Para o bem ou para o mal, o desfecho que se dará à arrastada tragédia grega está longe de resolver o que, hoje, é uma das maiores fragilidades da Europa: a distância entre ricos e pobres. Desde a crise financeira global, há quase sete anos, pelo menos cinco dos 19 sócios da moeda única na chamada zona do euro amargam um receituário doloroso de aperto fiscal e cortes em benefícios sociais tradicionais. Espanha, Itália, Portugal e Irlanda foram os primeiros socorridos pela União Europeia (UE) entre 2009 e 2012. A Irlanda já se recuperou. Os outros três saíram-se bem até agora, diferentemente da Grécia, mas ainda causam desconfiança aos mercados.

— A crise de 2008 expôs a fragilidade da arquitetura europeia e as enormes diferenças entre os países. Não se pode crescer em meio a tantos desequilíbrios e discrepâncias entre ricos e pobres — diz o especialista em Europa da Universidade de Glasgow Georgis Karyotis.

Os indicadores socioeconômicos desses países não são tão diferentes dos gregos. E isso explica o motivo da preocupação. A dívida pública bruta da Grécia é, de longe, a mais alta do grupo — chegou a 177% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Mas a da Itália, que está em 132,1% do PIB, era de 102,3% em 2008. Já a de Portugal bateu os 130,2% do PIB. A da Espanha saltou para 97,7% do PIB.

Dentro da zona do euro, é nesses países — considerados os “patinhos feios” do bloco — que se encontra o maior percentual da população sob risco de pobreza e exclusão social. São 34,5% na Grécia, 28,4% na Itália, 27,4% em Portugal e 27,3% na Espanha. E foram eles os submetidos aos ajustes e reformas mais rigorosos nos anos recentes.

— É óbvio que a situação na Grécia terá implicações em outros países da zona do euro. Cria um precedente ruim. A Itália, por exemplo, principal aliada da Grécia neste momento, tem muitos problemas e pode ser afetada. Itália, Portugal e Espanha são os principais alvos das pressões do mercado. O contágio não está descartado. E o custo de salvar a Grécia agora é relativamente pequeno se comparado ao custo para salvar economias maiores como Itália ou Espanha — alerta Karyotis.

RECADO AO MERCADO E AO ELEITOR

O desafio das autoridades europeias agora é mostrar se era a Grécia o ponto fora da curva — ou se questões semelhantes poderão surgir nas chamadas economias periféricas europeias. Todos agora têm pressa para buscar uma solução, sobretudo, depois das turbulências que vieram da China e abalaram os mercados mundo afora na semana passada.

É verdade que a Grécia representa menos de 2% do PIB da zona do euro e menos de 0,5% da economia mundial. Mas o fato de estar dentro da zona do euro faz do país uma peça importante do mercado financeiro, pelos sinais que pode levar o resto da Europa a emitir para o mundo.

Diante dos riscos de contaminação e temores entre os investidores, nos últimos dias, líderes dos países considerados mais frágeis não perderam a oportunidade de reafirmar seu compromisso com a austeridade. E reiteraram que o discurso com a Grécia deve ser duro.

Eles têm a dupla tarefa de acalmar os mercados em relação a quaisquer dúvidas quanto à sua capacidade de cumprir o dever de casa, e de reiterar ao seu eleitorado que o remédio amargo imposto à economia — que vem tendo um custo alto para a população — era a única alternativa possível.

— No pior dos cenários, de uma saída da Grécia da união monetária, os riscos de contágio para outros países do euro são menos altos que entre 2010 e 2011. Um choque poderia levar a um aumento da aversão a risco entre os investidores, credores e consumidores. Como o índice de confiança das empresas e dos consumidores é um fator-chave para as nossas previsões para os próximos dois anos e meio, o Grexit (saída da Grécia do euro) poderia facilmente enfraquecer a retomada que estamos esperando (para a região) — diz o economista-chefe da Standard&Poor’s para Europa, Oriente Médio e África, Jean-Michel Six.

A três meses das eleições legislativas, o primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, apressou-se para defender esta semana a estratégia “de rigor, crescimento e estabilidade” adotada pelo governo nos últimos anos:

— O pior que se pode fazer nessas circunstâncias é somarmos a elas a nossa própria incerteza e desorientação.

Para Karyotis, ainda que o contágio econômico não se confirme, o político será inevitável e deve dominar o debate daqui para frente. Se a Grécia receber condições mais camaradas para continuar dentro do euro, os partidos de esquerda se sentirão fortalecidos para pedir mais. Não resta dúvida de que os líderes em Portugal, Espanha e Itália serão cobrados pela população.

O argumento contra a austeridade ganhou os discursos não apenas da esquerda, mas também dos eurocéticos. E esse tem sido o maior temor dos grupos políticos no poder pela Europa. Na Espanha, a oposição do Podemos, que se aproximou do Syriza grego, vem encampando o discurso antiausteridade.

— Existe um grande desafio político pela frente nos países da UE. A austeridade foi apresentada como única saída. E, agora, a Grécia está mostrando que pode haver uma alternativa. As discussões foram abertas. O debate político europeu tornou-se uma questão nacional também — afirma o professor.

Para Ian Bigg, especialista da London School of Economics (LSE), a zona do euro está bem blindada, e não há riscos de contágio econômico. Mas ele vislumbra no médio prazo mudanças importantes no projeto da união monetária para que não haja riscos futuros.

Fonte: O Globo

‘Não’ lidera em votação na Grécia com 85% dos votos apurados

Eleitores responderam se aceitam ou rejeitam acordo proposto por credores.
A estimativa é que 65% dos eleitores tenha comparecido à votação.

Partidários do 'não' comemoram resultado do referendo na praça Syntagma, em Atenas (Foto: Marko Djurica/Reuters)Partidários do ‘não’ comemoram resultado do referendo na praça Syntagma, em Atenas (Foto: Marko Djurica/Reuters)

A maioria dos eleitores gregos decidiu pelo “não” às exigências dos credores do país para pagar sua dívida, segundo os primeiros resultados do referendo no país. Com 85% dos votos apurados, o “não” tinha 61,54% dos votos.

Milhares de partidários do “Não” lotavam a praça Syntagma, no centro de Atenas, para comemorar a vitória no referendo celebrado este domingo na Grécia. Cerca de  5 mil manifestantes, segundo a polícia, exibiam bandeiras gregas e cartazes com a palavra OXI (Não), repetindo palavras de ordem contra a austeridade.

“Não por uma pátria livre” e “Não pelo futuro, por nossos filhos”, diziam alguns dos cartazes levados pelos manifestantes de um partido de extrema-esquerda, EPAM (Frente Unidos Popula).

Também havia festejos perto da Universidade, onde se concentrava cerca de mil militantes do Syriza. Ao redor da praça Syntagma os manifestantes gritavam “Oxi, oxi”, alguns cantavam e outros dançavam.

Urna é retirada após o fim da votação em Atenas (Foto: Marko Djurica/Reuters)Urna é retirada após o fim da votação em Atenas (Foto: Marko Djurica/Reuters)
 

Segundo as agências de notícias, a votação ocorreu sem incidentes. A estimativa é que 65% dos eleitores tenha comparecido à votação.

Pouco depois do final da votação, o porta-voz do governo grego, Gavriil Sakellaridis afirmou que o governo quer retomar as negociações com os credores gregos imediatamente. “As negociações que vamos começar devem ser concluídas muito rapidamente, mesmo em 48 horas”, afirmou.

De acordo com o Palácio do Eliseu, sede do governo da França, o presidente francês, François Hollande, vai receber na tarde de segunda-feira a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, para discutir o resultado do referendo. No comunicado, a presidência francesa aponta que o encontro marca a “cooperação permanente entre França e Alemanha para contribuir com uma solução duradoura para a Grécia”.

Com os bancos correndo o risco de ficar sem dinheiro já na segunda-feira, o ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, deve se reunir ainda neste domingo com os banqueiros do país. O governo também deve pedir ajuda ao Banco Central Europeu para garantir a liquidez das insttuições. Sem esses recursos, o governo grego pode ser obrigado a voltar a emitir dracmas – a moeda anterior ao euro.

Protestos
Manifestantes tomaram conta de Atenas nos dias que antecederam a votação, mostrando o país dividido entre os que defendem as reformas impostas à Grécia e os que recusam as medidas. Houve tumultos e a polícia chegou a intervir com gás lacrimogêneo.

Pesquisa do Instituto Alco para o Jornal Ethnos  mostrava uma pequena vantagem dos defensores do acordo, mostrando o “sim” com 44,8% contra 43,4% para o “não”. Mas a vantagem fica dentro da margem de erro de 3,1 pontos percentuais, e 11,8% dos entrevistados disseram que ainda estavam indecisos, segundo a Reuters.

O que o referendo perguntou?
A consulta quer saber se os eleitores aceitam o acordo proposto pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 26 de junho. Dividido em duas partes, o acordo exige uma série de reformas para cortar gastos e aumentar a arrecadação. Os gregos terão que escolher entre duas respostas: não ou sim. Para os principais líderes europeus, a pergunta é outra: se a Grécia deve ou não ficar na zona do euro.

Referendo na Grécia (Foto: Arte/G1)

Quais são os termos do acordo?
Os credores pedem que os gregos cortem benefícios de aposentadorias e pensões e aumentem impostos para melhorar a saúde financeira do país. Os pontos centrais da proposta são a ampliação do imposto IVA e uma redução drástica no número de pessoas que podem optar por uma aposentadoria antecipada. Os credores também exigem ações para reduzir a evasão fiscal e acabar com a corrupção. Só assim vão liberar a ajuda de € 1,8 bilhão que Atenas precisa para pagar uma parcela de sua dívida com o FMI – e que venceu no dia 30 de junho.

O que pensa o governo grego?
O partido que ocupa o poder na Grécia não aceita as condições impostas no acordo, alegando que as medidas são “humilhantes”, pouco eficazes e penalizam a população. Na sexta-feira, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, fez um pronunciamento na televisão apelando aos gregos para votar pelo “não”, rejeitando o que chamou de “chantagem” e “ultimato” por parte dos credores.

Cédula de votação do referendo deste domingo (5) (Foto: Reprodução)Cédula de votação do referendo
(Foto: Reprodução)

E se o “sim” vencer?
Tsipras disse que respeitará a decisão do povo se houver vitória do “sim”, mas não ficará no governo para implementar a proposta do Eurogrupo. O ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, também assegurou que se o “sim” vencer renunciará e não assinará o que qualificou como um “acordo hipócrita”, que não aborda questões-chave como a sustentabilidade da dívida. A Grécia possivelmente passará por um novo episódio de instabilidade política se aceitar os termos do acordo.

E se o “não” vencer?
O porta-voz do governo da Grécia, Gavriil Sakellaridis, afirmou na quinta-feira que uma vitória do “não” permitirá voltar à mesa de negociações para conseguir um acordo em melhores condições. Mas se esse acordo não sair, a Grécia pode ser expulsa da zona do euro por calote. A saída do país da unidade monetária permitirá que a Grécia volte a controlar sua política monetária (que hoje é “terceirizada” para o BC europeu), o que pode ajudar nas exportações. Mas também deve fechar o país para a entrada de capital estrangeiro e agravar a crise econômica.

A Grécia vai sair do euro na vitória do “não”?
Ninguém sabe ao certo. Não existe uma regra e até o vice-presidente do Banco Central Europeu, Vitor Constancio, disse em abril que não havia qualquer lei que determine a expulsão da zona do euro em caso de calote. O governo grego insiste que não está tentando abandonar a moeda e até insinuou que poderia iniciar processos legais caso os outros países da zona do euro tentem expulsar a Grécia. Se o Banco Central Europeu decidir bloquear completamente o crédito para Atenas, as autoridades gregas não teriam mais opção a não ser começar a imprimir sua própria moeda para tentar manter a economia funcionando.

O que diz o FMI?
O Fundo disse que considera a dívida da Grécia “insustentável”. Em documento publicado após a Grécia deixar de pagar uma parcela de sua dívida, o FMI apontou que o país precisa de ao menos € 50 bilhões até 2018 para conseguir fechar as contas. Segundo o fundo, mesmo que a Grécia aprove o plano dos credores no referendo, o país precisará de uma nova ajuda nos próximos três anos. Do total, ao menos € 36 bilhões teriam de ser financiados com recursos europeus. Hoje, a dívida grega supera € 300 bilhões.

 O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, discursa pelo não no centro de Atenas, nesta sexta (3) (Foto: Reuters/Yannis Behrakis) O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, discursa pelo não no centro de Atenas, nesta sexta (3) (Foto: Reuters/Yannis Behrakis)

 

Manifestantes reúnem-se no centro de Atenas antes do referendo sobre o futuro da economia grega, nesta sexta-feira (3) (Foto: Reuters/Yannis Behrakis)Manifestantes reúnem-se no centro de Atenas antes do referendo sobre o futuro da economia grega, nesta sexta-feira (3) (Foto: Reuters/Yannis Behrakis)

RESUMO DO CASO- A Grécia enfrenta uma forte crise econômica por ter gastado mais do que podia.
– Essa dívida foi financiada por empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do resto da Europa.
– Na última terça-feira (30), venceu uma parcela de € 1,6 bilhão da dívida com o FMI. Então, o país entrou em “default” (situação de calote), o que pode resultar na sua saída da zona do euro.
– Essa saída não é automática e, se acontecer, pode demorar. Não existe um mecanismo de “expulsão” de um país da zona do euro.
– Como a crise ficou mais grave, os bancos estão fechados nesta semana para evitar que os gregos saquem tudo o que têm e quebrem as instituições.
– A Grécia depende de recursos da Europa para conseguir fazer o pagamento ao FMI. Os europeus, no entanto, exigem que o país corte gastos e aumente impostos para liberar mais dinheiro. O prazo para renovar essa ajuda também venceu nesta terça-feira.
– O governo grego apresentou nova proposta ao Eurogrupo, grupo que reúne ministros da União Europeia, fazendo concessões, mas rejeitando algumas das medidas de cortes mais duras.
– O primeiro-ministro grego convocou um referendo para domingo (5 de julho). Os gregos serão consultados se concordam com as condições europeias para o empréstimo.
– A Europa pressiona para que a Grécia aceite as condições e fique na zona do euro. Isso porque uma saída pode prejudicar a confiança do mundo na região e na moeda única.
– Para a Grécia, a saída do euro significa retomar o controle sobre sua política monetária (que hoje é “terceirizada” para o BC europeu), o que pode ajudar nas exportações, entre outras coisas, mas também deve fechar o país para a entrada de capital estrangeiro e agravar a crise econômica.

Dívida da Grécia com o FMI vence em 30/6/15

Também termina o prazo para receber ajuda financeira da União Europeia.
Se a moratória se confirmar, Grécia pode sofrer restrições do FMI.

Manifestantes reúnem-se em frente ao BC Europeu em favor da Grécia, em Londres, nesta segunda-feira (29) (Foto: Reuters/Neil Hall)Manifestantes reúnem-se em frente ao BC Europeu em defesa da Grécia, em Londres, nesta segunda-feira (29) (Foto: Reuters/Neil Hall)

Vence nesta terça-feira (30) o prazo para a Grécia pagar uma parcela de 1,6 bilhão de euros de sua dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Também vence nesta terça o prazo para o país receber ajuda financeira da zona do euro, necessária para evitar um possível calote. Sem essa ajuda, o país não conseguirá pagar o FMI e entrará em situação de calote.

O Banco Central Europeu (BCE) e a União Europeia (UE) exigem, em troca da ajuda financeira, que a Grécia faça uma série de reformas econômicas que incluem medidas como aumento de impostos e cortes na aposentadoria. O esforço fiscal seria da ordem de 2 bilhões de euros. A Grécia não aceita fazer essas reformas e, caso o calote ao FMI se confirme, o país pode deixar a zona do euro.

 
CRISE GREGA

Nas últimas semanas, houve diversas tentativas de acordo em negociações entre o governo grego e ministros da zona do euro, sem sucesso. A Grécia recusou as exigências, alegando que elas prejudicariam ainda mais a situação econômica do país.

Há ainda um fator político: o premiê grego, Alexis Tsipras, venceu as eleições em Janeiro de 2015 com a promessa de acabar com medidas de “aperto financeiro” como as do governo anterior.

Na sexta-feira (26), Tsipras convocou referendo para que a população diga se quer ou não que a Grécia aceite as reformas econômicas impostas pelos credores. Em pronunciamento pela TV em 29/6/15, pediu que o povo vote pelo “não”

Assustados com a crise, os gregos iniciaram uma corrida aos bancos para retirar seu dinheiro das instituições. Com a onda de retiradas, o governo anunciou feriado bancário, que teve início em 29/6/15, quando milhares reuniram-se em Atenas para dizer “não” às reformas exigidas pelos credores. Tsipras disse que vai respeitar a decisão do povo “qualquer que seja”, e que após a votação o governo retomará as negociações. “O referendo dará à Grécia melhores armas para negociar”, afirmou.

O referendo, porém, foi marcado para 5 de julho, quando já terá vencido o prazo de pagamento.

E se a Grécia declarar moratória?

Pensionistas aguardam em frente a uma agência fechada do Banco Nacional da Grécia, na esperança de receberem suas pensões, e discutem com um funcionário do banco em Iraklio, na ilha de Creta (Foto: Stefanos Rapanis/Reuters)Pensionistas aguardam em frente a uma agência do Banco Nacional da Grécia, na esperança de receberem suas pensões, em dia de bancos fechados após decisão do governo  (Foto: Stefanos Rapanis/Reuters)

O FMI não tem nenhuma margem de manobra e ficará legalmente impossibilitado de emprestar dinheiro a Atenas.

A Grécia já usou uma cláusula no início de junho para reagrupar pagamentose obter um alívio até o final do mês – ou seja, deixou acumular pagamentos que venceriam em datas distintas para quitar a soma no último vencimento. Essa soma é justamente o montante de 1,6 bilhão de euros que precisam ser pagos nesta terça.

Sem o pagamento, o país pode declarar sua própria moratória – semelhante ao que foi feito na Argentina em 2002. A moratória acontece quando um país declara não ter condições financeiras de cumprir suas obrigações.

Pelas regras do FMI, a diretora-gerente do fundo, Christine Lagarde, teria um mês para informar à junta de diretores que representam os 188 países-membros da instituição sobre a moratória. Mas ela não esperará tanto tempo “dada a visibilidade e a importância do caso grego”, afirmou um porta-voz do FMI.

Manifestantes participam de um comício anti-austeridade na frente do prédio do parlamento em Atenas, na Grécia. Os gregos enfrentam bancos fechados, longas filas nos supermercados e incerteza após negociações com os credores internacionais (Foto: Marko Djurica/Reuters)Manifestantes participam de um comício anti-austeridade na frente do prédio do parlamento em Atenas, na Grécia. Os gregos enfrentam bancos fechados, longas filas nos supermercados e incerteza após negociações com os credores internacionais (Foto: Marko Djurica/Reuters)

Três meses após a moratória, e após a apresentação formal de uma queixa, a Grécia pode ser privada de sua capacidade de usar os Direitos Especiais de Giro (DEG), a moeda criada pelo FMI com base em uma cesta das principais moedas do mundo.

Depois, o FMI terá até 15 meses para emitir formalmente uma “declaração de não cooperação”, que pode provocar nos três meses seguintes a suspensão dos direitos de voto de Atenas dentro da instituição. Essa decisão teria consequências sobretudo simbólicas, mas confirmaria o isolamento do país dentro do FMI.

Nos seis meses seguintes, totalizando dois anos depois do descumprimento do pagamento inicial, pode ter início então um procedimento de expulsão do FMI. Mas esse resultado é pouco provável: deve-se obter o consentimento da maioria dos Estados-membros (85%) e até agora sempre preferiu-se evitar este tipo de situação extrema.

Países em moratória

Manifestante anti-austeridade queima uma nota de Euro em frente aos escritórios da União Europeia em Atenas neste domingo  (Foto: Reuters/Alkis Konstantinidis)Manifestante anti-austeridade queima uma nota de Euro em frente aos escritórios da União Europeia em Atenas neste domingo (Foto: Reuters/Alkis Konstantinidis)

Na história do FMI, só um país, a Tchecoslováquia, foi excluído do fundo, na década de 1950, em plena Guerra Fria. Zimbábue, Sudão e Somália, que estão em moratória há décadas, nunca foram ameaçados com a exclusão, embora os montantes devidos por esses países sejam incomparáveis aos da Grécia.

O Zimbábue, último país a descumprir pagamento com o FMI em 2001, deve 101,1 milhões de euros à instituição. Só em 2015, a Grécia deve pagar 5,4 bilhões ao FMI.

Cinco números da crise e da austeridade na Grécia

Dados mostram o impacto da deterioração econômica sobre a vida dos gregos; ainda não há acordo entre Atenas e seus credores internacionais.

A Grecia e seus credores internacionais não conseguiram resolver o impasse da dívida, após uma rodada de diálogo

A discordância diz respeito aos termos das medidas de austeridade a serem impostas no país em troca de uma parcela de um pacote de resgate que permita a Atenas pagar dívidas de vencimento iminente e, assim, evitar a moratória – que pode resultar na sua saída da zona do euro.

Uma nova reunião foi agendada para sábado, em uma última tentativa de acordo.

 

As origens da atual crise remetem a dez anos atrás, quando autoridades europeias descobriram que a Grécia havia maquiado suas contas, ao longo de vários anos, para conseguir entrar na zona do euro.

Endividado, o país sucumbiu durante a crise financeira de 2008 e precisou pedir dois pacotes milionários de resgate e aplicar, em contrapartida, um doloroso plano de austeridade.

Agora, depois de três anos de cortes de gastos públicos, o recém-eleito governo esquerdista do premiê Tsipiras, do partido Syriza, volta a tentar negociar com a União Europeia, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Central Europeu.

Os credores exigem do governo novos cortes de gastos e de aposentadorias, enquanto Tsipras propõe aumentar a arrecadação via elevação de impostos sobre empresas e fortunas. Enquanto isso, a economia vive paralisação, o desemprego cresce e muitos gregos estão ameaçados de pobreza.

A BBC apresenta algumas cifras-chave da crise grega:

25% de queda do PIB
Nos últimos sete anos, o Produto Interno Bruto (PIB, soma de tudo o que é produzido na economia) caiu cerca de 25% na Grécia, fazendo com que a crise nos demais países europeus pareça, comparativamente, um mero resfriado.

Em 2011, pior ano da atual crise, a contração foi de 8,9%.

Após três anos de intenso recuo econômico, a Grécia saiu da recessão no início de 2014 e conseguiu crescer 0,8%, cifra que não se traduziu na melhoria das condições de vida da maioria dos cidadãos mais pobres.

E a alegria durou pouco: a economia voltou a se contrair no final do ano passado.

As previsões para 2015 tampouco são animadoras: o Banco Central Europeu prevê crescimento de apenas 0,5%.

Os credores pedem um superávit primário (economia de recursos públicos feitas para pagar os juros da dívida) de 1% do PIB neste ano e elevá-lo gradativamente até 3,5% em 2018.

O cumprimento disso exigirá duras medidas de austeridade: calcula-se que o governo teria de cortar gastos e aumentar impostos em quantidade equivalente a 1,5% do PIB neste ano.

52% dos jovens não têm emprego
Ainda que, mesmo antes da recessão, a Grécia já tivesse elevado nível de desemprego entre jovens e de dívida pública, a situação se deteriorou fortemente nos últimos anos.

O desemprego triplicou, alcançando 26% da força laboral. E três quartos dos desempregados estão há 12 meses ou mais sem trabalhar.

Se a situação é ruim para a população em geral, é mais crítica para os menos experientes: mais de 52% dos jovens estão sem emprego. Em 2013, essa cifra chegou a 58,3%.

45% dos aposentados são pobres
O pagamento de pensões é uma das frentes de batalha entre Tsipras e os credores.

O premiê grego assumiu o poder prometendo não cortar mais as aposentadorias, mas os detentores dos títulos da dívida grega insistem em mais reformas nessa área.

A questão é que as aposentadorias são o principal sustento na metade dos lares do país, o que dá uma ideia dos efeitos que teriam eventuais novos cortes.

Ainda que a Grécia seja um dos países europeus que mais gastam com pensões (15% do PIB), muitos pensionistas vivem sob a linha de pobreza.

Os credores pedem um corte de 1% do PIB nas pensões até 2017 e reformas no sistema de pagamento; o governo também aceitou eliminar, pouco a pouco, as aposentadorias antecipadas.

40% das crianças estão sob a linha de pobreza
Segundo a Unicef, a Grécia tinha em 2013 597 mil crianças vivendo abaixo da linha de pobreza. Entre elas, 322 mil não tinham supridas suas necessidades nutricionais mais básicas.

Um relatório do Escritório Orçamentário do Parlamento grego estimava em 2,5 milhões o número de gregos vivendo em pobreza no fim de 2014.

200 mil funcionários a menos
A Grécia aceitou cortar 15 mil funcionários públicos durante as negociações do primeiro pacote de resgate.

Em abril deste ano, os cortes subiram para totalizar 200 mil funcionários públicos demitidos desde 2009, reduzindo o custo salarial em 8 bilhões de euros anualmente.

Em maio, porém, o governo anunciou que voltará a contratar 4 mil pessoas demitidas.

Fonte: G1