Noivas fazem prova do vestido para se casarem com detentos no Rio

Noivas de presos fizeram prova de vestido
Noivas de presos fizeram prova de vestido Foto: Ana Branco

“Dizem que é o vestido que escolhe a noiva”, devaneia a costureira enquanto prega botões no dorso de Tamiris dos Santos, de 24 anos. Durante a prova da roupa, a jovem aproveita para perguntar sobre a decoração e o bolo da cerimônia. Descobre que haverá flores e até tapete vermelho. Com um resignado sorriso, diz que será uma vitória selar o matrimônio na Penitenciária Lemos Brito, em Bangu, onde o noivo está preso desde abril de 2015, por homicídio qualificado. Em pouco mais de um mês, o espaço onde acontecem as visitas no presídio será palco de um casamento coletivo. Ao todo, serão 15 casais.

As noivas experimentaram seus vestidos na última sexta-feira, em uma casa na Taquara, onde fica a sede da ONG Resgate Coração Solidário, que organiza a cerimônia. Daqui a duas semanas, será a vez de os homens provarem seus ternos, dentro da cadeia. As roupas, tanto as dos homens quanto as das mulheres, vêm de doação, assim como os doces e elementos decorativos que darão um tom festivo ao ambiente frio e cinzento.

— Para mim, é uma nova esperança. Espero que ele saia dessa vida e a gente possa recomeçar tudo do zero — diz Tamiris, que ainda terá de esperar nove anos até o futuro marido ganhar o semiaberto.

A auxiliar administrativa Ilka Ferraz, de 34 anos, admite que não imaginava o grande dia dessa forma. No entanto, se fia na certeza de que o casamento trará o peso da responsabilidade para o noivo, preso desde 2014, por roubo majorado.

— Sempre quis casar, porque tive criação evangélica. Não digo que pensava em uma festa, mas nunca imaginei que fosse acontecer lá dentro do presídio. As pessoas próximas me apoiaram, mas senti preconceito de parentes distantes. Para criticar, tem um monte de gente — lamenta.

Tamiris foi uma das que fez a prova de vestido
Tamiris foi uma das que fez a prova de vestido Foto: Ana Branco

 

Dalvina Moreira, coordenadora da ONG que organiza cerimônias desde 2003 no sistema prisional do estado, defende que o casamento facilita a ressocialização.

— O casamento é uma das primeiras instituições sociais. Acaba sendo uma base estrutural para trazer esse preso de volta para a sociedade — explica.

O objetivo da ONG é proporcionar, dentro do presídio, um casamento que seja o mais parecido possível quanto os que acontecem do lado de fora. A decoração inclui flores e pedaços de tecido branco que se despendem das pontas dos bancos, formando um corredor central, por onde a noiva desfilará em cima de um tapete vermelho. Além do registro civil, haverá um pastor para fazer a cerimônia religiosa.

Será uma bênção, literalmente, para Priscila Diniz, de 30 anos, cujo noivo está preso desde 2012, por homicídio qualificado.

— Ele está na igreja agora e atrapalha o fato de não sermos casados. Agora estaremos com tudo certinho perante a lei de Deus — comemora.

Clane Pereira Oliveira, de 35 anos, não conhecia o futuro noivo antes de ele entrar no sistema prisional. Ela se sensibilizou ao ouvir de um amigo, recém-saído da cadeira, a história de um preso que tinha ficado viúvo e não havia mais ninguém para se corresponder. Clane passou a trocar cartas com o detento, que está há oito anos atrás das grades, por homicídio.

— Durante seis meses nos correspondemos por carta e começamos a ficar dependentes um do outro. Quando nos conhecemos pessoalmente, na visita, foi um momento mágico. Não nos desgrudamos mais. Meus parentes me chamaram de doida, mas a gente se ama – diz.

A Secretaria estadual de Direitos Humanos ajuda na articulação das ONGs junto às esferas governamentais, buscando gratuidade nas documentações e facilitando a burocracia. Para o secretário Átila A. Nunes, as uniões podem ser um incentivo para que os detentos tenham uma boa conduta ao deixar o sistema.

— O objetivo dessa ação é constituir um núcleo familiar que será um incentivo para o egresso do sistema se reintegrar da melhor forma possível, não só buscando uma recolocação no mercado, mas criando vínculos que o incentivem a ter uma boa conduta.

Fonte: Extra

STJ nega liberdade a mãe de quatro crianças condenada por furtar ovos de Páscoa

Filhos estão entre os mais atingidos, seja pela ausência do pai ou mãe, seja pelo estigma associado à cadeia Foto: Jorge William 30-01-2017 / Agência O Globo

 

O ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Nefi Cordeiro negou liberdade a uma mãe de quatro crianças condenada a três anos, dois meses e três dias por furtar ovos de Páscoa e um quilo de peito de frango. Ela vive com seu bebê recém-nascido numa cela lotada da Penitenciária Feminina de Pirajuí, em São Paulo.

A Defensoria Pública de São Paulo havia pedido o habeas corpus na última sexta-feira, com os argumentos de que a sentença era desproporcional à tentativa de furto e de que Maria* é mãe de quatro crianças — de 13, 10 e 3 anos de idade, além de bebê de 1 mês que está com ela na penitenciária, mas que será separado da mãe ao completar 6 meses.

Nesta semana, EXTRA mostrou que a sentença de Maria* supera a pena de ao menos sete condenados na Lava Jato . Uma desproporção do sistema penal que afeta toda a família: desligados do convívio diário com a mãe, os quatro menores crescem separados também dos irmãos

Para a defensora Maíra Coraci Diniz, a extensão da pena da mãe é “absurda”, ao se considerar o caráter pouco impactante e lesivo do crime. Diante disso, ela acionou o STJ para pedir a atipicidade material da conduta (anulação por ser crime insignificante), a readequação da pena ou a prisão domiciliar, garantida pela lei às mães responsáveis por filhos menores de 12 anos.

Relator da ação, Cordeiro não enxergou “evidente constragimento ilegal” que justificasse a concessão da liminar de soltura de Maria*. A decisão foi publicada na manhã desta quinta-feira e consta no acompanhamento processual da Corte. O habeas corpus, segundo ele, é medida excepcional.

“Esta não é uma situação presente, onde as pretensões de absolvição por aplicação do princípio da insignificância, readequação da pena ou determinação de que a condenação seja cumprida em prisão domiciliar são claramente satisfativas”, escreveu o ministro.

Cordeiro manteve Maria* em regime fechado por “não vislumbrar a presença dos requisitos autorizativos da medida urgente”. Não haveria suficiente base legal para concretizar o direito pleiteado pela Defensoria Pública, na avaliação do relator.

“A admissão de circunstâncias judiciais gravosas ao réu incidente faz admitir como possível a fixação do regime prisional fechado, devendo ser oportunamente analisado o pleito pelo colegiado”, destacou Cordeiro, ao indeferir a liminar.

 

Detenta do presídio Talavera Bruce com seu filho recém-nascido
Detenta do presídio Talavera Bruce com seu filho recém-nascido Foto: Simone Marinho 11-11-2013 / Agência O Globo

 

O CASO

Maria* foi presa em flagrante, há dois anos, por furtar produtos de um supermercado de Matão, em São Paulo. Permaneceu reclusa por cinco meses, até que um juiz concedeu a liberdade provisória. Condenada em primeiro grau, ela teve a sentença mantida em segunda instância e voltou ao cárcere em novembro de 2016, grávida. A detenta deu à luz no último 28 de abril e vive com o filho em uma cela, cuja capacidade é de 12 pessoas, ao lado de outras 18 lactantes.

Uma das duas mulheres que cometeram o furto com Maria já recebeu liminar favorável.

O caso de Maria* levanta debate sobre a Justiça — que garantiu a liberdade à outra mulher presa no mesmo furto e a prisão domiciliar à mulher do ex-governador Sérgio Cabral, Adriana Ancelmo, por ter filhos pequenos. Mostra ainda certa desproporção das penas no Direito Penal. Na Operação Lava-Jato, ao menos sete condenados vão cumprir menos tempo de cadeia que a dona de casa. Cinco deles recorrem em liberdade, um está preso em domicílio.

Fonte: Jornal Extra

Prisões têm 221 mil provisórios; cada um custa R$ 2.400 por mês

 

 

Na ONU, Brasil é cobrado sobre violar direitos humanos
Prisões têm 221 mil provisórios; cada um custa R$ 2.400 por mês© Str Old/Reuters Prisões têm 221 mil provisórios; cada um custa R$ 2.400 por mês 

O ex-ministro José Dirceu, que obteve liberdade provisória na última terça-feira (2) mediante uso de tornozeleira eletrônica, era apenas um dos mais de 221 mil presos provisórios do país, que custam aos cofres públicos quase R$ 6,4 bilhões ao ano.

Mantidos atrás das grades antes de sentença definitiva, os presos provisórios representam ao menos um terço (34%) da massa carcerária brasileira, segundo levantamento de janeiro do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

No montante há quem está atrás das grades sem nunca ter sido julgado, mas também uma minoria que, como Dirceu, foi condenada em primeiro grau e aguarda recurso na segunda instância.No último balanço do Departamento Penitenciário do governo federal, de 2014, havia 250 mil presos sem condenação em qualquer instância.

Cada preso custa, em média, R$ 2.400 por mês aos cofres públicos ­-valor superior ao piso salarial nacional dos professores (R$ 2.298,80) e semelhante ao custo anual de um aluno (cerca de R$ 2.700) no sistema público de ensino.Já o custo mensal médio de manutenção de uma tornozeleira eletrônica é de R$ 300, diz o Ministério da Justiça.

De acordo com Rogério Nascimento, conselheiro do CNJ, a proporção de presos provisórios no país está próxima da média da América Latina, de 40%, mas sua distribuição no território nacional é extremamente desigual.

Há Estados em que eles representam mais de 80% dos presos, como no Sergipe. Em outros, como no Distrito Federal, cerca de 20% do total. Dados do CNJ apontam que 29% dos presos provisórios são acusados de tráfico de drogas, 7% são suspeitos de furto e 4% de receptação.

“São pessoas que não estão respondendo por crimes que envolvem violência direta. Nem todas essas prisões são desnecessárias, mas boa parte delas provavelmente é”, avalia Nascimento.

Para ele, são os encarceramentos desnecessários e a longa duração dos processos que promoveram o atual número de presos provisórios, o que interfere diretamente nos dois maiores problemas do sistema carcerário: a superlotação e a atuação de facções criminosas, das quais os presos provisórios se tornam uma massa de manobra.

O levantamento do conselho mostra que um preso provisório em Pernambuco aguarda, em média, 974 dias pelo primeiro julgamento.Além da longa espera, pesquisa do Ipea apontou que 37% dos presos provisórios são absolvidos dos crimes quando são julgados.

“A pessoa só deve cumprir pena quando há sentença. Antes disso, só nos casos previstos no Código de Processo Penal”, afirma a defensora pública Maíra Coraci Diniz, coordenadora da Divisão de Apoio ao Preso Provisório.

Ela se refere ao artigo 312 do código que descreve as circunstâncias em que a prisão preventiva deve ser aplicada: “como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal [evitar a destruição de provas, por exemplo], ou para assegurar a aplicação da lei penal [evitar uma fuga do país, por exemplo]”.

“A garantia da ordem pública é um conceito muito vago, mas muito usado por promotores e juízes para manter prisões preventivas, sem ônus argumentativo. Muitas vezes são pessoas que não precisavam estar presas”, avalia Fábio Sá e Silva, pesquisador do Ipea e ex-coordenador do Depen (departamento penitenciário do Ministério da Justiça).

Para ele, a “inconsistência na aplicação das leis dá sensação de seletividade ou conveniência política das decisões”. “É um problema estrutural da nossa Justiça.”

EXCEÇÃO

Cristiano Maronna, do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, afirma que a “Constituição deixa claro que a regra é a liberdade durante o processo, e a prisão é a exceção”. “Mas os juízes subvertem essa lógica e tornam a prisão regra e a liberdade exceção, em especial nos crimes de tráfico e roubo.”

Para Diniz, “há um entendimento pacificado pelo Supremo Tribunal Federal de que réus primários que praticaram crime de tráfico, detidos com pouca quantidade de drogas e sem uso de violência, devem ter medidas cautelares aplicadas no lugar da prisão preventiva”. “Mesmo assim os juízes os mandam para a prisão”, afirma a defensora pública.

Medidas cautelares são aquelas em que a prisão preventiva é substituída por prisão domiciliar, uso de tornozeleira eletrônica ou outras restrições de liberdade externas ao sistema penitenciário.

O juiz Sergio Moro defende a necessidade de prisões preventivas da Lava Jato, por crimes como corrupção, por avaliar que são necessárias até para interromper a atividade criminosa. No caso de Dirceu, a soltura foi determinada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), por 3 votos a 2.

Fonte: MSN

Rio tem um sistema prisional só de foragidos da Justiça: são 34 mil pessoas procuradas

 

 

Scooby tem 29 mandados pendentes em seu nome

 

 

Scooby tem 29 mandados pendentes em seu nome Foto: Luis Alvarenga / EXTRA
 

 

Se todos os foragidos da Justiça do Rio fossem capturados pela polícia de uma só vez, o estado teria que criar um novo sistema penitenciário somente para eles. Levantamento inédito feito pelo EXTRA, com base em informações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), revela que o Rio tem mais de 34 mil pessoas com mandados de prisão pendentes. As cadeias fluminenses têm cerca de 28 mil vagas, de acordo com dado de janeiro deste ano da Secretaria estadual de Administração Penitenciária.

Para chegar ao número de foragidos do estado, o EXTRA requereu ao CNJ o número total de mandados de prisão em aberto no Rio. A instituição compartilhou a base de dados que alimenta o Banco Nacional de Mandados de Prisão, uma ferramenta online de busca das ordens judiciais (www.cnj.jus.br/bnmp), referente ao estado do Rio. Como uma pessoa pode ter mais de um mandado em seu nome, foi preciso aglutinar todas as ordens judiciais que tivessem em comum o nome do procurado e de sua mãe — para diferenciar homônimos.

Assim, o levantamento chegou ao número final de 34.913 foragidos — que têm em seus nomes um total de 51.598 mandados expedidos pela Justiça. Os dados compartilhados pelo CNJ são referentes a 17 de março.

O foragido com maior número de ordens judiciais em seu nome é Marcos Paulo Morais dos Santos, de 20 anos. Ao todo, são 31 mandados pelos crimes de roubo e roubo majorado expedidos contra o jovem desde outubro de 2015. A a média é de uma ordem de prisão a cada 15 dias. A maior parte das decisões judiciais se refere a crimes que ocorreram nos bairros de Madureira e Oswaldo Cruz, na Zona Norte.

Em decisão de 26 de dezembro do ano passado, a juíza Maria Izabel Pena Pieranti descreve um dos delitos de que Marcos é acusado: “o roubador, empunhando uma arma de fogo e sob palavras de ordens, abordou a vítima e assumiu a direção de seu veículo. Ato contínuo, dois outros comparsas saíram do veículo Polo e embarcaram também, empreendendo fuga”.

 

 

 

Foto: Reprodução

 

Chefes do tráfico são o principal alvo da polícia

No ranking dos foragidos mais procurados pela polícia, chefes do tráfico de três facções diferentes ocupam as cinco primeiras posições. O Disque-Denúncia (2253-1177) oferece R$ 30 mil, maior valor entre as recompensas do órgão, por informações que levem à captura de Leandro Nunes Botelho, o Scooby, Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, Gil Pinheiro dos Santos, o Mil Gol, Sergio Luiz da Silva Júnior, o Da Russa, e Luciano Martiniano da Silva, o Pezão.

Todos os cinco têm mais de um mandado de prisão aberto. Entre eles, Scooby é o que coleciona mais ordens judiciais em aberto: são 29 ao todo, sendo que o mais antigo data de 2012. O traficante, apontado pela Polícia Civil como chefe do tráfico do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, é procurado pelos crimes de tráfico de drogas e diversos homicídios, como o do menino o menino Kayo da Silva Costa, de 8 anos, durante a tentativa de resgate de um comparsa no Fórum de Bangu, em 2013.

Entre os cinco foragidos, a captura considerada mais difícil pela polícia do estado é a de Pezão. Segundo fontes da Secretaria de Segurança, o chefe do tráfico do Alemão vive, atualmente, no Paraguai. Ele tem mandados de prisão em aberto, desde 2010, pelos crimes de roubo e tráfico de drogas.

Na lista de foragidos, além de brasileiros, também há estrangeiros de 24 países, como Colômbia, Chile, Estados Unidos e Congo, procurados por crimes cometidos no Rio. Entretanto, o perfil do foragido da Justiça fluminense é o criminoso de pequeno porte — a grande maioria são pessoas com somente um mandado. Como o EXTRA revelou na semana passada, o crime mais presente nas ordens judiciais expedidas pela Justiça Fluminense é o de roubo, seguido por homicídios e tráfico.

Vencidos

Cerca de 6 mil mandados de prisão que estavam no banco de dados compartilhados com o EXTRA já estavam vencidos, apesar de constarem como “abertos”. O levantamento desconsiderou estas ordens judiciais, que tinham prazo de validade até 2016.

A cada dia, a quantidade de foragidos nas ruas aumenta, pois a polícia não dá conta de cumprir os mandados expedidos pela Justiça diariamente.

Do dia 10 ao 17 deste mês, 455 mandados de prisão foram expedidos pela Justiça do Rio — uma média de 65 por dia. Números do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que em janeiro, as polícias cumpriram uma média de 30 mandados por dia. Os 35 restantes acabam ficando na gaveta.

Fonte: Jornal Extra

De acordo com os relatórios do governo, a situação dos presídios do Distrito Federal está sob controle. Não há registros, por exemplo, de rebelião desde 2001. No entanto, as mães dos detentos revelam uma rotina de violência e precariedade no sistema.

Em meio à crise nos presídios, o G1 publica reportagens sobre a situação de algumas das piores penitenciárias do país, de acordo com inspeções realizadas por juízes e divulgadas em relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Quatro do DF foram citadas no relatório como péssimas: o Centro de Detenção Provisória, que fica dentro da Papuda, e outros três que ficam fora do complexo – Colmeia, Centro de Progressão Penitenciária e Ala de Tratamento Psiquátrico.

Em entrevista ao G1, a mãe de um dos detentos da Papuda (atualmente no Centro de Treinamento e Reeducação) contou que a falta de infraestrutura do presídio interfere até no tempo que os parentes têm para visitas. Ela pediu para não ser identificada na reportagem.

“Não tem gente suficiente para atender todo mundo. Você tem cinco horas de visita, mas só consegue ficar lá dentro, no máximo, três. As máquinas de segurança estão todas quebradas, então as revistas são feitas manualmente, e as filas duram horas”, disse Joana (nome fictício).

Ela também contou que o filho testemunhou o assassinato de outro detento na primeira semana em que estava detido. Segundo a mãe, um dos homens perfurou o pescoço do “inimigo” com uma facada, e os outros foram obrigados a permanecer no pátio enquanto viam o colega de ala agonizar.

 

“Aí o Bope [Batalhão de Operações Especiais] entra com cachorro, bala de borracha e o castigo é coletivo, já que ninguém entrega ninguém por medo de morrer. Isso é constante. Eles chegam a ficar duas ou três horas só de cueca sentados no chão quente.”

 

Detentos improvisam rede para não dormir no chão na Papuda (Foto: Ministério Público/Divulgação)

De acordo com ela, os maiores problemas enfrentados pelos internos da Papuda atualmente são a cantina e a superlotação. “Tudo que eles comem as famílias que levam, mas era complementado pela cantina. Pimenta, farinha ou extrato para mudar um pouco o sabor da marmita. Mas hoje elas estão vazias. Nem água para os visitantes tem. Antes eles vendiam na cantina sabão em pó, em barra, pasta de dente, mas agora nós que levamos”, contou.

 

“Você nunca sabe o que vai encontrar lá dentro. Outras mães comentam de celas com uns 32 presos, quando cabe metade disso. Os últimos a chegarem dormem perto do vaso. É barata e rato passando. As condições são desumanas.”

 

 

Papuda por dentro

 

Detentos da Papuda, em Brasília, mostram marmita de comida (Foto: Gláucio Dettmar/CNJ/Divulgação)

Fotos tiradas em novembro de 2016 e em julho de 2013, após visitas surpresas do CNJ e do Ministério Público, mostraram o estado precário das instalações do Complexo da Papuda. As imagens revelaram vazamentos e infiltrações, instalações elétricas improvisadas, falta de camas para todos os detentos (alguns dormiam em redes improvisadas) e banheiros em situação precária.

O titular da subsecretaria do Sistema Prisional (Sesipe) à época, Cláudio de Moura Magalhães, havia prometido naquele ano que, até 2015, construiria quatro novos centros de detenção provisória (CDP) que acabariam “com o problema de déficit nas cadeias públicas do DF”, mas as obras ainda não saíram do papel. O MP chegou a pedir a interdição da unidade para que uma reforma fosse feita, mas apenas pequenos reparos foram providenciados.

 

Colmeia

 

Detentas posam para foto com seus filhos na Colmeia, em Brasília (Foto: Glaucio Dettmar/CNJ/Divulgação)

Outra mãe que não quer se identificar falou das condições que a filha, presa por tráfico de drogas em 2011, enfrenta na Penitenciária Feminina, conhecida como Colmeia. Segundo ela, a situação dentro da penitenciária é “péssima”.

 

“Quando estamos com elas, a gente come sentadas no chão com a comida na mão. Ainda tem aquela podridão em volta, esgoto correndo perto.”

 

A mãe também falou que é comum as detentas levarem “tapas na cara” e que os banheiros não têm descarga. “Eles batem na cara por qualquer coisa. Já quebraram óculos de outras detentas fazendo isso. E dentro da cela a descarga só funciona se jogar balde d’água, mas precisa pagar. Então as famílias dão um dinheiro extra para ajudar”, contou.

“Fora isso tudo, depois que conseguem sair, elas sofrem com a falta de emprego. Ninguém contrata. Se a família não der suporte, elas voltam para a mesma besteira. A gente inscreveu ela na Funap [Fundação de Amparo ao Preso], mas pode levar até seis meses para conseguir ajuda”, afirmou.

“O que mais me indigna é saber que se eu roubar um saco de arroz para comer, fico anos presa. Mas se fulano desviar milhões de dinheiro público, fica preso em casa”, desabafou.

 

Sem ajuda

 

O governo do Distrito Federal afirmou ao G1 que não tem intenção de acionar as Forças Armadas ou a Força Nacional para atuar na área interna das unidades prisionais, incluindo o Complexo Penitenciário da Papuda. A declaração foi dada pela Secretaria de Segurança Pública em uma nota, que não trazia motivos para a decisão ou alternativas para reforçar a segurança nos prédios.

No dia 17 de janeiro, o porta-voz do governo federal, Alexandre Parola, afirmou que o presidente Michel Temer decidiu colocar as Forças Armadas à disposição dos governadores para operações específicas em presídios. A declaração à imprensa no Palácio do Planalto aconteceu logo após reunião de Temer com representantes de órgãos de inteligência federal e ministros para discutir ações contra a violência nos presídios brasileiros e contra o crime organizado.

Funcionário cuida de gramado em frente a Papuda, em Brasília (Foto: Gláucio Dettmar/CNJ/Divulgação)

De acordo com o presidente da Federação Brasileira dos Servidores Penitenciários (Febrasp) e do Sindicato dos Agentes de Atividades Penitenciárias do DF (Sindpen-DF), Leandro Allan Vieira, o déficit de agentes na capital do país chega a 1,7 mil profissionais. “Seriam pelo menos mil para as unidades que já existem e mais 700 para as que estão em construção”, afirmou.

Para Vieira, também falta o governo ouvir os agentes antes de tomar decisões sobre o sistema. “Quem entende de presídio está sendo alijado deste debate. Somos nós que podemos apresentar soluções para os problemas”, disse durante protesto da categoria nesta terça (17).

Já a Defensoria Pública do DF entrou na Justiça para pedir a interdição parcial do Centro de Detenção Provisória (CDP) do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. Segundo o órgão, os internos vivem em “condições subumanas”, que seriam reflexo da falta de infraestrutura e da superlotação.

Sobre a interdição, o governador Rodrigo Rollemberg afirmou que a situação poderia agravar a superlotação do presídio.

 

Investimentos

 

Entrada do Complexo Penitenciário da Papuda (Foto: TV Globo/Reprodução)

O governo do DF pretende investir os R$ 54,6 milhões que recebeu do Fundo Penitenciário Nacional na última semana de 2016 na construção de uma nova unidade de regime fechado na Papuda e na compra e manutenção de equipamentos de segurança. A verba foi repassada em 29 de dezembro, informou ao G1 a secretária de Segurança Pública, Márcia de Alencar.

A Penitenciária do Distrito Federal 3 (PDF III) deve custar R$ 31 milhões e tem o projeto já aprovado pelo governo federal. A previsão é de que o espaço abrigue 800 detentos, em regime fechado. Segundo a secretaria, a unidade deve ser concluída em até quatro anos.

Os R$ 23,6 milhões restantes servirão para comprar equipamentos de segurança, disse Márcia de Alencar. Entram na lista produtos como coletes, munição, telefonia interna e scanners corporais. Com a verba, o governo também pretende colocar em dia os contratos para manter os aparelhos.

A falta de manutenção deixa, por exemplo, dois dos oito scanners nos presídios fora de uso. Em 2017, também está prevista a compra de 6 mil tornozeleiras eletrônicas, com o objetivo de desafogar os presídios.

Em entrevista ao Bom Dia DF em 18 de janeiro, a secretária também adiantou que o Centro de Detenção Provisória (CDP) terá 3.300 novas vagas até o fim de 2017. Dados de 2014 do CNJ mostram que o CDP abriga mais que o dobro dos detentos que comporta – 1.646 vagas para 4.033 detentos.

A secretária de Segurança, Márcia de Alencar, informou que, além dos R$ 54,6 milhões, o governo já recebeu outros R$ 112 milhões que estão sendo investidos no centro, que também fica no complexo penitenciário. “Serão quatro blocos com 800 vagas cada, que ficam prontos até o fim do ano”, informou.

Agentes fazem a segurança nos corredores internos da Papuda, em Brasília (Foto: Gláucio Dettmar/CNJ/Divulgação)

Agentes fazem a segurança nos corredores internos da Papuda, em Brasília (Foto: Gláucio Dettmar/CNJ/Divulgação)

 

Raio X

 

Atualmente, o sistema penitenciário do DF tem quase 15 mil presos – o dobro da capacidade prevista, de 7.496 detentos. Só o Complexo da Papuda tem 14 mil detentos e abriga quatro dos seis presídios do DF: as Penitenciárias I e II, o Centro de Detenção Provisória e o Centro de Internação e Reeducação.

Entre os presidiários lotados na Papuda estão o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, o ex-deputado Natan Donadon, o ex-senador Luiz Estevão e o ex-vice-governador Benedito Domingos.

Segundo a Secretaria de Segurança, a maior parte dos presos do DF têm entre 18 e 25 anos, são reincidentes, têm baixa renda e são envolvidos com tráfico de drogas.

Complexo da Papuda funciona com o dobro da capacidade de presos

O governo diz que investe na construção de novos blocos para diminuir a essa proporção. Em maio de 2016, foram entregues dois novos blocos no Centro de Detenção Penitenciária (CDP), que garantem 400 novas vagas. A construção custou de R$ 9,9 milhões.

Em setembro, também foram concluídos dois blocos na Penitenciária Feminina (Colmeia), ampliando a unidade em 400 vagas. Foram gastos R$ 10,6 milhões na construção. A Colmeia também será “esvaziada” quando for entregue uma unidade voltada exclusivamente para 200 “pacientes judiciários” (detentos com transtorno mental), com custo previsto de R$ 9,9 milhões.

De acordo com Márcia de Alencar, não há risco de Brasília enfrentar uma situação parecida como a do massacre no presídio de Manaus, em que 56 presos morreram após uma rebelião. “Nosso risco é muito residual em relação à possibilidade de uma rebelião”, disse.

Vaso sanitário de detentos do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília (Foto: Ministério Público/Divulgação)

 

Greve de agentes

 

Em outubro de 2016, o sistema penitenciário enfrentou uma greve de agentes que durou 23 dias. Por causa disso, visitas chegaram a ser suspensas por questão de segurança, o que gerou protestos em frente à aos presídios. Em uma ocasião, policiais chegaram a usar spray de pimenta para dispersar as mulheres, que fecharam a rua que dá acesso ao complexo da Papuda. O governo do DF alegou que havia risco de os detentos fazerem os visitantes reféns. Os agentes em greve pediam reajuste salarial e alegavam que o presídio está superlotado.

Em nota, a Secretaria de Segurança informou que desde 1979 – quando foi inaugurado o sistema prisional no DF – houve apenas duas rebeliões, ambas no Centro de Treinamento e Reeducação (CIR), nos anos de 1989 e 2001.

Em novembro, a Ministra Carmen Lúcia de duas horas à Papuda, como presidente do Conselho Nacional de Justiça, responsável por fiscalizar presídios. Ela notou superlotação e falta de servidores.

“A ministra Cármen Lúcia também pôde comprovar pessoalmente o déficit de pessoal do sistema prisional do DF, principal motivo da greve dos agentes penitenciário. Para vigiar e atender os cerca de 15 mil presos do complexo, existem apenas 1.483 servidores”, diz a nota.

Ministra Cármen Lúcia durante vista ao Complexo Penitenciário da Papuda (Foto: Gláucio Dettmar/CNJ)

 

Mudanças na gestão

 

Duas fugas na Papuda em menos de 20 dias no começo de 2016 desencadearam uma série de mudanças no sistema penitenciário. O então secretário de Justiça, João Carlos Souto, e o subsecretário do Sistema Penitenciário, João Carlos Lóssio, foram exonerados. No lugar, assumiram Guilherme Rocha Abreu, ex-chefe de gabinete da Casa Civil, e o ex-diretor adjunto da Polícia Civil, Anderson Espíndola, respectivamente.

No mesmo dia, a Casa Civil anunciou que a Subsecretaria do Sistema Penitenciário deixaria a estrutura da pasta de Justiça e seria incorporada à Secretaria de Segurança Pública. O governo indicou também a construção de mais quatro centros de detenção, com capacidade para 3,2 mil presidiários. O prazo de conclusão da obra é de dois anos. O GDF não informou o valor estimado da obra.

 

Lista de unidades do DF

 

– Centro de Detenção Provisória (CDP): destinada ao recebimento de presos provisórios, sendo o presídio de entrada e classificação para os demais estabelecimentos do sistema penitenciário. Na unidade também está a ala de ex-policiais e a ala destinada aos presos provisórios com celas destinadas a presos que aguardam possível extradição. Ele fica no Complexo da Papuda, próximo a São Sebastião.

– Centro de Treinamento e Reeducação (CIR): recebe detentos do semiaberto. Ele fica no Complexo da Papuda.

– Penitenciária do DF I: estabelecimento de segurança máxima que abriga presos do regime fechado. Ela fica no Complexo da Papuda.

– Penitenciária do DF II: presídio de segurança máxima que abriga presos do regime fechado e, excepcionalmente, presos do semiaberto. Ela fica no Complexo da Papuda.

– Centro de Progressão Penitenciária (CPP): recebe presos provisórios em regime semiaberto e que têm autorização para cumprir trabalho externo e é liberado para saídas temporárias. Ela fica no SIA.

– Penitenciária Feminina do DF: estabelecimento de segurança média, ele é destinado a detentas condenadas a regime fechado e semiaberto. Também abriga presas provisórias que aguardam julgamento. Ela fica no Gama.

 Fonte: G1

Depois do cárcere: as barreiras do retorno à vida e ao mercado de trabalho

Aumentar capacidade das cadeias não resolve problemas, diz professor da USP

 

 

 

Nenhuma vaga ou algumas poucas a salários precários. Quando o egresso do sistema penitenciário brasileiro cumpre sua pena ou consegue provar sua inocência, a vida não fica necessariamente fácil, principalmente no que diz respeito ao mercado de trabalho. O preconceito do empresariado, o trabalho precarizado e a baixa qualificação são muitas vezes as “boas-vindas” disponíveis. Programas e projetos sociais tentam facilitar a conquista de um emprego, mas o caminho “é muito difícil”, como destaca João Paulo Garcia, coordenador da agência Segunda Chance, em conversa com o JB.

A Segunda Chance é uma agência de empregos do grupo AfroReggae, criada em 2008 com outro nome, Projeto Empregabilidade. A intenção é empregar ex-detentos, encaminhando-os a postos de trabalho, e acompanhando o desempenho deles nessas funções. A ajuda, contudo, vai além, e também chega aos familiares e moradores de comunidades, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

“Todos nós do projeto somos ex-presidiários”, conta João Paulo Garcia, “Nesse percurso, a gente entendeu que atender ao familiar do egresso ajuda ele diretamente.” Garcia ressalta que muitas reincidências ao crime ocorrem quando a família do egresso passa por dificuldades financeiras, e não há qualificação, emprego e às vezes até documentos. “Em uma família desestruturada, onde ninguém trabalha, a porta do crime fica escancarada.”

João Paulo Garcia, coordenador da Agência Segunda Chance

João Paulo Garcia, coordenador da Agência Segunda Chance
 

De 2012 para cá, foram 2.382 egressos atendidos pela agência Segunda Chance,  3.941 encaminhamentos a vagas, e 789 empregos conquistados, um “número ruim”, lamenta João Paulo Garcia. A marca AfroReggae ajuda na aproximação com o empresariado e a “quebrar algumas barreiras”, mas as dificuldades permanecem. Além disso, as vagas geralmente são relacionadas a áreas operacionais, como operador de loja e auxiliar de carga e descarga, com remunerações mais baixas.

“A gente quebra o preconceito inicial [de abertura do processo seletivo], mas o egresso [quando é encaminhado para a vaga] passa a disputar com pessoas que já estão inseridas no mercado. É muito difícil, mas a gente acredita neste trabalho, e isto não pode parar.” Hoje, no Rio de Janeiro, a agência conta com apenas 25 empresas ativas. Entre 2012 e 2014, o número chegava a ser o dobro.

De acordo com Garcia, muitas empresas aceitam empregar familiares de ex-detentos, mas não estes. “O preconceito é muito grande.” “Cada pessoa que a gente tira do crime, evita cometer um novo crime. Se cada um fizesse um pouco a sua parte… Se a gente não mudar e sensibilizar, a criminalidade só vai aumentar. Qual a diferença de um traficante para um criminoso de colarinho branco, por exemplo?”, provoca.

De acordo com a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) do Rio de Janeiro, 2.177 egressos se declaram inseridos no mercado de trabalho. A secretaria defende que o Patronato Magarinos Torres tem buscado garantir “oportunidades de um futuro melhor” para os egressos do sistema penitenciário fluminense.

“Em qualquer sociedade o homem precisa do trabalho para ser útil, para ter valor enquanto ser humano e ser social. Então é, através do trabalho, que o egresso do Sistema Penitenciário vislumbra a possibilidade de se ver reintegrado à sociedade, tendo na ocupação lícita e remunerada um instrumento capaz de despertar a sua autoconfiança, a sua capacidade criativa e sua força transformadora da natureza”, diz a diretora do Patronato Magarinos Torres, Mariangela Pavão.

“A maioria dos apenados que deixam o cárcere desejam refazer suas vidas de forma digna e honesta, porém as dificuldades são muitas, entre elas a falta de qualificação profissional, o preconceito, por exemplo”, completa a diretora.

Campanhas de conscientização do empresariado podem ajudar, diz psicólogo

O psicólogo Alvino Augusto de Sá, professor sênior de criminologia clínica na Faculdade de Direito da USP, defende que uma grande campanha de conscientização do empresariado poderia ajudar. “É uma situação muito difícil. De fato, os empresários têm o seu preconceito, a sua predisposição negativa, e é de se compreender isto”, comenta. “As campanhas podem gerar efeitos positivos, vide a campanha contra o cigarro. Hoje em dia, seria uma surpresa alguém fumar numa estação, coisa que há 10 anos não era.”

Por outro lado, além da necessidade de combater uma resistência dos empresários, ainda é preciso lidar com a situação psicológica e emocional do ex-detento. O egresso sai das cadeias brasileiras muito vulnerável, pois o cárcere “mortifica”, “destrói a pessoa, acaba com a sua identidade”, explica o professor.

Alvino Augusto de Sá desenvolve um projeto chamado Grupo de Diálogo Universidade-Cárcere-Comunidade – GDUCC, que leva acadêmicos para penitenciárias, “não para ensinar nem para levar lição”, mas promover um encontro semanal de debates com os presos, para que estes desenvolvam uma consciência mais positiva de si. Trata-se da importância do preso ter sua autoestima elevada, e poder sair de lá em condições de diálogo com igualdade, quando cumprir sua pena.

Professor alerta que o cárcere "mortifica, destrói a pessoa, acaba com a sua identidade"
Professor alerta que o cárcere “mortifica, destrói a pessoa, acaba com a sua identidade”

 

Muito se fala sobre a necessidade também de oficinas de trabalho em penitenciárias. Para o professor, elas seriam importantes, sim, e ajudariam os presos, desde que acompanhadas por dinâmicas e reflexão. Não há, contudo, espaço físico para isto. “Diante da superlotação, do estado de calamidade, isso tudo que eu estou dizendo é um sonho irrealizável.”

A urgência, defende, seria “reduzir o máximo possível o nível de encarceramento”, que já leva o país para a quarta posição entre as maiores populações carcerárias. Enquanto há 10 ou 15 anos a taxa de presos por habitantes no Brasil era de 80 para 100 mil, hoje chega a 200 para 100 mil. Não é possível afirmar, acredita o professor, que a taxa de crescimento é gerada pelo aumento da taxa de criminalidade. É o aumento da taxa de encarceramento que aumenta a taxa de criminalidade, diz o professor.

Três soluções

Alvino Augusto de Sá alerta que três passos seriam essenciais para lidar com a crise do sistema penitenciário e as dificuldades encontradas por ex-detentos: campanhas de conscientização na sociedade junto aos empresários; trabalho efetivo junto com a população carcerária de aumento da autoestima e redescoberta da condição cidadã perdida no cárcere; e redução drástica no índice de encarceramento.

“São soluções difíceis? Sim. Mas não existe solução fácil para problemas difíceis”, alerta.

Uma solução fácil, que por sua vez não resolveria, seria transferir líderes de facções, criar presídios de segurança máxima, separar presidiários entre violentos e não violentos — “tudo uma besteira”, diz o professor, que destaca que um criminoso de colarinho branco que desvia grandes montantes para o próprio bolso, enquanto tantos servidores ficam sem salários, não deixa também de provocar uma violência.

“Essas distinções são soluções improvisadas. Afinal, o que é o violento e o não-violento? Às vezes, é necessário construir mais cadeias, mas isso também não vai resolver o problema, porque se triplicar o número de vagas, todas elas serão ocupadas em um ano, levando a superlotação novamente.”

Fonte: JB