“Vendo castelo onde o rei Afonso XIII pernoitou.” O anúncio é, no mínimo, incomum, embora a estratégia seja a mesma de vários bares que, para driblar a concorrência (na Espanha há um bar para cada 450 habitantes), tentam atrair turistas contando, em placas, que Ernest Hemingway esteve ali. São tantos os que usam o escritor como chamariz que uma taberna madrilenha aposta na diferença: “Hemingway não esteve aqui”.

A lista de personagens influentes que moraram ou passaram por castelos, palácios e casas senhoriais catalãs, galegas, asturianas e aragonesas é mais variada. Mas, também, mais discreta, embora a oferta desses imóveis de contos de fadas tenha crescido exorbitantemente nestes quatro duros anos de crise econômica e a demanda seja cada vez mais limitada. Não se gritam aos quatro ventos sobrenomes nem títulos de nobreza como parte de uma plano de marketing, mas, de outro lado, a venda dessas propriedades está anunciada até na internet. A crise está acelerando mudanças no protocolo social, que fariam os originais donos dessas propriedades históricas se revirarem na tumba.

— Antigamente, as vendas desses imóveis eram arranjadas como os casamentos de conveniência. Hoje, é como um supermercado: entre e compre — conta o presidente do Colégio de Sociólogos de Astúrias, Arsenio Valbuena, especialista em sociologia do consumo. — Um único intermediário, que representava os interesses da família e sabia quem poderiam ser os possíveis compradores do palácio, sondava muito discretamente se havia interesse real.

Havia muitas barreiras sociais para realizar uma compra desse tipo. Entrar em contato com os proprietários, por exemplo, era algo impossível. E se pessoas desconhecidas, com uma proposta de compra em mãos, conseguiam ter acesso ao advogado da família, a tentativa de negócio era ignorada: esse tipo de gente não gozava de credibilidade.

Manutenção caríssima, mesmo com benefícios fiscais

Agora, digitar “venta”, “castillo”, “palacio”, “palacete”, “España” no Google é suficiente para começar a sonhar. Acabou o glamour do passado, e começaram as pechinchas: um castelo custa 50% mais barato do que no já fechado ciclo de 12 anos de vacas gordas, entre 1996 e 2007, no qual a especulação fazia inflar a famosa bolha imobiliária: há de diferentes preços, de 600 mil a mais de 7 milhões. E tem mais: se der uma chorada, é bem provável que aceitem a oferta. A negociação não é feita com condes, nem duques, nem marqueses. A barreira do agente imobiliário não há quem derrube.

— Não sabemos com exatidão de quem é a grande maioria dos imóveis porque os advogados das famílias proprietárias pedem total discrição. Os donos não querem aparecer nem pintados de ouro. Algumas fotos repassadas para anunciar na internet são tiradas de ângulos que não permitem a identificação exata da propriedade — explica Rafael Canales, diretor da Aldeas Abandonadas, uma empresa imobiliária que encontrou nestes imóveis um verdadeiro filão.

Segundo Canales, se antes da crise a empresa colocava à venda cerca de cinco casas senhoriais a cada ano, agora ela recebe duas ou três por semana. Em 60% dos casos, os vendedores são os herdeiros, um grupo formado por profissionais liberais ou pessoas que vivem de renda, e que não podem enfrentar os altos custos de manutenção. Os outros 40% são formados por idosos, muitos com títulos de nobreza, que precisam se desfazer de suas propriedades.

Muitos desses imóveis já haviam passado, no século XIX, das mãos da nobreza e da Igreja para as da burguesia, e se tornaram uma herança difícil de suportar. São Bens de Interesse Cultural (BIC), sob a proteção do patrimônio histórico. Apesar de contarem com benefícios fiscais, como a isenção do Imposto de Bens Imóveis (IBI), esses imóveis precisam obrigatoriamente ser cuidados por seus donos.

— A restauração, necessariamente dirigida por um arqueólogo ou um restaurador, deve seguir critérios históricos e, para isso, é preciso usar materiais especiais. O custo de manutenção é caríssimo e não podem tentar barateá-lo contratando dois peões. Não é assim que a coisa funciona — explica a presidente do Colégio de Arqueólogos de Madri, Diana Díaz del Pozo.

Mas toda a divulgação que se faz desses suntuosos casarões, impossível de imaginar pelas gerações anteriores de proprietários, não é suficiente, em tempos de crise, para vendê-los. Se antes, pelas convenções sociais, era complicado apresentar-se como um potencial comprador, hoje a dificuldade quem impõe são os bancos, que fecharam a torneira dos créditos hipotecários. Se não há liquidez, viver como um rei só em sonhos.

Fonte: O Globo

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Fonte: Youtube