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TRUMP ameaça imigrantes

25/09/2017

Sonho ameaçado

Com o apoio de empresários, cerca de 800 mil jovens imigrantes ilegais, conhecidos como “sonhadores”, enfrentam a ira do presidente Trump

Crédito: Luiz Roberto Lima/ANBNewsInjustiça: jovens imigrantes protestam contra o presidente Trump (Crédito: Luiz Roberto Lima/ANBNews)

Gabriel Baldocchi, de Minneapolis e Washington (EUA)

Era noite na fronteira do México com os Estados Unidos. Aos 5 anos, a menina Vania Rojas mal conseguia entender por que ingressara de repente numa van lotada. Para ficar calma, ela estendeu a mão para sua mãe e obedeceu às suas ordens, mantendo-se quieta no esguio espaço debaixo de um dos assentos. A jornada terminou no Arizona, mas a viagem só acabaria em Minnesota, ao encontro de seu pai, um ano após ele ter saído em busca de uma vida melhor. O menino Jaime Ramos não teve a mesma sorte. Uma tentativa de chegar ao outro lado, a pé, anos depois, foi interrompida depois que sua mãe desmaiou no caminho.


Hubert Joly, CEO da Best Buy: “Todos os beneficiários cresceram na América e passaram por extensa bateria de checagens” (Crédito:Divulgação)

Na fronteira, onde “comemorou” o aniversário de nove anos, ele dedicou-se a decorar o nome que teria nos documentos falsificados pelos Coiotes contratados pelo pai, a um custo aproximado de US$ 2.500, que dobrou após o incidente com a mãe. Jaime atravessou a divisa no porta-malas de uma desconhecida, agarrando o seu inseparável game-boy. E, com a ajuda dos Coiotes, chegou à Califórnia, de onde voou para Minnesota. Vania, hoje com 25 anos, e Jaime, atualmente com 22 anos, casaram-se nos arredores de Minneapolis, em Minnesota, há três anos. Ela adotou o sobrenome do marido.

No papel, ambos são mexicanos, mas depois de quase 20 anos na região, sentem-se tão cidadãos americanos como o filho de um ano, nascido nos Estados Unidos. As memórias da travessia são dos anos 2000, uma das poucas recordações que guardam da terra natal. O casal integra o grupo dos chamados “dreamers” (sonhadores, em português), jovens que imigraram ilegalmente aos Estados Unidos antes dos 16 anos, seguindo os pais, e que receberam o direito de ingressar no mercado legal de trabalho graças a uma autorização concedida pelo presidente democrata Barack Obama, em 2012. O sonho passou a pesadelo com a eleição do republicano Donald Trump.

Na terça-feira 5, Trump decidiu seguir adiante com a promessa de acabar com o programa, colocando em risco cerca de 800 mil jovens beneficiários do DACA, sigla em inglês do nome oficial da iniciativa. Entre eles, 7.361 brasileiros, o sexto país na lista dos pedidos aprovados pelo governo (leia quadro ao final da reportagem). A decisão colocou o governo Trump mais uma vez em pé de guerra com o mundo corporativo. Cerca de 400 empresas assinaram uma carta ao presidente reforçando a importância do DACA. Em diferentes setores, CEOs enxergam os “sonhadores” como uma valiosa fonte de mão de obra, altamente qualificada, sem distinção entre americanos nascidos nos Estados Unidos, e necessária para a operação de seus negócios.

“Todos os beneficiários cresceram na América, foram registrados pelo governo e passaram por uma extensa bateria de checagens”, afirmou Hubert Joly, presidente da gigante varejista de eletrônicos Best Buy, que possui 1,5 mil lojas e faturamento anual de US$ 40 bilhões. “Eles estão diligentemente retribuindo a nossa comunidade e pagando impostos em dia.” A visão de Joly pode ser percebida no dia-a-dia da empresa. A varejista contratou Jaime Ramos e vem contribuindo para que ele construa uma carreira. Recém-promovido ao posto de coordenador do centro de distribuição da área de Minneapolis, o mexicano já foi convocado para dar treinamento a um grupo de Nova York. “Os meus supervisores fazem questão que eu tenha as ferramentas necessárias para crescer”, afirma. “Eles têm um plano para mim.”

Pelo cargo de coordenador, Jaime recebe hoje US$ 20,50 a hora, quase o triplo do valor que ganhava quando trabalhava sem documento no McDonald’s, aos 16 anos. O jovem é o único entre os quatro irmãos que não nasceu nos Estados Unidos. A renda de Jaime se soma hoje aos US$ 2.500 que Vania Ramos ganha como vendedora de carros da marca Lincoln, onde ela usa sua habilidade bilíngue para atender à clientela que só fala espanhol. “O programa mudou nossa vida e agora queremos dar uma vida melhor ao nosso filho”, afirma Vania. “Não vamos roubar os empregos dos americanos.” Assim como o marido, ela trabalhou sem documento no McDonald’s e calcula que ganhava cerca de US$ 1.500 por mês.

Com empregos melhores, o casal conseguiu adquirir um carro novo e planeja comprar uma casa. Um estudo coordenado por entidades de defesa dos imigrantes mostrou que 42% dos “sonhadores” passaram a ganhar mais depois de ingressar no programa. Cerca de 20% disseram ter comprado um carro e 12%, uma casa. “As empresas precisam entender, se já não entendem, que há quase um milhão de pessoas no mercado de trabalho que já receberam investimentos do governo americano, do jardim de infância até o final do ensino médio”, afirmou Keller, afirma John Keller, presidente do Centro Legal de Imigração em Minnesota.

Cálculos apresentados pela coalizão de empresas em favor dos “sonhadores” estimam uma perda aproximada de US$ 460 bilhões para a economia americana caso o programa seja definitivamente encerrado. O custo para repor esses trabalhadores no curto prazo também é alto, de US$ 6,3 bilhões, segundo a Cato, uma instituição liberal independente. Pouco mais de 70% das 25 empresas líderes do ranking das 500 maiores empresas americanas contam com “sonhadores” no quadro de funcionários. Na Microsoft, são ao menos 27. Na Apple, 250. “Eles merecem o nosso respeito como cidadãos iguais e uma solução calcada nos valores americanos”, afirmou o presidente da Apple, Tim Cook, pelo Twitter.


Direitos iguais: o historiador sul-coreano Jungrae Jang, de 27 anos, protesta em frente à Casa Branca (Crédito:Divulgação)

O grupo das empresas de tecnologia é o que exerce a maior pressão contra a Casa Branca, assim como no caso da restrição de vistos criada pelo presidente Trump a um conjunto de países de maioria islâmica, no início do ano. Algumas companhias, inclusive, são comandadas por estrangeiros. Google e Microsoft são dirigidas por dois indianos, Sundar Pichai e Satya Nadella, respectivamente. O novo CEO do Uber, Dara Khosrowshahi, é oriundo do Irã, e o fundador do Whatsapp, Jan Koum, chegou da Ucrânia aos Estados Unidos com 17 anos.

Embora muitas das empresas tenham a imigração no seu DNA, com fundadores oriundos de famílias estrangerias, a defesa de outras nacionalidades reflete uma visão pragmática de negócio. A taxa de desemprego fechou agosto em 4,4% em agosto, um dos índices mais baixos da história. Num ambiente como esse, preencher uma vaga torna-se um desafio capaz de minar o crescimento. Não importa o tamanho, setor ou região. A gráfica Page 1, no interior de Minnesota, levou um ano para preencher uma posição de coordenação na área operacional. Agora que a funcionária contratada deixou a função, a expectativa é de mais um ano até conseguir a reposição.

“Para cada vaga, talvez só tenha uma ou duas pessoas aptas para o trabalho. É muito pouco”, afirma Gail Desmet, gerente de Recursos Humanos da Page 1. “Se houver estrangeiros disponíveis, vou contratá-los, eu preciso de trabalhadores.” Ao menos 12, dos 64 trabalhadores, são imigrantes, incluindo o chefe da impressão, o mexicano Bem Galvez, que chegou ao país em 1988. A questão não respeita barreiras políticas. Em Tracy, cidade agrícola do Estado, fazendeiros que apoiaram o presidente Donald Trump reconhecem a importância dos estrangeiros. “Os Estados Unidos morreriam de fome se não fosse por eles”, afirma Dennis Fultz, dono de uma fazenda de milho de médio porte e eleitor republicano.

Proprietário de um rebanho de gados, a poucos quilômetros dali, Mike Landuyt endossa essa percepção. “Imigração é essencial para o nosso negócio”, afirma Landuyt. “É difícil encontrar mão de obra que aceite esse trabalho.” Como vice-presidente da Associação Bovina de Minnesota, ele é uma das muitas vozes fazendo lobby pela permanência dos imigrantes. Nos abates, o percentual dos estrangeiros chega a 80% do total.


Os “sonhadores”: Jaime e Vania nasceram no México e entraram ilegalmente na infância nos EUA, onde se casaram e tiveram um filho (Crédito:Divulgação)

POLÍTICA Apesar da retórica, a Casa Branca não está alheia a essa realidade. Porta-vozes reconheceram que a decisão dos “sonhadores” consumiu o presidente. A pressão corporativa pesou também sobre alguns republicanos, que passaram a se declarar a favor do programa, na contramão do grupo de 11 Estados comandados pelo partido, que ameaçavam processar a administração federal se o programa não fosse encerrado até 5 de setembro. Entrincheirado pela própria promessa de campanha, Trump tentou jogar aos dois lados.

Encerrou o programa, mas deixou aberta uma janela de seis meses para que o Congresso possa tomar as rédeas e criar uma legislação garantindo a extensão. “Congresso, prepare-se para cumprir o seu papel”, anunciou Trump, pelo Twitter. O anúncio foi seguido por protestos em todo o país. Executivos prometem uma onda de pressão ao Congresso. No passado, ao menos duas tentativas de passar programas parecidos no Legislativo falharam. “É um dia triste para o país”, afirmou Mark Zuckerberg, criador e presidente do Facebook. “A decisão não é apenas errada.

É particularmente cruel oferecer aos jovens o ‘sonho americano’, incentivá-los a sair das sombras, confiar no governo e depois puní-los.” Para quem tem os planos de vida atrelados à decisão, a sensação é de incerteza. “O Congresso não tem sido muito eficiente em passar leis nessa administração”, afirma o sul-coreano Jungrae Jang, de 27 anos, 12 vividos nos Estados Unidos. Com o diploma da faculdade de História, Jang conseguiu uma posição na prefeitura de Nova York. Seu sonho agora está ameaçado, com o risco real de deportação. “Sou americano. Não quero voltar ao meu país.”


“O presidente nos deu uma oportunidade”

Tom Emmer, deputado republicano de Minnesota, conversou com a DINHEIRO, na quarta-feira 6

Qual a diferença entre Trump e Obama?
O país queria um presidente que não fosse um político profissional. O que estão vendo é que ele não se comporta como o esperado. Obama era um comunicador muito melhor, mas também não tinha ótimas relações no Congresso. Eu gosto da pauta de Trump, mas não concordo com seu método de comunicação. Se você quer conquistar algo, não é uma boa ideia ir ao Estado de alguém e lhe dar um soco na cara. Se quiser ter sucesso, precisa conquistar as pessoas.

Foi isso que aconteceu com o programa dos jovens imigrantes?
A Justiça iria considerar o programa inconstitucional, porque era. O Obama abusou da autoridade com o DACA [ao criá-lo por decreto]. É um assunto muito sensível. Se vamos usar o caminho da lei, o presidente Trump nos deu uma oportunidade ao dizer “se o Legislativo está próximo de avançar com isso, então estou dando seis meses para que o façam”.

Mas o sr. acredita que a proposta passará?
Com certeza. Estou preocupado com o jogo político envolvendo a negociação do limite do endividamento do governo, mas o DACA é um assunto muito maior para as pessoas que estão envolvidas e para o nosso país do que um mero instrumento de política.

87 mil refugiados de Mianmar chegam a Bangladesh

04/09/2017

ONU diz que 87 mil refugiados rohingyas chegaram a Bangladesh em 10 dias

ONGs denunciaram violações dos direitos humanos e execuções extrajudiciais, e a ONU expressou ‘profunda preocupação’ pelos relatórios sobre a violência perpetrada pelas forças de segurança de Mianmar.


 

Refugiados atravessam a fronteira entre Mianmar e Bangladesh (Foto: REUTERS/Mohammad Ponir Hossain)Refugiados atravessam a fronteira entre Mianmar e Bangladesh (Foto: REUTERS/Mohammad Ponir Hossain)

Refugiados atravessam a fronteira entre Mianmar e Bangladesh (Foto: REUTERS/Mohammad Ponir Hossain)

Um total de 87.000 pessoas, em sua grande maioria refugiados rohingyas, entraram em Bangladesh desde a explosão de violência na vizinha Mianmar em 25 de agosto, informou a ONU.

Milhares de integrantes desta minoria muçulmana atravessaram a fronteira com Bangladesh desde o início dos combates e seguiram para os já lotados acampamentos de refugiados.

A violência começou após um ataque em 25 de agosto do grupo rebelde Arakan Rohingya Salvation Army (ARSA) contra quase 30 delegacias de polícia.

Desde então, o exército iniciou uma grande operação nesta região pobre e remota.

Organizações não-governamentais denunciaram violações dos direitos humanos e execuções extrajudiciais, e a ONU expressou na sexta-feira sua “profunda preocupação” pelos relatórios sobre a violência perpetrada pelas forças de segurança de Mianmar ao mesmo tempo que pediu calma para “evitar uma catástrofe humanitária”.

Os combates, que se concentram na região noroeste do país, deixaram pelo menos 400 mortos.

Este novo êxodo ocorre nove meses depois que pelo menos 70 mil rohingyas fugiram da mesma zona em meio a ataques indiscriminados do Exército após outro ataque de insurgentes dessa minoria, uma campanha militar denunciada pela ONU e ONGs pelo vulnerações dos direitos humanos.

 

Malala

 

A ativista paquistanesa Malala Yousafzai questionou, em sua conta no Twitter, o fato de Mianmar não conceder cidadania à minoria rohingyas “Se não é Mianmar, onde eles viveram por gerações, então onde será sua terra natal?”

A jovem, vencedora do Prêmio Nobel da Paz, também pediu que seu país de origem, o Paquistão, “siga o exemplo” de Bangladesh, e acolha os refugiados que buscam abrigo após fugirem da violência e do terror.

“O mundo está esperando, e os muçulmanos rohingya também estão”.

Fonte: G1

Cuidado com jovens viajando para os Estados Unidos no Governo Trump

25/08/2017

Estão prendendo nossos filhos nos EUA

Um número crescente de crianças e adolescentes do Brasil vem sendo barrado por autoridades da imigração. Enviados para abrigos, são impedidos de se comunicar com a família e tratados com truculência injustificável

Crédito: DivulgaçãoFIM DO DRAMA Após sete dias detido, Vitor Fraga obteve autorização para voltar ao Brasil – Adeus América Anna Beatriz Teophilo passou 15 dias no abrigo de Chicago: “jamais voltarei aos EUA” -Trauma Presa pela Imigração americana em 2016, Anna Stéfane Radeck diz que passou fome e frio (Crédito: Divulgação)

Imagine seu filho de 15 anos a bordo de um avião, acompanhado da avó, em uma sonhada viagem para os Estados Unidos. Ele vibra com a ideia de mergulhar em uma nova cultura e aprimorar o domínio de uma língua estrangeira em um país civilizado. Tudo parece esplêndido até o instante do desembarque. O sonho então vira pesadelo. Seu filho é preso, acusado de imigração ilegal. Não importa que ele tenha visto e nem que, mesmo acompanhado da avó, porte uma autorização dos pais para viajar ao exterior. Aos olhos da imigração americana, ele não pode ter outro destino senão uma cela. É então enviado ao abrigo do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, em Chicago. Ali, a dinâmica é semelhante à de uma prisão. As roupas são substituídas por uniformes numerados. Os objetos pessoais, como livros e celulares, confiscados. O suspeito de imigração ilegal é submetido a uma série de procedimentos de higiene e obrigado a tomar vacinas. O contato com a família é restrito, limitado a dois telefonemas por semana. As autoridades diplomáticas do Brasil sequer ajudam para tornar seu calvário menos terrível. O desespero toma conta dos pais que, do Brasil, acompanham tão atônitos quanto impotentes o destino incerto do filho. Poderiam se passar semanas e até meses antes de a Justiça americana decidir libertá-lo e devolvê-lo à família.

“É tudo muito confuso e angustiante. Mesmo com o pai lá ele teve de voltar ao abrigo”Cristina Fraga, mãe de Vitor

Foi esse tratamento brutal que o estudante Vitor Fraga, 15 anos, recebeu no aeroporto de Houston, no Texas, onde faria uma conexão para São Francisco, na Califórnia. O adolescente de Niterói, Rio de Janeiro, foi levado ao abrigo na quinta-feira 10, após longas horas de espera, pânico e desinformação. Na quinta-feira 17, após um acordo de retorno voluntário ao Brasil, Vitor recebeu sua sentença: ele seria escoltado por policiais até o voo de regresso e ficaria impedido de solicitar um novo visto de entrada nos EUA pelos próximos cinco anos. Um sonho transformado não só em pesadelo, mas em um castigo cruel.


ACORDO Vitor e o pai Renato Fraga: EUA aceitaram proposta de retorno voluntário ao Brasil (Crédito:Divulgação)

Enquanto Vitor esperava que seu destino fosse decidido por um juiz americano, no Brasil seus pais reuniam esforços para amparar o garoto. Na quarta-feira 9, o pai Renato Fraga embarcou para encontrar o filho e provar que o menino tem familiares, condições financeiras e não pretendia entrar nem viver ilegalmente nos EUA. Ele havia sido matriculado em uma escola pública pela madrinha, que vive em São Francisco. Segundo a família, aproveitaria para praticar inglês. “Era uma forma de estudar sem precisar pagar. A grande verdade é essa, mas nunca imaginamos que isso fosse acontecer”, afirma o pai.

A mãe, Cristina Fraga, que é advogada, diz que o responsável legal por seu filho no abrigo agendou um encontro entre pai e filho em um escritório fora dali. Nem mesmo depois que a Justiça dos EUA decidiu que Vitor poderia voltar ao Brasil o sofrimento da família terminou. “Ele voltou ao abrigo, mesmo com o pai lá. É algo muito angustiante”, diz a mãe.

Para a advogada de imigração Ingrid Baracchini, a existência de visto não garante a entrada em território americano. “Caso eles verifiquem que a criança afirma viajar por um motivo e descobrem outra finalidade, ela é levada a um abrigo sob custódia do Estado até que seja marcada uma audiência para averiguar se houve fraude migratória”, afirma.

A advogada Renata Castro Alves, que trabalha na Flórida, diz que nos últimos anos houve uma explosão no número de brasileiros com planos de usar o visto de turista para ficar no país. “Hoje temos leis migratórias mais rígidas, um governo anti-imigrante e uma tecnologia mais avançada para detectar irregularidades”, diz. Os casos de jovens brasileiros detidos na imigração começaram a chamar a atenção do Itamaraty no ano passado. De acordo com as estatísticas, em 2013 foram registrados apenas seis casos de menores detidos. Em 2014, 11 ocorrências. Já em 2015, foram 30 — e apenas no primeiro semestre do ano passado o número havia saltado para 100. “É um problema muito novo e a única explicação é a enorme quantidade de famílias imigrando”, afirma Luiza Lopes da Silva, diretora do Departamento Consular e de Brasileiros no Exterior.

As jovens Anna Beatriz Teóphilo Dutra e Anna Stéfane Radeck, ambas de 17 anos, foram detidas pela Imigração e levadas ao abrigo de Chicago. Anna Beatriz passaria algumas semanas com uma amiga em Boston, mas teve o trajeto interrompido no aeroporto de Detroit, em Michigan. “Ela chegou a falar que aproveitaria para treinar o inglês e houve um mal entendido. A primeira interpretação deles já sentencia o adolescente”, diz Leide Teophilo, mãe da garota. Depois do primeiro telefonema, ela perdeu contato com a filha. Em nenhum momento os oficiais da imigração procuraram a família. Toda a comunicação era intermediada pelo consulado brasileiro. Após 15 dias no abrigo, onde teve de se submeter ao tratamento ríspido dos agentes, sem poder usar sabonete e xampu, Anna Beatriz obteve a liberação para retornar ao Brasil. O episódio a deixou traumatizada. “Ela passou três meses dormindo na minha cama e não tinha mais vontade de voltar aos EUA.”

Entrada mais difícil

Anna Stéfane sofre até hoje os efeitos psicológicos da detenção. Também barrada em Detroit, ela passou o dia de seu aniversário de 17 anos, 26 de agosto, no abrigo de Chicago. “Quando a encontramos, ela estava febril, pálida e muito assustada”, afirma Liliane Carvalho, mãe da adolescente. Na audiência, a juiza chegou a se desculpar pelo impedimento. O caso também foi resolvido após um pedido de retorno voluntário. “Ela tem pesadelos até hoje e desenvolveu síndrome do pânico.”

Dias depois de Anna Stéfane ter sido barrada, outra jovem brasileira foi detida e levada para o mesmo lugar. A modelo Lilliana Matte, 17 anos, estava legalmente em Miami com a mãe Anaíde Matte havia quatro meses. Ambas pretendiam viajar para as Bahamas com amigos e familiares, mas a mãe não pode acompanhá-la porque iria à Venezuela fazer uma cirurgia de olhos. Ao retornar sozinha, a jovem foi barrada no aeroporto de Miami por viajar sem a autorização do responsável. Depois de três dias no aeroporto, a garota foi levada para Chicago. “Ela não entendia a arbitrariedade da situação, chorava quase sempre”, diz a mãe, lembrando que falava com Liliane apenas duas vezes por semana. “Sabemos que para qualquer criança é uma situação muito traumática”, diz Luiza, a diretora do Departamento Consular e de Brasileiros no Exterior. Segundo ela, qualquer discrepância nas informações é motivo de investigação. Nos últimos anos, os EUA passaram a atuar contra o tráfico de crianças de forma contundente. Por isso, diante de qualquer suspeita de serem vítimas dessa prática, crianças e adolescentes são levados aos abrigos até que sejam comprovados os vínculos com os responsáveis.

Trauma e síndrome do pânico - A adolescente de São Paulo Anna Stéfane Radeck, 17 anos, passou o dia do aniversário, 26 de agosto, no abrigo para menores de Chicago, nos EUA. “Ela começou a mandar mensagens para explicar, mas logo perdemos o contato”, diz Liliane Carvalho, a mãe da garota. “Ela tem pesadelos até hoje e acabou de fazer um tratamento para síndrome do pânico”

Trauma e síndrome do pânico – A adolescente de São Paulo Anna Stéfane Radeck, 17 anos, passou o dia do aniversário, 26 de agosto, no abrigo para menores de Chicago, nos EUA. “Ela começou a mandar mensagens para explicar, mas logo perdemos o contato”, diz Liliane Carvalho, a mãe da garota. “Ela tem pesadelos até hoje e acabou de fazer um tratamento para síndrome do pânico”

 

Da diversão ao pesadelo - A modelo brasileira Lilliana Matte, 17 anos, passou 20 dias presa em Chicago. Ela já havia passado meses nos EUA com a mãe, Anaíde Matte, que não pode acompanhá-la em uma viagem às Bahamas. Na volta aos EUA, a menina foi barrada por não possuir autorização adequada para viajar sozinha. “Ela chorava todos os dias”, diz a mãe

Da diversão ao pesadelo – A modelo brasileira Lilliana Matte, 17 anos, passou 20 dias presa em Chicago. Ela já havia passado meses nos EUA com a mãe, Anaíde Matte, que não pode acompanhá-la em uma viagem às Bahamas. Na volta aos EUA, a menina foi barrada por não possuir autorização adequada para viajar sozinha. “Ela chorava todos os dias”, diz a mãe

 

Rotina no isolamento - No abrigo de Chicago, Vitor Fraga teve de entregar seus pertences, não podia acessar redes sociais e só teve autorização para falar com os pais duas vezes por semana. Foi obrigado a passar por procedimentos de higiene e tomar vacinas. Na quinta 17, mesmo após ter autorização para voltar, foi enviado ao abrigo até que pudesse retornar ao Brasil

Rotina no isolamento – No abrigo de Chicago, Vitor Fraga teve de entregar seus pertences, não podia acessar redes sociais e só teve autorização para falar com os pais duas vezes por semana. Foi obrigado a passar por procedimentos de higiene e tomar vacinas. Na quinta 17, mesmo após ter autorização para voltar, foi enviado ao abrigo até que pudesse retornar ao Brasil
 

“Foi uma humilhação” - Em abril de 2016, Anna Beatriz Teophilo Dutra, 17 anos, passou 15 dias presa no abrigo de Chicago. Ela ficaria alguns dias com uma amiga em Boston, mas foi barrada no aeroporto de Detroit. “Quando ela falou que ia treinar o inglês, eles interpretaram mal”, diz a mãe Leide Teophilo. “Ela dizia que parecia uma prisão, se sentiu humilhada. E quando voltou passou três meses dormindo na minha cama.”

“Foi uma humilhação” – Em abril de 2016, Anna Beatriz Teophilo Dutra, 17 anos, passou 15 dias presa no abrigo de Chicago. Ela ficaria alguns dias com uma amiga em Boston, mas foi barrada no aeroporto de Detroit. “Quando ela falou que ia treinar o inglês, eles interpretaram mal”, diz a mãe Leide Teophilo. “Ela dizia que parecia uma prisão, se sentiu humilhada. E quando voltou passou três meses dormindo na minha cama.”

 

Com a posse de Donald Trump, defensor de políticas anti-imigratórias, o número de jovens brasileiros presos nos EUA tende a aumentar. As regras para a emissão e renovação do visto já estão mais rígidas, com presença física exigida durante a entrevista. “Todas as pessoas que viajam aos Estados Unidos têm a responsabilidade de certificarem que estão com o visto apropriado”, afirmou a Embaixada dos EUA no Brasil em nota a ISTOÉ. “Eles estão desenvolvendo métodos mais refinados de detectar os casos em que as pessoas pretendem permanecer no país.”, afirma Ingrid. “A ideia é diminuir o número de impedimentos, evitar prejuízo aos cofres públicos americanos tornando ainda mais difícil o processo de entrada no país.”

“Todas as pessoas que viajam aos Estados Unidos têm a responsabilidade de certificarem que estão com o visto apropriado” Comunicado da Embaixada dos EUA no Brasil

Para Luiza, do Itamaraty, muitos brasileiros deixarão de optar pela via legal, o que deve gerar casos dramáticos como o de Rhian Carlos Viana de Paula, de 12 anos, que em setembro de 2016 ficou por quatro meses detido em Chicago. “Não tínhamos informações sobre quando ele deixaria aquele lugar. Foi um processo muito demorado e doloroso para um menino tão novo”, diz Elizângela Fagundes Viana. Essas crianças terão entraves para entrar novamente nos EUA ­ — e o peso traumático das lembranças dos dias de isolamento na prisão.

Fonte: isto é

Xenofobia na Europa

13/08/2017

 

Onda de ‘turismofobia’ alcança o verão europeu

Entre ganhos econômicos e superlotação, viajantes são hostilizados

 
Morador exibe cartaz que diz “Eu não quero ir embora, vou ficar”, em protesto em Veneza: governo ameaça restringir número de turistas na cidade MANUEL SILVESTRI / REUTERS

Não é mais só o medo de ataques fundamentalistas que deve entrar na conta dos turistas. Embora bem longe desse extremo, as férias em alguns países europeus podem virar um pesadelo diante da crescente e descontrolada agressão de ativistas radicais aos viajantes estrangeiros, a quem se atribui a culpa por grande parte dos problemas urbanos. Não raro, aparece o grito de guerra “Fora o turismo desta cidade!” na Espanha, tanto em grafites nas ruas quanto na bravata de grupos jovens que irrompem em hotéis ou em ônibus de visitantes para provocar medo. O fenômeno se repete em cidades italianas, onde a massa de turistas querendo explorar monumentos toma conta dos centros históricos.

Uma dessas ações agressivas ocorreu no início do mês em hotéis de Barcelona, um dos epicentros do movimento. Houve pânico entre os hóspedes. Alguns eram idosos à espera do jantar. O evento foi cancelado em meio a uma chuva de vidros quebrados. Não houve detidos, nem é provável que haja. Por um lado, porque não parece haver vontade e decisão política para enfrentar o fenômeno. Por outro, porque é operacionalmente difícil: segundo testemunhas, os vândalos estavam disfarçados de palhaços ou encapuzados. Nos dias seguintes, eles surgiram em restaurantes da zona costeira e amedrontaram viajantes. Danificaram bicicletas de aluguel, afirmando que são usadas principalmente por turistas.

A “turismofobia” se reaquece em outros destinos do verão europeu, para além de grandes centros turísticos urbanos como Paris e Florença. Protestos com até 2,5 mil pessoas têm surgido em “La Serenissima”, como é popularmente conhecida Veneza. Parte de seus 55 mil habitantes pede políticas públicas que beneficiem quem vive na cidade histórica, enquanto mais de dois habitantes por dia se veem obrigados a deixar suas casas por conta da grande massa diária de turistas pelas ruas. Gritando o slogan “Eu não vou embora”, os manifestantes protestaram contra a alta no preço dos imóveis, a substituição de serviços essenciais por lojas de suvenires e a passagem de navios de cruzeiro por seus canais.

Luca Zaia, governador da região do Vêneto, cuja capital é Veneza, ameaçou restringir a quantidade de turistas que vão ao centro histórico diariamente. Um dos planos é controlar os acessos de pessoas e embarcações à Praça São Marcos, no coração da cidade. Outra polêmica é o comportamento pouco polido de muitos turistas nos canais e prédios históricos de Veneza. A prefeitura aumentou a multa para quem “violar o decoro”. Em Roma, a cidade se vê obrigada a fiscalizar turistas em locais como a Fontana di Trevi para evitar que subam ou danifiquem a fonte.

Palma de Mallorca, nas Ilhas Baleares; Valência; Barcelona; a Ilha de Ibiza; Nápoles; Cannes e Atenas também estão em alerta diante do mal-estar dos habitantes, que consideram que o crescimento do turismo representa exploração sem controle e elevação dos preços no dia a dia.

No entanto, a polêmica representa um dilema para a indústria turística que, em países como Itália e Espanha, representa mais de 10% do Produto Interno Bruto (PIB). O turismo estrangeiro não para de crescer para os espanhóis. A previsão para este ano é de 84 milhões de visitantes. O país tem população de 46,6 milhões e, a cada ano, perde habitantes.

— É uma bênção maldita. Seu próprio e singular petróleo. A Espanha não pode viver sem o turismo e o ataca — diz Javier Fernandez Carvajal, da Associação de Hoteleiros da Andaluzia.

‘MINHA CASA NÃO É UM HOTEL’

A aversão ao turismo barulhento e invasivo cresceu, em nível global, com o advento dos sites que oferecem apartamentos turísticos. “Minha casa não é um hotel” é um lema com o qual se identificam vizinhos indignados em Barcelona, onde essa oferta privada provocou um aumento de mais de 100% nos aluguéis.

— Não consigo casa. Hoje, pago € 500 mensais, mas o proprietário quer o apartamento para alugar a turistas. Pedem-me € 930 por um lugar pior. É ou isso ou a rua — reclamou um morador de Barcelona.

Outro componente atípico do coquetel é a reivindicação de independência. Soberanistas radicais da Catalunha e do País Basco aproveitaram a desordem para ressuscitar um vandalismo de rua de cunho separatista que estava quase desaparecido. E já anunciaram marchas contra o turismo e os estrangeiros. No rastro do problema de uma indústria que tem crescido em níveis desafiadores, encontraram uma nova fonte para se fazer ouvir.

— Em vez de se ocuparem das coisas que realmente afligem os cidadãos, os governos ficam obcecados com ficções separatistas. Logo, tudo se mescla e volta a aparecer — diz Miguel Gutiérrez, do partido espanhol Cidadãos.

 Fonte: O Globo

Dica do Terra2012: acesse o Site www.conectados.cc

26/03/2017

Site conecta brasileiros com imigrantes que oferecem aulas de idiomas, dança, comida típica e outros serviços em SP

Plataforma traz o perfil de mais de 100 estrangeiros que vendem produtos ou serviços culturais.

Francês, espanhol, percussão, dança árabe, bonecas africanas, música congolesa, artesanato boliviano, doces sírios, comida haitiana… Imigrantes que chegam ao Brasil trazem na bagagem conhecimentos que podem render um rico intercâmbio cultural com quem mora aqui.

Um site recém-lançado reuniu o perfil de mais de 100 deles, vindos de 19 países diferentes e com domínio de idiomas, culinária e habilidades artísticas, para conectá-los com brasileiros que queiram contratar seus produtos e serviços.

O site Conectados, que reúne o perfil de mais de cem imigrantes, é dividido em sessões como Dança, Culinária, Música e Pintura (Foto: Reprodução/conectados.cc)O site Conectados, que reúne o perfil de mais de cem imigrantes, é dividido em sessões como Dança, Culinária, Música e Pintura (Foto: Reprodução/conectados.cc)

O site Conectados, que reúne o perfil de mais de cem imigrantes, é dividido em sessões como Dança, Culinária, Música e Pintura (Foto: Reprodução/conectados.cc)

A plataforma, chamada Conectados.cc, foi criada em conjunto por duas ONGs brasileiras: a Bela Rua e a Conexão Cultural. “Víamos o mundo se fechando cada vez mais para os imigrantes, tratando essa questão de forma muito ruim, e quisemos criar um projeto que incentivasse a troca entre eles e os brasileiros, algo que fosse bom para todos os lados. Essa diversidade é muito importante para a cidade”, afirma Juliana Barsi, diretora executiva da Bela Rua e uma das idealizadoras do projeto.

O site é focado em estrangeiros que vêm de países com alguma vulnerabilidade, seja social, econômica, política ou ambiental – o que inclui refugiados de guerra, mas não só eles.

Por enquanto, todos os serviços oferecidos são em São Paulo. Futuramente, a ideia é expandir para outras cidades brasileiras.

 

Cadastro gratuito

 

Muitos dos imigrantes cadastrados no site foram indicados por instituições que trabalham com esse público. Todos passaram por uma entrevista. Há desde pessoas que já empreendem no Brasil há algum tempo até outras que acabaram de chegar. A partir de agora, estrangeiros que queiram oferecer seus serviços pelo site devem entrar em contato pelo formulário que fica na parte de baixo do site.

Natural do Togo, Sassou Espoir Ametoglo dá aulas de dança africana e zumba em SP (Foto: Leticia Godoy/Divulgação/Conectados)Natural do Togo, Sassou Espoir Ametoglo dá aulas de dança africana e zumba em SP (Foto: Leticia Godoy/Divulgação/Conectados)

Natural do Togo, Sassou Espoir Ametoglo dá aulas de dança africana e zumba em SP (Foto: Leticia Godoy/Divulgação/Conectados)

Eles não pagam nada para serem incluídos, e a plataforma também não fica com nenhuma porcentagem do valor dos serviços ou produtos contratados. O interessado é colocado em contato diretamente com o profissional.

Segundo Barsi, o grupo busca patrocínio para, numa segunda fase, oferecer cursos de capacitação (em empreendedorismo, por exemplo) para os imigrantes cadastrados.

Ela diz que a aceitação inicial ao projeto, que foi ao ar há duas semanas, surpreendeu. “O site está tendo muitos acessos. Recebemos diariamente e-mails de pessoas que gostaram da plataforma, e alguns ‘conectados’ já têm recebido ligações de gente interessada nos serviços. O retorno está sendo melhor do que esperávamos”, afirma.

Fonte: G1

TRUMP já começa governo mandando construir muro contra imigrantes, além de outras medidas polêmicas

26/01/2017

 

Trump culpa empresa aérea por caos em aeroportos após veto

Obama vê discriminação por ‘crença ou religião’
© Fornecido por New adVentures, Lda.

O presidente americano, Donald Trump, voltou a defender em 30/1/17 o decreto anti-imigração assinado por ele na sexta-feira (27) que proíbe por 90 dias a entrada de cidadãos de sete países nos EUA.

Trump afirmou em rede social que “apenas 109 pessoas de 325 mil foram detidas e levadas para interrogatório” e que os “grandes problemas nos aeroportos foram causados pela pane no sistema da Delta”, citando uma companhia aérea americana.

Mas a pane nos computadores da Delta, disse a empresa, não afetou voos internacionais como os que traziam os cidadãos dos sete países vetados por Trump: Irã, Sudão, Síria, Líbia, Somália, Iêmen e Iraque.

O decreto gerou caos entre agentes de fronteira, alfândega e imigração, em meio a manifestações em grandes aeroportos dos EUA no fim de semana. A medida da Casa Branca também barra a entrada de refugiados por 120 dias e suspende indefinidamente o acolhimento de refugiados da Síria.

O porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, afirmou em entrevista coletiva nesta segunda-feira que o decreto visa “colocar a segurança da América em primeiro lugar” e que Trump irá “agir em vez de reagir” no que se refere a políticas contra o terrorismo.

Na mesma entrevista, Spicer defendeu a indicação do estrategista político Stephen Bannon ao comitê de diretores do Conselho de Segurança Nacional e afirmou que ele não irá a todas as reuniões.

A Casa Branca informou ainda que, em meio à reorganização do conselho promovida por Trump, a CIA (agência de inteligência dos EUA) foi convidada a novamente integrar o comitê. Desde 2005 a agência estava fora do grupo. Com informações da Folhapress.

Fonte: msn

Trump assina ordem para construção de muro na fronteira dos EUA com o México

Outra ordem foi assinada para bloquear fundos para as ‘cidades-santuário’, que protegem imigrantes sem documentos da deportação.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou, em 25/1/1/7, uma ordem executiva para iniciar a construção de um muro na fronteira com o México, uma das principais e mais polêmicas promessas de campanha do republicano.

Trump também assinou uma ordem executiva para bloquear fundos federais para as chamadas “cidades-santuário”, que protegem imigrantes sem documentos da deportação. Os fundos federais serão abolidos para cidades que se recusem a fornecer informações às autoridades federais sobre o status de imigração de pessoas detidas nessas localidades, entre as quais estão Chicago, Nova York e Los Angeles.

Após assinar as ordens, Trump discursou a uma plateia de funcionários do Departamento de Segurança Interna e deu mais detalhes. Segundo ele, os textos ordenam:

 

  • construção imediata de um muro na fronteira
  • fim da politica de “prender e soltar” na fronteira e requer que outros países aceitem os imigrantes de volta
  • repressão às cidades-santuário
  • mais poder aos patrulheiros para mirar e retirar aqueles que apresentam uma ameaça à segurança nacional
  • contratação de mais 5 mil patrulheiros de fronteira (triplicando o número de funcionários)
  • criação de um escritório dedicado a apoiar vítimas do crime de imigração ilegal

 

Trump decreta construção de muro para separar EUA do México

“Uma nação sem fronteiras não é uma nação. A partir de hoje os Estados Unidos tomam de volta o controle de suas fronteiras”, disse à plateia. “Acabo de assinar duas ordens executivas que vão salvar milhares de vidas, milhões de empregos e bilhões e bilhões de dólares”, afirmou.

“Quero enfatizar que vamos trabalhar em parceria com nossos amigos do México para melhorar a segurança e as oportunidades econômicas nos dois lados da fronteira. Tenho uma grande admiração pelo povo mexicano e espero me reunir de novo com o presidente do México. Faremos isso em breve”, afirmou. “Também entendemos que uma economia forte e saudável no México é muito bom para os EUA”, acrescentou.

Trump fala a plateia de funcionários do Departamento de Segurança Interna sobre ordens executivas que assinou nesta quarta-feira (25) (Foto: AP Photo/Pablo Martinez Monsivais)

O presidente americano disse que discutirá com seu colega mexicano coordenação entre os dois países em questões importantes, como o desmantelamento de cartéis e a saída de armas e dinheiro ilegal dos EUA para o México. A reunião entre os líderes está prevista para o dia 31 de janeiro.

 

Construção ‘em meses’

 

Em uma entrevista concedida à ABC News divulgada antes da assinatura da ordem nesta quarta, Trump disse que a construção do muro na fronteira com o México começará “assim que possível”. Questionado sobre se seria uma questão de “meses”, o presidente disse: “eu diria em meses”. Segundo o presidente, o planejamento da construção começa imediatamente.

Fonte: G1

Brasileiros deixam o País

21/08/2016

Contra a crise, brasileiros vão viver em Portugal

Mudar para Portugal é uma alternativa para brasileiros que já têm suporte financeiro

Contra a crise, brasileiros vão viver em Portugal

Portugal está na moda. Basta caminhar pelas cidades de Lisboa, Cascais ou Porto para chegar a essa conclusão. Além do turismo, principalmente na alta temporada, há novos restaurantes, bares, cafés e lojas em cada esquina. E, nos últimos anos, Portugal tem sido a escolha de muitos brasileiros que buscam fugir da crise econômica do País e querem uma melhor qualidade de vida.

Hoje, cerca de 80 mil brasileiros residem em Portugal com vistos regulares, segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), órgão responsável pelo controle de imigração português. Mas esse número deve ser ainda maior, pois brasileiros com passaporte europeu ou que estão no país irregularmente somem das estatísticas.

“Entre os atrativos para os brasileiros, estão a qualidade de vida, a facilidade da língua, o clima, a proximidade entre as culturas, a oferta de boas universidades e o fato de Portugal estar muito em voga atualmente”, afirma Álvaro Fagundes, segundo secretário do Consulado-Geral do Brasil em Lisboa.

Com mercado de trabalho pouco aquecido e um dos salários mínimos mais baixos da Europa Ocidental (€ 557), mudar para Portugal é uma alternativa para brasileiros que já têm suporte financeiro. É o exemplo do fotógrafo Jorge Abud, de 50 anos, que há seis meses trocou seu apartamento no bairro dos Jardins, em São Paulo, por um na Estrela, na zona central de Lisboa. “Amo o Brasil de paixão, mas minha vida é mais simples e tranquila aqui. Não tenho carro, não fico horas no trânsito, quando preciso de carro para viajar alugo e não me preocupo mais com isso”, conta Abud.

A aquisição imobiliária feita por Abud lhe conferiu o chamado Golden Visa, ou Autorização de Residência para Atividade de Investimento (ARI). Trata-se de um programa do governo português que concede a autorização de residência para estrangeiros por meio da transferência de capitais no valor mínimo de €1 milhão, da criação de dez postos de trabalho, da compra de imóveis a partir de € 350 mil, no caso de construções que tenham mais de 30 anos ou que estejam em área de reabilitação urbana, entre outros investimentos.

Esse tipo de visto bateu recorde em 2017: foram emitidos 185 só nos primeiros sete meses do ano para brasileiros, segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Entre 2012, quando o visto foi criado, e 2016, foram 247.

Mercado aquecido

De olho no poder aquisitivo desse público, as imobiliárias e empreendimentos de luxo portugueses realizam feiras e eventos no Brasil para chamar a atenção de clientes em potencial.

Miguel Poisson, diretor da Sotheby’s International Realty de Portugal, líder no segmento de alto padrão, esteve recentemente viajando por São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte para mostrar os novos lançamentos no portfólio da empresa. “No nosso segmento, os brasileiros representam 10% das aquisições, atrás apenas dos ingleses e dos franceses”, diz Poisson. “É a nacionalidade que mais está crescendo nesse sentido. A média de valor dos imóveis vendidos para os brasileiros é de € 900 mil.”

Localizado entre Sintra e Lisboa, o empreendimento de luxo Belas Clube de Campo, que conta com um campo de golfe, faz muito sucesso entre brasileiros.

“Nessa nova fase do projeto, eles já representam 65% das vendas”, afirma o empresário André Jordan, fundador e presidente executivo do grupo de mesmo nome responsável pelo local. “Acho que os brasileiros vêm para Portugal porque dá para viver bem com menos dinheiro aqui”, diz Jordan.

Maria Empis, diretora da consultoria especializada em investimento imobiliário Jones Lang LaSalle (JLL) em Portugal, também vê um interesse crescente por parte dos brasileiros. “No setor residencial, eles são os que mais compram na região de Lisboa, perdem apenas para os portugueses”, afirma a executiva. Com informações do Estadão Conteúdo.

Fonte: Notícias ao minuto

Número de brasileiros barrados em Portugal salta 91,3%

2,6 pessoas são enviadas de volta para a casa por dia

© iStock

O número de brasileiros barrados nos aeroportos de Portugal teve alta de 91,3% em 2016 em comparação com o ano anterior. No total, 968 pessoas foram mandadas de volta para o Brasil no ano passado, o que corresponde a 2,6 pessoas por dia. Os dados foram fornecidos nesta semana pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), órgão responsável pela imigração em Portugal, e divulgados pela “Folha de S. Paulo”.

“Assistiu-se a um agravamento da pressão migratória em termos de imigração ilegal”, diz o documento emitido pelo órgão, que cita também que a alta em relação a 2014 foi de 198,8%.

O SEF responsabiliza a crise no Brasil pelo aumento do número de brasileiros que tenta permanecer ilegalmente no país europeu. Para as autoridades portuguesas, o crescimento da imigração ilegal é “potencialmente justificado pela manutenção da crise econômica que se verifica no Brasil desde 2014, aliada à agudização da crise política e social ao longo de 2016″.

Portugal, por conta da língua e da cultura semelhantes, é um dos destinos preferidos dos brasileiros para migração, formando a maior comunidade de estrangeiros no país.

Fonte: Notícias ao minuto

 

Canadá recruta brasileiros para atuar no setor de TI e usinagem em Québec

Candidatos devem ter domínio da língua francesa e experiência nas áreas oferecidas; salários podem chegar a R$19 mil.


 

A Agência de Desenvolvimento Econômico do Québec está recrutando 216 profissionais na América Latina das áreas da tecnologia da informação (TI) e usinagem para trabalhar no Canadá. Para concorrer a uma vaga, é necessário ter domínio da língua francesa, idioma oficial da província canadense, e experiência na área preterida.

Os profissionais de TI devem ser tecnólogos em informática ou possuir graduação em Ciência da Computação, Construção de Computadores, Engenharia Elétrica ou Eletrônica. Já para as vagas de usinagem, é necessário ter experiência em operação e programação de máquinas ou soldagem.

Na área de TI, os salários variam de 77 mil a 95 mil dólares canadenses (R$ 194 mil a R$239 mil) canadenses por ano, enquanto na área de usinagem, os valores variam de 45 mil a 65 mil dólares canadenses (entre R$ 113 mil e R$ 163 mil).

 

De Curitiba para o Québec

 

Felipe Cruz e Eliane Lima em Québec (Foto: Arquivo pessoal)Felipe Cruz e Eliane Lima em Québec (Foto: Arquivo pessoal)

Felipe Cruz e Eliane Lima em Québec (Foto: Arquivo pessoal)

O curitibano Felipe Cruz de Lima, 29, embarcou para o Québec em 2015 para trabalhar na Beton Bolduc Inc, uma empresa de cimento e paisagismo. Eletromecânico de formação, Lima se mudou para o Canadá com a esposa e dois filhos e hoje conta com um salário anual médio de 50 mil a 60 mil dólares canadenses (R$ 126 mil a R$ 151 mil).

“As dificuldades que tive foram com a língua e as expressões locais. Mas hoje já me sinto super bem integrado”, explica Lima que, antes de se inscrever para a vaga, estudou francês por três anos. O curitibano não vê perspectiva de crescimento dentro da empresa, mas garante que o país está aberto a empreendedores. “Minha esposa, por exemplo, já trabalha com seu negócio próprio, vendendo bolos e doces típicos do Brasil”, disse.

Recentemente, o casal entrou com um pedido de residência e aguarda os trâmites do processo. “Qualidade de vida foi o que mais nos motivou em vir pra cá. Não pensamos mais em voltar”, disse.

Tatyana Mendonça e o marido, Arthur Minduca, 30, em Québec (Foto: Arquivo pessoal  )Tatyana Mendonça e o marido, Arthur Minduca, 30, em Québec (Foto: Arquivo pessoal  )

Tatyana Mendonça e o marido, Arthur Minduca, 30, em Québec (Foto: Arquivo pessoal )

Formada em Ciência da Computação com mestrado em Engenharia da Computação, Tatyana Mendonça, 27, deixou o Recife e se mudou para o Canadá com o marido. Depois de dois anos no no Canadá, Tatyana prestou concurso público e foi aprovada para trabalhar na Revenu Quebec, a Receita Federal do país. “Nós brasileiros somos bem vistos aqui. O pessoal gosta do nosso trabalho, de como somos polivalentes”, disse.

Tatyana afirma ver perspectiva de crescimento onde está e também não vê razões para voltar ao Brasil. O marido de Tatyana, que também é formado em Engenharia da Computação, com mestrado em Ciência da Computação, foi selecionado para a mesma vagas. Recentemente, ambos receberam residência permanente do governo canadense.

 

Processo seletivo

 

O processo seletivo ocorre através de uma plataforma on-line, onde os candidatos devem enviar currículo já em francês. As inscrições podem ser realizadas até o dia 13 de agosto no site oficial do governo local. Não há custos para participação do processo seletivo e, caso aprovado, a empresa contratante será responsável pelos trâmites em relação a vistos e documentos de residência.

Os candidatos selecionados passarão por uma entrevista via Skype.

As oportunidades em solo canadense têm duração inicial de um a três anos, mas é possível realizar um pedido de renovação ou residência fixa após um ano de trabalho. “O candidato pode participar do PEQ (Programme de l’experience québécoise), que oferece um certificado seleção Quebec e abre as portas para a demanda da residência permanente”, disse ao G1 Janaina Kamide, conselheira em atração de talentos da Agência Québec International.

No ano passado, a concorrência para o programa foi de 39 por vaga. “Mas vale lembrar as vagas não foram todas preenchidas. Se o candidato corresponde ao perfil buscado, como experiência, formação e domínio de língua francesa, suas chances de ser contratado aumentarão”, disse Janaina.

Descontentes com a conjuntura política e econômica pela qual o país atravessa, o número de brasileiros que saiu do país aumentou 81% entre 2014 e 2016 comparado aos três anos anteriores, de acordo com dados da Receita Federal.

Fonte: G1

“Que venham os brasileiros”, diz primeiro-ministro de Portugal

António Costa afirma em entrevista que considera o ingresso de talentos em seu país um caminho para dar mais fôlego à economia

Costa: o premiê vê Portugal como base para empresas brasileiras se expandirem na Europa (Marcos Michael/VEJA)

Quando se tornou primeiro-ministro de Portugal, o socialista António Costa foi na contramão da política europeia que tendia à direita. Assumiu um país que começava a sair do fundo do poço econômico depois de um severo plano de austeridade, o que lhe deu possibilidade de abrandar ajustes e repor salários e pensões. Ao contrário da Grécia, Portugal vem obtendo indicadores positivos: o desemprego atingiu a casa de um dígito e o déficit nas contas públicas é o menor em quatro décadas de democracia.

A abertura das fronteiras a estrangeiros que queiram viver em solo português é um caminho para dar fôlego à economia. Atraídas pelas oportunidades no mercado de trabalho, levas de brasileiros estão se mudando para lá. Costa afirmou a VEJA, em sua segunda visita ao Brasil: “Somos uma boa porta de entrada para a União Europeia. Para nós, é um prazer vocês nos descobrirem. É como se estivéssemos acertando uma dívida de 500 anos”.

Fonte: Veja

 

 

 

Número de filhos nascidos de pais que não vivem juntos duplica em seis anos

População portuguesa diminui. Proporção de nascimentos “fora do casamento sem coabitação dos pais” passou de 9,2% em 2010 para 17,1% em 2016. Houve 422 celebrações de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, mais 72 do que no ano anterior

 

 

 

A grande fatia das mães em 2016 tinha entre 20 e 34 anos, mas aumentam nascimentos de mulheres com mais de 35 anos
A grande fatia das mães em 2016 tinha entre 20 e 34 anos, mas aumentam nascimentos de mulheres com mais de 35 anos DANIEL ROCHA / PÚBL

Portugal continua com um saldo natural negativo. Ou seja, confirmando as tendências dos últimos anos, em 2016 houve mais gente a morrer do que a nascer, fazendo com que a população diminua pelo oitavo ano consecutivo. Do total de 87.126 crianças nascidas, 52,8% são filhos “fora do casamento”, ou seja, de pais que não estão casados. Aumentou a proporção de filhos nascidos de pais que não vivem juntos: quase duplicou em seis anos, passando de 9,2% em 2010 para 17,1% em 2016. No ano passado, 35,7% dos nascidos eram filhos de casais que coabitam

Estas são as Estatísticas Vitais do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgadas nesta quinta-feira, que mostram que no ano passado nasceram mais 1,9% de crianças em Portugal do que no ano anterior, só que o número de mortes também aumentou em 1,8% (representando mais de 110 mil). A maioria foi do sexo masculino (quase mais 2500 rapazes).

Desde 2009, houve mais 80 mil mortes do que nascimentos

Desde 2009, houve mais 80 mil mortes do que nascimentos

Já em relação à idade das mães, a grande fatia vai para as mulheres que têm entre 20 e 34 anos (que representa 66%), enquanto o grupo das que têm menos de 20 anos continua a decrescer desde 2010 (passou de representar 4,1% dos nascimentos para 2,5%). Inversamente, as mulheres que são mães com mais de 35 anos continuam a crescer: foi quase 10% entre 2010 e 2016, passando de 21,8% para 31,5% no último ano.

Mais mortes de homens

Nos óbitos, registaram-se mais homens (55 601) do que mulheres (54 934) e a esmagadora maioria (85%) tinha mais de 65 anos. Houve ainda 278 mortes de crianças com menos de um ano, mais 28 do que no ano passado, o que significa uma taxa de mortalidade infantil de 3,2 óbitos por mil nados vivos (era 2,9 em 2015), segundo contas do INE.

Setembro continua a ser o mês em que mais crianças nasceram entre 2010 e 2016 (excepto em 2011, ano em que o mês com maior número de nascimentos foi Julho). Fevereiro mantém-se como o mês com menos nascimentos (uma regra que 2011 voltou a ser quebrada já que nesse ano Abril teve o menor número de nascimentos).

Por outro lado, se nasceram mais crianças em Setembro, já as mortes aconteceram sobretudo em Dezembro (em 2015 Janeiro tinha sido o mês com mais registos de óbitos). Apesar de a mortalidade apresentar um padrão geral sazonal – mais no Inverno, e menos na Primavera e no Verão – em 2016 houve mais óbitos em Julho e Agosto, se comparado com o período homólogo de 2015.

Já em relação aos casamentos, houve 422 celebrações entre pessoas do mesmo sexo, mais 72 do que no ano anterior. A maioria desses, 249, foi entre homens, e 173 entre mulheres. A preferência continua a ser pelo civil: dos 32.399 registados, 64,2% celebraram-se dessa forma, e 35,3% pela Igreja Católica, sendo muito baixo o número de casamentos por outras formas religiosas (0,5%).

Daqueles que se casam, a maioria já co-habitava antes de dar o nó, situação que tem vindo a aumentar significativamente nos últimos anos, passando de 44,2% em 2010 para 56,1% em 2016. O INE não registou variação significativa de 2015 para 2016 no número de casamentos, que passaram de 32.393 para 32.399.

Fonte: O Público

Descobrimento às avessas

Cada vez mais brasileiros de classe média e alta se mudam para Portugal, atraídos pelas facilidades do país europeu

Descobrimento às avessasINVESTIMENTO Os brasileiros representam 10% dos estrangeiros que compram imóveis em Portugal

 

MUDANÇA Regina Angerami e o marido, Guilherme Schibik, vão entrar legalmente no país europeu com o visto de aposentados

MUDANÇA Regina Angerami e o marido, Guilherme Schibik, vão entrar legalmente no país europeu com o visto de aposentados

 

 

 

O Brasil está descobrindo Portugal. Alguns números ilustram esse movimento de migração impulsionado pela crise brasileira e pelos vários atrativos que a nação irmã oferece. Em 2014, havia 87.493 brasileiros legais naquele país. Em 2016, já eram 116.271. Somente este ano, aumentou em 35% o número de concessões da cidadania portuguesa para a população do País. E, entre 2010 e 2017, foram mais de 87 mil nacionalidades concedidas para cidadãos do território nacional. Sendo 46.749 só em São Paulo. Os motivos para essa diáspora, justamente para Portugal, são muitos (leia quadro). A advogada carioca Nicole Adele Kertesv, que trabalha com pedidos de dupla cidadania e recolocação há 20 anos, cita, pela ordem, a violência urbana, a crise econômica e a insegurança política. “Percebo um aumento de pedidos 100% maior em relação ao mesmo período do ano passado”, afirma.

Há algumas formas de migrar legalmente para o território europeu. Por meio do visto fornecido pelo Consulado ou das Conservatórias e Registro Civil, diretamente em Portugal. A especialista em registro civil português Guiomar Bitetti aponta mais uma opção. “Quem tem dinheiro para comprar um imóvel de U$ 500 mil (R$ 1,57 milhão) ou abrir uma empresa e empregar dez portugueses, consegue o Visa Gold que, posteriormente, vira nacionalidade.” A aposentadoria também é uma porta de entrada. E essa foi a opção dos paulistanos Silvia Regina Angerami, 58, e do marido, Guilherme Schibik, 64, que desembarcarão no Algarve, litoral sul, no dia 6 de maio. Eles têm visto de aposentados, que é válido por um ano e pode ser renovado. O casal está trocando um apartamento próprio de 320m2 na capital paulista por um imóvel menor e alugado. “Será nossa nova fonte de juventude”, diz Silvia.

É mais fácil conseguir o visto para morar em Portugal do que em outros países da Europa ou nos Estados Unidos

PERFIL O paulistano Carlos Rebolo é um funcionário graduado de uma empresa de tecnologia e mora em Lisboa

 

 

 

PERFIL O paulistano Carlos Rebolo é um funcionário graduado de uma empresa de tecnologia e mora em Lisboa

 

 

 

Diferentemente de fluxos migratórios anteriores, atualmente quem está se deslocando para o país europeu é a classe média, com bom poder aquisitivo. A informação é confirmada pela diretora do departamento consular do Itamaraty, Luíza Lopes da Silva. Um exemplo do novo perfil é o paulistano Carlos Rebolo, 37, que mora em Lisboa e trabalha com países europeus e africanos para a empresa de tecnologia Hewllet Packard, a HP. “Em outras épocas, nós vínhamos para trabalhar em construção civil, faxina, trabalho pesado. Agora, tem muitos brasileiros qualificados, como é o meu caso”, diz Silva.

Apoio do Itamaraty

Se antes o departamento consular e de brasileiros no exterior do Itamaraty dava muita assistência a pessoas de baixa renda, hoje o maior problema da comunidade nacional se refere à violência de gênero, “que atinge mulheres de todas as classes sociais”, diz a diretora Luiza, baseando-se no serviço de discagem internacional, o 2030 8823, criado pelo órgão. Fugindo da crise e da violência, a carioca Abadia Vieira, 41, levou sua empresa de teatro motivacional para Lisboa há um ano. Casada e mãe de dois filhos, a família foi dividida – ela e o caçula foram para Portugal, o marido e o primogênito ficaram no Rio. “A intenção é juntar todo mundo em Lisboa”, afirma a empresária, que está confiante que fez a escolha certa. “Portugal está em uma fase positiva, de olhos no mundo. A cultura, a língua, tudo facilita na hora de apresentar projetos aqui.”

ESPERANÇA A carioca Abadia Vieira se mudou primeiro com o filho caçula. E aguarda o marido e o primogênito

 

 

 

ESPERANÇA A carioca Abadia Vieira se mudou primeiro com o filho caçula. E aguarda o marido e o primogênito

 

 

10 vantagens de se morar em portugal

1. Idioma
Há algumas diferenças no vocabulário, mas o idioma é o mesmo, o que facilita a comunicação e a adaptação

2. Facilidade na documentação
Para os brasileiros o processo de residência legal em Portugal é muito mais rápido e simplificado em relação a outros países europeus

3. Segurança
A violência é muito menor em Portugal. Enquanto o país europeu ficou em quinto lugar no Índice Global da Paz 2016, feito pelo Instituto para Economia e Paz (IEP), o Brasil ocupa a 105ª posição de nação mais pacífica

4. Sistema de Saúde
Um dos principais motivos que os brasileiros apontam para escolher Portugal: o sistema de saúde é bem melhor do que o brasileiro

5. Economia
Outro motivo apontado pelos brasileiros que moram em terras portuguesas é o custo de vida mais baixo. Viver lá é melhor e mais barato

6. Transporte e estradas
Sistema de transporte público eficiente e estradas em boas condições

7. Educação
O relatório educacional PISA 2012-2015, programa internacional de avaliação de estudantes, mostra que Portugal é o único país europeu que continua a melhorar a educação desde o começo deste século

8. Internet
Item essencial, principalmente para quem está longe da família, a Internet no país tem uma velocidade muito superior à brasileira

9. Clima
As estações são bem definidas. Invernos sem frio intenso e verões quentes e secos

10. Culinária
Restaurantes para todos os bolsos, além de ótimas opções de vinhos

Fonte: Isto É

Por que tantos cariocas estão elegendo Portugal como segunda casa

Clima agradável, qualidade de vida e facilidade da língua empolgam nova leva de imigrantes


Terraço do Rio Maravilha, gastrobar que faz homenagem ao espírito carioca, na LX Factory - Joana Dale / Agência O GLOBO

 

Dez dias ininterruptos de sol. A surpresa meteorológica, em pleno inverno europeu, encantou a artista plástica Vitória Frate e o ator Pedro Neschling, casal de cariocas que caiu de paraquedas na capital portuguesa no meio de uma temporada de estudos no Velho Continente.

 

 

— Depois de duas semanas no Norte da Europa, tínhamos dez dias livres, e a ideia era seguir para a Polônia. Mas estávamos cansados do frio e, na hora do check in, decidimos trocar Varsóvia por Lisboa. O amor foi imediato — conta Vitória, que guarda como lembrança de janeiro de 2012 fotos do casal na Torre de Belém com o sol como testemunha. — Voltamos outras vezes e, desde o ano passado, começamos a dividir a vida entre lá e cá.

O agradável clima de Lisboa — cidade que tem a média de 260 dias ensolarados por ano e cuja temperatura mínima raramente é inferior a dez graus — costuma ser um dos primeiros pontos listados pela enxurrada de brasileiros que vêm elegendo Portugal como segunda casa. Os laços que unem os dois países há mais de 500 anos, a proximidade cultural e, claro, a facilidade da língua completam o pacote.

— Às vezes, me sinto mais em casa em Lisboa do que em São Paulo — ri Vitória. — A minha família paulista vai ficar brava, mas a questão do sotaque é real. O carioquês tem muito do português lisboeta, que foi a nossa principal influência, além dos sotaques africanos. A gente chia como eles, fala os erres como eles, só pronunciamos mais as vogais, coisa que eles não fazem de jeito algum. Enquanto o sotaque paulistano tem muita influência do italiano, ? E Lisboa também tem um ar mais relaxado, como o Rio.


Vitória Frate e Pedro Neschling, na Torre de Belém: casal se divide entre lá e cá desde o ano passado - Arquivo pessoal

Em termos práticos, mudanças na legislação portuguesa são outros atrativos consideráveis. Para tentar sair da crise que assolou o país nos últimos anos, o governo lusitano criou uma série de incentivos, como benefícios fiscais e concessão de visto de residência para investimentos acima de 500 mil euros, o chamado Golden Visa. Embora sejam considerados hoje os melhores clientes das agências imobiliárias lisboetas focadas no mercado de luxo, os brasileiros representam apenas 4% dos pedidos de Golden Visa — os chineses são a grande maioria (83%).

— Os números não correspondem à avalanche de brasileiros comprando imóveis porque muitos já têm, por parte do avô ou da avó, cidadania portuguesa — ressalta Mario Vilalva, embaixador do Brasil em Portugal.

Para o diplomata, a ascensão do turismo no país e a queda no valor dos imóveis, em decorrência da crise econômica, foram determinantes para o boom:

— Quando começaram a redescobrir Portugal, inicialmente como turistas, os brasileiros passaram a enxergar Lisboa como uma possibilidade de segunda casa, como aconteceu com Miami tempos atrás — analisa Mario Vilalva.

Aguinaldo Silva, Glória Perez, Cláudia Abreu, Fernanda Torres e Paolla Oliveira, só para citar alguns nomes conhecidos, integram a cada vez mais extensa lista de proprietários na capital portuguesa.

— O que eu mais gosto de fazer em Lisboa é andar nas ruas, sem sobressaltos, descobrindo lugares — conta Glória Perez, que tem passado férias no apartamento que comprou em frente ao Parque Eduardo VII. — É tudo tão familiar, a gente se sente na casa dos avós. E está mesmo lá, não é só impressão. Além dos amigos, tenho primos em Lisboa. Primos portugueses. De modo que, quando vou, também estou em família.

Ator português que se divide entre Rio e Lisboa há mais de uma década, Ricardo Pereira está orgulhoso por testemunhar o movimento migratório.

— Fico feliz em notar que o meu país finalmente cativou os brasileiros. São duas potências irmãs que só ganham com a troca — diz o ator, que vive com a caixa de entrada lotada de e-mails de amigos cariocas pedindo dicas da terrinha.


Joana Balaguer na LX Factory: atriz criou site para fazer a ponte entre Portugal e Brasil - Arquivo pessoal

O crescente fluxo de brasileiros rumo a Portugal, seja para passar temporadas, morar ou turistar, inspirou a atriz Joana Balaguer a criar um site, o Cidades de Portugal, lançado semana passada, para fazer a ponte entre os dois países.

— Portugal está tão na moda que ganhou até a Eurocopa — brinca Joana, há um ano baseada em Lisboa com o marido, o português Paulo Miguel Palha de Souza, e o filho Martín, de 2 anos.

Endereço frequentado pelos descolados locais, a LX Factory ganhou destaque entre as primeiras publicações. A antiga fábrica de fiação e tecidos é ocupada por cafés, bares, lojinhas de design.

— A LX é o Soho de Lisboa — diz ela, que também listou os seus rooftops preferidos, entre eles o Topo, na Mouraria, o Sky Bar, na Avenida da Liberdade, e o Rio Maravilha, em Alcântara.

Um dos mais novos espaços da LX Factory, o Rio Maravilha é um gastrobar com vista panorâmica para o Rio Tejo. O horário mais concorrido é o fim de tarde, para tomar um drinque no coloridíssimo mesão, ao lado da escultura de uma mulher de braços abertos, criada sob encomenda pelo artista português Leonel Moura.

— É a namorada do Cristo Rei, que estava lá do outro lado do Tejo sozinho há um tempão — conta um garçom, enquanto serve bebidas, referindo-se ao santuário inspirado no nosso Cristo Redentor, erguido em Lisboa em 1959.

O Rio Maravilha ocupa o espaço onde antigamente funcionava a sala de convívio dos operários da fábrica.

— A ideia é que, em um mundo tão virtual, a essência do lugar inspire a convivência na vida real — conta o relações-públicas Roger Mor. — Muitas vezes, o desbloqueador de conversa é a mulher de braços abertos, que faz uma alusão ao convívio de Portugal com o restante do mundo e não deixa de ser uma grande homenagem ao Rio de Janeiro.

Em um passeio pela LX Factory, descobre-se mais um pouquinho de Brasil aqui e ali. Como a charmosa lojinha Oh! Brigadeiro, especializada no docinho, e o Café na Fábrica, que serve pão de queijo, açaí, empada de queijo e coxinha de galinha, entre outros quitutes.

— A coxinha é um dos maiores sucessos. Muitos portugueses que já moraram no Brasil vêm aqui atrás da pera, como a chamam, para matar a saudade — conta Carolina Henke, sócia dos dois estabelecimentos, que dez anos atrás foi para Lisboa fazer mestrado, casou com um português e por lá ficou.

O angolano Mário Almeida e a brasileira Mona Camargo comandam o Espelho D’Água - Lili Staros / Divulgação

A coxinha de galinha, por sinal, está em todas. O salgadinho aparece em uma versão com massa de mandioca no menu do Espelho D’Água, ao lado do “pastel de vento” e do bolinho de arroz recheado com sardinha.

— A proposta do cardápio é ressaltar as influências de Brasil, Angola e Índia na gastronomia portuguesa, como forma de mostrar uma faceta mais afetiva e nem tão evidente das expedições portuguesas — conta a paulistana Mona Camargo, curadora do espaço dirigido por seu marido, o angolano Mário Almeida.

Misto de restaurante, café, casa de shows, galeria e residência artística, o Espelho D’Água ocupa os 1.500 metros quadrados de um edifício modernista de 1940, inaugurado pelo ditador Antonio Salazar como parte da Exposição do Mundo Português, às margens do Tejo. Fica colado ao simbólico Monumento aos Descobrimentos.

Em pouco mais de um ano de funcionamento, virou uma informal embaixada lusófona, com shows semanais de músicos angolanos e brasileiros.

— Quando um artista vem para cá, ele descobre uma relação não só com a Europa, mas também com as raízes africanas — observa Mona. — Além disso, muitos portugueses que saíram do país no auge da crise em busca de oportunidades no Brasil agora estão voltando para Lisboa. Desta vez, com maridos ou mulheres brasileiros.

É mais ou menos o que aconteceu com a portuguesa Kiki Caldas, de 33 anos. Depois de cinco morando fora, ela voltou para Portugal com o marido, o paulista Felipe Kopanski. O casal trocou o apartamento onde vivia no Vidigal por uma casa em Cascais para criar a filha, Matilda, de 2 anos.

Ao lado de outros dois amigos brasileiros, os cariocas Rique Inglez e João Marcus Cavalcanti, Kiki e Felipe inauguraram há três meses a Wozen, misto de galeria de arte e estúdio de tatuagem. Atualmente, está em cartaz no espaço a exposição coletiva “Glocal”, com trabalhos de artistas da Bélgica, da Itália, de Angola, do Brasil…

— A proposta da Wozen é ser um espaço sem fronteiras — conta Kiki, que depois de ter problemas com visto no Brasil publicou no Facebook o “manifesto para cidadania mundial” intitulado WOrldcitiZENship, no qual afirma que “todo indivíduo, em sua condição de ser humano livre, possui o direito de habitar qualquer lugar do planeta”. Daí o nome da galeria.

 


Felipe Kopanski, Kiki Caldas, João Marcus Cavalcanti e Rique Inglez: três brasileiros e uma portuguesa comandam galeria “sem fronteiras” - Divulgação

A nova leva de brasileiros que está atravessando o Oceano Atlântico é recebida de braços abertos pelos portugueses. Nota-se um clima bem diferente do início dos anos 1990, quando um populoso grupo de dentistas brasileiros causou a maior ciumeira na terrinha, a ponto de os profissionais de odontologia locais pressionarem o governo português a cancelar a validação dos diplomas dos estrangeiros.

— O brasileiro não é mais tratado como um estrangeiro em Portugal — afirma o embaixador do Brasil em Lisboa, Mario Vilalva.

Baseados em Lisboa há pouco mais de um ano, os cariocas Andréa Acker e Raul de Lamare, ambos na faixa dos 50 anos, já fizeram vários amigos lisboetas.

— A concorrência das brasileiras só tem feito bem às portuguesas: a figura da gordinha clássica de buço está entrando em extinção — brinca Raul.

— Na academia onde faço ginástica, uma das aulas mais concorridas pelas portuguesas é a M.I.B., sigla de “made in Brazil”, focada em exercícios para as coxas e bumbum — emenda Andréa.

Brincadeiras à parte, os dois estão fazendo uma imersão diária na cultura portuguesa.

— Eu preciso fazer um esforço danado para não chamar ninguém de “você”. Aqui, é preciso falar na terceira pessoa, como o Pelé — conta Andréa.

O casal mora em um simpático apartamento na Estrela, que junto com o Príncipe Real seria o equivalente ao eixo Gávea-Jardim Botânico. Eles não têm data marcada para voltar para o Rio, onde ela trabalhava como produtora de grandes eventos e ele como consultor de restaurantes.

— As nossas vidas estavam em um ritmo muito frenético. Viemos em busca de uma rotina mais calma, para dar uma desacelerada — diz Raul.


Centro histórico de Cascais: passeio pela calçada de pedras portuguesas remete ao Rio - Joana Dale / Agência O GLOBO

Outro concorrido destino em território português para quem busca um estilo de vida mais pacato é Cascais, balneário a 30 quilômetros de Lisboa. Ex-moradora do Leblon, a advogada Paula Monteiro Vianna chegou a morar um ano na movimentada Rua da Misericórdia, no Chiado, mas há quatro anos, quando engravidou do primeiro filho, mudou-se para Cascais.

— A maior parte dos brasileiros que está vindo morar em Portugal está indo para Cascais. É uma vida mais calma, com uma rotina típica de bairro. Chiado e Bairro Alto, em Lisboa, acabam sendo lugares mais procurados por quem compra apartamento para passar temporadas, pois há mais opções de restaurantes e vida cultural ao redor — compara a advogada.

Nos muitos dias de sol, Paula encontra a comunidade brasileira concentrada na caminhada matinal no paredão, como os portugueses chamam o calçadão à beira-mar, que liga Cascais a Estoril:

— Aquela caminhada matinal na Praia de Ipanema é substituída pela caminhada no paredão de Cascais.

Especialista em analisar escrituras e validar diplomas de clientes brasileiros na terrinha, Paula vai e volta todos os dias para Lisboa, onde fica o seu escritório de advocacia. Sem trânsito, é um caminho de 30 minutos. Nos últimos tempos, porém, o trajeto chega a levar duas horas. A situação faz muitos cariocas compararem Cascais à Barra da Tijuca.

— Mas de Barra, não tem nada. O centro de Cascais lembra Búzios de antigamente. Se tem um lugar nos arredores que pode ser comparado à Barra, do ponto de vista dos cariocas da Zona Sul, é o Parque das Nações — explica Paula.

O Parque das Nações é a região mais nova de Lisboa. É quase uma cidade à parte. Também conhecida como Oriente, a área foi palco da Exposição Internacional de Lisboa de 1998, que celebrou os 500 anos dos Descobrimentos Portugueses. Para a ocasião, foram construídos diversos pavilhões com arquitetura moderna e tecnologia de ponta numa antiga e degradada área industrial. Alguns de pé até hoje, entre eles o famoso Oceanário e a Estação do Oriente, projetado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, o mesmo responsável pelo desenho do Museu do Amanhã. O Parque das Nações é o endereço favorito dos chineses.

Chiado, Avenidas Novas ou Santos?

Garagem, prédio com porteiro 24 horas, quarto de empregada e, se possível, vista panorâmica para o Rio Tejo. Alguns brasileiros que chegam a Lisboa querem viver com as mordomias típicas do Brasil. Lista de exigências é para quem pode. Números da Athena Advisers, empresa especializada em negócios imobiliários na Europa que acabou de abrir escritório no Rio, mostram que os brasileiros desembolsaram mais de 20 milhões de euros adquirindo imóveis no Velho Continente em 2015. A expectativa é que o valor dobre este ano.

— Garagem é um artigo de luxo no centro histórico de Lisboa — pondera a portuguesa Carlota Pelikan, consultora imobiliária Athena. — Os brasileiros são os nossos melhores clientes. Um acabou de comprar dois apartamentos nesse prédio da Rua Alecrim. Foi como investimento, para passar férias e alugar no restante do ano. É um prédio tombado que está passando por um processo de retrofit, e a construtora conseguiu reservar um andar para a garagem.

No sobe e desce das ensaboadas calçadas de pedra portuguesa do Chiado, Carlota tira o laptop da bolsa todas as vezes em que um cliente quer saber como será o resultado do retrofit de um edifício. Por fora e por dentro.

— Os brasileiros adoram o fato de os apartamentos serem entregues praticamente prontos, com máquina de lavar, microondas… — conta Carlota, enquanto mostra imagens dos projetos em 3D na tela do computador. — Os cariocas chegam a Lisboa falando em Chiado, mas aos poucos vão descobrindo novos bairros.

Espécie de Leblon no passado, o Chiado hoje é comparado a Copacabana. Mesmo saturado, continua a ser um dos metros quadrados mais caros de Lisboa: oito mil euros, em média. Mas, mesmo assim, ainda está abaixo das áreas nobres de outras capitais europeias: imóveis de luxo em Londres custam até 33 mil euros, o metro quadrado.

— Antes de o governo abrir as janelas para o investimento estrangeiro, não se vendiam imóveis em planta em Portugal, o mercado internacional era praticamente nulo. O programa do Golden Visa aguçou o apetite de quem nunca tinha olhado para cá. Hoje, já não há mais estoque para vendas, situação oposta à que estávamos vivendo em 2011 — analisa o advogado português Manuel Bento Nogueira, do escritório Legal Square, que tem a clientela dividida majotariamente entre brasileiros e chineses.


Terraço-gourmet de empreendimento lançado por arquiteto baiano, nas Avenidas Novas - Divulgação

De olho no bom momento do mercado imobiliário, o arquiteto baiano Sidney Quintela lançou, no último dia 14, o luxuoso Nouveau Lisboa, na Avenidas Novas. Em menos de 30 dias, metade dos 21 apartamentos foi vendida (três brasileiros compraram). Sete apartamentos contam com o chamado “terraço-gourmet”.

— É um conceito de utilização de espaço muito comum no Brasil e que estamos exportando para Portugal. As áreas comuns, com academia de ginástica, piscina, spa, também estão fazendo sucesso — conta Sidney. — Tradicionalmente, as moradas lisboetas têm as áreas internas dos apartamentos mais generosas. A cozinha não é pequena como as nossas, pois quem usa é o dono da casa, não há empregados. Fora isso, como há uma variação de temperatura maior, ficam muito dentro de casa no inverno.

Há dez anos, o arquiteto tem escritório em Lisboa, onde trabalha com projetos residenciais e comerciais. O Nouveau Lisboa é o primeiro empreendimento imobiliário. Mas não será o único. Outros três projetos de prédios residenciais estão em desenvolvimento, na mesma região.

— Avenidas Novas é uma área muito próxima ao centro histórico de Lisboa, a grande procura do mercado. Num raio de 600 metros, você está na Marquês de Pombal e no El Corte Inglés. E a um quilômetro está no Chiado, Bairro Alto — detalha Sidney. — Lisboa é uma porta de entrada para a Europa e um lugar onde se tem um estilo de vida muito atraente. Neste momento, os imóveis estão recuperando o preço original, pois o valor do metro quadrado estava muito aquém. Acredito que, nos próximos dois anos, vai haver um acréscimo de até 10%. E vai estabilizar por aí. Não é uma bolha.


Projeto de quarto com vista para o Rio Tejo, em prédio que será erguido em Santos, o bairro moderninho da vez - Divulgação

O bairro da vez, no entanto, é Santos, que reúne lojas de design, galerias de arte, startups. Lá está sendo erguido o Santos Design, empreendimento da Stone Capital. Os apartamentos têm vista para o Tejo, garagem, dependências, área comum com spa e academia de ginástica. E a noite local ainda é comparada ao Baixo Gávea. O que eles podem querer mais?

Dicas à moda carioca

A Vida Portuguesa: Lojinha com badulaques tradicionais de Portugal, de enlatados (foto) a cerâmica e vela. Filiais no Chiado e Intendente.

Parking: Bateu vontade de tomar um drinque no fim da tarde e, de quebra, com vista? O bar fica em cima de um edifício-garagem no Bairro Alto.

Underdogs: Galeria de arte nos armazéns e loja de pôsteres no Cais do Sodré.

A croqueteria: É autoexplicativo. Quiosque de croquetes (o de atum é um luxo), na Baixa.


Mona, lojinha de design em Santos - Joana Dale / Agência O GLOBO

Mona: Lugar pra respirar (e comprar) design. Fácil, fácil de achar. Só seguir a Rua das Janelas Verdes (a mesma da Wozen), em Santos.

 

Casa dos Ovos Moles: Para adoçar a boca e a vida, na Estrela. Trouxinha, sorvete e bolo, todos de ovos.

Manteigaria: Simples assim. Uma fábrica de pastéis de nata, no Bairro Alto. Vale comer um quentinho.

Miradouro do Adamastor: Tirando o fato de que não tem praia, é como se fosse o Arpoador, um point para ver o sol se esconder, no Chiado.

Fonte: O Globo

Como vivem os refugiados fora da Europa?

08/05/2016
Campo de refugiados  de Za'atari (Foto: AHMAD ABDO/AFP/ÉPOCA)

Vidas intermitentes: como vivem os refugiados sírios no maior campo do Oriente Médio

Apanhados no fogo cruzado de uma guerra civil sem fim, 80 mil sírios tentam tocar a vida em Za’atari, no norte da Jordânia

Uma ventania intensa sacode o contêiner de zinco, que responde com um barulho quase ensurdecedor de metal vibrando. O zunido só é suplantado pelo falatório de quem está dentro dele. Perto de 30 mulheres, sírias, discutem avidamente numa manhã de domingo em Za’atari, na Jordânia, o maior campo de refugiados do Oriente Médio. O céu está azulado e limpo, mas o sol de começo de primavera não é suficiente para mitigar os efeitos do vento gelado que castiga o norte da Jordânia.  Faz pouco mais de 10 graus célsius, mas a sensação térmica é menor. A vizinha Síria fica a 12 quilômetros e – em tempos normais, de paz – a poucos minutos de carro.

A poeira sobe, cega e dificulta a tarefa de estar fora de casa para quem teima em viver no meio do deserto.  Dentro do contêiner, faltam cadeiras a todos os presentes. O exíguo espaço de 7,5 metros por 3 metros, padrão das habitações de Za’atari, obriga quem participa do encontro a uma proximidade íntima. “Nós não queremos que você nos diga ‘te ouvimos, te ouvimos’, queremos ações concretas”, diz uma senhora, feições sérias emolduradas pelo hijab preto a um jovem jordaniano que poderia ser seu neto. A discussão do dia trata das dificuldades das mulheres em conseguir o documento dado pelas autoridades jordanianas que permite a saída temporária de Za’atari. O esquema de vigilância do campo parece de segurança máxima. No portal de acesso, um tanque militar preto dá as boas-vindas aos visitantes. Só é possível sair e entrar mediante autorização expressa da polícia.

Dentro do contêiner, as mulheres reclamam de não poder requerer, sozinhas, o tal documento, à exceção de viúvas e divorciadas. São os maridos e homens da casa os responsáveis por pedir a permissão. “Eu sou uma adulta, por que preciso que meu marido pegue a autorização para mim?”, dispara uma jovem de lenço florido. O funcionário que tenta coordenar a reunião não tem soluções para oferecer: “Não somos nós que fazemos as regras. Se seu marido concorda ou discorda, é obrigação dele ir pedir a autorização”.

As reuniões comunitárias foram uma das formas que o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), responsável pela administração de Za’atari, encontrou para ouvir as demandas dos milhares de refugiados que vivem lá. Em meados de 2013, quando o campo vivia seu pico populacional, com mais de 200 mil pessoas aglomeradas em parcos 5 quilômetros quadrados, protestos, por vezes violentos, faziam parte da rotina local. De lá para cá, a situação no campo se assentou. Nos últimos dois anos, melhorias foram implementadas. A população também diminuiu: hoje, cerca de 80 mil pessoas vivem em Za’atari.

Contêineres que servem como escolas  (Foto: Raad Adayleh/AP)

O campo foi aberto com algumas centenas de pessoas em julho de 2012.  O levante na Síria, já convertido em guerra civil, completava um ano e meio. Foi na província rural de Dara’a, na fronteira com a Jordânia, que começaram os protestos contra a prisão, tortura e morte de crianças e adolescentes que despretensiosamente picharam muros com slogans contra o presidente Bashar Al Asad, em janeiro de 2011. Foi a faísca que incendiou a Síria. Em abril daquele ano, a província sofreu com cercos, cortes de energia e água e bombardeios constantes por parte do regime de Assad. Com a violência, milhares de sírios de Dara’a buscaram refúgio ao sul – muitos tinham família na Jordânia. Assim como a maioria dos refugiados sírios na Jordânia, a maior parte da população de Za’atari veio dos vilarejos de Dara’a. Hoje, depois de cinco anos de conflito, milhares de mortos e milhões de refugiados, o campo de Za’atari caminha para seu quarto ano de existência. É um atestado do fiasco da comunidade internacional em promover  uma solução para a guerra na Síria. Ele resiste como a mais pungente lembrança de que, embora o foco do mundo seja a crise migratória na Europa, a vasta maioria dos sírios nem sequer pôde deixar o Oriente Médio.

A provisoriedade permanente de Za’atari é um pouco mitigada pela sensação de segurança e estrutura oferecidas pelo campo.  Sem dar incentivos para que o local se torne um assentamento de longo prazo, as organizações humanitárias que trabalham em Za’atari procuram construir estruturas eficientes, pouco custosas e que ofereçam o mínimo de dignidade aos refugiados. No início, as tendas de lona com o emblema das Nações Unidas eram a moradia comum no campo. Abrigo precário, especialmente em uma região de climas extremos, onde neve, tempestades de areia e inundações ocorrem com frequência, as barracas foram progressivamente substituídas pelos contêineres de zinco e aço: as “caravanas”.

Essas habitações são em sua maioria uma cortesia, bastante alardeada, dos países do Golfo. Arábia Saudita, Catar e Kuwait, que até o momento não receberam quase nenhum refugiado sírio, exibem sua generosidade com selos gigantes pintados na parte externa dos contêineres. As crianças costumam pintar por cima das inscrições, dando um toque pessoal à moradia padronizada. Andando pelo Distrito 5 (entenda a disposição do campo no mapa no final da página), em um dos contêineres habilmente pintado por seus moradores se lê: “Raji’een ya Nawa”, “Nós voltaremos, Nawa”, em referência a um vilarejo de Dara’a. Ao lado, completam: “Suriya hurra” – “Liberdade para a Síria”.

A transição para moradias mais robustas integra a sequência de iniciativas para tornar a vida em Za’atari um pouco menos árdua e atender às demandas de uma população cuja permanência tende a se prolongar. A rede elétrica, projetada para fornecer luz apenas às ruas do campo, teve de ser ampliada, porque a maioria das moradias contava com ligações remendadas – os “gatos”. A conta de luz no último inverno, sobrecarregada com o uso de aquecedores, ultrapassou US$ 1 milhão ao mês. Uma planta de energia solar projetada para suprir as necessidades locais está sendo construída pelo governo alemão e a expectativa é que funcione em 2017. AAlemanha, ansiosa por estancar o fluxo de refugiados que chega à Europa, financiou a estação de coleta e tratamento de esgoto que deverá começar a funcionar até o fim do ano.

Refugiados  em posto de saúde em Acnur (Foto: AHMAD ABDO/AFP/ÉPOCA)

“Quando cheguei aqui, o campo não tinha praticamente serviços de saúde”, diz Ibrahim al-Hariri, de 34 anos, morador de Za’atari desde 2012. Enfermeiro e professor na Síria, Ibrahim relutou em deixar Dara’a, mesmo quando sua casa foi atingida pelos bombardeios que se tornaram habituais. “Mas meu filho começou a ter pesadelos, e eu decidi que era hora de vir para a Jordânia.” Ele se juntou a outros refugiados para formar uma espécie de comitê de atendimento médico. “Começamos com três pessoas e, no final, tínhamos 120. Nós trabalhamos como voluntários por sete meses. Queríamos ajudar os feridos de guerra, pessoas que não conseguiam chegar a hospitais, mas, quando começamos a trabalhar com os administradores, passamos a ajudar nas campanhas de vacinação e de saúde”, diz Ibrahim. Hoje, ele conta feliz que os membros do comitê estão empregados nos 12 hospitais e centros de saúde de Za’atari. Ibrahim trabalha no centro pós-operatório da organização Médicos Sem Fronteiras no campo.

Ibrahim integra um grupo restrito de moradores de Za’atari com a sorte de ter um emprego fixo e razoavelmente bem pago. A maioria da população que vive lá é dependente do auxílio humanitário que chega na forma de doações, alimentos e vouchers  –  agora progressivamente substituídos por cartões com um depósito em dinheiro, para dar autonomia aos refugiados de decidirem seus gastos.

À parte o auxílio humanitário, as alternativas de subsistência são poucas. Há os trabalhos rotativos, oferecidos pelas organizações que atuam no campo. Cerca de 5 mil vagas em diferentes áreas, entre recepcionistas, limpeza e até bordadeiras em centros comunitários, e que recebem em média 1 dinar jordaniano (JD) por hora – cerca de US$ 1,41. O valor é razoável, se comparado ao que pagam os fazendeiros locais aos refugiados sírios nas lavouras que cercam Za’atari. Os cultivos agrícolas ao redor do campo parecem mais terra nua do que lavoura. Eles só chamam a atenção por causa das barracas com selo das Nações Unidas – traficadas para fora de Za’atari – que abrigam a mão de obra sazonal.  A barraca que custa ao Acnur US$ 500 sai, no mercado informal, pela bagatela de US$ 100. Na estrada até Za’atari, um motorista jordaniano aponta os sulcos das plantações. “Pepino, hortelã, salsinha, tomate, lentilhas e azeitonas”, diz ele, que faz a viagem ao campo pelo menos uma vez por semana. “A terra aqui é boa, fértil. O problema é a falta de água.” A Jordânia é um dos países do mundo que mais sofrem com a escassez crônica de água – problema agravado pelo súbito aumento populacional provocado pelos refugiados.

Em Za’atari, as mazelas que decorrem da combinação da carência de infraestrutura com ausência de perspectivas abundam: contrabando, tráfico de pessoas, violência doméstica e até prostituição. Uma funcionária dos serviços humanitários conta que os relatos de abuso sexual, principalmente de crianças, são comuns. “O mais comum são casos de famílias numerosas, os primos, os filhos dos primos, que vivem em um mesmo quarto. Muitos pais deixam Za’atari para trabalhar fora do campo ou estão na Síria. A mãe sai para trabalhar e deixa as crianças sozinhas. Isso facilita o abuso”, diz a psicóloga jordaniana Da’ed Mnezil, que já trabalhou no campo. O Acnur, que lida com os casos, afirma que não são “muitos se considerada a população de 80 mil pessoas”, mas reconhece que a violência doméstica é uma “preocupação”.
Oficialmente, refugiados não têm permissão para trabalhar no país. Mas como muitos refugiados buscam meios de subsistência e há pressão dos donos das fazendas, interessados na mão de obra barata, as autoridades jordanianas passaram a oferecer as permissões de saída. Na prática, elas funcionam também como permissões de trabalho. Quem consegue o documento para sair de Za’atari trabalha duro para receber em média 0,50 dinares por hora – cerca de US$ 1, menos do que os baratos imigrantes egípcios e paquistaneses. Não é difícil encontrar crianças trabalhando sob o sol.

Quem chegou antes, e com algumas economias, pode conseguir se instalar nas artérias principais que cortam o campo de norte a sul e que se converteram em seus centros de comércio. Na Champs-Elysées, como é apelidada a avenida mais conhecida de Za’atari, o comércio de alimentos divide espaço com o de vestidos de casamento de gosto duvidoso e de tapetes “persas” made in China. Grupos de meninas de 5 ou 6 anos circulam pelo bulevar, abraçam os visitantes e pegam em suas mãos. Depois, fazem o gesto de 5 com as mãos, pedindo 5 centavos de dinar.

“O movimento já foi melhor. Metade de quem estava aqui ou voltou para a Síria, ou emigrou para o Canadá, ou foi para a Europa”, dizAmer, de 31 anos. Ele veste um casaco verde-árvore que se vê por todo o lado em Za’atari, adornado pelo selo saudita, indicando a origem da doação. Ele mora no campo há quatro anos com a mulher e os quatro filhos e abriu uma loja de produtos de higiene há um ano e meio. Segundo Amer, os produtos mais procurados são lenços e fraldas que custam entre 0,50 e 5 dinares. As vendas não são suficientes para sustentar a família. “Com o dinheiro que consigo aqui, dá para pagar as roupas das crianças. Eu não teria sido capaz de conseguir me manter sem a assistência financeira do campo”, afirma.

É a mesma reclamação de Muhadeen Masrii, de 24 anos, dono de uma barraca de vegetais poucos metros adiante na Champs-Elysées. “No começo, era um bom dinheiro. Mas agora consigo pagar pela comida de minha família e nada mais”, diz Muhadeen. Ele e a família de 17 pessoas, todos de Dara’a, moram em Za’atari há quatro anos, onde dividem o espaço de duas “caravanas”. Em sua cidade natal, ele era dono de quitanda, junto com o pai. “O movimento está muito lento”,  diz Muhadeen. “Mas, graças a Deus, temos muita sorte,  conseguimos colocar comida na mesa. Existem outros que estão enfrentando muitas dificuldades”, diz o jovem sírio. Se pudesse, Muhadeen se juntaria àqueles que deixaram Za’atari. “Eu não consegui construir nada. Não consegui dar segurança para minha família nesses anos.

Muhadeen,24 dendedor de frutas e leguemes  em Za'atari (Foto: AHMAD ABDO/AFP/ÉPOCA)


A população de Za’atari vem diminuindo
: só no último semestre, a aglomeração caiu de 81 mil pessoas para cerca de 79 mil pessoas, segundo o  Acnur. Em 2013, quando somava 200 mil pessoas, chegou a ser o segundo maior campo de refugiados do mundo. Alguns fatores explicam o encolhimento lento e gradual do campo. Desde o início de 2015, Za’atari parou de receber novos refugiados, agora enviados para o campo de Azraq, inaugurado em 2014, no leste da Jordânia. Por ora, Za’atari só permite a entrada de novos moradores quando se trata de reagrupamento de famílias.

A maioria dos 630 mil refugiados sírios que vivem hoje na Jordânia– quase 10% da população do país – não está em campos, mas nas áreas urbanas.  Eles enfrentam a dificuldade de pagar aluguel e se manter com uma assistência limitada. Quem fica no campo prefere contar com o apoio humanitário, na esperança de voltar um dia para a Síria. Segundo o Acnur, uma em cada quatro famílias de Za’atari não tem interesse em programas de reassentamento em outros países.

Mesmo com ajuda, a adaptação é lenta. “Eu tive muita dificuldade em me ajustar às filas”, diz Fatima Nasan, de 39 anos, dona de um rosto expressivo e um sorriso fácil, emoldurados por um hijab branco. “No começo, eu achava difícil aceitar que, para conseguir pão, precisava entrar na fila.  Na Síria, era só ir ao mercado do fim da rua e comprar pão. Agora eu entendo que isso acontece com todos os refugiados no mundo. É assim que eles vivem”, diz Fatima. Sua casa no Distrito 2 – dois contêineres conectados por chapas de metal e um chão de alvenaria – é quase luxuosa comparada à dos vizinhos.

Enquanto Fatima conta sua história ao lado do marido, Farouk, e da filha adolescente, Melak, duas moscas zunem e se debatem dentro da “caravana”. É o tipo de fauna que frequenta o local no alto verão: escorpiões, cobras e afins tornam-se parte da rotina em Za’atari. “Para viver aqui, nós tivemos de esquecer da vida que tínhamos na Síria. Se nós ficássemos comparando as condições de vida que temos e tínhamos, nós não conseguiríamos seguir”, afirma Fatima. “Nós percebemos que precisávamos nos preparar e aceitar: essa é a realidade por agora.”

Ela se recorda com nitidez do dia em que chegou a Za’atari: 12 de dezembro de 2012. “Ninguém esquece quando chega aqui.” O marido, um desertor do Exército do regime de Assad, ficou com a mão ferida no bombardeio que atingiu o bairro onde moravam, em Damasco, em meio à fuga da família. Recém-chegados à Jordânia, Farouk foi para o hospital, onde ficou em tratamento por quase um ano, enquanto a família se estabeleceu no campo. “Foi extremamente difícil. Mas, quando ele ligava do hospital, eu mentia e dizia: nós estamos bem. Ele estava doente, não ia reclamar para ele por telefone”, diz ela, rindo. Antes de o marido voltar, como a distribuição de “caravanas” demorava, Fatima usou as economias que trouxe e comprou o primeiro contêiner da família, em 2013, por 150 dinares. O segundo foi adquirido em 2014.

A síria Fatima,39 anos,e a filha Melak,de 15 anos (Foto: AHMAD ABDO/AFP/ÉPOCA)

Hoje, a família tem uma rotina simples. Os filhos Ammar, de 17 anos, e Jumada, de 11, estão na escola no turno da tarde, frequentado pelos meninos. Melak, de 15, vai no turno da manhã, destinado às meninas. O Acnur calcula que perto de dois terços das crianças e jovens do campo estejam matriculados nas escolas locais. Enquanto os filhos estão na aula, Fatima trabalha com bordados em uma das organizações humanitárias em Za’atari, por um salário de 1 dinar por hora. Farouk, cujo ferimento na mão o impede de trabalhar, cuida da casa e é o encarregado de ir à distribuição de alimentos e vouchers para receber a cota destinada à família. “O que mais me importava era manter as crianças ocupadas, com coisas produtivas. Não queria que elas pensassem que iriam ficar aqui só um ou dois dias. Queria que elas aprendessem a sobreviver com força, não só deixar o tempo passar. Tirar o melhor que pudessem daqui”, diz Fatima. À tarde, a mãe cozinha com a ajuda dos filhos – depois do jantar, os pais ajudam nas tarefas da escola. Quando os irmãos estão juntos, Fatima e o marido saem para dar uma volta. “É nosso momento.”

Enquanto os irmãos e os pais de Farouk permaneceram todos na Síria, a família de Fatima está espalhada entre Dara’a, Jordânia e Alemanha, aonde um irmão dela conseguiu chegar depois de empreender a perigosa travessia pelo Mar Egeu, partindo da Turquia. A família cogitou fazer o mesmo – Farouk iria na frente com o filho mais velho, para depois solicitar a reunificação familiar. Quando faziam os preparativos, o governo turco parou de emitir vistos para sírios, em meio às negociações com a União Europeia com o objetivo de estancar o fluxo de refugiados rumo ao continente. “Perdemos nossa chance”, lamenta Farouk.

Para a família de Fatima, as opções são ainda mais restritas que a de outros refugiados – por causa da deserção do marido, voltar para a Síria, mesmo diante de um futuro pacífico, não é uma opção. Nutrem a esperança de ser contemplados por um dos poucos programas de reassentamento de refugiados que existem, como o oferecido recentemente pelo Canadá. “Desejo que as pessoas voltem a se amar na Síria, a trabalhar e a ter a vida que tinham antes. Mas voltar, para mim, não é possível”, afirma Farouk. A última lembrança que Fatima tem do país natal é da fuga da família de Damasco, em meio a um bombardeio – ela diz que, enquanto os cinco corriam, margeando paredes e muros, tentando escapar dos tiros e estilhaços, a mãe cobria a cabeça do filho mais novo com a mão, como se seu corpo pudesse impedi-¬lo de ser ferido. “Toda vez que penso nisso, eu tremo. As crianças sempre se lembram disso. E eu sempre lembro a elas que essa foi a última coisa que vimos na Síria. A não ser que a luta acabe, nós não voltaremos”, diz Fatima.

Agora, a sina da família é a espera. “Nosso trabalho é buscar oportunidades e manter a esperança. Mas está nas mãos de Deus escolher para nós quando devemos deixar o campo”, diz Farouk, resignado. Em dezembro, terão sido quatro anos vividos ali, no meio do deserto. Completarão o triste aniversário pouco depois do campo, que em julho também completará seu quarto ano. Terão sido quatro anos de estado provisório, de entretempos, de vida intermitente para os 80 mil refugiados sírios que permanecem em Za’atari. Será o quarto ano – e não parece ser o fim.

Fonte: Época

 

Africanos buscam entrada nos Estados Unidos

13/03/2016

A silenciosa onda de imigrantes africanos que tenta chegar aos EUA pelo México

Há mais de dois meses, Fahrid e Bryce abandonaram a Guiné, na África, em busca de um país melhor para viver.

Imigrantes africanos chegam ao México pela fronteira sul

Imigrantes africanos chegam ao México pela fronteira sul

Foto: Monica Gonzalez / BBCBrasil.com

Foram de avião até o Brasil e começaram então um périplo por meio de ônibus, botes e às vezes a pé passando por Peru, Equador, Colômbia, países da América Central até chegar ao sul do México.

Em Tapachula, Estado de Chiapas, cidade que faz fronteira com a Guatemala, eles descansam em um hotel até conseguir dinheiro para viajar para a Cidade do México, onde partirão para o destino final: os Estados Unidos.

“Saí do meu país por problemas políticos, estava em um partido de oposição. Agora estamos procurando um lugar onde possamos viver melhor”, disse Fahrid à BBC Mundo.

Os jovens fazem parte de uma silenciosa onda de imigrantes africanos que começaram a chegar no México há vários meses.

Maioria dos imigrantes que chegam ao México vêm da América Central, mas africanos são novo fenômeno

Maioria dos imigrantes que chegam ao México vêm da América Central, mas africanos são novo fenômeno

Foto: Getty / BBCBrasil.com

Não se sabe quantas pessoas desta região cruzam a fronteira.

Um porta-voz do Instituto Nacional de Migração do México disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, que não foi detectada uma “presença importante” de africanos.

Mas o número está aumentando: em 2013, o instituto deteve 545 pessoas que vieram da África.

Dois anos depois, em 2015, houve aumento de quase quatro vezes: foram detidas 2.045 pessoas, a maioria vinda da Somália.

Multiplicação

Tapachula é um dos principais pontos de entrada de migrantes no México, e por isso já havia recebido africanos antes.

Mas a chegada deles era esporádica, e quase sempre eram pessoas que viajavam sozinhas ou com um acompanhante.

Atualmente a situação é outra, de acordo com Claudette Walls, representante da Organização Internacional para as Migrações da cidade.

Antes, conta, detectavam “um ou dois casos”, mas o fenômeno aumentou.

As pessoas que chegam desta região têm um padrão diferente da maioria dos habitantes da América Central que chegam ao México sem documentos migratórios.

Muitos deles se entregam ao INM para conseguir um documento de saída.

Este papel permite que eles fiquem no México por 30 dias, sem risco de serem deportados enquanto procuram uma forma de sair do território.

Outros permanecem alguns dias em hotéis da cidade e depois vão de ônibus ou avião para a fronteira com os EUA.

A presença de africanos chama atenção de especialistas e organizações da sociedade civil.

“Percebemos uma forte migração extra continental da África passando por aqui”, explica Walls.

Rota compartilhada

A rota que Fahrid e Bryce segiuram é uma das mais utilizadas por imigrantes africanos.

Há várias razões: a proximidade histórica do Brasil com a África e dispensa de exigência de visto para africanos em países como o Equador, que adotou a medida em 2008.

Mas também é o caminho utilizado por grupos internacionais de tráfico de pessoas.

De acordo com especialistas, esses grupos costumam trabalhar de forma semelhante a grandes empresas legalizadas, ou seja, estabelecem alianças e acordos com organizações locais.

Hashed (esquerda), da Eritreia, e Ismael, da Somália, se conheceram no Panamá e viajaram junto até o México. Foto cortesia Animal Político.

Hashed (esquerda), da Eritreia, e Ismael, da Somália, se conheceram no Panamá e viajaram junto até o México. Foto cortesia Animal Político.

Foto: Animal Politico / BBCBrasil.com

Assim, um grupo é responsável por tirar as pessoas da África, outro faz o translado pela América do Sul e outro cuida da acolhida na parte central do continente.

Quando chegam ao México a mesma rede faz o transporte pelo país até as cidades de fronteira, principalmente Tijuana o Ciudad Juárez.

No território mexicano os grupos costumam pagar grupos como “Los Zetas”, e no último ano também o ” Cartel Jalisco Nueva Generación”.

O périplo custa entre US$ 5.000 US$10 mil, de acordo com a origem do imigrante.

Ajuda

O preço é uma das características da diáspora africana, destaca Walls.

“Não é qualquer um que pode pagar a viagem, e são dois ou três meses em trânsito”, explica.

Quem encara a viagem são pessoas com mais recursos econômicos que a média dos imigrantes, e em muitos casos também com nível de educação maior.

Também contam com parentes ou amigos nos países de destino, como nos EUA, que ajudam a se integrarem na comunidade.

É uma vantagem que outros grupos, como os da América Central, não têm. A maioria deles são jovens sem dinheiro ou que fogem da violência.

Fonte: Terra

Situação dos refugiados na Europa faz parte da separação de espíritos necessária à ascensão da Terra

16/01/2016

Recorde de pessoas deslocadas no mundo: 65,6 milhões

Recorde de pessoas deslocadas no mundo: 65,6 milhões(13 jun) Sírios que fugiram de Raqa chegam ao campo de Al-Karamah – AFP

Os conflitos, a violência e as perseguições em países como Síria ou Sudão do Sul provocaram um recorde de 65,6 milhões de deslocados em todo o mundo em 2016, anunciou a ONU nesta segunda-feira.

O número significa que 300.000 pessoas a mais foram obrigadas a fugir de suas casas na comparação com o fim de 2015, e mais de seis milhões em relação a 2014, de acordo com um relatório da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

“É o maior número desde o início dos registros sobre o tema”, afirmou Filippo Grandi, diretor da ACNUR, ao apresentar o relatório.

“É um número inaceitável e fala por si só, mais do que nunca, sobre a necessidade de solidariedade e um objetivo comum para prevenir e solucionar a crise”, disse.

O documento apresentado antes das Jornadas Mundiais do Migrante e dos Refugiados destaca que somente no ano passado 10,3 milhões de deslocados fugiram de suas casas, incluindo 3,4 milhões que atravessaram as fronteiras e se tornaram refugiados.

– Um refugiado a cada três segundos –

“Isto significa que uma pessoa a cada três segundos vira um refugiado, tempo menor que o necessário para ler esta frase”, afirma a ACNUR em um comunicado.

A maioria das pessoas que precisam fugir de suas casas consegue refúgio no próprio país e são classificadas como deslocados internos ou IDP.

No final de 2016 o mundo tinha 40,3 milhões de IDP, um pouco menos que em 2015 (40,8). Síria, Iraque e Colômbia registram os maiores números de deslocados internos.

Outras 22,5 milhões de pessoas – metade delas menores de idade – foram registradas como refugiados no ano passado, indica o relatório, que destaca que o dado representa um recorde.

Os seis anos de conflito na Síria obrigaram mais de 5,5 milhões de pessoas a buscar refúgio em outros países – somente no ano passado foram 825.000. A guerra neste país é a maior produtora de refugiados no mundo.

Ao lado dos 6,3 milhões de deslocados dentro do país, os números mostram que quase dois terços dos sírios se viram obrigados a abandonar suas casas.

Com o prosseguimento da guerra, os recursos necessários para a ajuda humanitária diminuem, informou Grandi, ao lamentar que muito pouco foi repassado ao ACNUR dos bilhões de dólares prometidos pelos doadores internacionais na conferência de Bruxelas em abril.

– Crise esquecida? –

O conflito na Síria, que deixou mais de 320.000 mortos até o momento, “está virando uma crise esquecida”, advertiu Grandi.

O diretor da ACNUR também alertou para a rápida deterioração do cenário no Sudão do Sul. O país registra a crise de refugiados e deslocados de aceleração mais intensa no mundo.

A guerra civil no Sudão do Sul, que começou em dezembro de 2013, deixou dezenas de milhares de mortos e obrigou 3,7 milhões de pessoas a abandonar suas casas, quase um terço da população do país.

O número de refugiados do país mais novo do mundo aumentou 85% no ano passado e alcançou a marca de 1,4 milhão de pessoas no fim de abril, segundo a ACNUR.

E desde então foram adicionados mais meio milhão de pessoas, destaca a agência. Muitos refugiados começaram a fugir depois que os esforços de paz, de julho de 2016, resultaram em fracasso.

Síria e Sudão do Sul foram os únicos países com deslocamentos em massa.

Mas o relatório também cita deslocamentos importantes no Afeganistão, Iraque e Sudão, entre outras nações.

Quase 70 anos depois dos palestinos terem abandonado o que se tornou o Estado de Israel, quase 5,3 milhões de palestinos continuam vivendo em acampamentos de refugiados, o maior nível já registrado, segundo a ACNUR.

O documento da ONU também indica que, apesar do auge da tensão na Europa pela crise dos migrantes, os países pobres são os que recebem o maior número de refugiados.

Um total de 84% dos refugiados estão presentes em países de renda baixa ou média, segundo a ACNUR, que atribui a culpa ao “desequilíbrio gigantesco” com a “repetida falta de consenso internacional sobre a recepção de refugiados e a proximidade de muitos países pobres às regiões de conflito”.

 Fonte: Isto é

Refugiados

Fonte: Youtube

Crianças refugiadas já são 2% dos alunos em escolas na Alemanha

Burocracia das instituições e dificuldades com o idioma dificultam integração

Novo futuro. Ghaith, ao lado do irmão mais velho, Salah, a caminho de sua nova escola: os dois vivem juntos num conjunto habitacional - Adriana Carranca
Ghaith, de 10 anos, despertou sem que o irmão precisasse chamá-lo, no apartamento onde moram em uma pequena cidade da antiga Alemanha Oriental. A mochila estava pronta desde a noite anterior — lápis de cor, canetinhas, um caderno em branco, onde começará a escrever a história da nova vida no refúgio. É o primeiro dia na escola, em dois anos, desde que a guerra mudou o curso de sua infância. Era setembro de 2014, o primeiro dia de aula em Zabadani, no Sudoeste da Síria, quando uma bomba atingiu o carro em que viajavam seu pai e o irmão do meio, Kinan, de 17 anos. Ghaith deveria estar com eles, mas, como os tios pediram carona, não havia lugar, e o irmão mais velho, Salah, levou-o para a escola de ônibus. Todos os que estavam no carro morreram.

Aos 22 anos, Salah Salem se tornou tudo para Ghaith: pai, protetor, melhor amigo. Os dois vivem sozinhos na Alemanha, onde se refugiaram. O país recebeu mais da metade dos dois milhões de pedidos de asilo à União Europeia, Noruega e Suíça (que não fazem parte do bloco) desde janeiro de 2015. Ao menos 30% são crianças e adolescentes de até 16 anos. Neste outono europeu, início do ano letivo, eles vão para a escola pela primeira vez. Segundo o Ministério de Educação da Alemanha, 325 mil crianças refugiadas estão matriculadas, 2% do total de alunos.

O sorriso de Ghaith não dava espaço à ansiedade, comum no primeiro dia de aula, especialmente quando tudo é novidade: escola, língua, cultura, amigos.

— Ele sempre gostou de estudar — diz Salah, orgulhoso, antes de engasgar e quase não terminar a frase: — Em Zabadani, nosso pai havia comprado o seu uniforme na noite anterior….

— Ele me trazia um sorvete bem grande todos os dias na volta do trabalho — Ghaith completa, enquanto enxuga as lágrimas do irmão e, pouco depois, volta a sorrir.

A Nordpark-Schule fica a três paradas, em um metrô de superfície. No portão, Ghaith larga a mão do irmão e entra sem olhar para trás. As lágrimas são agora de alegria.

— Eu acho que ele está feliz.

QUASE DOIS ANOS SEM VER A MÃE

Quando Salah já ia embora, porém, uma funcionária o chamou. A administração não localizou a matrícula de Ghaith. Salah tem dificuldade em entender o que ela diz, porque ainda não fala alemão. As escolas não têm tradutores. O irmão é retirado da sala de aula. Eles voltam para casa em silêncio, frustrados e confusos. A integração tem sido um desafio na Alemanha. Os refugiados são obrigados a aprender o idioma por seis meses, em escolas pagas pelo governo. Mas só é possível matricular-se depois de ter o pedido de asilo aceito, o que pode levar até um ano.

Salah começou as aulas há um mês, mas já acumula faltas, pois não tem com quem deixar Ghaith. Se continuar assim, corre o risco de perder o visto. Sem o certificado de proficiência, não tem permissão para trabalhar. Na Síria, cursava o terceiro ano de Direito, não reconhecido na Alemanha. Se quiser voltar à universidade, terá de começar os estudos do zero e, para isso, precisa de nota alta no teste de alemão.

— O problema na Alemanha é a burocracia. Cada serviço público depende de uma série de inscrições, verificações e autorizações por diferentes órgãos e secretarias — diz Ringo Köppe, voluntário do governo recrutado para auxiliar refugiados com a adaptação. — Para nós, alemães, lidar com isso já é muito difícil. Para os refugiados é impossível. Impossível.

Se têm o pedido de asilo aceito, os refugiados recebem o visto de residência por três anos e passam a ter o mesmo status de alemães no sistema de previdência social, com direito a benefícios como € 400 por mês aos chefes de família desempregados, entre € 40 e € 70 para material escolar dos filhos e moradia popular.

 

Salah e Ghaith vivem num apartamento de dois quartos simples, mas confortável em um conjunto habitacional. Ele arruma a casa, faz faxina, lava, passa roupa, cozinha. O pequeno quer ajudá-lo, mas o irmão não deixa, embora os dois façam tudo juntos. Vivem grudados, frequentemente abraçados. Um cuida do outro. Mas sentem falta da mãe e da irmã, de 15 anos, que continuam na Síria. Eles não se veem há quase dois anos.

A comunicação é cada vez mais difícil, porque Zabadani já não tem energia elétrica. Antes uma estação turística na fronteira com o Líbano, a cidade está sob o cerco das forças do presidente Bashar al-Assad. Salah mostra fotos do pai e do irmão, com ele e Ghaith, fazendo bonecos de neve, posando no terraço da casa de três andares com vista para as montanhas. “Assad”, ele aponta. É dali que o regime lança bombas contra a cidade.

Salah vive dividido entre a preocupação com os que ficaram e a responsabilidade de criar o caçula. Ringo, o voluntário, tenta agora ajudá-lo a trazer a mãe e a irmã para a Alemanha. Com as famílias separadas pela guerra, os que conseguiram chegar à Europa começam a juntar os cacos para refazer a vida e seguir em frente. A reunificação é prevista na Alemanha para crianças refugiadas. Mas o processo é lento e burocrático; e o resultado, incerto.

DIFICULDADE DE INTEGRAÇÃO COM ALUNOS


Família dividida. Ritaj com a mãe e a avó. no quarto do abrigo onde moram - Roberto Setton / Roberto Setton

Ahlan Darwish fugiu da Síria para estar com os filhos. Na Alemanha desde outubro, ainda luta por isso. Abdu, de 20 anos, foi o primeiro a tentar o refúgio na Europa, para escapar da convocação pelo regime de Assad para o serviço militar. Quando ele telefonou já da Alemanha, Eyhab, de 17 anos, decidiu também partir.

Antes da guerra, Ahlan dava aulas de inglês e vivia com os três filhos em um apartamento confortável em Aleppo. A maior cidade da Síria se tornou o principal campo de batalha entre as forças leais a Assad e opositores. Com a cidade sob cerco e diante da possibilidade de não ver mais os filhos, ela arriscou-se na fuga com a mãe, que tem dificuldades para andar, e a caçula, Ritaj, de 7 anos. Protegendo-a junto ao corpo, cruzou a linha de combate. Ela viu quando uma mulher foi atingida com seu bebê no colo e caiu.

— Os tiros vinham de todos os lados.

O caminho à Europa envolveu a travessia por mar, de Bodrum — praia turca onde o corpo do menino Aylan Kurdi foi encontrado — a Kos, na Grécia. Na rota dos Bálcãs, tiveram ajuda de voluntários.

— Eu olhava para ela, mas não havia como voltar — diz a mãe.

Quando chegam à Alemanha, os refugiados são registrados e distribuídos aos estados, de acordo com as vagas. Isso criou uma situação em que integrantes da mesma família que vieram em momentos diferentes não podem viver no mesmo lugar. Ahlan, mãe e a filha foram para Saxônia-Anhalt; os filhos, para Sarre.

— Como Abdu tem mais de 18 anos, eles acham que ele não precisa mais de mim, que pode viver sozinho. É esse o pensamento europeu — diz, chorando.

Todos os dias, ela procura o escritório de imigração, mas deixa o local com mais um pedido por documentos que não tem ou uma explicação que não entende. Moram em um abrigo improvisado em contêineres. Mais de um milhão ainda vivem nestas construções temporárias; outros esperam a decisão sobre o pedido de asilo em centros de emergência — tendas ou nos hangares do Aeroporto de Tempelhof.

Ahlan estava feliz ao levar a filha para o primeiro dia de aula. Na saída, descobriu outro problema com o qual terá de lidar.

 

— As crianças não querem brincar comigo, porque dizem que sou síria e me chamam de “refugiada” — contou à mãe, num tom quase inaudível.

Dias após a entrevista, Ritaj estava na saída da escola, animada com os novos amigos. Um dos irmãos a esperava no abrigo — o outro não tinha permissão para viajar. Ghaith finalmente estava matriculado.

— Eu acho que estão felizes agora— diz Ahlan. —A situação na Alemanha é melhor que a Síria, é claro, e somos muito gratos pela ajuda. Mas, se a guerra acabar, voltaremos para casa.

A nigeriana Isoke Aikpitanyi, de 38 anos, chegou à Itália com a perspectiva de trabalhar. Acabou presa em uma rede de prostituição, explorada pelas máfias italiana e nigeriana. Isoke foi humilhada, espancada, violentada pelos traficantes e obrigada a trabalhar nas ruas de Turim por 10 euros o programa.

O tráfico de nigerianas para exploração sexual na Itália tem sido denunciado há pelo menos três décadas, mas atraiu novamente a atenção da comunidade internacional quando as autoridades perceberam que os contrabandistas estão usando a rota do Mediterrâneo para infiltrar suas vítimas.

No primeiro semestre deste ano, pelo menos 3,6 mil nigerianas chegaram à Itália de barco, pela travessia entre a costa líbia para a Sicília. O número representa o dobro do ano passado, o maior salto da última década. Mais de 80%, segundo a Organização Internacional para as Migrações, ligada à ONU, foram traficadas para exploração sexual em bordeis da Itália e de outros destinos europeus.

Muitas vêm acompanhadas do “marido”, mas, como não têm documentos, é difícil saber se estão falando a verdade. As autoridades acreditam que muitos destes acompanhantes façam parte da rede de tráfico e sejam também explorados para trabalho escravo ou para pedir dinheiro nas ruas — uma nova fonte de renda para a máfia.

Essas pessoas estão sendo trazidas de seus países já com este fim, pelas mãos da mesma rede de atravessadores que lucra com o fluxo de refugiados tentando chegar à Europa.

— Eles não sabem que serão explorados. Ninguém acredita que esse tipo de coisa ainda exista, mas a escravidão moderna é uma realidade perversa — diz Isoke. Ela conseguiu escapar pelas mãos de um cliente, com quem fugiu, e hoje ajuda meninas a fazer o mesmo.

Ao chegar à Itália, são obrigadas a assumir uma dívida pela viagem que chega a 40 mil euros, segundo Isoke, a serem pagos com “trabalho”. Muitas são exploradas ao longo do caminho, principalmente na Líbia, sob ameaça de morte ou de serem devolvidas à Nigéria.

Com isso, o tráfico para fins de exploração sexual chegou a níveis sem precedentes, alertou a ONU.

— Temos percebido aumento no número de menores de idade desacompanhadas — revela Lucia Borgh, da ONG Borderline.

De um lado, a possibilidade de obter asilo garante a permanência das mulheres no país, evitando o risco de serem deportadas, o que representa prejuízo para os criminosos. De outro, quando têm o pedido negado elas se tornam presas fáceis dos traficantes.

— Essas mulheres escapam da miséria, de conflitos, da violência por grupos armados como Boko Haram, para serem exploradas na Europa — diz o eritreu Abraha Tewolde, na Itália há 40 anos. Ele trabalha como tradutor para organizações humanitárias e, no tempo livre, percorre as ruas tentando identificar focos de exploração.

Segundo ele, os criminosos se beneficiam de falhas no sistema de recepção italiano. Após desembarcar nos portos da Itália, os que chegam pelo Mediterrâneo são registrados e encaminhados para abrigos em diferentes cidades, onde vivem por conta própria à espera de decisão sobre o pedido de asilo. As mulheres têm simplesmente desaparecido desses centros.

As autoridades estimam que 120 mil mulheres sejam exploradas para prostituição na Itália, um terço delas nigerianas.

Migrantes ilegais são explorados em situações análogas à escravidão

O sudanês Mustafa Said, de 29 anos, espera ansioso o período de colheita de tomates na costa oriental da Sicília, na Itália. Ele não tem onde morar e vive como nômade, migrando de lavoura em lavoura no rastro das safras. Está agora acampado num terreno cujo proprietário desconhece — seu contato é com um atravessador, a quem se refere por “patrão” e descreve como o “dono” dostrabalhadores. No pico da safra, a fazenda mantém mais de 200 homens em situação análoga à escravidão, todos estrangeiros. A exploração de refugiados e migrantes é a nova face da economia do Mediterrâneo. Há outra, ainda: a das ruas. A reportagem encontrou dezenas de refugiados e migrantes dormindo nas ruas e mendigando nos faróis de Catânia, Palermo, Messina, Trapani, Siracusa, vítimas de políticas adotadas pela União Europeia (UE) no último ano, que estão jogando milhares na clandestinidade. Mustafa dorme numa precária barraca de plástico; outros, ao relento. Não há eletricidade, água potável ou esgoto no acampamento improvisado pelos trabalhadores; o banheiro é a terra. As condições de estadia e na lavoura são desumanas. Saem antes do amanhecer, por volta de 4h, e só retornam após o sol se pôr. Na Europa de Mustafa, as condições de vida parecem com as do país de onde fugiu. — A diferença é que aqui não tem guerra, o resto é mais ou menos igual — diz. — Se conseguisse trabalho contínuo, a vida melhorava. Porque na minha terra (uma aldeia na fronteira entre Sudão e Sudão do Sul) também isso não tem. Aqui só consigo trabalho na colheita. Quando termina, acaba o dinheiro. Então, eu migro para outra lavoura, e outra. Desde que cheguei, não consegui deixar essa vida. A mãe de Mustafa morreu, o pai e os irmãos mais jovens ficaram para trás — refugiar-se exige dinheiro. Somente ele e outro irmão migraram, ambos estão nas mãos de intermediários que selecionam trabalhadores para as lavouras do Sul da Itália: Sicília, Calábria, Puglia, Campânia. — Negros fortes, feito eu e meu irmão, têm mais chance, porque aguentam mais horas e carregam mais peso — conta Mustafa. Nas raras vezes em que conseguem juntar algum dinheiro, enviam o montante para a família no Sudão. Mustafa não tem coragem de dizer ao pai que o sonho da Europa se transformou em pesadelo. Não poder mandar ajuda a eles lhe tira o sono. — É uma grande fonte de estresse psicológico para essas pessoas, porque os familiares acreditam que os que migraram estão melhor de vida e os pressionam para que enviem dinheiro. Muitas dessas famílias investiram tudo para mandar o filho à Europa — afirma o padre Carlo Dantom, que abriga em sua igreja, em Siracusa, refugiados e migrantes excluídos do sistema de proteção italiano. Paróquia na Sicília já acolheu 20 mil Mais de 20 mil, a maioria ilegal, passaram pela casa mantida com doações nos fundos da paróquia. A maioria dos que se sujeitam à exploração não tem documentos regulares. Muitos tiveram o pedido de asilo recusado. A ONG Oxfam estima que mais de cinco mil migrantes, principalmente do Norte e Oeste da África, receberam a carta de expulsão desde setembro de 2015, quando a UE adotou nova política de registro de migrantes e refugiados, na tentativa de excluir aqueles que buscam asilo por questões econômicas, embora isso contrarie leis internacionais. O documento determina que deixem o país em uma semana, ainda que as autoridades saibam ser improvável que obedeçam. Mas mesmo que quisessem, como Mustafa, eles não têm dinheiro para voltar para casa. Mais de 90% deles caem na clandestinidade — e na teia de criminosos que lucram com o trabalho escravo e as ruas. — A polícia, as autoridades, os empregadores, todos sabem que eles não têm papéis. Mas fazem vista grossa porque a ilegalidade é uma forma de controle sobre eles — critica o padre Carlo. — O uso de ilegais barateou os custos da produção. São eles que hoje sustentam a agricultura mediterrânea. Mustafa recebe pelo que colhe. A colheita do tomate, base da culinária italiana e dos molhos para exportação, é a que melhor paga: € 6 por contêiner de 200kg, no caso dos tomates pequenos, e € 3, dos maiores. Quem pesa é o “patrão”, e Mustafa não tem alternativa, se não confiar nele. Os atravessadores protegem os donos de terra de processos por trabalho escravo, embora seja improvável que um ilegal consiga ingressar com ação por direitos na Justiça. — Esta é a face secreta da economia italiana — lamenta o padre Carlo. — Eles não têm direito a nada, porque são invisíveis ao sistema. Perderam o link com a sociedade. Desconhecem seus direitos, estão confusos, amedrontados, vivendo escondidos. É a mão de obra perfeita para exploração. O dinheiro que Mustafa recebe não dá para moradia, por isso dorme na lavoura. Entre as safras, faz bicos de pedreiro, mas normalmente é forçado a complementar o orçamento mendigando. Já Hamza, 26 anos, fugiu da Somália após um carro-bomba explodir junto ao pequeno comércio da família em Mogadíscio. O prédio desabou. Como muitos que fogem do Chifre da África, cruzou 9.675km em ônibus, caminhões e a pé numa jornada de 18 meses por Quênia, Uganda, Sudão do Sul, Sudão e, pelo deserto, até a Líbia. Em cada parada, fazia bicos para custear o próximo trecho. Na Líbia, acabou em uma prisão em Gharyan, cerca de 80km de Trípoli, da qual escapou num levante. Foi recapturado, agora por contrabandistas, e colocado numa casa cuja localização desconhece. — Eles queriam US$ 3 mil por minha libertação. Se não conseguiam falar com minha família, me batiam até eu desmaiar. Quando viram que a família não mandaria o dinheiro, soltaram-no. Hamza diz que seguiu sem destino até se esconder na boleia de um caminhão. Assim chegou a uma fazenda. Trabalhou na lavoura por quatro meses, pelos quais recebeu 500 dinares (R$ 1.180), dinheiro com que pagou a travessia de barco de Sabara, na costa líbia, para a Sicília. Em Catânia, fez bicos para pagar a viagem de ônibus a Munique, na Alemanha, onde ficou por dois anos. Há seis meses, foi colocado num avião e deportado de volta a Milão, com base na Convenção de Dublin. O sistema italiano lhe dá abrigo até que o pedido de asilo seja processado. Depois disso, perde a proteção. Hamza passou a viver nas ruas de Catânia com dois amigos somalis. De dia, perambula pelas proximidades da estação de trem, onde contrabandistas costumam recrutar estrangeiros para a lavoura ou mercado informal. Convenção de Dublin obriga a pedido de asilo no país de chegada A Convenção de Dublin, de 2013, prevê que pedidos de asilo só podem ser feitos nos países de chegada. Em setembro, agência da UE para controle de fronteiras (Frontex) passou a colher ainda nos portos as impressões digitais. Isso tem mantido milhares na Itália, principal entrada dos que tentam chegar à Europa, após acordo da UE com Turquia, que prevê deportação dos que chegam pela Grécia. A nova política foi justificada sob promessa de que ao menos 160 mil seriam realocados para outros países da Europa. Mas, até o primeiro semestre, pouco mais de 800 foram realocados da Itália. Somente este ano, mais de 112 mil pessoas chegaram ao país pelo mar, segundo a Organização Internacionalpara as Migrações. E eles continuam chegando — dez mil novos na última semana. Próxima Migrantes ilegais são explorados em situações análogas à escravidão

Fonte: O Globo

Drama persistente de imigrantes expõe fracasso de políticas da União Europeia

 

 

 

 

 

Incapaz de encontrar soluções eficazes contra a crise migratória mais grave no continente desde a Segunda Guerra Mundial, a União Europeia (UE) volta a ver um fluxo descontrolado de refugiados chegando às suas fronteiras e se aglomerando em centros de acolhimento. Após uma operação de resgate salvar 6.500 migrantes africanos anteontem no litoral da Líbia e outros três mil ontem, autoridades temem um fluxo incontrolável na rota do Norte da África em direção à Itália pelo Mediterrâneo. Enquanto isso, no Norte do continente, ocorre o aumento exponencial da população do campo francês de Calais, no Canal da Mancha, que, mesmo tendo passado por remoções em massa, teve suas áreas reocupadas nos últimos meses e deve chegar a dez mil habitantes nos próximos dias. Os dois episódios ilustram o fracasso das tentativas europeias de sanar o problema da imigração ilegal.

Símbolo da dificuldade em realocar os imigrantes que tentam chegar ao Reino Unido, a reocupação do improvisado campo em Calais — conhecido como A Selva — representa um baque na nova política do governo francês de distribuir milhares de imigrantes por centros de acolhida (de cinco mil vagas, duas mil foram ocupadas) e usar contêineres transformados em habitações.

FUGA EM MASSA PELO ALTO-MAR

As estimativas são de que a população local tenha triplicado desde as remoções do primeiro semestre. Enquanto isso, vizinhos e comerciantes da cidade prometeram bloquear a estrada que leva ao porto a partir da próxima semana, até que o acampamento seja desmantelado. Eles alegam o aumento da violência — o que os próprios migrantes admitem.

— Há brigas aqui toda hora agora. Você pode ser esfaqueado por dinheiro — advertiu ao “Telegraph” o afegão Rais, 23 anos, aguardando uma oportunidade para cruzar o canal e chegar a Dover, no lado britânico.

O ex-presidente Nicolas Sarkozy e o ex-primeiro-ministro Alain Juppé, candidatos presidenciais para 2017, defenderam o fim do bloqueio na fronteira terrestre com o Reino Unido, na entrada do Eurotúnel do lado francês, deixando o caminho livre para a saída dos migrantes. A oposição alega que, com a saída britânica da UE, é hora de forçar Londres a resolver o assunto e tirar a pressão da França. Ontem, no entanto, a medida foi descartada numa reunião entre o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, e a nova secretária do Interior britânica, Amber Rudd.

“Estamos comprometidos em trabalhar juntos para fortalecer a segurança da fronteira compartilhada, diminuir drasticamente a pressão migratória sobre Calais e preservar a ligação econômica vital que passa pela região”, disseram os dois num comunicado conjunto.

Enquanto isso, o fluxo migratório em direção à Itália, saindo principalmente da Líbia, volta a preocupar as autoridades. Se em 2015 explodiu o deslocamento através do Mar Egeu, entre a Turquia e a Grécia, a rota líbia voltou a ser intensamente procurada após um recente acordo entre o governo turco e a UE que fechou a fronteira grega. Das cerca de 260 mil pessoas que chegaram pelo mar à Europa este ano, mais de cem mil cruzaram o Mediterrâneo vindas da África. Mais de 3.100 morreram, relata a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Somente desde sexta-feira passada, estima-se que mais de 15 mil tenham chegado, aproveitando o clima quente do verão e o mar mais estável. Anteontem, uma megaoperação das Marinhas italiana e espanhola, junto a ONGs de resgate, salvou 6.500 migrantes e refugiados africanos em barcos de madeira superlotados na costa da Líbia. Ontem, outros três mil foram socorridos ao tentarem a travessia.

— Muitos não sabiam nadar, são idosos, mulheres, crianças, menores desacompanhados. Qualquer movimento de resgate quando há muitas destas pessoas é arriscado, e pode acabar com a estabilidade do barco. Tivemos de ser rápidos e cuidadosos. Demos coletes para evitar o pior — disse ao GLOBO Nicholas Papachrysostomou, coordenador de operações do navio Dignity 1, da Médicos Sem Fronteiras (MSF), que retirou anteontem cerca de 700 pessoas do mar, entre elas 92 menores desacompanhados e prematuros recém-nascidos.

O principal fluxo de migrantes em direção à Europa pela Líbia vem da África Subsaariana, originários de países como Eritreia, Etiópia, Nigéria e República Centro-Africana. Em geral, os fugitivos saem de casa por causa de conflitos, perseguição e pobreza, e ainda sofrem com traficantes de migrantes.

— Estas pessoas estão sendo abusadas física e sexualmente. Mas as políticas europeias são feitas para desencorajá-las. Precisamos de uma UE mais responsável. Não pode mais haver mais vidas perdidas. Estamos preenchendo o vazio no mar deixado pela falta de iniciativa das instituições. Ninguém deveria negar ao outro o direito de migrar — criticou Papachrysostomou.

Um ano após anunciar sua política de portas abertas, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, disse que o país e a UE “fizeram vista grossa por tempo demais para a crise enquanto buscavam soluções”.

— Ignoramos o problema por tempo demais e bloqueamos a necessidade de se encontrar uma solução pan-europeia. Deixamos a Espanha, a Grécia e a Itália lidarem sozinhos. Naquele momento, nós também rejeitamos uma distribuição proporcional de refugiados — disse ela ao diário “Süddeutsche Zeitung”.

Fonte: O Globo

Só os mais fortes sobrevivem

Ute Schaeffer, autora do livro “Die Flucht der Kinder” (A fuga das crianças), afirma que só os mais fortes sobrevivem à travessia repleta de perigos.

— E quando chegam ao destino, deixaram de ser crianças e adolescentes para ser transformarem em adultos traumatizados — diz.

De acordo com um estudo da Universidade de Munique, cerca de 25% dos refugiados menores que precisaram enfrentar sozinhos a viagem desenvolvem distúrbio pós-traumático e, provavelmente, outros problemas psiquiátricos.

O assistente social Hassan Faraj, da ONG Kompaxx, lembra ainda que a situação se complica ainda mais quando os refugiados entram na adolescência.

— A crise deles se manifesta de forma diferente porque são marcados pela enorme luta pela sobrevivência — acrescenta Hassan.

Paralelo com fuga do nazismo

Berlim, cidade que viu milhares de crianças e adolescentes judeus serem enviados pelos pais ao exterior para escapar da morte durante o regime nazista, recebe agora os menores sozinhos. O capítulo contundente da História é lembrado no Centro por uma escultura do artista Frank Meisler, que foi enviado pelos pais para a Inglaterra.

Faraj, nascido na Tunísia há 42 anos, veio para Berlim há 15 para estudar Ciências Sociais e acabou ficando. Hoje, administra um dos centenas de lares de menores refugiados espalhados pela cidade.

— Há paralelos entre a fuga das crianças durante o nazismo e os menores que são enviados ou que vêm por conta própria para a Europa — destaca.

Ute Schaeffer calcula que o Estado gaste cerca de € 70 mil por ano com cada menor. Segundo Gerd Landsberg, diretor da Federação dos Municípios Alemães, as cidades preveem gastar, com ajuda e acompanhamento dos refugiados menores, € 2,7 bilhões em 2016.

Para baixar o custos e apoiar a integração, o Ministério da Família lançou o programa “Gente fortalece gente”, que oferece à população alemã a chance de participar do acompanhamento dos refugiados como “padrinhos, pais e avós hospedeiros”.

Segundo o Ministério, dez mil pessoas apresentaram interesse. Mas só o altruísmo não é garantia de sucesso. De acordo com Helga Siemens-Weibring, da Diakonie, uma ONG luterana, o relacionamento com os refugiados nem sempre é fácil porque eles são independentes, mas, ao mesmo tempo, altamente traumatizados.

— Esses jovens têm uma longa história de fuga. Isto significa que por muito tempo foram responsáveis por si mesmos. Por outro lado, precisam de ajuda — diz ela.

Nem sempre há um final feliz. Segundo Ute Schaeffer, as experiências traumáticas e as dificuldades de integração contribuem para que cerca de 30% deles terminem na criminalidade.

Os problemas se agravam quando os jovens atingem a maioridade de acordo com a lei — que é de 18 anos, mas nesse caso específico é frequentemente adiada para 21. Depois disso, acaba bruscamente o apoio integral. Refugiados que vêm de países em guerra, como a Síria, podem ficar. Os outros, só se tiverem profissão ou vaga na universidade.

Para o advogado sírio Oussama Al Agi, há 20 anos na Alemanha, o fracasso dos filhos na Europa é um golpe duro para as famílias.

— Os pais investem tudo o que têm e levam em conta até o perigo da viagem porque pensam na chance de melhoria de vida para toda a família. Os filhos que conseguem vencer podem mandar buscar pais e irmãos — diz.

Ute Schaeffer, ex-chefe de redação da rádio Deutsche Welle, lembra que a última onda de refugiados deverá mudar definitivamente a Alemanha. Na sua opinião, o importante é que os erros do passado, das ondas migratórias de turcos nos anos de 1960-1970, sejam evitados. Para que os refugiados ou seus descendentes não terminem em guetos, defende uma política de integração competente.

— Guetos (de imigrantes) como na França são o caminho errado — conclui.

Perseguido por imagens do Iraque


Ahmed, Omar e Qudrat – Graça Magalhães-Ruether

A conquista de Mossul, há dois anos, pelo Estado Islâmico, encerrou com súbita brutalidade a infância do curdo iraquiano Farhid Tahi (centro da foto acima), hoje com 16 anos. Seu pai, um peshmerga (combatente curdo), morreu defendendo a cidade. A mãe foi sequestrada e assassinada, como milhares de mulheres vítimas do ódio do EI.

Farhid deixou tudo e partiu para a Alemanha. Ele não sabe direito como o pai morreu, mas as imagens das execuções do grupo que costumam ser divulgadas pela internet o perseguem.

Com medo de ser identificado pelo EI, por ainda ter um irmão e um primo em Mossul, Farhid resiste a ser fotografado, mas acaba cedendo. Ele também não gosta de falar sobre os últimos meses em sua cidade.

— Se pudesse, apagaria da minha memória todos os episódios depois que a guerra começou.

O relacionamento com os outros três adolescentes que vivem no lar da ONG Kompaxx, em Spandau, um bairro com floresta e lagos no norte de Berlim, é de amizade, mas marcada por uma certa distância. Indagado sobre os seus planos para o futuro, Farhid diz apenas:

— Eu quero trabalhar!

Risco de fracassar como pesadelo

O grande temor de Qudrat Ramuzi (direita da foto acima) é fracassar. A família vendeu até a casa onde morava, em Maydanwardak, Afeganistão, para financiar a viagem do adolescente. O plano era que vivesse em segurança e tivesse um futuro melhor do que os pais, vítimas de repetidas guerras.

A viagem foi de ônibus. Ao chegar à Turquia, teve que esperar seis dias até seguir de barco para a Grécia. Quando atravessou a pé a fronteira da Áustria com a Alemanha, gastou seu último euro. Se conseguir fincar pé em Berlim, Qudrat planeja mandar buscar a família.

— Não posso fracassar! Se não conseguir, a decepção dos meus pais será gigantesca.

Ele considera a situação no seu país insolúvel, porque o ódio entre as etnias nunca foi superado.

— Os pushtu colaboram com os talibãs. Já vi casos de pararem um ônibus e matarem todos só por serem hazaras, como eu. Tenho a impressão de que o mundo começa a abandonar o Afeganistão — diz Qudrat, com uma capacidade analítica incrivelmente forte para sua idade.

Talvez por isso, nunca sorria, nem para fotos.

Para sírio, a segunda geração de refugiados

 

Ahmed Al Sheik (esquerda da foto acima) , sírio de Damasco, vai deixar em breve o lar de refugiados para viver por conta própria, ainda com apoio do governo alemão. Ele completa 18 anos e não tem medo de partir. Ao contrário dos outros jovens do lar de Spandau, Ahmed é extrovertido e bem humorado. Essa postura da família já ajudou uma vez no processo de adaptação dos avós, que fugiram dos territórios palestinos nos anos 60, na Guerra dos Seis Dias. Desde então, a Síria se tornou a nova pátria. E tudo ia relativamente bem, até a guerra.

— A guerra não trouxe democracia, só destruição.

Em menos de um ano, Ahmed aprendeu a falar alemão fluentemente.

— Isso é importante porque é condição para concluir a escola e entrar na universidade.

Por enquanto, o sírio ainda frequenta a classe de integração, mas, depois dos últimos testes, recebeu a oferta de uma vaga em uma escola regular. Em dois anos, se continuar com bom aproveitamento, Ahmed vai concluir o colégio e, talvez, concretizar o sonho de estudar medicina.

— Quero estudar medicina porque o trabalho de médico significa ajudar os outros.

Afegão traz marcas no corpo e na mente


Ghafour – Graça Magalhães-Ruether

Enquanto adolescentes da mesma idade começam a pensar em sair para dançar, Ghafour Rahimi vive dividido entre o medo de não conseguir ter uma profissão até os 21 anos e as lembranças dos últimos meses no Afeganistão, onde presenciou o assassinato do pai, morto por talibãs. Ele chegou à Alemanha em setembro do ano passado, quando tinha apenas 14 anos.

— Quando acordo, penso ainda ouvir os tiros disparados pelos talibãs, como quando mataram meu pai — conta Ghafour.

Semana passada, Hassan Faraj, responsável pelo lar de menores de Spandau, descobriu que Ghafour tinha crises de autoflagelação.

— Ele queimou os braços com cigarro de forma que parece intencional — revela.

Depois da morte da mãe, vítima de um atentado talibã, Ghafour resolveu fugir para a Europa. Sem dinheiro, viajou durante 29 dias. Sempre que encontrava grupos de refugiados recebia alimentos e companhia para trechos seguintes.

Ghafour ainda fala um alemão rudimentar. Mas tem grandes planos.

— Se terminar bem a escola, quero fazer um concurso para a Academia de Polícia.


Fonte: O Globo
Refugiados caminham na fronteira entre Croácia e Sérvia (Foto: Juan Carlos Tomasi/MSF)

Médicos Sem Fronteiras relata abusos sofridos por refugiados na Europa

Em um novo relatório, a organização publica depoimentos retratando cotidiano de agressões, condições precárias e traumas

Um sírio conta como o bote em que estava com outros refugiados foi atacado por homens uniformizados com arpões. Outro afirma que foi agredido por policiais na Macedônia, roubado por criminosos na Sérvia. Esses depoimentos chocantes estão em um relatório da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), divulgado nesta terça-feira (19). O documento pinta um quadro desolador da recepção derefugiados e imigrantes na Europa e critica duramente as políticas a essas populações. Intitulado “Rota de Obstáculos para a Europa”, o documento de 60 páginas conta com relatos de profissionais da organização e depoimentos de pleiteantes de asilo coletados pela MSF em seus postos de atuação. “2015 será lembrado como o ano em que a Europa falhou catastroficamente em sua responsabilidade em responder às necessidades urgentes de assistência e proteção de milhares de pessoas vulneráveis”, afirma a organização.

Além do material impresso, a MSF divulgou fotos (confira a galeria abaixo) e vídeos mostrando o drama dos refugiados. Em um dos vídeos, a organização atua juntamente com o Greepeace para salvar crianças, adultos e idosos em botes superlotados perto da ilha grega de Lesbos. Kim Clausen, chefe de equipe da MSF, afirma que uma ONG médica e outra ambiental estão fazendo o que é obrigação dos governos. “Isso deveria ser assumido como responsabilidade dos países europeus para garantir que as pessoas possam fazer isso [cruzar a fronteira] de forma segura”, diz. Assista abaixo às imagens:

A MSF esmiúça as inúmeras dificuldades enfrentadas por sírios, afegãos, iraquianos, eritreus, nigerianos e outros que, fugindo da guerra, da violência e da miséria, se arriscam nas rotas do Mediterrâneo – dificuldades pioradas, segundo a organização, pela falta de estrutura de acolhida, pela burocracia mutante dos procedimentos de pedido de asilo e pela hostilidade das forças de segurança nos locais de chegada e nos postos de fronteira. “Não só os países europeus falharam coletivamente em atender as necessidades humanitárias e médicas urgentes de refugiados e imigrantes chegando a fronteiras internas e externas da União Europeia, mas a lentidão e as políticas anti-imigratórias – desenvolvidas durante os últimos 15 anos e fortalecidas em 2015 – aumentaram a demanda por redes de coiotes e forçaram pessoas para rotas ainda mais perigosas que colocam em risco sua saúde e suas vidas”, afirma a MSF.

A organização critica o investimento por parte dos governos europeus em iniciativas que tentam sem sucesso coibir os fluxos migratórios, ao invés de direcionar fundos para o atendimento de quem chega.  De acordo com o relatório, a MSF gastou €$ 31,5 milhões em sua operação na Europa durante o ano passado e mobilizou um total de 535 pessoas para atender refugiados e imigrantes. “Nunca antes a MSF teve tantos projetos na Europa, nunca antes a MSF decidiu mobilizar três barcos de busca e salvamento no mar para salvar vidas e nunca antes foi tão urgente que os governos europeus assumam suas obrigações internacionais e assistam as pessoas cujas vidas estão em risco”, diz o documento.

O documento é publicado em um momento particularmente delicado da crise humanitária na Europa, quando até países considerados mais receptivos a refugiados, como Alemanha e Suécia, aplicam novas restrições à entrada de pessoas. Depois de um ataque em massa a mulheres na noite de Ano Novo na cidade alemã de Colônia, perpetrado por uma maioria estrangeira, a chanceler Angela Merkel se viu pressionada a endurecer as medidas que permitem a entrada e permanência no país.

 

Grécia: o porto seguro precário

No ano passado, pouco mais de um milhão de refugiados e imigrantes chegaram ao continente europeu, a maioria por meio da rota entre Turquia e Grécia, via Mediterrâneo. Entre agosto e setembro, cerca de 4 mil pessoas, em média, chegavam todos os dias às ilhas gregas – no total, pouco mais de 851 mil entraram na Europa pelo país em 2015. “Um ano depois do início da crise, apesar das numerosas visitas por parte de representantes da UE (…), tanto a infraestrutura de recepção quanto o sistema de asilo da Grécia continuam falhando em se adaptar para as necessidades de refugiados e migrantes”, diz o relatório da MSF. Em Lesbos, um dos principais portos de chegada, os 700 leitos oferecidos pelas autoridades gregas, somados aos 780 disponibilizados por organizações humanitárias mal atendiam um quarto da população necessitada. A escassez de abrigo levava a centenas de pleiteantes de asilo a dormirem na rua, sem acesso a recursos básicos e vulneráveis a crimes e violência. “As pessoas chegam às ilhas gregas depois de terem enfrentado muito sofrimento. Nós vimos crianças e adultos ainda molhados, forçados a dormir ao relento”, declarou um médico que atua como voluntário na região.

 

De acordo com a MSF, não só as estruturas de acolhida e recepção são insuficientes para a demanda, como as autoridades locais não cooperam e dificultam a atuação de organizações humanitárias voluntárias. “Alguns dos inúmeros obstáculos administrativos enfrentados pela MSF no último ano incluem a recusa por parte da prefeitura de Kos (ilha grega) de permitir que a MSF montasse tendas para abrigo emergencial em um estacionamento na cidade e autoridades locais não permitirem que equipes montassem tendas em um parque em Lesbos (ilha grega)”, diz o relatório.

O documento cita ainda depoimentos de refugiados e imigrantes sobre suas experiências durante a travessia e a chegada à Grécia. Dois deles acusam pessoas trajadas como autoridades gregas de propositadamente tentarem afundar os barcos nos quais estavam e de não prestarem auxílio às embarcações que pediam socorro – uma violação da lei internacional. “Nós fomos atacados entre a Turquia e a ilha (Farmakosini), por três homens uniformizados a bordo de um grande barco metálico cinza. Eu vi três homens adultos a bordo, vestindo uniforme naval azul escuro, com a bandeira grega no ombro. Nós nos aproximamos, mostramos que tínhamos crianças para receber ajuda. Eu não consigo esquecer o que aconteceu. Uma vez que nós estávamos perto deles, eles usaram um arpão para furar a frente do nosso barco. Eles fizeram dois buracos e todos entraram em pânico. Eles queriam nos matar”, disse à MSF um homem sírio, recém-chegado à ilha de Kos. O governo grego nega as acusações. A MSF, por sua vez, critica a falta de investigações sobre esse tipo de incidente.

Em outro depoimento, um refugiado relata ter sido submetido a condições degradantes por membros do Exército grego, na ilha de Farmakonisi, uma base militar do país. “Na ilha militar, eles nos fizeram ajoelhar e esperar sob o sol por muitas horas. (…) Eles amarram nossas mãos e nos estapeavam sem razão nenhuma. Quando nós estávamos dormindo, eles entravam no cômodo e nos batiam com bastões de ferro. Eles tomaram minha bateria de celular e depois pediram 20 euros para devolvê-la”, disse um homem sírio atendido pela MSF em Leros, outra ilha grega. “Nós estávamos na ilha militar. Um soldado gritava em inglês: eu não ligo para as leis – para mim, as leis não existem – aqui só existe uma lei – a lei do Exército”, relatou um homem afegão, também tratado pela MSF.

Rumo ao norte, mais abusos

O relatório ainda traz uma série de relatos de abusos e violências contra refugiados e imigrantes por parte não só de redes criminosas, mas como de autoridades de segurança nos países utilizados como rota de travessia por terra para o norte do continente, comoMacedônia, Sérvia, Croácia e Eslovênia. “Eu sou da Síria. Tenho quatro filhos pequenos. Eu viajei da Grécia para a Macedônia, mas fui preso e deportado para a Grécia quatro vezes. Eu fui agredido pela polícia macedônia. Eles tomaram todo meu dinheiro. Na estrada para a Sérvia, a máfia me parou, roubou todos os meus pertences e me deixou em uma área isolada. Quando fui pedir ajuda para a polícia sérvia, eles me prenderam por 10 dias e me deportaram de volta para a Macedônia. Eu voltei à Sérvia e continuei para a Hungria. Lá fui preso, algemado e jogado numa cela sem água ou comida. Eu estava com sede e doente, mas quando pedi por água, o policial respondeu: ‘Vou mijar em uma xícara e você beberá isso!”, contou um homem sírio atendido pela MSF, próximo à floresta de Bogovadja, na Sérvia.

Resultado dos traumas vividos, em seus países de origem e na jornada em busca de asilo, a organização afirma que atende um grande número de refugiados e imigrantes que sofrem de doenças de natureza mental como síndrome do pânico, estresse pós-traumático e depressão – mais de 12 mil pessoas foram tratadas pela MSF na Grécia e na Sérvia por condições relacionadas a traumas. “A maioria das patologias tratadas por nossas equipes médicas poderia ser facilmente prevenida se a passagem segura e recepção que atendesse os padrões humanitários fossem implementados nos Estados da União Europeia”.

O documento também critica as complicadas burocracias do procedimento de pedido de asilo nos países europeus e a iniciativa de países como Hungria e Bulgária de construírem barreiras para impedir entrada e trânsito de refugiados e imigrantes. Para a MSF, tais iniciativas não coíbem os fluxos migratórios e deixam essas populações em condições mais vulneráveis durante sua jornada.  “Longe de conter o fluxo de refugiados e imigrantes, a falta de assistência e as restrições a movimento da Europa simplesmente forçaram pessoas desesperadas a colocar suas vidas e sua saúde em risco, com os serviços de coiotes e tomando rotas traiçoeiras (…). Predadores do desespero das pessoas, coiotes são o violento e abusivo subproduto das vergonhosas políticas migratória restritivas da Europa”, afirma o relatório.

 

A MSF conclui pedindo que os Estados europeus facilitem os meios legais para pessoas solicitarem asilo no continente – hoje, só é possível realizar o pedido quando se chega a solo europeu – e que aumentem o investimento nas estruturas de resgate e recepção de refugiados e imigrantes. “Como é provável que as pessoas continuem buscando na Europa assistência e proteção muito necessárias em 2016, é hora de a Europa abolir de sua rota obstáculos e oferecer assistência e passagem legal e segura para refugiados e imigrantes que fogem de condições desesperadoras”, finaliza o relatório

Fonte: Época

Após uma semana de intensos confrontos com forças rebeldes levando dezenas de milhares de sírios a deixarem suas casas, as tropas do governo recuperaram um povoado ao norte de Aleppo, informaram autoridades e ativistas da oposição. A conquista levou os combatentes do regime mais próximos à fronteira com a Turquia, onde cerca de 35 mil pessoas estão acampadas em tendas improvidas enquanto aguardam para entrar no país vizinho, fechado pelo quinto dia seguido — autoridades temem que até 600 mil cheguem. Para discutir o drama humanitário, a chanceler alemã, Angela Merkel, visitou Ancara nesta segunda-feira.

— Precisamos de um projeto visível. Os refugiados querem ver escolas, e rápido. Precisamos assegurar que não haverá muitos obstáculos burocráticos — advertiu a líder alemã em coletiva de imprensa com o premier turco, Ahmet Davutoglu.

O mais recente avanço do Exército ocorre no povoado de Kfeen, uma zona rural na região de Aleppo. Segundo a agência estatal de notícias “Sana”, os soldados eliminaram o último grupo de rebeldes instalados no local, que foram classificados como terroristas. A emissora de televisão do grupo Hezbollah, al-Manar, também noticiou a captura e divulgou imagens direto da vila.

A ofensiva foi apoiada pela Rússia e pelo Irã, num movimento que ameaça o futuro da insurreição rebelde. Milícias apoiadas pelo Irã tiveram um papel fundamental no solo ao mesmo tempo que caças russos intensificavam bombardeios, o que permitiu ao Exército sírio assumir o controle de importantes áreas no Norte do país pela primeira vez em mais de dois anos.

— Nossa existência está agora ameaçada, não estamos apenas perdendo terreno — disse o combatente Abdul Rahim al-Najdawi, do grupo rebelde Liwa al-Tawheed. — Eles estão avançando e nós estamos recuando porque em face a ataques aéreos tão fortes, precisamos minimizar nossas perdas.


Refugiados sírios estão em acampamentos improvisados na fronteira com a Turquia - BULENT KILIC / AFP

Mas, ao passo que o regime comemora, o drama humanitário se agrava ainda mais no país há quase cinco anos imerso em uma guerra civil. As imagens na fronteira turca denunciam o desespero vivido por cerca de 35 mil sírios impedidos de entrar no país vizinho, apesar dos apelos dos líderes da UE para deixá-los atravessar.

O vice-primeiro-ministro, Numan Kurtulmus, advertiu que a pior situação a curto prazo poderia ser “uma nova onda de 600 mil refugiados na fronteira”, já que pelo menos 150 mil estão em movimento após o avanço das tropas de Bashar al-Assad. A Turquia alega não ter recursos financeiros e nem estrutura para abrigar mais que os atuais 2,5 milhões de sírios em seu território.

Para tentar minimizar a gravidade da situação, no domingo o governo enviou caminhões de ajuda e ambulâncias para a população.

— Em algumas partes de Aleppo o regime de Assad interrompeu o corredor norte-sul… A Turquia está sob ameaça — disse o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, a repórteres em seu avião de volta de uma visita à América Latina, segundo o jornal “Hurriyet“.

Fonte: O Globo

Europa tem protestos contra imigrantes

Milhares de pessoas foram às ruas em diversos países; dezenas foram presas

Manifestantes do Pegida reuniram-se em Varsóvia – JANEK SKARZYNSKI/AFP

 

 

 

 

 

 

 

 

Milhares de pessoas participaram ontem de manifestações anti-imigrantes em diversas cidades da Europa convocadas pelo movimento islamofóbico Pegida. Os principais protestos foram em Dresden, no Leste da Alemanha, onde se concentraram entre seis mil e oito mil pessoas, e em Praga, onde marcharam cinco mil pessoas.

Também foram registradas manifestações em França, Eslováquia, Áustria, Holanda, Irlanda, Polônia e Reino Unido. Dezenas de pessoas foram presas durante os protestos contra a entrada de refugiados na Europa.

 

As manifestações realizadas ontem, batizadas de “Fortaleza Europa”, foram convocadas no fim de janeiro pelo Pegida, como é conhecido o movimento de extrema-direita alemão Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente.

Em Dresden, o berço do Pegida, os manifestantes agitaram bandeiras com dizeres contra a chanceler federal Angela Merkel, criticada por seus projetos de acolhimento de imigrantes. No ano passado, 1,1 milhão de refugiados pediram asilo no país, um recorde histórico.

— Temos de ter êxito em guardar e controlar as fronteiras externas e internas de novo — pregou Siegfried Daebritz, do Pegida.

Por outro lado, muitas cidades também receberam comícios contra o movimento. Em Dresden, 3.500 pessoas reivindicaram a tolerância aos imigrantes. Os cartazes tinham inscrições como “Não há lugar para nazistas” e “Não temos necessidade de xenofobia, nem de demagogia, nem de Pegida”.

IGREJA PEDE LIMITES

Numa entrevista publicada no jornal “Passauer Neue Presse”, o cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência Episcopal alemã, afirmou que o governo precisa “reduzir o número de refugiados”.

— A Alemanha não pode acolher todos os necessitados do mundo — enfatizou, pedindo que, neste caso, não se leve em conta apenas “a caridade, mas também a razão”.

Merkel anunciou no fim do mês novas restrições para reduzir o fluxo imigratório.

Fonte: O Globo

Suíça segue Dinamarca e apreende bens de refugiados para cobrir custos

Imigrante sírio mostrou recibo dado por autoridades após pagar mais da metade do dinheiro da família


Imigrantes que conseguem chegar à Grécia caminham para centro de refugiados na fronteira com a Macedônia. Os que chegam à Suíça, tem que pagar pela estadia – Boris Grdanoski / AP

Além disso, um panfleto do governo com informações para os refugiados foi exibido:

“Se você tem uma propriedade que valha mais de mil francos suíços, será obrigado a deixar esse valor em troca de um recibo”, diz o comunicado.

A Agência de Imigração do país justificou a medida, afirmando estar de acordo com a lei que pede aos requerentes de asilo contribuições, sempre que possível, para arcar com o custo do processo e o fornecimento de assistência social. Além disso, os refugiados que ganham o direito de permanecer e trabalhar na Suíça têm de entregar 10% de seu salário por até dez anos, até pagar 15 mil francos suíços.

— Se alguém deixa o local no prazo de sete meses, pode receber o dinheiro de volta. Caso contrário, o dinheiro será destinado para cobrir os custos — disse um porta-voz do órgão à TV suíça.

A prática, no entanto, foi condenada pelo grupo de ajuda a refugiados no país Schweizerische Fluechtlingshilfe.

— Isto é indigno e tem que mudar — disse Stefan Frey.

Nesta semana, o Parlamento da Dinamarca começou a debater o projeto de lei que propõe o confisco de objetos de valor a quem solicita refúgio no país. O texto inclui a revista das bagagens dos estrangeiros e a apreensão de objetos e quantias em dinheiro cujo valor exceda dez mil coroas dinamarquesas (R$ 1.600). Pela proposta, as autoridades locais não podem recolher relógios e joias com valor sentimental para os proprietários, como alianças de casamento, nem telefones celulares.

Várias organizações, incluindo o escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, censuraram o país nórdico pela proposta e denunciaram seu caráter autoritário.

Casos envolvendo refugiados e sua aceitação na Europa mobilizam opinião pública

Britânico que tentou levar menina de Calais a Londres escapa de prisão

por O Globo / Com agências internacionais

/ Atualizado

Rob Lawrie segura menina Bahar Ahmadi nos braços antes de julgamento – Michel Spingler / AP

Um ex-soldado britânico que tentou contrabandear uma menina afegã de quatro anos para o Reino Unido a partir de um campo de refugiados em Calais foi considerado culpado por um tribuna francês de colocar em perigo a vida da criança. Pelo crime, Rob Lawrie, de 49 anos, recebeu uma multa de mil euros (US$ 1.080 ou R$ 4.320), que foi suspensa, e não terá que ir para a prisão. Durante o julgamento, ele pediu desculpas pela atitude e disse que agiu sem pensar, motivado por compaixão.

— Eu sinto muito. Eu me arrependo e eu não faria isso de novo — afirmou Lawrie, que apareceu com a menina em seus braços pouco antes do julgamento, pedindo compreensão.

‘Compaixão sempre vence’

O britânico foi detido no ano passado pelo controle fronteiriço em Calais e acusado de ajudar a imigração ilegal. O caso ilustra uma das muitas histórias que ocorreram nos últimos meses na Europa que se viu diante de um fluxo sem precedentes de imigrantes. Desde então, centenas de voluntários tentam ajudar os refugiados, muitos deles fugindo da guerra na Síria, a violência no Afeganistão ou a pobreza na África. A plateia presente no tribunal aplaudiu a decisão depois no anúncio do juiz. Bahar e seu pai, Reza Ahmadi, também assistiram a audiência.

A detenção e a possibilidade de que Lawrie fosse condenado levaram à criação de um abaixo-assinado no Reino Unido com mais de 50 mil assinaturas, pedindo ao chanceler britânico, Philip Hammond, que intercedesse junto à Justiça francesa solicitando clemência.

Com o Grande Tribunal de Boulogne lotado, Lawrie contou como seu negócio havia fracassado e seu casamento arruinado desde sua detenção. Ao receber a sentença do juiz Louis-Benoit Betermiez, o ex-soldado chorou copiosamente e agradeceu à Justiça francesa.

— A compaixão esteve neste tribunal. A França mandou a mensagem de que quando a compaixão é realizada com o coração, sem interesses financeiros ou segundas intenções, ela sempre vence.

Elogiado por voluntários franceses que trabalham no campo de refugiados de Calais, Lawrie afirmou não ser um herói.

— Os soldados das tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial, Oskar Schindler e Martin Luther King são heróis. Eles colocaram suas vidas em risco para salvar outras pessoas. Eu coloquei minha liberdade em risco, mas isso não faz de mim um herói — defendeu. — Talvez faça de mim um homem um pouco estúpido. Sou um ex-limpador de tapetes do Norte da Inglaterra, só isso.

A advogada de Lawrie na França, Lucile Abassade, afirmou que o britânico “se deixou levar pelas emoções, e não suportou ver uma menina ao relento”.

O ex-soldado afirmou que continuará a trabalhar para ajudar refugiados.

— Vou descansar por uns dias e depois continuarei a chamar atenção para o problema dos refugiados, porque não podemos simplesmente abandonar essas crianças, e deixá-las na Selva para apodrecer e morrer de frio — afirmou, usando o apelido dado ao acampamento de refugiados em Calais.


Rpb Lawrie posa em foto com Bahar, a afegã de quatro anos que ele conheceu na “Selva” - Reprodução Youtube

O britânico se recusou no início, mas, no final de outubro, cedeu.

— Bahar adormeceu no meu joelho. Meu instinto paterno me atingiu — disse ele, que tem quatro filho e disse não ter pedido nem recebido dinheiro pela ação.

Em seguida, Lawrie escondeu Bahar em um dos compartimentos de sua van e a levou para o Reino Unido. Mas, sem que ele soubesse, dois eritreus também entraram na parte de trás do veículo. Ao serem encontrados por cães farejadores no controle das fronteiras, o ex-soldado foi levado algemado por um policial francês, enquanto Bahar foi devolvida a seu pai na “Selva”.

O ex-soldado afirmou que começou a realizar trabalhos humanitários depois que viu a foto do menino sírio, Aylan Kurdi, encontrado morto em uma praia turca há dois meses. A imagem comoveu a comunidade internacional ao denunciar a história de perigo pela qual passam vários imigrantes que tentam ao chegar à Europa.

‘Situação está piorando’

O comissário para imigração da União Europeia (UE), Dimitris Avramopoulos, autoridade máxima no assunto dentro do bloco continental, fez um severo alerta no Parlamento Europeu, em Bruxelas, afirmando que os esforços para gerir a pior crise migratória europeia desde a Segunda Guerra Mundial não estão dando resultados.

— A situação está piorando — afirmou categoricamente o comissário, diante dos legisladores europeus.

Enquanto mais de um milhão de refugiados chegaram ao continente no ano passado, pelo menos quatro mil pessoas por dia desembarcaram na Grécia durante o período de Natal e Ano Novo, fugindo de conflitos armados e da pobreza na África e na Ásia, vindos principalmente da Síria, do Iraque e do Afeganistão.

Avramopoulos ressaltou que os programas criados pela UE para gerenciar a chegada de imigrantes “não surtiram os resultados esperados”. Em setembro, o bloco lançou um plano para repartir 160 mil refugiados que haviam chegado à Grécia e à Itália. Entretanto, na prática, menos de 300 pessoas foram reassentadas em outros países. O projeto de levar imigrantes diretamente para países fora da UE, como a Turquia, também caminha a passos de tartaruga. Por outro lado, as nações da UE também estão falhando em devolver aos países de origem aqueles que não conseguem atingir os requisitos necessários para serem integrados ao bloco. Das centenas de milhares de pessoas que chegaram desde setembro, menos de 900 foram mandadas de volta para casa.

Além disso, o comissário enfatizou que o Acordo de Schengen, como é conhecido o tratado de livre circulação entre os países europeus signatários, está sob ameaça, e que Comissão Executiva da UE vai apresentar, em março, medidas destinadas a reforçar as fronteiras do bloco. Com isso, alerta ele, há uma tendência que vai minar a unidade da UE.

— Cada vez mais Estados-membros reintroduzem os controles de fronteira em resposta à crise migratória — afirmou Avramopoulos, referindo-se às recentes medidas de Alemanha, Suécia, Dinamarca e Áustria, que, assim como Hungria, Eslovênia e República Tcheca, começam a barrar refugiados. — Este será o começo do fim do projeto europeu.

Refugiados recusados


Médico austríaco se recusa a atender refugiados – Reprodução

Um papel na porta de vidro que leva a seu consultório deixa clara a posição do Dr. Thomas Unden, médico do distrito de Florisdorf, em Viena, em relação a seus pacientes: “Refugiados não são aceitos”.

— Mantenho minha posição. E o mesmo se aplica a políticos verdes (do partido Alternativa Verde), vermelhos (social-democratas) ou negros (do Partido Popular Austríaco) — diz.

Unden agora é alvo de uma investigação da Associação Médica da capital austríaca, após reclamações de clientes.

— Isso é absolutamente inaceitável e imoral — afirmou o presidente da associação, Thomas Szekeres, que registrou queixa.

Unden diz ser “um dos últimos parentes de Hitler”, e foi multado em R$ 6.500 anos atrás por dizer que as austríacas eram “uma combinação de seios murchos e varizes”.

No limite da sátira

O “Charlie Hebdo” provocou polêmica… de novo. Dessa vez, o semanário satírico publicou uma charge que envolve o menino turco Aylan Kurdi, cuja foto morto aos 5 anos de bruços numa praia turca se tornou símbolo da crise humanitária na Europa. “O que teria se tornado Aylan Kurdi se tivesse crescido? Um perseguidor sexual na Alemanha”, diz o texto da publicação, em referência às mais de 500 denúncias de agressões e violência sexual no réveillon nas cidades alemãs de Colônia e Hamburgo. A maioria dos suspeitos dos abusos é do Norte da África e do Oriente Médio, e solicitante de refúgio no país.

Com o título “Imigrantes”, a charge faz uma alusão à foto de Aylan e o mostra crescendo até se tornar adulto, perseguindo uma mulher assustada. A associação generalizante da imagem dos refugiados à dos suspeitos gerou revolta na internet.

“Charlie Hebdo nos lembra que não tem problema ser racista se você diz que está sendo satírico e brada pela liberdade de expressão”, ironizou um usuário do Twitter.

Mas houve quem compreendesse a iniciativa como sátira a estereótipos de imigrantes e à cobertura midiática da crise dos refugiados. A charge foi publicada uma semana após o aniversário de um ano do atentado que matou 12 pessoas na redação do “Charlie Hebdo”, em Paris.

Fonte: O Globo

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