O ministro para a Defesa da Venezuela, general Vladimir Padrino, nomeará um comandante para cada um dos 18 principais tipos de alimentos, entre eles o arroz, como parte de um plano do presidente Nicolás Maduro que busca combater a severa escassez sofrida pelos venezuelanos.

“Ordenei (…) nomear um general, com uma equipe cívico-militar, por cada setor alimentício; ou seja, um general ou almirante será chefe do arroz e vai mostrar um mapa completo, da produção, ou importação, até a comercialização”, explicou o ministro, citado nesta quarta-feira (24) pela imprensa local.

Encarregado da chamada “Grande Missão de Abastecimento Soberano e Seguro”, Padrino anunciou a criação de uma unidade de apoio especial, com 250 brigadistas e 1.700 líderes comunais “para recolher as colheitas”.

“Com isso, buscamos governar realmente os 18 produtos primários tanto de farmácia como de consumo”, afirmou o general, sem informar os setores, durante uma discussão com Maduro sobre o avanço do plano.

O ministro acrescentou que foi criada uma Comissão Especial para abordar o tema de distribuição de insumos médicos, cuja escassez atinge 81%, segundo uma pesquisa realizada por organizações médicas e acadêmicas.

“Não podemos continuar permitindo que essa distribuição fique nas mãos de drogarias privadas, se temos uma capacidade deixada pelo comandante Hugo Chávez, computadorizada (…). Já começaram a trabalhar nessa área”, afirmou Padrino.

Maduro, que enfrenta uma baixa popularidade, espera que os militares ponham ordem na distribuição de mercadorias e reduzam a aguda escassez de mais de 80% em alimentos e remédios que angustia os venezuelanos e provoca longas filas nos supermercados.

Fonte: Yahoo

 

A rotina de filas, privações e saques criada pela escassez de comida na Venezuela

Mães estão deixando de comer alguns alimentos para deixar para as crianças; inflação já é de 180%

A Venezuela é um país com altíssimo grau de polarização política e social, mas há um lugar em que simpatizantes do governo e da oposição são forçados a deixar suas diferenças de lado: a fila para comprar comida.

Enquanto esperam para poder adquirir produtos cujo preço é regulado pelo governo, os venezuelanos têm tempo de sobra para conversar sobre as dificuldades que todos precisam enfrentar em seu dia a dia – independentemente de sua opinião política ou afinidade ideológica.

Entre os temas mais frequentes estão os preços que não param de subir. A Venezuela registra hoje a maior inflação do mundo – em 2015, o índice oficial ficou em 180%.

Outros assuntos recorrentes são os cortes de eletricidade e a falta d´água – que fazem com que muitos venezuelanos não possam lavar a louça ou tomar banho, algumas vezes por vários dias.

Outro problema é o aumento da criminalidade. Com um a taxa de 58 homicídios por 100 mil habitantes, hoje a Venezuela só perde para Honduras no ranking dos países mais violentos do mundo. Mas talvez o que cause mais revolta é mesmo o motivo da fila: a falta de alimentos.

O problema vem sendo impulsionado por uma combinação de fatores políticos e estruturais – do alto grau de dependência da Venezuela de bens importados à queda nos preços do petróleo (cujas vendas geram divisas para o país pagar por suas importações) e o controle estatal da produção e distribuição de produtos básicos.

Segundo o presidente Nicolás Maduro, a escassez de alimentos também é o resultado de uma guerra econômica e política travada contra o governo por líderes e organizações empresariais de direita. E foi com esse argumento que Maduro declarou estado de emergência no país no último dia 13.

Seja qual for a explicação, o fato é que milhares de venezuelanos precisam hoje fazer uma peregrinação diária por vendas e supermercados na esperança de conseguir o maior número de produtos básicos possível – de leite a arroz, óleo de cozinha e macarrão.

Além disso, a falta de produtos básicos e a alta dos preços há algum tempo se tornaram as principais preocupações dos venezuelanos – na frente, até mesmo, da questão da segurança. Segundo uma pesquisa realizada em março pelo instituto Keller e Associados, 90% da população estaria “muito preocupada” com essas questões.

Para piorar, em alguns casos, a busca por alimentos e produtos básicos também tem se tornado violenta. Só nos três primeiros meses deste ano, pelo menos 170 lojas foram saqueadas em todo o país – uma média de quase 2 saques por dia.

Dois lados
“Eu estava na fila ontem, esperando para comprar farinha de milho (usada para fazer arepa, uma espécie de bolinho tradicional no país) e conversando com uma vizinha sobre as privações que sofremos em função dessa falta de alimentos”, contou recentemente, em sua página do Facebook, uma jovem senhora de classe média que se define como simpatizante da oposição.

“Ela sai de casa todos os dias sem tomar café da manhã, porque quer guardar o pouco de comida que consegue encontrar para as crianças da família. Eu não chego a tanto, mas já não como arepa para deixar a farinha de milho para meu filho. Nada de mingau de aveia, porque para isso precisaria de leite – e guardo o leite para meu filho. Também não como manteiga pensando que posso querer fazer um bolo para ele. E o maior drama não é que tive de abrir mão disso tudo, mas que hoje eu veja isso como algo normal.”

A autora dessa mensagem diz que assinou recentemente uma petição promovida pela oposição ao governo Maduro em favor de um referendo sobre a convocação de novas eleições – o que é previsto pela Constituição venezuelana.

Mas quem está mais alinhado com o governo também sofre com a escassez de alimentos. Sem querer se identificar, uma funcionária de um ministério, de classe média, conta que as privações marcam a rotina de sua família.

“Minha filha está muito magra. Ela não come mais biscoitos ou doces. Falta leite, remédios. Meus pais não conseguem comprar comida, são muito velhos. E só o que eu posso fazer é chorar”, diz.

Jogo de empurra
Ainda há, é verdade, chavistas mais linha-dura que acreditam que é preciso lutar a todo custo para se alcançar o que o falecido ex-presidente Hugo Chávez prometia em seus discursos: uma Venezuela socialista e igualitária.

Mas mesmos esses venezuelanos acabam culpando as “elites” pela crise, mas exigindo explicações do governo sobre por que não se consegue encontrar certos remédios ou tipos de alimentos.

E, até em função dessa dinâmica, um dos poucos fenômenos positivos impulsionados pelo aprofundamento da crise venezuelana é que famílias que haviam se dividido em função de diferenças políticas e ideológicas agora estão se “reunificando” na crítica a essas adversidades do dia a dia no país.

Na ausência de um líder carismático como Chávez, tem sido mais difícil para o governo se livrar da responsabilidade pelos problemas.

Segundo uma pesquisa do instituto IVAD, citado com alguma frequência pelo governo, 69% da população classifica a gestão Maduro como “ruim” ou “muito ruim”. E não é difícil entender o porquê nas filas dos supermercados.

“(Os venezuelanos) estão passando fome – literalmente”, diz Angel Garcia, da consultoria Econometrica, com sede em Caracas. “Muitas pessoas estão comendo menos de duas refeições por dia, sem proteína, carne, frango ou feijão. Sua sobrevivência depende de farinha.”

Para um número cada vez maior de analistas, o país está à beira de um colapso. Isso vem sendo dito há anos, mas há uma diferença agora: a crise chegou a um nível tal que todos estão sendo afetados pelo problema da falta de alimentos – independentemente de suas convicções políticas.

Por todos os lados, há mães tentando se adaptar à escassez, chavistas radicais que não sabem a quem culpar por seus problemas cotidianos, funcionários públicos sentindo que seu ganha-pão está ameaçado – todos travando as mesmas lutas diárias para sobreviver.

Fonte: G1

Há incerteza quanto ao futuro nos cidadãos venezuelanos que nos últimos meses têm chegado a Portugal. Fogem de um país onde a alimentação, garantem, passou a ser um luxo.

Os medicamentos faltam em farmácias e hospitais. É um país onde a insegurança amedronta.

“A Venezuela está à beira de um abismo”, afirmam em uníssono os venezuelanos com quem o JN falou. Sem conseguirem acreditar numa melhoria num futuro a curto prazo, muitos deixaram tudo para trás, casas, empresas, familiares, amigos. “Não tem a ver com política, tem a ver com os direitos humanos simples, que são violados”.

Christian Höhn, presidente da Venexos, uma associação de ajuda a venezuelanos em Portugal, é direto: “Já batemos no fundo em muitos sentidos. Há um ano, a Venexos recebia, por semana, cerca de 30 a 40 mensagens de pessoas a fazer perguntas ou a dizer que queriam vir para o país. Atualmente, chegam à associação 30 mensagens por dia. Não é fácil ouvir a realidade destas pessoas”.

Em Portugal há 17 anos, Christian Höhn é venezuelano, filho de mãe alemã. “A minha mãe permanece lá. Tem 80 anos. Quando lhe pergunto o que pensa fazer, diz: “Nada. Sempre vivi aqui.” Como se muda de vida aos 80 anos?”. De acordo com o responsável, há cerca de cem mil venezuelanos em Portugal (números não oficiais), dos quais mais de metade com dupla nacionalidade.

O presidente da associação aponta ainda para a existência de cerca de 1800 venezuelanos ilegais no país. E revela que, no último trimestre, chegaram 37 famílias sem qualquer ligação a Portugal.

Recentemente, face à precariedade do sistema de saúde, a Venexos lançou a campanha “Medicamentos para a Venezuela” em vários pontos da Europa.

“Está a ser um sucesso”, diz Christian Höhn. “Em três semanas, só em Portugal, foram recolhidos 255 quilos de medicamentos. Tenho 18 anos de voluntariado em muitos setores. Nunca imaginei ter de abrir uma campanha de voluntariado para medicamentos para o meu próprio país…”

Um português e três venezuelanos contam como foi

Carlos Abreu

Emigrante na Venezuela há 39 anos, chegou há cinco dias a Portugal, onde tem família. Veio acompanhado da mulher, Miriam, e de dois filhos de 5 e 8 anos. Foi acolhido pela irmã, Liliana Rodrigues, nascida na Venezuela, mas regressada há nove anos. “Agora andamos à procura de casa”. Carlos Abreu é dono de uma padaria, em Valência, a 150 quilómetros de Caracas. “Já só tínhamos farinha para mais um ou dois meses de produção. Não há onde reabastecer. Preocupava-nos a falta de segurança, com os cortes constantes de energia elétrica. Agora até fecham as escolas às sextas-feiras para poupar eletricidade. A falta de medicamentos é outra situação dramática. Não podíamos continuar lá nesta situação”.

Jormán Torres

“Toda minha família, mãe e dois irmãos, mora na Venezuela. A situação é realmente muito complicada. Não há comida, nem os serviços básicos estão garantidos. O pior é a falta de medicamentos”, conta este músico e professor de violino da orquestra da Casa da Música, no Porto. O que trouxe Jormán Torres a Portugal, há cinco anos, foi um caso de amor. Veio com a namorada. Mas, como lembra, já nessa altura a situação era difícil. “O problema é que nós, os venezuelanos, encaramos essas situações como normais. Pensamos que não podem piorar mais do que o que estão. Mas pioraram. Caminhar na rua, falar ao telemóvel, coisas tão simples como estas não se podem fazer sem risco de se ser assaltado. É uma situação de guerra”.

Juan Cardenas

Este engenheiro informático de 49 anos abandonou a Venezuela há um ano. Não obstante, sente motivos para sorrir. “Só de ver os meus filhos em segurança, a irem para a escola sozinhos, sem problema, e de ver que o meu filho mais velho, que ainda não fez 14 anos, é o melhor da turma e se integrou perfeitamente na escola portuguesa, é uma pequena vitória, no meio do caos em que se tornou a nossa vida”. Juan decidiu vir para Portugal porque ficou sem trabalho, porque se cansou da “falta de segurança, das filas enormes para comprar bens essenciais. Em Portugal teve a ajuda de uma portuguesa que viveu muitos anos na Venezuela. “A mudança não foi difícil, difícil era viver na Venezuela”.

Marco Aurélio

Quando fala da Venezuela, emociona-se. O advogado Marco Aurélio, de 41 anos, e a mulher, desenhadora gráfica, vieram para Portugal há dois anos. “A nossa empresa de publicidade deixou de ter encomendas, era cada vez mais difícil comprar alimentos e, quando os havia, os preços eram bastante inflacionados. Vimos o nosso futuro hipotecado”. Os primeiros tempos em Portugal, admite, foram difíceis. “Eu cheguei primeiro para preparar as coisas para a vinda da minha mulher. Não é fácil começar do zero. Não ter uma cama para dormir. Consegui alugar uma casa em Sintra, mas não tinha móveis. Cá nos fomos arranjando. Troquei a advocacia pelo treino de cães e a minha mulher dá aulas de ioga. Vivemos disso”

Fonte: Jornal de Notícias

OEA espera posição do Brasil sobre a Venezuela

 

Em meio à expectativa de que a OEA (Organização dos Estados Americanos) considere a aplicação de sua cláusula democrática à Venezuela, o que poderia levar à suspensão do país, cresce a cobrança para que o Brasil assuma uma posição mais clara de pressão contra Caracas.

Diante da grave crise da Venezuela, é considerada iminente por vários diplomatas e analistas a convocação de uma sessão extraordinária do Conselho Permanente da OEA inspirada na Carta Democrática Inter-Americana, que prevê ações quando a democracia está em risco.

Brendan Smialowski – 20.mai.2016/AFP
Luis Florido, a member of the opposition in the Venezuelan National Assembly, stands with Luis Almagro, Secretary General of the Organisation of American States, at the Organisation of American States on May 20, 2016 in Washington, DC. / AFP PHOTO / Brendan Smialowski
Luis Almagro (dir.), chefe da OEA, recebe o deputado opositor venezuelano Luis Florido

O governo da Venezuela afirma que a aplicação da Carta seria uma violação de sua soberania.

Segundo a Folha apurou, isso poderá ocorrer já na quarta (25), por iniciativa do secretário-geral da OEA, o uruguaio Luis Almagro.

Nos últimos dias, Almagro subiu o tom das críticas ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e divulgou amplamente os apelos que recebeu para invocar a Carta Democrática.

O caminho até uma eventual aplicação da cláusula democrática, contudo, pode ser prolongado pela dificuldade de alcançar apoio na entidade. As articulações estão em andamento entre os países e devem se intensificar nesta próxima semana, quando haverá reuniões para tentar consolidar uma postura comum entre os que estão alinhados.

Uma das grandes dúvidas é como o Brasil se posicionará sobre a possível invocação da Carta Democrática, agora que a diplomacia do país sofreu uma guinada com o novo chanceler, José Serra.

PAÍS-CHAVE

Para José Miguel Vivanco, diretor-executivo da ONG Human Rights Watch, que monitora direitos humanos, “a chave” para que o processo avance está com o Brasil.

A organização enviou na última semana uma carta a Almagro pedindo a aplicação da Carta no caso da Venezuela, alertando para a “precária situação dos direitos humanos” no país.

“Dependemos do Serra. Até agora havia um vazio de poder na região porque o Brasil estava consumido em sua própria crise”, disse Vivanco. “Agora o país tem um chanceler com peso e trajetória, alguém que mostrou em sua vida pública seu compromisso com a democracia e que tem personalidade forte.”

Um dos obstáculos para que o Brasil assuma uma posição de liderança na invocação da Carta Democrática é a defesa pública que Almagro fez de Dilma e seu questionamento sobre as bases jurídicas do processo de impeachment.

Há preocupação com a possibilidade de a aplicação da cláusula democrática criar um precedente para que ela também seja usada contra o Brasil, segundo uma fonte.

Desde que a Carta foi aprovada, em 2001, Honduras foi o único país suspenso da organização, depois que o presidente Manuel Zelaya foi alvo de destituição sumária.

Em 1962, durante a Guerra Fria, Cuba foi suspensa da entidade sob a acusação de receber ajuda militar da extinta União Soviética. O veto a Cuba foi cancelado em 2009

Em 19/5/16, centenas de pessoas espremiam-se na porta de um supermercado em Ocumare, cidade pobre a uma hora de carro ao sul de Caracas.

Policiais armados permitiam entrada a conta gotas, enfurecendo a multidão aglomerada desde a madrugada para comprar farinha de milho a preço regulado. Quando a situação parecia fugir do controle, um policial numa moto acelerou para cima das pessoas, que correram.

“Temos fome, seus desgraçados”, gritou uma senhora. “Vamos invadir a loja”, esbravejou um rapaz.

George Castellanos – 25.abr.2016/AFP
A woman works at a bakery during a power cut in the border state of San Cristobal, 600 km west of Caracas on April 25, 2016. Recession-hit Venezuela will turn off the electricity supply in its 10 most populous states for four hours a day for 40 days to deal with a severe power shortage, the government said Thursday. / AFP PHOTO / GEORGE CASTELLANOS
Venezuelana trabalha em padaria durante corte de luz em San cristóbal, no oeste do país

A 500 metros dali, formava-se outra fila em uma agência bancária que acabava de abrir, após ficar fechada toda a manhã devido ao racionamento elétrico. A maioria na fila era de aposentados querendo receber o benefício depositado naquele dia.

A cada vez que uma funcionária surgia, as pessoas gritavam e se empurravam em direção à porta. Num dos momentos mais tensos, dois senhores trocaram socos.

“Ninguém aguenta mais. Falta comida, falta luz, falta água, falta segurança”, disse a manicure Amelia Rivas, 42, ecoando desespero diante da deterioração da crise econômica e social nas últimas semanas.

Assolada por quase três anos de desabastecimento e inflação, a população extravasa sua impaciência de maneira cada vez mais violenta, o que reaviva temores de um novo Caracazo, a revolta que deixou 300 mortos em 1989.

Saques proliferam pelo país, inclusive em Caracas. A cada dia redes sociais trazem novas imagens de pessoas invadindo mercados e depósitos ou tomando de assalto caminhões de alimentos.

Nesta semana, um vídeo mostrou pessoas atacando pescadores que se preparavam para descarregar sardinhas na ilha de Margarita.

GRITARIA

Basta observar durante alguns minutos a gritaria nas filas em mercados e farmácias para se ter a impressão de conflito iminente.

Pequenos protestos contra a crise também se disseminam, muitas vezes com ruas fechadas por pneus queimando. Nas últimas semanas, a população de Ocumare se manifestou várias vezes contra os cortes de água.

Em resposta, o governo espalhou controles militares e veículos blindados em várias cidades. Regiões de Caracas pareciam uma cidade sitiada.

Em Maio de 2016, o Presidente Maduro decretou estado de exceção, o que lhe garante por 60 dias poderes especiais.

Meridith Kohut/The New York Times
Sem leitos disponíveis, pacientes se acumulam em corredores de hospital público em Merida, Venezuela
Sem leitos disponíveis, pacientes se acumulam em corredores de hospital público em Merida

“As pessoas abriram os olhos, e o governo está com medo”, diz a dona de casa Marliober Uzcategui, 28, enquanto amamenta seu bebê de dois meses numa fila de supermercado sob o sol.

Um policial em Ocumare disse à Folha que o desespero das pessoas é “cada vez maior” e admitiu ter medo, “como todo mundo”.

Mas ele deixou claro que atiraria em manifestantes caso recebesse a ordem.

Maduro atribui a crise econômica a um suposto complô antissocialista e à queda da arrecadação petroleira com o mergulho do preço do produto desde 2014. E afirma que os cortes de luz e água são inevitáveis diante da seca que esvaziou as represas do país.

Para a oposição e a maioria dos economistas, a crise é anterior à queda do petróleo e resulta da má gestão e das políticas chavistas como ataques ao setor produtivo e controles de preço e de câmbio.

A oposição, que instalou ampla maioria no Parlamento após vencer a eleição parlamentar de dezembro, tenta ativar um referendo revogatório contra Maduro até o fim do ano. O governo aparenta estar protelando o processo até 2017, data a partir da qual uma eventual destituição de Maduro não geraria nova eleição, mas um governo comandado pelo vice-presidente.

Para o líder opositor Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda (onde estão Caracas e Ocumare), quanto mais o governo se opuser ao referendo, maior a chance de uma revolta popular. “A Venezuela é uma bomba que pode explodir a qualquer momento.”

Após emergência econômica, Maduro discursa por conciliação

Decreto válido por 60 dias concentra recursos públicos e expropria bens

No mesmo dia em que o presidente Nicolás Maduro prestou contas anuais diante de um Legislativo agora comandado pela oposição, o governo venezuelano decretou nesta sexta-feira estado de emergência econômica no país por 60 dias para atender a grave crise do país, publicou o Diário Oficial pouco antes da esperada prestação de contas pelo líder diante de um Parlamento de maioria opositora. A medida, aprovada pelo chefe de governo, pretende “proteger os direitos sociais da educação, saúde, fazenda e esportes de todos os venezuelanos”. Economistas temem que a medida sirva como uma lei extraordinária para expropriar bens de empresas.

A economia caiu 4,5% entre janeiro e setembro de 2015, e a inflação acumulada do ano ficou oficialmente em 141,5%, disse o Banco Central. Analistas criticaram os números apresentados, dizendo que eles são muito mais brandos que a realidade.

Números duvidosos

“Está declarado o estado de emergência em todo o território nacional em conformidade com a Constituição da República Bolivariana da Venezuela e seu ordenamento jurídico, por um período de 60 dias”, informou o diário, sem divulgar detalhes.

Logo após o decreto, o recém-nomeado ministro da Economia, Luis Salas, justificou que o estado de exceção foi adotado diante da crise econômica no país e também por causa de ações de sabotagem contra a revolução bolivariana. Segundo ele, o Executivo passa a poder tomar uma série de medidas para garantir o abastecimento de bens básicos à população, como importar bens com mais facilidade e requisitar infraestrutura privada ou pública, incluindo meios de transporte.

Além disso, os Ministérios poderão coordenar junto com o Banco Central para restringir o fluxo cambial.

— Queremos transmitir tranquilidade ao povo venezuelano. São medidas para protegê-lo, não prejudicá-lo — disse Salas.

De acordo com a Constituição venezuelana, é possível decretar uma emergência econômica quando a vida do país estiver sendo gravemente afetada e o Estado não dispõe de meios suficiente para resolver a situação.

Com inflação altíssima — alguns órgãos apontam que supera 200%, mas o Banco Central falou em 141,5% em 2015 —, desabastecimento cada vez maior, a situação econômica na Venezuela é critica e Maduro já havia anunciado que planejava fazer o decreto. O país também tem sido muito atingida pela queda nos preços do petróleo, fonte de 96% das divisas do país.

O economista Luis Vicente León disse que a inflação de 108% entre janeiro e setembro é “uma piada”, porque não condizeria com os aumentos reais de preços. Já o líder opositor Henrique Capriles, governador do estado de Miranda, afirmou que “dentro do próprio BC já se sabia das cifras falsas”.

Teme-se, no entanto, que o decreto sirva como desculpa legal para proceder com as expropriações de empresas tidas como inimigas do governo, como o conglomerado do setor alimentício Polar.

— O governo poderá fazer um conjunto de ações que antes deveriam passar pela Assembleia Nacional. Mas o governo desocnhece a constitucionalidade do Legislativo. Isto dá mais poderes que uma Lei Habilitante — criticou o economista Luis Oliveros. — Isto dá um sinal verde às expropriações.

Nicolas Maduro se reúne com ministros no Palácio de Miraflores – HANDOUT / REUTERS

Resta agora saber qual a postura da oposição, com maioria na Assembleia. Se a Casa não apoiar a medida, o governo ainda pode recorrer ao Tribunal Supremo de Justiça (TSJ). Antes do anúncio, o presidente da Casa, Henry Ramos Allup, já havia desacreditado a medida ao afirmar que “a crise não é superável com este governo”. A Assembleia debaterá o decreto no fim de semana.

— É um modelo fracassado — disse o legislador, que coloca entre as prioridades da agenda opositora uma anistia para presos políticos e reformas econômicas.

“Só é possível decretar estado de emergência econômica quando ocorrem circunstâncias extraordinárias. Não é o caso venezuelano. A crise ocorre por motivos normais, derivados de um modelo que não funciona”, criticou via Twitter o coordenador político do partido opositor Vontade Popular, Carlos Vecchio.

Prestação de contas sob tensão

Horas após publicar no Diário Oficial um decreto em que anuncia emergência econômica por 60 dias na Venezuela, o presidente foi prestar contas à Assembleia Nacional, agora pela primeira vez sob o comando majoritário da oposição. O discurso foi antecipado com muita tensão, já que Maduro incitou medidas que tentam desqualificar o poder do Legislativo, enquanto a bancada opositora deixou claro que busca uma via legal para “mudar o governo”.

No discurso, Maduro apresentou relatórios de sua gestão em 2015. Ele teve o anúncio de fala recebido com empolgação pela base aliada. Militantes chavistas ocuparam o entorno da Assembleia para demonstrar apoio ao presidente, gritando palavras de ordem.

— Convidamos todo o povo para acompanhar o presidente nesta mensagem que marca a nova etapa da Revolução Bolivariana, onde nos convoca à produção, à eficiência, ao trabajo, e principalmente a todos nós, venezuelanos que amamos este país — declarou o líder da bancada chavista, Héctor Rodríguez.

Patrulha e prateleiras vazias: em San Antonio de Táchira, filas para compras de produtos supervalorizados – George CASTELLANOS / AFP

Esperou-se, após o anúncio de emergência econômica, que Maduro enfocasse principalmente na questão da produção e da recuperação financeira do país.

O presidente do Legislativo, Henry Ramos Allup, recebeu Maduro. Rival contundente do chavismo, ele entrou em conflito com o Executivo após o Partido Socialista Unido (PSUV), do presidente, entrar com uma ação de impugnação contra três deputados eleitos, e conseguir que o Tribunal Supremo de Justiça logo o acatasse. Após ele declarar desacato, a corte anulou todas as decisões que vinham e continuariam sendo tomadas pelo Legislativo.

— Vamos recebê-lo com dignidade e respeito — disse Ramos Allup, fugindo de polêmica.

Em 2015, Maduro fez um discurso com menções à onda de violência ocorrida durante os protestos do início de 2014, que resultaram em 43 mortes. Ele também fez pressão contra o que classifica como “guerra econômica”, onde afirma que empresas e empresários estariam retendo produtos e aumentando exponencialmente preços por vontade própria. A oposição o condenou, dizendo que o presidente usou de artifícios de “terror”.

‘Catástrofe’

No discurso, no entanto, Maduro disse buscar a paz, dentro de “um ano que é expressão de uma situação histórica”. Uma das propostas do presidente foi o estabelecimento de uma comissão nacional de “justiça, verdade e paz paritária”, que estabeleça as bases legais e jurídicas para um processo de paz.

— Após 17 anos de iniciada uma revolução pacífica, constitucional, democrática, hoje chegamos a um Parlamento conquistado por uma oposição. Depois de haver suportado durante quase duas décadas acusações de querer instalar um regime tirano na Venezuela, até o dia de hoje nos empenhamos em construir uma democracia política que tenha as mais amplas liberdades de participação. Hoje, a oposição, que boa parte nos acusou de tirania, está aqui presente graças a nossa Constituição. E nós os reconhecemos.

Maduro chamou ainda Ramos Allup de “chefe e líder político da oposição”.

— Eu o conheci aqui, em dezembro de 1998, quando fomos eleitos como deputados, aqui mesmo.Entre 2000 e 2005, voltamos a nos encontrar na nova Assembleia unicameral. Conversamos com nossa diferenças, cada um representando as ideias que escolheu.

Maduro e Ramos Allup se cumprimentaram: cena rara – CARLOS GARCIA RAWLINS / REUTERS

Na economia, Maduro foi mais afiado. Após admitir que a crise na economia é uma “catástrofe”, voltou a fazer menção à guerra de preços, afirmando que “desde Miami e a Colômbia são impostos modelos para perturbar e desestabilizar”. Ele criticou ainda afirmações de opositores que condenavam expropriações de bens de empresas com base em programas de alojamento de famílias.

— Vocês não construíram uma casa sequer. Não vamos permitir privatizá-las. Alguns pensam que, com a vitória eleitoral da oposição, será dado o passo ao neoliberalismo e o capitalismo selvagem. Não há outro modelo vigente no país que não o socialismo.

Comissão de justiça

O presidente fez uma reflexão pela conciliação, criticando a retirada de símbolos chavistas do Legislativo pela oposição pouco após a posse.

— Nesses dias de intensos debates não poderiam ser de outra maneira. Uma das coisas que me atrevo a colocar na mesa: o que queremos em 2016? A paz do país ou escalar uma violência que ninguém sabe onde pode chegar? O que queremos em 2016? Que o país gere riquezas e emprego para ser distribuidas, o queremos que a economia se afunde e entre em uma etapa catastrófica? Posso dizer muito claramente em nome do nosso bloco, que teremos que fixar grandes metas de paz e convivência politica. Acredito que cada um deve estabelecer pautas de paz.

Ao propor uma comissão de justiça, Maduro pediu que um eventual órgão criado “não transforme os culpados em vítimas”, referindo-se aos presos políticos. Ele disse que pretende investigar os confrontos nas manifestações de 2014, que deixaram 43 mortos.

— Que saibamos a verdade, doa a quem doer, sem importar seu cargo. Deputado Ramos Allup, esse é um tema onde seguramente haverá muitos elementos com os quais devemos conversar e através do Bloco da Pátria (minoria chavista), estamos prontos e dispostos a conversar este e qualquer outro tema.

Após Maduro se estender por mais de duas horas, ele cedeu a palavra a Ramos Allup.

— Esta sessão devia ser ordinária, mas custou muito para sair. Esta é a primeira vez em 17 anos que o governo nos convida para o diálogo — reconheceu.

Fonte: O Globo

Em busca de um futuro melhor, venezuelanos largam o país

Entre 800 mil e 1,2 milhão já emigraram nos últimos dez anos

Êxodo em massa. Venezuelanos buscam passagens de última hora para deixar o país: despedidas no aeroporto internacional de Caracas se repetem todos os dias – OMAR VELIZ / EL NACIONAL/30-12-2012

 

Não é fácil chamar-se Kristina e morar na Argentina. Mas isso não preocupa nem um pouco a venezuelana Kristina Barreto, que há seis meses chegou ao país governado há quase oito anos pela presidente Cristina Kirchner com seu namorado, Luis Castro, em busca de um futuro que, segundo ambos, a Venezuela governada por Nicolás Maduro não oferece aos jovens profissionais. O casal é apenas um caso, entre milhares, que confirma a cada vez mais expressiva migração de venezuelanos entre 25 e 50 anos, espalhados pelo continente e também pela Europa. Num país que não divulga sua taxa de inflação, não há estatísticas oficiais sobre a debandada de jovens, mas pesquisadores locais estimam que nos últimos dez anos o número oscilou entre 800 mil e 1,2 milhão. Deste total, calcula-se que 90% em idade profissional.

Kristina, de 28 anos, formada em Artes Visuais, já se acostumou com as brincadeiras diárias dos argentinos, que se surpreendem ao saber seu nome. Trata-se de uma incomodidade ínfima, ao lado da realidade que teve de viver em seu país, antes de partir, primeiro para a Espanha e, seis meses depois, para a Argentina. Outros nove amigos da venezuelana se instalaram em Buenos Aires este ano. Todos chegaram procurando qualidade de vida e salários dignos.

 

Além da grave crise econômica, os jovens venezuelanos abandonam o país pelos altos índices de insegurança, principalmente em grandes cidades.

— O irmão de meu namorado já estava aqui e isso nos ajudou, além das facilidades para obter a residência, graças aos acordos do Mercosul.

Após ter trabalhado como vendedora, a jovem conseguiu emprego numa produtora de TV, onde também foi contratado seu namorado, de 27 anos. Ambos alugam um apartamento no bairro de Belgrano e se sentem “muito à vontade”.

— Na Venezuela, os jovens não têm a menor possibilidade de sair de casa, a adolescência se prolongou até os 40 anos ou mais — lamentou Luis.

MAIS DE 170 MIL VIVEM NOS EUA

O número de venezuelanos que desembarcaram em Buenos Aires foi grande em 2015. Em janeiro, a página “Venezuelanos na Argentina”, criada por Hugo Marcelo no Facebook, tinha 1,3 mil membros. Hoje, tem quatro mil. Estima-se que atualmente cerca de 10 mil venezuelanos vivam no país.

— Chegamos há três anos. Pensamos em nos mudar para os EUA, mas a questão do idioma era complicada — contou o advogado Paul Small, de 45 anos, que abriu uma sorveteria no bairro de Palermo. — Eu e minha mulher tínhamos casa, dois carros e vendemos quase tudo. A situação econômica ficou muito difícil e a insegurança está cada vez pior. Depois das 18h ninguém sai na rua.

Esses são, de fato, os dois motivos que estão expulsando milhares de venezuelanos do país, segundo pesquisa realizada pela professora de Demografia da Universidade Católica Andrés Bello, Anitza Freitez. De acordo com ela, a migração mais forte começou há 15 anos, mas se acentuou muito nos últimos dois anos.

— Os destinos são muitos, principalmente Estados Unidos, Canadá, Espanha, Portugal, Itália e, na região, México, Panamá, Colômbia, Equador e Argentina — apontou a professora, que calculou (com base em dados do Banco Mundial e outros organismos) a migração de cerca de 800 mil venezuelanos desde que a revolução bolivariana chegou ao poder, em 1999.

O fenômeno que Maduro insiste em negar também foi estudado pelo professor Iván De la Vega, da Universidade Simón Bolívar. Para ele, nos últimos dez anos, pelo menos 1,2 milhão de venezuelanos deixou o país. Em 1980, cerca de 33 mil deles viviam nos EUA. Hoje, o número chega a 172 mil. O que mais preocupa os especialistas locais é que, segundo pesquisas, 96% dos jovens profissionais que deixam o país não têm planos de retornar.

A jovem advogada M.D. trabalhava numa grande empresa, com um bom salário. Em termos econômicos, sua vida ia bem. Mas, ela não suportou a insegurança e no ano passado fez as malas junto com o marido e rumou para o México.

— A prima de uma amiga foi baleada numa praia da Ilha Margarita e quase morreu por falta de atendimento médico. Naquele dia, decidi que tinha chegado a hora de partir. Sentimos culpa pelos que ficaram, mas era sair ou esperar que a bala terminasse em nossas cabeças.

Para o economista Nicolás Cardenas, de 27 anos, morar neste momento na Venezuela é viver com uma sensação de frustração constante. Depois de ter criado uma empresa de descontos on-line que chegou a ter 57 funcionários, Nicolás passou a enfrentar uma série de obstáculos burocráticos que obrigaram sua companhia a reduzir o número para apenas 16. As dificuldades de crescer em seu país o levaram a optar por fazer um mestrado nos EUA.

— Depois do roubo na eleição presidencial de 2013, fiquei muito decepcionado com a oposição, perdi as esperanças — admitiu Nicolás, que não tem planos de voltar à Venezuela.

PROFESSORES FOGEM PARA PAÍSES VIZINHOS

Nos últimos três anos, estima-se que a Universidade Central da Venezuela (UCV) tenha perdido 700 professores que, em muitos casos, optaram por emigrar a outros países em busca de melhores salários. No caso da Universidade Simón Bolívar (USB), o número chegaria a cerca de 500, segundo informações publicadas recentemente pelo jornal “El Carabobeño”, que fez uma ampla reportagem sobre a fuga de cérebros que assola a Venezuela. O motivo é simples: atualmente, o salário médio de um professor venezuelano é de apenas US$ 77.

— Os venezuelanos foram bem formados e estão recebendo boas ofertas no exterior — disse ao jornal o vice-reitor administrativo da Universidade de Carabobo (UC), José Angel Ferreira.

No ano passado, 101 professores da UCV abandonaram o país para tentar sorte no exterior. Nesta universidade, o salário de um professor titular com dedicação exclusiva, a posição mais alta na estrutura acadêmica, fica em torno de 50 mil bolívares, abaixo da cesta básica familiar, que em julho passado era de 54.205 bolívares.

O venezuelano Luis Gustavo Celis, que há 25 anos vive na Colômbia, passou a receber vários pedidos de emprego de compatriotas nos últimos tempos:

— Muitas pessoas que fizeram uma pós-graduação abandonaram a Venezuela para buscar novos horizontes. Se existisse a possibilidade de repatriá-los seria necessário oferecer um salário justo, para que possam se sustentar — disse ao “El Carabobeño”.

A preocupação entre os que ainda permanecem no país é grande. Alguns países, como o Equador, têm programas específicos para pesquisadores estrangeiros com doutorado, o que têm atraído os venezuelanos. O governo do presidente Rafael Correa oferece passagens aéreas, US$ 500 para moradia e um salário que oscila entre US$ 4 e US$ 6 mil,

— Estão ficando com nossos educadores. A redução também afetou o setor de pesquisas, já que muitos se sentiram atraídos pela oferta do Equador — disse Karelys Fernández, presidente da Associação de Professores do estado Zulia

Fonte: O Globo

A arte de passar horas em filas na Venezuela

Reuters
Venezuelanos entram em filas sem saber se vão encontrar produtos para comprar

A Venezuela enfrenta a falta de muitos produtos básicos. O governo culpa os Estados Unidos e a Europa, afirmando que eles tentam destruir a economia do país.

Outros afirmam que o governo é o causador dos problemas. O correspondente da BBC Ian Pannell tenta desvendar como é a nova e surreal arte de ficar nas filas da capital, Caracas.

O mínimo que se espera de um correspondente em outro país é que ele ou ela consiga explicar a realidade de onde está. Na Venezuela isto pode ser mais difícil do que o normal.

A República Bolivariana da Venezuela tem um governo socialista que, em linhas gerais, usou – ou fez mau uso – das grandes riquezas petrolíferas para beneficiar algumas pessoas, durante algum tempo, e se manter no poder.

Mas, a combinação de um gerenciamento econômico lamentável e uma grande queda nos preços do petróleo deixou o governo com um problema sério. E a população da Venezuela acabou em filas, em todo o país, todos os dias, durante horas.

As pessoas até têm licenças de algumas horas no trabalho para poder ficar nas filas. Elas acordam muito cedo para enfrentar a maratona, enfrentam filas no horário de almoço, enviam mensagens umas para as outras com informações sobre as filas.

Então, não surpreende que elas tenham ficado muito boas na prática da fila.

Sendo inglês, gosto de uma boa fila – bem formada, em ordem, sem dúvidas sobre quem está na sua frente e quem está atrás.

Leia mais: FMI: Brasil e Venezuela devem puxar desaceleração de PIB da América Latina

AFP
Algumas lojas e supermercados receberam orientações para tentar ‘esconder’ filas

Há muitos países que não respeitam estas boas e antigas tradições e preferem o sistema do “primeiro que passar”, o que envolve empurrões e grunhidos.

Mas, em geral, a Venezuela é mais parecida com a Grã-Bretanha no que diz respeito a filas. A diferença é que, na Venezuela, eles não estão esperando por um ônibus: a espera é por leite, café, açúcar, farinha de milho, óleo de cozinha e até papel higiênico.

Todos estes produtos estão em falta.

Preços controlados

O governo regula o preço destas mercadorias. Não há subsídios para elas, o governo apenas diz aos produtores o que eles podem cobrar.

Isto pode fazer algum sentido em uma economia dinâmica, mas com a inflação ultrapassando os 60% e o valor da moeda local caindo, parece que os produtores não estão lucrando mas também operando com prejuízo.

Por outro lado, empresas que exportam alimentos para o país desistiram de esperar os pagamentos do governo e agora estão vendendo seus produtos em outro lugar.

AFP
Produtores venezuelanos operam com prejuízo, exportadores decidiram vender seus produtos em outros países

Mas o governo e seus partidários contam outra história. Eles culpam os Estados Unidos, Europa, grandes companhias e contrabandistas por uma guerra econômica contra o país, de tentar prejudicar o presidente Nicolás Maduro e o legado de seu antecessor, Hugo Chávez, de tentar colocar o povo contra o governo.

O governo pediu para os comerciantes esconderem as filas, colocar as pessoas em porões ou estacionamentos subterrâneos, aparentemente para proteger os clientes do sol. Jornalistas são proibidos de filmar prateleiras vazias.

Os consumidores também receberam instruções: você pode comprar produtos em falta apenas em alguns dias da semana, dependendo do número final de seu documento de identidade.

Então, por exemplo, se o número de sua carteira de identidade acaba em zero ou um, então você pode ir para a fila na segunda-feira. Mas, isto não significa necessariamente que o leite ou o sabão estarão disponíveis na segunda-feira para você comprar.

AFP

 

O lugar na fila poderá ser marcado por um número escrito na palma da mão
 

Outra anomalia é que, frequentemente, as prateleiras não estão vazias. Apenas as mercadorias com preços regulados estão em falta. Então, se você quer outra coisa, e tem dinheiro para estes produtos com preços bem mais altos, então é possível ultrapassar a fila e entrar diretamente na loja.

Frequentemente as pessoas vão para a fila sem saber o que está à venda. Elas entram na fila e então perguntam para pessoa logo em frente o que está disponível.

É muito provável que a pessoa logo em frente tenha feito exatamente a mesma coisa.

Desistências

Vimos uma fila que avançava apenas porque as pessoas na frente desistiam da espera e iam procurar produtos em outros lugares. Mas, para quem estava mais atrás, não era possível ver isso, elas apenas tinham a ilusão do movimento e ficavam um pouco mais.

Nesta ocasião não havia nada para esperar. Havia um boato de que a loja poderia receber algo, ninguém sabia o quê, mas no final não havia produto nenhum.

E assim a vida continua. É um símbolo surreal de um sistema que não funciona e não faz sentido.

AFP

 

Alguns consumidores tiveram suas compras roubadas no caminho de volta para casa
 

A frustração aumenta e, em algumas situações, tudo acaba em tumulto. Alguns consumidores até tiveram as compras roubadas enquanto iam para casa.

Se os consumidores continuarem acreditando nos motivos do governo, de que esta crise é causada pelos inimigos da Venezuela, então talvez o governo consiga contornar a insatisfação cada vez maior.

Mas, muitos venezuelanos não querem mais comprar esta ideia.

Fonte: BBC