O governo venezuelano ordenou o envio, em 20/2/14, de um batalhão de paraquedistas para San Cristóbal, berço dos protestos estudantis que se espalham pelo país, enquanto o presidente Nicolás Maduro acusava a rede de televisão americana CNN de fazer “propaganda de guerra”.

Hoje, segundo a imprensa local, viam-se lojas fechadas e várias ruas bloqueadas em San Cristóbal, capital do estado de Táchira, na fronteira com a Colômbia. Manifestantes e forças de segurança têm se enfrentado na região quase diariamente.

“Ordenou-se a mobilização de um batalhão de paraquedistas para o estado de Táchira” para reforçar os acessos a San Cristóbal, porque se detectou “pessoal colombiano que vem cumprir missões de paramilitares”, denunciou o ministro venezuelano do Interior, Miguel Rodríguez Torres, em entrevista coletiva.

Os protestos estudantis em San Cristóbal começaram em 4 de fevereiro e, de lá, espalharam-se por todo o país, ganhando matizes violentos. Até o momento, a onda de violência deixou quatro mortos e dezenas de feridos.

Também nesta quinta, em pronunciamento divulgado por rádio e televisão, o presidente Nicolás Maduro ameaçou bloquear a transmissão da rede americana CNN, se a emissora não retificar sua programação. Maduro acusa a empresa de querer mostrar “uma guerra civil” no país.

“Pedi à ministra (das Comunicações) Delcy Rodríguez que notifique à CNN sobre o início do processo administrativo para tirá-los da Venezuela caso não mudem isto.

“Vá embora da Venezuela, CNN. Já basta de propaganda de guerra”, advertiu Maduro em mensagem à Nação.

“Estava agora no meu gabinete vendo a CNN. Durante as 24 horas do dia sua programação é de guerra. Eles querem mostrar ao mundo que na Venezuela há uma guerra civil, mas na Venezuela o povo está trabalhando”, insistiu.

Na semana passada, o governo venezuelano bloqueou o canal de notícias colombiano por assinatura NTN24, sob a acusação de tentar gerar “frustração” na população, quando transmitia confrontos após uma passeata da oposição.

O NTN24 pretendia “transmitir um fracassado golpe de Estado como o de 11 de abril (de 2002, contra o então presidente Hugo Chávez). Fora do ar, NTN24!”, disse Maduro na ocasião.

O chavismo denuncia que esses protestos são uma tentativa de golpe de Estado e, por sua organização, responsabiliza a direita “fascista”, setores conservadores dos Estados Unidos e o ex-presidente colombiano Alvaro Uribe. Durante seu mandato, este último teve péssimas relações com o falecido líder Hugo Chávez.

– Prisão preventiva –

Em 20/2/14, os setores leste e central de Caracas voltaram a ser palco de conflitos e de operações policiais de dispersão. Enquanto isso, em uma prisão militar, uma juíza apresentava as acusações de incitação à violência e danos ao líder opositor radical Leopoldo López, que está detido.

López é um dos dirigentes da ala radical da opositora Mesa de Unidade Democrática, que promove, sob o slogan “a Saída”, a tática de ocupar as ruas para conseguir a mudança de governo. A Constituição venezuelana determina que um referendo revogatório de mandato presidencial será possível apenas em 2016.

O outro líder da oposição venezuelana, Henrique Capriles, contrário à ocupação das ruas, desafiou o presidente Nicolás Maduro a mostrar provas do suposto plano de golpe de Estado.

“Você (presidente) deve mostrar ao país as provas desse golpe. Onde estão os detidos que dariam esse golpe (…)? Por que fala tanto de golpe em desenvolvimento? Onde estão as provas? Os civis não dão golpes de Estado, os militares dão”, afirmou Capriles.

A mais recente onda de protestos contra o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, já dura há duas semanas, e o descontentamento da oposição com o chavismo cumpre este mês 15 anos, mas há um dia que poderá marcar um antes e um depois na convulsão política e social do país: 12 de Fevereiro de 2014 – o dia em que as manifestações atingiram um nível de violência sem precedentes, com três mortos e 66 feridos.

Oposição e apoiantes do governo de Maduro saíram às ruas para comemorarem os 200 anos da Batalha de La Victoria, uma das mais importantes na luta da Venezuela pela independência. Era essa a razão oficial da presença de milhares de pessoas nas ruas de Caracas na terça-feira, mas todos conheciam os outros motivos – de um lado, uma multidão descontente com a insegurança e o caos económico no país, que concentra a sua fúria em Nicolás Maduro; do outro, os apoiantes do governo, fortalecidos com os chamados “colectivos”, grupos de vigilantes armados cuja alegada ligação ao poder é desmentida pelo Presidente venezuelano.

Era também o Dia da Juventude – instituído em honra dos estudantes que lutaram na Batalha de La Victoria –, e muitos dos manifestantes exigiam a libertação de 13 estudantes, detidos na semana passada por actos de vandalismo contra a residência do governador do estado de Táchira, no noroeste do país.

Os protestos decorriam de forma pacífica, e a maioria dos manifestantes já tinha abandonado a Praça da Venezuela, no centro de Caracas, quando um grupo de homens em motocicletas disparou contra as pessoas que tinham ficado para trás. Bassil da Costa, líder estudantil de 24 anos, opositor de Nicolás Maduro, morreu com um tiro na cabeça. Juan Montoya, de 40 anos, identificado como membro de um dos “colectivos” alinhados com o governo, foi baleado na cabeça e no peito. Horas mais tarde, Roberto Redman, de 31 anos, da oposição, foi morto durante protestos no município de Chacao, também na capital.

O Presidente Nicolás Maduro acusou a oposição de ter orquestrado a violência. “Estamos a assistir a um renascimento nazi-fascista e vamos derrotá-lo. Podem ter a certeza absoluta de que não haverá nenhum golpe de Estado na Venezuela”, declarou, sublinhando que os responsáveis “vão pagar”.

Leopoldo López, líder do partido Voluntad Popular e um dos principais rostos da oposição, é acusado pelo governo de responsabilidade na violência de terça-feira. Mas um outro dirigente, Carlos Vecchio, afirmou que “a violência só interessa ao governo”, acusando as forças de segurança de terem provocado os tumultos no final de uma “manifestação pacífica”.

Fonte: O Público e Yahoo