Busca por melhores salários e segurança atraem concurseiros para Brasília
Cleude Ribamar da Silva sai de casa todos os dias as 4h50 da manhã para trabalhar no serviço de limpeza no Tribunal de Contas da União. Em meio a tantos concursados, Cleude assiste de perto o futuro que gostaria de ter: ser servidora pública.
Com algumas apostilas usadas, outras doadas por colegas ou compradas em livrarias, Cleude estuda no máximo nas folgas que encontra. Com 41 anos e dois filhos adolescentes, entre emprego, família e cuidados da casa, ela se esforça para estudar pelo menos três horas diárias em dias de trabalho e durante toda a tarde no domingo. Cleude segue essa rotina há pelo menos dois anos e já fez diversas provas, mas nunca foi aprovada. A próxima meta dela é passar no concurso de nível médio da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab), previsto para o primeiro semestre deste ano.
A servidora de limpeza não é a única com o sonho de passar em concurso público no Distrito Federal. Cercada de ministérios, secretarias e sede de grandes instituições do governo federal, Brasília alimenta o desejo das pessoas que encontram no funcionalismo público a oportunidade de ter um emprego seguro, com bons salários e garantias de férias e aposentadoria. Este ano, estão previstas 47.112 vagas no Poder Executivo no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA). Além disso, há possibilidade de 5.438 contratações nos Poderes Legislativo e Judiciário e 6.697 nas Forças Armadas. Brasília, por ser capital, recebe milhares de vagas de concursos nacionais.
A busca pela estabilidade e um bom salário também motiva a jovem Ana Beatriz Messina, de 22 anos, a seguir carreira pública. No último ano de Direito do Centro Universitário de Brasília (UniCeub), a estudante conta que optou pelo curso já pensando em concursar. O sonho dela, porém, é outro: trabalhar com culinária e abrir um bistrô.
“O meu sonho é a gastronomia, mas tenho muito medo de não conseguir me manter com isso. Revolvi me dedicar ao concurso público para ter alguma garantia de vida e estabilidade. O fato de morar em Brasília me influenciou muito nessa decisão também. Quando você fala da cidade e de emprego, a primeira coisa que vem em mente é o concurso”, conta Ana.
Ana estuda agora para concursos de nível médio para técnico legislativo do Senado e da Câmara. Apesar de pretender completar o ensino superior, ela conta que o salário de nível médio (R$ 12.286,61 na Câmara e cerca de R$13 mil no Senado) já seria um ótimo começo. Após aprovação no concurso, Ana deseja fazer o curso de gastronomia do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), montar um blog de receitas e começar a juntar dinheiro para a abertura de um bistrô.
Vida de concurseiro
Para quem já foi aprovado em concurso público, a segurança de emprego e o salário passam a impressão de que os concursados podem ter a vida fácil. Mas, para quem ainda está estudando, a realidade é muito diferente.
O engenheiro mecânico Thiago Strauss, de 36 anos, já sentiu na pele a realidade dos concurseiros e pôde acompanhar de perto a rotina de outros candidatos. Após ser aprovado no concurso do Tribunal de Contas da União (TCU), em 2008, Thiago foi convidado para dar aula em cursinho preparatório. Desde então, ele já trabalhou em diversos cursinhos em Brasília. Para ele, o desafio em ser aprovado não vem apenas do estresse e da enorme quantidade de conteúdo exigido, mas também da ausência de uma data certa para as provas.
“Quando você sabe que algo vai acontecer, você consegue se planejar efetivamente para aquilo e se organizar. O problema dos concursos é que você pode até saber que ele vai acontecer, mas nunca vai ter a data exata com muita antecedência. Então, o estudo tem que ser constante”, conta ele.
Para se preparar para a prova do TCU, Thiago criou uma série de mapas mentais que o ajudassem a lembrar os conteúdos de direito. Os mapas mentais são esquemas elaborados na forma de organograma, que abordam todo o conteúdo exigido de forma que facilite a memorização. Thiago produziu uma série de esquemas sobre direito civil, constitucional e administrativo. A eficácia dos mapas mentais criados por Thiago foi tão grande ele ele foi convidado para publicar os mapas em forma de livro, que são vendidos em um cursinho de Brasília.
De acordo com Thiago, apesar dos concursos estarem presentes na vida dos brasilienses desde a elaboração da Constituição de 1988, há um aumento no interesse em ser concursado na última década. Para ele, a quantidade crescente de cursinhos preparatórios em Brasília e o aumento na quantidade de vagas disponíveis servem como prova de que os brasilienses estão cada vez mais focados no concurso público.
Entre o público e o privado
O consultor legislativo da área de telecomunicações do Senado, Dilson Ferreira, de 48 anos, trabalha hoje em um dos cargos mais altos dos servidores públicos. Para chegar até aí, porém, ele conta que além do estudo constante, a experiência de mercado no setor privado também o ajudou.
Dilson fez dois cursos superiores. Primeiro, se formou em engenharia elétrica pela Universidade de Brasília. Durante muitos anos de sua carreira, não pensava em fazer concurso. Entretanto, o desejo de se casar e ter a casa própria o levou a procurar empregos que dessem a ele um salário maior. Decidiu, então, seguir carreira pública e foi aprovado no concurso de Analista de Finanças e Controle da Controladoria-Geral da União (CGU).
No início, Dilson trabalhava com assuntos ligados a engenharia, mas, com o passar do tempo, sentiu a necessidade de estudar Direito. Passou no vestibular para a UnB deu início ao que seria a segunda fase de sua vida. Ao longo dos anos, Dilson foi aprovado em concursos do Ministério das Comunicações, do TCU e de Consultor do Senado.
“Hoje eu tenho muita experiência na área pública, mas acredito que é fundamental conhecer o setor privado antes. O servidor público é uma bolha, é um mundo muito diferente da realidade do mercado. Você precisa ter uma visão global, entender o Brasil como um todo. E isso é algo que a experiência no mercado privado pode te trazer.”
Com três concursos em seu currículo, Dilson deixa uma dica para quem sonha com os cargos públicos: “Estude até passar. Não desista. A persistência e a motivação é fundamental para ser aprovado, mesmo que demore muitos tempo,” conta ele.
Fonte: Correioweb
O silêncio foi o que mais me chamou a atenção. Imaginei que no intervalo entre as provas da manhã e da tarde se intensificaria o burburinho nos pilotis da PUC, na Gávea, onde eu e outros inscritos no concurso público para o BNDES tentávamos uma vaga no último domingo. Quer dizer, eu fazia a prova para apurar essa reportagem, enquanto eles, eles buscavam emprego em uma das estatais mais cobiçadas do país. Quando desci ao pátio, achei que o falatório tomaria conta do local. Nada. As pessoas chegavam, sentavam nos bancos ou no chão e liam livros ou consultavam celulares. Pudera, com o registro de 137.989 candidatos pairando sobre cada um — o maior número de inscritos na história do banco — ninguém queria papo com o colega: era cada um por si.
— A expectativa e a ansiedade estão bem grandes. A gente nunca acha que estudou o suficiente — me dissera Daniele Hang da Silva pela manhã, antes da abertura dos portões, desviando um pouco os olhos do “Vade mecum”, o tijolão de referências legislativas que consultava sentada no meio fio.
Barrado papel higiênico para o nariz
Foram onze horas de maratona. Quase sem direito a espirrar. Quem quis ir ao banheiro, como acontece em outros concursos, passou por uma revista com detector de metal. Uma candidata me relatou que avisou à fiscal que pegaria um pouco de papel higiênico para levar para a sala, por causa de um resfriado. Mas a funcionária a proibiu:
— A explicação é que os candidatos não têm autorização para levar material, trazido de fora no meio da prova, para dentro da sala — me contou a colega, acrescentando que a solução foi “burlar” a situação e colocar um pouco de papel no bolso. — Será que ela achou que eu ia colar com o papel higiênico?
O clima de tensão pairava por toda a parte. Na sala, olhei para o lado e vi uma moça pingando umas gotinhas de floral na língua, enquanto um rapaz tentava fazer o mínimo barulho possível ao comer uma barra de cereal para não ser ouvido no silêncio. Um candidato tentou abrir a prova antes do início — sinalizado por uma nada discreta sirene — foi logo repreendido. Não pelo fiscal, mas por um concorrente.
Entreguei a prova e dei de cara com uma candidata em posição de yoga nos pilotis. De olhos fechados, talvez meditasse. Parei para pensar que essa vida de concurseiro não deve realmente ser fácil: é muita expectativa depositada em cima de um teste.
Na saída, convite para novos cursos
Mas especialmente para o concurseiro de primeira viagem, há uma série de elementos que ajudam a tornar menos dolorosa a tentativa de se entrar para o serviço público. O primeiro é estar bem preparado, claro. Agora, driblar o nervosismo, inevitável, também é fundamental, diante da indústria em que se transformou o universo de concursos: na saída da prova, recebe-se um monte de santinhos de propaganda de cursinhos, nos chamando a estudar para outros processos seletivos. E que ninguém encare isso como fator de desmotivação: até porque, a experiência de fazer uma prova desse porte fará diferença na hora de enfrentar a próxima.
Relaxado no campus da PUC, só mesmo o ambulante Francisco Sá, o único a não enfrentar concorrência naquele dia. Ele comemorava porque não havia aparecido mais ninguém para vender lápis e canetas, repassados a R$ 2, cada, aos candidatos, que chegaram a fazer fila na frente dele.
— A prova é grande, e estou sozinho. É muito bom — disse Francisco, funcionário de uma gráfica, que há cinco anos fica de olho nos concursos de fim de semana para aumentar a renda doméstica.
Salário inicial de R$ 9.182,01
Francisco estimou que conseguiria tirar R$ 400 de lucro do último domingo. Aliás, quem for aprovado no concurso vai ganhar, por mês, quase 23 vezes isso: o salário inicial do BNDES é de R$ 9.182,01.
Com uma remuneração dessas, que é complementada com benefícios atraentes, não fica difícil entender o tamanho da procura pelo concurso. Mas, pelo que pude perceber, não são apenas os bons salários que fazem o BNDES ser tão encantador para tantos. Conversei com um engenheiro de 27 anos, aprovado no concurso de 2011, que decidiu que queria trabalhar no banco quando, em 2001, aos 16 anos, teve uma passagem como mensageiro pelo local. Em 2004, já cursando engenharia na PUC-Rio com ajuda de uma bolsa de estudos, voltou como estagiário, por dois anos.
— Tive a certeza que meu sonho era voltar para lá, dessa vez como funcionário — contou Wagner Sabóia, que, desde fevereiro de 2012 integra o quadro efetivo da instituição. — O que me atrai é o ambiente de trabalho muito bom, o pessoal realmente motivado e toda a equipe trabalhando para o desenvolvimento do Brasil.
Imagino que, sim, muitas pessoas de fato estejam de olho nos gordos salários, especialmente diante da ideia de muitos de que um emprego público é sinônimo de estabilidade eterna. Mas Wagner não foi o único a me falar sobre essa identificação com os valores do BNDES. Acho que o engenheiro se encaixa no grupo que, mais do que qualquer cargo no serviço público, quer essa vaga especificamente.
Wagner contou, também, que quando fez a prova, em 2011, chegou a levar material de estudos para dar uma olhada, mas encontrou um amigo e acabou sem tempo para dar aquela última revisada.
— Para mim, o estresse todo pode ser positivo, até certo ponto, porque te deixa mais ligado. E, como estava bem confiante na minha preparação, consegui ficar mais tranquilo.
No dia da prova, no intervalo para o almoço, enquanto eu fazia anotações no meu bloquinho, prestava atenção na atividade que os outros escolhiam para passar o tempo. A maioria lia anotações de matérias, livros e apostilas de cursinhos.
A advogada Diana Franco escolheu dividir o tempo dela: revisou alguns temas, depois começou a ler uma revista de decoração para “ficar mais tranquila”, me disse ela, antes de voltar para a prova discursiva. Achei interessante que ela sabia direitinho o que seria melhor. E acho que cada um precisa descobrir qual é o melhor jeito de enfrentar essa maratona — seja fazendo revisões de última hora ou levando a cabeça para bem longe dali.
Fonte: Caderno Boa Chance (O Globo)






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