Os salários no Brasil cresceram no ano passado mais do que o
dobro da média mundial, de acordo com um estudo da Organização Internacional do
Trabalho (OIT) publicado nesta sexta-feira.

Os salários dos brasileiros tiveram um aumento médio real (descontada a
inflação) de 2,7% em 2011, enquanto globalmente o crescimento foi de apenas
1,2%, segundo a organização.

Se a China for retirada dos cálculos, os salários médios reais cresceram
apenas 0,2% mundialmente, afirma o relatório. A organização ressalta que os
dados oficiais sobre os salários na China em 2011 ainda não estão disponíveis e
que os cálculos foram feitos com base na taxa de crescimento médio salarial
anual na China, que tem sido de 12% nos últimos anos.

Em 2010, os salários reais no Brasil – que registraram aumento de 3,8% – já
haviam crescido bem mais do que a média mundial, de 2,1%. Segundo a OIT, os
salários globais têm aumentado nos últimos quatro anos (no período de 2008 a
2011) a um ritmo bem mais fraco do registrado antes da crise iniciada em
2008.

Em 2007, o crescimento mundial dos salários havia sido de 3% (no Brasil ele
foi de 3,2%).

Impacto desigual

”Esse relatório mostra claramente que a crise teve em inúmeros países um
impacto importante sobre os salários”, afirma o diretor-geral da OIT, Guy
Ryder. ”No entanto, esse impacto não foi uniforme”, acrescenta.

O estudo revela que existem fortes disparidades regionais: enquanto nas
economias desenvolvidas os salários mensais sofreram contração em 2008 e também
2011 (diminuição de 0,5%) em razão da diminuição de horas extras e do aumento de
empregos precários, com jornadas de meio período, na América Latina e sobretudo
na Ásia houve crescimento contínuo nesse período pós-crise.

O relatório Salários Mundiais 2012/2013 da OIT ressalta que os dados
positivos dos salários na América Latina ”são fortemente influenciadas por
países como o Brasil”.

A OIT analisou o desempenho da evolução dos salários na América Latina no
período de 2006 a 2011 e constatou que vários países da região, sobretudo na
América Central e no Caribe, tiveram uma degradação em 2008 e 2010.

”Em 2008, os salários reais sofreram contração em dez dos 14 países da
América Latina analisados. Em 2010, isso ocorreu em seis países”, diz o estudo.
No Brasil, o aumento foi de 3,4% em 2008.

O relatório também revela que em pouco mais de uma década, entre 2000 e 2011,
os salários médios reais aumentaram 22,8% em nível mundial.

Desempenho chinês

Na Ásia, os salários quase dobraram no mesmo período. A melhor performance é
a da China, onde eles triplicaram nesse prazo, com taxa de crescimento anual
média de 12%, ”o que suscita questões sobre o eventual fim da mão de obra
barata na China”, diz a OIT.

Na América Latina e no Caribe, o crescimento dos salários na última década
foi de 15,1%, abaixo da média mundial. Mas nas economias desenvolvidas, o
aumento no período foi de apenas 5%, diz a OIT.

No leste europeu e na Ásia central, os salários também quase triplicaram na
última década, mas a OIT ressalta que o aumento decorre essencialmente da
transformação desses países em economias de mercado.

Apesar do crescimento dos salários reais nas economias emergentes, mesmo
durante a crise, existem diferenças consideráveis nos níveis de salários de um
país para outro, diz o estudo.

Um operário industrial brasileiro ganha, por hora de trabalho, US$ 5,40, a
metade do que é pago por hora trabalhada nesse setor na Grécia e menos do que na
Argentina (US$ 8,68), República Checa ou Eslováquia.

Nos Estados Unidos, um operário industrial ganha US$ 23,32 por hora
trabalhada e, na Alemanha, U$ 25,80.

A OIT afirma ainda que a produtividade dos trabalhadores aumentou (devido às
inovações tecnológicas) duas vezes mais do que os salários nas economias ricas
nas últimas duas décadas.

Nos Estados Unidos, a produtividade aumentou 85% nesse período, enquanto os
salários subiram apenas 35%.

Executivos brasileiros em cargos seniores de gerência já
ganham, em média, 5% a mais do que seus pares americanos, em um cenário de
expansão de salários em mercados emergentes, aponta estudo divulgado nesta
quinta-feira.

Segundo o levantamento da consultoria Hay Group, entre 2001 e 2011, salários
em cargos nesse nível (com bônus incluídos) aumentaram 2,8 vezes no Brasil, 3,5
vezes na China e três vezes na Indonésia.

Em comparação, no mesmo período esses salários cresceram 1,4 nos Estados
Unidos, 1,7 na Grã-Bretanha e duplicaram na Europa Ocidental.

“Um grande fator nessa equação é o fluxo de investimentos de corporações
globais em mercados emergentes, tentando se aproveitar de custos menores de
produção e um mercado de consumo crescente”, aponta o comunicado do Hay
Group.

“Como resultado, cresce (o esforço) para atrair e reter talentos-chave em
mercados emergentes – especialmente considerando que (esses talentos) são
limitados.”

Essa “limitação” se refere à falta de mão de obra especializada suficiente
para suprir a demanda por executivos seniores em países emergentes. Outro fator
importante para o alto nível salarial é o aumento do custo de vida em cidades
que têm atraído investimentos, como São Paulo e Rio.

No caso do Brasil, existe, ainda, a dificuldade burocrática de atrair
executivos estrangeiros para trabalhar aqui.

Salários crescentes

No Brasil, diz o Hay Group, os salários em alto nível gerencial eram, em
média, de US$ 57,8 mil/ano em 2001, o que equivalia a cerca de metade do valor
pago a executivos do mesmo nível nos Estados Unidos (US$ 112 mil/ano).

Hoje, porém, estão em média 5% maiores no Brasil (US$ 162,6 mil/ano, em
média, em comparação com US$ 154,8 mil/ano nos Estados Unidos).

Outras consultorias de RH consultadas pela BBC Brasil observam tendências
semelhantes.

“Percebemos isso claramente de dois anos para cá”, afirma à BBC Brasil
Marcelo de Lucca, da consultoria Michael Page. “Em alguns casos, executivos aqui
no Brasil estão ganhando mais do que seus chefes no exterior.”

“É desproporcional, e é difícil lidar com isso dentro das empresas, mas, se
elas querem se posicionar no mercado, precisam desse executivo.”

Estudo avaliou pagamentos a executivos seniores de empresas
globais

Em alguns casos, diz De Lucca, algumas empresas preferiram adiar a
contratação ou enviar um estrangeiro para o cargo, “mas isso é exceção: em
geral, elas preferem ter um brasileiro à frente (das operações no Brasil).”

O brasileiro Caio M., 39 anos, ilustra essa demanda por executivos
brasileiros. Após dez anos trabalhando no exterior, na Europa e na Ásia, ele
deixará o posto de diretor-financeiro global de uma empresa europeia para ser, a
partir de janeiro, vice-presidente de relações com investidores de uma empresa
brasileira.

Ganhará cerca de 40% a mais – talvez esse percentual chegue a 50%, se
considerada a remuneração variável.

“Aqui (na Europa) há uma limitação de carreira, estou no máximo que poderia
ter atingido. No Brasil, a possibilidade de evolução de carreira é maior”, diz à
BBC Brasil. “Além disso, o networking no Brasil é mais simples. Aqui, as redes
já estão formadas há muito tempo, é mais difícil entrar.”

Multinacionais ‘surpresas’

De acordo com o levantamento do Hay Group, a China foi o país onde a
remuneração de executivos mais aumentou proporcionalmente nos últimos dez anos:
247%, passando de US$ 35,6 mil/ano a US$ 123 mil/ano.

Outros países emergentes como Turquia, Emirados Árabes e África do Sul também
têm pago salários mais altos a seus executivos.

Na África do Sul, os salários dos executivos equivaliam, em 2001, a 40% de
seus pares americanos. Em 2011, porém, já eram praticamente iguais.

Para Nick Boulter, diretor-geral global do Hay Group, multinacionais
estabelecidas já se acostumaram à alta salarial de seus executivos em países
emergentes, mas “novas empresas globais estão surpresas” com os custos.

“Mas acho que a tendência é que em breve esses salários em nível gerencial
sejam parecidos globalmente”, opina Boulter à BBC Brasil. “Acho que se criará um
padrão global, e a variação será o custo de vida em determinadas cidades.”

A pesquisa do Hay Group avaliou executivos nacionais (brasileiros no Brasil e
americanos nos Estados Unidos, por exemplo), com base em dados de 14 milhões de
empregados em 20 mil empresas globais.

Brasil é o país com a maior diferença salarial entre pessoas com diploma
universitário e as com grau de instrução inferior, segundo um estudo feito pela
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado
nesta terça-feira.

De acordo com o secretário-geral da organização, Angel Gurría, a diferença
salarial existente no Brasil entre pessoas com ensino superior e as demais
representa “o triplo da média dos países da OCDE”.

A vantagem salarial média nos 34 países da OCDE entre pessoas que cursaram o
terceiro grau e as com nível de instrução menor é de 67% no caso dos homens e de
59% entre as mulheres.

O estudo “Olhar sobre a Educação 2012” da OCDE analisou os dados de 42
países.

Nem todos forneceram, no entanto, números sobre todos os aspectos
pesquisados. Apenas 32 países forneceram dados no quesito que indica o Brasil
com a maior diferença salarial entre pessoas com curso universitário e as
demais.

Recessão

O relatório aponta também que a diferença de salários entre pessoas com
ensino superior e as demais aumentou durante a recessão econômica mundial.

A vantagem salarial de homens com ensino superior passou de 58% em 2008 para
67% em 2010 nos países da OCDE.

No caso das mulheres com ensino superior, a diferença salarial em relação às
demais passou de 54% para 59% entre 2008 e 2010 nos países da organização.

Apesar das condições incertas do mercado desde 2008, a maioria das pessoas
com diplomas de curso superior “continua obtendo benefícios financeiros muito
vantajosos”, diz o secretário-geral da OCDE.

Investimentos maiores

O Brasil também se destaca no estudo em relação a investimentos realizados na
educação.

O país registrou o quarto maior aumento em gastos na educação no período de
2000 a 2009 entre os 33 países do estudo que forneceram estatísticas a
respeito.

Os investimentos em educação no Brasil passaram de 10,5% do total dos gastos
públicos em 2000 para 16,8% em 2009, diz o estudo.

Na OCDE, a média de gastos com educação é de 13% do total da despesa
pública.

O Brasil, segundo o estudo, também é o país que mais ampliou os gastos por
aluno no ensino primário e secundário entre 29 países que forneceram dados a
respeito.

Os gastos no Brasil com alunos do ensino primário e secundário aumentaram
149% entre 2005 e 2009, diz o relatório, que ressalta, no entanto, que o nível
anterior era bem abaixo do observado em outros países.

Ensino superior

Apesar da ampliação considerável dos investimentos em educação, o Brasil está
entre os países que menos aumentou os gastos com alunos do ensino superior,
ocupando a 23ª posição em uma lista de 29 países.

Houve, na realidade, uma queda de 2%, já que o nível de gastos com alunos do
ensino superior não acompanhou o aumento de 67% no número de universitários
entre 2005 e 2009, diz o relatório.

Segundo o estudo, o Brasil investe 5,5% de seu PIB na educação, abaixo da
média de 6,23% do PIB nos países da OCDE.

“Como muitos países da OCDE, a maior parte dos investimentos brasileiros é
feita no ensino primário e secundário. No caso do Brasil, isso representa 4,23%
do PIB, mais do que a média de 4% da OCDE”, diz o estudo.

“Em contraste, o Brasil investe apenas 0,8% do PIB no ensino superior, o
quarto nível de investimentos mais baixo entre 36 países (que forneceram dados
sobre o assunto).”

O Brasil também só investe 0,04% do PIB em pesquisas e desenvolvimento, a
menor fatia do PIB entre 36 países do estudo, afirma a OCDE.

Fonte: OIT