Número de estrangeiros que pedem para morar no Brasil mais que dobrouQuase 50 mil estrangeiros entraram com pedido de permanência e refúgio no Brasil apenas em 2013. Número é mais que o dobro do registrado em 2006
Os grandes eventos – Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos –, a democracia, a cultura e a fama de acolhimento fizeram com que o Brasil registrasse um boom nos pedidos de permanência e refúgio de estrangeiros em 2013. No ano passado, o país registrou o recorde histórico no número de solicitações com 48.272, contra 20.062, em 2006, o que significa que mais que dobrou. E mais. Apesar da grande diferença cultural e da barreira do idioma, o povo sírio, em guerra civil desde 2011, já representa a terceira maior nacionalidade de refugiados no Brasil.
O aumento no número de pedidos de permanência, no entanto, não veio acompanhado de uma estrutura adequada para atender a demanda. Levantamento do Ministério de Justiça demonstra que dos 20 mil pedidos protocolados entre agosto e dezembro do ano passado, menos da metade foram analisados, ou seja, cerca de 9,3 mil. Dos analisados, 6,6 mil foram deferidos no período. O secretário de Justiça, Paulo Abrão, confirma a deficiência e explica que a análise dos processos precisa ser detalhada e requer um tempo maior.
Com a mesma linha de raciocínio, o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, afirma que o Brasil tem que se aparelhar melhor para acolher pessoas que pedem abrigo no país. Segundo ele, diante do aumento do número de pedidos de permanência de estrangeiros, a estrutura de acolhimento tem que ser aperfeiçoada. A declaração do ministro, durante a reunião de abertura dos trabalhos da Comissão de Relações Exteriores do Senado, foi provocada pelo questionamento em relação à médica cubana Ramona Matos Rodríguez, que abandonou o Programa Mais Médicos.
O pedido de refúgio no país é autorizado quando há, contra o estrangeiro, fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas. As primeiras análises dos processos pelo Ministério da Justiça, no entanto, mostraram que a maioria veio para o Brasil por razões econômicas, em busca de melhores condições de vida e trabalho.
Cidadania
O sírio Nazir Farra ainda não domina o português, mas confirma que, mesmo com hábitos de vida tão distintos e a barreira do idioma, o Brasil foi descoberto como um bom lugar para se viver e exercer a cidadania. Ele desembarcou no Brasil com a família em setembro de 2012 e disse que veio atraído pela solidez da economia brasileira. “Eu queria que minha filha se beneficiasse da cidadania brasileira”, afirma Nazir, que prefere se comunicar em inglês.
O sírio conta que viveu a maior parte da vida no Golfo Pérsico e sofreu com o alto custo de vida no seu país, o que não ocorre no Brasil. “Em todos os países temos prós e contras, vivendo em casa ou fora. Mas optei por ter benefícios a longo prazo”, afirma. De acordo com o consulado da Síria em Belo Horizonte, desde o início do conflito a capital mineira foi escolhida como destino por pelo menos 15 famílias e não existe registro de problemas de adaptação.
Paulo Abrão explica que é possível observar que houve uma inversão nos fluxos migratórias globais. “A ONU (Organização das Nações Unidas) verificou que houve uma inversão no fluxo migratório, que era do Sul para o Norte, e, agora, é do Sul para o Sul”, explica. Segundo ele, no Brasil, o maior e mais tradicional fluxo migratório ainda é de latinos, seguidos por angolanos, portugueses e espanhóis.
O secretário de Justiça acredita que, além dos atrativos do Brasil, os conflitos internacionais são responsáveis pela dispersão dos grupos sociais. De acordo com estudo da ONU, todos os países em que foi verificado maior número de pedidos, tanto para o Brasil quanto para outras nações, têm histórico de conflito político, étnico e com disseminação de violência. A maioria é formada por Estados em desenvolvimento ou de menor desenvolvimento relativo, especialmente os da África.
Sobrevivência
Atualmente, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnur), são estimadas 214 milhões de pessoas vivendo fora dos seus países de origem, por diversas razões e motivações, como oportunidade de trabalho e sobrevivência. Mas a crise na Síria teve impacto direto no aumento de refugiados em todo o mundo no ano passado. Do total de 1,5 milhão de novos refugiados no primeiro semestre de 2013, 1,3 milhão são da Síria. Essas pessoas se abrigam principalmente nos países vizinhos – Líbano, Turquia, Jordânia e Iraque, de acordo com a Mid-Year Trends 2013.
Segundo o Ministério da Justiça, os países que mais solicitaram refúgio ao Brasil são a República Democrática do Congo, com 106 concessões, Colômbia (87), Paquistão (32) e Angola (17). Entre os países da América do Sul, Bolívia (16) e Venezuela (seis) lideram os pedidos. “O Brasil tem tradição de acolhimento. É como no caso dos haitianos que entram, sem documentos, em busca de refúgio. Para eles é dado o direito de entrar, viver e trabalhar no Brasil enquanto o processo é examinado pelo Conare (Comitê Nacional para Refugiados”, lembra o ministro Figueiredo.
Visto para haitianos
Fonte: em
Com histórias de busca por emprego, uma vida melhor ou fuga do país, imigrantes têm em comum a esperança de se estabilizarem financeiramente para trazer suas familias
O forte sotaque, carregado principalmente nas letras erres, denuncia que o técnico de construção Joseph Sluny, 43 anos, não é brasileiro. Sluny é checo e faz parte dos cerca de 500 estrangeiros que vivem em abrigos da cidade de São Paulo. Ao contrário da maioria, o Brasil não estava nos planos de Sluny. Ele saiu da República Checa com destino ao Peru, mas foi enganado, assaltado e não consegue voltar para casa.
Acostumado a viajar pela Europa em busca de trabalho, Sluny recebeu a proposta de trabalho na América do Sul e encarou a experiência como “mais uma oportunidade de ganhar dinheiro” do outro lado do mundo. No entanto, ao chegar no Peru, o amigo que o indicou para o trabalho sumiu e levou todo o dinheiro que os dois tinham conquistado juntos.
Segundo ele, a passagem de avião do Peru para Europa seria mais cara do que uma viagem em três etapas passando pelo Brasil e pela África. No entanto, quando ele chegou ao aeroporto de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, diz ter sido assaltado.
Sluny conseguiu manter apenas o passaporte. Em São Paulo desde novembro do ano passado, o visto de turista venceu em fevereiro e ele está irregular, vivendo no Instituto Lygia Jardim, na Bela Vista (região central de São Paulo), que abriga cerca de 60 homens e 40 mulheres, em situação de rua.
A gerente do instituto, Adriana Rodrigues, diz que vem tentando regularizar a situação do estrangeiro, mas esbarra na burocracia do consulado. “Eles pediram para que a família enviasse dinheiro para ele comprar a passagem de volta para a Republica Checa, mas eles disseram que não tinham condições e ele está aqui esperando. A esperança é a extradição da Policia Federal”, diz.
Apesar de a extradição ser a solução mais viável, segundo Adriana, o checo gostou do Brasil e diz quer ficar. “Gosto do Brasil e por que não ficar aqui? Quero emprego, mas não consigo porque não tenho documento”, diz.
Oportunidade
Assim como Sluny, muitos estrangeiros vêem no Brasil a oportunidade para ganhar dinheiro e, em muitos casos, melhorar as condições financeiras da família inteira.
É o caso do comerciante haitiano Attis Jean Onild, 38 anos, que deixou a mulher e dois filhos no país vizinho República Dominicana para se aventurar no Brasil. “Estou buscando trabalho para mandar buscar minha mulher e meus filhos”, diz Onild em um “portunhol” improvisado e complementado com gestos para se fazer compreender. O comerciante chegou a São Paulo no dia 6 de março deste ano e desde então está abrigado na igreja Nossa Senhora da Paz, no Glicério, região central de São Paulo. Ele tem tido aulas de português enquanto aguarda a liberação do visto, que deve demorar mais 15 dias para ser emitido. Com a documentação em mãos, Onild poderá se candidatar a vagas de empregos no país.
Segundo Onild, que morava na vizinha Republica Dominicana, a situação econômica do Haiti piorou muito depois que o terremoto atingiu o país, em 2010, e muitos haitianos buscam melhores condições de vida no vizinho e no Brasil.
Por causa dessa imigração em massa de haitianos, a República Dominica tem tentado impedir a permanência de haitianos naquela parte da ilha, segundo o compatriota de Onild, o mestre de obras Romain Ulfrene, 40 anos, que viveu por 20 anos na Republica Dominicana antes de decidir tentar a sorte no Brasil.
“Há uma crise na Republica Domenica e nós temos percebido o problema. Os que nascem lá não querem dar documentos para os hatianos. Minha filha mais velha [que tem 14 anos] nasceu na Republica Domenicana e não tem a ata de nascimento porque é filha de haitianos. Ela não existe no Haiti e nem na Republica Dominicana”, diz. Ele deixou a mulher e quatro filhos em Porto Príncipe, capital do país.
Ulfrene diz que tem procurado emprego todos os dias, mas como também não tem o visto, não é chamado para trabalhar. Por enquanto, a família manda dinheiro para ele, que já conseguiu alugar, por R$ 600, um quarto que divide com outros dois compatriotas na Liberdade, também na região central.
A percepção de que o Brasil é a “bola da vez” e o “país do futuro” foi difundida pelo ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, segundo padre Paolo Parise, diretor do Centro de Estudos Migratórios, da Casa do Migrante, onde Onild e Ulfrene estão abrigados.
“Depois do terremoto [que devastou parte do país, em 2010], o Lula [ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva] levou ao Haiti a imagem de que o Brasil é o País das Maravilhas”, diz Parise.
O abrigo fica no terreno na igreja Nossa Senhora da Paz, no Glicério, região central de São Paulo, e é endereço conhecido por acolher imigrantes e refugiados. Atualmente, a casa tem 110 estrangeiros, a maior parte deles haitianos e congoleses, segundo o padre. De acordo com o último Censo da População de Rua de São Paulo, publicado em 2012, a cidade tinha 484 estrangeiros vivendo em albergues e 10 nas ruas. Mas de acordo com o padre Parise, é muito dificil estimar quantos estrangeiros vivem na cidade hoje. “Muitos estão em situação irregular”, diz.
O carpinteiro guinéu Conde Aboubaacr, 34 anos, espera arrumar trabalho para ficar no Brasil e mandar trazer a mulher, grávida de nove meses, e os dois filhos. A família vive em Cabo Verde, onde ele morou nos últimos cinco anos e aprendeu o português.
“Eu visitei meu país [Guiné] em 2011 e conheci muitos brasileiros, que estão lá explorando minas de ouro, diamante e fosfato. Eles falaram que as condições eram melhores que da África e que eu poderia melhorar de condições de vida aqui”, disse. “Isso me deu coragem para vir”. Ele diz que conversou com a mulher e os dois decidiram juntos a viagem.
Ele também aguarda a liberação do visto para conseguir emprego aqui no Brasil. “Até fiz testes para trabalhar, mas a empresa pediu a documentação e eu não tinha”, lamenta.
Tortura
Diferentemente da maioria, o único desejo do agricultor colombiano John Rojas, 39 anos, é voltar para casa. No entanto, para salvar a própria vida, ele é obrigado a ficar no Brasil. Ele está no Instituto Lygia Jardim, na Bela Vista.
Segundo Rojas, que é natural de Pereira, capital de Risalrada, a região onde mora é centro de uma disputa entre Forças Revolucionárias da Colombia (Farc), outros grupos de guerrilha e o Exército colombiano.
Franzino, Rojas explica que foi confundido com guerrilheiro e torturado. “A polícia quase me matou. Me prenderam e me torturaram”, diz. Ele afirma já ter perdido um tio, morto por causa de disputas de terra na região. “Matavam as pessoas indiscriminadamente. Não precisava fazer parte de nenhum grupo”, diz.
Segundo ele, que exibe marcas das algemas nos punhos, a violência policial deixou sequelas ainda piores e ele sente dores constantes na região dos olhos e no abdomê, além de um problema na traqueia.
Para reparar o erro, o governo colombiano indenizou Rojas com o equivalente a R$ 25 mil, com o qual ele ajudou a irmã e a mãe, que ficaram na Colômbia, e lhe entregou uma autorização de refugio ao Brasil, onde está desde novembro. “Eu cheguei em Manaus [AM] em novembro e fiquei lá dois meses. Mas fiquei com medo porque é muito perto da fronteira. Preferi São Paulo”, onde diz estar há três meses. Ele define São Paulo como “bonita” e “assustadora”. “Mas assusta porque vivi no campo a minha vida inteira.”
Para ele, as maiores dificuldades de continuar aqui são o idioma e a saudade da família. “Espero recuperar minha saúde, me recuperar psicologicamente, e ficar como eu era antes. Sinto saudade da minha família e do campo. Espero que meu país resolva a questão da violência para que eu possa voltar para Colombia”, finaliza
Fonte: IG
A primeira, dizendo que o Brasil é “ o único (país)da América Latina, o único Bric e a única nação ocidental em desenvolvimento” que aparece entre os 12 lugares onde moradores de 65 nações – ouvidos desejariam viver.






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