À esquerda, Maryam Amir Moezi, de 26 anos, trabalha como dentista Foto: Vahid Salemi / AP

O QUE ESTÁ EM JOGO NA ELEIÇÃO DO IRÃ, SEGUNDO OS PRÓPRIOS ELEITORES

Moradores de Teerã se dividem profundamente até mesmo em decidir se votam ou não

À esquerda, Maryam Amir Moezi, de 26 anos, trabalha como dentista – Vahid Salemi / AP

     A eleição presidencial do Irã, muito importante para o Oriente Médio, é vista como um teste do alcance de Hassan Rouhani, que tenta ser reeleito após uma reaproximação com o Ocidente e um acordo com as potências mundiais em 2015 que diminuiu o programa nuclear do país. Os iranianos ainda não viram benefícios no acordo, tornando Rouhani vulnerável em sua tentativa de continuar no poder por mais quatro anos. Muitos continuam com dúvida de em quem votar. Alguns dizem que vão boicotar a eleição enquanto outros querem votar para expressar sua raiva sobre a economia combalida. Veja o que pensam alguns moradores da capital do país sobre a eleição presidencial.
  • Mostafa Hashemitaba já foi chefe do Comitê Olímpico do Irã Foto: STR / AP

    Mostafa Hashemitaba

    Durante a década de 1980, foi ministro das Indústrias e da Mineração, e também atuou como chefe do Comitê Olímpico do Irã. Nas eleições presidenciais de 2001, foi o candidato menos votado.

 

Você vai votar? Por quê?

Abbas Behtash, de 61 anos, é vendedor em Teerã – Vahid Salemi / AP

 

Abbas Behtash, 61, vendedor de utensílios de cozinha no Grande Bazar de Teerã:

— Eu ainda não decidi se vou votar porque os candidatos não consideram a situação dos nossos jovens e seus futuros. As pessoas tem dificuldade de ganhar a vida.

Hamidreza Ghorbanpour, 31, vendedor de lustres:

— Não, eu não vou votar porque eu não conheço bem nenhum desses candidatos e também não vou acreditar em nenhum deles.

Sholeh Talaeipour, 57, maquiadora

— Eu sempre votei nas eleições passadas, mas eu não vou votar desta vez. A razão é que votar ou não votar não vai fazer nenhuma diferença.

Jalal Rajaei, 47, eletricista:

— Eu decidi não votar porque os presidentes anteriores foram incapazes de cumprir nossas demandas.

Alimardan Lotfi, 50, mecânico:

— Todos os iranianos deveriam votar. Eu voto por causa de Israel, Arábia Saudita e os inimigos que existem ao redor do meu país. Mesmo se eu não votar em nenhum desses candidatos, eu vou colocar minha cédula na urna. É uma obrigação religiosa.

 

Hamidreza Ghorbanpour, de 31 anos, trabalha como vendedor de lustres e candelabros na capital iraniana – Vahid Salemi / AP

Qual é a questão mais importante para você?

Com 25 anos, Somayeh Farokhnejad trabalha como designer e vendedora no Irã – Vahid Salemi / AP

Majid Razavi, 50, taxista:

— Eu acho que o maior desafio do nosso país é a subsistência do nosso povo, que é o resultado de má gestão. Se o presidente parar a extravagância imprudente (do uso) dos bens das pessoas (por funcionários), é possível melhorar a situação.

Somayeh Farokhnejad, 25, designer de roupas femininas:

— Oitenta por centro das pessoas jovens que eu conheço não tem objetivo para seus futuros. Todos eles estão desempregados sem exceção, enquanto possuem mestrado. A maioria deles está querendo sair do Irã para procurar melhores oportunidades e dizem que as condições de vida no país são insuportáveis.

Maryam Amir Moezi, 26, dentista:

— O que importa mais para a gente é viver em um país pacífico. Para um país ser pacífico, deve estabelecer bons laços com os outros. Não é bom para nós ser visto como um país de ditadura ou como terroristas por outros países.

Fazel Abrishambaf, 25, seminarista:

— Nós estamos em guerra com as superpotências do mundo. É uma guerra econômica no presente. Ao impor pressões econômicas nos últimos anos, os inimigos têm procurado decepcionar as pessoas e frustradas com a revolução (islâmica).

Qual candidato você está apoiando? Por quê?

Alimardan Lotfi, de 50 anos, trabalha como mecânico de carros – Vahid Salemi / AP

 

Alimardan Lotfi:

— Eu sou um veterano de guerra, mas o governo nos esqueceu. Eu acho que Raisi tem planos melhores para a classe trabalhadora. Rouhani nos esqueceu.

Abolfazl Torkmani, 22, estudante de direito:

— (Apoio) Rouhani, porque nosso país tem sido marginalizado internacionalmente, mas nos últimos quatro anos nós vimos que os políticos e figuras internacionais vieram ao nosso país e nós saímos do isolamento. Este é realmente um grande ponto.

Você está feliz com os candidatos disponíveis?

Jalal Rajaei,de 47 anos, é eletricista – Vahid Salemi / AP

Você está feliz com os candidatos disponíveis?

Maryam Amir Moezi:

— Eu desejo que (Mohammad Javad) Zarif, ministro de Relações Exteriores iraniano, tivesse se nominado para a eleição também. Eu acredito nele como uma pessoa educada que pode falar inglês fluentemente e comunicar com outros países muito bem.

Mahdieh Esmaelili, 41, designer de moda:

— Honestamente falando, eu gostava do Ahmadinejad, que foi desqualificado e não pode ser um candidato. Pessoalmente, gosto muito dele.

Sholeh Talaeipour:

— Seis candidatos ou 100 candidatos não importa. Quando as mãos de um presidente estão atadas, quando um presidente não tem poder nenhum, o que podemos esperar que mude? O que pode ser reformado?

Sholeh Talaeipour, de 57 anos, é maquiadora profissional – Vahid Salemi / AP

Quão importante é a eleição para você?

Jalal Rajaei:

— Votar é um modo de mostrar nosso protesto aos chefes do sistema de governo. É assim que podemos fazê-los entender que eles falharam em atender às demandas do povo.

Azizollah Azizi, 79, alfaiate:

— Devemos participar na eleição. Cada patriota e cidadão do país deve expressar sua insatisfação. Se você não gosta de um candidato, vote no seu oponente e vice-versa.

Hamidreza Ghorbanpour:

— Se houvesse uma democracria real e verdadeira no nosso país, nosso povo amaria se expressar e ter um impacto no destino de seu país.

Alimardan Lotfi:

— Nossas crianças estão desempregadas. Nós queremos ter uma vida confortável. Terminamos à noite o que ganhamos durante o dia. Não podemos guardar nada para amanhã. O próximo presidente deve prestar atenção aos nossos problemas.

Iranianos vão às urnas divididos entre candidato moderado e linha-dura

Atual presidente, Hassan Rouhani é favorito à reeleição, mas saída de oponentes fortaleceu rival conservador

Presidente e candidato à reeleição, Hassan Rouhani deposita seu voto em uma sessão eleitoral em Teerã – MAJID AZAD / AFP

 

As seções eleitorais abriram às 3h30 GMT (0h30 Brasília) para 56,4 milhões de eleitores habilitados, que se pronunciarão entre a manutenção da política de abertura promovida por Rouhani e o nacionalismo defendido por Raisi.

Tanto na capital Teerã como nas províncias o fluxo de eleitores era grande desde o início da votação, com longas filas em alguns locais.

Clérigo xiita, Raisi prometeu doações aos pobres — sem dizer como isso seria financiado — o que acabou atraindo uma parcela dos indecisos.

— Esta eleição é sobre a economia. Acho que a maioria dos eleitores não está pensando sobre a alma do país agora — afirma Cliff Kupchan, presidente do Grupo Eurasia. — Os números estão melhorando, mas os eleitores não estão sentindo isso.

Para os mais jovens, que querem mais democracia e liberdades sociais, Rouhani é a única escolha possível. Mesmo assim, não há entusiasmo após quatro anos de um mandato que não conseguiu implantar suas principais promessas de campanha.

— Tinha 18 anos quando votei em Rouhani há quatro anos. Era jovem e inexperiente — diz o estudante Rastegari, que não quis dar o sobrenome. — Agora, não temos liberdade e nem emprego. Mesmo assim, não temos escolha.

Mas, para eleitores mais velhos, as prioridades são completamente diferentes:

— Meus filhos não podem comer liberdade — rebate o funcionário municipal na cidade de Rasht. — Preciso pagar o aluguel, tenho que colocar pão na mesa da minha família, e vou votar em Raisi.

Candidato conservador Ebrahim Raisi (centro) chega para votar em Teerã – TIMA AGENCY / REUTERS

O taxista Ali Mousavi também é um dos milhões de iranianos que se preocupam com a queda da economia, apesar do histórico acordo nuclear com potências mundiais, conquistada por Rouhani, que levantou as sanções contra o país. Desde então, a inflação caiu para um dígito, mas o desemprego ainda está subindo.

— Não estou interessado em política, vou votar no candidato que prometeu mais dinheiro — diz Mousavi, que tem três filhos e mora em Teerã.

Há ainda os desiludidos pela incapacidade de Rouhani de implantar mudanças sociais. Ele venceu em 2013, apoiado pelos iranianos que pediam menos repressão. Mas grupos de direitos humanos dizem que houve pouco ou nenhum movimento para promover maior liberdade política e cultural desde então, já que os defensores da linha-dura dominam o Judiciário e os serviços de segurança.

— Não vou votar mais. Nós sempre temos que escolher entre o ruim e o menos pior no Irã. Rouhani não conseguiu trazer mudanças — afirma Kourosh Sedgi, estudante de 25 anos de Isfahã.

A saída de outros candidatos conservadores transformou a eleição numa disputa inesperadamente apertada entre Rouhani, 68 anos, e Raisi, de 56 anos. Raisi é apoiado pelo aiatolá Ali Khamenei, a autoridade máxima do país. Estudioso muçulmano, ele ainda é o mantenedor da Astan Quds Razavi, fundação de caridade mais rica do mundo islâmico e organização responsável pelo santuário mais sagrado do Irã, o Imã Reza. Seu turbante preto indica que ele é um seyed — descendente do profeta Maomé, no Islã xiita.

FORTE MOBILIZAÇÃO

Mas, apesar do forte apelo religioso, analistas acreditam que se jovens e mulheres forem às urnas, Rouhani tem grande chances de se eleger. Sua campanha foi impulsionada na reta final pelo apoio de influentes figuras políticas e culturais, na tentativa de mobilizar parte deste eleitorado a ir às urnas. A poucos dias do pleito, o presidente recebeu o endosso do ex-presidente e líder reformista Mohammad Khatami e de Mehdi Karroubi, do Movimento Verde — além de uma forte mensagem positiva do líder verde, Mir Hossein Mousavi, preso desde os protestos de 2009.

— Rouhani habilmente percebeu que venceria se os jovens iranianos repetissem o que aconteceu em 2013 numa escala maior, ou seja, projetando seus desejos num candidato que não é reformista, mas abraça a retórica reformista — explica Behnam Ben Taleblu, analista sobre o Irã na Fundação para a Defesa das Democracias.

O analista Saeed Leylaz acredita numa taxa de participação recorde:

— Rouhani está muito à frente de Raisi. Temendo a pressão por parte de linha-dura, caso Raisi seja eleito, os iranianos se mobilizaram para votar.

Iraniana passa por cartaz de Rouhani: impressões divididas – ATTA KENARE / AFP

Fonte: O Globo