deloitte. Agora, precisaremos de JW [Jaques Wagner] na aprovação final”. Em outra conversa pelo celular, Léo Pinheiro diz que pela Funcef estaria tudo certo, mas adverte César Mata Pires, dono da OAS, que poderia haver problemas na aprovação do negócio pela Caixa. Segundo a mensagem, Carlos Borges, diretor da Funcef, havia ligado para Pinheiro preocupado com a questão. Quem também telefonou para agendar um encontro foi João Vaccari. Ao fim, o investimento foi aprovado. “Não esqueça de me reservar uma vaga de officeboy nesse arranjo político. Afinal com a sua influência junto ao Galego e o Lula, vc é o CARA”, atesta Carlos Borges, da Funcef, em mensagem encaminhada a Léo Pinheiro em 2014.

    Para a PF, a pressão que precedeu a aprovação do negócio explica o conveniente “descuido” na hora de aprovar os investimentos que deram prejuízos à Funcef. A reunião da diretoria da Funcef para sacramentar o investimento na OAS Empreendimentos ocorreu em novembro de 2013. O aporte seria feito em duas parcelas de R$ 200 milhões. Os diretores não sabiam de que fonte orçamentária sairia o segundo aporte. Mesmo assim, deram o sinal verde para a operação. Isso gerou longos embates na reunião, que durou 1 hora e 23 minutos. Nas conversas, o então diretor de Planejamento e Controladoria da Funcef, Antônio Bráulio de Carvalho, faz uma autocrítica e alerta para o risco de faltar dinheiro para honrar os compromissos: “A gente não presta muita atenção na política de investimentos e não faz as discussões nos momentos que têm que ser feitos. Se eu aprovo R$ 200 milhões aqui pro ano que vem, se chegar outro investimento também que não está previsto… se chegar outro que não tá previsto, o que vou fazer? Nós estouramos a liquidez”. Um outro participante da reunião, não identificado, faz outra ressalva: “Vai ter que vencer isso, de onde sai o dinheiro. Não dá pra investir R$ 400 milhões, ou R$ 200 milhões, e falar ‘ah não sei de onde’”. No final da reunião, o diretor-presidente Carlos Alberto Caser, indicado pelo PT, rebate as críticas e sustenta que não deveriam deixar de aprovar o negócio só porque não estava previsto na política de investimentos. Para ele, a fonte dos recursos seria resolvida posteriormente. “Depois de termos gastado um ano de discussões, contratando uma consultoria que custou R$ 500 mil, foi cara pra dedéu. Negociamos blá blá blá blá blá blá. Agora [para quê] eu vou submeter isso (…) burocraticamente à política de investimentos, tendo um retorno bom?”, afirmou Caser. Ao fim, a Funcef aprovou o negócio. Segundo o Ministério Público Federal, os milhões investidos viraram pó: valiam apenas R$ 117,5 mil em dezembro de 2015.

    Depois de analisar os depoimentos, o MP agora quer acesso às delações
    premiadas da Lava Jato. A intenção é identificar o elo entre os esquemas

    A vez dos fundos de pensão: No último dia 5, a PF apreendeu documentos em 106 escritórios
    A vez dos fundos de pensão: No último dia 5, a PF apreendeu documentos em 106 escritórios

    Gestão temerária

    Outro investimento na OAS de R$ 1,2 bilhão, o chamado FIP Invepar, foi aprovado sem relatórios da análise jurídica e de conformidade – que avalia o cumprimento a determinadas regras. É o que revela o áudio da reunião ocorrida em 20/10/2008, com duração de 37 minutos. No encontro, o diretor de Planejamento e Controladoria, Antônio Bráulio, discorda da pressa na aprovação: “Em termos de coerência fica complicado. Como é que um diretor de conformidade e controle pode aprovar uma coisa sem ter analisado anteriormente?”. Coube mais uma vez a um diretor-presidente ligado ao PT, neste caso Guilherme Lacerda, intervir para garantir o negócio: “(…) Eu queria também fazer um apelo, é um apelo, é um esforço muito grande o investimento que a gente tá, pode dar errado (…) mas é um investimento que vinha pensado aqui muitas vezes, na perspectiva de ter uma valorização grande”.

    O terceiro caso que chamou a atenção dos investigadores envolveu a aprovação do investimento de R$ 17 milhões no FIP Enseada, um fundo constituído para reerguer a antiga Gradiente, mergulhada em dívidas trabalhistas e tributárias. De novo os diretores resolveram passar por cima dos riscos que envolviam o negócio para agradar ao então presidente da empresa, Eugênio Staub, que havia declarado apoio a Lula na eleição. Logo ao apresentar o projeto, o diretor de investimentos Demósthenes Marques adverte: “A gente tá entrando em um negócio que é de nível de risco maior do que a grande maioria”. Bráulio, por sua vez, classifica de “preocupante” a possibilidade de as dívidas da empresa provocarem perdas à Funcef. A exemplo do episódio anterior, em que avalizou um negócio altamente temerário com o único objetivo de atender demandas políticas, o presidente Guilherme Lacerda banca o aporte. Atribui as advertências a “fofocas de jornal” e diz que o fato de o dono da Gradiente ter anunciado apoio ao Lula não pesaria em sua decisão. Pesou.

    “Estou tranquilo em relação às posições que adotei na Funcef porque as informações que tinha à época levariam qualquer gestor a ter a mesma postura”, disse Lacerda por meio de seu advogado. Não é o que pensam os investigadores. Para eles, as negociações ocorriam “em conjunto com autoridades políticas que tinham clara ascendência sobre os diretores dos fundos de pensão”. Vaccari integraria o chamado núcleo político do esquema e, segundo a PF, “possivelmente concorreu” para que fosse aprovado o investimento na OAS “em detrimento do patrimônio da Funcef”. O próximo passo do procurador Anselmo Henrique é destrinchar ainda mais a relação desse núcleo político com os fundos de pensão. Nos últimos dias, foram analisados os depoimentos prestados no último dia 5. Agora, o MP quer acesso a delações da Lava Jato. Na última semana, empresas alvo da operação firmaram acordos com o MP para depositar valores em juízo e ficarem livres de medidas restritivas. A OAS devolveu R$ 240 milhões. Ainda é muito pouco perto do bilionário prejuízo amargado pelos aposentados da Caixa.

    Fonte: Isto é

    Desmatamento na Amazônia avança

    25/09/2016

     

    Desmatamento na Amazônia cresceu 24% de 2014 para 2015

    Dados do próximo relatório oficial do Inpe mostram que a devastação na região voltou a crescer. O Pará foi o estado campeão

    Desmatamento  (Foto: Instituto Centro de Vida)

    Dados do próximo relatório oficial do Instituto Nacional de Pesquisas mostram que o desmatamento na Amazônia cresceu 24% de 2014 para 2015. Os números são do Prodes, Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal.

    Os dados devem ser divulgados oficialmente num seminário do Ministério do Meio Ambiente nos dias 5 e 6 de outubro. Eles revelam que no período de agosto de 2014 a julho de 2015, foram desmatados 6.207 quilômetros quadrados. O estado que mais desmatou foi o Pará. Seguido de Mato Grosso e Rondônia.

    O total de desmatamento no período está 6,45% acima do estimado pelo Inpe no fim de novembro. Ou seja, o quadro é pior do que se imaginava.

    As políticas que levaram à queda podem já ter perdido sua eficácia. Agora, parece que estamos passando por uma nova fase de aceleração do desmatamento.

    Numa comparação com o mesmo período do ano anterior, nem todos os estados da Amazônia tiveram aumento do desmatamento. O quadro piorou mais em Rondônia, onde o desmatamento cresceu 51% de 2014 para 2015. Em Mato Grosso, o aumento foi de 49%. No Amazonas, 42%. O Pará, estado campeão em área total desmatada, cortou 14% a mais do que no período anterior.

    O desmatamento caiu em Roraima, Amapá, Maranhão e Acre. Mas a queda nesses estados não compensou o aumento nos outros.

    Tabela do relatório do Inpe mostra a variação no desmatamento por estado entre 2014 e 2015 (Foto: reprodução)

    Cinco medidas para zerar o desmatamento no Brasil

    O derrubada de florestas na Amazônia voltou a subir neste ano. Pesquisador apresenta algumas medidas simples que podem ser tomadas para chegar ao desmatamento zero

    Floresta queimada na Amazônia (Foto: Erika Berenguer)
    Na última década, uma série de medidas adotadas por governos federal e estaduais conseguiu um feito inédito: diminuir as altíssimas taxas de desmatamento na Amazônia. Os desmatadores se adaptaram, e a derrubada de florestas voltou a crescer neste ano.

    lém de ameaçar espécies e não contribuir com o desenvolvimento da região, o desmatamento é também a principal causa de emissão de gases de efeito estufa do Brasil. Por isso, para cumprir as metas apresentadas no Acordo de Paris – que devem ser ratificadas pelo governo Michel Temer na próxima semana –, o Brasil precisa enfrentar o problema.

    Na terça-feira (6), em São Paulo, pesquisadores apresentaram uma análise sobre a emissão de CO2 no Brasil. Paulo Barreto, do Imazon, analisou especificamente as emissões de desmatamento. Ele foi enfático. “A mensagem aqui é simples: tem de zerar o desmatamento”, disse, se referindo não só ao bioma Amazônia, mas a todos os biomas brasileiros, especialmente o Cerrado. Mas como fazer isso, se as políticas que tiveram sucesso na Amazônia não estão mais funcionando?

    Barreto diz que as políticas de fiscalização e controle precisam continuar. Mas ele elencou outras cinco medidas que, se aplicadas, podem ajudar a zerar o  desmatamento em todos os biomas brasileiros.

    1. Cobrar o imposto rural

    Uma das razões para o desmate ilegal na Amazônia é a especulação fundiária. O posseiro derruba uma floresta de área pública para demarcar território, para demonstrar que usa as terras e, posteriormente, regularizá-las. Segundo Barreto, já existe uma ferramente para frear essa especulação: o Imposto Territórial Rural (ITR). Só que o ITR é amplamente sonegado. Um estudo do Imazon no Pará, extrapolado para a Amazônia, mostra que o governo poderia arrecadar R$ 1 bilhão cobrando efetivamente o imposto. Mais dinheiro em caixa e, de quebra, reduz a pressão pela especulação da terra, diminuindo o desmatamento.

    2. Expandir a Moratória da Soja para o Cerrado

    A Moratória da Soja é a mais bem-sucedida medida criada por empresas privadas para combater o desmatamento. Trata-se de um acordo setorial entre produtores e compradores de soja, mediado por ONGs e governo. Os compradores se comprometem a não comprar soja de nenhuma propriedade que foi desmatada. Desde que entrou em vigência, a área de soja no bioma amazônico triplicou – mas apenas 0,8% desse avanço ocorreu em áreas de desmatamento recente. Por isso, a moratória é considerada um sucesso. No entanto, ela só se aplica em propriedades que estão na Amazônia. Por que não expandir o compromisso para o Cerrado?

    3. Fechar o mercado para a carne ilegal

    O que acontece com as áreas desmatadas na Amazônia? A maior parte vira pasto para a pecuária de corte. Ou seja, muito da carne consumida em todo o país tem origem na destruição da floresta. Mas há também muitos pecuaristas corretos. Existe tecnologia para rastrear a carne, identificar frigoríficos e saber a origem de cada produto. Essa tecnologia precisa ser ampliada e chegar aos supermercados – para o consumidor ter a garantia de que está comprando uma carne que não participa da destruição da floresta.

    Fazenda de gado na Amazônia (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

    4. Crédito só para quem cumpre a lei

    Pode parecer óbvio, mas não é: até 2008, você poderia estar com sua propriedade na ilegalidade e, ainda assim, conseguir crédito subsidiado para agricultura. Uma resolução do Conselho Monetário Nacional naquele ano e posteriormente uma lei, o Código Florestal, determinaram que quem desmatou ilegalmente não pode ter acesso a crédito. Só que essa política ainda não é amplamente aplicada. “O governo tem de ser firme para fazer valer a lei”, diz Paulo Barreto. “O Brasil tem crédito rural bastante amplo. Mesmo em ano de crise, são mais de R$ 185 bilhões. Cada um de nós paga por isso, então tem de condicionar o crédito.”

    5. Inovar nas táticas de combate ao desmatamento

    O mundo não fica parado. Após o sucesso das operações de fiscalização e controle do desmatamento, os desmatadores mudaram sua forma de atuar. Atualmente, eles estão desmatando no período de chuvas, para que as nuvens atrapalhem a fiscalização por satélite, e em pequenas porções, para confundir as operações do Ibama. O setor público precisa inovar constantemente nas táticas e operações para realmente impedir o avanço do desmatamento

    Fonte: Epoca

    Desnutrição no Iêmen

    25/09/2016

     

    O desastre humanitário que o mundo não quer ver

    Com a conivência das potências ocidentais, 1,5 milhão de crianças enfrentam a subnutrição no Iêmen

    O impulso natural quando se vê o corpinho raquítico de uma criança vítima da fome crônica é o de repulsa. Uns viram o rosto, outros fecham os olhos. Para quem se importa com algo mais além do próprio umbigo, é obrigatório assistir à reportagem acima, da BBC, mas é impossível fazê-lo sem ficar chocado, revoltado ou emocionado — ou tudo isso junto. Mas não é esse o motivo que faz com que o mundo não queira ver a grande tragédia alimentar que está se desenrolando no Iêmen, país que já era o mais pobre do Oriente Médio quando foi tragado para uma guerra civil em março de 2015. O mundo não quer ver o que acontece no Iêmen porque é parcialmente responsável pelo que acontece lá (principalmente aquela parte do mundo que se convencionou chamar de “potências ocidentais”).

    Mas, antes de buscar a razão para essa omissão, vamos esmiuçar a tragédia. Como explica o vídeo da BBC, postado na página de Facebook da rede britânica no dia 21 de setembro, há 1,5 milhão de crianças subnutridas no Iêmen. As cenas de meninos, meninas e bebês esqueléticos lembram as clássicas fotografias da fome crônica em países como Somália e Biafra no século passado.

    Don McCullinMenino subnutrido em Biafra, em 1969, em foto clássica do fotógrafo de guerra britânico Don McCullin

    Uma das vítimas da subnutrição mostradas na reportagem da BBC é o menino Celine, de 8 anos. Como na criança retratada na foto acima, de McCullin, a cabeça, os olhos e os lábios desproporcionalmente grandes em relação ao resto do corpo são a expressão pura e aterradora da Fome — assim mesmo, com F maiúsculo. No Iêmen, nada menos que 370.000 crianças sofrem de subnutrição com o mesmo grau de gravidade que Celine. A reportagem mostra também um menino de 18 meses que, devido ao desenvolvimento motor prejudicado pela falta de comida, ainda não consegue andar.

    Essa tragédia humanitária não é resultado apenas da pobreza longeva no país. Trata-se de uma das consequências da guerra iniciada em 2015, quando rebeldes huti botaram o presidente para correr. Rebeliões, insurgências e conflitos internos são recorrentes na história do país, mas esta é diferente. O Iêmen está sendo bombardeado por um coalizão de países árabes de maioria sunita, liderados pela Arábia Saudita, para evitar que as milícias huti, que são xiitas e apoiadas pelo Irã, dominem o país. O Iêmen é um microcosmo das duas maiores fontes de instabilidade global da atualidade: a rixa entre muçulmanos sunitas e xiitas e a luta contra o terrorismo. O bloqueio econômico imposto pela Arábia Saudita ao país e os bombardeios, que obrigaram 600 hospitais a fechar suas portas, afetam tanto a disponibilidade de alimentos quanto a possibilidade de a população conseguir assistência de saúde e humanitária.

    As potências ocidentais não estão envolvidas diretamente neste conflito, mas dão apoio técnico e bélico à coalizão que realiza os bombardeios, que no período de um ano foram responsáveis por metade das mortes de civis. Nem a Rússia, que é frequentemente acusada de não ligar para as mortes colaterais em seus bombardeios na Síria, provoca tanta destruição e morte. Estados Unidos, França e Inglaterra permitem que empresas de seus países vendam armas para a Arábia Saudita usar em sua campanha no Iêmen. Armas que são usadas para destruir mercados, hospitais e mesquitas. Para não deixar a informação tão impessoal: Barack Obama, François Hollande e David Cameron (recentemente substituído por Theresa May) autorizam ou autorizaram a venda das armas que estão agravando a catástrofe humanitária no Iêmen.

    Um quarto da população está à beira da inanição. Como esses líderes do mundo livre conseguem pousar a cabeça no travesseiro com a consciência limpa, no fim do dia?

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