Pesquisa diz que 50% das brasileiras já foram perseguidas na rua

Nas grandes cidades, 86% sofreram algum tipo de assédio em público

    Estudantes marcham em protesto contra o assédio sofrido por uma normalista em transporte público – Alexandre Cassiano / Agência O Globo

     

    Após comemorar o aniversário de um amigo, a professora Kizzy Cesáreo voltava para casa de van quando um estranho entrou no coletivo e sentou a seu lado. O movimento, que em um primeiro momento soava como algo normal, começou a assustá-la quando o homem começou a perguntar com quem morava e onde iria saltar. A partir daí, a menina desceu e foi seguida por ele, mas, por sorte, conseguiu fazê-lo ir embora.

     

    – Eu comecei a andar mais rápido e ele me pedindo para esperar. Falei que ele era maluco, para me deixar em paz. Ele ficou sem graça, falou que tinha me achado bonita e que nem sabia onde estava, que só pegou a van pra tentar conversar comigo, mas pediu desculpas e me deixou em paz. Graças a Deus tive final feliz, mas infelizmente nem sempre é assim- contou a jovem de 25 anos, que já havia sido seguida uma outra vez. 

    A professora faz parte de uma estatística que mostra que 86% das mulheres brasileiras já sofreram assédio em público em suas cidades. Das entrevistadas, 50% já foram seguidas na rua e 44% tiveram seus corpos tocados contra vontade. A pesquisa revela que andar pela rua, utilizar o transporte público, voltar só para casa- situações que são corriqueiras para muitos homens- podem se converter em uma péssima experiência para grande parte das mulheres. Considerando todas as 2.500 mulheres que responderam a pesquisa no mundo, quando perguntadas sobre os lugares que mais temem ser assediadas 70% responderam ao andar pelas ruas; 69%, ao sair ou chegar em casa depois que escurece; e 68% no transporte público.

    O estudo foi divulgado pela organização internacional de combate à pobreza ActionAid, nesta sexta-feira, data na qual também é lançado o “Dia Internacional de Cidades Seguras para as Mulheres”. Realizada pelo instituto YouGov, a pesquisa disponibilizou um questionário On-line, que foi respondido por mulheres no Brasil, na Índia, Tailândia e Reino Unido. Proporcionalmente, o Brasil e a Tailândia foram os países com maior incidência de assédio (86%), seguidos por Índia (79%) e Reino Unido (75%).

    Na avaliação da coordenadora da campanha “Cidades Seguras para as Mulheres no Brasil”, Glauce Arzua, o resultado é “chocante”. Ela argumenta que os dados mostram que as mulheres vivem uma situação difícil não só em países culturalmente conservadores.

    – Não é uma supresa nem no Brasil e nem no mundo, mas quando olhamos essa pesquisa estamos olhando a escala global desse problema e isso é bem chocante. Em contextos tão diferentes em termos religiosos, políticos e culturais encontramos a mesma situação ocorrendo em diversas faixas etárias de mulheres. É bastante impressionante- ressalta Glauce.

    A pesquisa analisa ainda formas específicas de assédio. Nesse caso, 77% das brasileiras disseram já ter sido alvo de assovios, 74% de olhares insistentes, 57% de comentários de cunho sexual e 39% de xingamentos. Chama atenção também o dado sobre estupro: 8% das entrevistadas afirmam que já sofreram essa violência.

    Quando traçado um perfil por regiões do país, a área com maior número de relatos de assédio é o Centro-Oeste, com 92%, seguido do Norte, que registrou 88%, do Nordeste e do Sudeste, ambos com 86%, e, por último, o Sul com 85%.

    SERVIÇOS PÚBLICOS FALHOS

    Entre as causas para tanta violência, além do machismo, a coordenadora da campanha destaca a deficiência dos serviços públicos que não levam em consideração as especificidades da mulher em uma sociedade ainda opressora.

    – É necessária uma qualidade do serviço no sentido em que haja iluminação nas ruas, que os servidores sejam treinados sobre como agir em casos de violência contra a mulher, além de integração entre os transportes, policiamento.- explica Glauce, que critica a falta de representatividade das mulheres nas instâncias de planejamento:

    – É necessário que haja preocupação de que as mulheres sejam envolvidas no planejamento urbano, tanto a representação direta no executivo, como participação organizada em conselhos. A presença de gestoras mulheres é importante, principalmente nesse momento que vemos um retrocesso nos ministérios. Tememos que haja uma perda de espaço pelo entendimento de que isso não é uma prioridade. É importante garantir que as mulheres tenham respeitados seus direitos de disputar uma vida sem violência.

    Fonte: O Globo

    Seis mulheres são agredidas a cada dia no Distrito Federal

    O Ligue 180, da Presidência da República, recebeu em 2015 mais de 2 mil denúncias de brasilienses atacadas física e psicologicamente. No total, são 13 mil ligações na capital federal, a unidade da Federação com o maior número de registros

    Quando ele levanta a voz, a mão ou aponta a arma, um dos únicos caminhos de ajuda é a denúncia. Até algum tempo, o jeito era ir a uma delegacia, encarar o agente de polícia e narrar todo o drama. Mas a criação de políticas públicas em defesa das mulheres permitiu que, hoje, com apenas um telefonema, a vítima de violência doméstica relate o caso e alerte as autoridades sobre o risco. No ano passado, o Ligue 180 da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República recebeu 749.024 ligações no Brasil. O Distrito Federal tem a maior quantidade de atendimentos. Foram pedidos de socorro, relatos de agressão física, psicológica, sexual ou apenas informações de mulheres coagidas no lar.

    Dos 13.066 atendimentos registrados no Ligue 180 referentes à capital federal, 2.095 eram de histórias de violência — a média é de 5,7 casos por dia no DF. Quase metade, só de agressão física. A realidade é triste e não difere do restante das 27 unidades da Federação e de 4.396 municípios brasileiros (cerca de 79%) contemplados pelo serviço. Em mais de 70% dos casos, as agressões são cometidas por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo.

    Quebrar o ciclo de violência é o principal objetivo de qualquer política voltada para o assunto. Libertar a mulher e dar a ela um novo rumo. Um futuro. Palavra ausente do dicionário de pessoas como uma autônoma de 29 anos. A primeira coisa que passa pela cabeça a cada sessão de pancada é a morte. Todas as vezes que o ex-marido a batia, ele escrevia uma mensagem a ela. Repetia, em palavras, tudo que tinha feito; e pedia perdão. A vítima guarda em forma de carta cada uma das 500 vezes que teve essa sensação.

    Filha de uma psicopedagoga e de um integrante do Ministério Público, ela cresceu em boas condições. Financeiras, principalmente, mas o pai mantinha casos fora do casamento, e isso tirava a família dos eixos. “A vida do casal era um inferno. O meu pai sempre teve vida dupla, e eu cresci nesse desalinho. Ele não batia na minha mãe, mas descontava tudo no meu irmão mais velho”, lembra. As vivências familiares renderam transtorno bipolar, depressão e algumas tentativas de suicídio por parte dela. “Fiquei muito instável emocionalmente”, pondera. A fragilidade a mergulhou em um ciclo de violência.
    A primeira união oficial, com um homem até então bom para ela e o filho do antigo relacionamento dela, não deu certo. Acabou arruinada pela bebida e agressões. “Eu cheguei a ficar grávida, de gêmeos, mas, em uma das brigas, discussões, ele me agrediu e eu tive os bebês aos 5 meses. Não resistiram”, lamenta.

    A relação chegou ao fim. Mas a violência, não. No segundo casamento, ela vestiu-se de noiva, entrou na igreja e prometeu amar e respeitar em troca das juras do amado, um bem-sucedido policial federal. Um ano após o matrimônio, tudo mudou. “Ele começou a usar cocaína. Eu tentava refúgio na bebida. Tudo virou um inferno. Várias foram as vezes que não morri porque Deus não quis. Mas as paredes da minha casa viviam cheias de sangue”, recorda.

    Hoje, recuperada, livre de qualquer vício obtido com a tragédia familiar, a autônoma se ergue com a cura de outras mulheres. Trabalha em um grupo de atendimento a outras vítimas, que, assim como ela, se viram presas em um ciclo de violência, sem apoio. Lá, pensam formas de ajuda, políticas em prol das mulheres e meios de encerrar as agressões. “Não tenho mais sequelas, traumas. Não consigo olhar mais pelo ângulo de tristeza. Olho pela superação. Só posso usar a minha história para tentar ajudar essas mulheres. Já tive vontade de matar, tenho marcas que trago na alma e no corpo, mas aprendi que quem carrega ódio só leva e transmite ódio. Se não superasse, nunca teria saído da situação”, conclui.

    Suporte

    Para sair dessa realidade e lidar com os traumas, é preciso de ajuda. No DF, além de toda a rede de apoio construída com delegacia especializada, núcleos e centros de apoio às vítimas e ao agressor, casas de abrigo, há o programa de Proteção às Vítimas de Violência, o Pró-Vítima. Atende pessoas envolvidas em 11 tipos de crimes violentos, assim como os familiares. A iniciativa oferece assistências psicológica, social e jurídica gratuitamente.

    No ano passado, 3.057 casos tiveram o suporte do Pró-Vítima. “Quando há um problema como esse, acolhemos, damos todo suporte, ajudamos, tudo em cima da questão do empoderamento, de acabar com isso, e tentamos inseri-la novamente na rotina de vida normal para que não ocorra mais”, explica o diretor de Proteção às Vítimas de Violência, Walter Flores. Atualmente, um dos casos é o de uma senhora de 49 anos. Ela foi estuprada aos 7 anos e, até hoje, guarda sequelas psicológicas da violência.

    Em 2016, de acordo com Walter, foram recebidos 248 casos, só no mês de março. Desse total, 222 saíram de ocorrências policiais, oito de gente que procurou o Pró-Vítima espontaneamente e 18 de encaminhamentos institucionais, por meio do Ministério Público ou do Conselho Tutelar. O GDF conta com cinco postos do Pró-Vítima (veja endereços). Os atendimentos não são feitos de forma compulsória. “Se faltar por três dias, nós entendemos que desistiu. Até chegar a esse ponto, a gente liga, vai atrás, mas não pode obrigar. É algo que a pessoa tem de querer. Claro que o melhor é que nem tivéssemos a necessidade de um programa como esse, mas não temos essa condição, com qualidade de vida e uma cultura de segurança que todos querem”, observa.

    Fonte: Correioweb