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Dica do Terra2012: acesse o Site www.conectados.cc

26/03/2017

Site conecta brasileiros com imigrantes que oferecem aulas de idiomas, dança, comida típica e outros serviços em SP

Plataforma traz o perfil de mais de 100 estrangeiros que vendem produtos ou serviços culturais.

Francês, espanhol, percussão, dança árabe, bonecas africanas, música congolesa, artesanato boliviano, doces sírios, comida haitiana… Imigrantes que chegam ao Brasil trazem na bagagem conhecimentos que podem render um rico intercâmbio cultural com quem mora aqui.

Um site recém-lançado reuniu o perfil de mais de 100 deles, vindos de 19 países diferentes e com domínio de idiomas, culinária e habilidades artísticas, para conectá-los com brasileiros que queiram contratar seus produtos e serviços.

O site Conectados, que reúne o perfil de mais de cem imigrantes, é dividido em sessões como Dança, Culinária, Música e Pintura (Foto: Reprodução/conectados.cc)O site Conectados, que reúne o perfil de mais de cem imigrantes, é dividido em sessões como Dança, Culinária, Música e Pintura (Foto: Reprodução/conectados.cc)

O site Conectados, que reúne o perfil de mais de cem imigrantes, é dividido em sessões como Dança, Culinária, Música e Pintura (Foto: Reprodução/conectados.cc)

A plataforma, chamada Conectados.cc, foi criada em conjunto por duas ONGs brasileiras: a Bela Rua e a Conexão Cultural. “Víamos o mundo se fechando cada vez mais para os imigrantes, tratando essa questão de forma muito ruim, e quisemos criar um projeto que incentivasse a troca entre eles e os brasileiros, algo que fosse bom para todos os lados. Essa diversidade é muito importante para a cidade”, afirma Juliana Barsi, diretora executiva da Bela Rua e uma das idealizadoras do projeto.

O site é focado em estrangeiros que vêm de países com alguma vulnerabilidade, seja social, econômica, política ou ambiental – o que inclui refugiados de guerra, mas não só eles.

Por enquanto, todos os serviços oferecidos são em São Paulo. Futuramente, a ideia é expandir para outras cidades brasileiras.

 

Cadastro gratuito

 

Muitos dos imigrantes cadastrados no site foram indicados por instituições que trabalham com esse público. Todos passaram por uma entrevista. Há desde pessoas que já empreendem no Brasil há algum tempo até outras que acabaram de chegar. A partir de agora, estrangeiros que queiram oferecer seus serviços pelo site devem entrar em contato pelo formulário que fica na parte de baixo do site.

Natural do Togo, Sassou Espoir Ametoglo dá aulas de dança africana e zumba em SP (Foto: Leticia Godoy/Divulgação/Conectados)Natural do Togo, Sassou Espoir Ametoglo dá aulas de dança africana e zumba em SP (Foto: Leticia Godoy/Divulgação/Conectados)

Natural do Togo, Sassou Espoir Ametoglo dá aulas de dança africana e zumba em SP (Foto: Leticia Godoy/Divulgação/Conectados)

Eles não pagam nada para serem incluídos, e a plataforma também não fica com nenhuma porcentagem do valor dos serviços ou produtos contratados. O interessado é colocado em contato diretamente com o profissional.

Segundo Barsi, o grupo busca patrocínio para, numa segunda fase, oferecer cursos de capacitação (em empreendedorismo, por exemplo) para os imigrantes cadastrados.

Ela diz que a aceitação inicial ao projeto, que foi ao ar há duas semanas, surpreendeu. “O site está tendo muitos acessos. Recebemos diariamente e-mails de pessoas que gostaram da plataforma, e alguns ‘conectados’ já têm recebido ligações de gente interessada nos serviços. O retorno está sendo melhor do que esperávamos”, afirma.

Fonte: G1

TRUMP já começa governo mandando construir muro contra imigrantes, além de outras medidas polêmicas

26/01/2017

 

Trump culpa empresa aérea por caos em aeroportos após veto

Obama vê discriminação por ‘crença ou religião’
© Fornecido por New adVentures, Lda.

O presidente americano, Donald Trump, voltou a defender em 30/1/17 o decreto anti-imigração assinado por ele na sexta-feira (27) que proíbe por 90 dias a entrada de cidadãos de sete países nos EUA.

Trump afirmou em rede social que “apenas 109 pessoas de 325 mil foram detidas e levadas para interrogatório” e que os “grandes problemas nos aeroportos foram causados pela pane no sistema da Delta”, citando uma companhia aérea americana.

Mas a pane nos computadores da Delta, disse a empresa, não afetou voos internacionais como os que traziam os cidadãos dos sete países vetados por Trump: Irã, Sudão, Síria, Líbia, Somália, Iêmen e Iraque.

O decreto gerou caos entre agentes de fronteira, alfândega e imigração, em meio a manifestações em grandes aeroportos dos EUA no fim de semana. A medida da Casa Branca também barra a entrada de refugiados por 120 dias e suspende indefinidamente o acolhimento de refugiados da Síria.

O porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, afirmou em entrevista coletiva nesta segunda-feira que o decreto visa “colocar a segurança da América em primeiro lugar” e que Trump irá “agir em vez de reagir” no que se refere a políticas contra o terrorismo.

Na mesma entrevista, Spicer defendeu a indicação do estrategista político Stephen Bannon ao comitê de diretores do Conselho de Segurança Nacional e afirmou que ele não irá a todas as reuniões.

A Casa Branca informou ainda que, em meio à reorganização do conselho promovida por Trump, a CIA (agência de inteligência dos EUA) foi convidada a novamente integrar o comitê. Desde 2005 a agência estava fora do grupo. Com informações da Folhapress.

Fonte: msn

Trump assina ordem para construção de muro na fronteira dos EUA com o México

Outra ordem foi assinada para bloquear fundos para as ‘cidades-santuário’, que protegem imigrantes sem documentos da deportação.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou, em 25/1/1/7, uma ordem executiva para iniciar a construção de um muro na fronteira com o México, uma das principais e mais polêmicas promessas de campanha do republicano.

Trump também assinou uma ordem executiva para bloquear fundos federais para as chamadas “cidades-santuário”, que protegem imigrantes sem documentos da deportação. Os fundos federais serão abolidos para cidades que se recusem a fornecer informações às autoridades federais sobre o status de imigração de pessoas detidas nessas localidades, entre as quais estão Chicago, Nova York e Los Angeles.

Após assinar as ordens, Trump discursou a uma plateia de funcionários do Departamento de Segurança Interna e deu mais detalhes. Segundo ele, os textos ordenam:

 

  • construção imediata de um muro na fronteira
  • fim da politica de “prender e soltar” na fronteira e requer que outros países aceitem os imigrantes de volta
  • repressão às cidades-santuário
  • mais poder aos patrulheiros para mirar e retirar aqueles que apresentam uma ameaça à segurança nacional
  • contratação de mais 5 mil patrulheiros de fronteira (triplicando o número de funcionários)
  • criação de um escritório dedicado a apoiar vítimas do crime de imigração ilegal

 

Trump decreta construção de muro para separar EUA do México

“Uma nação sem fronteiras não é uma nação. A partir de hoje os Estados Unidos tomam de volta o controle de suas fronteiras”, disse à plateia. “Acabo de assinar duas ordens executivas que vão salvar milhares de vidas, milhões de empregos e bilhões e bilhões de dólares”, afirmou.

“Quero enfatizar que vamos trabalhar em parceria com nossos amigos do México para melhorar a segurança e as oportunidades econômicas nos dois lados da fronteira. Tenho uma grande admiração pelo povo mexicano e espero me reunir de novo com o presidente do México. Faremos isso em breve”, afirmou. “Também entendemos que uma economia forte e saudável no México é muito bom para os EUA”, acrescentou.

Trump fala a plateia de funcionários do Departamento de Segurança Interna sobre ordens executivas que assinou nesta quarta-feira (25) (Foto: AP Photo/Pablo Martinez Monsivais)

O presidente americano disse que discutirá com seu colega mexicano coordenação entre os dois países em questões importantes, como o desmantelamento de cartéis e a saída de armas e dinheiro ilegal dos EUA para o México. A reunião entre os líderes está prevista para o dia 31 de janeiro.

 

Construção ‘em meses’

 

Em uma entrevista concedida à ABC News divulgada antes da assinatura da ordem nesta quarta, Trump disse que a construção do muro na fronteira com o México começará “assim que possível”. Questionado sobre se seria uma questão de “meses”, o presidente disse: “eu diria em meses”. Segundo o presidente, o planejamento da construção começa imediatamente.

Fonte: G1

Brasileiros deixam o País

21/08/2016

Contra a crise, brasileiros vão viver em Portugal

Mudar para Portugal é uma alternativa para brasileiros que já têm suporte financeiro

Contra a crise, brasileiros vão viver em Portugal

Portugal está na moda. Basta caminhar pelas cidades de Lisboa, Cascais ou Porto para chegar a essa conclusão. Além do turismo, principalmente na alta temporada, há novos restaurantes, bares, cafés e lojas em cada esquina. E, nos últimos anos, Portugal tem sido a escolha de muitos brasileiros que buscam fugir da crise econômica do País e querem uma melhor qualidade de vida.

Hoje, cerca de 80 mil brasileiros residem em Portugal com vistos regulares, segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), órgão responsável pelo controle de imigração português. Mas esse número deve ser ainda maior, pois brasileiros com passaporte europeu ou que estão no país irregularmente somem das estatísticas.

“Entre os atrativos para os brasileiros, estão a qualidade de vida, a facilidade da língua, o clima, a proximidade entre as culturas, a oferta de boas universidades e o fato de Portugal estar muito em voga atualmente”, afirma Álvaro Fagundes, segundo secretário do Consulado-Geral do Brasil em Lisboa.

Com mercado de trabalho pouco aquecido e um dos salários mínimos mais baixos da Europa Ocidental (€ 557), mudar para Portugal é uma alternativa para brasileiros que já têm suporte financeiro. É o exemplo do fotógrafo Jorge Abud, de 50 anos, que há seis meses trocou seu apartamento no bairro dos Jardins, em São Paulo, por um na Estrela, na zona central de Lisboa. “Amo o Brasil de paixão, mas minha vida é mais simples e tranquila aqui. Não tenho carro, não fico horas no trânsito, quando preciso de carro para viajar alugo e não me preocupo mais com isso”, conta Abud.

A aquisição imobiliária feita por Abud lhe conferiu o chamado Golden Visa, ou Autorização de Residência para Atividade de Investimento (ARI). Trata-se de um programa do governo português que concede a autorização de residência para estrangeiros por meio da transferência de capitais no valor mínimo de €1 milhão, da criação de dez postos de trabalho, da compra de imóveis a partir de € 350 mil, no caso de construções que tenham mais de 30 anos ou que estejam em área de reabilitação urbana, entre outros investimentos.

Esse tipo de visto bateu recorde em 2017: foram emitidos 185 só nos primeiros sete meses do ano para brasileiros, segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Entre 2012, quando o visto foi criado, e 2016, foram 247.

Mercado aquecido

De olho no poder aquisitivo desse público, as imobiliárias e empreendimentos de luxo portugueses realizam feiras e eventos no Brasil para chamar a atenção de clientes em potencial.

Miguel Poisson, diretor da Sotheby’s International Realty de Portugal, líder no segmento de alto padrão, esteve recentemente viajando por São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte para mostrar os novos lançamentos no portfólio da empresa. “No nosso segmento, os brasileiros representam 10% das aquisições, atrás apenas dos ingleses e dos franceses”, diz Poisson. “É a nacionalidade que mais está crescendo nesse sentido. A média de valor dos imóveis vendidos para os brasileiros é de € 900 mil.”

Localizado entre Sintra e Lisboa, o empreendimento de luxo Belas Clube de Campo, que conta com um campo de golfe, faz muito sucesso entre brasileiros.

“Nessa nova fase do projeto, eles já representam 65% das vendas”, afirma o empresário André Jordan, fundador e presidente executivo do grupo de mesmo nome responsável pelo local. “Acho que os brasileiros vêm para Portugal porque dá para viver bem com menos dinheiro aqui”, diz Jordan.

Maria Empis, diretora da consultoria especializada em investimento imobiliário Jones Lang LaSalle (JLL) em Portugal, também vê um interesse crescente por parte dos brasileiros. “No setor residencial, eles são os que mais compram na região de Lisboa, perdem apenas para os portugueses”, afirma a executiva. Com informações do Estadão Conteúdo.

Fonte: Notícias ao minuto

Número de brasileiros barrados em Portugal salta 91,3%

2,6 pessoas são enviadas de volta para a casa por dia

© iStock

O número de brasileiros barrados nos aeroportos de Portugal teve alta de 91,3% em 2016 em comparação com o ano anterior. No total, 968 pessoas foram mandadas de volta para o Brasil no ano passado, o que corresponde a 2,6 pessoas por dia. Os dados foram fornecidos nesta semana pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), órgão responsável pela imigração em Portugal, e divulgados pela “Folha de S. Paulo”.

“Assistiu-se a um agravamento da pressão migratória em termos de imigração ilegal”, diz o documento emitido pelo órgão, que cita também que a alta em relação a 2014 foi de 198,8%.

O SEF responsabiliza a crise no Brasil pelo aumento do número de brasileiros que tenta permanecer ilegalmente no país europeu. Para as autoridades portuguesas, o crescimento da imigração ilegal é “potencialmente justificado pela manutenção da crise econômica que se verifica no Brasil desde 2014, aliada à agudização da crise política e social ao longo de 2016”.

Portugal, por conta da língua e da cultura semelhantes, é um dos destinos preferidos dos brasileiros para migração, formando a maior comunidade de estrangeiros no país.

Fonte: Notícias ao minuto

 

Canadá recruta brasileiros para atuar no setor de TI e usinagem em Québec

Candidatos devem ter domínio da língua francesa e experiência nas áreas oferecidas; salários podem chegar a R$19 mil.


 

A Agência de Desenvolvimento Econômico do Québec está recrutando 216 profissionais na América Latina das áreas da tecnologia da informação (TI) e usinagem para trabalhar no Canadá. Para concorrer a uma vaga, é necessário ter domínio da língua francesa, idioma oficial da província canadense, e experiência na área preterida.

Os profissionais de TI devem ser tecnólogos em informática ou possuir graduação em Ciência da Computação, Construção de Computadores, Engenharia Elétrica ou Eletrônica. Já para as vagas de usinagem, é necessário ter experiência em operação e programação de máquinas ou soldagem.

Na área de TI, os salários variam de 77 mil a 95 mil dólares canadenses (R$ 194 mil a R$239 mil) canadenses por ano, enquanto na área de usinagem, os valores variam de 45 mil a 65 mil dólares canadenses (entre R$ 113 mil e R$ 163 mil).

 

De Curitiba para o Québec

 

Felipe Cruz e Eliane Lima em Québec (Foto: Arquivo pessoal)Felipe Cruz e Eliane Lima em Québec (Foto: Arquivo pessoal)

Felipe Cruz e Eliane Lima em Québec (Foto: Arquivo pessoal)

O curitibano Felipe Cruz de Lima, 29, embarcou para o Québec em 2015 para trabalhar na Beton Bolduc Inc, uma empresa de cimento e paisagismo. Eletromecânico de formação, Lima se mudou para o Canadá com a esposa e dois filhos e hoje conta com um salário anual médio de 50 mil a 60 mil dólares canadenses (R$ 126 mil a R$ 151 mil).

“As dificuldades que tive foram com a língua e as expressões locais. Mas hoje já me sinto super bem integrado”, explica Lima que, antes de se inscrever para a vaga, estudou francês por três anos. O curitibano não vê perspectiva de crescimento dentro da empresa, mas garante que o país está aberto a empreendedores. “Minha esposa, por exemplo, já trabalha com seu negócio próprio, vendendo bolos e doces típicos do Brasil”, disse.

Recentemente, o casal entrou com um pedido de residência e aguarda os trâmites do processo. “Qualidade de vida foi o que mais nos motivou em vir pra cá. Não pensamos mais em voltar”, disse.

Tatyana Mendonça e o marido, Arthur Minduca, 30, em Québec (Foto: Arquivo pessoal  )Tatyana Mendonça e o marido, Arthur Minduca, 30, em Québec (Foto: Arquivo pessoal  )

Tatyana Mendonça e o marido, Arthur Minduca, 30, em Québec (Foto: Arquivo pessoal )

Formada em Ciência da Computação com mestrado em Engenharia da Computação, Tatyana Mendonça, 27, deixou o Recife e se mudou para o Canadá com o marido. Depois de dois anos no no Canadá, Tatyana prestou concurso público e foi aprovada para trabalhar na Revenu Quebec, a Receita Federal do país. “Nós brasileiros somos bem vistos aqui. O pessoal gosta do nosso trabalho, de como somos polivalentes”, disse.

Tatyana afirma ver perspectiva de crescimento onde está e também não vê razões para voltar ao Brasil. O marido de Tatyana, que também é formado em Engenharia da Computação, com mestrado em Ciência da Computação, foi selecionado para a mesma vagas. Recentemente, ambos receberam residência permanente do governo canadense.

 

Processo seletivo

 

O processo seletivo ocorre através de uma plataforma on-line, onde os candidatos devem enviar currículo já em francês. As inscrições podem ser realizadas até o dia 13 de agosto no site oficial do governo local. Não há custos para participação do processo seletivo e, caso aprovado, a empresa contratante será responsável pelos trâmites em relação a vistos e documentos de residência.

Os candidatos selecionados passarão por uma entrevista via Skype.

As oportunidades em solo canadense têm duração inicial de um a três anos, mas é possível realizar um pedido de renovação ou residência fixa após um ano de trabalho. “O candidato pode participar do PEQ (Programme de l’experience québécoise), que oferece um certificado seleção Quebec e abre as portas para a demanda da residência permanente”, disse ao G1 Janaina Kamide, conselheira em atração de talentos da Agência Québec International.

No ano passado, a concorrência para o programa foi de 39 por vaga. “Mas vale lembrar as vagas não foram todas preenchidas. Se o candidato corresponde ao perfil buscado, como experiência, formação e domínio de língua francesa, suas chances de ser contratado aumentarão”, disse Janaina.

Descontentes com a conjuntura política e econômica pela qual o país atravessa, o número de brasileiros que saiu do país aumentou 81% entre 2014 e 2016 comparado aos três anos anteriores, de acordo com dados da Receita Federal.

Fonte: G1

“Que venham os brasileiros”, diz primeiro-ministro de Portugal

António Costa afirma em entrevista que considera o ingresso de talentos em seu país um caminho para dar mais fôlego à economia

Costa: o premiê vê Portugal como base para empresas brasileiras se expandirem na Europa (Marcos Michael/VEJA)

Quando se tornou primeiro-ministro de Portugal, o socialista António Costa foi na contramão da política europeia que tendia à direita. Assumiu um país que começava a sair do fundo do poço econômico depois de um severo plano de austeridade, o que lhe deu possibilidade de abrandar ajustes e repor salários e pensões. Ao contrário da Grécia, Portugal vem obtendo indicadores positivos: o desemprego atingiu a casa de um dígito e o déficit nas contas públicas é o menor em quatro décadas de democracia.

A abertura das fronteiras a estrangeiros que queiram viver em solo português é um caminho para dar fôlego à economia. Atraídas pelas oportunidades no mercado de trabalho, levas de brasileiros estão se mudando para lá. Costa afirmou a VEJA, em sua segunda visita ao Brasil: “Somos uma boa porta de entrada para a União Europeia. Para nós, é um prazer vocês nos descobrirem. É como se estivéssemos acertando uma dívida de 500 anos”.

Fonte: Veja

 

 

 

Número de filhos nascidos de pais que não vivem juntos duplica em seis anos

População portuguesa diminui. Proporção de nascimentos “fora do casamento sem coabitação dos pais” passou de 9,2% em 2010 para 17,1% em 2016. Houve 422 celebrações de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, mais 72 do que no ano anterior

 

 

 

A grande fatia das mães em 2016 tinha entre 20 e 34 anos, mas aumentam nascimentos de mulheres com mais de 35 anos
A grande fatia das mães em 2016 tinha entre 20 e 34 anos, mas aumentam nascimentos de mulheres com mais de 35 anos DANIEL ROCHA / PÚBL

Portugal continua com um saldo natural negativo. Ou seja, confirmando as tendências dos últimos anos, em 2016 houve mais gente a morrer do que a nascer, fazendo com que a população diminua pelo oitavo ano consecutivo. Do total de 87.126 crianças nascidas, 52,8% são filhos “fora do casamento”, ou seja, de pais que não estão casados. Aumentou a proporção de filhos nascidos de pais que não vivem juntos: quase duplicou em seis anos, passando de 9,2% em 2010 para 17,1% em 2016. No ano passado, 35,7% dos nascidos eram filhos de casais que coabitam

Estas são as Estatísticas Vitais do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgadas nesta quinta-feira, que mostram que no ano passado nasceram mais 1,9% de crianças em Portugal do que no ano anterior, só que o número de mortes também aumentou em 1,8% (representando mais de 110 mil). A maioria foi do sexo masculino (quase mais 2500 rapazes).

Desde 2009, houve mais 80 mil mortes do que nascimentos

Desde 2009, houve mais 80 mil mortes do que nascimentos

Já em relação à idade das mães, a grande fatia vai para as mulheres que têm entre 20 e 34 anos (que representa 66%), enquanto o grupo das que têm menos de 20 anos continua a decrescer desde 2010 (passou de representar 4,1% dos nascimentos para 2,5%). Inversamente, as mulheres que são mães com mais de 35 anos continuam a crescer: foi quase 10% entre 2010 e 2016, passando de 21,8% para 31,5% no último ano.

Mais mortes de homens

Nos óbitos, registaram-se mais homens (55 601) do que mulheres (54 934) e a esmagadora maioria (85%) tinha mais de 65 anos. Houve ainda 278 mortes de crianças com menos de um ano, mais 28 do que no ano passado, o que significa uma taxa de mortalidade infantil de 3,2 óbitos por mil nados vivos (era 2,9 em 2015), segundo contas do INE.

Setembro continua a ser o mês em que mais crianças nasceram entre 2010 e 2016 (excepto em 2011, ano em que o mês com maior número de nascimentos foi Julho). Fevereiro mantém-se como o mês com menos nascimentos (uma regra que 2011 voltou a ser quebrada já que nesse ano Abril teve o menor número de nascimentos).

Por outro lado, se nasceram mais crianças em Setembro, já as mortes aconteceram sobretudo em Dezembro (em 2015 Janeiro tinha sido o mês com mais registos de óbitos). Apesar de a mortalidade apresentar um padrão geral sazonal – mais no Inverno, e menos na Primavera e no Verão – em 2016 houve mais óbitos em Julho e Agosto, se comparado com o período homólogo de 2015.

Já em relação aos casamentos, houve 422 celebrações entre pessoas do mesmo sexo, mais 72 do que no ano anterior. A maioria desses, 249, foi entre homens, e 173 entre mulheres. A preferência continua a ser pelo civil: dos 32.399 registados, 64,2% celebraram-se dessa forma, e 35,3% pela Igreja Católica, sendo muito baixo o número de casamentos por outras formas religiosas (0,5%).

Daqueles que se casam, a maioria já co-habitava antes de dar o nó, situação que tem vindo a aumentar significativamente nos últimos anos, passando de 44,2% em 2010 para 56,1% em 2016. O INE não registou variação significativa de 2015 para 2016 no número de casamentos, que passaram de 32.393 para 32.399.

Fonte: O Público

Descobrimento às avessas

Cada vez mais brasileiros de classe média e alta se mudam para Portugal, atraídos pelas facilidades do país europeu

Descobrimento às avessasINVESTIMENTO Os brasileiros representam 10% dos estrangeiros que compram imóveis em Portugal

 

MUDANÇA Regina Angerami e o marido, Guilherme Schibik, vão entrar legalmente no país europeu com o visto de aposentados

MUDANÇA Regina Angerami e o marido, Guilherme Schibik, vão entrar legalmente no país europeu com o visto de aposentados
 

 

 

O Brasil está descobrindo Portugal. Alguns números ilustram esse movimento de migração impulsionado pela crise brasileira e pelos vários atrativos que a nação irmã oferece. Em 2014, havia 87.493 brasileiros legais naquele país. Em 2016, já eram 116.271. Somente este ano, aumentou em 35% o número de concessões da cidadania portuguesa para a população do País. E, entre 2010 e 2017, foram mais de 87 mil nacionalidades concedidas para cidadãos do território nacional. Sendo 46.749 só em São Paulo. Os motivos para essa diáspora, justamente para Portugal, são muitos (leia quadro). A advogada carioca Nicole Adele Kertesv, que trabalha com pedidos de dupla cidadania e recolocação há 20 anos, cita, pela ordem, a violência urbana, a crise econômica e a insegurança política. “Percebo um aumento de pedidos 100% maior em relação ao mesmo período do ano passado”, afirma.

Há algumas formas de migrar legalmente para o território europeu. Por meio do visto fornecido pelo Consulado ou das Conservatórias e Registro Civil, diretamente em Portugal. A especialista em registro civil português Guiomar Bitetti aponta mais uma opção. “Quem tem dinheiro para comprar um imóvel de U$ 500 mil (R$ 1,57 milhão) ou abrir uma empresa e empregar dez portugueses, consegue o Visa Gold que, posteriormente, vira nacionalidade.” A aposentadoria também é uma porta de entrada. E essa foi a opção dos paulistanos Silvia Regina Angerami, 58, e do marido, Guilherme Schibik, 64, que desembarcarão no Algarve, litoral sul, no dia 6 de maio. Eles têm visto de aposentados, que é válido por um ano e pode ser renovado. O casal está trocando um apartamento próprio de 320m2 na capital paulista por um imóvel menor e alugado. “Será nossa nova fonte de juventude”, diz Silvia.

É mais fácil conseguir o visto para morar em Portugal do que em outros países da Europa ou nos Estados Unidos

PERFIL O paulistano Carlos Rebolo é um funcionário graduado de uma empresa de tecnologia e mora em Lisboa

 

 

 

PERFIL O paulistano Carlos Rebolo é um funcionário graduado de uma empresa de tecnologia e mora em Lisboa
 

 

 

Diferentemente de fluxos migratórios anteriores, atualmente quem está se deslocando para o país europeu é a classe média, com bom poder aquisitivo. A informação é confirmada pela diretora do departamento consular do Itamaraty, Luíza Lopes da Silva. Um exemplo do novo perfil é o paulistano Carlos Rebolo, 37, que mora em Lisboa e trabalha com países europeus e africanos para a empresa de tecnologia Hewllet Packard, a HP. “Em outras épocas, nós vínhamos para trabalhar em construção civil, faxina, trabalho pesado. Agora, tem muitos brasileiros qualificados, como é o meu caso”, diz Silva.

Apoio do Itamaraty

Se antes o departamento consular e de brasileiros no exterior do Itamaraty dava muita assistência a pessoas de baixa renda, hoje o maior problema da comunidade nacional se refere à violência de gênero, “que atinge mulheres de todas as classes sociais”, diz a diretora Luiza, baseando-se no serviço de discagem internacional, o 2030 8823, criado pelo órgão. Fugindo da crise e da violência, a carioca Abadia Vieira, 41, levou sua empresa de teatro motivacional para Lisboa há um ano. Casada e mãe de dois filhos, a família foi dividida – ela e o caçula foram para Portugal, o marido e o primogênito ficaram no Rio. “A intenção é juntar todo mundo em Lisboa”, afirma a empresária, que está confiante que fez a escolha certa. “Portugal está em uma fase positiva, de olhos no mundo. A cultura, a língua, tudo facilita na hora de apresentar projetos aqui.”

ESPERANÇA A carioca Abadia Vieira se mudou primeiro com o filho caçula. E aguarda o marido e o primogênito

 

 

 

ESPERANÇA A carioca Abadia Vieira se mudou primeiro com o filho caçula. E aguarda o marido e o primogênito
 

 

10 vantagens de se morar em portugal

1. Idioma
Há algumas diferenças no vocabulário, mas o idioma é o mesmo, o que facilita a comunicação e a adaptação

2. Facilidade na documentação
Para os brasileiros o processo de residência legal em Portugal é muito mais rápido e simplificado em relação a outros países europeus

3. Segurança
A violência é muito menor em Portugal. Enquanto o país europeu ficou em quinto lugar no Índice Global da Paz 2016, feito pelo Instituto para Economia e Paz (IEP), o Brasil ocupa a 105ª posição de nação mais pacífica

4. Sistema de Saúde
Um dos principais motivos que os brasileiros apontam para escolher Portugal: o sistema de saúde é bem melhor do que o brasileiro

5. Economia
Outro motivo apontado pelos brasileiros que moram em terras portuguesas é o custo de vida mais baixo. Viver lá é melhor e mais barato

6. Transporte e estradas
Sistema de transporte público eficiente e estradas em boas condições

7. Educação
O relatório educacional PISA 2012-2015, programa internacional de avaliação de estudantes, mostra que Portugal é o único país europeu que continua a melhorar a educação desde o começo deste século

8. Internet
Item essencial, principalmente para quem está longe da família, a Internet no país tem uma velocidade muito superior à brasileira

9. Clima
As estações são bem definidas. Invernos sem frio intenso e verões quentes e secos

10. Culinária
Restaurantes para todos os bolsos, além de ótimas opções de vinhos

Fonte: Isto É

Por que tantos cariocas estão elegendo Portugal como segunda casa

Clima agradável, qualidade de vida e facilidade da língua empolgam nova leva de imigrantes

Terraço do Rio Maravilha, gastrobar que faz homenagem ao espírito carioca, na LX Factory – Joana Dale / Agência O GLOBO

 

Dez dias ininterruptos de sol. A surpresa meteorológica, em pleno inverno europeu, encantou a artista plástica Vitória Frate e o ator Pedro Neschling, casal de cariocas que caiu de paraquedas na capital portuguesa no meio de uma temporada de estudos no Velho Continente.

 

 

— Depois de duas semanas no Norte da Europa, tínhamos dez dias livres, e a ideia era seguir para a Polônia. Mas estávamos cansados do frio e, na hora do check in, decidimos trocar Varsóvia por Lisboa. O amor foi imediato — conta Vitória, que guarda como lembrança de janeiro de 2012 fotos do casal na Torre de Belém com o sol como testemunha. — Voltamos outras vezes e, desde o ano passado, começamos a dividir a vida entre lá e cá.

O agradável clima de Lisboa — cidade que tem a média de 260 dias ensolarados por ano e cuja temperatura mínima raramente é inferior a dez graus — costuma ser um dos primeiros pontos listados pela enxurrada de brasileiros que vêm elegendo Portugal como segunda casa. Os laços que unem os dois países há mais de 500 anos, a proximidade cultural e, claro, a facilidade da língua completam o pacote.

— Às vezes, me sinto mais em casa em Lisboa do que em São Paulo — ri Vitória. — A minha família paulista vai ficar brava, mas a questão do sotaque é real. O carioquês tem muito do português lisboeta, que foi a nossa principal influência, além dos sotaques africanos. A gente chia como eles, fala os erres como eles, só pronunciamos mais as vogais, coisa que eles não fazem de jeito algum. Enquanto o sotaque paulistano tem muita influência do italiano, ? E Lisboa também tem um ar mais relaxado, como o Rio.

Vitória Frate e Pedro Neschling, na Torre de Belém: casal se divide entre lá e cá desde o ano passado – Arquivo pessoal

Em termos práticos, mudanças na legislação portuguesa são outros atrativos consideráveis. Para tentar sair da crise que assolou o país nos últimos anos, o governo lusitano criou uma série de incentivos, como benefícios fiscais e concessão de visto de residência para investimentos acima de 500 mil euros, o chamado Golden Visa. Embora sejam considerados hoje os melhores clientes das agências imobiliárias lisboetas focadas no mercado de luxo, os brasileiros representam apenas 4% dos pedidos de Golden Visa — os chineses são a grande maioria (83%).

— Os números não correspondem à avalanche de brasileiros comprando imóveis porque muitos já têm, por parte do avô ou da avó, cidadania portuguesa — ressalta Mario Vilalva, embaixador do Brasil em Portugal.

Para o diplomata, a ascensão do turismo no país e a queda no valor dos imóveis, em decorrência da crise econômica, foram determinantes para o boom:

— Quando começaram a redescobrir Portugal, inicialmente como turistas, os brasileiros passaram a enxergar Lisboa como uma possibilidade de segunda casa, como aconteceu com Miami tempos atrás — analisa Mario Vilalva.

Aguinaldo Silva, Glória Perez, Cláudia Abreu, Fernanda Torres e Paolla Oliveira, só para citar alguns nomes conhecidos, integram a cada vez mais extensa lista de proprietários na capital portuguesa.

— O que eu mais gosto de fazer em Lisboa é andar nas ruas, sem sobressaltos, descobrindo lugares — conta Glória Perez, que tem passado férias no apartamento que comprou em frente ao Parque Eduardo VII. — É tudo tão familiar, a gente se sente na casa dos avós. E está mesmo lá, não é só impressão. Além dos amigos, tenho primos em Lisboa. Primos portugueses. De modo que, quando vou, também estou em família.

Ator português que se divide entre Rio e Lisboa há mais de uma década, Ricardo Pereira está orgulhoso por testemunhar o movimento migratório.

— Fico feliz em notar que o meu país finalmente cativou os brasileiros. São duas potências irmãs que só ganham com a troca — diz o ator, que vive com a caixa de entrada lotada de e-mails de amigos cariocas pedindo dicas da terrinha.

Joana Balaguer na LX Factory: atriz criou site para fazer a ponte entre Portugal e Brasil – Arquivo pessoal

O crescente fluxo de brasileiros rumo a Portugal, seja para passar temporadas, morar ou turistar, inspirou a atriz Joana Balaguer a criar um site, o Cidades de Portugal, lançado semana passada, para fazer a ponte entre os dois países.

— Portugal está tão na moda que ganhou até a Eurocopa — brinca Joana, há um ano baseada em Lisboa com o marido, o português Paulo Miguel Palha de Souza, e o filho Martín, de 2 anos.

Endereço frequentado pelos descolados locais, a LX Factory ganhou destaque entre as primeiras publicações. A antiga fábrica de fiação e tecidos é ocupada por cafés, bares, lojinhas de design.

— A LX é o Soho de Lisboa — diz ela, que também listou os seus rooftops preferidos, entre eles o Topo, na Mouraria, o Sky Bar, na Avenida da Liberdade, e o Rio Maravilha, em Alcântara.

Um dos mais novos espaços da LX Factory, o Rio Maravilha é um gastrobar com vista panorâmica para o Rio Tejo. O horário mais concorrido é o fim de tarde, para tomar um drinque no coloridíssimo mesão, ao lado da escultura de uma mulher de braços abertos, criada sob encomenda pelo artista português Leonel Moura.

— É a namorada do Cristo Rei, que estava lá do outro lado do Tejo sozinho há um tempão — conta um garçom, enquanto serve bebidas, referindo-se ao santuário inspirado no nosso Cristo Redentor, erguido em Lisboa em 1959.

O Rio Maravilha ocupa o espaço onde antigamente funcionava a sala de convívio dos operários da fábrica.

— A ideia é que, em um mundo tão virtual, a essência do lugar inspire a convivência na vida real — conta o relações-públicas Roger Mor. — Muitas vezes, o desbloqueador de conversa é a mulher de braços abertos, que faz uma alusão ao convívio de Portugal com o restante do mundo e não deixa de ser uma grande homenagem ao Rio de Janeiro.

Em um passeio pela LX Factory, descobre-se mais um pouquinho de Brasil aqui e ali. Como a charmosa lojinha Oh! Brigadeiro, especializada no docinho, e o Café na Fábrica, que serve pão de queijo, açaí, empada de queijo e coxinha de galinha, entre outros quitutes.

— A coxinha é um dos maiores sucessos. Muitos portugueses que já moraram no Brasil vêm aqui atrás da pera, como a chamam, para matar a saudade — conta Carolina Henke, sócia dos dois estabelecimentos, que dez anos atrás foi para Lisboa fazer mestrado, casou com um português e por lá ficou.

O angolano Mário Almeida e a brasileira Mona Camargo comandam o Espelho D’Água – Lili Staros / Divulgação

A coxinha de galinha, por sinal, está em todas. O salgadinho aparece em uma versão com massa de mandioca no menu do Espelho D’Água, ao lado do “pastel de vento” e do bolinho de arroz recheado com sardinha.

— A proposta do cardápio é ressaltar as influências de Brasil, Angola e Índia na gastronomia portuguesa, como forma de mostrar uma faceta mais afetiva e nem tão evidente das expedições portuguesas — conta a paulistana Mona Camargo, curadora do espaço dirigido por seu marido, o angolano Mário Almeida.

Misto de restaurante, café, casa de shows, galeria e residência artística, o Espelho D’Água ocupa os 1.500 metros quadrados de um edifício modernista de 1940, inaugurado pelo ditador Antonio Salazar como parte da Exposição do Mundo Português, às margens do Tejo. Fica colado ao simbólico Monumento aos Descobrimentos.

Em pouco mais de um ano de funcionamento, virou uma informal embaixada lusófona, com shows semanais de músicos angolanos e brasileiros.

— Quando um artista vem para cá, ele descobre uma relação não só com a Europa, mas também com as raízes africanas — observa Mona. — Além disso, muitos portugueses que saíram do país no auge da crise em busca de oportunidades no Brasil agora estão voltando para Lisboa. Desta vez, com maridos ou mulheres brasileiros.

É mais ou menos o que aconteceu com a portuguesa Kiki Caldas, de 33 anos. Depois de cinco morando fora, ela voltou para Portugal com o marido, o paulista Felipe Kopanski. O casal trocou o apartamento onde vivia no Vidigal por uma casa em Cascais para criar a filha, Matilda, de 2 anos.

Ao lado de outros dois amigos brasileiros, os cariocas Rique Inglez e João Marcus Cavalcanti, Kiki e Felipe inauguraram há três meses a Wozen, misto de galeria de arte e estúdio de tatuagem. Atualmente, está em cartaz no espaço a exposição coletiva “Glocal”, com trabalhos de artistas da Bélgica, da Itália, de Angola, do Brasil…

— A proposta da Wozen é ser um espaço sem fronteiras — conta Kiki, que depois de ter problemas com visto no Brasil publicou no Facebook o “manifesto para cidadania mundial” intitulado WOrldcitiZENship, no qual afirma que “todo indivíduo, em sua condição de ser humano livre, possui o direito de habitar qualquer lugar do planeta”. Daí o nome da galeria.

 

Felipe Kopanski, Kiki Caldas, João Marcus Cavalcanti e Rique Inglez: três brasileiros e uma portuguesa comandam galeria “sem fronteiras” – Divulgação

A nova leva de brasileiros que está atravessando o Oceano Atlântico é recebida de braços abertos pelos portugueses. Nota-se um clima bem diferente do início dos anos 1990, quando um populoso grupo de dentistas brasileiros causou a maior ciumeira na terrinha, a ponto de os profissionais de odontologia locais pressionarem o governo português a cancelar a validação dos diplomas dos estrangeiros.

— O brasileiro não é mais tratado como um estrangeiro em Portugal — afirma o embaixador do Brasil em Lisboa, Mario Vilalva.

Baseados em Lisboa há pouco mais de um ano, os cariocas Andréa Acker e Raul de Lamare, ambos na faixa dos 50 anos, já fizeram vários amigos lisboetas.

— A concorrência das brasileiras só tem feito bem às portuguesas: a figura da gordinha clássica de buço está entrando em extinção — brinca Raul.

— Na academia onde faço ginástica, uma das aulas mais concorridas pelas portuguesas é a M.I.B., sigla de “made in Brazil”, focada em exercícios para as coxas e bumbum — emenda Andréa.

Brincadeiras à parte, os dois estão fazendo uma imersão diária na cultura portuguesa.

— Eu preciso fazer um esforço danado para não chamar ninguém de “você”. Aqui, é preciso falar na terceira pessoa, como o Pelé — conta Andréa.

O casal mora em um simpático apartamento na Estrela, que junto com o Príncipe Real seria o equivalente ao eixo Gávea-Jardim Botânico. Eles não têm data marcada para voltar para o Rio, onde ela trabalhava como produtora de grandes eventos e ele como consultor de restaurantes.

— As nossas vidas estavam em um ritmo muito frenético. Viemos em busca de uma rotina mais calma, para dar uma desacelerada — diz Raul.

Centro histórico de Cascais: passeio pela calçada de pedras portuguesas remete ao Rio – Joana Dale / Agência O GLOBO

Outro concorrido destino em território português para quem busca um estilo de vida mais pacato é Cascais, balneário a 30 quilômetros de Lisboa. Ex-moradora do Leblon, a advogada Paula Monteiro Vianna chegou a morar um ano na movimentada Rua da Misericórdia, no Chiado, mas há quatro anos, quando engravidou do primeiro filho, mudou-se para Cascais.

— A maior parte dos brasileiros que está vindo morar em Portugal está indo para Cascais. É uma vida mais calma, com uma rotina típica de bairro. Chiado e Bairro Alto, em Lisboa, acabam sendo lugares mais procurados por quem compra apartamento para passar temporadas, pois há mais opções de restaurantes e vida cultural ao redor — compara a advogada.

Nos muitos dias de sol, Paula encontra a comunidade brasileira concentrada na caminhada matinal no paredão, como os portugueses chamam o calçadão à beira-mar, que liga Cascais a Estoril:

— Aquela caminhada matinal na Praia de Ipanema é substituída pela caminhada no paredão de Cascais.

Especialista em analisar escrituras e validar diplomas de clientes brasileiros na terrinha, Paula vai e volta todos os dias para Lisboa, onde fica o seu escritório de advocacia. Sem trânsito, é um caminho de 30 minutos. Nos últimos tempos, porém, o trajeto chega a levar duas horas. A situação faz muitos cariocas compararem Cascais à Barra da Tijuca.

— Mas de Barra, não tem nada. O centro de Cascais lembra Búzios de antigamente. Se tem um lugar nos arredores que pode ser comparado à Barra, do ponto de vista dos cariocas da Zona Sul, é o Parque das Nações — explica Paula.

O Parque das Nações é a região mais nova de Lisboa. É quase uma cidade à parte. Também conhecida como Oriente, a área foi palco da Exposição Internacional de Lisboa de 1998, que celebrou os 500 anos dos Descobrimentos Portugueses. Para a ocasião, foram construídos diversos pavilhões com arquitetura moderna e tecnologia de ponta numa antiga e degradada área industrial. Alguns de pé até hoje, entre eles o famoso Oceanário e a Estação do Oriente, projetado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, o mesmo responsável pelo desenho do Museu do Amanhã. O Parque das Nações é o endereço favorito dos chineses.

Chiado, Avenidas Novas ou Santos?

Garagem, prédio com porteiro 24 horas, quarto de empregada e, se possível, vista panorâmica para o Rio Tejo. Alguns brasileiros que chegam a Lisboa querem viver com as mordomias típicas do Brasil. Lista de exigências é para quem pode. Números da Athena Advisers, empresa especializada em negócios imobiliários na Europa que acabou de abrir escritório no Rio, mostram que os brasileiros desembolsaram mais de 20 milhões de euros adquirindo imóveis no Velho Continente em 2015. A expectativa é que o valor dobre este ano.

— Garagem é um artigo de luxo no centro histórico de Lisboa — pondera a portuguesa Carlota Pelikan, consultora imobiliária Athena. — Os brasileiros são os nossos melhores clientes. Um acabou de comprar dois apartamentos nesse prédio da Rua Alecrim. Foi como investimento, para passar férias e alugar no restante do ano. É um prédio tombado que está passando por um processo de retrofit, e a construtora conseguiu reservar um andar para a garagem.

No sobe e desce das ensaboadas calçadas de pedra portuguesa do Chiado, Carlota tira o laptop da bolsa todas as vezes em que um cliente quer saber como será o resultado do retrofit de um edifício. Por fora e por dentro.

— Os brasileiros adoram o fato de os apartamentos serem entregues praticamente prontos, com máquina de lavar, microondas… — conta Carlota, enquanto mostra imagens dos projetos em 3D na tela do computador. — Os cariocas chegam a Lisboa falando em Chiado, mas aos poucos vão descobrindo novos bairros.

Espécie de Leblon no passado, o Chiado hoje é comparado a Copacabana. Mesmo saturado, continua a ser um dos metros quadrados mais caros de Lisboa: oito mil euros, em média. Mas, mesmo assim, ainda está abaixo das áreas nobres de outras capitais europeias: imóveis de luxo em Londres custam até 33 mil euros, o metro quadrado.

— Antes de o governo abrir as janelas para o investimento estrangeiro, não se vendiam imóveis em planta em Portugal, o mercado internacional era praticamente nulo. O programa do Golden Visa aguçou o apetite de quem nunca tinha olhado para cá. Hoje, já não há mais estoque para vendas, situação oposta à que estávamos vivendo em 2011 — analisa o advogado português Manuel Bento Nogueira, do escritório Legal Square, que tem a clientela dividida majotariamente entre brasileiros e chineses.

Terraço-gourmet de empreendimento lançado por arquiteto baiano, nas Avenidas Novas – Divulgação

De olho no bom momento do mercado imobiliário, o arquiteto baiano Sidney Quintela lançou, no último dia 14, o luxuoso Nouveau Lisboa, na Avenidas Novas. Em menos de 30 dias, metade dos 21 apartamentos foi vendida (três brasileiros compraram). Sete apartamentos contam com o chamado “terraço-gourmet”.

— É um conceito de utilização de espaço muito comum no Brasil e que estamos exportando para Portugal. As áreas comuns, com academia de ginástica, piscina, spa, também estão fazendo sucesso — conta Sidney. — Tradicionalmente, as moradas lisboetas têm as áreas internas dos apartamentos mais generosas. A cozinha não é pequena como as nossas, pois quem usa é o dono da casa, não há empregados. Fora isso, como há uma variação de temperatura maior, ficam muito dentro de casa no inverno.

Há dez anos, o arquiteto tem escritório em Lisboa, onde trabalha com projetos residenciais e comerciais. O Nouveau Lisboa é o primeiro empreendimento imobiliário. Mas não será o único. Outros três projetos de prédios residenciais estão em desenvolvimento, na mesma região.

— Avenidas Novas é uma área muito próxima ao centro histórico de Lisboa, a grande procura do mercado. Num raio de 600 metros, você está na Marquês de Pombal e no El Corte Inglés. E a um quilômetro está no Chiado, Bairro Alto — detalha Sidney. — Lisboa é uma porta de entrada para a Europa e um lugar onde se tem um estilo de vida muito atraente. Neste momento, os imóveis estão recuperando o preço original, pois o valor do metro quadrado estava muito aquém. Acredito que, nos próximos dois anos, vai haver um acréscimo de até 10%. E vai estabilizar por aí. Não é uma bolha.

Projeto de quarto com vista para o Rio Tejo, em prédio que será erguido em Santos, o bairro moderninho da vez – Divulgação

O bairro da vez, no entanto, é Santos, que reúne lojas de design, galerias de arte, startups. Lá está sendo erguido o Santos Design, empreendimento da Stone Capital. Os apartamentos têm vista para o Tejo, garagem, dependências, área comum com spa e academia de ginástica. E a noite local ainda é comparada ao Baixo Gávea. O que eles podem querer mais?

Dicas à moda carioca

A Vida Portuguesa: Lojinha com badulaques tradicionais de Portugal, de enlatados (foto) a cerâmica e vela. Filiais no Chiado e Intendente.

Parking: Bateu vontade de tomar um drinque no fim da tarde e, de quebra, com vista? O bar fica em cima de um edifício-garagem no Bairro Alto.

Underdogs: Galeria de arte nos armazéns e loja de pôsteres no Cais do Sodré.

A croqueteria: É autoexplicativo. Quiosque de croquetes (o de atum é um luxo), na Baixa.

Mona, lojinha de design em Santos – Joana Dale / Agência O GLOBO

Mona: Lugar pra respirar (e comprar) design. Fácil, fácil de achar. Só seguir a Rua das Janelas Verdes (a mesma da Wozen), em Santos.

 

Casa dos Ovos Moles: Para adoçar a boca e a vida, na Estrela. Trouxinha, sorvete e bolo, todos de ovos.

Manteigaria: Simples assim. Uma fábrica de pastéis de nata, no Bairro Alto. Vale comer um quentinho.

Miradouro do Adamastor: Tirando o fato de que não tem praia, é como se fosse o Arpoador, um point para ver o sol se esconder, no Chiado.

Fonte: O Globo

Como vivem os refugiados fora da Europa?

08/05/2016
Campo de refugiados  de Za'atari (Foto: AHMAD ABDO/AFP/ÉPOCA)

Vidas intermitentes: como vivem os refugiados sírios no maior campo do Oriente Médio

Apanhados no fogo cruzado de uma guerra civil sem fim, 80 mil sírios tentam tocar a vida em Za’atari, no norte da Jordânia

Uma ventania intensa sacode o contêiner de zinco, que responde com um barulho quase ensurdecedor de metal vibrando. O zunido só é suplantado pelo falatório de quem está dentro dele. Perto de 30 mulheres, sírias, discutem avidamente numa manhã de domingo em Za’atari, na Jordânia, o maior campo de refugiados do Oriente Médio. O céu está azulado e limpo, mas o sol de começo de primavera não é suficiente para mitigar os efeitos do vento gelado que castiga o norte da Jordânia.  Faz pouco mais de 10 graus célsius, mas a sensação térmica é menor. A vizinha Síria fica a 12 quilômetros e – em tempos normais, de paz – a poucos minutos de carro.

A poeira sobe, cega e dificulta a tarefa de estar fora de casa para quem teima em viver no meio do deserto.  Dentro do contêiner, faltam cadeiras a todos os presentes. O exíguo espaço de 7,5 metros por 3 metros, padrão das habitações de Za’atari, obriga quem participa do encontro a uma proximidade íntima. “Nós não queremos que você nos diga ‘te ouvimos, te ouvimos’, queremos ações concretas”, diz uma senhora, feições sérias emolduradas pelo hijab preto a um jovem jordaniano que poderia ser seu neto. A discussão do dia trata das dificuldades das mulheres em conseguir o documento dado pelas autoridades jordanianas que permite a saída temporária de Za’atari. O esquema de vigilância do campo parece de segurança máxima. No portal de acesso, um tanque militar preto dá as boas-vindas aos visitantes. Só é possível sair e entrar mediante autorização expressa da polícia.

Dentro do contêiner, as mulheres reclamam de não poder requerer, sozinhas, o tal documento, à exceção de viúvas e divorciadas. São os maridos e homens da casa os responsáveis por pedir a permissão. “Eu sou uma adulta, por que preciso que meu marido pegue a autorização para mim?”, dispara uma jovem de lenço florido. O funcionário que tenta coordenar a reunião não tem soluções para oferecer: “Não somos nós que fazemos as regras. Se seu marido concorda ou discorda, é obrigação dele ir pedir a autorização”.

As reuniões comunitárias foram uma das formas que o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), responsável pela administração de Za’atari, encontrou para ouvir as demandas dos milhares de refugiados que vivem lá. Em meados de 2013, quando o campo vivia seu pico populacional, com mais de 200 mil pessoas aglomeradas em parcos 5 quilômetros quadrados, protestos, por vezes violentos, faziam parte da rotina local. De lá para cá, a situação no campo se assentou. Nos últimos dois anos, melhorias foram implementadas. A população também diminuiu: hoje, cerca de 80 mil pessoas vivem em Za’atari.

Contêineres que servem como escolas  (Foto: Raad Adayleh/AP)

O campo foi aberto com algumas centenas de pessoas em julho de 2012.  O levante na Síria, já convertido em guerra civil, completava um ano e meio. Foi na província rural de Dara’a, na fronteira com a Jordânia, que começaram os protestos contra a prisão, tortura e morte de crianças e adolescentes que despretensiosamente picharam muros com slogans contra o presidente Bashar Al Asad, em janeiro de 2011. Foi a faísca que incendiou a Síria. Em abril daquele ano, a província sofreu com cercos, cortes de energia e água e bombardeios constantes por parte do regime de Assad. Com a violência, milhares de sírios de Dara’a buscaram refúgio ao sul – muitos tinham família na Jordânia. Assim como a maioria dos refugiados sírios na Jordânia, a maior parte da população de Za’atari veio dos vilarejos de Dara’a. Hoje, depois de cinco anos de conflito, milhares de mortos e milhões de refugiados, o campo de Za’atari caminha para seu quarto ano de existência. É um atestado do fiasco da comunidade internacional em promover  uma solução para a guerra na Síria. Ele resiste como a mais pungente lembrança de que, embora o foco do mundo seja a crise migratória na Europa, a vasta maioria dos sírios nem sequer pôde deixar o Oriente Médio.

A provisoriedade permanente de Za’atari é um pouco mitigada pela sensação de segurança e estrutura oferecidas pelo campo.  Sem dar incentivos para que o local se torne um assentamento de longo prazo, as organizações humanitárias que trabalham em Za’atari procuram construir estruturas eficientes, pouco custosas e que ofereçam o mínimo de dignidade aos refugiados. No início, as tendas de lona com o emblema das Nações Unidas eram a moradia comum no campo. Abrigo precário, especialmente em uma região de climas extremos, onde neve, tempestades de areia e inundações ocorrem com frequência, as barracas foram progressivamente substituídas pelos contêineres de zinco e aço: as “caravanas”.

Essas habitações são em sua maioria uma cortesia, bastante alardeada, dos países do Golfo. Arábia Saudita, Catar e Kuwait, que até o momento não receberam quase nenhum refugiado sírio, exibem sua generosidade com selos gigantes pintados na parte externa dos contêineres. As crianças costumam pintar por cima das inscrições, dando um toque pessoal à moradia padronizada. Andando pelo Distrito 5 (entenda a disposição do campo no mapa no final da página), em um dos contêineres habilmente pintado por seus moradores se lê: “Raji’een ya Nawa”, “Nós voltaremos, Nawa”, em referência a um vilarejo de Dara’a. Ao lado, completam: “Suriya hurra” – “Liberdade para a Síria”.

A transição para moradias mais robustas integra a sequência de iniciativas para tornar a vida em Za’atari um pouco menos árdua e atender às demandas de uma população cuja permanência tende a se prolongar. A rede elétrica, projetada para fornecer luz apenas às ruas do campo, teve de ser ampliada, porque a maioria das moradias contava com ligações remendadas – os “gatos”. A conta de luz no último inverno, sobrecarregada com o uso de aquecedores, ultrapassou US$ 1 milhão ao mês. Uma planta de energia solar projetada para suprir as necessidades locais está sendo construída pelo governo alemão e a expectativa é que funcione em 2017. AAlemanha, ansiosa por estancar o fluxo de refugiados que chega à Europa, financiou a estação de coleta e tratamento de esgoto que deverá começar a funcionar até o fim do ano.

Refugiados  em posto de saúde em Acnur (Foto: AHMAD ABDO/AFP/ÉPOCA)

“Quando cheguei aqui, o campo não tinha praticamente serviços de saúde”, diz Ibrahim al-Hariri, de 34 anos, morador de Za’atari desde 2012. Enfermeiro e professor na Síria, Ibrahim relutou em deixar Dara’a, mesmo quando sua casa foi atingida pelos bombardeios que se tornaram habituais. “Mas meu filho começou a ter pesadelos, e eu decidi que era hora de vir para a Jordânia.” Ele se juntou a outros refugiados para formar uma espécie de comitê de atendimento médico. “Começamos com três pessoas e, no final, tínhamos 120. Nós trabalhamos como voluntários por sete meses. Queríamos ajudar os feridos de guerra, pessoas que não conseguiam chegar a hospitais, mas, quando começamos a trabalhar com os administradores, passamos a ajudar nas campanhas de vacinação e de saúde”, diz Ibrahim. Hoje, ele conta feliz que os membros do comitê estão empregados nos 12 hospitais e centros de saúde de Za’atari. Ibrahim trabalha no centro pós-operatório da organização Médicos Sem Fronteiras no campo.

Ibrahim integra um grupo restrito de moradores de Za’atari com a sorte de ter um emprego fixo e razoavelmente bem pago. A maioria da população que vive lá é dependente do auxílio humanitário que chega na forma de doações, alimentos e vouchers  –  agora progressivamente substituídos por cartões com um depósito em dinheiro, para dar autonomia aos refugiados de decidirem seus gastos.

À parte o auxílio humanitário, as alternativas de subsistência são poucas. Há os trabalhos rotativos, oferecidos pelas organizações que atuam no campo. Cerca de 5 mil vagas em diferentes áreas, entre recepcionistas, limpeza e até bordadeiras em centros comunitários, e que recebem em média 1 dinar jordaniano (JD) por hora – cerca de US$ 1,41. O valor é razoável, se comparado ao que pagam os fazendeiros locais aos refugiados sírios nas lavouras que cercam Za’atari. Os cultivos agrícolas ao redor do campo parecem mais terra nua do que lavoura. Eles só chamam a atenção por causa das barracas com selo das Nações Unidas – traficadas para fora de Za’atari – que abrigam a mão de obra sazonal.  A barraca que custa ao Acnur US$ 500 sai, no mercado informal, pela bagatela de US$ 100. Na estrada até Za’atari, um motorista jordaniano aponta os sulcos das plantações. “Pepino, hortelã, salsinha, tomate, lentilhas e azeitonas”, diz ele, que faz a viagem ao campo pelo menos uma vez por semana. “A terra aqui é boa, fértil. O problema é a falta de água.” A Jordânia é um dos países do mundo que mais sofrem com a escassez crônica de água – problema agravado pelo súbito aumento populacional provocado pelos refugiados.

Em Za’atari, as mazelas que decorrem da combinação da carência de infraestrutura com ausência de perspectivas abundam: contrabando, tráfico de pessoas, violência doméstica e até prostituição. Uma funcionária dos serviços humanitários conta que os relatos de abuso sexual, principalmente de crianças, são comuns. “O mais comum são casos de famílias numerosas, os primos, os filhos dos primos, que vivem em um mesmo quarto. Muitos pais deixam Za’atari para trabalhar fora do campo ou estão na Síria. A mãe sai para trabalhar e deixa as crianças sozinhas. Isso facilita o abuso”, diz a psicóloga jordaniana Da’ed Mnezil, que já trabalhou no campo. O Acnur, que lida com os casos, afirma que não são “muitos se considerada a população de 80 mil pessoas”, mas reconhece que a violência doméstica é uma “preocupação”.
Oficialmente, refugiados não têm permissão para trabalhar no país. Mas como muitos refugiados buscam meios de subsistência e há pressão dos donos das fazendas, interessados na mão de obra barata, as autoridades jordanianas passaram a oferecer as permissões de saída. Na prática, elas funcionam também como permissões de trabalho. Quem consegue o documento para sair de Za’atari trabalha duro para receber em média 0,50 dinares por hora – cerca de US$ 1, menos do que os baratos imigrantes egípcios e paquistaneses. Não é difícil encontrar crianças trabalhando sob o sol.

Quem chegou antes, e com algumas economias, pode conseguir se instalar nas artérias principais que cortam o campo de norte a sul e que se converteram em seus centros de comércio. Na Champs-Elysées, como é apelidada a avenida mais conhecida de Za’atari, o comércio de alimentos divide espaço com o de vestidos de casamento de gosto duvidoso e de tapetes “persas” made in China. Grupos de meninas de 5 ou 6 anos circulam pelo bulevar, abraçam os visitantes e pegam em suas mãos. Depois, fazem o gesto de 5 com as mãos, pedindo 5 centavos de dinar.

“O movimento já foi melhor. Metade de quem estava aqui ou voltou para a Síria, ou emigrou para o Canadá, ou foi para a Europa”, dizAmer, de 31 anos. Ele veste um casaco verde-árvore que se vê por todo o lado em Za’atari, adornado pelo selo saudita, indicando a origem da doação. Ele mora no campo há quatro anos com a mulher e os quatro filhos e abriu uma loja de produtos de higiene há um ano e meio. Segundo Amer, os produtos mais procurados são lenços e fraldas que custam entre 0,50 e 5 dinares. As vendas não são suficientes para sustentar a família. “Com o dinheiro que consigo aqui, dá para pagar as roupas das crianças. Eu não teria sido capaz de conseguir me manter sem a assistência financeira do campo”, afirma.

É a mesma reclamação de Muhadeen Masrii, de 24 anos, dono de uma barraca de vegetais poucos metros adiante na Champs-Elysées. “No começo, era um bom dinheiro. Mas agora consigo pagar pela comida de minha família e nada mais”, diz Muhadeen. Ele e a família de 17 pessoas, todos de Dara’a, moram em Za’atari há quatro anos, onde dividem o espaço de duas “caravanas”. Em sua cidade natal, ele era dono de quitanda, junto com o pai. “O movimento está muito lento”,  diz Muhadeen. “Mas, graças a Deus, temos muita sorte,  conseguimos colocar comida na mesa. Existem outros que estão enfrentando muitas dificuldades”, diz o jovem sírio. Se pudesse, Muhadeen se juntaria àqueles que deixaram Za’atari. “Eu não consegui construir nada. Não consegui dar segurança para minha família nesses anos.

Muhadeen,24 dendedor de frutas e leguemes  em Za'atari (Foto: AHMAD ABDO/AFP/ÉPOCA)


A população de Za’atari vem diminuindo
: só no último semestre, a aglomeração caiu de 81 mil pessoas para cerca de 79 mil pessoas, segundo o  Acnur. Em 2013, quando somava 200 mil pessoas, chegou a ser o segundo maior campo de refugiados do mundo. Alguns fatores explicam o encolhimento lento e gradual do campo. Desde o início de 2015, Za’atari parou de receber novos refugiados, agora enviados para o campo de Azraq, inaugurado em 2014, no leste da Jordânia. Por ora, Za’atari só permite a entrada de novos moradores quando se trata de reagrupamento de famílias.

A maioria dos 630 mil refugiados sírios que vivem hoje na Jordânia– quase 10% da população do país – não está em campos, mas nas áreas urbanas.  Eles enfrentam a dificuldade de pagar aluguel e se manter com uma assistência limitada. Quem fica no campo prefere contar com o apoio humanitário, na esperança de voltar um dia para a Síria. Segundo o Acnur, uma em cada quatro famílias de Za’atari não tem interesse em programas de reassentamento em outros países.

Mesmo com ajuda, a adaptação é lenta. “Eu tive muita dificuldade em me ajustar às filas”, diz Fatima Nasan, de 39 anos, dona de um rosto expressivo e um sorriso fácil, emoldurados por um hijab branco. “No começo, eu achava difícil aceitar que, para conseguir pão, precisava entrar na fila.  Na Síria, era só ir ao mercado do fim da rua e comprar pão. Agora eu entendo que isso acontece com todos os refugiados no mundo. É assim que eles vivem”, diz Fatima. Sua casa no Distrito 2 – dois contêineres conectados por chapas de metal e um chão de alvenaria – é quase luxuosa comparada à dos vizinhos.

Enquanto Fatima conta sua história ao lado do marido, Farouk, e da filha adolescente, Melak, duas moscas zunem e se debatem dentro da “caravana”. É o tipo de fauna que frequenta o local no alto verão: escorpiões, cobras e afins tornam-se parte da rotina em Za’atari. “Para viver aqui, nós tivemos de esquecer da vida que tínhamos na Síria. Se nós ficássemos comparando as condições de vida que temos e tínhamos, nós não conseguiríamos seguir”, afirma Fatima. “Nós percebemos que precisávamos nos preparar e aceitar: essa é a realidade por agora.”

Ela se recorda com nitidez do dia em que chegou a Za’atari: 12 de dezembro de 2012. “Ninguém esquece quando chega aqui.” O marido, um desertor do Exército do regime de Assad, ficou com a mão ferida no bombardeio que atingiu o bairro onde moravam, em Damasco, em meio à fuga da família. Recém-chegados à Jordânia, Farouk foi para o hospital, onde ficou em tratamento por quase um ano, enquanto a família se estabeleceu no campo. “Foi extremamente difícil. Mas, quando ele ligava do hospital, eu mentia e dizia: nós estamos bem. Ele estava doente, não ia reclamar para ele por telefone”, diz ela, rindo. Antes de o marido voltar, como a distribuição de “caravanas” demorava, Fatima usou as economias que trouxe e comprou o primeiro contêiner da família, em 2013, por 150 dinares. O segundo foi adquirido em 2014.

A síria Fatima,39 anos,e a filha Melak,de 15 anos (Foto: AHMAD ABDO/AFP/ÉPOCA)

Hoje, a família tem uma rotina simples. Os filhos Ammar, de 17 anos, e Jumada, de 11, estão na escola no turno da tarde, frequentado pelos meninos. Melak, de 15, vai no turno da manhã, destinado às meninas. O Acnur calcula que perto de dois terços das crianças e jovens do campo estejam matriculados nas escolas locais. Enquanto os filhos estão na aula, Fatima trabalha com bordados em uma das organizações humanitárias em Za’atari, por um salário de 1 dinar por hora. Farouk, cujo ferimento na mão o impede de trabalhar, cuida da casa e é o encarregado de ir à distribuição de alimentos e vouchers para receber a cota destinada à família. “O que mais me importava era manter as crianças ocupadas, com coisas produtivas. Não queria que elas pensassem que iriam ficar aqui só um ou dois dias. Queria que elas aprendessem a sobreviver com força, não só deixar o tempo passar. Tirar o melhor que pudessem daqui”, diz Fatima. À tarde, a mãe cozinha com a ajuda dos filhos – depois do jantar, os pais ajudam nas tarefas da escola. Quando os irmãos estão juntos, Fatima e o marido saem para dar uma volta. “É nosso momento.”

Enquanto os irmãos e os pais de Farouk permaneceram todos na Síria, a família de Fatima está espalhada entre Dara’a, Jordânia e Alemanha, aonde um irmão dela conseguiu chegar depois de empreender a perigosa travessia pelo Mar Egeu, partindo da Turquia. A família cogitou fazer o mesmo – Farouk iria na frente com o filho mais velho, para depois solicitar a reunificação familiar. Quando faziam os preparativos, o governo turco parou de emitir vistos para sírios, em meio às negociações com a União Europeia com o objetivo de estancar o fluxo de refugiados rumo ao continente. “Perdemos nossa chance”, lamenta Farouk.

Para a família de Fatima, as opções são ainda mais restritas que a de outros refugiados – por causa da deserção do marido, voltar para a Síria, mesmo diante de um futuro pacífico, não é uma opção. Nutrem a esperança de ser contemplados por um dos poucos programas de reassentamento de refugiados que existem, como o oferecido recentemente pelo Canadá. “Desejo que as pessoas voltem a se amar na Síria, a trabalhar e a ter a vida que tinham antes. Mas voltar, para mim, não é possível”, afirma Farouk. A última lembrança que Fatima tem do país natal é da fuga da família de Damasco, em meio a um bombardeio – ela diz que, enquanto os cinco corriam, margeando paredes e muros, tentando escapar dos tiros e estilhaços, a mãe cobria a cabeça do filho mais novo com a mão, como se seu corpo pudesse impedi-¬lo de ser ferido. “Toda vez que penso nisso, eu tremo. As crianças sempre se lembram disso. E eu sempre lembro a elas que essa foi a última coisa que vimos na Síria. A não ser que a luta acabe, nós não voltaremos”, diz Fatima.

Agora, a sina da família é a espera. “Nosso trabalho é buscar oportunidades e manter a esperança. Mas está nas mãos de Deus escolher para nós quando devemos deixar o campo”, diz Farouk, resignado. Em dezembro, terão sido quatro anos vividos ali, no meio do deserto. Completarão o triste aniversário pouco depois do campo, que em julho também completará seu quarto ano. Terão sido quatro anos de estado provisório, de entretempos, de vida intermitente para os 80 mil refugiados sírios que permanecem em Za’atari. Será o quarto ano – e não parece ser o fim.

Fonte: Época

 

Africanos buscam entrada nos Estados Unidos

13/03/2016

A silenciosa onda de imigrantes africanos que tenta chegar aos EUA pelo México

Há mais de dois meses, Fahrid e Bryce abandonaram a Guiné, na África, em busca de um país melhor para viver.

Imigrantes africanos chegam ao México pela fronteira sul
Imigrantes africanos chegam ao México pela fronteira sul

Foto: Monica Gonzalez / BBCBrasil.com

Foram de avião até o Brasil e começaram então um périplo por meio de ônibus, botes e às vezes a pé passando por Peru, Equador, Colômbia, países da América Central até chegar ao sul do México.

Em Tapachula, Estado de Chiapas, cidade que faz fronteira com a Guatemala, eles descansam em um hotel até conseguir dinheiro para viajar para a Cidade do México, onde partirão para o destino final: os Estados Unidos.

“Saí do meu país por problemas políticos, estava em um partido de oposição. Agora estamos procurando um lugar onde possamos viver melhor”, disse Fahrid à BBC Mundo.

Os jovens fazem parte de uma silenciosa onda de imigrantes africanos que começaram a chegar no México há vários meses.

Maioria dos imigrantes que chegam ao México vêm da América Central, mas africanos são novo fenômeno
Maioria dos imigrantes que chegam ao México vêm da América Central, mas africanos são novo fenômeno

Foto: Getty / BBCBrasil.com

Não se sabe quantas pessoas desta região cruzam a fronteira.

Um porta-voz do Instituto Nacional de Migração do México disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, que não foi detectada uma “presença importante” de africanos.

Mas o número está aumentando: em 2013, o instituto deteve 545 pessoas que vieram da África.

Dois anos depois, em 2015, houve aumento de quase quatro vezes: foram detidas 2.045 pessoas, a maioria vinda da Somália.

Multiplicação

Tapachula é um dos principais pontos de entrada de migrantes no México, e por isso já havia recebido africanos antes.

Mas a chegada deles era esporádica, e quase sempre eram pessoas que viajavam sozinhas ou com um acompanhante.

Atualmente a situação é outra, de acordo com Claudette Walls, representante da Organização Internacional para as Migrações da cidade.

Antes, conta, detectavam “um ou dois casos”, mas o fenômeno aumentou.

As pessoas que chegam desta região têm um padrão diferente da maioria dos habitantes da América Central que chegam ao México sem documentos migratórios.

Muitos deles se entregam ao INM para conseguir um documento de saída.

Este papel permite que eles fiquem no México por 30 dias, sem risco de serem deportados enquanto procuram uma forma de sair do território.

Outros permanecem alguns dias em hotéis da cidade e depois vão de ônibus ou avião para a fronteira com os EUA.

A presença de africanos chama atenção de especialistas e organizações da sociedade civil.

“Percebemos uma forte migração extra continental da África passando por aqui”, explica Walls.

Rota compartilhada

A rota que Fahrid e Bryce segiuram é uma das mais utilizadas por imigrantes africanos.

Há várias razões: a proximidade histórica do Brasil com a África e dispensa de exigência de visto para africanos em países como o Equador, que adotou a medida em 2008.

Mas também é o caminho utilizado por grupos internacionais de tráfico de pessoas.

De acordo com especialistas, esses grupos costumam trabalhar de forma semelhante a grandes empresas legalizadas, ou seja, estabelecem alianças e acordos com organizações locais.

Hashed (esquerda), da Eritreia, e Ismael, da Somália, se conheceram no Panamá e viajaram junto até o México. Foto cortesia Animal Político.
Hashed (esquerda), da Eritreia, e Ismael, da Somália, se conheceram no Panamá e viajaram junto até o México. Foto cortesia Animal Político.

Foto: Animal Politico / BBCBrasil.com

Assim, um grupo é responsável por tirar as pessoas da África, outro faz o translado pela América do Sul e outro cuida da acolhida na parte central do continente.

Quando chegam ao México a mesma rede faz o transporte pelo país até as cidades de fronteira, principalmente Tijuana o Ciudad Juárez.

No território mexicano os grupos costumam pagar grupos como “Los Zetas”, e no último ano também o ” Cartel Jalisco Nueva Generación”.

O périplo custa entre US$ 5.000 US$10 mil, de acordo com a origem do imigrante.

Ajuda

O preço é uma das características da diáspora africana, destaca Walls.

“Não é qualquer um que pode pagar a viagem, e são dois ou três meses em trânsito”, explica.

Quem encara a viagem são pessoas com mais recursos econômicos que a média dos imigrantes, e em muitos casos também com nível de educação maior.

Também contam com parentes ou amigos nos países de destino, como nos EUA, que ajudam a se integrarem na comunidade.

É uma vantagem que outros grupos, como os da América Central, não têm. A maioria deles são jovens sem dinheiro ou que fogem da violência.

Fonte: Terra

Situação dos refugiados na Europa faz parte da separação de espíritos necessária à ascensão da Terra

16/01/2016

Recorde de pessoas deslocadas no mundo: 65,6 milhões

Recorde de pessoas deslocadas no mundo: 65,6 milhões(13 jun) Sírios que fugiram de Raqa chegam ao campo de Al-Karamah – AFP

Os conflitos, a violência e as perseguições em países como Síria ou Sudão do Sul provocaram um recorde de 65,6 milhões de deslocados em todo o mundo em 2016, anunciou a ONU nesta segunda-feira.

O número significa que 300.000 pessoas a mais foram obrigadas a fugir de suas casas na comparação com o fim de 2015, e mais de seis milhões em relação a 2014, de acordo com um relatório da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

“É o maior número desde o início dos registros sobre o tema”, afirmou Filippo Grandi, diretor da ACNUR, ao apresentar o relatório.

“É um número inaceitável e fala por si só, mais do que nunca, sobre a necessidade de solidariedade e um objetivo comum para prevenir e solucionar a crise”, disse.

O documento apresentado antes das Jornadas Mundiais do Migrante e dos Refugiados destaca que somente no ano passado 10,3 milhões de deslocados fugiram de suas casas, incluindo 3,4 milhões que atravessaram as fronteiras e se tornaram refugiados.

– Um refugiado a cada três segundos –

“Isto significa que uma pessoa a cada três segundos vira um refugiado, tempo menor que o necessário para ler esta frase”, afirma a ACNUR em um comunicado.

A maioria das pessoas que precisam fugir de suas casas consegue refúgio no próprio país e são classificadas como deslocados internos ou IDP.

No final de 2016 o mundo tinha 40,3 milhões de IDP, um pouco menos que em 2015 (40,8). Síria, Iraque e Colômbia registram os maiores números de deslocados internos.

Outras 22,5 milhões de pessoas – metade delas menores de idade – foram registradas como refugiados no ano passado, indica o relatório, que destaca que o dado representa um recorde.

Os seis anos de conflito na Síria obrigaram mais de 5,5 milhões de pessoas a buscar refúgio em outros países – somente no ano passado foram 825.000. A guerra neste país é a maior produtora de refugiados no mundo.

Ao lado dos 6,3 milhões de deslocados dentro do país, os números mostram que quase dois terços dos sírios se viram obrigados a abandonar suas casas.

Com o prosseguimento da guerra, os recursos necessários para a ajuda humanitária diminuem, informou Grandi, ao lamentar que muito pouco foi repassado ao ACNUR dos bilhões de dólares prometidos pelos doadores internacionais na conferência de Bruxelas em abril.

– Crise esquecida? –

O conflito na Síria, que deixou mais de 320.000 mortos até o momento, “está virando uma crise esquecida”, advertiu Grandi.

O diretor da ACNUR também alertou para a rápida deterioração do cenário no Sudão do Sul. O país registra a crise de refugiados e deslocados de aceleração mais intensa no mundo.

A guerra civil no Sudão do Sul, que começou em dezembro de 2013, deixou dezenas de milhares de mortos e obrigou 3,7 milhões de pessoas a abandonar suas casas, quase um terço da população do país.

O número de refugiados do país mais novo do mundo aumentou 85% no ano passado e alcançou a marca de 1,4 milhão de pessoas no fim de abril, segundo a ACNUR.

E desde então foram adicionados mais meio milhão de pessoas, destaca a agência. Muitos refugiados começaram a fugir depois que os esforços de paz, de julho de 2016, resultaram em fracasso.

Síria e Sudão do Sul foram os únicos países com deslocamentos em massa.

Mas o relatório também cita deslocamentos importantes no Afeganistão, Iraque e Sudão, entre outras nações.

Quase 70 anos depois dos palestinos terem abandonado o que se tornou o Estado de Israel, quase 5,3 milhões de palestinos continuam vivendo em acampamentos de refugiados, o maior nível já registrado, segundo a ACNUR.

O documento da ONU também indica que, apesar do auge da tensão na Europa pela crise dos migrantes, os países pobres são os que recebem o maior número de refugiados.

Um total de 84% dos refugiados estão presentes em países de renda baixa ou média, segundo a ACNUR, que atribui a culpa ao “desequilíbrio gigantesco” com a “repetida falta de consenso internacional sobre a recepção de refugiados e a proximidade de muitos países pobres às regiões de conflito”.

 Fonte: Isto é

Refugiados

Fonte: Youtube

Crianças refugiadas já são 2% dos alunos em escolas na Alemanha

Burocracia das instituições e dificuldades com o idioma dificultam integração

Novo futuro. Ghaith, ao lado do irmão mais velho, Salah, a caminho de sua nova escola: os dois vivem juntos num conjunto habitacional – Adriana Carranca
Ghaith, de 10 anos, despertou sem que o irmão precisasse chamá-lo, no apartamento onde moram em uma pequena cidade da antiga Alemanha Oriental. A mochila estava pronta desde a noite anterior — lápis de cor, canetinhas, um caderno em branco, onde começará a escrever a história da nova vida no refúgio. É o primeiro dia na escola, em dois anos, desde que a guerra mudou o curso de sua infância. Era setembro de 2014, o primeiro dia de aula em Zabadani, no Sudoeste da Síria, quando uma bomba atingiu o carro em que viajavam seu pai e o irmão do meio, Kinan, de 17 anos. Ghaith deveria estar com eles, mas, como os tios pediram carona, não havia lugar, e o irmão mais velho, Salah, levou-o para a escola de ônibus. Todos os que estavam no carro morreram.

Aos 22 anos, Salah Salem se tornou tudo para Ghaith: pai, protetor, melhor amigo. Os dois vivem sozinhos na Alemanha, onde se refugiaram. O país recebeu mais da metade dos dois milhões de pedidos de asilo à União Europeia, Noruega e Suíça (que não fazem parte do bloco) desde janeiro de 2015. Ao menos 30% são crianças e adolescentes de até 16 anos. Neste outono europeu, início do ano letivo, eles vão para a escola pela primeira vez. Segundo o Ministério de Educação da Alemanha, 325 mil crianças refugiadas estão matriculadas, 2% do total de alunos.

O sorriso de Ghaith não dava espaço à ansiedade, comum no primeiro dia de aula, especialmente quando tudo é novidade: escola, língua, cultura, amigos.

— Ele sempre gostou de estudar — diz Salah, orgulhoso, antes de engasgar e quase não terminar a frase: — Em Zabadani, nosso pai havia comprado o seu uniforme na noite anterior….

— Ele me trazia um sorvete bem grande todos os dias na volta do trabalho — Ghaith completa, enquanto enxuga as lágrimas do irmão e, pouco depois, volta a sorrir.

A Nordpark-Schule fica a três paradas, em um metrô de superfície. No portão, Ghaith larga a mão do irmão e entra sem olhar para trás. As lágrimas são agora de alegria.

— Eu acho que ele está feliz.

QUASE DOIS ANOS SEM VER A MÃE

Quando Salah já ia embora, porém, uma funcionária o chamou. A administração não localizou a matrícula de Ghaith. Salah tem dificuldade em entender o que ela diz, porque ainda não fala alemão. As escolas não têm tradutores. O irmão é retirado da sala de aula. Eles voltam para casa em silêncio, frustrados e confusos. A integração tem sido um desafio na Alemanha. Os refugiados são obrigados a aprender o idioma por seis meses, em escolas pagas pelo governo. Mas só é possível matricular-se depois de ter o pedido de asilo aceito, o que pode levar até um ano.

Salah começou as aulas há um mês, mas já acumula faltas, pois não tem com quem deixar Ghaith. Se continuar assim, corre o risco de perder o visto. Sem o certificado de proficiência, não tem permissão para trabalhar. Na Síria, cursava o terceiro ano de Direito, não reconhecido na Alemanha. Se quiser voltar à universidade, terá de começar os estudos do zero e, para isso, precisa de nota alta no teste de alemão.

— O problema na Alemanha é a burocracia. Cada serviço público depende de uma série de inscrições, verificações e autorizações por diferentes órgãos e secretarias — diz Ringo Köppe, voluntário do governo recrutado para auxiliar refugiados com a adaptação. — Para nós, alemães, lidar com isso já é muito difícil. Para os refugiados é impossível. Impossível.

Se têm o pedido de asilo aceito, os refugiados recebem o visto de residência por três anos e passam a ter o mesmo status de alemães no sistema de previdência social, com direito a benefícios como € 400 por mês aos chefes de família desempregados, entre € 40 e € 70 para material escolar dos filhos e moradia popular.

 

Salah e Ghaith vivem num apartamento de dois quartos simples, mas confortável em um conjunto habitacional. Ele arruma a casa, faz faxina, lava, passa roupa, cozinha. O pequeno quer ajudá-lo, mas o irmão não deixa, embora os dois façam tudo juntos. Vivem grudados, frequentemente abraçados. Um cuida do outro. Mas sentem falta da mãe e da irmã, de 15 anos, que continuam na Síria. Eles não se veem há quase dois anos.

A comunicação é cada vez mais difícil, porque Zabadani já não tem energia elétrica. Antes uma estação turística na fronteira com o Líbano, a cidade está sob o cerco das forças do presidente Bashar al-Assad. Salah mostra fotos do pai e do irmão, com ele e Ghaith, fazendo bonecos de neve, posando no terraço da casa de três andares com vista para as montanhas. “Assad”, ele aponta. É dali que o regime lança bombas contra a cidade.

Salah vive dividido entre a preocupação com os que ficaram e a responsabilidade de criar o caçula. Ringo, o voluntário, tenta agora ajudá-lo a trazer a mãe e a irmã para a Alemanha. Com as famílias separadas pela guerra, os que conseguiram chegar à Europa começam a juntar os cacos para refazer a vida e seguir em frente. A reunificação é prevista na Alemanha para crianças refugiadas. Mas o processo é lento e burocrático; e o resultado, incerto.

DIFICULDADE DE INTEGRAÇÃO COM ALUNOS

Família dividida. Ritaj com a mãe e a avó. no quarto do abrigo onde moram – Roberto Setton / Roberto Setton

Ahlan Darwish fugiu da Síria para estar com os filhos. Na Alemanha desde outubro, ainda luta por isso. Abdu, de 20 anos, foi o primeiro a tentar o refúgio na Europa, para escapar da convocação pelo regime de Assad para o serviço militar. Quando ele telefonou já da Alemanha, Eyhab, de 17 anos, decidiu também partir.

Antes da guerra, Ahlan dava aulas de inglês e vivia com os três filhos em um apartamento confortável em Aleppo. A maior cidade da Síria se tornou o principal campo de batalha entre as forças leais a Assad e opositores. Com a cidade sob cerco e diante da possibilidade de não ver mais os filhos, ela arriscou-se na fuga com a mãe, que tem dificuldades para andar, e a caçula, Ritaj, de 7 anos. Protegendo-a junto ao corpo, cruzou a linha de combate. Ela viu quando uma mulher foi atingida com seu bebê no colo e caiu.

— Os tiros vinham de todos os lados.

O caminho à Europa envolveu a travessia por mar, de Bodrum — praia turca onde o corpo do menino Aylan Kurdi foi encontrado — a Kos, na Grécia. Na rota dos Bálcãs, tiveram ajuda de voluntários.

— Eu olhava para ela, mas não havia como voltar — diz a mãe.

Quando chegam à Alemanha, os refugiados são registrados e distribuídos aos estados, de acordo com as vagas. Isso criou uma situação em que integrantes da mesma família que vieram em momentos diferentes não podem viver no mesmo lugar. Ahlan, mãe e a filha foram para Saxônia-Anhalt; os filhos, para Sarre.

— Como Abdu tem mais de 18 anos, eles acham que ele não precisa mais de mim, que pode viver sozinho. É esse o pensamento europeu — diz, chorando.

Todos os dias, ela procura o escritório de imigração, mas deixa o local com mais um pedido por documentos que não tem ou uma explicação que não entende. Moram em um abrigo improvisado em contêineres. Mais de um milhão ainda vivem nestas construções temporárias; outros esperam a decisão sobre o pedido de asilo em centros de emergência — tendas ou nos hangares do Aeroporto de Tempelhof.

Ahlan estava feliz ao levar a filha para o primeiro dia de aula. Na saída, descobriu outro problema com o qual terá de lidar.

 

— As crianças não querem brincar comigo, porque dizem que sou síria e me chamam de “refugiada” — contou à mãe, num tom quase inaudível.

Dias após a entrevista, Ritaj estava na saída da escola, animada com os novos amigos. Um dos irmãos a esperava no abrigo — o outro não tinha permissão para viajar. Ghaith finalmente estava matriculado.

— Eu acho que estão felizes agora— diz Ahlan. —A situação na Alemanha é melhor que a Síria, é claro, e somos muito gratos pela ajuda. Mas, se a guerra acabar, voltaremos para casa.

A nigeriana Isoke Aikpitanyi, de 38 anos, chegou à Itália com a perspectiva de trabalhar. Acabou presa em uma rede de prostituição, explorada pelas máfias italiana e nigeriana. Isoke foi humilhada, espancada, violentada pelos traficantes e obrigada a trabalhar nas ruas de Turim por 10 euros o programa.

O tráfico de nigerianas para exploração sexual na Itália tem sido denunciado há pelo menos três décadas, mas atraiu novamente a atenção da comunidade internacional quando as autoridades perceberam que os contrabandistas estão usando a rota do Mediterrâneo para infiltrar suas vítimas.

No primeiro semestre deste ano, pelo menos 3,6 mil nigerianas chegaram à Itália de barco, pela travessia entre a costa líbia para a Sicília. O número representa o dobro do ano passado, o maior salto da última década. Mais de 80%, segundo a Organização Internacional para as Migrações, ligada à ONU, foram traficadas para exploração sexual em bordeis da Itália e de outros destinos europeus.

Muitas vêm acompanhadas do “marido”, mas, como não têm documentos, é difícil saber se estão falando a verdade. As autoridades acreditam que muitos destes acompanhantes façam parte da rede de tráfico e sejam também explorados para trabalho escravo ou para pedir dinheiro nas ruas — uma nova fonte de renda para a máfia.

Essas pessoas estão sendo trazidas de seus países já com este fim, pelas mãos da mesma rede de atravessadores que lucra com o fluxo de refugiados tentando chegar à Europa.

— Eles não sabem que serão explorados. Ninguém acredita que esse tipo de coisa ainda exista, mas a escravidão moderna é uma realidade perversa — diz Isoke. Ela conseguiu escapar pelas mãos de um cliente, com quem fugiu, e hoje ajuda meninas a fazer o mesmo.

Ao chegar à Itália, são obrigadas a assumir uma dívida pela viagem que chega a 40 mil euros, segundo Isoke, a serem pagos com “trabalho”. Muitas são exploradas ao longo do caminho, principalmente na Líbia, sob ameaça de morte ou de serem devolvidas à Nigéria.

Com isso, o tráfico para fins de exploração sexual chegou a níveis sem precedentes, alertou a ONU.

— Temos percebido aumento no número de menores de idade desacompanhadas — revela Lucia Borgh, da ONG Borderline.

De um lado, a possibilidade de obter asilo garante a permanência das mulheres no país, evitando o risco de serem deportadas, o que representa prejuízo para os criminosos. De outro, quando têm o pedido negado elas se tornam presas fáceis dos traficantes.

— Essas mulheres escapam da miséria, de conflitos, da violência por grupos armados como Boko Haram, para serem exploradas na Europa — diz o eritreu Abraha Tewolde, na Itália há 40 anos. Ele trabalha como tradutor para organizações humanitárias e, no tempo livre, percorre as ruas tentando identificar focos de exploração.

Segundo ele, os criminosos se beneficiam de falhas no sistema de recepção italiano. Após desembarcar nos portos da Itália, os que chegam pelo Mediterrâneo são registrados e encaminhados para abrigos em diferentes cidades, onde vivem por conta própria à espera de decisão sobre o pedido de asilo. As mulheres têm simplesmente desaparecido desses centros.

As autoridades estimam que 120 mil mulheres sejam exploradas para prostituição na Itália, um terço delas nigerianas.

Migrantes ilegais são explorados em situações análogas à escravidão

O sudanês Mustafa Said, de 29 anos, espera ansioso o período de colheita de tomates na costa oriental da Sicília, na Itália. Ele não tem onde morar e vive como nômade, migrando de lavoura em lavoura no rastro das safras. Está agora acampado num terreno cujo proprietário desconhece — seu contato é com um atravessador, a quem se refere por “patrão” e descreve como o “dono” dostrabalhadores. No pico da safra, a fazenda mantém mais de 200 homens em situação análoga à escravidão, todos estrangeiros. A exploração de refugiados e migrantes é a nova face da economia do Mediterrâneo. Há outra, ainda: a das ruas. A reportagem encontrou dezenas de refugiados e migrantes dormindo nas ruas e mendigando nos faróis de Catânia, Palermo, Messina, Trapani, Siracusa, vítimas de políticas adotadas pela União Europeia (UE) no último ano, que estão jogando milhares na clandestinidade. Mustafa dorme numa precária barraca de plástico; outros, ao relento. Não há eletricidade, água potável ou esgoto no acampamento improvisado pelos trabalhadores; o banheiro é a terra. As condições de estadia e na lavoura são desumanas. Saem antes do amanhecer, por volta de 4h, e só retornam após o sol se pôr. Na Europa de Mustafa, as condições de vida parecem com as do país de onde fugiu. — A diferença é que aqui não tem guerra, o resto é mais ou menos igual — diz. — Se conseguisse trabalho contínuo, a vida melhorava. Porque na minha terra (uma aldeia na fronteira entre Sudão e Sudão do Sul) também isso não tem. Aqui só consigo trabalho na colheita. Quando termina, acaba o dinheiro. Então, eu migro para outra lavoura, e outra. Desde que cheguei, não consegui deixar essa vida. A mãe de Mustafa morreu, o pai e os irmãos mais jovens ficaram para trás — refugiar-se exige dinheiro. Somente ele e outro irmão migraram, ambos estão nas mãos de intermediários que selecionam trabalhadores para as lavouras do Sul da Itália: Sicília, Calábria, Puglia, Campânia. — Negros fortes, feito eu e meu irmão, têm mais chance, porque aguentam mais horas e carregam mais peso — conta Mustafa. Nas raras vezes em que conseguem juntar algum dinheiro, enviam o montante para a família no Sudão. Mustafa não tem coragem de dizer ao pai que o sonho da Europa se transformou em pesadelo. Não poder mandar ajuda a eles lhe tira o sono. — É uma grande fonte de estresse psicológico para essas pessoas, porque os familiares acreditam que os que migraram estão melhor de vida e os pressionam para que enviem dinheiro. Muitas dessas famílias investiram tudo para mandar o filho à Europa — afirma o padre Carlo Dantom, que abriga em sua igreja, em Siracusa, refugiados e migrantes excluídos do sistema de proteção italiano. Paróquia na Sicília já acolheu 20 mil Mais de 20 mil, a maioria ilegal, passaram pela casa mantida com doações nos fundos da paróquia. A maioria dos que se sujeitam à exploração não tem documentos regulares. Muitos tiveram o pedido de asilo recusado. A ONG Oxfam estima que mais de cinco mil migrantes, principalmente do Norte e Oeste da África, receberam a carta de expulsão desde setembro de 2015, quando a UE adotou nova política de registro de migrantes e refugiados, na tentativa de excluir aqueles que buscam asilo por questões econômicas, embora isso contrarie leis internacionais. O documento determina que deixem o país em uma semana, ainda que as autoridades saibam ser improvável que obedeçam. Mas mesmo que quisessem, como Mustafa, eles não têm dinheiro para voltar para casa. Mais de 90% deles caem na clandestinidade — e na teia de criminosos que lucram com o trabalho escravo e as ruas. — A polícia, as autoridades, os empregadores, todos sabem que eles não têm papéis. Mas fazem vista grossa porque a ilegalidade é uma forma de controle sobre eles — critica o padre Carlo. — O uso de ilegais barateou os custos da produção. São eles que hoje sustentam a agricultura mediterrânea. Mustafa recebe pelo que colhe. A colheita do tomate, base da culinária italiana e dos molhos para exportação, é a que melhor paga: € 6 por contêiner de 200kg, no caso dos tomates pequenos, e € 3, dos maiores. Quem pesa é o “patrão”, e Mustafa não tem alternativa, se não confiar nele. Os atravessadores protegem os donos de terra de processos por trabalho escravo, embora seja improvável que um ilegal consiga ingressar com ação por direitos na Justiça. — Esta é a face secreta da economia italiana — lamenta o padre Carlo. — Eles não têm direito a nada, porque são invisíveis ao sistema. Perderam o link com a sociedade. Desconhecem seus direitos, estão confusos, amedrontados, vivendo escondidos. É a mão de obra perfeita para exploração. O dinheiro que Mustafa recebe não dá para moradia, por isso dorme na lavoura. Entre as safras, faz bicos de pedreiro, mas normalmente é forçado a complementar o orçamento mendigando. Já Hamza, 26 anos, fugiu da Somália após um carro-bomba explodir junto ao pequeno comércio da família em Mogadíscio. O prédio desabou. Como muitos que fogem do Chifre da África, cruzou 9.675km em ônibus, caminhões e a pé numa jornada de 18 meses por Quênia, Uganda, Sudão do Sul, Sudão e, pelo deserto, até a Líbia. Em cada parada, fazia bicos para custear o próximo trecho. Na Líbia, acabou em uma prisão em Gharyan, cerca de 80km de Trípoli, da qual escapou num levante. Foi recapturado, agora por contrabandistas, e colocado numa casa cuja localização desconhece. — Eles queriam US$ 3 mil por minha libertação. Se não conseguiam falar com minha família, me batiam até eu desmaiar. Quando viram que a família não mandaria o dinheiro, soltaram-no. Hamza diz que seguiu sem destino até se esconder na boleia de um caminhão. Assim chegou a uma fazenda. Trabalhou na lavoura por quatro meses, pelos quais recebeu 500 dinares (R$ 1.180), dinheiro com que pagou a travessia de barco de Sabara, na costa líbia, para a Sicília. Em Catânia, fez bicos para pagar a viagem de ônibus a Munique, na Alemanha, onde ficou por dois anos. Há seis meses, foi colocado num avião e deportado de volta a Milão, com base na Convenção de Dublin. O sistema italiano lhe dá abrigo até que o pedido de asilo seja processado. Depois disso, perde a proteção. Hamza passou a viver nas ruas de Catânia com dois amigos somalis. De dia, perambula pelas proximidades da estação de trem, onde contrabandistas costumam recrutar estrangeiros para a lavoura ou mercado informal. Convenção de Dublin obriga a pedido de asilo no país de chegada A Convenção de Dublin, de 2013, prevê que pedidos de asilo só podem ser feitos nos países de chegada. Em setembro, agência da UE para controle de fronteiras (Frontex) passou a colher ainda nos portos as impressões digitais. Isso tem mantido milhares na Itália, principal entrada dos que tentam chegar à Europa, após acordo da UE com Turquia, que prevê deportação dos que chegam pela Grécia. A nova política foi justificada sob promessa de que ao menos 160 mil seriam realocados para outros países da Europa. Mas, até o primeiro semestre, pouco mais de 800 foram realocados da Itália. Somente este ano, mais de 112 mil pessoas chegaram ao país pelo mar, segundo a Organização Internacionalpara as Migrações. E eles continuam chegando — dez mil novos na última semana. Próxima Migrantes ilegais são explorados em situações análogas à escravidão

Fonte: O Globo

Drama persistente de imigrantes expõe fracasso de políticas da União Europeia

 

 

 

 

 

Incapaz de encontrar soluções eficazes contra a crise migratória mais grave no continente desde a Segunda Guerra Mundial, a União Europeia (UE) volta a ver um fluxo descontrolado de refugiados chegando às suas fronteiras e se aglomerando em centros de acolhimento. Após uma operação de resgate salvar 6.500 migrantes africanos anteontem no litoral da Líbia e outros três mil ontem, autoridades temem um fluxo incontrolável na rota do Norte da África em direção à Itália pelo Mediterrâneo. Enquanto isso, no Norte do continente, ocorre o aumento exponencial da população do campo francês de Calais, no Canal da Mancha, que, mesmo tendo passado por remoções em massa, teve suas áreas reocupadas nos últimos meses e deve chegar a dez mil habitantes nos próximos dias. Os dois episódios ilustram o fracasso das tentativas europeias de sanar o problema da imigração ilegal.

Símbolo da dificuldade em realocar os imigrantes que tentam chegar ao Reino Unido, a reocupação do improvisado campo em Calais — conhecido como A Selva — representa um baque na nova política do governo francês de distribuir milhares de imigrantes por centros de acolhida (de cinco mil vagas, duas mil foram ocupadas) e usar contêineres transformados em habitações.

FUGA EM MASSA PELO ALTO-MAR

As estimativas são de que a população local tenha triplicado desde as remoções do primeiro semestre. Enquanto isso, vizinhos e comerciantes da cidade prometeram bloquear a estrada que leva ao porto a partir da próxima semana, até que o acampamento seja desmantelado. Eles alegam o aumento da violência — o que os próprios migrantes admitem.

— Há brigas aqui toda hora agora. Você pode ser esfaqueado por dinheiro — advertiu ao “Telegraph” o afegão Rais, 23 anos, aguardando uma oportunidade para cruzar o canal e chegar a Dover, no lado britânico.

O ex-presidente Nicolas Sarkozy e o ex-primeiro-ministro Alain Juppé, candidatos presidenciais para 2017, defenderam o fim do bloqueio na fronteira terrestre com o Reino Unido, na entrada do Eurotúnel do lado francês, deixando o caminho livre para a saída dos migrantes. A oposição alega que, com a saída britânica da UE, é hora de forçar Londres a resolver o assunto e tirar a pressão da França. Ontem, no entanto, a medida foi descartada numa reunião entre o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, e a nova secretária do Interior britânica, Amber Rudd.

“Estamos comprometidos em trabalhar juntos para fortalecer a segurança da fronteira compartilhada, diminuir drasticamente a pressão migratória sobre Calais e preservar a ligação econômica vital que passa pela região”, disseram os dois num comunicado conjunto.

Enquanto isso, o fluxo migratório em direção à Itália, saindo principalmente da Líbia, volta a preocupar as autoridades. Se em 2015 explodiu o deslocamento através do Mar Egeu, entre a Turquia e a Grécia, a rota líbia voltou a ser intensamente procurada após um recente acordo entre o governo turco e a UE que fechou a fronteira grega. Das cerca de 260 mil pessoas que chegaram pelo mar à Europa este ano, mais de cem mil cruzaram o Mediterrâneo vindas da África. Mais de 3.100 morreram, relata a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Somente desde sexta-feira passada, estima-se que mais de 15 mil tenham chegado, aproveitando o clima quente do verão e o mar mais estável. Anteontem, uma megaoperação das Marinhas italiana e espanhola, junto a ONGs de resgate, salvou 6.500 migrantes e refugiados africanos em barcos de madeira superlotados na costa da Líbia. Ontem, outros três mil foram socorridos ao tentarem a travessia.

— Muitos não sabiam nadar, são idosos, mulheres, crianças, menores desacompanhados. Qualquer movimento de resgate quando há muitas destas pessoas é arriscado, e pode acabar com a estabilidade do barco. Tivemos de ser rápidos e cuidadosos. Demos coletes para evitar o pior — disse ao GLOBO Nicholas Papachrysostomou, coordenador de operações do navio Dignity 1, da Médicos Sem Fronteiras (MSF), que retirou anteontem cerca de 700 pessoas do mar, entre elas 92 menores desacompanhados e prematuros recém-nascidos.

O principal fluxo de migrantes em direção à Europa pela Líbia vem da África Subsaariana, originários de países como Eritreia, Etiópia, Nigéria e República Centro-Africana. Em geral, os fugitivos saem de casa por causa de conflitos, perseguição e pobreza, e ainda sofrem com traficantes de migrantes.

— Estas pessoas estão sendo abusadas física e sexualmente. Mas as políticas europeias são feitas para desencorajá-las. Precisamos de uma UE mais responsável. Não pode mais haver mais vidas perdidas. Estamos preenchendo o vazio no mar deixado pela falta de iniciativa das instituições. Ninguém deveria negar ao outro o direito de migrar — criticou Papachrysostomou.

Um ano após anunciar sua política de portas abertas, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, disse que o país e a UE “fizeram vista grossa por tempo demais para a crise enquanto buscavam soluções”.

— Ignoramos o problema por tempo demais e bloqueamos a necessidade de se encontrar uma solução pan-europeia. Deixamos a Espanha, a Grécia e a Itália lidarem sozinhos. Naquele momento, nós também rejeitamos uma distribuição proporcional de refugiados — disse ela ao diário “Süddeutsche Zeitung”.

Fonte: O Globo

Só os mais fortes sobrevivem

Ute Schaeffer, autora do livro “Die Flucht der Kinder” (A fuga das crianças), afirma que só os mais fortes sobrevivem à travessia repleta de perigos.

— E quando chegam ao destino, deixaram de ser crianças e adolescentes para ser transformarem em adultos traumatizados — diz.

De acordo com um estudo da Universidade de Munique, cerca de 25% dos refugiados menores que precisaram enfrentar sozinhos a viagem desenvolvem distúrbio pós-traumático e, provavelmente, outros problemas psiquiátricos.

O assistente social Hassan Faraj, da ONG Kompaxx, lembra ainda que a situação se complica ainda mais quando os refugiados entram na adolescência.

— A crise deles se manifesta de forma diferente porque são marcados pela enorme luta pela sobrevivência — acrescenta Hassan.

Paralelo com fuga do nazismo

Berlim, cidade que viu milhares de crianças e adolescentes judeus serem enviados pelos pais ao exterior para escapar da morte durante o regime nazista, recebe agora os menores sozinhos. O capítulo contundente da História é lembrado no Centro por uma escultura do artista Frank Meisler, que foi enviado pelos pais para a Inglaterra.

Faraj, nascido na Tunísia há 42 anos, veio para Berlim há 15 para estudar Ciências Sociais e acabou ficando. Hoje, administra um dos centenas de lares de menores refugiados espalhados pela cidade.

— Há paralelos entre a fuga das crianças durante o nazismo e os menores que são enviados ou que vêm por conta própria para a Europa — destaca.

Ute Schaeffer calcula que o Estado gaste cerca de € 70 mil por ano com cada menor. Segundo Gerd Landsberg, diretor da Federação dos Municípios Alemães, as cidades preveem gastar, com ajuda e acompanhamento dos refugiados menores, € 2,7 bilhões em 2016.

Para baixar o custos e apoiar a integração, o Ministério da Família lançou o programa “Gente fortalece gente”, que oferece à população alemã a chance de participar do acompanhamento dos refugiados como “padrinhos, pais e avós hospedeiros”.

Segundo o Ministério, dez mil pessoas apresentaram interesse. Mas só o altruísmo não é garantia de sucesso. De acordo com Helga Siemens-Weibring, da Diakonie, uma ONG luterana, o relacionamento com os refugiados nem sempre é fácil porque eles são independentes, mas, ao mesmo tempo, altamente traumatizados.

— Esses jovens têm uma longa história de fuga. Isto significa que por muito tempo foram responsáveis por si mesmos. Por outro lado, precisam de ajuda — diz ela.

Nem sempre há um final feliz. Segundo Ute Schaeffer, as experiências traumáticas e as dificuldades de integração contribuem para que cerca de 30% deles terminem na criminalidade.

Os problemas se agravam quando os jovens atingem a maioridade de acordo com a lei — que é de 18 anos, mas nesse caso específico é frequentemente adiada para 21. Depois disso, acaba bruscamente o apoio integral. Refugiados que vêm de países em guerra, como a Síria, podem ficar. Os outros, só se tiverem profissão ou vaga na universidade.

Para o advogado sírio Oussama Al Agi, há 20 anos na Alemanha, o fracasso dos filhos na Europa é um golpe duro para as famílias.

— Os pais investem tudo o que têm e levam em conta até o perigo da viagem porque pensam na chance de melhoria de vida para toda a família. Os filhos que conseguem vencer podem mandar buscar pais e irmãos — diz.

Ute Schaeffer, ex-chefe de redação da rádio Deutsche Welle, lembra que a última onda de refugiados deverá mudar definitivamente a Alemanha. Na sua opinião, o importante é que os erros do passado, das ondas migratórias de turcos nos anos de 1960-1970, sejam evitados. Para que os refugiados ou seus descendentes não terminem em guetos, defende uma política de integração competente.

— Guetos (de imigrantes) como na França são o caminho errado — conclui.

Perseguido por imagens do Iraque

Ahmed, Omar e Qudrat – Graça Magalhães-Ruether

A conquista de Mossul, há dois anos, pelo Estado Islâmico, encerrou com súbita brutalidade a infância do curdo iraquiano Farhid Tahi (centro da foto acima), hoje com 16 anos. Seu pai, um peshmerga (combatente curdo), morreu defendendo a cidade. A mãe foi sequestrada e assassinada, como milhares de mulheres vítimas do ódio do EI.

Farhid deixou tudo e partiu para a Alemanha. Ele não sabe direito como o pai morreu, mas as imagens das execuções do grupo que costumam ser divulgadas pela internet o perseguem.

Com medo de ser identificado pelo EI, por ainda ter um irmão e um primo em Mossul, Farhid resiste a ser fotografado, mas acaba cedendo. Ele também não gosta de falar sobre os últimos meses em sua cidade.

— Se pudesse, apagaria da minha memória todos os episódios depois que a guerra começou.

O relacionamento com os outros três adolescentes que vivem no lar da ONG Kompaxx, em Spandau, um bairro com floresta e lagos no norte de Berlim, é de amizade, mas marcada por uma certa distância. Indagado sobre os seus planos para o futuro, Farhid diz apenas:

— Eu quero trabalhar!

Risco de fracassar como pesadelo

O grande temor de Qudrat Ramuzi (direita da foto acima) é fracassar. A família vendeu até a casa onde morava, em Maydanwardak, Afeganistão, para financiar a viagem do adolescente. O plano era que vivesse em segurança e tivesse um futuro melhor do que os pais, vítimas de repetidas guerras.

A viagem foi de ônibus. Ao chegar à Turquia, teve que esperar seis dias até seguir de barco para a Grécia. Quando atravessou a pé a fronteira da Áustria com a Alemanha, gastou seu último euro. Se conseguir fincar pé em Berlim, Qudrat planeja mandar buscar a família.

— Não posso fracassar! Se não conseguir, a decepção dos meus pais será gigantesca.

Ele considera a situação no seu país insolúvel, porque o ódio entre as etnias nunca foi superado.

— Os pushtu colaboram com os talibãs. Já vi casos de pararem um ônibus e matarem todos só por serem hazaras, como eu. Tenho a impressão de que o mundo começa a abandonar o Afeganistão — diz Qudrat, com uma capacidade analítica incrivelmente forte para sua idade.

Talvez por isso, nunca sorria, nem para fotos.

Para sírio, a segunda geração de refugiados

 

Ahmed Al Sheik (esquerda da foto acima) , sírio de Damasco, vai deixar em breve o lar de refugiados para viver por conta própria, ainda com apoio do governo alemão. Ele completa 18 anos e não tem medo de partir. Ao contrário dos outros jovens do lar de Spandau, Ahmed é extrovertido e bem humorado. Essa postura da família já ajudou uma vez no processo de adaptação dos avós, que fugiram dos territórios palestinos nos anos 60, na Guerra dos Seis Dias. Desde então, a Síria se tornou a nova pátria. E tudo ia relativamente bem, até a guerra.

— A guerra não trouxe democracia, só destruição.

Em menos de um ano, Ahmed aprendeu a falar alemão fluentemente.

— Isso é importante porque é condição para concluir a escola e entrar na universidade.

Por enquanto, o sírio ainda frequenta a classe de integração, mas, depois dos últimos testes, recebeu a oferta de uma vaga em uma escola regular. Em dois anos, se continuar com bom aproveitamento, Ahmed vai concluir o colégio e, talvez, concretizar o sonho de estudar medicina.

— Quero estudar medicina porque o trabalho de médico significa ajudar os outros.

Afegão traz marcas no corpo e na mente

Ghafour – Graça Magalhães-Ruether

Enquanto adolescentes da mesma idade começam a pensar em sair para dançar, Ghafour Rahimi vive dividido entre o medo de não conseguir ter uma profissão até os 21 anos e as lembranças dos últimos meses no Afeganistão, onde presenciou o assassinato do pai, morto por talibãs. Ele chegou à Alemanha em setembro do ano passado, quando tinha apenas 14 anos.

— Quando acordo, penso ainda ouvir os tiros disparados pelos talibãs, como quando mataram meu pai — conta Ghafour.

Semana passada, Hassan Faraj, responsável pelo lar de menores de Spandau, descobriu que Ghafour tinha crises de autoflagelação.

— Ele queimou os braços com cigarro de forma que parece intencional — revela.

Depois da morte da mãe, vítima de um atentado talibã, Ghafour resolveu fugir para a Europa. Sem dinheiro, viajou durante 29 dias. Sempre que encontrava grupos de refugiados recebia alimentos e companhia para trechos seguintes.

Ghafour ainda fala um alemão rudimentar. Mas tem grandes planos.

— Se terminar bem a escola, quero fazer um concurso para a Academia de Polícia.


Fonte: O Globo
Refugiados caminham na fronteira entre Croácia e Sérvia (Foto: Juan Carlos Tomasi/MSF)

Médicos Sem Fronteiras relata abusos sofridos por refugiados na Europa

Em um novo relatório, a organização publica depoimentos retratando cotidiano de agressões, condições precárias e traumas

Um sírio conta como o bote em que estava com outros refugiados foi atacado por homens uniformizados com arpões. Outro afirma que foi agredido por policiais na Macedônia, roubado por criminosos na Sérvia. Esses depoimentos chocantes estão em um relatório da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), divulgado nesta terça-feira (19). O documento pinta um quadro desolador da recepção derefugiados e imigrantes na Europa e critica duramente as políticas a essas populações. Intitulado “Rota de Obstáculos para a Europa”, o documento de 60 páginas conta com relatos de profissionais da organização e depoimentos de pleiteantes de asilo coletados pela MSF em seus postos de atuação. “2015 será lembrado como o ano em que a Europa falhou catastroficamente em sua responsabilidade em responder às necessidades urgentes de assistência e proteção de milhares de pessoas vulneráveis”, afirma a organização.

Além do material impresso, a MSF divulgou fotos (confira a galeria abaixo) e vídeos mostrando o drama dos refugiados. Em um dos vídeos, a organização atua juntamente com o Greepeace para salvar crianças, adultos e idosos em botes superlotados perto da ilha grega de Lesbos. Kim Clausen, chefe de equipe da MSF, afirma que uma ONG médica e outra ambiental estão fazendo o que é obrigação dos governos. “Isso deveria ser assumido como responsabilidade dos países europeus para garantir que as pessoas possam fazer isso [cruzar a fronteira] de forma segura”, diz. Assista abaixo às imagens:

A MSF esmiúça as inúmeras dificuldades enfrentadas por sírios, afegãos, iraquianos, eritreus, nigerianos e outros que, fugindo da guerra, da violência e da miséria, se arriscam nas rotas do Mediterrâneo – dificuldades pioradas, segundo a organização, pela falta de estrutura de acolhida, pela burocracia mutante dos procedimentos de pedido de asilo e pela hostilidade das forças de segurança nos locais de chegada e nos postos de fronteira. “Não só os países europeus falharam coletivamente em atender as necessidades humanitárias e médicas urgentes de refugiados e imigrantes chegando a fronteiras internas e externas da União Europeia, mas a lentidão e as políticas anti-imigratórias – desenvolvidas durante os últimos 15 anos e fortalecidas em 2015 – aumentaram a demanda por redes de coiotes e forçaram pessoas para rotas ainda mais perigosas que colocam em risco sua saúde e suas vidas”, afirma a MSF.

A organização critica o investimento por parte dos governos europeus em iniciativas que tentam sem sucesso coibir os fluxos migratórios, ao invés de direcionar fundos para o atendimento de quem chega.  De acordo com o relatório, a MSF gastou €$ 31,5 milhões em sua operação na Europa durante o ano passado e mobilizou um total de 535 pessoas para atender refugiados e imigrantes. “Nunca antes a MSF teve tantos projetos na Europa, nunca antes a MSF decidiu mobilizar três barcos de busca e salvamento no mar para salvar vidas e nunca antes foi tão urgente que os governos europeus assumam suas obrigações internacionais e assistam as pessoas cujas vidas estão em risco”, diz o documento.

O documento é publicado em um momento particularmente delicado da crise humanitária na Europa, quando até países considerados mais receptivos a refugiados, como Alemanha e Suécia, aplicam novas restrições à entrada de pessoas. Depois de um ataque em massa a mulheres na noite de Ano Novo na cidade alemã de Colônia, perpetrado por uma maioria estrangeira, a chanceler Angela Merkel se viu pressionada a endurecer as medidas que permitem a entrada e permanência no país.

 

Grécia: o porto seguro precário

No ano passado, pouco mais de um milhão de refugiados e imigrantes chegaram ao continente europeu, a maioria por meio da rota entre Turquia e Grécia, via Mediterrâneo. Entre agosto e setembro, cerca de 4 mil pessoas, em média, chegavam todos os dias às ilhas gregas – no total, pouco mais de 851 mil entraram na Europa pelo país em 2015. “Um ano depois do início da crise, apesar das numerosas visitas por parte de representantes da UE (…), tanto a infraestrutura de recepção quanto o sistema de asilo da Grécia continuam falhando em se adaptar para as necessidades de refugiados e migrantes”, diz o relatório da MSF. Em Lesbos, um dos principais portos de chegada, os 700 leitos oferecidos pelas autoridades gregas, somados aos 780 disponibilizados por organizações humanitárias mal atendiam um quarto da população necessitada. A escassez de abrigo levava a centenas de pleiteantes de asilo a dormirem na rua, sem acesso a recursos básicos e vulneráveis a crimes e violência. “As pessoas chegam às ilhas gregas depois de terem enfrentado muito sofrimento. Nós vimos crianças e adultos ainda molhados, forçados a dormir ao relento”, declarou um médico que atua como voluntário na região.

 

De acordo com a MSF, não só as estruturas de acolhida e recepção são insuficientes para a demanda, como as autoridades locais não cooperam e dificultam a atuação de organizações humanitárias voluntárias. “Alguns dos inúmeros obstáculos administrativos enfrentados pela MSF no último ano incluem a recusa por parte da prefeitura de Kos (ilha grega) de permitir que a MSF montasse tendas para abrigo emergencial em um estacionamento na cidade e autoridades locais não permitirem que equipes montassem tendas em um parque em Lesbos (ilha grega)”, diz o relatório.

O documento cita ainda depoimentos de refugiados e imigrantes sobre suas experiências durante a travessia e a chegada à Grécia. Dois deles acusam pessoas trajadas como autoridades gregas de propositadamente tentarem afundar os barcos nos quais estavam e de não prestarem auxílio às embarcações que pediam socorro – uma violação da lei internacional. “Nós fomos atacados entre a Turquia e a ilha (Farmakosini), por três homens uniformizados a bordo de um grande barco metálico cinza. Eu vi três homens adultos a bordo, vestindo uniforme naval azul escuro, com a bandeira grega no ombro. Nós nos aproximamos, mostramos que tínhamos crianças para receber ajuda. Eu não consigo esquecer o que aconteceu. Uma vez que nós estávamos perto deles, eles usaram um arpão para furar a frente do nosso barco. Eles fizeram dois buracos e todos entraram em pânico. Eles queriam nos matar”, disse à MSF um homem sírio, recém-chegado à ilha de Kos. O governo grego nega as acusações. A MSF, por sua vez, critica a falta de investigações sobre esse tipo de incidente.

Em outro depoimento, um refugiado relata ter sido submetido a condições degradantes por membros do Exército grego, na ilha de Farmakonisi, uma base militar do país. “Na ilha militar, eles nos fizeram ajoelhar e esperar sob o sol por muitas horas. (…) Eles amarram nossas mãos e nos estapeavam sem razão nenhuma. Quando nós estávamos dormindo, eles entravam no cômodo e nos batiam com bastões de ferro. Eles tomaram minha bateria de celular e depois pediram 20 euros para devolvê-la”, disse um homem sírio atendido pela MSF em Leros, outra ilha grega. “Nós estávamos na ilha militar. Um soldado gritava em inglês: eu não ligo para as leis – para mim, as leis não existem – aqui só existe uma lei – a lei do Exército”, relatou um homem afegão, também tratado pela MSF.

Rumo ao norte, mais abusos

O relatório ainda traz uma série de relatos de abusos e violências contra refugiados e imigrantes por parte não só de redes criminosas, mas como de autoridades de segurança nos países utilizados como rota de travessia por terra para o norte do continente, comoMacedônia, Sérvia, Croácia e Eslovênia. “Eu sou da Síria. Tenho quatro filhos pequenos. Eu viajei da Grécia para a Macedônia, mas fui preso e deportado para a Grécia quatro vezes. Eu fui agredido pela polícia macedônia. Eles tomaram todo meu dinheiro. Na estrada para a Sérvia, a máfia me parou, roubou todos os meus pertences e me deixou em uma área isolada. Quando fui pedir ajuda para a polícia sérvia, eles me prenderam por 10 dias e me deportaram de volta para a Macedônia. Eu voltei à Sérvia e continuei para a Hungria. Lá fui preso, algemado e jogado numa cela sem água ou comida. Eu estava com sede e doente, mas quando pedi por água, o policial respondeu: ‘Vou mijar em uma xícara e você beberá isso!”, contou um homem sírio atendido pela MSF, próximo à floresta de Bogovadja, na Sérvia.

Resultado dos traumas vividos, em seus países de origem e na jornada em busca de asilo, a organização afirma que atende um grande número de refugiados e imigrantes que sofrem de doenças de natureza mental como síndrome do pânico, estresse pós-traumático e depressão – mais de 12 mil pessoas foram tratadas pela MSF na Grécia e na Sérvia por condições relacionadas a traumas. “A maioria das patologias tratadas por nossas equipes médicas poderia ser facilmente prevenida se a passagem segura e recepção que atendesse os padrões humanitários fossem implementados nos Estados da União Europeia”.

O documento também critica as complicadas burocracias do procedimento de pedido de asilo nos países europeus e a iniciativa de países como Hungria e Bulgária de construírem barreiras para impedir entrada e trânsito de refugiados e imigrantes. Para a MSF, tais iniciativas não coíbem os fluxos migratórios e deixam essas populações em condições mais vulneráveis durante sua jornada.  “Longe de conter o fluxo de refugiados e imigrantes, a falta de assistência e as restrições a movimento da Europa simplesmente forçaram pessoas desesperadas a colocar suas vidas e sua saúde em risco, com os serviços de coiotes e tomando rotas traiçoeiras (…). Predadores do desespero das pessoas, coiotes são o violento e abusivo subproduto das vergonhosas políticas migratória restritivas da Europa”, afirma o relatório.

 

A MSF conclui pedindo que os Estados europeus facilitem os meios legais para pessoas solicitarem asilo no continente – hoje, só é possível realizar o pedido quando se chega a solo europeu – e que aumentem o investimento nas estruturas de resgate e recepção de refugiados e imigrantes. “Como é provável que as pessoas continuem buscando na Europa assistência e proteção muito necessárias em 2016, é hora de a Europa abolir de sua rota obstáculos e oferecer assistência e passagem legal e segura para refugiados e imigrantes que fogem de condições desesperadoras”, finaliza o relatório

Fonte: Época

Após uma semana de intensos confrontos com forças rebeldes levando dezenas de milhares de sírios a deixarem suas casas, as tropas do governo recuperaram um povoado ao norte de Aleppo, informaram autoridades e ativistas da oposição. A conquista levou os combatentes do regime mais próximos à fronteira com a Turquia, onde cerca de 35 mil pessoas estão acampadas em tendas improvidas enquanto aguardam para entrar no país vizinho, fechado pelo quinto dia seguido — autoridades temem que até 600 mil cheguem. Para discutir o drama humanitário, a chanceler alemã, Angela Merkel, visitou Ancara nesta segunda-feira.

— Precisamos de um projeto visível. Os refugiados querem ver escolas, e rápido. Precisamos assegurar que não haverá muitos obstáculos burocráticos — advertiu a líder alemã em coletiva de imprensa com o premier turco, Ahmet Davutoglu.

O mais recente avanço do Exército ocorre no povoado de Kfeen, uma zona rural na região de Aleppo. Segundo a agência estatal de notícias “Sana”, os soldados eliminaram o último grupo de rebeldes instalados no local, que foram classificados como terroristas. A emissora de televisão do grupo Hezbollah, al-Manar, também noticiou a captura e divulgou imagens direto da vila.

A ofensiva foi apoiada pela Rússia e pelo Irã, num movimento que ameaça o futuro da insurreição rebelde. Milícias apoiadas pelo Irã tiveram um papel fundamental no solo ao mesmo tempo que caças russos intensificavam bombardeios, o que permitiu ao Exército sírio assumir o controle de importantes áreas no Norte do país pela primeira vez em mais de dois anos.

— Nossa existência está agora ameaçada, não estamos apenas perdendo terreno — disse o combatente Abdul Rahim al-Najdawi, do grupo rebelde Liwa al-Tawheed. — Eles estão avançando e nós estamos recuando porque em face a ataques aéreos tão fortes, precisamos minimizar nossas perdas.

Refugiados sírios estão em acampamentos improvisados na fronteira com a Turquia – BULENT KILIC / AFP

Mas, ao passo que o regime comemora, o drama humanitário se agrava ainda mais no país há quase cinco anos imerso em uma guerra civil. As imagens na fronteira turca denunciam o desespero vivido por cerca de 35 mil sírios impedidos de entrar no país vizinho, apesar dos apelos dos líderes da UE para deixá-los atravessar.

O vice-primeiro-ministro, Numan Kurtulmus, advertiu que a pior situação a curto prazo poderia ser “uma nova onda de 600 mil refugiados na fronteira”, já que pelo menos 150 mil estão em movimento após o avanço das tropas de Bashar al-Assad. A Turquia alega não ter recursos financeiros e nem estrutura para abrigar mais que os atuais 2,5 milhões de sírios em seu território.

Para tentar minimizar a gravidade da situação, no domingo o governo enviou caminhões de ajuda e ambulâncias para a população.

— Em algumas partes de Aleppo o regime de Assad interrompeu o corredor norte-sul… A Turquia está sob ameaça — disse o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, a repórteres em seu avião de volta de uma visita à América Latina, segundo o jornal “Hurriyet“.

Fonte: O Globo

Europa tem protestos contra imigrantes

Milhares de pessoas foram às ruas em diversos países; dezenas foram presas

Manifestantes do Pegida reuniram-se em Varsóvia – JANEK SKARZYNSKI/AFP
 

 

 

 

 

 

 

 

Milhares de pessoas participaram ontem de manifestações anti-imigrantes em diversas cidades da Europa convocadas pelo movimento islamofóbico Pegida. Os principais protestos foram em Dresden, no Leste da Alemanha, onde se concentraram entre seis mil e oito mil pessoas, e em Praga, onde marcharam cinco mil pessoas.

Também foram registradas manifestações em França, Eslováquia, Áustria, Holanda, Irlanda, Polônia e Reino Unido. Dezenas de pessoas foram presas durante os protestos contra a entrada de refugiados na Europa.

 

As manifestações realizadas ontem, batizadas de “Fortaleza Europa”, foram convocadas no fim de janeiro pelo Pegida, como é conhecido o movimento de extrema-direita alemão Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente.

Em Dresden, o berço do Pegida, os manifestantes agitaram bandeiras com dizeres contra a chanceler federal Angela Merkel, criticada por seus projetos de acolhimento de imigrantes. No ano passado, 1,1 milhão de refugiados pediram asilo no país, um recorde histórico.

— Temos de ter êxito em guardar e controlar as fronteiras externas e internas de novo — pregou Siegfried Daebritz, do Pegida.

Por outro lado, muitas cidades também receberam comícios contra o movimento. Em Dresden, 3.500 pessoas reivindicaram a tolerância aos imigrantes. Os cartazes tinham inscrições como “Não há lugar para nazistas” e “Não temos necessidade de xenofobia, nem de demagogia, nem de Pegida”.

IGREJA PEDE LIMITES

Numa entrevista publicada no jornal “Passauer Neue Presse”, o cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência Episcopal alemã, afirmou que o governo precisa “reduzir o número de refugiados”.

— A Alemanha não pode acolher todos os necessitados do mundo — enfatizou, pedindo que, neste caso, não se leve em conta apenas “a caridade, mas também a razão”.

Merkel anunciou no fim do mês novas restrições para reduzir o fluxo imigratório.

Fonte: O Globo

Suíça segue Dinamarca e apreende bens de refugiados para cobrir custos

Imigrante sírio mostrou recibo dado por autoridades após pagar mais da metade do dinheiro da família

Imigrantes que conseguem chegar à Grécia caminham para centro de refugiados na fronteira com a Macedônia. Os que chegam à Suíça, tem que pagar pela estadia – Boris Grdanoski / AP

Além disso, um panfleto do governo com informações para os refugiados foi exibido:

“Se você tem uma propriedade que valha mais de mil francos suíços, será obrigado a deixar esse valor em troca de um recibo”, diz o comunicado.

A Agência de Imigração do país justificou a medida, afirmando estar de acordo com a lei que pede aos requerentes de asilo contribuições, sempre que possível, para arcar com o custo do processo e o fornecimento de assistência social. Além disso, os refugiados que ganham o direito de permanecer e trabalhar na Suíça têm de entregar 10% de seu salário por até dez anos, até pagar 15 mil francos suíços.

— Se alguém deixa o local no prazo de sete meses, pode receber o dinheiro de volta. Caso contrário, o dinheiro será destinado para cobrir os custos — disse um porta-voz do órgão à TV suíça.

A prática, no entanto, foi condenada pelo grupo de ajuda a refugiados no país Schweizerische Fluechtlingshilfe.

— Isto é indigno e tem que mudar — disse Stefan Frey.

Nesta semana, o Parlamento da Dinamarca começou a debater o projeto de lei que propõe o confisco de objetos de valor a quem solicita refúgio no país. O texto inclui a revista das bagagens dos estrangeiros e a apreensão de objetos e quantias em dinheiro cujo valor exceda dez mil coroas dinamarquesas (R$ 1.600). Pela proposta, as autoridades locais não podem recolher relógios e joias com valor sentimental para os proprietários, como alianças de casamento, nem telefones celulares.

Várias organizações, incluindo o escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, censuraram o país nórdico pela proposta e denunciaram seu caráter autoritário.

Casos envolvendo refugiados e sua aceitação na Europa mobilizam opinião pública

Britânico que tentou levar menina de Calais a Londres escapa de prisão

por O Globo / Com agências internacionais

/ Atualizado
Rob Lawrie segura menina Bahar Ahmadi nos braços antes de julgamento – Michel Spingler / AP

Um ex-soldado britânico que tentou contrabandear uma menina afegã de quatro anos para o Reino Unido a partir de um campo de refugiados em Calais foi considerado culpado por um tribuna francês de colocar em perigo a vida da criança. Pelo crime, Rob Lawrie, de 49 anos, recebeu uma multa de mil euros (US$ 1.080 ou R$ 4.320), que foi suspensa, e não terá que ir para a prisão. Durante o julgamento, ele pediu desculpas pela atitude e disse que agiu sem pensar, motivado por compaixão.

— Eu sinto muito. Eu me arrependo e eu não faria isso de novo — afirmou Lawrie, que apareceu com a menina em seus braços pouco antes do julgamento, pedindo compreensão.

‘Compaixão sempre vence’

O britânico foi detido no ano passado pelo controle fronteiriço em Calais e acusado de ajudar a imigração ilegal. O caso ilustra uma das muitas histórias que ocorreram nos últimos meses na Europa que se viu diante de um fluxo sem precedentes de imigrantes. Desde então, centenas de voluntários tentam ajudar os refugiados, muitos deles fugindo da guerra na Síria, a violência no Afeganistão ou a pobreza na África. A plateia presente no tribunal aplaudiu a decisão depois no anúncio do juiz. Bahar e seu pai, Reza Ahmadi, também assistiram a audiência.

A detenção e a possibilidade de que Lawrie fosse condenado levaram à criação de um abaixo-assinado no Reino Unido com mais de 50 mil assinaturas, pedindo ao chanceler britânico, Philip Hammond, que intercedesse junto à Justiça francesa solicitando clemência.

Com o Grande Tribunal de Boulogne lotado, Lawrie contou como seu negócio havia fracassado e seu casamento arruinado desde sua detenção. Ao receber a sentença do juiz Louis-Benoit Betermiez, o ex-soldado chorou copiosamente e agradeceu à Justiça francesa.

— A compaixão esteve neste tribunal. A França mandou a mensagem de que quando a compaixão é realizada com o coração, sem interesses financeiros ou segundas intenções, ela sempre vence.

Elogiado por voluntários franceses que trabalham no campo de refugiados de Calais, Lawrie afirmou não ser um herói.

— Os soldados das tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial, Oskar Schindler e Martin Luther King são heróis. Eles colocaram suas vidas em risco para salvar outras pessoas. Eu coloquei minha liberdade em risco, mas isso não faz de mim um herói — defendeu. — Talvez faça de mim um homem um pouco estúpido. Sou um ex-limpador de tapetes do Norte da Inglaterra, só isso.

A advogada de Lawrie na França, Lucile Abassade, afirmou que o britânico “se deixou levar pelas emoções, e não suportou ver uma menina ao relento”.

O ex-soldado afirmou que continuará a trabalhar para ajudar refugiados.

— Vou descansar por uns dias e depois continuarei a chamar atenção para o problema dos refugiados, porque não podemos simplesmente abandonar essas crianças, e deixá-las na Selva para apodrecer e morrer de frio — afirmou, usando o apelido dado ao acampamento de refugiados em Calais.

Rpb Lawrie posa em foto com Bahar, a afegã de quatro anos que ele conheceu na “Selva” – Reprodução Youtube

O britânico se recusou no início, mas, no final de outubro, cedeu.

— Bahar adormeceu no meu joelho. Meu instinto paterno me atingiu — disse ele, que tem quatro filho e disse não ter pedido nem recebido dinheiro pela ação.

Em seguida, Lawrie escondeu Bahar em um dos compartimentos de sua van e a levou para o Reino Unido. Mas, sem que ele soubesse, dois eritreus também entraram na parte de trás do veículo. Ao serem encontrados por cães farejadores no controle das fronteiras, o ex-soldado foi levado algemado por um policial francês, enquanto Bahar foi devolvida a seu pai na “Selva”.

O ex-soldado afirmou que começou a realizar trabalhos humanitários depois que viu a foto do menino sírio, Aylan Kurdi, encontrado morto em uma praia turca há dois meses. A imagem comoveu a comunidade internacional ao denunciar a história de perigo pela qual passam vários imigrantes que tentam ao chegar à Europa.

‘Situação está piorando’

O comissário para imigração da União Europeia (UE), Dimitris Avramopoulos, autoridade máxima no assunto dentro do bloco continental, fez um severo alerta no Parlamento Europeu, em Bruxelas, afirmando que os esforços para gerir a pior crise migratória europeia desde a Segunda Guerra Mundial não estão dando resultados.

— A situação está piorando — afirmou categoricamente o comissário, diante dos legisladores europeus.

Enquanto mais de um milhão de refugiados chegaram ao continente no ano passado, pelo menos quatro mil pessoas por dia desembarcaram na Grécia durante o período de Natal e Ano Novo, fugindo de conflitos armados e da pobreza na África e na Ásia, vindos principalmente da Síria, do Iraque e do Afeganistão.

Avramopoulos ressaltou que os programas criados pela UE para gerenciar a chegada de imigrantes “não surtiram os resultados esperados”. Em setembro, o bloco lançou um plano para repartir 160 mil refugiados que haviam chegado à Grécia e à Itália. Entretanto, na prática, menos de 300 pessoas foram reassentadas em outros países. O projeto de levar imigrantes diretamente para países fora da UE, como a Turquia, também caminha a passos de tartaruga. Por outro lado, as nações da UE também estão falhando em devolver aos países de origem aqueles que não conseguem atingir os requisitos necessários para serem integrados ao bloco. Das centenas de milhares de pessoas que chegaram desde setembro, menos de 900 foram mandadas de volta para casa.

Além disso, o comissário enfatizou que o Acordo de Schengen, como é conhecido o tratado de livre circulação entre os países europeus signatários, está sob ameaça, e que Comissão Executiva da UE vai apresentar, em março, medidas destinadas a reforçar as fronteiras do bloco. Com isso, alerta ele, há uma tendência que vai minar a unidade da UE.

— Cada vez mais Estados-membros reintroduzem os controles de fronteira em resposta à crise migratória — afirmou Avramopoulos, referindo-se às recentes medidas de Alemanha, Suécia, Dinamarca e Áustria, que, assim como Hungria, Eslovênia e República Tcheca, começam a barrar refugiados. — Este será o começo do fim do projeto europeu.

Refugiados recusados

Médico austríaco se recusa a atender refugiados – Reprodução

Um papel na porta de vidro que leva a seu consultório deixa clara a posição do Dr. Thomas Unden, médico do distrito de Florisdorf, em Viena, em relação a seus pacientes: “Refugiados não são aceitos”.

— Mantenho minha posição. E o mesmo se aplica a políticos verdes (do partido Alternativa Verde), vermelhos (social-democratas) ou negros (do Partido Popular Austríaco) — diz.

Unden agora é alvo de uma investigação da Associação Médica da capital austríaca, após reclamações de clientes.

— Isso é absolutamente inaceitável e imoral — afirmou o presidente da associação, Thomas Szekeres, que registrou queixa.

Unden diz ser “um dos últimos parentes de Hitler”, e foi multado em R$ 6.500 anos atrás por dizer que as austríacas eram “uma combinação de seios murchos e varizes”.

No limite da sátira

O “Charlie Hebdo” provocou polêmica… de novo. Dessa vez, o semanário satírico publicou uma charge que envolve o menino turco Aylan Kurdi, cuja foto morto aos 5 anos de bruços numa praia turca se tornou símbolo da crise humanitária na Europa. “O que teria se tornado Aylan Kurdi se tivesse crescido? Um perseguidor sexual na Alemanha”, diz o texto da publicação, em referência às mais de 500 denúncias de agressões e violência sexual no réveillon nas cidades alemãs de Colônia e Hamburgo. A maioria dos suspeitos dos abusos é do Norte da África e do Oriente Médio, e solicitante de refúgio no país.

Com o título “Imigrantes”, a charge faz uma alusão à foto de Aylan e o mostra crescendo até se tornar adulto, perseguindo uma mulher assustada. A associação generalizante da imagem dos refugiados à dos suspeitos gerou revolta na internet.

“Charlie Hebdo nos lembra que não tem problema ser racista se você diz que está sendo satírico e brada pela liberdade de expressão”, ironizou um usuário do Twitter.

Mas houve quem compreendesse a iniciativa como sátira a estereótipos de imigrantes e à cobertura midiática da crise dos refugiados. A charge foi publicada uma semana após o aniversário de um ano do atentado que matou 12 pessoas na redação do “Charlie Hebdo”, em Paris.

Fonte: O Globo

Cresce número de judeus que deixam a França

28/06/2015

Número recorde de judeus deixa a França diante de antissemitismo

Mais de 8 mil pessoas deixaram o país rumo a Israel em 2015

Imigrantes judeus franceses deixaram Paris se encontram em um café em Netanya, em Israel – RINA CASTELNUOVO / NYT

Os judeus estão deixando a França em ritmo sem precedente diante da escalada do antissemitismo e do medo de outros ataques terroristas em massa inspirados no Estado Islâmico. Mais de 8 mil judeus deixaram o país rumo a Israel em 2015 — uma taxa bem maior que outros lugares europeus, embora consistente com o que se tornou, nos últimos anos, o maior movimento em massa de judeus desde a formação de Israel em 1948.

A razão primordial para o êxodo é o aumento contínuo da intolerância antissemita nos últimos 15 anos. Uma pesquisa da União Europeia, em 2013, revelou que 74% dos judeus franceses têm tanto medo de serem atacados devido à sua religião que tomam medidas para evitar serem reconhecidos como judeus. O crescimento da imigração muçulmana para a França e os chamados do Estado Islâmico para mais ataques de lobos solitários — a cidadãos judeus, em particular — contribuíram para o temor.

Como resultado, o número de judeus que se mudaram da França para Israel dobrou, e depois dobrou de novo desde 2010. Ano passado, migraram 8 mil pessoas, enquanto 1,9 mil partiram em 2011. Só na cidade de Marselha, no Sul da França, houve três ataques a faca contra cidadãos judeus desde outubro passado. O mais recente vitimou o professor Benjamin Amsellem, de 35 anos, cuja vida só foi salva porque ele usou um exemplar da Torah — o livro sagrado judaico — para se proteger da investida do agressor adolescente, simpatizante do Estado Islâmico.

Quatro judeus foram mortos quando um extremista do Estado Islâmico atacou um supermercado kosher de Paris, em janeiro de 2015, dias depois do massacre no escritório do semanário satírico “Charlie Hebdo”.

A Agência Judaica, que controla a aliyah — nome formal para a migração de judeus para Israel —sempre insistiu que qualquer judeu seria bem-vindo em solo israelense. A oferta atraiu milhares de judeus europeus todos os anos por décadas, e a taxa de recepção no país tem crescido drasticamente. Os cidadãos franceses são, de longe, a maior parte dos requerentes.

Na prática, o número é tão alto que, em Ashdod — cidade no sul de Israel mais procurada entre os recém-chegados — a língua francesa é tão ouvida nas ruas quanto a hebraica. Dezenas de cafés ao estilo francês dão à localidade um ar parisiense, de acordo com a CNN.

Em comparação, o Reino Unido tem o segundo maior número de cidadãos migrando para Israel, com apenas 774 partidas ano passado.

A combinação de forças de extrema-direita, segurança deteriorada e recepção alemã de refugiados cuja cultura é “impreganada de ódio aos judeus” estaria resultando em antissemitismo também na Alemanha. “Nós não nos sentimos mais seguros aqui”, disse ao “Jerusalem Post” o líder da comunidade judaica de Hamburgo, Daniel Killy.

Fonte: O Globo

Um ministro israelense  os judeus da França a voltarem para Israel, após um ataque jihadista perto de Lyon.

“Exorto os judeus da França – voltam para casa! O semitismo aumenta, o terrorismo está crescendo!”, declarou o ministro da Imigração israelense, Zeev Elkin, membro do Partido Likud (direita) do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

“Esta é uma missão nacional da mais alta prioridade”, acrescentou em um comunicado.

O primeiro-ministro israelense apela regularmente os judeus da Europa a ir em “massa” para Israel. A França é o lar da maior comunidade judaica da Europa, com 550.000 pessoas.

O diretor de uma empresa foi decapitado nesta sexta-feira em um ataque jihadista contra uma usina de gás perto de Lyon (centro-leste da França). Não foram fornecidas informações sobre a religião da vítima.

O suposto autor do ataque, conhecido por suas “ligações com o movimento salafista”, foi preso, segundo as autoridades.

“O ataque é tratado como sendo de natureza terrorista, desde que foi encontrado um corpo decapitado com inscrições”, indicou o presidente francês, François Hollande.

Desde os ataques realizados em janeiro em Paris por três jihadistas contra a revista Charlie Hebdo, um supermercado kosher e a polícia, o governo implementou um plano de vigilância antiterrorista em lugares públicos.

“Judeus voltaram a ser assassinados em solo europeu apenas por serem judeus e essa onda de ataques terroristas, que inclui ataques assassinos antissemitas, deve continuar.”

Foi assim que o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, explicou os motivos que levaram seu governo a lançar um plano de imigração em massa para atrair judeus que vivem na França, na Ucrânia e na Bélgica. O anúncio do primeiro ministro gerou questionamentos dentro e fora de Israel.

A declaração de Netanyahu veio após a recente série de ataques extremistas que aconteceram na França e na Dinamarca, que comoveram o mundo.

Críticas ao projeto

Ainda assim, muitos acreditam que um êxodo em massa de judeus da Europa significaria fazer o jogo do extremismo. O principal rabino da Dinamarca, Jair Melchior, afirmou que “o terrorismo não é motivo para emigrar para Israel. Os judeus da Dinamarca vão a Israel porque amam Israel, e não porque houve um atentado terrorista. Fugir seria uma vitória do terror”, comentou.

Há também quem suspeite que o anúncio é uma jogada política de Netanyahu de olho nas próximas eleições de 17 de março no país.

“Estar em campanha eleitoral não justifica qualquer declaração”, disse o primeiro ministro francês, Manuel Valls, cuja esposa é judia. “O lugar dos franceses judeus é na França. Minha mensagem é a seguinte: a França está ferida, assim como vocês, e não quer que ninguém fuja.”

A primeira ministra da Dinamarca, Helle Thorning-Schmidt, disse que seu país “não seria o mesmo sem a comunidade judia”.

O plano, aprovado no último domingo com um orçamento de US$ 46 milhões (R$ 131,8 milhões), atuaria em diferentes frentes.

A primeira seria o estímulo de migrações a partir da França, Ucrânia e Bélgica; isto seria feito através de feiras de divulgação nesses países sobre as oportunidades que Israel oferece.

Além disso, o plano buscaria criar um sistema para acolher esses imigrantes, em especial aqueles provenientes de áres consideradas de emergência.

De sua parte, o governo israelense propõe subsidiar aulas de hebraico; aumentar a folha de pagamento dos departamentos oficiais de imigração para acelerar os procedimentos e conselhos para cada caso; e fortalecer os serviços sociais do país e para a geração de emprego, especialmente voltado para a criação de empresas.

“Israel é a sua casa e está preparado para acolher uma grande imigração da Europa”, disse Netanyahu aos judeus europeus ao apresentar seu plano.

De acordo com a chamada Lei de Retorno, os judeus que decidirem ir a Israel têm direito a receber um pacote de benefícios, além de obter a cidadania do país.

Para o governo de Israel, o plano de imigração – que tem a intenção de fazer com que mais europeus aproveitem essas vantagens – é uma resposta ao que considera uma escalada nas solicitações recebidas de judeus para mudar de país

A emigração de judeus provenientes de países europeus para Israel já vem aumentando.

Na Ucrânia, ela tem acontecido por causa do conflito com os russos no leste do país; na França e na Bélgica, o motivo seria um crescente sentimento de antissemitismo, ainda que alguns especialistas também indiquem o fator econômico – e a crise nesses países – como uma grande influência para esse processo.

Segundo as estatísticas, mais de 11 mil judeus franceses se interessaram em emigrar para Israel em janeiro passado.

Em 2014, o número de judeus que emigrou da França para Israel foi 6.658, segundo os dados do Ministério de Imigração israelense. O número representa o dobro do registrado em 2013. Só no mês de janeiro, Israel deu procedimento a 1.835 solicitações.

No caso da Ucrânia, em 2014, 5.921 pedidos foram registrados, mais do que o triplo do número de imigrantes de 2013. Em janeiro, foram contabilizadas 1.300.

O número da Bélgica é bem menor – 233 em 2014 -, mas em Israel, estima-se que ele deve aumentar drasticamente com o novo plano.

Porém, para o diretor da Agência Judia – instituição encarregada de levar judeus a Israel -, Natan Sharansky, os fundos do plano não são suficientes para amortizar os efeitos, sobre a economia e a sociedade, da onda migratória prevista.

“Sem soluções a longo prazo para esses problemas, Israel viverá tempos difíceis para atrair judeus que busquem um novo futuro”, advertiu.

Para o ex-presidente israelense Simón Peres, o plano é um apelo político de Netanyahu – o qual critica.

“Não venham a Israel por uma posição política, mas porque querem viver aqui”, disse Peres a judeus europeus. “Israel deve continuar sendo uma terra para a esperança e não para o medo.”

No fim de semana, dois homens morreram em dois atentados extremistas na Dinamarca. Um deles era judeu. No início do ano, quatro judeus morreram em um ataque a um supermercado kosher em Paris – o incidente aconteceu logo depois do massacre que ocorreu na sede da revista satírica Charlie Hebdo, quando 17 pessoas morreram

‘Inseguros’, cada vez mais judeus franceses emigram para Israel

Kevin Connolly BBC News, Jerusalém
  • 13 janeiro 2015

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Imigração de judeus da França para Israel atingiu recorde em 2014

 

O final sombrio e violento da crise dos reféns em Paris na semana passada foi acompanhado em vários cantos do mundo. A comunidade israelense de judeus de língua francesa seguiu o drama com particular tristeza – mas sem surpresa.

Este clima ficou evidente quando o canal Channel 10 de Israel entrevistou um dos sobreviventes do cerco ao supermercado kosher que tinha se escondido numa câmara fria no porão enquanto o atirador matava suas vítimas na loja.

Yohan Dumas descreveu como o assustado pequeno grupo tinha lutado para manter-se aquecido – mas interrompeu a entrevista para anunciar que havia decidido se mudar para Israel na semana seguinte.

Leia mais: França se mantém dividida, apesar de manifestação pública de união

Para explicar sua decisão, disse: “Não estamos aqui esperando para morrer.”

Tendência significativa

Não são muitos os judeus franceses que tomaram a decisão de emigrar em tais circunstâncias dolorosas – mas o número dos que decidiram mudar de país tem aumentado nos últimos anos.

É uma tendência que toca num dos argumentos fundamentais por trás da criação de Israel – a ideia de que uma história de perseguição e falta de nacionalidade deu ao povo judeu o direito a um lugar seguro.

Homenagens às vítimas foram feitas em frente à embaixada israelense em Tel Aviv

 

Foi uma ideia cujo apoio renovou-se após o Holocausto – a votação da ONU que levou à criação do Estado judeu foi realizada apenas dois anos e meio após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Em hebraico, o fenômeno é conhecido como “aliyah” e descreve o processo em que judeus nascidos em qualquer lugar do mundo exercem o direito à cidadania israelense – é um valor fundamental do sionismo e um direito garantido por lei em Israel.

Leia mais: Quem são os mandantes dos ataques na França?

Cerca de 7 mil judeus chegaram a Israel da França em 2014. Isso é quase o dobro daqueles que migraram no ano anterior e significa que, pela primeira vez na história, mais judeus chegaram a Israel da França do que de qualquer outro país.

Pode ser apenas uma pequena proporção entre os mais de 500 mil judeus que vivem na França, mas é uma tendência significativa.

‘Sentimentos ruins’

Claramente, há diversos fatores por trás de cada uma dessas decisões individuais. Mas, em Israel, o aumento do número de imigrantes franceses será visto por muitos como uma medição aproximada do nível de antissemitismo na sociedade francesa.

O empresário aposentado Albert Levy nasceu no Marrocos há pouco mais de 60 anos em uma família judaica de língua francesa. No momento de entrar no ensino superior, foi um movimento natural se mudar para Paris e ele fez isso sem temer por sua segurança.

Judeu ultraortodoxo reza em cemitério de Jerusalém, onde funeral de quatro das vítimas de ataque em Paris foi realizado

 

Há alguns anos, ele, sua esposa Yveline e três filhos vieram para Israel. A época dos judeus na Europa acabou, diz ele.

“Olha, nós [a geração dele] fizemos o que fizemos mas temos este forte sentimento de que, para os nossos filhos, a situação vai ficar pior e pior e pior. Todo mundo tem um instinto sobre isso”.

“Ou você se sente confortável ou você se sente mal, você acorda pensando ‘O que vai acontecer hoje?’ Hoje posso dizer que todo judeu na França tem esses sentimentos ruins”.

Leia mais: Atentados na França devem favorecer extrema direita

É justo salientar que Levy culpa a mídia, pelo menos em parte, pela atmosfera atual e argumenta que a imprensa tende a demonizar Israel, na esteira de fatos que vão desde a primeira guerra do Golfo à primeira e segunda Intifadas (os levantes nos territórios palestinos contra a ocupação israelense).

Isso, talvez, seja um debate para outro momento, e é importante ressaltar que a França, naturalmente, insiste que sua população judaica pode permanecer ali com segurança.

Ambiente em mudança

Israel está no meio de uma campanha eleitoral e vários líderes partidários – incluindo o primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu – foram à França após os ataques.

A mensagem de Netanyahu para judeus franceses foi simples – Israel está pronto para recebê-los de braços abertos, caso decidam se mudar.

O órgão encarregado de supervisionar a migração e absorção dos judeus que exercem o direito de viver em Israel é a Agência Judaica, cujo porta-voz é Yigal Palmor.

Para transmitir o sentimento de surpresa – talvez choque – no ambiente em mudança na Europa, ele cita seu chefe, o presidente da agência, Nathan Sharansky, que já foi um dissidente na União Soviética, onde chegou a ser preso por querer se mudar para Israel.

“Ele [Sharansky] diz que nunca teria acreditado que chegaria um momento em que judeus se sentiriam seguros em andar pelas ruas com a cabeça coberta com um quipá em Moscou e não em Paris”.

“Todos nós compartilhamos essa surpresa. Como é possível que judeus não se sintam mais seguros em Paris, Londres ou Roma, na maneira que eles estavam acostumados ou como deveriam estar após a Segunda Guerra Mundial? Isso é um mistério que continua a nos deixar perplexos”.

O número de judeus pedindo informações sobre a mudança da França para Israel atingiu 50 mil no ano passado. Enquanto funerais ocorrem em Jerusalém para quatro das vítimas do tiroteio em Paris, é difícil ver qualquer coisa no horizonte que inverta esta tendência.

Fonte: Yahoo e BBC

Estrangeiros fugidos de seus países em conflito podem pedir REFÚGIO ao Brasil

22/06/2015

 

Rio Refugia reúne refugiados de 20 países em Santa Teresa

Endel Molina, da Venezuela
Endel Molina, da Venezuela Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo

 

No mês em que as Nações Unidas anunciaram o recorde de 65,6 milhões de deslocados em todo o mundo em 2016, uma iniciativa no Rio tenta reduzir o preconceito misturando o prazer de comer e beber ao encontro de culturas. Edição para lá de especial da feira Chega Junto, criada há dois anos para contemplar a gastronomia feita por refugiados e famílias de imigrantes na cidade, a Rio Refugia movimentou o Parque das Ruínas, em Santa Teresa, este sábado, com barracas de comidinhas de 20 países, entre eles, Síria, Índia, Camarões, Nigéria, Congo, Venezuela, Haiti entre outros.

– São receitas tradicionais e autênticas que não encontramos em restaurantes. Além disso, tem a pegada de comida de rua, o lado exótico da feira, que tem pratos com nomes insoletráveis, por exemplo, alguns do Congo – destaca a coordenadora Luciara Motta, que tem o apoio de instituições como a Cáritas, da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que acolhe refugiados no Brasil, e a Abraço Cultural.

Claudine Mideda, em Santa Teresa
Claudine Mideda, em Santa Teresa Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo

Luciara, que fazia um trabalho de educação alimentar com crianças na Junta Local (fundação Jamie Oliver, Food Revolution, com voluntários no mundo), idealizou o programa a partir da fusão de refugiados a gastronomia.

– O cara perde família e tudo, mas sabe preparar uma comida, vem de berço – conta.

Na feira, além dos refugiados de 16 países, tem famílias de quatro países imigrantes (Peru, Japão, Uruguai e Argentina). Segundo Luciara, são “redes de contatos benéficos para a reintegração efetiva na cidade. A edição especial, em razão do Dia do Refugiado, celebrado na última terça (20), é a prova de que a proposta, que tem como berço o bairro de Botafogo, cresceu.

– Pelo simbolismo da data, queríamos estar num espaço mais central para ser mais do que um encontro de refugiados, mas para refugiados. Por isso, possibilitmaos a vinda de comunidades haitianas, congoleses, pessoas que moram mais distantes.

O sábado foi animado no Parque das Ruínas, em Santa Teresa, que recebeu cariocas e refugiados na feira Rio Refugia
O sábado foi animado no Parque das Ruínas, em Santa Teresa, que recebeu cariocas e refugiados na feira Rio Refugia Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo

Além das comidinhas variadas, houve debates, recreação infantil (oficinas de culinária e mandalas) e atrações musicais. Um grupo de congoleses, sem nome, se apresentou às 15h, e, nos intervalos, o haitiano Bob Martinar assumiu as picapes com ritmos caribenhos.

Em todo o mundo, o deslocamento forçado causado por guerras, violência e perseguições atingiram em 2016 o número mais alto já registrado, segundo relatório divulgado pelo ACNUR (Agência da ONU para Refugiados). São mais de 65 milhões (mais de 300 mil em relação ao ano anterior), o maior desde 1945.

A nova edição do relatório “Tendências Globais”, o maior levantamento da organização em matéria de deslocamento, revela que ao final de 2016 havia cerca de 65,6 milhões de pessoas forçadas a deixar seus locais de origem por diferentes tipos de conflitos – mais de 300 mil em relação ao ano anterior. Esse total representa um vasto número de pessoas que precisam de proteção no mundo inteiro.

Um dos destaques, não só das feiras de refugiados, mas entre a nova geraçao de chefs estrangeiros, o engenheiro sírio Anas Abdulrjab, que assinou um dos pratos principais no jantar especial servido no Museu do Amanhã, conversou com o jornal “O Globo”.

O que você lembra do seu primeiro dia no Brasil, há dois anos quando chegou?

O meu primeiro dia no Brasil foi muito ansioso, cheio de emoções e pensamento sobre o que deixei, (a família, os amigos e uma vida inteira)… e o que iria encontrar nesse país estrangeiro, cuja língua eu não falava e onde não conhecia ninguém. Tinha que começar tudo do zero, tudo do A,B,C.. Mas ao mesmo tempo eu estava muito esperançoso.

Como era sua vida antes de se refugiar no Brasil?

Eu morava e estudava em Trípoli, Libya, mas a situação lá ficou bem perigosa e não podia ficar nem voltar pra Síria, onde a minha família morava. Meus pais vivem em Damasco e ainda não querem deixar a terra deles, embora seja bem difícil sobreviver lá.

Onde aprendeu a falar português? É mais difícil que conseguir trabalho aqui?

Aprendi português na PUC. Conseguir trabalho é mais difícil porque ainda precisa falar com as pessoas.

Mora com outros refugiados? O que tme feito para se divertir no Rio?

Não moro com refugiados, com um brasileiro. Me divirto saindo com amigos, fazendo trilhas e viajando pelo Brasil

Qual é o sabor da comida árabe feita aqui? Você aprova?

A comida árabe aqui não é verdadeira… Muito triste vejo a minha cultura culinária representada nessa forma.

Que lugar do Rio faz você se lembrar de seu país?

Tem pedacinhos de Santa Tereza que parecem um pouco.

A violência te assusta? O que te provoca mais medo?

Tenho sim, o meu país está muito perigoso agora, mas ainda não tem assaltos na rua, ninguém se preocupa com este tipo de violência lá. É muito irônico isso.

Fonte: Extra

Brasil é visto como um lar por sírios refugiados da guerra

Dos 8.950 refugiados acolhidos no país, em fevereiro deste ano, 2.480 são sírios

Em fevereiro de 2017, o Brasil já tinha 8.950 mil refugiados. Desse total 2.480 são sírios, homens, mulheres e crianças que foram forçados a deixar seu país ao longo de seis anos de guerra na Síria, mas que vêem no Brasil uma oportunidade de recomeço, mesmo que o país também esteja em uma grande onda de violência urbana.

Segundo a 10ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública lançado em outubro de 2016, o Brasil registrou mais mortes violentas de 2011 a 2015 do que a guerra na Síria. Neste período, foram 278 mil casos de homicídios doloso, latrocínios, lesão corporal seguido de mortes, entre outros crimes. No entanto, desde 2011, quando começou a guerra na Síria os pedidos de refúgio de sírios com alguma ligação com o Brasil só crescem.

Em entrevista exclusiva para a Spuntik Brasil, o Arqueólogo sírio, nascido em Damasco, e radicado no Brasil, Ahmad Serieh, que já está morando em São Paulo há quase 8 anos acredita que a fuga dos sírios para o Brasil se dá muito pela facilidade de se conseguir visto.

“É muito fácil entrar no Brasil. Para outro país da Europa, como Alemanha ou França é muito difícil o visto para o sírio. A maioria de sírios no Brasil tem família aqui, porque há muitos imigrantes sírios e libaneses e muitos tem tios, tias aqui e os ajudam.”

Ahmad veio para o Brasil explorar sítios arquelógicos e aplicar aqui os seus conhecimentos do curso de doutorado realizado na Universidade de Varsóvia, na Polônia, mas ao se estabelecer em São Paulo e conhecer melhor o Brasil, o sírio mudou os planos e a permanência no Brasil, que seria inicialmente provisória, se tornou definitiva.

Mesmo com a violência diária estampada no Brasil, Ahmad diz que nunca se arrependeu ou teve medo de ficar morando aqui.

“Não tenho medo de morar no Brasil. Cada país tem o seu problema e o Brasil não tem grandes problemas. Durante oito anos eu nunca sofri violência, moro em paz, nunca fui roubado. Eu acho o Brasil um país muito bom para os sírios virem morar aqui. Todos os sírios que estão aqui, gostam de morar aqui. Todos trabalham, abrem restaurantes, há muitos técnicos, engenheiros e médicos. Eu tenho contato com muitos sírios e ninguém tem problemas aqui, todos vivem felizes aqui em São Paulo ou Curitiba.”

Além de ministrar aulas e palestras sobre Arqueologia em instituições universitárias, Ahmad Serieh em 2010 chegou a abriu em São Paulo o Centro Cultural Árabe Sírio, que funcionou durante cinco anos e atualmente ele se dedica ao Instituto Bibliaspa, que é a Biblioteca e o Centro de Pesquisa América do Sul – Países Árabes – África. Neste Centro, os refugiados e migrantes são recebidos,  aprendem a língua portuguesa e recebem orientação e auxílio para  se adaptem mais rapidamente ao Brasil.

Segundo o arqueólogo, cada vez mais a sociedade brasileira acolhe melhor os refugiados. “Cada vez muito melhor. O brasileiro recebe o refugiado muito bem, o sentimento é como se estivesse em casa.”

No entanto, as dificuldades ainda existem para os refugiados que estão tentando recomeçar suas vidas no Brasil. Ahmad destaca a falta de uma maior atenção por parte do governo em oferecer opção de trabalho. “No início, há a dificuldade para encontrar trabalho e a dificuldade com a língua portuguesa e encontrar uma escola para aprender o português, essa é a dificuldade para as crianças também, mas depois de um ano todo mundo acostuma viver no Brasil. O governo brasileiro precisa ajudar mais o refugiado em encontrar trabalho e oferecer assistência de saúde e uma boa escola é o que o refugiado quer.”

Fonte: Notícias ao Minuto

 

Refugiados sírios passam a receber Bolsa Família no Brasil

Sírios observam a destruição dos ataques aéreos em Damasco. (AFP)Sírios observam a destruição dos ataques aéreos em Damasco. (AFP)

Apesar de não poussuir um programa específico para abrigar e ajudar refugiados imigrantes, o Brasil é o país da América Latina que mais recebe sírios, com 2.097 vivendo no país atualmente, segundo o Ministério da Educação.

Este ano, com o aumento do fluxo de imigrantes da Síria em função da guerra civil que o país do líder Bashar Al-Assad vive, cerca de 400 sírios passaram a receber o Bolsa Família do Governo Federal esse ano. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

Imigrantes perto da fronteira entre a Turquia e a Grécia. (AFP)Imigrantes perto da fronteira entre a Turquia e a Grécia. (AFP)

Em reportagem publicada no site da BBC Brasil, o imigrante “Ali” (nome fictício) revelou que recebe em média R$ 167 por mês. “Aqui no Brasil, eu sou pobre”, diz o sírio de 34 anos. No seu país natal, ele ganhava cerca de US$ 4 mil (aproximadamente R$ 15 mil) mensais e estudava pós-graduação.

Assim como Ali, muitos têm qualificação profissional, mas o idioma acaba sendo uma barreira difícil de transpor. “Principalmente no período de chegada, eles têm renda zero. É preciso analisar o que está acontecendo”, aponta Larissa Leite, integrante da organização Cáritas-SP, responsável por auxiliar refugiados, à publicação.

Sírios assistem ao jogo do Santos, mês passado. (Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)Sírios assistem ao jogo do Santos, mês passado. (Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)

Enquanto o governo não tem um programa específico de apoio ao imigrante, o Bolsa Família acaba sendo uma saída, mas, assim como vê o secretário nacional de Renda de Cidadania do Ministério, Helmut Schwarzer, não é o suficiente.

“Possivelmente a gente ainda vai ter algum aumento [de beneficiados]. À medida que a documentação das famílias for ficando pronta, que o direito de residência for concedido, pode ser que mais famílias solicitem o benefício”, garante.Fluxo de refugiados sírios na União Europeia. Brasil recebeu mais de 2.000 deles. Fluxo de refugiados sírios na União Europeia. Brasil recebeu mais de 2.000 deles.

No momento, os sírios são o maior grupo entre os mais de 8.500 refugiados no país. Depois deles vêm os angolanos (1.480), colombianos (1.093) e congoleses (850).

É importante ressaltar que esses números são incertos, uma vez que muitas dessas pessoas não possuem registro no Brasil. Outros dois povos comuns de se ver por aqui são os bolivianos e os haitianos, encontrados principalmente na cidade de São Paulo.

Na última sexta (9), o governo Dilma Rousseff liberou em medida provisória cerca de R$ 15 milhões destinados às políticas assistencialistas a imigrantes e refugiados. Segundo a Agência Brasil, os recursos devem ser investidos em moradia, assistência jurídica, social e psicológica, além de aulas de português e também no auxílio na inserção ao mercado de trabalho.

Brasil já concede mais vistos de refugiados a sírios que países europeus

Os sírios são o povo com mais refugiados reconhecidos no Brasil

Hania Alkhateb, de 25 anos, diz sentir-se privilegiada por sua filha ter nascido no Brasil, longe da guerra da Síria, mas ainda sonha com o dia em que seu país vai voltar a ter paz para que possa regressar com Zena Salha, de 4 meses. “Ela é brasileira, mas seu país é a Síria. Quero que ela cresça lá, mas só voltamos quando tiver paz.” Hania é um dos 2.077 sírios que conseguiram o refúgio no Brasil desde que o país entrou em conflito
Os sírios são o povo com mais refugiados reconhecidos no Brasil. Há dois anos, o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), do Ministério da Justiça, publicou uma normativa, facilitando a concessão de vistos a imigrantes da Síria, com isso o país se tornou uma das principais alternativas para as famílias que fogem dos conflitos.

O Brasil já concedeu mais refúgios para sírios do que países do sul da Europa, que recebem grande contingente de imigrantes ilegais pela facilidade geográfica. A Espanha, por exemplo, só concedeu refúgio para 1.335 sírios, a Itália para 1.005 e Portugal para 15, segundo a Eurostat, agência de estatísticas da União Europeia.

“Além da questão humanitária, o que já seria motivo suficiente para facilitar a acolhida dessas pessoas, o Brasil está cumprindo com seus compromissos internacionais e sua legislação nacional ao dar refúgio para quem necessita. Assim como nós buscamos melhores condições de vida, essas pessoas têm na imigração a única possibilidade de viver, elas foram obrigadas a sair de seus países”, disse Beto Vasconcelos, presidente do Conare.

Nos primeiros sete meses deste ano, o Brasil concedeu 10,4% mais pedidos de refúgios do que em todo o ano passado. Já são 8.400 refugiados em 2015; no ano passado, foram 7.609. Depois da Síria, os países que mais conseguiram refúgio brasileiro foram Angola (1.480) e República Democrática do Congo (844), ambos com conflitos políticos internos.

Perfil. Os refugiados no Brasil, segundo o relatório do Conare, são na maioria homens (70,7%) e com idade entre 18 e 39 anos (65,6%). No entanto, entre os refugiados ainda há 19% de menores de 17 anos.

Pedro Dallari, diretor do Instituto de Relações Internacionais da USP e um dos especialistas que elabora a proposta de anteprojeto de Lei de Migrações e Promoção dos Direitos dos Migrantes no Brasil, disse que os sírios que migraram para o Brasil nos últimos dois anos são de famílias com maior poder aquisitivo e com maior grau de escolaridade. “Quem vai para a Europa sabe que naqueles países há uma melhor acolhida, com ajuda financeira e abrigos. Já no Brasil eles vão precisar batalhar mais, para conseguir se manter.”

É o caso da família de Hania. O pai, Bahaa, era dono de uma construtora na Síria, mas viu os negócios falirem com a guerra. “Vendi nossos móveis, roupas e colchões para pagar as passagens de todos (cerca de U$ 800 para cada um dos sete integrantes da família). Quando chegamos ao Brasil, tinha apenas U$ 29 na carteira e nenhum lugar para ir. Um funcionário do aeroporto que nos indicou ligar para uma ONG”, contou Bahaa. A família está há um ano no Brasil e mora na sede da ONG Livro Aberto, em Guarulhos.

Ao contrário da irmã, Akram, de 21 anos, não pensa em voltar para a Síria, onde cursou um ano de Medicina, mas precisou abandonar os estudos. “Vou prestar vestibular para recomeçar Medicina. Quero ficar aqui no Brasil, montar meu consultório e dar uma boa vida para os meus pais”. O sonho de Akram é se tornar oftalmologista.

Antes de vir para o Brasil, a família ainda tentou viver por um ano de forma ilegal no Egito e por sete meses na Mauritânia. “Não éramos bem aceitos. No Egito, por exemplo, não aceitavam que um sírio estudasse nas faculdades. No Brasil é diferente, as pessoas nos acolheram. Todos os sírios querem ir para a Europa, mas aqui é que podemos ter futuro”, disse Akram.

Entre expectativa e garantia de permanência, refugiados vivem no Brasil

Um grupo de cerca de 11,2 mil pessoas aguardam resposta do Estado brasileiro sobre a solicitação de refúgio

“É uma situação que precisa de muito tempo para vocês daqui entenderem. É uma coisa que a gente se acostumou, mas não é normal, nada é normal lá”. O sorriso fácil e olhar sereno de Charly Kongo contrastam com sua história, que poderia ter sido abreviada. Nascido na República Democrática do Congo, ele decidiu não se calar diante das injustiças e foi às ruas. Uma série de ameaças contra sua vida o fizeram tomar uma decisão: deixar a vida e a família na África e morar no Brasil.

“O povo Bakongo saiu às ruas pedindo a justiça. Aí o governo, como de hábito, reprimiu. Muitas pessoas morreram, muitas desapareceram”, conta. Ameaçado de morte em um cenário político turbulento, ele deixou seu país em 2008. Um amigo sugeriu que Kongo fosse para o Brasil e se ofereceu para ajudá-lo na concessão de visto, pois tinha conhecidos na embaixada brasileira. Mesmo assim, a adaptação não foi fácil. Ele chegou no Brasil sem falar uma palavra em português.

Ao desembarcar no Rio de Janeiro, onde se estabeleceu, fez o que, segundo ele, todos os estrangeiros fazem em situações semelhantes, procurou seus conterrâneos. Brasileiros o ajudaram e o levaram para o centro da cidade, onde encontrou outros congoleses, como ele.

“Eu entendi que, sem falar o português, não teria como viver. Aí procurei estudar o idioma, comecei a fazer um curso na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e isso me ajudou a melhorar meu português. Depois,consegui um emprego fixo, no setor de hotelaria. No hotel, comecei na área de limpeza, hoje trabalho como mensageiro”.

Kongo esperou por oito meses a concessão de refúgio e hoje não pensa em voltar a morar em seu país natal, pelo menos em um futuro próximo. “Gostaria de voltar à minha terra um dia, mas não por enquanto, vou esperar um pouquinho. Se Deus quiser aquele regime não estará mais lá”.

À espera de um “sim” do país que escolheu

Nascido em Bangladesh, Nurul Amin, 32, também tem o desejo de se manter no Brasil mas, ao contrário do congolês, sua permanência ainda não é certa. “A vida aqui é melhor do que lá. Todo mundo gosta do Brasil, o único problema é que não tenho os documentos da permanência ainda”. Ele chegou ao Brasil há dois anos para se afastar de uma situação política instável, e atrás de melhores salários.

A cada pergunta, Nurul Amin pensa, esboça uma resposta, para e retoma o raciocínio em seguida. Ainda aprendendo a falar português, cada palavra é pensada como uma equação. Às vezes uma palavra em inglês escapa, mas a comunicação não é mais a barreira que era. “Cheguei aqui e não sabia pedir água ou pão. Era muito difícil, mas agora estou aprendendo, e não está mais tão difícil”.

Ele divide com outros três conterrâneos uma pequena casa nos fundos de um lote em Taguatinga, cidade satélite do Distrito Federal. E todos vivem situação parecida. Tropeçando no português, Rony Ahmed, 28; Joynal Abedin, 24; e Masarof Hossain, 26; vivem um dia de cada vez, em empregos informais, e ajudando um ao outro.

“Gosto do Brasil, o sistema [político] é muito bom, o país e o trabalho aqui são muito bons, as pessoas ajudam se você precisa”, disse Ahmed. Muito simpático e sorridente, ele explicou o principal motivo de cruzar o Atlântico e chegar ao Brasil há dois anos. “Eu apoiava os líderes de oposição ao governo e já fui preso por isso. A polícia já me bateu e me prendeu por fazer oposição ao governo”, disse Ahmed, que também era eletricista em seu país, e hoje faz churrasco na rua para sobreviver.

Eles sonham obter o reconhecimento do refúgio para poderem trazer a família para o Brasil. Enquanto o primeiro tem esposa e um filho, Ahmed deixou a esposa na terra natal. Ao ser perguntado se pretende trazer a esposa para morar no Brasil, os olhos de Amin brilham de expectativa. “Eu quero muito, muito trazer ela! Mas não tenho o refúgio ainda. Eu já estou há dois anos aqui, enquanto minha mulher está lá em Bangladesh, esperando. É muito difícil, triste”.

Amin e seus compatriotas fazem parte de um grupo de 11,2 mil pessoas que, segundo a Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), ainda aguardam uma resposta do Estado brasileiro sobre a solicitação de refúgio.

Não há prazo legal para que a decisão seja tomada pelas autoridades brasileiras. Com isso, só aumenta a angústia de quem aguarda uma definição sobre a própria vida. “Com os documentos do refúgio, poderia visitar minha esposa por dois, três meses, depois voltaria. Mas, sem isso, não posso, não posso deixar o Brasil”, explica Amin.

De acordo com o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) o Brasil registra 7,7 mil refugiados reconhecidos. Pessoas de 81 nacionalidades já conseguiram refúgio no país. Os grupos que mais buscam refúgio no país vêm da Síria, Colômbia, Angola e República Democrática do Congo (RDC).

Os sírios representam 23% do total de refugiados reconhecidos no Brasil. “O caso dos sírios pode ser explicado pela postura solidária do Brasil com as vítimas do conflito naquele país, inclusive por meio da aprovação da Resolução Normativa nº17 do Conare”, explica a Acnur, no documento “Dados sobre o refúgio no Brasil”, divulgado no ano passado.

De acordo com o ministério da Justiça, todo cidadão estrangeiro que quiser se estabelecer no Brasil na condição de refugiado, deve fazer o pedido em qualquer posto da Polícia Federal ou autoridade migratória na fronteira. O solicitante recebe um protocolo provisório, válido por um ano e renovável até a decisão final sobre o pedido de refúgio.

De posse do protocolo, o estrangeiro já pode obter carteira de trabalho, CPF e acessar todos os serviços públicos disponíveis no Brasil. Em caso de indeferimento do pedido de refúgio, o estrangeiro pode recorrer ao ministro da Justiça. Outra possibilidade é um recurso junto ao Conselho Nacional de Imigração (CNIg), do Ministério do Trabalho, no caso de quem veio ao Brasil em busca de oportunidades de trabalho.

Fonte: Correioweb

Centenas de fugitivos da Síria em São Paulo recebem assistência em mesquita

Após publicação de foto de menino afogado, empresários se oferecem para pagar passagem aérea


Muçulmanos oram em mesquita em São Paulo que ajuda refugiados – Marcos Alves / Agência O Globo

 “Tenho parentes na Síria , na Europa, no fundo do mar, nos lugares que eu ainda não sei”. O lamento do médico sírio Feras al-Laham, de 34 anos, não é um exagero ou força de expressão. Feras nasceu em Damasco, capital da Síria, e tinha uma carreira bem-sucedida como otorrinolaringologista até a guerra civil ser detonada, em 2011. Dois anos depois, Feras chegou ao Brasil e, desde então, tenta revalidar o diploma de Medicina. Em suas palavras, vive “sem trabalho, sem salário e sem ajuda”:

— Imagine outros sírios que nem têm uma profissão. A guerra é muito difícil. E reiniciar a vida do zero ainda mais — lamenta.

Feras é um entre os mais de dois mil refugiados sírios que chegaram ao Brasil nos últimos anos, o que os torna a nacionalidade mais frequente em busca de acolhida aqui, de acordo com os dados mais recentes do Comitê Nacional para Refugiados (Conare) do Ministério da Justiça. São Paulo é a cidade por onde eles mais chegaram, pelo Aeroporto de Guarulhos. Embora o número de asilos a sírios concedido pelo Brasil seja superior a de países como Grécia, a Europa já recebeu cerca de 300 mil sírios, que também pediram status de refugiados.

Graças a uma norma estabelecida há dois anos pelo governo brasileiro e que será renovada este mês, o processo de asilo para sírios foi facilitado. O Brasil, diferentemente dos países europeus, reconhece de antemão a crise humanitária da Síria e não recusa refúgio aos cidadãos daquele país. Além disso, de acordo com a Cáritas, o processo de obtenção de vistos para sírios leva cerca de seis meses, enquanto solicitantes de outras nacionalidades podem esperar até três anos para obter o status de refugiado.

O perfil dos refugiados sírios é diferente do de africanos que chegam ao Brasil. Grande parte deles tem ensino superior e levava uma vida de classe média em seu país.

— Todos os dias nos chega aqui pelo menos uma família nova ou um refugiado sírio — afirma Ahmad Ismael, secretário geral da Mesquita Brasil, a mais antiga da América Latina, que virou um ponto de referência para refugiados muçulmanos, especialmente sírios.

De acordo com Ismael, apesar da facilidade para entrar no país, o governo dá pouco suporte a quem chega.

O aumento da procura por refugiados sírios fez com que a mesquita triplicasse o número de vagas para aulas de português. Apenas em julho, eles distribuíram três mil cestas básicas para refugiados. Desde que a imagem do menino sírio morto na praia ganhou as páginas de jornais no Brasil, a mesquita tem sido procurada por empresários dispostos a custear a vinda de sírios ao Brasil, segundo Ismael. Uma passagem de avião de Damasco para São Paulo custa em torno de US$1.500. A mesquita, no entanto, prefere não intervir no processo de fuga da Síria e se concentrar em ajudar os que chegam

‘Não tenho a opção de desistir’, diz sírio há um mês no Brasil

Jamal raciona a cesta básica, enquanto Mourad reconstrói a vida com receitas da família


Jamal e sua familia chegaram no Brasil há um mês – Pedro Kirilos / Agência O Globo

Após três aulas de Língua Portuguesa, o decorador sírio Jamal, de 57 anos, ainda não se sente à vontade para arriscar uma palavra no novo idioma. Jamal sequer sabia que no Brasil se falava português até desembarcar em Guarulhos, há um mês, com a mulher, a enfermeira Faise, de 50 anos, e os sete filhos. A família ficou perdida no aeroporto por horas até que um taxista os levou a um hotel que cobrou US$500 por uma diária. O mesmo taxista os devolveu ao aeroporto diante da negativa da família, e Jamal só saiu de lá depois de encontrar, por acaso, com um egípcio que falava árabe. Eles foram parar em um hotel barato no Brás. Em um quarto de dez metros quadrados, os nove passaram metade do seu tempo no Brasil. Atualmente ocupam uma sala, paga com dinheiro de doação. A comida, de cestas básicas que ganharam, é racionada.

— Tem horas que não entender nada do que se fala e não ter como ganhar o pão dá desespero — afirma.

Ele sustenta um sorriso no rosto, e se diz esperançoso “porque não tem a opção de desistir”. Seu maior desejo é que os filhos voltem a estudar. As duas mais velhas concluíram o ensino médio, embora não tenham documentos para comprovar porque fugiram às pressas, em meio a bombardeios.

 

— Ainda tenho a chave de casa — diz, sem saber se o lugar onde morou ainda existe.

Já o contador Khaldon Mourad, de 31 anos, tirou da mistura de castanhas e massa folhada a chance de reconstruir a vida. Quando a guerra estourou, há quase cinco anos, Mourad imaginava que seria resolvida rapidamente. Não foi. Há quase um ano e meio, percebeu que sua sobrevivência e a de sua família dependiam de uma saída drástica.

— Deixei para trás meu escritório, com seis funcionários, minha casa. Passei pelo Líbano e fui para a Jordânia. A única embaixada aberta era a do Brasil. Daqui eu sabia apenas algo sobre futebol — diz Mourad.

Ele aceitou empregos na indústria têxtil. Durante a Copa, vendeu camisetas do Brasil na rua. Até que se lembrou das receitas de doces e esfihas da família e começou a produzir. Aos poucos, montou uma estreita loja, em Pinheiros. O modesto estabelecimento virou ponto concorrido do bairro. O espaço foi batizado de Damascus. Com o dinheiro dos doces, Mourad custeou a vinda de 17 parentes, entre irmãos, sobrinhos e os pais. Há quatro meses, pôde trazer a noiva e se casar no Brasil. Ele não vislumbra perspectiva de voltar à Síria. Mas constata a realidade sem demonstrar pesar.

— Agora sou brasileiro — diz.

Da Síria ao Rio: ‘Meus filhos só brincavam dentro de casa’

Crianças nascidas durante a guerra civil encontram liberdade no Rio


Refugiados Sírios no Rio. Mohammad Najjar, Hind Najjar com os filhos Khaled e Nancy – Custódio Coimbra / Agência O Globo

O corre-corre das crianças se destaca no meio dos adultos. Entre os pequenos, dois deles são protagonistas. São os irmãos sírios Khaled Najjar, de 2 anos, e Nancy Najjar, de 4 anos, que pela primeira vez estão brincando de baixo da luz do sol. Depois de quase meia hora fazendo farra ao lado de outras crianças, em uma manhã de quarta-feira, Khaled diz que gostou mais do escorrega. Já Nancy pegou o lápis de cor e prefere rabiscar sem compromisso. Os dois estão sob olhares atentos dos pais, que aguardam na recepção da Cáritas Diocesana, uma casa branca, ao lado do Maracanã, responsável pela assistência aos refugiados no Rio. O pai é Mohammed Najjar, de 31 anos, e a esposa se chama Hind, de 29 anos. Ele é arquiteto, e ela uma economista. Mas, no momento, são uma das últimas famílias sírias que chegaram ao Rio, e pediram refúgio ao governo brasileiro, fugindo do horror da guerra.

— Meus filhos só brincavam dentro de casa. Para eles, não existia vida externa — conta Najjar, que veio com a família de Lataquia, cidade litorânea, a 350 quilômetros de Damasco, capital da Síria. — Em poucos dias no Rio, fizemos coisas inéditas em família, como andar de ônibus, ir ao mercado, e brincar em um escorrega. Não há futuro lá. Sobreviver não depende mais de você. É uma questão de sorte.

E de falta sorte Najjar não tem tem do que reclamar. Nos seus últimos dias na Síria, ele conta que da janela do escritório onde trabalhava, testemunhou o bombardeio de um prédio ao lado. O estampido, segundo ele, o derrubou da cadeira. Imaginando que o escritório poderia ser o próximo alvo, desceu pelas escadas e saiu correndo. Quando chegou em casa, disse para mulher que precisavam sair do país.

— Chegamos na Malásia em menos de uma semana. Na embaixada brasileira, pedi o visto para entrar no país. A prima da minha mãe mora no Rio, e ela que está me ajudando nesses primeiros dias. Vamos alugar um apartamento e quero arrumar um emprego. Desde que cheguei, só penso em construir uma vida no Rio. Meus filhos entendem árabe, mas já imagino vê-los falando português. O Brasil é minha nova nação.

Muito sírios também pensam assim. Segundo dados do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), órgão ligado ao Ministério da Justiça, 2077 sírios receberam status de refugiados do governo brasileiro de 2011 até agosto deste ano. Hoje, a comunidade síria de refugiados reconhecidos no Brasil é a maior do país, à frente, por exemplo, dos angolanos (1480) e congoleses (844). O órgão estima que 600 deles estão no Rio. Só neste ano, cerca de 100 desembarcaram no aeroporto do Galeão e solicitaram refúgio.

— É difícil identificar onde vivem cada um. Quando um Sírio chega ao Rio, ele já pode solicitar refúgio imediatamente. Assim que é atendido, ele recebe um protocolo e consegue alguns benefícios como tirar carteira de trabalho — diz Cândido Feliciano da Ponte Melo, membro do Conare. — O governo brasileiro, durante três meses, doa R$ 300 para cada estrangeiro. É o período que ele tem para pensar o que vai querer. Alguns desejam tentar entrar na Europa, outros conseguem emprego e permanecer no Brasil.

Melo lembra que a Cáritas firmou parceria com a Uerj para disponibilizar aulas de português aos refugiados. O objetivo é acelerar a adaptação no Brasil porque, segundo ele, um dos principais entraves para que mais estrangeiros permaneçam no país é não conseguir se comunicar.

— Como o número vem aumentando, estamos estudando uma metodologia que permita que o aprendizado seja mais rápido.

BRASIL DE PORTAS ABERTAS

Quase 10 mil quilômetros separam Brasil e Síria no mapa, mas o governo brasileiro vem mantendo uma política diferente da de muitos países europeus em relação a refugiados sírios. Em 2013, o Conare publicou uma normativa facilitando a concessão de vistos a imigrantes daquele país. Até o final deste mês, o acordo deverá ser renovado já que a crise humanitária na Síria voltou a ganhar projeção depois que a imagem de Aylan Kurdi, o menininho sírio de três anos de idade que morreu afogado no Mediterrâneo foi encontrado na costa turca, virou símbolo da tragédia.

 

— O Brasil acerta em recepcionar os Sírios porque continua com sua política de portas abertas. Desde a década de 1950, o país faz parte da Convenção Internacional de Refugiados, e sempre acolheu imigrantes que precisaram de refúgio — diz Marcelo Mello Valença, professor do Departamento de Relações Internacionais da Uerj. — No período dos Governos Militares, na América do Sul, chegaram vários sul-americanos. Depois, nos anos 1980, foram iranianos perseguidos por causa de religião. Angolanos e Congoleses vieram em seguida. Esse movimento é sazonal. E o que o país está fazendo com os sírios serve como exemplo.

História sobre fugas e horrores da guerra civil na Síria também são compartilhadas na paróquia São João Batista em Botafogo, na Zona Sul do Rio. O lugar foi montado pelo padre Alex Sampaio, nos fundos da igreja. Ali, vivem nove sírios, entre os 16 refugiados. Um deles é Khaled Fared, de 25 anos, que chegou ao Rio há três meses.

— Saí da Síria para tentar um dia montar uma família. No meu bairro moravam 20 mil pessoas. Hoje não chega nem a mil. Não tenho mais amigos, pois a maioria morreu. Meus pais continuaram lá. Tenho saudade da minha família. Queria que eles estivessem aqui comigo.

Fonte: O Globo

Candidatos a refúgio ficam no ‘limbo’ em sala de aeroporto

Entidades dizem que migrantes chegam a passar meses confinados em SP


Imigrantes no aeroporto de Cumbica, em São Paulo – Divulgação / Policia Federal

SÃO PAULO — Se eu voltar para o meu país, vou ser morto. Prefiro morrer aqui, não tenho nada nem ninguém para quem voltar — diz o nigeriano Jimoh Hammed Abiola, de 26 anos, em um inglês tão límpido quanto o pavor que se lê em seus olhos.

Abiola é cristão em um país destroçado pelo grupo terrorista islâmico Boko Haram. Em uma das centenas de ataques à bomba promovidas pelos extremistas, a família de Abiola foi pelos ares. E ele tomou um avião em fuga, até chegar ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.

Em uma sala de 200 metros quadrados, ladeada por cadeiras e com janelas de vidro pelas quais podem ser vistos aviões, Abiola e outros 20 homens se atropelam para tentar contar sua história. São quase todos negros, jovens, de diversos países da África. Em comum, a maioria tem o receio de voltar para casa por medo de morrer e o desconhecimento de quanto tempo passarão num limbo espacial e jurídico.

— Ninguém fala com a gente, dizem que não falam inglês. Eu preciso de ajuda — diz Abiola, observado por policiais cujo inglês não é fluente.

A sala à qual o GLOBO teve acesso na última quinta-feira é chamada de Conector, uma área de segurança internacional localizada no Terminal 3 do Aeroporto de Guarulhos, onde ficam, quase sempre só com a roupa do corpo, os que não puderam entrar no Brasil, os que foram impedidos pelas empresas aéreas de seguir viagem para outro país e os que não querem ou não podem voltar para seu país de origem.Ali, essas pessoas chegam a passar semanas e meses, sem advogado ou contato com a família e sob a vigilância da Polícia Federal, até conseguir seguir viagem ou pedir refúgio no Brasil. Sem toalha ou sabonete, muitos não tomam banho. O cheiro de suor que impregna a sala é motivo de chacota entre agentes.

Os migrantes do Conector são peças de uma disputa entre dois conceitos (e seus representantes): a segurança nacional e os direitos humanos. E expõem a delicada situação do Brasil para lidar com seu recente status de destino de refugiados. Apenas no ano passado, o país recebeu mais de 11 mil pedidos de refúgio.

— Já recebemos denúncias de agressão e de pessoas que ficam doentes sem acesso à medicação. O Conector é um espaço de violação dos direitos humanos. Muitas vezes essas pessoas são tratadas como invasoras e não como possíveis refugiadas— afirma Paulo Amancio, assessor jurídico do Serviço Franciscano de Solidariedade, que apoia refugiados.

Na última quinta-feira, o nigeriano Bulaji Olaiya, de 45 anos, retido no Conector havia dois dias, dizia sofrer de diabetes, sem poder ter acesso à insulina que estava na sua bagagem.

Abiola, que também completava seu segundo dia na sala, ainda não sabia como sensibilizar as autoridades para sua situação. Dizia estar em risco de morte, mas em nenhum momento havia mencionado a palavra refúgio. Tampouco escrito que queria ser um refugiado. Abiola desconhecia essa possibilidade, prevista pela lei brasileira desde 1997.

A Polícia Federal alega que não pode informar os migrantes sobre a opção de pedir refúgio, mesmo em casos em que claramente o instrumento poderia ser usado, como o de Abiola. Há casos de gente que, após levar semanas para descobrir que poderia pedir refúgio, escreveu um apelo em papel higiênico.

— O policial não precisa induzir a pedir refúgio, mas nada o impede de mostrar as opções legais. Eles usam a lógica da palavra mágica, a pessoa tem que acertar se não não vai entrar no país — afirma o Defensor Público da União Daniel Chiaretti.

‘A GENTE CUMPRE A LEI’, DIZ PF

Para a Polícia Federal, no entanto, as pessoas que ficam retidas no Conector não são “legítimas refugiadas”, mas pessoas que “saíram de países complicados” em busca de uma vida melhor, para tentar chegar aos Estados Unidos ou, “às vezes, até aliciadas para cometer crimes”. Sem conseguir entrar, elas usariam o artifício do refúgio como um “Plano B”.

— Eles chegam aqui sem visto e querem entrar. Não são como os sírios, que estão fugindo de uma guerra e pedem refúgio logo que chegam. Muitos dos que vão para o Conector nem querem ficar no Brasil, mas, como percebem que não vai ter outro jeito, apelam para o refúgio — diz o delegado Wagner Castilho, da PF, em Guarulhos.

Castilho afirma que é responsabilidade da companhia aérea que trouxe o migrante fornecer alimentação e que a polícia investiga o caso de um nigeriano que foi agredido por comissários de voo que tentaram reembarcá-lo à força de volta para a Nigéria, mas nega qualquer outro tipo de violação dos direitos humanos.

 

— A gente cumpre a lei. Não estamos coibindo a entrada nem maltratando ninguém. É só pedir refúgio que entra. Somos São Pedro do paraíso sem portões— diz Castilho. Um homem negro, jovem e sozinho aparentava nervosismo durante o embarque para Lagos, a maior cidade da Nigéria, no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). Seu comportamento e a mala de mão que ele levava chamaram a atenção de agentes da Polícia Federal, que encontraram quase quatro quilos de cocaína no forro da bagagem.

PF PRENDE 23 MULAS

Um homem negro, jovem e sozinho aparentava nervosismo durante o embarque para Lagos, a maior cidade da Nigéria, no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). Seu comportamento e a mala de mão que ele levava chamaram a atenção de agentes da Polícia Federal, que encontraram quase quatro quilos de cocaína no forro da bagagem.

O caso seria mais uma típica ocorrência em que uma mula — como são chamados os que transportam drogas para o tráfico internacional — é presa em flagrante. Mas os documentos do rapaz, um nigeriano, revelaram que ele era um dos milhares de solicitantes recentes de refúgio no Brasil.

A situação é nova e não é excepcional. Desde janeiro, a Polícia Federal conta ter prendido 23 estrangeiros que possuíam o protocolo do pedido de refúgio e tentavam, em São Paulo, embarcar com drogas para o exterior. Eles são 14% das mulas presas em flagrante este ano.

— Não estamos fazendo ilação. É um fato e nos chamou a atenção. Temos uma lei que salva vidas, mas um fato que se originou dessa lei é que muitos refugiados estão sendo cooptados pelo narcotráfico ou já vieram de seus países com a intenção de cometer crime— afirma o delegado Wagner Castilho.

DEMORA NA ANÁLISE DOS CASOS

Qualquer estrangeiro em território nacional pode pedir refúgio. Após fazer a solicitação, a pessoa recebe uma autorização provisória de permanência e tem direito a tirar carteira de trabalho e CPF. Cabe ao Comitê Nacional de Refugiados (Conare), órgão vinculado à Secretaria Nacional de Justiça, analisar o pedido e conceder ou não o status de refugiado.

O problema é que hoje o julgamento de cada caso leva mais de um ano para ser feito. Caso tenha o pedido negado, o migrante pode entrar com recurso. Desde 2012, porém, os recursos não são julgados. Hoje, há apenas cinco oficiais de elegibilidade, responsável pelas decisões, no órgão. A Secretaria Nacional de Justiça admite que a demora não é razoável e que haverá mudanças para acelerar o processo.

— A PF tem razão ao questionar o tempo de julgamento. Ele precisa ser diminuído, a demora fragiliza o instituto do refúgio — diz o defensor Daniel Chiaretti.

Segundo o delegado, as investigações apontam que as mulas foram cooptadas por quadrilhas nigerianas. E que as pessoas que passam pelo Conector têm o perfil de mulas:

— Elas estão vulneráveis, conseguem o protocolo de refúgio, mas têm pouca inserção social. São vítimas do tráfico.

DEFENSOR: PF USA PRISÕES PARA JUSTIFICAR CONECTOR

A divulgação pela Polícia Federal de casos de tráfico de drogas envolvendo solicitantes de refúgio provocou questionamentos entre autoridades e representantes da sociedade civil. As “mulas” que fizeram pedidos de refúgio representam 0,2% do total de solicitantes do ano passado.

— É um número irrisório. Qual é o propósito da PF de divulgar esse tipo de informação que pode disseminar grande preconceito contra os refugiados e nem é significativa sobre a realidade dessa população? — questionou Camila Asano, especialista em relações internacionais da Conectas, entidade de direitos humanos.

Para o defensor público Daniel Chiaretti, a intenção da polícia é legitimar suas ações, que ele considera “restritivas” em relação aos migrantes e refugiados:

— A PF faz uso dessas prisões para justificar a existência do Conector. Na prática, é a própria PF que está decidindo quem pode ou não pedir refúgio — afirma Chiaretti.

A Defensoria Pública da União, o Ministério Público Federal e as organizações de direitos humanos questionam o fato de que a Polícia Federal não assinou um convênio formulado no começo do ano que garantiria o acesso de defensores e assistentes sociais à área do Conector.

— A polícia está analisando ainda se vai assinar o convênio. Mas a Defensoria Pública e o posto humanizado da assistência social podem entrar quando quiser. Não sei por que eles não vêm — afirmou o delegado Wagner Castilho, da PF em Guarulhos.

Informado das declarações do delegado, o defensor público Daniel Chiaretti, disse que conseguiu ter a entrada autorizada no Conector apenas uma vez, depois de muita negociação, e que teve o acesso negado reiteradamente. E que, na única ocasião em que pode entrar, encontrou dois solicitantes de refúgio que não tinham sido encaminhados pela PF depois de vários dias retidos na sala.

— É mentira. É mentira que eu posso entrar. A polícia nunca permite a nossa entrada — afirmou Chiaretti.

Chiaretti questionou ainda o teor das informações passadas pela Polícia Federal em ofícios à defensoria. Na quinta-feira em que o GLOBO visitou o Conector e encontrou 21 pessoas, o defensor afirmou ter recebido um documento da PF informando que no espaço havia apenas um viajante indiano impedido pela companhia aérea de embarcar em férias para Port of Spain, a capital de Trinidad e Tobago. (Colaborou Tatiana Farah)

Fonte: O Globo
Brasil vira destino final de refugiados Jovens solteiros ainda são a maioria dos que buscam asilo no país, mas grupos de familiares são cada vez mais comunsAulas de português acolhem recém-chegados, que citam discriminação e dificuldades com a língua como maiores obstáculos no país adotivo Numa sala no centro de São Paulo, uma turma junta suas primeiras palavras em português para formar frases. “Onde você mora?”, “onde você come?”, “onde você dorme?”. “Onde” é o advérbio do dia, e eles aprendem verbos de uma nova língua para conjugá-los na nova vida. São refugiados vindos de países como Cuba, Colômbia, República Democrática do Congo, Camarões, Peru, Senegal, Etiópia e Somália.
Na turma do segundo horário, as nacionalidades não mudam muito. Mas, no meio dos adultos, estão um bebê colombiano de sete meses e uma serelepe menina de dois anos, nascida na República Democrática do Congo (ex-Zaire), enquanto os alunos, dentre eles seus pais, lêem frases em português.
Antes ponto de passagem ou paradeiro aleatório, o Brasil vem se firmando como destino final de refugiados.
O perfil dos que buscam o país também tem mudado lentamente nos últimos dois anos, dizem os envolvidos nas aulas de alfabetização em português às quais são enviados boa parte dos cerca de 30 a 40 solicitantes de refúgio que, segundo o diretor da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, Ubaldo Steri, chegam por mês a São Paulo.
De acordo com Denise Collus, assistente social do Sesc onde são dadas as aulas, tem aumentado o número de famílias que procuram a instituição, em geral indicada pela Cáritas.
Apesar de não haver um número oficial registrado pelo Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), que coleta apenas dados individuais, as aulas servem como termômetro de um quadro mais amplo. “Se eles [o Sesc], que estão na ponta, percebem a mudança, esse dado deve proceder, sim”, diz o assessor do escritório brasileiro do Acnur, Luiz Fernando Godinho.Opção
Essas famílias chegam ao país tendo-o como destino e não apenas como um lugar de passagem ou como erro de itinerário -caso comum entre jovens africanos que vêem como clandestinos em navios.
Professora das turmas de português, Rosângela Portela sublinha a diferença. “Quando comecei a dar aula, há quatro anos, o perfil dos alunos era de pessoas que estavam de passagem”, conta. “O país tem se tornado opção com mais freqüência, principalmente neste ano”, relata a professora, que ilustra o fenômeno com o caso de outra mãe colombiana.
Já a mãe do bebê de sete meses, que prefere não se identificar, diz que, apesar da ajuda de instituições para refugiados, eles têm “vivido mal”. “Nós não quisemos aceitar albergues, porque ele [o bebê] esteve doente e é muito pequeno. Estamos em um quarto, nós e outra família”, relata a refugiada, que foi reassentada após ter passado pelo Equador, onde a família foi ameaçada.
A colombiana, que tem 20 anos e estudava direito, entrou como voluntária num serviço de direitos humanos e conheceu o pai do bebê, de 24.
“Ele já havia tido problemas com guerrilhas e paramilitares. Morava na Amazônia, na região de Putumayo. Houve ameaças de morte e bombas”, conta, segurando no colo o bebê.
“A chegada aqui foi muito difícil, porque falam outra língua. As pessoas desconfiam muito, pensam que somos delinqüentes. Ficam desconfiadas até para dar informações na rua.”
Enquanto o número de famílias cresce, os homens vindos sozinhos da África ainda são o grupo mais representativo dos refugiados no Brasil. “Quando saí do Congo, não sabia que viria para cá”, conta um refugiado que não quer se identificar.
“Não tenho emprego. Já fiz entrevistas, mas não houve respostas”, diz o refugiado, de 36 anos, que estudou pedagogia na República Democrática do Congo e planeja dar aulas de francês no Brasil, onde vive há oito meses. “Espero que consiga voltar. Mas não sei do futuro. Depende de Deus”, diz.
A dificuldade de emprego é ressaltada pelo peruano Aldo, 42. “Não há muitas oportunidades para refugiados no Brasil. Deveria ter algo na TV e nos jornais explicando aos empregadores o que é um refugiado, que não é uma pessoa má, é alguém que sai do seu país porque sua vida está em perigo.”
Para Aldo, há diferença no tratamento de refugiados que vêm de países reconhecidamente em guerra e quem foge de perseguições mais pontuais.
O diretor da Cáritas afirma que a diferença que existe é para “pessoas que o Acnur chama “vulneráveis”, com problemas, menores, mulheres, famílias e idosos. O tratamento é igual para todos, não há distinção de causa nem de situação.”Lista de extermínio
Com a família, Dragica Sebescen, 46, deixou a ex-Iugoslávia em 1992 rumo a um país que ficasse “o mais longe possível” da guerra da qual fugia. O português foi aprendido com dificuldade em casa, ao se separar do marido, quatro anos depois. “Eu precisava trabalhar. Pedi às minhas filhas para só falarem comigo em português.”
Dragica, nascida na cidade sérvia de Pancevo, a 16 km de Belgrado, veio para SP com o ex-marido, húngaro, e as três filhas, nascidas no que hoje é a Croácia, ao saber que a família estava em lista de extermínio.
“Vou me naturalizar”, diz ela, que dá aulas de modelagem de roupas, está terminando a pós-graduação em docência e acaba de financiar um apartamento.
Dragica afirma não se sentir mais uma refugiada, mas ainda hesita sobre ser brasileira. “Me chamaram outro dia para ir a um evento, aí tocou o hino [brasileiro]. Pensei: eu canto o hino ou não canto?”, pergunta, reiterando que o conhece de cor. “É complicado. Aí eu chorei.”
Se a língua é o maior muro entre os refugiados e a nova vida, para o angolano Diamantino Feijó -ou MC Diamond Dog- o que poderia aproximar Angola e Brasil esbarrou no racismo. “Eu me deparei com um preconceito escancarado, foi “trash”. Não me lembro de sofrer preconceito por ser refugiado ou por ser angolano. Mas sim por causa da cor da pele.”
Há sete anos no Brasil, após se formar em jornalismo, na UFMG, em Belo Horizonte, Feijó se mudou para São Paulo há oito meses e, há dois, conseguiu emprego, como designer.
“É difícil, mas o Brasil também tem os seus problemas. Eu jamais iria querer estar aqui para ser mais um problema”, diz.
Sobre voltar ao seu país, que, após 27 anos de conflito, começou a ver paz em 2002, ele hesita. Cita um poema do primeiro presidente de Angola, Agostinho Neto (1922-79), chamado “Havemos de voltar”. Mas diz que, mesmo assim, quer pedir o visto permanente do Brasil, ao qual já tem direito.
Fonte: Uol

Rejeitados pela Europa, refugiados veem Brasil como destino seguro

Vinte de junho é o Dia Mundial do Refugiado. Uma ocasião para lembrar que, atualmente, guerras, perseguições e violações de direitos humanos obrigaram milhões de pessoas a deixar suas vidas para trás em busca de segurança e paz. Um drama que está no centro dos debates políticos internacionais e traz à tona as dificuldades das nações lidarem com um problema tão árduo. Enquanto a Europa se empenha em fechar cada vez mais as fronteiras, o Brasil vem recebendo um número crescente de refugiados com uma política elogiada pelas grandes instituições da área.
Nos últimos cinco anos aumentou em 2.000% o número de refugiados que procuraram o Brasil. Se em 2010 a média era de 500 a 600 pedidos por ano, hoje são 12 mil e, apenas no primeiro semestre de 2015, já foram feitas mais de 6.300 solicitações.

Andrés Ramirez, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), analisa porque o Brasil tem todas as condições para dar um bom acolhimento. “O Brasil é um país que, se comparado a outros do mundo que recebem refugiados, está muito bem, economicamente. A gente não tem como comparar o Brasil com os países da África ou do Oriente Médio. O Brasil é a sétima economia do mundo. E mesmo se o número de chegadas está aumentando, ainda é pequeno se compararmos com outras regiões do mundo e com a população brasileira, com a economia e o tamanho geográfico”, diz Ramirez.

Política generosa que requer mais estrutura

No mapa geopolítico global, Ramirez contextualiza o Brasil e a Europa em termos de acolhimento de refugiados. Mesmo admitindo que é complicado comparar as duas regiões, ele constata que a situação na Europa é muito grave e que a política para os refugiados é cada vez mais restritiva, ao contrário da brasileira, que é bem generosa.

O problema, segundo o diretor da Acnur no Brasil, é a falta de estrutura do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), que tem que ser fortalecido, e as autoridades brasileiras sabem disso. “A situação de chegada de refugiados está piorando e isso vai continuar, e só vai aumentar”, observa Ramirez, analisando que as crises mundiais, a política restritiva da Europa e a visibilidade do Brasil no plano internacional formam um conjunto que nos faz entender porque o país atrai cada vez mais refugiados.

De onde vêm os refugiados do Brasil?

Marcelo Haydu é um dos fundadores e diretor executivo do Instituto de Reintegração do Refugiado (Adus), sediado em São Paulo, que apoia os recém-chegados na sua adaptação ao novo país. Ponte entre refugiados e empresas, o Instituto oferece aulas de português e cursos profissionalizantes, e apoia administrativamente os que ainda não falam o português.

“As pessoas chegam de 81 países e as que mais nos procuram vêm da Síria, República Democrática do Congo, Mali, Nigéria, Costa do Marfim, Palestina… Esses são os que mais nos procuram”, comenta, concordando com a Acnur no que se refere à falta de estrutura geral para se lidar com a crescente solicitação de refúgio.

“O Brasil não se preparou para a entrada dessas pessoas. São Paulo começa a se movimentar nesse sentido, foram criadas algumas estruturas de acolhimento e albergues, postos de saúde, mutirões com empresas para tentar que contratem os refugiados”, explica Marcelo Haydu, concluindo que tudo isso ainda está muito aquém do que pode ser feito.

Fonte: GGN

Situação de imigrantes em Israel

07/06/2015

Um relatório da ONG Human Rights Watch (HRW) diz que Israel está obrigando ilegalmente quase 7 mil imigrantes da Eritreia e do Sudão a deixar o país.

Segundo a ONG, o governo israelense vem negando solicitações de asilo a esses cidadãos, além de prendê-los irregularmente.

No início do ano, cidadãos africanos que solicitavam asilo em Israel realizaram protestos sobre o tratamento a qual eram submetidos.

Israel diz que suas políticas sobre imigrantes ilegais e refugiados respeitam as leis internacionais.

O governo do premiê Binyamin Netanyahu reitera que muitos africanos não são solicitantes de refúgio, mas imigrantes econômicos que veem Israel como um destino atrativo por se tratar de um país desenvolvido e onde eles podem encontrar emprego.

‘Invasores’

Em 2006, eritreus e sudaneses começaram a chegar a Israel em grandes números por meio da Península do Sinai, no Egito.

Segundo estatísticas oficiais, de 2006 a dezembro de 2012, 37 mil eritreus e 14 mil sudaneses já haviam entrado no país.

A HRW diz que, nos últimos oito anos, as autoridades israelenses vêm empregando várias medidas para incentivá-los a abandonar Israel.

As medidas incluem “detenção por prazo indeterminado, obstáculos para acessar o sistema de asilo de Israel, rejeição de 99,9% de solicitações de asilo de eritreus e sudaneses, políticas ambíguas na concessão do direito do trabalho, e acesso restrito ao sistema de saúde público”, alega o relatório.

Em setembro de 2014, a Suprema Corte de Israel considerou ilegal uma emenda a uma lei anti-imigração que possibilitou às autoridades prender por prazo indeterminado indivíduos que entrassem ilegalmente no país.

Em retaliação à decisão judicial, o Knesset, o Parlamento de Israel, aprovou outra emenda à lei. Ela estabeleceu um centro de detenção no deserto de Negev (sul de Israel) para onde seriam levados os supostos “invasores”.

Desde então, centenas de eritreus e sudaneses foram obrigados a se apresentar no local, onde vivem em condições que, segundo a HRW, violam as leis internacionais sobre prisões arbitrárias.

As autoridades israelenses alegam que os imigrantes não estão detidos e podem sair por algumas horas durante o dia.

No entanto, eles são obrigados a se apresentar três vezes por dia e dormir lá durante a noite. O único meio de deixar a penitenciária seria ou ter a solicitação de refúgio aprovada pelo governo ou abandonar de vez o país.

Alta rejeição

Em fevereiro de 2013, o governo de Israel permitiu a cidadãos eritreus e sudaneses a apresentar pedidos de asilo em números significativos. No entanto, em março deste ano, autoridades revisaram apenas mais de 450 casos, e a taxa de rejeição beirou os 100%, informou a HRW.

“Destruir a esperança do povo de buscar proteção ao forçá-los a um beco sem saída e então alegar que eles estão voluntariamente deixando Israel é claramente uma atitude abusiva”, afirmou Gerry Simpson, autor do relatório da Human Rights Watch.

“O governo de Israel não dá qualquer outra alternativa a eritreus e sudaneses senão viver no medo de passar o resto de seus dias trancafiados em uma prisão no deserto ou correr risco de ser detido a qualquer momento ou mesmo sofrer abusos quando voltarem para casa”.

A HRW diz que Israel está violando o princípio internacional de ‘não-repulsão’, que proíbe países de devolver refugiados e solicitantes de asilo aos países onde suas vidas ou liberdade estejam sendo ameaçadas.

Em resposta ao relatório, o ministro das Relações Exteriores de Israel afirmou, por meio de um comunicado, que o país “trata imigrantes ilegais entrando em seu território de acordo com a lei internacional, incluindo o tratado das Nações Unidas sobre refugiados”.

“Imigrantes ilegais podem apresentar um pedido de solicitação de refúgio e também podem apelar da decisão tomada pelas autoridades de Israel em relação a seu status aos tribunais do país”, acrescentou a nota.

O comunicado informa ainda que os imigrantes “não foram expulsos” e aqueles que deixaram o país o fizeram “por sua própria vontade”.

Armazéns de crianças africanas’ geram polêmica em Israel

Organizações de direitos humanos dizem que creches podem ter até 100 crianças em más condições de higiene

Dentro do que pode ser um abrigo antibombas transformado em apartamentos em Tel Aviv, o centro financeiro de Israel, há um espaço escuro, úmido e malcheiroso. Aqui, música é ouvida a todo o volume para abafar o choro de um grupo que, algumas vezes, chega a 100 crianças, a cargo de apenas duas babás.

É neste local que imigrantes africanas oferecem serviços de creche a preços módicos para milhares de outros africanos que se refugiaram em Israel.

Estes “armazéns de bebês” – também chamados de “estacionamentos de crianças” – têm sido denunciados pela imprensa local e por organizações de direitos humanos, por conta da superlotação e pelas condições precárias de operação.

Há dezenas de estabelecimentos do gênero em Tel Aviv. No início do ano, cinco bebês morreram em creches improvisadas em apenas um mês e meio.

A organização beneficente Unitaf, que patrocina projetos para o cuidado de menores sem cidadania israelense em Tel Aviv, criou creches e centros para crianças em idade pré-escolar, mas diz que ainda é preciso muito mais para atender à demanda dos refugiados.

Sem direitos

De acordo com a ONU, Israel abriga cerca de 53 mil refugiados africanos, a maioria vindos de forma ilegal pela fronteira com o Egito. Pelo menos 36 mil seriam da Eritreia e 14 mil, do Sudão.

Eles buscam o país porque é o único da região com um alto padrão de vida e aonde é possível chegar caminhando.

No entanto, Israel poucas vezes lhes concede asilo político, deixando a maioria deles em situação vulnerável, à margem da sociedade.

Israel tem cerca de 53 mil refugiados africanos, a maioria deles sem cidadania e acesso à seguridade social

Para ganhar a vida, os imigrantes trabalham longas horas em diversos empregos, algumas vezes em locais muito longe de onde vivem. Por isso, precisam deixar seus filhos aos cuidados de outros.

Como muitos não podem pagar creches autorizadas pelo governo com o pouco dinheiro que recebem, recorrem aos “armazéns”, cujas babás não têm o treinamento nem a equipe necessária para cuidar adequadamente dos menores.

Leia mais: Israel ‘expulsa’ imigrantes vindos da África, diz ONG

Iris Alter, da Unitaf, disse à BBC que alguns bebês chegam a ficar horas dentro de berços em condições insalubres e sem os acessórios apropriados.

“Só podemos imaginar o efeito adverso que essas babás podem ser sobre o desenvolvimento destas criaturas”, afirma.

De acordo com Alter, há falta de estímulo ou contato físico e, muitas vezes, as crianças veem televisão o dia inteiro. Também não é possível alimentar a todos e muitos sofrem de má nutrição.

“Normalmente deve haver uma babá para cada três a seis crianças e ela deve ser supervisionada por outro profissional. Mas nestes lugares pode haver uma, duas ou, no máximo, três, encarregadas de 20 a 50 bebês”, diz Alter.

Única alternativa

Alter explica que, em Israel, não há educação nem cuidado público para crianças até os três anos de idade.

Mesmo os cidadãos israelenses que têm filhos pequenos e precisam trabalhar precisam encontrar uma solução privada. Mas, enquanto eles podem pagar creches privadas ou contar com a ajuda de seus pais, os imigrantes sem cidadania tampouco têm acesso à seguridade social.

“Muitas vezes o pai ou a mãe ficam sós porque seu cônjuge foi deportado e eles não sabem ou não aprenderam a cuidar de crianças muito novas”, diz.

Creches de africanas têm até três babás para cuidar de 20 a 50 crianças

As mulheres que se oferecem para cuidar dos menores são trabalhadoras imigrantes, geralmente de Gana, que também tentam ganhar a vida.

Para pagar seus aluguéis, comer e mandar algum dinheiro para a família em seu país de origem, acabam tentando administrar muitos bebês, mesmo sem preparo adequado para isso.

“Elas não fazem isso de forma criminosa, nem para se aproveitarem da situação. É o resultado da pobreza e da falta de oportunidades”, afirma Alter.

Apesar de serem, de modo geral, anti-higiênicas e mal cuidadas, estas creches sem licença não são completamente ilegais. Mesmo assim, não contam com qualquer tipo de supervisão.

As autoridades locais não as fecham porque são a única alternativa econômica para as famílias sem documentos.

“É preciso apresentar outra solução. Se fecham uma creche, imediatamente abrem outra sem que soubéssemos onde.”

A Unitaf afirma que está tentando fazer com que as mulheres que administram estas creches clandestinas sejam transferidas para centros bem equipados e administrados pela prefeitura, em que elas poderão ter capacitação, apoio e supervisão para realizar seu trabalho.

Fonte: BBC

ONU cobra missão de resgate de imigrantes fugindo da Síria e Àfrica

17/02/2015

Ação humanitária na mira da violência em zonas de conflito

Escalada de ataques contra trabalhadores prejudica assistência

Mais de cem caminhões conseguiram entregar, na semana passada, suprimentos em três cidades sírias sitiadas: os cercos, tanto do governo quanto da oposição, estavam matando populações de fome – LOUAI BESHARA / AFP/11-1-2016

Eles são a última esperança de assistência médica ou de provisão de alimentos, água e itens básicos para milhões de pessoas em zonas conflagradas. Porém, estão sendo impedidos de cumprir esta missão — os últimos anos foram os mais violentos para trabalhadores humanitários, com a maior quantidade de mortos, feridos e sequestrados. Os motivos: além do agravamento dos quase cinco anos de guerra civil na Síria e uma escalada do conflito no Afeganistão, em 2013, a dinâmica dos ataques por todos os lados envolvidos foi alterada. Segundo lideranças de algumas das principais organizações de socorro do mundo, áreas civis têm sido alvejadas indiscriminadamente.

De acordo com a Base de Dados da Segurança do Trabalhador Humanitário (AWSD, na sigla em inglês), uma das principais fontes utilizadas pela ONU, por governos, ONGs e jornais, os anos de 2013 e 2014 foram os mais brutais (a série começa em 1997). A AWSD revela que houve mais mortes de funcionários de assistência apenas no biênio 2013/14 — 276 ao todo — do que de 1997 a 2002, quando, num período de seis anos, morreram 229 trabalhadores humanitários.

Ação humanitária na mira da violência em zonas de conflito

Número de vítimas dobra

A situação piora em relação aos feridos: 266 em 2013/14, contra 197 ao longo dos primeiros oito anos da série; e fica mais grave sobre sequestros: 261 casos, em 2013/14, contra 197 nos nove primeiros anos. Todos os tipos de ataques — tiros, explosões, agressão corporal e raptos — aumentaram nos últimos três anos do levantamento em comparação com a primeira década pesquisada. Diretores de organizações observam que, ao mesmo tempo, houve um aumento constante na assistência. Mas, segundo a AWSD, a partir de 2007, o número de vítimas praticamente dobra em relação aos anos anteriores, com picos registrados em 2013 e 2014.

— No Iêmen, alvos civis estão sendo bombardeados: não que seja deliberado, mas são ataques muito intensos — afirma o diretor da Oxfam no Reino Unido, Mark Goldring, que lidera o trabalho humanitário mundial da organização.

Homem iemenita é visto em meio aos escombros de um depósito depois de ter sido alvo de ataques aéreos realizados pela coalizão liderada Arábia na capital Sanaa – MOHAMMED HUWAIS / AFP

Afeganistão: o mais perigoso

Segundo a Organização Mundial da Saúde, apenas no Iêmen a escalada do conflito já provocou a destruição total ou parcial de cerca de 40 hospitais e dez policlínicas. Goldring explica que, em 2015, o objetivo da Oxfam era assistir um milhão de pessoas no país. Conseguiram alcançar cerca de 400 mil.

— Você pode até pensar que foram muitos atendimentos, mas 600 mil ficaram desassistidos — enfatiza. — É um dos piores momentos para trabalhadores humanitários. Hoje há mais lugares onde não se consegue chegar. Não há negociação com milícias ou governos. Trabalhar em áreas da Síria controladas pelo Estado Islâmico é impossível. A maior parte da comunidade internacional saiu do Iêmen.

Com 454 ataques no total, segundo a AWSD, o Afeganistão é o lugar mais perigoso para o trabalho humanitário, seguido de Sudão (236) e Somália (216). O levantamento faz ainda uma perversa constatação: antes da guerra civil, de 1997 a 2010, a Síria jamais registrou qualquer incidente com funcionários de assistência. Desde 2011, quando o conflito estourou, o país já conta 92 ataques e ocupa, agora, o quinto lugar entre os mais truculentos para os trabalhadores. Diretores das organizações são unânimes em dizer que a Convenção de Genebra e o direito internacional, que buscam mitigar incidentes com civis, estão sendo desrespeitados.

Funcionários da Médicos Sem Fronteiras foram feridos no bombardeio de caças dos EUA ao hospital da ONG, em Kunduz, no Afeganistão – AP

— Onde antes éramos vistos como imparciais e neutros, agora somos considerados alvos “legítimos” — enfatiza o diretor internacional de ajuda humanitária da ActionAid, Richard Miller, que relata a perda de sete colegas, todos no Afeganistão.

Ele explica que, no Afeganistão, na Síria e no Sudão do Sul, a ajuda é impedida de chegar:

— Com guerras cada vez mais complexas, a questão da assistência, da entrega e de quem recebe suprimentos está cada vez mais politizada. Infelizmente, a ajuda tornou-se arma de guerra.

O médico Paulo Reis, de 44 anos, da ONG Médicos Sem Fronteiras, voltou há dois meses do Iêmen. Com 11 anos de trabalho em campo, conta que um dos momentos mais complicados foi um bombardeio contra um banco na cidade de Laskarka, no Afeganistão, na rota que a equipe dele usava:

— Funcionários nacionais ficaram feridos sem gravidade. Foi pouco depois do horário em que a gente costumava passar — lembra Reis. — Em geral, os alvos não são civis, mas se os objetivos militares estão numa área civil, tudo é bombardeado. Isso é o pior, pois atinge crianças e mulheres, que nada têm a ver com o conflito.

Com dez anos de trabalho em campo, o diretor adjunto de Operações do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), Regis Savioz, de 48 anos, já atuou no Afeganistão, no Sudão do Sul e na Faixa de Gaza, durante a Segunda Intifada:

— Em Gaza, eram confrontos intensos: sentia a pressão da guerra sobre os ombros. Ao mesmo tempo, éramos a esperança das pessoas — recorda Savioz. — Hoje, nada é mais frustrante do que saber que não conseguimos prestar assistência a quem precisa desesperadamente de ajuda.

‘Atacam tudo pela frente’

A presidente da MSF, Joane Liu, fala sobre hospital bombardeado pelos EUA e banalização de ataques a civis.

Dezenas de hospitais foram bombardeados na Síria, Iêmen e Afeganistão. Não há mais distinção entre alvos civis e militares?

Na Síria, em março, completam-se cinco anos da guerra, com indiscriminados e frequentes bombardeios a instalações civis. No Iêmen, o mesmo: ataques contra áreas civis densamente povoadas, incluindo hospitais. Em Kunduz (Afeganistão), o hospital da MSF foi repetidamente bombardeado por uma hora e meia, apesar de informarmos as coordenadas por GPS. Na Síria e no Iêmen, há um cenário de guerra total, onde tudo é alvejado: mercados, hospitais e até casamentos.

O hospital da Médicos Sem Fronteiras, em Kunduz, no Afegnistão, arde após bombardeio dos EUA – AP / 3-10-2015

As organizações humanitárias se tornaram alvos em potencial?

Parece haver um número crescente de conflitos em que hospitais estão sob ataque. Não são alvos específicos, mas parte de uma dinâmica de guerra total, onde se ataca tudo o que há pela frente. Acontece cada vez mais, regularmente, e parece haver uma espécie de aceitação disso. É a minha maior preocupação: que isso se torne o novo normal. Eventos que se repetem e acabam se banalizando. Como na Síria, no Iêmen e no Sudão do Sul. Parece ser a normalidade ter civis sob ataque. Existem regras para a guerra, que estão ancoradas na Convenção de Genebra.

O que espera do governo dos EUA sobre o ataque ao hospital da MSF em Kunduz?

Só tivemos acesso ao comunicado do general Campbell. Basicamente, afirma que foram erros em cascata: falhas humanas, técnicas e de procedimento. Disseram que foi um erro, mas não o que levou aos erros. As informações não são tranquilizadoras. Não há, hoje, garantias de que aqueles erros não vão se repetir.

Como permitir que trabalhadores humanitários sigam atuando em zonas de conflito?

É preciso uma reafirmação geral da proteção e das salvaguardas de acesso a cuidados médicos em zonas de guerra. Não vamos ter de volta a vida dos nossos colegas, dos nossos pacientes. Eles se foram, e nós estamos de luto. O que queremos é a certeza de que populações civis tenham acesso a cuidados de saúde em áreas de guerra. Não se pode atacar hospitais, pessoas feridas que buscam por cuidados médicos. Todos sabemos que, quando se está doente, ou seus pais estão doentes, quando se está convalescendo, a última coisa que você quer que aconteça é uma bomba caindo na sua cabeça.


A União Europeia deve montar uma operação de busca e resgate de larga escala para evitar maiores tragédias com imigrantes no Mediterrâneo, disse o chefe do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) nesta quinta-feira.

António Guterres se pronunciou depois que 300 pessoas morreram tentando cruzar o mar que separa a África da Itália em Fevereiro de 2015, aumentando a pressão para que a Europa amplie uma operação de fronteira que carece de um mandato claro para salvar vidas.

“Não pode haver dúvida, depois dos acontecimentos desta semana, que a Operação Triton (da Europa) é um substituto assombrosamente inadequado à italiana Mare Nostrum”, disse Guterres em um comunicado.

A operação italiana foi abandonada depois da acusação de que a campanha intensa de busca e resgate incentiva a imigração. A Triton se concentra mais na proteção das fronteiras.

“O foco deve ser o salvamento de vidas. Precisamos de uma operação de busca e resgate robusta no Mediterrâneo Central, não só uma patrulha de fronteira”, disse.

Imigrantes e pessoas à procura de asilo oriundas da Síria e da África Subsaariana vêm cruzando o Mediterrâneo, muitas vezes a partir da Líbia, a bordo de botes infláveis em plena severidade do inverno, e suas mortes representam um início precoce para a temporada de imigração , disseram agências humanitárias.

Se a Europa não implementar uma operação mais ampla, “é inevitável que muitas pessoas mais morram tentando alcançar a segurança na Europa”, afirmou Guterres.

Fonte: Gazeta do Povo e O Globo

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