:: Por Silvia Malamud ::

Em nosso dia a dia
constantemente estamos transitando em meio a inúmeras pessoas e em casa, quando
supostamente estaríamos sozinhos, ou assistimos televisão, ou estamos com
vizinhos, ou lendo livros, ou falando ao telefone, acessando internet etc..
Enfim, a todo tempo ficamos envolvidos com toda a sorte de situações que nos
informam de que nunca estamos sós. Ou talvez que nos iludam incitando essa
sensação.

Complementando este tipo de ininterrupta interatividade, a vida
em nosso planeta também tem se mostrado esfuziante, emergente e rápida. E a
Terra, embora sendo o nosso lar, nossa morada, paradoxalmente, acaba sendo lugar
onde poucos têm a verdadeira chance de efetivamente se sentirem em casa.

Essa suposta verdade de que nunca estamos sós acaba se revelando como
uma grandiosíssima mentira. Parece uma peça que nos pregaram e que a todo custo
ainda tentam implantar nos desavisados.

Até podemos acreditar que apenas
pelo motivo de estarmos com muita gente ao redor e também por conta de todo o
excesso de informações que nos atravessam, de que nunca estamos sós, ou de que
não há espaço para sentir esse vazio. Neste sentido, se acaso alguém se
queixasse da solidão, seria algo totalmente infundado. Mas, seria mesmo? Ao que
parece, não, um dos sentimentos mais profundos da humanidade é o da solidão.
Grande número de pessoas literalmente odeiam finais de semana quando terminam
suas atividades de trabalho e se desconectam das relações de referência. Hoje
mais do que nunca pessoas e mais pessoas não se sentem pertencer aos meios em
que circulam, aos ambientes onde vivem. Muitos encontram-se como um peixe fora
da água.

Os mais ávidos por se sentirem vinculados, ou se casam
indevidamente, ou caem na noite, usam drogas ou mesmo viciam-se em sexo sem
compromisso entre outras situações danosas. A busca é a da saciedade para se
evitar o sentimento do vazio da solidão, que é pior dos mundos, lugar onde mesmo
quando acompanhados a sensação é a de isolamento.
Em meio a cavalgadas
silenciosas, jovens, adultos e mesmo crianças transitam numa busca cega pelo
sentimento de lar, sentimento este, muitas vezes jamais vivenciado em sua
plenitude.

A vida no século XXI dificulta sobremaneira a resolução deste
tipo de conflito, pois todos parecem estar com pressa, principalmente nas
cidades grandes. Quando se tenta fazer amigos pela internet, por exemplo, estes
em pouquíssimo tempo evidenciam ser amizades apenas virtuais, ou seja,
deletáveis. Na vida prática, quando se faz amigos no trabalho, a competitividade
é o que impera. Tudo fica efêmero, desfazendo-se em instantes.

Os mais
sensíveis, que necessitam de um contato mais direto, olho no olho, essência com
essência, normalmente ficam à margem de tudo e de todos. À margem dos programas
de funcionamento prático de vida que isentam o ser humano da relação de conexão
profunda que se pode ter com o outro. Silenciosamente, porém, e mesmo sem saber
dos caminhos certeiros, buscam abrir espaço para que a riqueza existente nas
trocas afetivas aconteça e para que o significado dos vínculos e dos desafios,
que existem em todas as relações, possam chegar como reais experiências de
vida.
Não se enganem os mais introvertidos ao suporem que o mundo dos
extrovertidos é diferente dos deles. O que se passa do lado de dentro, muitas
vezes, é da mesma ordem de percepção para ambos.

Hoje mais do que nunca,
as pessoas sentem solidão. Ao mesmo tempo em que há um desprendimento para se
viajar só, para comer em restaurantes e cinemas na própria companhia, a
sociedade “autossuficiente” neste quesito peca ao esconder em suas profundezas a
dificuldade para se vincular. Há, porém, um limite para se isentar ou passar por
cima das dificuldades que acontecem nas entrelinhas. Um dia, a casa cai e o
sentimento de solidão e de falta de vínculo irrompe sangrando.

O que
dificulta este tema é que hoje é muito difícil as pessoas falarem da própria
solidão, todas estão frenética e ininterruptamente plugadas, conectadas. A
grande questão é que o momento do confronto consigo mesmo um dia fatalmente
acontece derrubando qualquer mecanismo de defesa.

A busca de terapia vem
nessas ocasiões onde a solidão e o sentimento de não pertencer se tornam tão
implacáveis que o próprio sentido da vida desaparece. São nestes momentos que
angústias impensáveis tomam posse do indivíduo e a conhecida lida com a vida
fracassa. É quando a crise chega.

Se bem guiada, a resolução da crise
poderá transformar o indivíduo por completo e um verdadeiro renascimento poderá
ocorrer. Novas escolhas e ousadia para se bancar no que for importante é o que
passará a valer. Isso pode ocorrer independente de idade.

Tive uma
paciente que aos 70 anos conheceu um senhor russo pela internet e disse convicta
aos filhos e netos que retornaria ao seu país de origem, Rússia, para viver com
este que lhe recuperara o seu sentimento de pertencer. Disse que a sua voz de
russo apaziguava o seu coração trazendo de volta lembranças de seu berço de
origem, de sua língua-mãe.

Na vida de hoje, tudo se organiza de modo
diferente de outrora. O sentimento de pertencer a algo, de se sentir em casa
mudou radicalmente. Diversas famílias se configuram de modo distante de
antigamente, muitos mudaram de religião, os empregos já não são permanentes e
nem são garantia de nada. A cada dia que passa, a tecnologia muda. O que é moda
hoje, horas depois corre o risco de não ser mais.
Transitar, pertencer e se
vincular num mundo onde a nova lei baseia-se na mudança constante, não é tarefa
fácil. A não fixidez dificulta as referências de origem, o reconhecimento da
estrutura interna.

Encontrar-se consigo mesmo e com as suas verdades faz
com que o vazio e a solidão transformem-se na energia radiante que vem do si
mesmo, no seu lugar seguro e de referência. O seu mundo interno, mesmo que
mutante deve ser o seu templo.

Centrar-se e reconhecer o que faz sentido
é a porta de acesso ao outro, aos vínculos e ao crescimento promovido por todas
as relações.
Fonte: STUM